Porto Solidão...
Texto e foto de
Valéria del Cueto
Direto e reto o assunto é eleição.
Dela, posso falar com propriedade. Sou cria do processo democrático
estabelecido após o fim da ditadura. Sim, dela, a que agora querem chamar de “regime
militar”. Os termos e designações mudam. A História, por mais que tentem,
não...
Não estou aqui para bater de frente com ninguém. Só para sugerir
alternativas. A primeira é que, para melhor se informar de maneira produtiva
sobre o período, você, leitor, assista o documentário “Gonzaguinha, Da Maior Liberdade”,
de Suzana Lira, que acaba de ganhar o Kikito, prêmio de melhor longa-metragem Documentário,
em Gramado.
“E a vida, diga lá o que é, meu irmão...”. A dos Anos de Chumbo passa
por lá, nas imagens que bordam as músicas do compositor do Morro do São Carlos,
berço do samba, onde foi criado pelos padrinhos enquanto seu pai, o Gonzagão,
palmilhava o país na infância e juventude do filho órfão de mãe.
Assisti o filme antes do lançamento que acontece no Brasil no dia
3 de setembro. Sabia que seria um mergulho num universo que vivi de perto na adolescência.
Não sei quantos shows do Gonzaguinha assisti antes de sair do Rio e seguir no rumo
de outras paragens: Uruguaiana/RS, e, depois, em Cuiabá/MT.
Só sei é que fecho os olhos e me transporto às plateias lotadas dos
shows na época do vestibular e da ECO, a Escola de Comunicação da UFRJ. (Re)vejo
Gonzaguinha, sua mensagem de liberdade chegando às nossas mentes e corações
antes dos tempos de reprodução digital hiperviralização virtual. Nas composições
que escapavam da censura, o moleque Gonzaguinha dava seu recado sobre os últimos
acontecimentos no país e os anseios populares.
Se as letras e a melodia das composições até hoje (d)escrevem
essas histórias, as imagens de arquivo garimpadas para ilustrá-las, conforme o
roteiro e a pesquisa de Rodrigo Alzuguir, montadas por Ítalo Rocha, dinamizam e
contextualizam graficamente a narrativa.
Não é o tipo de filme que dê para desviar o olhar para uma checada
nas redes sociais. É um mergulho num ambiente que nos leva não apenas aos
acontecimentos e imagens recorrentes da época em que Gonzaguinha viveu com suas
contradições e afetos, mas também ao cotidiano, à rotina da cidade, à vida como
ela era naqueles tempos.
O filme não é sobre Gonzaguinha. O filme é Gonzaguinha, o rico
universo de cronista de seu tempo, por meio de suas próprias palavras faladas e
cantadas, quando não foram proibidas. “Um tempo em que lutar por seus direitos
era um defeito...”
A agressividade impera. É mais fácil vociferar do que dialogar,
propor soluções.
E aí, todo o espaço, seja o garantido por lei ou o obtido por meios
não tão convencionais, vira campo de batalha e não de argumentação.
O simples ato de bater de frente sem dó nem piedade, é um vício
tão danoso e maligno quanto, por exemplo, as apostas incentivadas pelas BETs
que corroem a saúde mental e financeira da população.
Quando a gente começa, não consegue parar porque somos induzidos a
combater mais, mais e mais...
A campanha política, aquela que a gente banca com nosso dinheiro,
deveria ser para nos munir de OPÇÕES para melhorar a vida da população e o país
como um todo, para todos...
Acompanhei o início da propaganda eleitoral para concluir que
estamos bancando rinques de batalhas em que a prioridade é desconstruir os
adversários. E só.
Onde estão as propostas, as soluções e as ações sugeridas para que
o país avance?
Jogam na nossa cara os defeitos e malfeitos dos oponentes para que
optemos pelos menos bandidos ou criminosos e não por quem possa apresentar
alternativas viáveis (ou não) para melhorar nosso futuro.
E o povo, inocente e teleguiado, vê o exíguo tempo do período
eleitoral se extinguir aplaudindo os animais que se digladiam nas arenas
virtuais, principalmente as das big techs, bombadas pelas verbas bilionárias das
campanhas. No início do período democrático eram 90 dias, quando dava tempo
para dialogar, argumentar e confrontar IDEIAS. Agora, é um mês astronomicamente
caro e olhe lá.
Sim, quem busca propostas atraca no Porto Solidão do diálogo
inexistente. Aquele que nos faria evoluir e analisar de forma racional e
prática o que é, realmente, o melhor para os tempos (difíceis) que virão.
Não se iluda, eleitor. A maré não está para peixe e o problema não
é apenas brasileiro. É mundial. Como vamos encarar esses tempos que virão? Que
interesses defenderemos com o voto que depositaremos nas urnas?
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica das séries “Não sei onde enquadrar” e do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
Porto Solidão, por Jessé. De Gink e Zeca Bahia




