O momento e seus movimentos
Texto e foto de Valéria del Cueto
Estou querendo sair da toca e recarregar as baterias. A primeira e melhor opção é rumar para os lados da Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso.
Acontece que "querer muito" não afasta os senões que se acumulam nesta possibilidade para a temporada inverno/primavera 2026.
O maior senão é, sem dúvida, climático. Morei décadas em Cuiabá e não sou uma desavisada em relação ao calorão dos próximos meses.
Tenho uma lembrança vívida da parede de quentura que enfrentam os desavisados e desacostumados passageiros ao desembarcarem do avião no aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande. É uma sensação inesquecível.
Melhorou com o tempo, com a chegada dos fingers que ligam a porta da aeronave diretamente ao prédio do aeroporto. O que apenas fez que o "soco" não aconteça mais nas escadas do avião, com o calor refletido no asfalto do pátio de manobras e, sim, mais tarde um pouco, depois de pegar as malas, ao se abrirem as portas automáticas do aeroporto Marechal Rondon para a área do estacionamento.
Quer saber? Quem mora em Mato Grosso pode não notar, mas a temperatura e a baixa umidade do ar estão aumentando! Sinto porque as ausências me desacostumam ao clima local e, a cada volta, acho que ele está ainda mais crítico, mais bruto.
Agora, pensa com o El Niño mais poderoso de todos os tempos, o que vai acontecer!
Esse não é o único motivo que está pesando contra as saudades que sinto de Chapada, do Pantanal e, principalmente, de amigos queridos que adoro encontrar sempre que posso.
Acontece que acho que não mereço atravessar os dias da campanha política em Mato Grosso.
Em alguns momentos, certas qualidades podem trazer sérios prejuízos e, quando não há um objetivo que compense, é melhor não arriscarmos nosso patrimônio moral numa guerra que não é mais nossa.
Esse é, para mim, o caso da política de Mato Grosso e da tal qualidade que pode custar muito caro. Falo da memória, da história mato-grossense. Essa que, parece, está muito em falta por aí. Por isso, estou adiando minha ida até o mês de novembro, como fiz no ano passado. O tempo será mais ameno, com a chegada das chuvas e o final do período eleitoral.
Se desembarcar antes do final das eleições, pelo menos do primeiro turno, sei que não vou conseguir seguir à risca meu objetivo.
Ele está resumido num dos ditados de Luizinho Soares. Aquele político que, se não é lembrado por sua vida pública, por seu trabalho em benefício da população mato-grossense, sempre estará nos meus pensamentos norteando objetivos por frases que levo pela vida. O mote da vez é: "quanto menos conversa, nenhuma”.
Até onde puder, nesses tempos de embates eleitorais, pretendo me dedicar a não gastar energias onde não há espaço para a argumentação. O universo eleitoral de Mato Grosso é minúsculo e restrito, perto da dimensão da disputa nacional e, diante disso, pouco significativo no contexto brasileiro.
Então, estar preocupada com as disputas regionais, o que certamente acontecerá caso resolva enfrentar o El Niño em uma de suas piores versões por aí, diminuirá o raio de ação relacionado aos embates que estão por vir.
Já dei minha cota de colaboração aos caminhos de Mato Grosso em outros tempos, quando havia melhores condições para argumentar e algum sentido em alertar. Hoje, o que vejo é a radicalização e o firme propósito, não de dialogar, mas de confrontar.
Aí, volto alguns parágrafos, para a parte que menciona o fator memória, aquela que, parece, nem todos têm de sobra.
Sou do tempo em que contra os fatos (eles estão aí para quem quiser comprovar) não existiam argumentos. Os alertas foram repetidos e, em muitos setores, não surtiram efeitos.
O que temos é mais do mesmo e só em tempos de eleições: Pantanal, meio ambiente, agricultura familiar, preservação, infraestrutura, a melhoria do serviço público, da educação, saúde, segurança…
Tudo com prazo de validade, até a colocação do voto na urna!
Depois, tudo volta ao normal, onde a lei de Gérson, que diz que gosta de levar vantagem em tudo, volta a imperar e encher os bolsos dos de sempre.
Resumindo o momento e definindo os movimentos, pretendo me dedicar aos indecisos.
Como eu, são eles que ainda aceitam dialogar e, talvez, se dispunham a ouvir argumentos. É com eles que pretendo conviver nos próximos meses.
Longe da temperatura quase insuportável de Mato Grosso e junto ao calor dos debates produtivos que definirão o futuro do Brasil.
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com





