segunda-feira, 9 de março de 2026

Ainda é cedo

Ainda é cedo

Texto e foto de Valéria del Cueto

O resquício desse carnaval encavalado em um mês de atividades frenéticas foi um quase colapso físico e mental.

Fiz o que pude, mas não consegui resistir a queda de imunidade no esforço contínuo de três finais de semana com maratonas de ensaios técnicos com tudo a que tinha direito na Sapucaí.

A saber: calor, chuvas e muitas correrias multiplicadas pelo número de escolas de samba que passaram pela pista se preparando para os desfiles.

Pelos meus cálculos, as dezessete da série ouro no primeiro final de semana e mais doze vezes dois nos subsequentes.

O tempo para editar o material da capa do Diário de Cuiabá foi mínimo e dividido entre outras tarefas como a missão de ir ao centro da cidade pegar a tão almejada credencial para cobrir os desfiles.

Me planejei e executei o combinado entregando o material prometido sobre os desfiles na quarta-feira. Na quinta encarei tranquilamente o metrô em direção a sede da Liesa, pertinho do Museu do Amanhã.

Tudo certo e o primeiro imprevisto. O metrô estava parado! Havia um acidente na estação de São Conrado paralisando o tráfego. Ao anunciar o problema pelos alto-falantes da General Osório, veio o comentário de um usuário: “Isso é hora de alguém resolver tirar a própria vida no metrô, dois dias antes do carnaval?”

Abandonei a calorenta e, agora, superlotada estação. A solução era pegar um táxi e morrer na grana para chegar a tempo de resgatar a credencial.

Vou pular a descrição detalhada dos dias que se seguiram. Pode ser resumida em translado à Sapucaí, pista e/ou torre de transmissão, a loteria bem-sucedida de conseguir um táxi no final dos desfiles da noite/dia que cobrasse a corrida no relógio junto com Cristina Frangelli, do Carnavalizados, chegar em casa, me alimentar, tomar um banho, baixar e fazer a primeira seleção das fotos, dormir e... começar tudo de novo depois de um almo/janta substancial.

Foram 5 dias quase no automático. Neles, todas as intenções e ações criativas estiveram voltadas ao olhar e ao equipamento, que registrava minha visão, e a da seleção de imagens do material que prometi entregar aos parceiros. Mas quem disse que consegui (espero) captar as sensações que vivemos na pista? Foram cinco dias e mais vinte e nove desfiles, ou quase. Perdi alguns da série Ouro...

Na quarta-feira, depois de vibrar com o resultado do Grupo Especial e a vitória inconteste da Viradouro cantando Mestre Ciça, relaxei...

E falhei. Em vez de manter a rotina de guerra, não resisti e sucumbi ao desejo de comer rissoles fritos na hora do restaurante Príncipe de Mônaco, em Copacabana.

Nada incomum, a não ser o fato de não ter argumentos para contrariar meus primos, que voltariam no dia seguinte a Porto Alegre, ter aceitado ficar na área com ar condicionado e não na parte externa do estabelecimento que sempre frequento.

Quando cheguei em casa, três rissoles, um pastel e um caipiroska de lima sem açúcar depois, senti um “hã,hrã” de um lado da garganta.

Aí começou meu padecer. Ainda tentei fazer a segunda rodada da seleção de imagens do material prometido aos parceiros. Mas quem disse que consegui? Tudo começou a doer, especialmente os olhos diante da luz da tela do computador.

E assim continuou e só piorou até a madrugada de quinta para sexta, véspera dos desfiles das campeãs, em que aos trancos e barrancos distribuí o material concluído de “Pra cima, Ciça”. Foi a duras penas, muitos analgésicos e xaropes...

Fiquei tão mal que perdi o desfile das Campeãs. Foi sem apelação e arrependimentos. Nem meu corpo, nem minha mente tinham qualquer condição de deslocamento até a Sapucaí.

O “castigo” maior foi ter que acompanhar pela TV a transmissão dos desfiles campeões. Que horror... Entendo porque tanta gente desgosta do carnaval carioca no Brasil. Volta, Manchete! Ressuscita, Fernando Pamplona!

Continuo me recuperando do colapso. Corri pro mato, dormi dias seguidos e só hoje consegui me expressar. Duas semanas depois das Campeãs!

Peço desculpas aos amigos que me cobram a edição das fotos que fiz nesse carnaval. Mas, confesso, ainda é cedo para rever o resultado da maratona alucinante. Sei que o material é bom, porém, parafraseando Juliano Yule, “Meu corpo não pede”, nesse momento, esse esforço. Ainda...

Estou voltando à vida devagar. Escrever essa crônica é mais um passo nessa reconstrução.

Paciência, amigos, que chego já...  

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “É carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Pra cima, Ciça!


Pra cima, Ciça!

O carnaval 2026 é do Caveira e da Viradouro

Texto e fotos  Valéria del Cueto

Esse ano aconteceu um fenômeno na Marquês de Sapucaí. O título de campeã do Grupo Especial do carnaval carioca é da Viradouro que homenageou seu mestre de bateria, Ciça.

Todo mundo ficou feliz com a justa homenagem ao sambista, cria do Estácio e tantas vezes campeão. Ele era o mestre da Bateria, por exemplo, do primeiro e único campeonato do Especial da Estácio de Sá, em 1992.

Ciça jogou nas 11 no desfile em sua homenagem. Estava na comissão de frente, passou pelo casal que conduz o pavilhão vermelho e branco de Niterói e, depois, partiu de moto para o início do desfile, repetindo o feito de 2007 de colocar seus ritmistas no alto do último carro alegórico, como havia feito em 2007, com o carnavalesco Paulo Barros.

Quase aos 70 anos o Caveira, como é conhecido pelos amigos, tomou o maior susto quando o enredo da Viradouro, de Tarcísio Zanon e pesquisa de João Gustavo Melo, foi anunciado na quadra ano passado.

A luz cenográfica da pista, utilizada pelas escolas, continua em evolução, com acertos e erros. A maior novidade de 2026 foi a digitalização do som da avenida.

Se nas posições de ponta das escolas filiadas à Liesa houve um raro consenso, o mesmo não dá para dizer das polêmicas envolvendo o enredo da estreante no grupo, a Acadêmicos de Niterói, com Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil.



A agremiação caiu, mas causou. E serviu para mostrar como tem gente que não entende nada de carnaval, mas quer dar pitaco no trabalho alheio. O besteirol ocupou e alavancou as redes sociais.

Reclamaram da “politização” do carnaval, como se essa fosse a primeira vez que a comunidade do samba abordasse esse tipo de viés.



Muitos viraram censores, outros claramente não conheciam a poesia de Dorival Caymmi que diz “quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça, ou doente do pé”.Para desagrado dessa turma sem inspiração e conhecimento do processo carnavalesco, passou pela avenida mais um samba popular.


A Acadêmicos de Niterói caiu, mas deixou sua marca na pista onde o presidente, quase vaiado pelos conservadores nos camarotes, ouviu a resposta dos setores populares que pediam “sem anistia” enquanto a agremiação se despedia do Grupo Especial.

A União de Maricá, vencedora da Série Ouro, substitui a última colocada em 2027

ORDEM DO DESFILE DAS CAMPEÃS – Mangueira, Imperatriz, Salgueiro, Vila, Beija-Flor e Viradouro.



Quem abre o desfile é, novamente, a Mangueira. Ficou em sexto lugar com o enredo sobre Mestre Sacaca, do Amapá. Perdeu décimos na comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira, enredo e samba.



A Imperatriz Leopoldinense, de Leandro Vieira (campeão da Série Ouro com a União de Maricá) ficou com na quinta posição com “Camaleônico”, homenageando Ney Matogrosso, é a segunda escola a desfilar nas Campeãs. Em 2027 terá de escolher uma das duas agremiações para ser carnavalesco, assim como o coreógrafo Patrick Carvalho. A comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira e o samba-enredo foram penalizados na escola de Ramos.


O Salgueiro vem a seguir cantando a mestra que fez tantos amarem a festa, Rosa Magalhães. Foi justamente esse verso que tirou dois décimos do samba enredo e outro em alegoria e adereço.


Vila Isabel e a Beija-Flor perderam um décimo cada, ficando com 269,9. A Vila, cantando o sambista e pintor Heitor dos Prazeres, parceiro de Noel Rosa, perdeu o campeonato no quesito harmonia e ficou na terceira posição pela ordem de abertura de envelopes.



A Beija-Flor, que tentava o Bi com Bembé do Mercado, viu seu sonho ficar para 2027 com a perda de um décimo em alegorias e adereços, quesito que costuma ser forte na agremiação de Nilópolis.

A noite das campeãs será encerrada pela campeã do carnaval 2026. Com 270 pontos, a Viradouro de Niterói       levantou a Sapucaí homenageando Ciça. Cria do morro de São Carlos foi passista, mestre-sala e quem há anos atua como mestre de bateria.

O desfile das Campeãs do RJ será transmitido no sábado, na TV globo e Globoplay no streaming a partir das 21h, horário de Brasília.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com


Studio na Colab55

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Quem samba seus males encanta na Sapucaí, templo de saberes e dizeres

Fotos de Valéria del Cueto protegidas pela lei 9610/1998

Quem samba seus males encanta

Sapucaí, templo de saberes e dizeres

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Sob os arcos da Apoteose no final da Marquês de Sapucaí, no centro do Rio de Janeiro, passarão mais uma vez os protagonistas do maior espetáculo popular do planeta. O desfile das escolas de samba, carro-chefe do carnaval carioca, monopoliza a cidade, viraliza pelas redes sociais e na transmissão mundial de suas imagens.

A folia movimenta a economia. Atrai turistas do mundo inteiro e injetará nessa temporada recursos estimados em mais de 5,7 bilhões, projeta a Riotur. Gera empregos, estimula o empreendedorismo e alavanca ações de grandes marcas.

Em ano de Copa as cores do Brasil retomadas por quem de direito: o povo brasileiro.

O que move a festa é uma incrível mistura de sensações concentradas nos 800 metros da pista do Sambódromo idealizado por Oscar Niemeyer.

Para fazer o encanto funcionar, pelo menos 12 componentes, um de cada escola de samba do Grupo Especial, deverão ser acrescentados à poção mágica que será refinada no templo do carnaval.

Heitor dos Prazeres e seus protetores. Xangô e Oxum na comissão de frente da Vila

No caldeirão de emoções serão depurados, nas três noites de apresentações, de domingo a terça-feira, os seguintes ingredientes: a força da raiz, a resistência do caranguejo, muitas doses de essência, o poder da mandinga e o ponto da encruza. Misture com notas variadas de ritmo, uma enxurrada de palavras e as cores infinitas da aquarela. Tempere tudo com pitadas de imaginação, um toque de desbunde, acrescente respingos de loucura, a esperança concentrada de milhares de foliões e... evoé!

Temos mais uma disputa no Desfile de Escolas de Samba. Pela ordem, vamos às concorrentes.

Lula, tema da estreante Acadêmicos de Niterói e polêmica nas redes.
Domingo, 15 de fevereiro

A estreante na Sapucaí abre a primeira noite de disputa. Vem cercada de polêmica. É a campeã da Série Ouro, a Acadêmicos de Niterói. O enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, do carnavalesco Tiago Martins, gerou controvérsias nas últimas semanas. Demorou a cair a ficha. Foi anunciado no meio de 2025. O ingrediente para o encanto que a escola traz é a ESPERANÇA. Está presente no título do tema, na letra do samba, a carta de Dona Lindu, narradora da saga de seu filho que virou presidente da República, e na vida dos brasileiros.

Imperatriz Leopoldinense ocupa a pista e dá seu toque de DESBUNDE em outra homenagem. Dessa vez sobre uma personalidade transgressora. Ney Matogrosso é o “Camaleônico”, de Leandro Vieira. O projeto não é biográfico. Viaja na parte musical e visual do cantor.  

“O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande” traz a ESSÊNCIA do nascimento do batuque gaúcho e Custódio Joaquim de Almeida, o príncipe do Benin com sua corte no Rio Grande do Sul, aposta do carnavalesco André Rodrigues na Portela.

Matheus e Cintya, com o pavilhão da Mangueira apresentam Mestre Sacaca e a Amazônia Negra do Amapá
Do extremo sul vamos ao extremo norte no desfile da última escola da primeira noite de competição. Vem do Amapá a RAIZ dos fundamentos das rezas que conectam Benedita de Oliveira, do Morro de Mangueira, a “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju - O Guardião da Amazônia Negra”, no enredo do paulista Sidnei França na verde e rosa.

Segunda, 16 de fevereiro

O carnavalesco Renato Lage invoca as LOUCURAS com “Rita Lee, a padroeira da liberdade”. Qual será a proposta do coreógrafo Marcelo Misailidis? Ano passado ele ousou reduzir a alegoria da comissão de frente, acabando com o trambolho que atrapalha a visão da cabeça do cortejo. Tomara que a Mocidade Independente de Padre Miguel tenha feito escola!

Quem vai para ENCRUZA na sequência é a Campeã de 2025, a Beija-Flor de Nilópolis, querendo o Bi com “Bembé”, primeiro enredo que não é sobre uma personalidade! João Vitor Araújo aborda a celebração afro-religiosa que acontece há mais de 130 anos no Recôncavo Baiano.


Ciça, o Caveira, mestre da bateria e enredo da Viradouro

Voltando ao COMPASSO das homenagens a Viradouro embarca na proposta de Tarcísio Zanon e dá flores em vida a seu próprio maestro. O título “Pra cima, Ciça” já diz tudo. O ex-passista e mestre-sala vai repetir o feito de 2007 evoluindo com seus ritmistas no alto de um carro alegórico. Tendo o privilégio de escolher sua rainha, trouxe à Sapucaí a atriz Juliana Paes que o acompanhava há duas décadas.

Segurança: demanda na pista, no entorno da Sapucaí e no país

Fecha a segunda noite a PALAVRA da escritora do livro “Quarto de Despejo” na Unidos da Tijuca. “Carolina Maria de Jesus” percorre o mundo sofrido da autora no enredo de Edson Pereira. O samba clama por mudar a história da escola do Borel buscando na comunidade a força para vencer novamente um campeonato.

Terça 17 de fevereiro

Paraíso do Tuiuti viaja a Cuba para mostrar um culto afro-religioso yorubá oriundo da ilha e disseminado no Brasil, “Lonã Ifá Lukumi”. A MANDINGA proposta por Jack Vasconcelos se baseia no livro do pesquisador Nei Lopes. É entoada divinamente por Pixulé (sério candidato às premiações de melhor intérprete) e desafia o critério do julgador que ano passado canetou e rebaixou a Unidos de Padre Miguel por uso de palavras no idioma africano.

Mayara Lima, rainha do Tuiuti e das coreografias virais

Se já estava bom, vai ficar melhor com o aclamado samba da Vila Isabel sobre Heitor dos Prazeres. Em “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, Leonardo Bora e Gabriel Haddad pintam uma AQUARELA dos primórdios do samba e de memórias do Rio de antigamente. Na bateria do Mestre Macaco Branco, o naipe de tamborins, dirigido por Thalita Santos, traz de volta os instrumentos originais em formato quadrado.

 Vilma Nascimento, o Cisne da Passarela, e Manoel Dionísio, criador da escola de mestre-sala e porta-bandeira, a nobreza do bailado na Vila de Heitor dos Prazeres

Vice-campeã em 2025, a Grande Rio tem um novo carnavalesco, Antônio Gonzaga. “A Nação do Mangue” exalta o movimento inspirado no homem-CARANGUEJO e sua resiliência. Tem Chico Science e o Mangue Beat pernambucano pulsando na levada da bateria de Mestre Fafá.

A disputa se encerra com “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”. A IMAGINAÇÃO de Rosa Magalhães, maior campeã da Sapucaí, que nos deixou em 2024, é explorada por Jorge Silveira e a comunidade do Salgueiro partindo de uma biblioteca.

A iluminação amplia recursos como pinturas corporais fluorescentes

Com a mestra que fez tanta gente amar a festa fechamos a lista de ingredientes integrantes do feitiço que produz o sumo do imaginário carnavalesco a ser exposto pelo povo do samba nos três dias de desfile do carnaval 2026 na Sapucaí. Como o encantamento funcionará?

Saberemos na quarta-feira, com a apuração dos resultados! Poderemos provar novamente seu efeito no Sábado das Campeãs, semana que vem...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Texto da série “É carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Na Super Som do Tuiuti, molho de salsa e merengue cubano.

Ordem dos desfiles:

Domingo 15/02 – Acadêmicos de Niterói, Imperatriz, Portela, Mangueira

Segunda 16/02 – Mocidade, Beija-Flor, Viradouro, Unidos da Tijuca

Terça 17/02 – Paraíso do Tuiuti, Vila Isabel, Grande Rio e Salgueiro

Transmissão: TV Globo e Globoplay às 22h. Dica de comentários: sintonize o áudio na Tupi.fm e na Rádio Arquibancada




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