segunda-feira, 1 de junho de 2026

Não sei você...

Não sei você...

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Não sei você, ando em modo sobrevivência em muitos sentidos. A começar pelo básico, o geral. 

Não é fácil ser testemunha e personagem dos tempos atuais em que esse bombardeio de fatos, informações e contrainformações é constante.

Fico pensando: se é difícil para a geminiana racional e, acima de tudo, organizada que vos escreve, imagina para os nativos dos signos mais voláteis...

A realidade é que não dispomos de gavetinhas de memória para tantos dados e assuntos que nos perseguem durante as 24 horas do dia.

Alguns desses eventos já são previsíveis. Por exemplo: às sextas-feiras, no máximo aos sábados, Trump inventa uma novidade para ser assunto nos finais de semana.

Seu repertório é amplo. Vai do Papa aos extraterrestres, passando por querelas e quizumbas. Com direito a queixas, discussões e disputas com a Palestina, Venezuela,Cuba,o Irã... e, claro, nosso tão amado e rico Brasil.

"Soberania pouca, nosso pirão primeiro!" (Será que o homem mais poderoso da terra sabe o que é pirão?) Não faz diferença para quem jura que nariz de porco é tomada e quer ser e se fazer luz na base do tranco, ameaça e porrada.

Não sei você, mas andamos precisando é de tranquilidade e equilíbrio para resolvermos os nossos próprios problemas entre mais uma edição da Copa do Mundo de futebol e as eleições de novembro.

São tantos acontecimentos que brotam nas telas e redes sociais que nem a melhora do IDH foi merecidamente comemorada. Estamos numa posição no contexto mundial que nunca antes alcançamos!

Não sei você. Acho, só acho, que primeiro é preciso explicar à população em geral o que significa a sigla (mania de gestão que prejudica a compreensão popular).

IDH é o Índice de Desenvolvimento Humano. Como essa conquista pode sensibilizar essa massa cada vez mais desumana e cheia de opiniões definitivas?

Não sei você, apostaria na particularização dos exemplos. IDH é a rebimboca da parafuseta, mas a história de como a vida de dona Idalina melhorou e o porquê teria muito mais Ibope (olha que coisa antiga). Quer dizer, atualizando o vocabulário, engajamento, likes e compartilhamento.

Ninguém se espelha nem sente na pele o poder de alcance do IDH, já a conquista da vizinha... Ela pode provocar admiração ou inveja, dependendo da vibe do observador.

Não sei você. Sigo procurando rotas de fuga para essa loucurada geral.

É aí que a natureza me pega no contrapé e tira minha concentração do caderninho onde escrevo essa crônica, sentada na escada que dá acesso à ponte sobre o rio que murmura ali embaixo.

Enquanto escrevo, uma borboleta amarela passeia pela tampinha cor-de-rosa da garrafa de água que carrego pra todos os lados e por lá fica, dando pinta de sua exuberância, fazendo pose.

Largo de mão a caneta, fecho o caderninho e pego o celular para tentar registrar o desenho de suas asas enquanto acompanho seu descanso.

Pronto! Perdi a concentração. Ou melhor, desviei a atenção para um objeto mais interessante que Trump e as mazelas mundiais.

Não é toda hora que as borboletas ficam assim. A vida delas, normalmente, é borboletar inquietas e incessantemente. A nossa, tentar correr atrás para registrar essa beleza que dura tão pouco.

Parece brincadeira. A amarelinha ficou quieta até eu terminar de fotografar e chegar ao fim do parágrafo inspirado por ela e se picou...

Não sei você. Nem sempre tenho a sorte do acaso. Então, para sair deste buraco negro das notícias do dia a dia, borboleto em outras dimensões, quase sempre inesperadas. 

Foi assim que fui parar no encontro de carros antigos da Volkswagen no pé da serra. Pensa num estacionamento imenso. Boa parte dele ocupada pelos mais variados modelos que fizeram parte da vida de tantos brasileiros.

Fotos do encontro de carros antigos refrigerados a ar da Volkswagen  na Arena da Baixada,em Santa Cruz da Serra 

O queridinho era o fusca. Um modelo que sobrevive no imaginário de boa parte da população.

Minha brincadeira, circulando entre os veículos, foi a de reconhecer os que tinham mais peças originais no meio de centenas de fuscas incrementados e modificados, alguns à venda.

Já fui a muitos encontros de motociclistas (veículo que mora no meu passado e nos meus sonhos aventureiros) e de carros vintages. Essa foi a primeira visita a uma reunião de modelos de automóveis antigos de uma única montadora.

Além dos fuscas também havia no local outros veículos da marca: variants, brasílias, TCs, TLs e muitas kombis. Com direito a stands vendendo peças e produtos raros dos modelos.

Não sei você, como se sentiria. Fui teletransportada para um mundo num tempo paralelo, onde tudo era mais fácil e, principalmente, durável. Como já foi a vida.

Por aqui, hoje, ela passa supersônica e, algumas vezes, não deixa rastros. Como no caso do teste do motor do foguete planejado para levar os homens ao espaço que explodiu outro dia...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Bom tempo


Bom tempo

Texto e foto de Valéria del Cueto

Depois de um verão para lá de quente parece que deu uma refrescada! Por vários meses até os animais sumiram de circulação.

Só conseguia detectar o ciciar das cigarras anunciando o bom tempo, o coaxar da saparada de noite e, claro, uma quantidade incrível de mosquitos que dominava o ambiente mal o sol se escondia.

Bastava chegar a primeira sombra atrás da linha da vegetação da morraria e lá estavam eles. Grandes, médios e os mais microscópicos e doídos, os donos das noites encaloradas...

Vi a primeira mudança quando detectei as lagartas se fartando na samambaia da varanda, apelidada de latifúndio. Uma ironia referente a seus poucos metros quadrados. A maioria é ocupada por plantas que me acompanham há vários anos. Incluindo uma chorona que, diz a lenda, tem a minha idade!

Confesso que eliminei várias lagartas comilonas de diversos tamanhos, impedindo a metamorfose de algumas borboletas.

Entre elas e as plantas que vieram da casa da minha avó, passaram pelo apartamento do Leme, depois foram para Araras e, agora, habitam o pé da serra, adivinha? Preferi zelar pela saúde das antigas companheiras.

O tempo anda firme, porém mais ameno. O que atraiu, por exemplo, as formigas de várias tribos e periculosidades.

Elas passaram a circular intensamente no deque se arriscando a passear pela canga em que gosto de me deitar apoiada numa pedra para ler embalada pelo barulho das águas do rio correndo entre as pedras.

Não satisfeitas em devorarem as plantas específicas, como as folhas das Lágrimas de Cristo (até hoje não floriram, então, não sei se as flores são brancas ou vermelhas), começaram a expandir suas moradas. No gramado o combate à expansão imobiliária dos formigueiros passou a ser incessante.

A natureza está despertando depois desse verão tórrido?

Que o digam os morcegos e seus rasantes no final do dia. Começaram a ser assunto constante nas conversas pelos arredores. Os moradores relatam a ocupação e os problemas causados nos telhados.

Quando não é morcego, são os gambás. Um vizinho até achou bonitinho saber que tinha um instalado no forro da sua casa. Até a hora que descobriu que os habitantes haviam se multiplicado. Era, agora, uma família. E numerosa!

Outro dia, a gatinha da casa em frente estava ressabiada, rodeando sem chegar no cômodo onde costuma dormitar durante o dia.

Bastou uma inspeção cuidadosa para parecer a ponta de um rabo perto da porta. Debaixo do sofá surgiu uma cobra com pinta de coral. Depois, devidamente anaquilada e analisada, concluíram que era falsa. O susto foi grande!

Nem todos os animais são peçonhentos ou perigosos.

Além das borboletas, os passarinhos também estão mais animados e cantadores.

Volta e meia um confunde a orientação do voo e dá um encontrão nos vidros das janelas. Eles se iludem com as árvores próximas refletidas. Já descobri que a ilusão de ótica aumenta se as cortinas estão abertas. Por isso, as mantenho semicerradas.

No rio que limita a casa tem mais movimento de peixes médios e peixinhos passeando entre as corredeiras.

A novidade é um cágado que escolheu uma pedra para lá da curva, margeando a estrada, para tomar sol todas as manhãs. Arisco, é muito difícil ele deixar registrar sua presença. Ainda não desisti da missão, apesar de nossos horários estarem desconectados. Ele chega cedo e eu durmo até tarde.

O cágado é tão rápido quanto os lagartos que habitam a toca perto da garagem. Não são tão grandes quanto os teiús que circulam pela rua não asfaltada na lateral da casa, nem tão pequenos quanto as lagartixas que cultivo e respeito profundamente.

Outro dia vi que a família dos lagartos também está crescendo. Um filhote passou raspando entre as rodas de pedra do antigo moinho desativado, guardadas como recordação na entrada da oficina ao lado da garagem.

Agora, com o outono pela metade a vida volta a pulsar no pé da serra, não tão forte quanto antigamente.

Já foi confirmado, constatado e concluído que o El Niño está chegando. Teremos (mais)um inverno aquecido e com temperaturas acima da média.

Pensando bem, nos últimos anos sempre tem algum elemento que garante o aumento da temperatura no planeta, já reparou?

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

segunda-feira, 27 de abril de 2026

A vez de um até logo, Mato Grosso


A vez de um até logo, Mato Grosso (espero)

Texto e foto de Valéria del Cueto

“Prometer e não cumprir é pior do que mentir”. O verso que abria o jingle da campanha de Roberto França à prefeitura de Cuiabá, em 1988, entranhou na minha mente e virou lema nas andanças da vida.

Aprendi a não fazer promessas vãs e descobri que as piores promessas não cumpridas são as que fazemos a nós mesmos.

É para não cair de forma irrevogável no quesito missão não realizada que deixei de lado as comemorações do dia do Santo Guerreiro, São Jorge da Capadócia.

Vim correr atrás das palavras que compõem o último texto antes da pausa da Revista Ruído Manifesto, prevista para começar no mês de maio. Não há prazo definido de quando a aventura, idealizada pelo jornalista e escritor Rodivaldo Ribeiro, deixará de ser uma “já teve” e voltará para quem sabe, ser uma surpreendente “voltamos a ter” em Cuiabá.

Aprendi a teoria do “já teve” com a crítica de artes Aline Figueiredo. Ela me ensinou ser esta uma particularidade da capital de Mato Grosso que já teve de um tudo! “Já teve e, agora, não tem mais...” complementava com uma enxurrada de exemplos irrefutáveis nossa maior expressão em análise e reconhecimento do que há de mais relevante nas artes plásticas no centro-oeste e no país.

Se o assunto é literatura, a expressão também se aplica e se replica de forma acelerada.

Quando soube da parada da Ruído Manifesto, gentilmente alertada pelo editor da coluna Crônicas do Sem Fim, Wuldson Marcelo, caiu a ficha da perda de importantes disseminadores da cultura local nos últimos tempos.

A incrível iniciativa de Rodivaldo foi para o mesmo patamar do Tyrannus Melancholicus, capitaneada pelo imortal da Academia de Letras Mato-grossense, Lorenzo Falcão, contabilizei chorosa. Ao que Wuldson acrescentou o Cidadão Cultura e a Revista Pixé, pilotada por outro imortal, Eduardo Mahon.

Quer saber, leitor amigo? Está doendo. No meu caso lá se vão duas fontes de distribuição do material do Sem Fim. Textos, fotos, vídeos... Fiquei sem o piado do passarinho e espero que, momentaneamente, sem a Ruído. Teimosa, sigo me manifestando!

Como sou otimista por natureza, enquanto espero que a pausa sonora seja apenas uma pausa, tento racionalizar. Avalio (chutando) que esse sumiço das publicações culturais seja apenas uma mudança de formato da maneira de disseminar a criatividade, as ações e nosso conjunto alegórico cultural.

O que virá agora? Essa é a pergunta que não quer calar e, claro, não sei responder enquanto converso, do outro lado do universo com o responsável, depois de um embate de gigantes, pela criação da coluna Crônicas do Sem Fim, Rodivaldo Ribeiro.

Repito de novo o que já contei em outro texto, mas faço questão de registrar na crônica pré-pausa: eu, correspondente do Diário de Cuiabá para assuntos carnavalescos cariocas; Rodivaldo, editor do caderno Ilustrado. Véspera de carnaval, texto e fotos enviados ao jornal e um passarinho me conta que os planos do responsável pelo caderno eram que a capa do caderno fosse um festival de rock!

Tomei uma atitude que normalmente não faz parte do meu repertório. Apelei às instâncias superiores. Afinal, meses de trabalho produzindo fotos, acompanhando os ensaios técnicos na Sapucaí, não poderiam ser desperdiçados assim.

Capa realinhada, expliquei os meus motivos ao editor do caderno, certa de que ele não perdoaria a interferência. Lêdo engano... Rodivaldo deixou o Diário um tempo depois. Foi para outro veículo e, mais tarde, lançou seu projeto, tão especial, a Ruído Manifesto.

Qual não foi minha surpresa ao receber sua ligação com o convite para publicar meu material na revista eletrônica? E mais: para manter uma coluna, a qual ele deu o nome de Crônicas do Sem Fim, seguindo a linha inicial das águas que percorro.

Fizemos planos, muitos planos que se perderam subitamente quando ele partiu. Ângela Coradini primeiro e, depois, Wuldson Marcelo passaram a fazer a ponte editorial da coluna.

Graças a Ruído Manifesto, os textos, fotos e vídeos que compõem o universo do Sem Fim se expandiram chegando onde a revista fez barulho até agora. E foi longe! Tanto no Brasil como no exterior.

AS boas notícias foram as de que “é uma pausa” e que o site continuará ativo, com a íntegra do material publicado por todos nós que fizemos parte do sonho de expandir a cultura brasileira para o mundo, partindo, (que ousadia1) de Cuiabá, Mato Grosso...

A Ruído Manifesto, pausa, mas não se cala. Seus participantes seguem o fluxo das águas, unidos pelos fios tramados nos últimos 9 anos na rede idealizada com tanto amor e realizada por tantas mãos.

No meu caso, sigo no rumo do Sem Fim, acumulando afetos, textos e imagens publicadas em outros veículos parceiros enquanto, como tantos, aguardo de novo o chamado da Ruído, sempre manifesto...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

 



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