de Valéria del Cueto
foto de Eduardo Medeiros e Mauricio Alves/FAS
Corumbá
será, até domingo, o porto continental da cultura sul americana. Aqui
está sendo realizado, desde o dia 21 de maio, o 2º. Festival América do
Sul, com os temas: integração, água, cultura e turismo. A cidade,
fundada há 226 anos, que em outros tempos foi ponto estratégico de
integração e influência platina, preservada em seu rico patrimônio
histórico (hoje tombado e em fase de restauração), é um cenário
perfeito para abrigar representantes de 10 dos 13 países sul
americanos, reunidos para refletirem e exporem suas afinidades e
diferenças, traçando um panorama da nossa diversidade.
São
mais de 300 atividades voltadas para um único objetivo: formar, no
coração do continente, uma imensa trama composta pela maioria das
vertentes culturais e artísticas de nossos povos. Uma verdadeira
“salada” cultural, exposta em painéis e seminários para a discussão de
questões relacionadas a cultura, meios de comunicação, turismo,
desenvolvimento e integração continental. A integração acontece através
de shows musicais, lançamentos literários, mostra de cinema e vídeo,
feiras de artesanato, exposições de artes plásticas, espetáculos de
dança, teatro, circo e manifestações folclóricas que pipocam por toda a
cidade em palcos, tendas, instituições, escolas e também nas ruas.
MARATONA
Tentar
acompanhar todos os eventos é impossível. A maratona começa às 8:30hs,
no Quebra Torto Literário, na Casa do Artesão onde, durante um café da
manhã pantaneiro, são lançados livros de autores nacionais, locais e de
outros países convidados. Por lá passaram, por exemplo, Ignácio de
Loyola Brandão e Karen Aciolly, com “Melhores Crônicas” e “Iluminando a
História”, respectivamente.
A
partir das 9 horas, é dada a partida para a “Arte nas Ruas”, com
apresentações de grupos de danças, teatro e espetáculos circenses
tomando conta de ruas e escolas de Corumbá e Ladário. Depois do almoço
começa a funcionar a Feira de Artesanato da América do Sul, na Praça
Generoso Ponce. O nome já diz tudo e lá tem de todos um pouco.
A
exposição de artes plásticas com a participação de 12 artistas
sul-mato-grossenses ocupa a Casa de Cultura Luiz de Albuquerque, um
prédio semelhante ao nosso Palácio da Instrução, planejado e construído
pelo mesmo arquiteto. Lá acontecem também os Painéis de Artes
Plásticas, com a realização de palestras como “Arte na América Latina”,
“O Que é Ser Contemporâneo” e “Mercado e Políticas Culturais”.
Nos
seminários e painéis, temas estratégicos direcionam os debates. Neles,
são discutidas questões como: “Geopolítica, soberania e meio ambiente”
e “Proteção da diversidade dos conteúdos culturais e expressões
artísticas”. Neste último, Margarita Miro, Diretora Geral de
Investigação e Apoio Cultural do Vice Ministério da Cultura Paraguaia,
em sua participação resumiu: “A cultura pode unir o que os políticos
dividem”, lembrando que “os limites políticos não são os mesmos dos
culturais e naturais”.
O
festival é a comprovação de que não há fronteiras para as manifestações
artísticas e populares que fazem da América do Sul um continente único,
que pode ser uno, respeitando e preservando suas diferenças.
SHOWS PARA TODOS OS GOSTOS
São
muitos e nos mais diferentes estilos. O espetáculo da noite de abertura
foi “Vagabundo” de Ney Matogrosso e Pedro Luis e a Parede. Alberto de
Luque, famoso cantor paraguaio e um dos homenageados do evento, entre
polcas e guaranias acompanhadas por harpa e bandoneón ouviu do
governador do Estado, Zeca do PT, uma declaração que resume sua
intenção e o apreço a iniciativa promovida pelo Governo Popular de Mato
Grosso do Sul: “O Pantanal é o meu berço, Mato Grosso do Sul meu
estado, o Brasil meu país. A América do Sul é minha causa e meu sonho”.
Não
é a toa que Corumbá é conhecida pela influência musical carioca. Desde
os tempos em que os militares da marinha tornaram o carnaval
corumbaense um dos melhores do estado. O show de Martinho da Vila,
aberto por Bibi do Cavaco, na véspera da sua apresentação, já tinha
todos os ingressos esgotados, lotando o pavilhão do Porto. Tudo isso,
misturado com os legítimos representantes da musicalidade sul
mato-grossense, como Jerry Spíndola e Guilherme Rondon, temperado pelo
tango tradicional de El Caburé.
CINEMA E VÍDEO
O
panorama audiovisual sul americano está presente, em Corumbá, através
de 58 filmes: 13 longas, 26 curta metragens e 19 vídeos de 8 países.
Entre os longas estrangeiros, “Memória del Saqueo” , de Fernando
Solanas (outro homenageado do Festival) o
colombiano “ Maria Cheia de Graça”, de Joshua Marston e a animação
“Piratas del Callao”, do Peru. Do Brasil destaque para “Quase Dois
Irmãos”, de Lúcia Murat e “Helena Meirelles, a Dama da Viola”, de
Francisco de Paula no encerramento do festival. A incógnita é se a
violeira virá ou não de Campo Grande para receber pessoalmente os
aplausos por sua trajetória e “atuação cinematográfica”. Sua presença
dependerá do seu estado de saúde.
A mostra de curtas foi aberta, na segunda feira, pelo documentário mato-grossense “História Sem Fim do Rio Paraguai - o Relatório”,
que narra uma viagem de barco pelo rio Paraguai, entre Cáceres e
Corumbá, no coração do Pantanal. O filme foi exibido pela primeira vez
num dos locais em que foi rodado e transformou-se em tema de estudo
entre alunos presentes a sessão por abordar questões como a preservação
da diversidade cultural, uma das bandeiras do 2º. Festival América do
Sul.
A
temática folclórica também fez sucesso entre as crianças em “Curupira”,
animação de Humberto Avellar. “Dois Tons”, de Caetano Gottardi (SP) rodado em Dourados, trouxe para a tela imagens sutis de um amor adolescente.
MATO GROSSO NO CONTEXTO
Cinema, poesia, artes plásticas, patrimônio, política cultural e turismo foram áreas
a poesia de Manoel de Barros na peça “Inutilezas” de Bianca Ramoneda,
as palestras no Painel de Artes Plásticas do Secretário Municipal de
Cultura de Cuiabá, Mário Olimpio sobre “Políticas Públicas de Cultura”,
buscando contrapor os conceitos de políticas de governo e políticas
públicas; do Secretário Estadual de Cultura de Mato Grosso, João Carlos
Vicente Ferreira sobre a “Revitalização do Patrimônio Histórico”, comum
aos dois estados, e a mediação de Aline Figueiredo, são colaborações
artísticas culturais ao conteúdo do evento.
INTEGRAÇÃO TURÍSTICA E DESENVOLVIMENTO
Outra
área em que a união, definitivamente, fará a força da cultura local é o
turismo. A Secretária Estadual de Desenvolvimento do Turismo de mato
Grosso, Yêda Marli de Oliveira Assis, além
de acompanhar parte dos seminários e palestras ligadas a sua pasta que
se realizam durante o 2o. Festival América do Sul, também está fazendo
os últimos acertos com a Diretora-presidente da Fundação de Turismo de
Mato Grosso do Sul, Nilde Brum, para a implantação do "Roteiro
Integrado de Turismo MT/MS". Este roteiro proporá a travessia do
Pantanal partindo de Cuiabá, seguindo para Cáceres, descendo o
rio Paraguai até Corumbá e fechando
Outras autoridades como os secretários Luis Pagot, de Infra-Estrutura, e Cloves Vettorato, de Projetos Estratégicos,
participaram do Fórum de Desenvolvimento, no painel que abordou o
“Potencial do Mercado de Consumo Interno na América do Sul/ Grãos e
Minérios”.
Diante
da amplitude das idéias e realizações que estão acontecendo em
Corumbá, se considerarmos o 2º Festival da América do Sul como uma
enorme trama, com filigranas culturais, turísticas e de desenvolvimento
da região e do continente sul americano, certamente podemos
concluir que menos alguns dos mais significativos fios que tecerão este
imenso painel têm raízes e extensões mato-grossenses.
Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
http://delcueto.multiply.com
liberado para reprodução após solicitação e com o devido credito
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