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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Quem samba seus males encanta na Sapucaí, templo de saberes e dizeres

Fotos de Valéria del Cueto protegidas pela lei 9610/1998

Quem samba seus males encanta

Sapucaí, templo de saberes e dizeres

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Sob os arcos da Apoteose no final da Marquês de Sapucaí, no centro do Rio de Janeiro, passarão mais uma vez os protagonistas do maior espetáculo popular do planeta. O desfile das escolas de samba, carro-chefe do carnaval carioca, monopoliza a cidade, viraliza pelas redes sociais e na transmissão mundial de suas imagens.

A folia movimenta a economia. Atrai turistas do mundo inteiro e injetará nessa temporada recursos estimados em mais de 5,7 bilhões, projeta a Riotur. Gera empregos, estimula o empreendedorismo e alavanca ações de grandes marcas.

Em ano de Copa as cores do Brasil retomadas por quem de direito: o povo brasileiro.

O que move a festa é uma incrível mistura de sensações concentradas nos 800 metros da pista do Sambódromo idealizado por Oscar Niemeyer.

Para fazer o encanto funcionar, pelo menos 12 componentes, um de cada escola de samba do Grupo Especial, deverão ser acrescentados à poção mágica que será refinada no templo do carnaval.

Heitor dos Prazeres e seus protetores. Xangô e Oxum na comissão de frente da Vila

No caldeirão de emoções serão depurados, nas três noites de apresentações, de domingo a terça-feira, os seguintes ingredientes: a força da raiz, a resistência do caranguejo, muitas doses de essência, o poder da mandinga e o ponto da encruza. Misture com notas variadas de ritmo, uma enxurrada de palavras e as cores infinitas da aquarela. Tempere tudo com pitadas de imaginação, um toque de desbunde, acrescente respingos de loucura, a esperança concentrada de milhares de foliões e... evoé!

Temos mais uma disputa no Desfile de Escolas de Samba. Pela ordem, vamos às concorrentes.

Lula, tema da estreante Acadêmicos de Niterói e polêmica nas redes.
Domingo, 15 de fevereiro

A estreante na Sapucaí abre a primeira noite de disputa. Vem cercada de polêmica. É a campeã da Série Ouro, a Acadêmicos de Niterói. O enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, do carnavalesco Tiago Martins, gerou controvérsias nas últimas semanas. Demorou a cair a ficha. Foi anunciado no meio de 2025. O ingrediente para o encanto que a escola traz é a ESPERANÇA. Está presente no título do tema, na letra do samba, a carta de Dona Lindu, narradora da saga de seu filho que virou presidente da República, e na vida dos brasileiros.

Imperatriz Leopoldinense ocupa a pista e dá seu toque de DESBUNDE em outra homenagem. Dessa vez sobre uma personalidade transgressora. Ney Matogrosso é o “Camaleônico”, de Leandro Vieira. O projeto não é biográfico. Viaja na parte musical e visual do cantor.  

“O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande” traz a ESSÊNCIA do nascimento do batuque gaúcho e Custódio Joaquim de Almeida, o príncipe do Benin com sua corte no Rio Grande do Sul, aposta do carnavalesco André Rodrigues na Portela.

Matheus e Cintya, com o pavilhão da Mangueira apresentam Mestre Sacaca e a Amazônia Negra do Amapá
Do extremo sul vamos ao extremo norte no desfile da última escola da primeira noite de competição. Vem do Amapá a RAIZ dos fundamentos das rezas que conectam Benedita de Oliveira, do Morro de Mangueira, a “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju - O Guardião da Amazônia Negra”, no enredo do paulista Sidnei França na verde e rosa.

Segunda, 16 de fevereiro

O carnavalesco Renato Lage invoca as LOUCURAS com “Rita Lee, a padroeira da liberdade”. Qual será a proposta do coreógrafo Marcelo Misailidis? Ano passado ele ousou reduzir a alegoria da comissão de frente, acabando com o trambolho que atrapalha a visão da cabeça do cortejo. Tomara que a Mocidade Independente de Padre Miguel tenha feito escola!

Quem vai para ENCRUZA na sequência é a Campeã de 2025, a Beija-Flor de Nilópolis, querendo o Bi com “Bembé”, primeiro enredo que não é sobre uma personalidade! João Vitor Araújo aborda a celebração afro-religiosa que acontece há mais de 130 anos no Recôncavo Baiano.


Ciça, o Caveira, mestre da bateria e enredo da Viradouro

Voltando ao COMPASSO das homenagens a Viradouro embarca na proposta de Tarcísio Zanon e dá flores em vida a seu próprio maestro. O título “Pra cima, Ciça” já diz tudo. O ex-passista e mestre-sala vai repetir o feito de 2007 evoluindo com seus ritmistas no alto de um carro alegórico. Tendo o privilégio de escolher sua rainha, trouxe à Sapucaí a atriz Juliana Paes que o acompanhava há duas décadas.

Segurança: demanda na pista, no entorno da Sapucaí e no país

Fecha a segunda noite a PALAVRA da escritora do livro “Quarto de Despejo” na Unidos da Tijuca. “Carolina Maria de Jesus” percorre o mundo sofrido da autora no enredo de Edson Pereira. O samba clama por mudar a história da escola do Borel buscando na comunidade a força para vencer novamente um campeonato.

Terça 17 de fevereiro

Paraíso do Tuiuti viaja a Cuba para mostrar um culto afro-religioso yorubá oriundo da ilha e disseminado no Brasil, “Lonã Ifá Lukumi”. A MANDINGA proposta por Jack Vasconcelos se baseia no livro do pesquisador Nei Lopes. É entoada divinamente por Pixulé (sério candidato às premiações de melhor intérprete) e desafia o critério do julgador que ano passado canetou e rebaixou a Unidos de Padre Miguel por uso de palavras no idioma africano.

Mayara Lima, rainha do Tuiuti e das coreografias virais

Se já estava bom, vai ficar melhor com o aclamado samba da Vila Isabel sobre Heitor dos Prazeres. Em “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, Leonardo Bora e Gabriel Haddad pintam uma AQUARELA dos primórdios do samba e de memórias do Rio de antigamente. Na bateria do Mestre Macaco Branco, o naipe de tamborins, dirigido por Thalita Santos, traz de volta os instrumentos originais em formato quadrado.

 Vilma Nascimento, o Cisne da Passarela, e Manoel Dionísio, criador da escola de mestre-sala e porta-bandeira, a nobreza do bailado na Vila de Heitor dos Prazeres

Vice-campeã em 2025, a Grande Rio tem um novo carnavalesco, Antônio Gonzaga. “A Nação do Mangue” exalta o movimento inspirado no homem-CARANGUEJO e sua resiliência. Tem Chico Science e o Mangue Beat pernambucano pulsando na levada da bateria de Mestre Fafá.

A disputa se encerra com “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”. A IMAGINAÇÃO de Rosa Magalhães, maior campeã da Sapucaí, que nos deixou em 2024, é explorada por Jorge Silveira e a comunidade do Salgueiro partindo de uma biblioteca.

A iluminação amplia recursos como pinturas corporais fluorescentes

Com a mestra que fez tanta gente amar a festa fechamos a lista de ingredientes integrantes do feitiço que produz o sumo do imaginário carnavalesco a ser exposto pelo povo do samba nos três dias de desfile do carnaval 2026 na Sapucaí. Como o encantamento funcionará?

Saberemos na quarta-feira, com a apuração dos resultados! Poderemos provar novamente seu efeito no Sábado das Campeãs, semana que vem...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Texto da série “É carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Na Super Som do Tuiuti, molho de salsa e merengue cubano.

Ordem dos desfiles:

Domingo 15/02 – Acadêmicos de Niterói, Imperatriz, Portela, Mangueira

Segunda 16/02 – Mocidade, Beija-Flor, Viradouro, Unidos da Tijuca

Terça 17/02 – Paraíso do Tuiuti, Vila Isabel, Grande Rio e Salgueiro

Transmissão: TV Globo e Globoplay às 22h. Dica de comentários: sintonize o áudio na Tupi.fm e na Rádio Arquibancada




Studio na Colab55

segunda-feira, 20 de março de 2023

Quase nossa


Quase nossa

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Sexta-feira, quatro da tarde e eu aqui. Para mais um clássico! Faz um tempo que anda sendo só isso. Clássico. Faz um tempo que não consigo chegar na praia para formar uma crônica da Ponta “au grand complet”. Que nem tão plena assim será porque não estou na Ponta original, a do Leme, onde as crônicas nasceram nos primeiros anos do milênio (meu Deus!) e, sim, no Arpoador.

Dia claro, céu sem nuvens, ondas médias. Praia? Aceitável para um dia de semana, mesmo que o último. O verão está indo embora. Os turistas? A maioria já partiu. Digo a maioria por experiência própria. Há um desequilíbrio visível entre o número de banhistas e de ambulantes que circulam oferecendo seus produtos.

À minha direita, na direção do perfil dos Dois Irmãos e do Vidigal, um casal de argentinos parece ser a rapa do tacho da temporada internacional. Corpos sarados, com experiência de praia. Dá pra notar pelas atitudes. Um mergulho aqui, uma tostadinha ali.

O marido puxa conversa com um dos muitos vendedores de queijo coalho que passam e tenta regatear o preço do produto. Diz ao rapaz que havia comprado “dos por diez”. Depois faz de conta que tem dificuldade para entender a explicação do ambulante que diz que cada palito custa R$12,00 e pode, no máximo, fazer um por R$10,00.

Combinado o valor ele informa ao vendedor, que furiosamente abana o braseiro, puxando assunto: “soy argentino”. (Cá pra nós, nenhuma novidade para quem trabalha nas areias dessa área no verão. É o que mais tem.) Daí pro futebol não precisou nem ajeitar a bola, quer dizer, o esbaforido ambulante responder e já veio a declaração de que torcia pelo Boca Júnior.

Nenhuma reação do preparador do queijo coalho e uma nova declaração, com um certo desdém do argentino: “Acá todos son Flamengo”. Nenhuma reação. “...Vasco?”, arrisca. O vendedor preferiu não responder em palavras, apenas abanar com ainda mais vigor a brasa que não tinha força, ainda, para derreter o queijo. A reação do morador da Vila São Luíz (descobri depois e é spolier) foi nenhuma. Mas algo me disse que ele era torcedor do Mengão.

Com o abanico na mão, subindo e descendo (e nada do queijo chega no ponto), ele entabula assunto com outro coalheiro (acabei de inventar a designação, acho) que largando o braseiro, os ingredientes numa caixa de isopor e a camisa na areia, não sem antes pedir para que o colega desse uma olhada, voltava de um mergulho refrescante.

Depois de discutirem o calendário do Campeonato Carioca e informar ao gringo que teria jogo no final de semana, justamente Flamengo e Vasco, decidindo que irá à final com o Fluminense, mudaram de assunto.

Passaram a lamentar a morte de um “fechamento” que aconteceu numa quebrada da região metropolitana. Uma chacina em que acabou sobrando para os moradores, pra variar. Foi aí que pesquei que o ambulante que preparava o queijo coalho era do bairro de Duque de Caxias, a Vila São Luiz. Eles comentaram um vídeo da execução que, deu pra entender, receberam de vários canais de redes sociais. Cá pra nós, um tema mais urgente que time de futebol para eles que esmiuçavam os motivos que levaram ao trágico desenlace.

Ao lado, o argentino que minutos antes fazia de conta que não entendia o que o rapaz dizia durante a negociação do preço da mercadoria, fazia sinais (discretos) à mulher para ficar de olho nos seus pertences que estavam na areia. Os ambulantes nem notaram. O queijo havia ficado pronto. Foi entregue e, surpresa, os R$10,00 foram pagos sem barganha ou comentários.

O assunto prosseguiu entre os ambulantes. Pela toada, entendi que esse era o estopim da interrupção do tráfego na Rodovia Washington Luiz, que vai para a região serrana do estado, na véspera. Deu um nó no fluxo da região. Realmente, um tema muito mais urgente no cotidiano dos locais. Cariocas ou da região metropolitana. O futebol? A alegria do povo ficou pro domingo.

Saindo da praia, descobri que dois enormes transatlânticos estão ancorados no Rio, o que aponta a razão de nossa praia ainda não ter sido 100% devolvida. Não, o verão real ainda não terminou.

PS: O Mengão ganhou por 3X1 do Vasco e é finalista do Campeonato Carioca.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Texto da série “Arpoador” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


Bônus

Os vídeos do Verão 2023 na playlist do youtube.com/@delcueto. Se inscreve no canal!



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