Esse ano aconteceu um fenômeno na Marquês de
Sapucaí. O título de campeã do Grupo Especial do carnaval carioca é da
Viradouro que homenageou seu mestre de bateria, Ciça.
Todo mundo ficou feliz com a justa homenagem ao
sambista, cria do Estácio e tantas vezes campeão. Ele era o mestre da Bateria,
por exemplo, do primeiro e único campeonato do Especial da Estácio de Sá, em
1992.
Ciça jogou nas 11 no desfile em sua homenagem.
Estava na comissão de frente, passou pelo casal que conduz o pavilhão vermelho
e branco de Niterói e, depois, partiu de moto para o início do desfile,
repetindo o feito de 2007 de colocar seus ritmistas no alto do último carro
alegórico, como havia feito em 2007, com o carnavalesco Paulo Barros.
Quase aos 70 anos o Caveira, como é conhecido pelos
amigos, tomou o maior susto quando o enredo da Viradouro, de Tarcísio Zanon e
pesquisa de João Gustavo Melo, foi anunciado na quadra ano passado.
A luz cenográfica da pista, utilizada pelas
escolas, continua em evolução, com acertos e erros. A maior novidade de 2026
foi a digitalização do som da avenida.
Se nas posições de ponta das escolas filiadas à
Liesa houve um raro consenso, o mesmo não dá para dizer das polêmicas
envolvendo o enredo da estreante no grupo, a Acadêmicos de Niterói, com Do alto
do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil.
A agremiação caiu, mas causou. E serviu para
mostrar como tem gente que não entende nada de carnaval, mas quer dar pitaco no
trabalho alheio. O besteirol ocupou e alavancou as redes sociais.
Reclamaram da “politização” do carnaval, como se
essa fosse a primeira vez que a comunidade do samba abordasse esse tipo de
viés.
Muitos viraram censores, outros claramente não
conheciam a poesia de Dorival Caymmi que diz “quem não gosta de samba, bom
sujeito não é. É ruim da cabeça, ou doente do pé”.Para desagrado dessa turma sem inspiração e
conhecimento do processo carnavalesco, passou pela avenida mais um samba
popular.
A Acadêmicos de Niterói caiu, mas deixou sua marca
na pista onde o presidente, quase vaiado pelos conservadores nos camarotes,
ouviu a resposta dos setores populares que pediam “sem anistia” enquanto a
agremiação se despedia do Grupo Especial.
A União de Maricá, vencedora da Série Ouro,
substitui a última colocada em 2027
ORDEM DO DESFILE DAS CAMPEÃS –
Mangueira, Imperatriz, Salgueiro, Vila, Beija-Flor e Viradouro.
Quem abre o desfile é, novamente, a
Mangueira. Ficou em sexto lugar com o enredo sobre Mestre Sacaca, do Amapá.
Perdeu décimos na comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira, enredo e
samba.
A Imperatriz Leopoldinense, de Leandro
Vieira (campeão da Série Ouro com a União de Maricá) ficou com na quinta
posição com “Camaleônico”, homenageando Ney Matogrosso, é a segunda escola a
desfilar nas Campeãs. Em 2027 terá de escolher uma das duas agremiações para
ser carnavalesco, assim como o coreógrafo Patrick Carvalho. A comissão de
frente, mestre-sala e porta-bandeira e o samba-enredo foram penalizados na
escola de Ramos.
O Salgueiro vem a seguir cantando a
mestra que fez tantos amarem a festa, Rosa Magalhães. Foi justamente esse verso
que tirou dois décimos do samba enredo e outro em alegoria e adereço.
Vila Isabel e a Beija-Flor perderam um
décimo cada, ficando com 269,9. A Vila, cantando o sambista e pintor Heitor dos
Prazeres, parceiro de Noel Rosa, perdeu o campeonato no quesito harmonia e
ficou na terceira posição pela ordem de abertura de envelopes.
A Beija-Flor, que tentava o Bi com
Bembé do Mercado, viu seu sonho ficar para 2027 com a perda de um décimo em
alegorias e adereços, quesito que costuma ser forte na agremiação de Nilópolis.
A noite das campeãs será encerrada pela
campeã do carnaval 2026. Com 270 pontos, a Viradouro de Niterói
levantou a Sapucaí homenageando Ciça. Cria
do morro de São Carlos foi passista, mestre-sala e quem há anos atua como
mestre de bateria.
O desfile das Campeãs do RJ será transmitido no
sábado, na TV globo e Globoplay no streaming a partir das 21h,
horário de Brasília.
Fotos de Valéria del Cueto protegidas pela lei 9610/1998
Quem samba seus males encanta
Sapucaí, templo de saberes e dizeres
Texto e fotos de Valéria del Cueto
Sob os arcos da Apoteose no final da Marquês de Sapucaí, no centro do Rio de Janeiro, passarão mais uma vez os protagonistas do maior espetáculo popular do planeta. O desfile das escolas de samba, carro-chefe do carnaval carioca, monopoliza a cidade, viraliza pelas redes sociais e na transmissão mundial de suas imagens.
A folia movimenta a economia. Atrai turistas do mundo inteiro e injetará nessa temporada recursos estimados em mais de 5,7 bilhões, projeta a Riotur. Gera empregos, estimula o empreendedorismo e alavanca ações de grandes marcas.
Em ano de Copa as cores do Brasil retomadas por quem de direito: o povo brasileiro.
O que move a festa é uma incrível mistura de sensações concentradas nos 800 metros da pistado Sambódromo idealizado por Oscar Niemeyer.
Para fazer o encanto funcionar, pelo menos 12 componentes, um de cada escola de samba do Grupo Especial, deverão ser acrescentados à poção mágica que será refinada no templo do carnaval.
Heitor dos Prazeres e seus protetores. Xangô e Oxum na comissão de frente da Vila
No caldeirão de emoções serão depurados, nas três noites de apresentações, de domingo a terça-feira, os seguintes ingredientes: a força da raiz, a resistência do caranguejo, muitas doses de essência, o poder da mandinga e o ponto da encruza.Misture com notas variadas de ritmo, uma enxurrada de palavras e as cores infinitas da aquarela. Tempere tudo com pitadas de imaginação, um toque de desbunde, acrescente respingos de loucura, a esperança concentrada de milhares de foliões e... evoé!
Temos mais uma disputa no Desfile de Escolas de Samba.Pela ordem, vamos às concorrentes.
Lula, tema da estreante Acadêmicos de Niterói e polêmica nas redes.
Domingo, 15 de fevereiro
A estreante na Sapucaí abre a primeira noite de disputa. Vem cercada de polêmica. É a campeã da Série Ouro, a Acadêmicos de Niterói. O enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, do carnavalesco Tiago Martins, gerou controvérsias nas últimas semanas. Demorou a cair a ficha. Foi anunciado no meio de 2025. O ingrediente para o encanto que a escola traz é a ESPERANÇA. Está presente no título do tema, na letra do samba, a carta de Dona Lindu, narradora da saga de seu filho que virou presidente da República, e na vida dos brasileiros.
A Imperatriz Leopoldinense ocupa a pista e dá seu toque de DESBUNDE em outra homenagem. Dessa vez sobre uma personalidade transgressora. Ney Matogrosso é o “Camaleônico”, de Leandro Vieira. O projeto não é biográfico. Viaja na parte musical e visual do cantor.
“O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande” traz a ESSÊNCIA do nascimento do batuque gaúcho e Custódio Joaquim de Almeida, o príncipe do Benin com sua corte no Rio Grande do Sul, aposta do carnavalesco André Rodrigues na Portela.
Matheus e Cintya, com o pavilhão da Mangueira apresentam Mestre Sacaca e a Amazônia Negra do Amapá
Do extremo sul vamos ao extremo norte no desfile da última escola da primeira noite de competição. Vem do Amapá a RAIZ dos fundamentos das rezas que conectam Benedita de Oliveira, do Morro de Mangueira, a “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju - O Guardião da Amazônia Negra”, no enredo do paulista Sidnei França na verde e rosa.
Segunda, 16 de fevereiro
O carnavalesco Renato Lage invoca as LOUCURAS com “Rita Lee, a padroeira da liberdade”. Qual será a proposta do coreógrafo Marcelo Misailidis? Ano passado ele ousou reduzir a alegoria da comissão de frente, acabando com o trambolho que atrapalha a visão da cabeça do cortejo. Tomara que a Mocidade Independente de Padre Miguel tenha feito escola!
Quem vai para ENCRUZA na sequência é a Campeã de 2025, a Beija-Flor de Nilópolis, querendo o Bi com “Bembé”, primeiro enredo que não é sobre uma personalidade! João Vitor Araújo aborda a celebração afro-religiosa que acontece há mais de 130 anos no Recôncavo Baiano.
Ciça, o Caveira, mestre da bateria e enredo da Viradouro
Voltando ao COMPASSO das homenagens a Viradouro embarca na proposta de Tarcísio Zanon e dá flores em vida a seu próprio maestro. O título “Pra cima, Ciça” já diz tudo. O ex-passista e mestre-sala vai repetir o feito de 2007 evoluindo com seus ritmistas no alto de um carro alegórico. Tendo o privilégio de escolher sua rainha, trouxe à Sapucaí a atriz Juliana Paes que o acompanhava há duas décadas.
Segurança: demanda na pista, no entorno da Sapucaí e no país
Fecha a segunda noite a PALAVRA da escritora do livro “Quarto de Despejo” na Unidos da Tijuca. “Carolina Maria de Jesus” percorre o mundo sofrido da autora no enredo de Edson Pereira. O samba clama por mudar a história da escola do Borel buscando na comunidade a força para vencer novamente um campeonato.
Terça 17 de fevereiro
O Paraíso do Tuiuti viaja a Cuba para mostrar um culto afro-religioso yorubá oriundo da ilha e disseminado no Brasil, “Lonã Ifá Lukumi”. A MANDINGA proposta por Jack Vasconcelos se baseia no livro do pesquisador Nei Lopes. É entoada divinamente por Pixulé (sério candidato às premiações de melhor intérprete) e desafia o critério do julgador que ano passado canetou e rebaixou a Unidos de Padre Miguel por uso de palavras no idioma africano.
Mayara Lima, rainha do Tuiuti e das coreografias virais
Se já estava bom, vai ficar melhor com o aclamado samba da Vila Isabel sobre Heitor dos Prazeres. Em “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, Leonardo Bora e Gabriel Haddad pintam uma AQUARELA dos primórdios do samba e de memórias do Rio de antigamente. Na bateria do Mestre Macaco Branco, o naipe de tamborins, dirigido por Thalita Santos, traz de volta os instrumentos originais em formato quadrado.
Vilma Nascimento, o Cisne da Passarela, e Manoel Dionísio, criador da escola de mestre-sala e porta-bandeira, a nobreza do bailado na Vila de Heitor dos Prazeres
Vice-campeã em 2025, a Grande Rio tem um novo carnavalesco, Antônio Gonzaga. “A Nação do Mangue” exalta o movimento inspirado no homem-CARANGUEJO e sua resiliência. Tem Chico Science e o Mangue Beat pernambucano pulsando na levada da bateria de Mestre Fafá.
A disputa se encerra com “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”. A IMAGINAÇÃO de Rosa Magalhães, maior campeã da Sapucaí, que nos deixou em 2024, é explorada por Jorge Silveira e a comunidade do Salgueiro partindo de uma biblioteca.
A iluminação amplia recursos como pinturas corporais fluorescentes
Com a mestra que fez tanta gente amar a festa fechamos a lista de ingredientes integrantes do feitiço que produz o sumo do imaginário carnavalesco a ser exposto pelo povo do samba nos três dias de desfile do carnaval 2026 na Sapucaí. Como o encantamento funcionará?
Saberemos na quarta-feira, com a apuração dos resultados! Poderemos provar novamente seu efeito no Sábado das Campeãs, semana que vem...
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Texto da série “É carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
Na Super Som do Tuiuti, molho de salsa e merengue cubano.
Ordem dos desfiles:
Domingo 15/02 – Acadêmicos de Niterói, Imperatriz, Portela, Mangueira
Segunda 16/02 – Mocidade, Beija-Flor, Viradouro, Unidos da Tijuca
Terça 17/02 – Paraíso do Tuiuti, Vila Isabel, Grande Rio e Salgueiro
Transmissão: TV Globo e Globoplay às 22h. Dica de comentários: sintonize o áudio na Tupi.fme na Rádio Arquibancada
Consegui! Cheguei na praia. Por
incrível que pareça, a primeira de 2026. Antes, só caminhadas pela orla. Resultado:
escassez de crônicas, incluindo as carnavalescas.
Agora não dá mais pra enrolar.
O tempo melhorou e, como dizia Giovanne Improta, personagem de José Wilker, “O
tempo ruge e a Sapucaí é grande”. Ruge e fica concentrado. Em três finais de
semana teremos passagens das 12 escolas de samba do Grupo Especial pela pista
três vezes.
Faz a conta comigo: dois com
ensaios técnicos de todas as agremiações do Especial, incluindo testes de som e
luz do sambódromo, mais o desfile oficial e a passagem das quinze escolas da
Série Ouro, o grupo de acesso, de sexta a terça-feira do carnaval. Bota na
lista o cortejo de lavagem da pista e parte do grupo das crianças.
A outra parte desfila na sexta-feira,
antes do Desfile das Campeãs, no sábado depois do carnaval, com as seis escolas
melhores classificadas no Desfile Oficial. Contando com as Campeãs, teremos,
então, mais um final de semana. Quatro no total!
Como dizia Vinícius de Morais, “é
preciso peito de remador” para aguentar esse rojão e viver um grande amor...
Antigamente parte dessas
atividades eram distribuídas em deliciosos finais de semana desde o dia Nacional
do Samba, 2 de dezembro, até o carnaval. Agora, como tudo na vida, o calendário
carnavalesco ficou compacto e extenuante. A resposta que dou a esse excesso de
atividades é ficar seletiva, deixando de lado uma qualidade que parece extinta:
a contemplação.
Falei em excesso de atividades?
Então vamos acrescentar na nessa listinha, que parece uma corrida maluca
iniciada com a abertura do Fan Fest Rio Capital do Carnaval no dia do padroeiro
da Cidade Maravilhosa, São Sebastião, 20 de janeiro, o encontro de 1243
ritmistas na praia de Copacabana. A Super Bateria entrou para o Guinness, o livro
dos recordes.
Foi apenas a abertura da
programação que o Rio Carnaval preparou para mostrar o que é e como se prepara “o
maior espetáculo da Terra”. Tudo gratuito, mediante a inscrição no aplicativo
do evento.
Junto, foi dada a largada dos
desfiles dos 462 blocos cadastrados na programação da prefeitura para se
apresentarem no centro da cidade e em vários bairros cariocas. Fora aqueles que
saem no susto, em desfiles paralelos, tipo flash mob, marcados em cima da hora!
A região do Saara, a 25 de
março local, fervilha de foliões e turistas em busca de fantasias e acessórios
carnavalescos. A novidade é uma tiara de cabelo feita com fios, adereço que
parece uma touquinha com penduricalhos de enfeites.
As redes sociais estão lotadas
de imagens e sugestões para a folia. Quem não curte carnaval está lascado!
Muito mais do que quem não dá a mínima às estrepolias do BBB e fica aturando
aquele monte de tolices entre os cortes dos ensaios de rua, discussões sobre
enredos, sambas, barracões e os últimos preparativos dos desfiles.
Incluindo a chegada (pra lá de
atrasada) dos recursos para finalizar os trabalhos das escolas de samba. A
prefeitura só liberou a verba esse ano e o alcaide recebeu os sinceros (?) e
públicos agradecimentos das agremiações contempladas. Como se o aperto dos
trabalhadores fosse uma coisa normal! O campeão da maldade e maior patrocinador
da festa, com R$ 40 milhões, foi o governo do estado.
Cláudio Castro, o governador,
que é evangélico, fez o povo do samba pagar todos os seus pecados antes de
liberar a verba para o evento que traz mais lucros para o poder público no
calendário turístico anual com seus 6 milhões de visitantes e a previsão de vultuosos
R$ 5,7 bilhões movimentando a economia.
A indústria do carnaval
continua sendo tratada como produto de segunda categoria por quem não respeita
nossos organogramas de desenvolvimento de projetos e cronogramas de pagamentos.
O dindin estadual foi liberado 29 de janeiro, 14 dias antes do desfile.
Se está ruim para as grandes,
imagina para as agremiações dos grupos inferiores. As maiores escolas ainda têm fôlego para
segurar a onda. Mas pensa nos grupos de acesso da Sapucaí e nos que desfilam na
Intendente Magalhães. Um verdadeiro desastre na organização das entidades é provocado, ano a ano, pelo atraso na liberação dos repasses. Quanta maldade. E ninguém pode
reclamar, é claro...
Parece que as forças superiores
concordam comigo. Enquanto escrevia no quadrado que ocupo na canga esticada na
areia de Ipanema, as nuvens chegaram correndo pelo céu, antes azul. O vento agita
as folhas do caderninho.
Nem me mexo, a chuva que virá
será um treino para os dilúvios que ano sim e outro também (com raras exceções),
costumamos enfrentar na Sapucaí. Estou apenas preparando minha imunidade corporal.
Vem carnaval, mas sem areia,
por favor...
*Valéria del Cueto é jornalista
e fotógrafa. Crônica da série “É carnaval” do SEM
FIM... delcueto.wordpress.com
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(C)2025 Valéria del Cueto, all rights reserved. Imagem protegida pela lei 9610/1998
Beija-Flor carnaval 2025 desfile 250303
A Beija-Flor foi a segunda escola a se apresentar na segunda-feira, dia 3 de março de 2025, segunda noite dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial carioca, no Sambóromo da Marquês de Sapucaí, Rio de Janeiro.
O enredo "Laíla de Todos os Santos, Laíla de Todos os Sambas", do carnavalesco João Vitor Araújo,
deu à escola de Nilópolis o título de Campeã do Carnaval carioca.
Agradecimentos aos componentes da Beija-Flor de Nilópolis, à Liesa, Rio Carnaval e Riotur.
Imagens de Valéria del Cueto / acervo carnevalerio.com
Ensaio fotográfico e vídeos publicados nas plataformas @delCueto
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Se os desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro,
transmitidos para o mundo inteiro, são caixas de ressonância que fazem ecoar as
questões abordadas nos enredos, por que não cantar a ancestralidade, suas
epopeias mitológicas e as influências no modo de vida material e espiritual de
quem produz e protagoniza o espetáculo?
Tem gira na pista e em dez dos doze enredos das escolas de samba
do Grupo Especial do carnaval carioca 2025. Os temas valorizam nossas raízes
africanas alertando sobre o crescente e alarmante aumento da intolerância no
país.
A vida como ela é - Nada de novo no universo das comunidades
do samba. São compostas pelo povo preto periférico que sofre com a dura
realidade e arbitrariedades em seu cotidiano.
Um exemplo são os terreiros proibidos de funcionarem em áreas
dominadas por evangélico/traficantes. O Complexo de Israel tem até bandeira daquele
país hasteada, na zona norte do Rio.
É uma hipótese para a predominância, no maior espetáculo popular
do planeta, de enredos sobre as tradições afro-indígenas religiosas. As
exceções são a Mocidade Independente e a Vila Isabel.
Mudanças estruturais – Há novidades na dinâmica do espetáculo promovido pela Liesa, a Liga das Escolas de Samba. Serão
três noites de disputa. De domingo a terça de carnaval quatro escolas passarão
pela Sapucaí seguidas de rodas de samba na praça da Apoteose.
Haverá alteração no número de cabines de jurados. Voltam a ser
quatro. Duas de cada lado, distribuídas ao longo da pista. O julgamento também
foi modificado. As notas não serão fechadas ao final de todas as apresentações,
mas após cada noite de desfile. Que diferença o novo formato faz? Veremos. Só
saberemos o resultado das mudanças após a abertura dos envelopes na apuração.
De arquibancada
- Essas e outras questões estiveram na boca do povo do samba que
bateu ponto na Sapucaí nos ensaios técnicos gratuitos, em 2025. Atire a
primeira serpentina quem não deu pitaco sobre a iluminação cenográfica. A que
transforma o visual das apresentações e acrescenta novos desafios estéticos à concepção
do espetáculo.
Os desenhos de luz se refletirão na avaliação dos quesitos? Como julgar,
por exemplo, o acabamento de fantasias e alegorias em meio ao pisca-pisca psicodélico
que esconde os detalhes das peças elaboradas pelos artesãos do carnaval?
Para aprimorar - As soluções de problemas
estruturais como o som da avenida, a segurança dos foliões no entorno do
sambódromo e a melhoria das condições de trabalho na indústria do
carnaval seguem em construção, apesar da urgência e relevância das
demandas.
Mas, como já dizia o samba consagrado, “o show tem que continuar”.
E, como “ainda estamos aqui”, a disputa pelo campeonato vai ser boa. Terá um
tempero especial: domingo tem Oscar, com Fernanda Torres e o filme sobre Rubens
Paiva concorrendo em três categorias. Vamos firmar o Xirê (roda ou dança
utilizada para evocação dos Orixás) e chamar os orixás! A vida presta e o
carnaval contagia...
Domingo, 02 de
março
A Unidos de Padre Miguel, campeã da Série Ouro em
2024, começa a gira com o enredo "Egbé Iya Nassô" dos carnavalescos Alexandre
Louzada e Lucas Milato. Canta o mais antigo terreiro de candomblé do Brasil, em
Salvador. A escola da Zona Oeste abre os caminhos e pede passagem: “Vila
Vintém é terra de macumbeiro. No meu Egbé, governado por mulher, Iyá Nasso é rainha do candomblé”
Após décadas sem enredos afros, a Imperatriz Leopondinense,
atual vice-campeã, embarca na proposta de Leandro Vieira: “Ómi Tútu ao Olúfon
- Água fresca para o senhor de Ifón”, um itan (lenda) sobre as peripécias da viagem de
Oxalá ao reino de Xangô. “Vai começar o itan de Oxalá, segue o cortejo
funfun...”
A Viradouro, de
Niterói,tenta o bi com “Malunguinho, o
mensageiro de três mundos”.
A mata, os mistérios da jurema e da encruzilhada compõem o enredo afro-indígena
de Tarcísio Zanon. Ele apresenta a entidade que é “O rei da mata que mata
quem mata o Brasil”.
A Mangueira trouxe
de São Paulo o carnavalesco Sidnei França para exaltar seus crias e a
influência do povo banto na cultura carioca e brasileira. “À Flor da Terra -
No Rio da Negritude Entre Dores e Paixões” projeta no contexto atual os saberes da negritude:
“O povo banto que floresce nas vielas, orgulho de ser favela”.
Segunda, 03 de
março
Na Unidos da Tijuca o samba conta com pesos pesados na
parceria encabeçada pela cantora Anitta. Desenvolvido por Edson Pereira, “Logun-Edé:
Santo Menino Que Velho Respeita”,
homenageia o orixá filho de Oxum e Oxóssi. “Eu não descanso depois da
missão cumprida, a minha sina é recomeçar...”
“Laíla de Todos os
Santos, Laíla de Todos os Sambas”, de João Vitor Araújo, chama à Sapucaí, mais uma
vez, o lendário sambista, carnavalesco e produtor musical autodidata, peça fundamental em vários campeonatos da Beija-flor. A
nação nilopolitana se despede de Neguinho da Beija-flor, que se aposenta, e roga
ao homenageado: “Volta e me dá os caminhos, conduz outra vez meu destino...”
“Macumbeiro, mandingueiro, batizado no gongá, quem
tem medo de quiumba não nasceu pra demandar. Meu terreiro é a casa da mandinga,
quem se mete com Salgueiro acerta as contas na curimba”. A parceria de
Xande de Pilares embala “Salgueiro de corpo fechado”, proposta do carnavalesco Jorge Silveira. Recado
dado...
O enredo de Paulo Barros “Quanto mais eu
rezo, mais assombração aparece”, na Vila
Isabel, foge da temática afro-indígena na safra 2025. Sai a macumba
e... “Solta o bicho, dá um baile de alegria. É o povo do samba virado na
bruxaria”
Terça, 04 de março
A Mocidade Independente de Padre Miguel abre
a última noite de desfiles. O enredo da dupla Renato e Márcia Lage (que nos
deixou no início do ano), “Voltando para o
futuro não há limites pra sonhar”, também foge da linha africana. “Quando o futuro
voltar, a juventude vai crer que toda estrela pode renascer”.
“Quem tem medo de
Xica Manicongo?”,
de Jack Vasconcelos, apresenta a primeira travesti do Brasil, fichada pelo Santo
Ofício. O Paraíso do Tuiuti terá o reforço de personalidades como
Eloína, pioneira no posto de rainha de bateria, e a deputada Erika Hilton.
Somam-se num protesto contra a discriminação, a homofobia e violência no país
que mais mata LGBTQIA+ no mundo. “Que o Brasil da terra plana, tenha consciência humana, Chica vive na fumaça”
"Pororocas
parawaras: as águas dos meus encantos nas contas dos curimbós". O samba da Grande Rio, da parceria de
Mestre Damasceno, veio das eliminatórias realizadas em Belém. Leonardo Bora e
Gabriel Haddad trazem do Pará a lenda de três princesas
turcas e encantarias da Amazônia. Paolla Oliveira se despede do reinado na bateria
de Mestre Fafá. “É força de Caboclo, Vodun e Orixá. Meu povo faz a curva
como faz na gira...”
Mando várias fotos
pra dar pra brincar com a diagramação. Claro que não consegui me decidir. Não é
preciso usar todas, nem na ordem. Fica a critério do Edson...
Uma matéria só como
fizemos ano passado.
A matéria é dividida
em: introdução, domingo, segunda e o box com a ordem dos desfiles, se couber.
Fotos:
Foto 01 – Topo
rasgada título na parte superior, no céu da Apoteose
ET Viradouro 250215
234 Ala da baianas componentes Apoteose boa
Título - Xirê na Sapucaí
Sub-título – Tem gira na passarela
do samba
Foto 2- ET Tuiuti 250201 153 Abre alas alegoria destaque leque fashion
Legenda – Tuiuti e o primeiro enredo LGBTQIA+ do Especial. Quem
tem medo?
Foto 3 - ET G Rio 250201 098 Ala
componentes adereços bamboles boa
Legenda – O colorido exuberante do carimbó na Grande Rio
Foto 4 – ET Mangueira 250201 071 CF componentes menino da Mangueira coroa
boa
Legenda – Os crias, herdeiros do povo banto, reinam na Mangueira
Foto 5 – ET B Flor 250201 010 CF componentes Exu boa
Legenda – Exu garante caminhos abertos na Sapucaí
Foto 6 - ET Tuiuti 250201 142 torcida frisas boa
Legenda – Na torcida, o amor e paixão carnavalesca
Foto 7 - ET Imp Leo 250215 103 Ala componente boa adereço coroa cut
Legenda – O povo do samba reina no quilombo da alegria
Foto 8 - ET Vila 250208 204 Destaque boa
Legenda – Um assombro a musa da Vila Isabel
Foto 9 - ET Portela 250208 078 Abre alas Águia CF componentes pista geral
boa
Legenda – Nas asas da águia portelense, a homenagem a Milton
Nascimento
Foto 10 - ET Portela 250208 176 Ala componente boa
Legenda – Girasssóis da Portela no caminho de Bituca
Se os desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro, transmitidos para o mundo inteiro, são caixas de ressonância que fazem ecoar as questões abordadas nos enredos, por que não cantar a ancestralidade, suas epopeias mitológicas e as influências no modo de vida material e espiritual de quem produz e protagoniza o espetáculo?
Tem gira na pista e em dez dos doze enredos das escolas de samba do Grupo Especial do carnaval carioca 2025. Os temas valorizam nossas raízes africanas alertando sobre o crescente e alarmante aumento da intolerância no país.
A vida como ela é - Nada de novo no universo das comunidades do samba. São compostas pelo povo preto periférico que sofre com a dura realidade e arbitrariedades em seu cotidiano.
Um exemplo são os terreiros proibidos de funcionarem em áreas dominadas por evangélico/traficantes. O Complexo de Israel tem até bandeira daquele país hasteada, na zona norte do Rio.
É uma hipótese para a predominância, no maior espetáculo popular do planeta, de enredos sobre as tradições afro-indígenas religiosas. As exceções são a Mocidade Independente e a Vila Isabel.
Mudanças estruturais – Há novidades na dinâmica do espetáculo promovido pela Liesa, a Liga das Escolas de Samba. Serão três noites de disputa. De domingo a terça de carnaval quatro escolas passarão pela Sapucaí seguidas de rodas de samba na praça da Apoteose.
Haverá alteração no número de cabines de jurados. Voltam a ser quatro. Duas de cada lado, distribuídas ao longo da pista. O julgamento também foi modificado. As notas não serão fechadas ao final de todas as apresentações, mas após cada noite de desfile. Que diferença o novo formato faz? Veremos. Só saberemos o resultado das mudanças após a abertura dos envelopes na apuração.
Na torcida, o amor e paixão carnavalesca
De arquibancada - Essas e outras questões estiveram na boca do povo do samba que bateu ponto na Sapucaí nos ensaios técnicos gratuitos, em 2025. Atire a primeira serpentina quem não deu pitaco sobre a iluminação cenográfica. A que transforma o visual das apresentações e acrescenta novos desafios estéticos à concepção do espetáculo.
Os desenhos de luz se refletirão na avaliação dos quesitos? Como julgar, por exemplo, o acabamento de fantasias e alegorias em meio ao pisca-pisca psicodélico que esconde os detalhes das peças elaboradas pelos artesãos do carnaval?
Nas asas da águia portelense, a homenagem a Milton Nascimento
Para aprimorar - As soluções de problemas estruturais como o som da avenida, a segurança dos foliões no entorno do sambódromo e a melhoria das condições de trabalho na indústria do carnaval seguem em construção, apesar da urgência e relevância das demandas.
Mas, como já dizia o samba consagrado, “o show tem que continuar”. E, como “ainda estamos aqui”, a disputa pelo campeonato vai ser boa. Terá um tempero especial: domingo tem Oscar, com Fernanda Torres e o filme sobre Rubens Paiva concorrendo em três categorias. Vamos firmar o Xirê (roda ou dança utilizada para evocação dos Orixás) e chamar os orixás! A vida presta e o carnaval contagia...
Domingo, 02 de março
A Unidos de Padre Miguel, campeã da Série Ouro em 2024, começa a gira com o enredo "Egbé Iya Nassô" dos carnavalescos Alexandre Louzada e Lucas Milato. Canta o mais antigo terreiro de candomblé do Brasil, em Salvador. A escola da Zona Oeste abre os caminhos e pede passagem: “Vila Vintém é terra de macumbeiro. No meu Egbé, governado por mulher, Iyá Nasso é rainha do candomblé”
O povo do samba reina no quilombo da alegria
Após décadas sem enredos afros, a Imperatriz Leopondinense, atual vice-campeã, embarca na proposta de Leandro Vieira: “Ómi Tútu ao Olúfon - Água fresca para o senhor de Ifón”, um itan (lenda) sobre as peripécias da viagem de Oxalá ao reino de Xangô. “Vai começar o itan de Oxalá, segue o cortejo funfun...”
A Viradouro, de Niterói,tenta o bi com “Malunguinho, o mensageiro de três mundos”. A mata, os mistérios da jurema e da encruzilhada compõem o enredo afro-indígena de Tarcísio Zanon. Ele apresenta a entidade que é “O rei da mata que mata quem mata o Brasil”.
Viradouro: em busca do bi
A Mangueira trouxe de São Paulo o carnavalesco Sidnei França para exaltar seus crias e a influência do povo banto na cultura carioca e brasileira. “À Flor da Terra - No Rio da Negritude Entre Dores e Paixões” projeta no contexto atual os saberes da negritude: “O povo banto que floresce nas vielas, orgulho de ser favela”.
Os crias, herdeiros do povo banto, reinam na Mangueira
Segunda, 03 de março
Na Unidos da Tijuca o samba conta com pesos pesados na parceria encabeçada pela cantora Anitta. Desenvolvido por Edson Pereira, “Logun-Edé: Santo Menino Que Velho Respeita”, homenageia o orixá filho de Oxum e Oxóssi. “Eu não descanso depois da missão cumprida, a minha sina é recomeçar...”
“Laíla de Todos os Santos, Laíla de Todos os Sambas”, de João Vitor Araújo, chama à Sapucaí, mais uma vez, o lendário sambista, carnavalesco e produtor musical autodidata, peça fundamental em vários campeonatos da Beija-flor. A nação nilopolitana se despede de Neguinho da Beija-flor, que se aposenta, e roga ao homenageado: “Volta e me dá os caminhos, conduz outra vez meu destino...”
Exu garante caminhos abertos na Sapucaí
“Macumbeiro, mandingueiro, batizado no gongá, quem tem medo de quiumba não nasceu pra demandar. Meu terreiro é a casa da mandinga, quem se mete com Salgueiro acerta as contas na curimba”. A parceria de Xande de Pilares embala “Salgueiro de corpo fechado”, proposta do carnavalesco Jorge Silveira. Recado dado...
O enredo de Paulo Barros “Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece”, na Vila Isabel, foge da temática afro-indígena na safra 2025. Sai a macumba e... “Solta o bicho, dá um baile de alegria. É o povo do samba virado na bruxaria”
Um assombro a musa da Vila Isabel
Terça, 04 de março
A Mocidade Independente de Padre Miguel abre a última noite de desfiles. O enredo da dupla Renato e Márcia Lage (que nos deixou no início do ano), “Voltando para o futuro não há limites pra sonhar”, também foge da linha africana. “Quando o futuro voltar, a juventude vai crer que toda estrela pode renascer”.
Tuiuti e o primeiro enredo LGBTQIA+ do Especial. Quem tem medo?
“Quem tem medo de Xica Manicongo?”, de Jack Vasconcelos, apresenta a primeira travesti do Brasil, fichada pelo Santo Ofício. O Paraíso do Tuiuti terá o reforço de personalidades como Eloína, pioneira no posto de rainha de bateria, e a deputada Erika Hilton. Somam-se num protesto contra a discriminação, a homofobia e violência no país que mais mata LGBTQIA+ no mundo. “Que o Brasil da terra plana, tenha consciência humana, Chica vive na fumaça”
O colorido exuberante do carimbó na Grande Rio
"Pororocas parawaras: as águas dos meus encantos nas contas dos curimbós". O samba da Grande Rio, da parceria de Mestre Damasceno, veio das eliminatórias realizadas em Belém. Leonardo Bora e Gabriel Haddad trazem do Pará a lenda de três princesas turcas e encantarias da Amazônia. Paolla Oliveira se despede do reinado na bateria de Mestre Fafá. “É força de Caboclo, Vodun e Orixá. Meu povo faz a curva como faz na gira...”