segunda-feira, 27 de abril de 2026

A vez de um até logo, Mato Grosso


A vez de um até logo, Mato Grosso (espero)

Texto e foto de Valéria del Cueto

“Prometer e não cumprir é pior do que mentir”. O verso que abria o jingle da campanha de Roberto França à prefeitura de Cuiabá, em 1988, entranhou na minha mente e virou lema nas andanças da vida.

Aprendi a não fazer promessas vãs e descobri que as piores promessas não cumpridas são as que fazemos a nós mesmos.

É para não cair de forma irrevogável no quesito missão não realizada que deixei de lado as comemorações do dia do Santo Guerreiro, São Jorge da Capadócia.

Vim correr atrás das palavras que compõem o último texto antes da pausa da Revista Ruído Manifesto, prevista para começar no mês de maio. Não há prazo definido de quando a aventura, idealizada pelo jornalista e escritor Rodivaldo Ribeiro, deixará de ser uma “já teve” e voltará para quem sabe, ser uma surpreendente “voltamos a ter” em Cuiabá.

Aprendi a teoria do “já teve” com a crítica de artes Aline Figueiredo. Ela me ensinou ser esta uma particularidade da capital de Mato Grosso que já teve de um tudo! “Já teve e, agora, não tem mais...” complementava com uma enxurrada de exemplos irrefutáveis nossa maior expressão em análise e reconhecimento do que há de mais relevante nas artes plásticas no centro-oeste e no país.

Se o assunto é literatura, a expressão também se aplica e se replica de forma acelerada.

Quando soube da parada da Ruído Manifesto, gentilmente alertada pelo editor da coluna Crônicas do Sem Fim, Wuldson Marcelo, caiu a ficha da perda de importantes disseminadores da cultura local nos últimos tempos.

A incrível iniciativa de Rodivaldo foi para o mesmo patamar do Tyrannus Melancholicus, capitaneada pelo imortal da Academia de Letras Mato-grossense, Lorenzo Falcão, contabilizei chorosa. Ao que Wuldson acrescentou o Cidadão Cultura e a Revista Pixé, pilotada por outro imortal, Eduardo Mahon.

Quer saber, leitor amigo? Está doendo. No meu caso lá se vão duas fontes de distribuição do material do Sem Fim. Textos, fotos, vídeos... Fiquei sem o piado do passarinho e espero que, momentaneamente, sem a Ruído. Teimosa, sigo me manifestando!

Como sou otimista por natureza, enquanto espero que a pausa sonora seja apenas uma pausa, tento racionalizar. Avalio (chutando) que esse sumiço das publicações culturais seja apenas uma mudança de formato da maneira de disseminar a criatividade, as ações e nosso conjunto alegórico cultural.

O que virá agora? Essa é a pergunta que não quer calar e, claro, não sei responder enquanto converso, do outro lado do universo com o responsável, depois de um embate de gigantes, pela criação da coluna Crônicas do Sem Fim, Rodivaldo Ribeiro.

Repito de novo o que já contei em outro texto, mas faço questão de registrar na crônica pré-pausa: eu, correspondente do Diário de Cuiabá para assuntos carnavalescos cariocas; Rodivaldo, editor do caderno Ilustrado. Véspera de carnaval, texto e fotos enviados ao jornal e um passarinho me conta que os planos do responsável pelo caderno eram que a capa do caderno fosse um festival de rock!

Tomei uma atitude que normalmente não faz parte do meu repertório. Apelei às instâncias superiores. Afinal, meses de trabalho produzindo fotos, acompanhando os ensaios técnicos na Sapucaí, não poderiam ser desperdiçados assim.

Capa realinhada, expliquei os meus motivos ao editor do caderno, certa de que ele não perdoaria a interferência. Lêdo engano... Rodivaldo deixou o Diário um tempo depois. Foi para outro veículo e, mais tarde, lançou seu projeto, tão especial, a Ruído Manifesto.

Qual não foi minha surpresa ao receber sua ligação com o convite para publicar meu material na revista eletrônica? E mais: para manter uma coluna, a qual ele deu o nome de Crônicas do Sem Fim, seguindo a linha inicial das águas que percorro.

Fizemos planos, muitos planos que se perderam subitamente quando ele partiu. Ângela Coradini primeiro e, depois, Wuldson Marcelo passaram a fazer a ponte editorial da coluna.

Graças a Ruído Manifesto, os textos, fotos e vídeos que compõem o universo do Sem Fim se expandiram chegando onde a revista fez barulho até agora. E foi longe! Tanto no Brasil como no exterior.

AS boas notícias foram as de que “é uma pausa” e que o site continuará ativo, com a íntegra do material publicado por todos nós que fizemos parte do sonho de expandir a cultura brasileira para o mundo, partindo, (que ousadia1) de Cuiabá, Mato Grosso...

A Ruído Manifesto, pausa, mas não se cala. Seus participantes seguem o fluxo das águas, unidos pelos fios tramados nos últimos 9 anos na rede idealizada com tanto amor e realizada por tantas mãos.

No meu caso, sigo no rumo do Sem Fim, acumulando afetos, textos e imagens publicadas em outros veículos parceiros enquanto, como tantos, aguardo de novo o chamado da Ruído, sempre manifesto...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

 



Studio na Colab55



segunda-feira, 13 de abril de 2026

Mais um adeus, Mato Grosso

Mais um adeus, Mato Grosso

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Alguns textos são difíceis de escrever. São aqueles que concretizam ações que, até estarem no papel, eram apenas possibilidades distantes. Algumas boas, outras nem tanto.

Poucos anos após chegar em Mato Grosso, depois da campanha política de 1988, apareceu uma oportunidade de comprar uma terra na Chapada do Guimarães. Uma área rural, na beira da estrada da Água Fria, perto do Colégio Buriti.

Quem me botou na fita foi Luizinho Soares. Viramos vizinhos. Na hora da venda eu estava viajando. Na confiança foi feita uma procuração para um terceiro para que, mais tarde (e demorou por inconsequência de minha parte), a escritura fosse lavrada em meu nome.

Quando voltei e vi o meu latifúndio de cem hectares, me apaixonei perdidamente. O que era aquele horizonte? Meu lugar na terra!

Fiz muitos planos para a área que, para mim, era uma imensidão. Para começar, escolhi o lugar da casa. Na beira das únicas árvores altas existentes na extensão do terreno.

Logo comecei a ver as dificuldades da empreitada. Fazer a cerca, puxar a energia elétrica. Cavar poço para achar água ou trazer do Monjolinho, cuja nascente, formadora do Véu da Noiva, estava um pouco acima?

Me planejei para executar essas etapas com o que pretendia ganhar nas campanhas políticas seguintes.

Bastaram duas eleições para entender que aquele não era o desejo dos deuses. Cada vez que me preparava para um avanço, levava um cano! Foi assim com o projeto arquitetônico, com os fundos para construir a casa tão sonhada... 

Como não brigo com o universo, acatei a mensagem e desisti da empreitada.

Durante um tempo uma família morou por lá. O marido era o caseiro, a mulher trabalhava no Buriti, onde as crianças estudavam. Fizeram um pequeno pomar e plantaram um pouco de abacaxi. 

Até o dia em que o caseiro me disse que “não recebia ordens de uma mulher”. Detalhe: naquele momento estava solteira. Num arranjo providencial a família foi prestar serviço numa propriedade vizinha.

As terras ficaram abandonadas? Não. Era como se estivessem cobertas pelo manto da invisibilidade. Sempre tive a segurança de que o vizinho estava de olho no que acontecia por lá.

Quantas vezes, nos períodos em que estive fora de Mato Grosso, me perguntei por que não me desfazia da Estância Vista Alegre, tão longe, de mim distante?

Bastava voltar à Chapada, passar pela porteira da terra do Cabeção, que dava acesso às minhas posses, olhar para os pés de pequi e outras espécies nativas para ter essa resposta. 

Ali estavam minhas raízes mato-grossenses. Daquela terra linda eu era a guardiã!

Decidi que aqueles hectares seriam Cerrado natural. Intocado e preservado. Onde a vegetação se expandisse. Um espaço à riqueza inexplorada que o bioma nos proporciona e que aproveitamos tão mal. E assim foi, sem alarde, por décadas.  

Os orixás abençoaram minhas intenções e, juntos, protegemos a vegetação e os animais que por ali circularam livremente por 38 anos. 

Uma única vez o fogo lambeu a Estância. Foi na década de 1990. Vi a terra se regenerar, renascer e voltar à sua forma exuberante.

Mas os tempos mudaram. A estrada para a Água Fria foi asfaltada. A cidade se expandiu naquela direção. O que era área rural está virando urbana. 

Luizinho partiu e, com ele, o manto de proteção e a ligação que nos unia no lugar se romperam.

Um dia, no Rio, recebi uma mensagem espiritual. Dizia: “Cuida do que é seu”. Respondi que o faria assim que pudesse. A réplica foi: “Agora!”

Segui para o Chapada imediatamente. Foi no final do ano passado. Bem na hora. Havia várias sondagens para levantar em órgãos públicos a quem o terreno pertencia. Mau sinal...

Pedi ajuda a Exu, o que abre os caminhos, quando pisei no trecho que corta a terra e meu destino, para não sucumbir mais uma vez aos encantos mágicos da Estância Vista Alegre. Para, finalmente, transferir a outra dimensão este laço que, por quase quatro décadas, me uniu a Mato Grosso.

Agora, corro uma maratona para regularizar a documentação da terra. Georreferenciamento, escritura, Incra, Sema, Receita e o que mais vier. E olha que, na medida do possível, sempre procurei me manter em dia com minhas obrigações.

Oxóssi, o caçador, e Oxum, a mãe dos rios, que por esse tempo protegeram meu pedaço de chão, agora dividem a missão com Nossa Senhora de Santana, padroeira da Chapada dos Guimarães. Mais um elo da corrente de amor que me liga a essas paragens que tão bem me receberam se rompeu.

É tempo de mais um adeus, Mato Grosso...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com




Studio na Colab55

quinta-feira, 26 de março de 2026

Nuvem passageira

Nuvem passageira

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou igual as nuvens que costumam viajar pelo céu.

Uma hora deixo o sol entrar e aquecer a paisagem no meio do mundo em que me encontro entre uma chuvarada e outra das águas de março. Logo em seguida escondo a luz solar. O que, na pior e mais frequente das hipóteses, ativa a ação do inclemente e coçante do mosquital.

Os danados só dão folga quando o sol brilha num céu de brigadeiro. Estão animadíssimos com esses tempos úmidos de tantos temporais.

Nada a reclamar. Nem de minha parte, nem do lado da terra que andava esturricada e sedenta. Tudo cresce, a natureza explode e transforma a paisagem da Mata Atlântica que me cerca.

Se me equiparo às nuvens, sei que não mando em meu formato ou na velocidade que se alteram nos caminhos que percorro quando elas incrementam a paisagem natural como adereços da alegoria celestial.

Também não comando minhas qualidades e defeitos. Sou guiada por outros fatores. Pensando bem, por vários! Inclusive alguns, como contei no último texto “Ainda é cedo”, que podem me paralisar.

Hoje, o objetivo é sugerir uma forma de fugir desse colapso físico e mental, essa exaustão...

Ela que me deixou, inclusive, sem a menor vontade de fazer o que mais desejo de todo o coração: editar as fotos do carnaval 2026.

O conselho inicial é não forçar a barra. Tentar se dedicar, quando seu corpo pedir, a primeiro, fazer o mínimo.

Num dia qualquer acordar e escolher uma pequena tarefa para recomeçar a vida. Esqueça aquela enorme lista de pendências e objetivos pendurados na sua mente cansada.

Concentre-se, por exemplo, em retirar as ervas daninhas de um canto, só um cantinho, do jardim. E comemore a pequena vitória conquistada sem desviar o olhar para o latifúndio restante necessitando de atenção.

Fique feliz e se empenhe com afinco na produção super fácil de batatas rústicas do seu vasto(?) repertório culinário.

Afinal, foi o prato que abriu o apetite depois de semanas apenas esquentando as delícias produzidas pela Neuza e trazidas para consumo no pé da serra.

Se der vontade de passar aspirador (mesmo que seja véspera do dia da vinda da faxineira), mete bronca. Esconda seus pensamentos sob o ruído invasivo do motor do aparelho.

Ou... Se dê tempo para se reconectar com os sons da natureza como o das águas correndo entre as pedras do rio, as conversas dos passarinhos no final da tarde, e o ciciar das cigarras anunciando dias de sol. Procure vagalumes na escuridão!

Repito: não se cobre(muito) ou tente fazer tudo de uma vez só. Um dia, é a vontade de escrever que volta. Pode ser que duas semanas depois, prazo regulamentar entre as crônicas, ela permaneça.

De vez em quando passe pelo seu objeto final de desejo. No caso, as milhares de fotos esperando para serem editadas. Se não der liga, continue em frente. Vá assistir a uma série tcheca no streaming!

Não esqueça. Nunca perca a fé em retornar à sua escolha de difícil finalização. É o preço por optar por não usar flash, levantar o ISO e subir a velocidade na captação das imagens.

Tudo é empecilho. São tantas as dúvidas sobre a ordem de edição. A prioridade são as baterias?

O Lukumi da escola de samba Paraíso do Tuiuti ganha o primeiro lugar da fila de prioridades. A responsabilidade é do Pixulé e sua incrível interpretação do samba enredo.

“Derruba o muro, quem sabe asfaltar. Caminhos abertos nas mãos do Ifá. Que o mundo entenda o Ebó vence a dor sentado à esteira de um Babalaô”. É na mensagem explícita de Luiz Antônio Simas, Cláudio Russo e Gustavo Clarão, os autores da obra, que me apego.

Aproveito, nuvem que sou, os ventos me levarem. Sempre indo. Ou sumindo como no caso da imagem que ilustra esse texto. Na hora do registro, cadê elas? Onde fomos parar? Clareou, ou melhor, azulou geral!

Depois ressurgimos. Uns dias mais rápidas, outros mais lentas. Até que, por força dos deuses, viremos toró de chuvas ou de registros editados. Que encham de imagens o universo de quem capturei os movimentos no desfile de carnaval de 2026.

No momento, devagarzinho, informo mais uma conquista. Na edição saí da concentração do Tuiuti do lado dos Correios e consegui avançar até o Setor 1 da Marquês de Sapucaí junto a bateria Super Som de mestre Marcão.

Quebrei, sim, a maldição do colapso imagético que me dominava. Mas, confesso, foi difícil...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da séries “Não sei onde enquadrar” e “É carnaval”  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com




Studio na Colab55