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terça-feira, 1 de setembro de 2026

Porto Solidão

Porto Solidão...

Texto e foto de Valéria del Cueto

Direto e reto o assunto é eleição.

Dela, posso falar com propriedade. Sou cria do processo democrático estabelecido após o fim da ditadura. Sim, dela, a que agora querem chamar de “regime militar”. Os termos e designações mudam. A História, por mais que tentem, não...

Não estou aqui para bater de frente com ninguém. Só para sugerir alternativas. A primeira é que, para melhor se informar de maneira produtiva sobre o período, você, leitor, assista o documentário “Gonzaguinha, Da Maior Liberdade”, de Susana Lira, que acaba de ganhar o Kikito, prêmio de melhor longa-metragem Documentário, em Gramado.

“E a vida, diga lá o que é, meu irmão...”. A dos Anos de Chumbo passa por lá, nas imagens que bordam as músicas do compositor do Morro do São Carlos, berço do samba, onde foi criado pelos padrinhos enquanto seu pai, o Gonzagão, palmilhava o país na infância e juventude do filho órfão de mãe.

Assisti o filme antes do lançamento que acontece no Brasil no dia 3 de setembro. Sabia que seria um mergulho num universo que vivi de perto na adolescência. Não sei quantos shows do Gonzaguinha assisti antes de sair do Rio e seguir no rumo de outras paragens: Uruguaiana/RS, e, depois, em Cuiabá/MT.

Só sei é que fecho os olhos e me transporto às plateias lotadas dos shows na época do vestibular e da ECO, a Escola de Comunicação da UFRJ. (Re)vejo Gonzaguinha, sua mensagem de liberdade chegando às nossas mentes e corações antes dos tempos de reprodução digital hiperviralização virtual. Nas composições que escapavam da censura, o moleque Gonzaguinha dava seu recado sobre os últimos acontecimentos no país e os anseios populares.

Se as letras e a melodia das composições até hoje (d)escrevem essas histórias, as imagens de arquivo garimpadas para ilustrá-las, conforme o roteiro e a pesquisa de Rodrigo Alzuguir, montadas por Ítalo Rocha, dinamizam e contextualizam graficamente a narrativa.

Não é o tipo de filme que dê para desviar o olhar para uma checada nas redes sociais. É um mergulho num ambiente que nos leva não apenas aos acontecimentos e imagens recorrentes da época em que Gonzaguinha viveu com suas contradições e afetos, mas também ao cotidiano, à rotina da cidade, à vida como ela era naqueles tempos.

O filme não é sobre Gonzaguinha. O filme é Gonzaguinha, o rico universo de cronista de seu tempo, por meio de suas próprias palavras faladas e cantadas, quando não foram proibidas. “Um tempo em que lutar por seus direitos era um defeito...”


Como agora. Mudam os algozes. A violência continua e se exacerba. Se expande para outros canais, como as redes sociais, nos formatos de disputar as eleições e levar a população a se decidir por esse ou aquele candidato.

A agressividade impera. É mais fácil vociferar do que dialogar, propor soluções.

E aí, todo o espaço, seja o garantido por lei ou o obtido por meios não tão convencionais, vira campo de batalha e não de argumentação.

O simples ato de bater de frente sem dó nem piedade, é um vício tão danoso e maligno quanto, por exemplo, as apostas incentivadas pelas BETs que corroem a saúde mental e financeira da população.

Quando a gente começa, não consegue parar porque somos induzidos a combater mais, mais e mais...

A campanha política, aquela que a gente banca com nosso dinheiro, deveria ser para nos munir de OPÇÕES para melhorar a vida da população e o país como um todo, para todos...

Acompanhei o início da propaganda eleitoral para concluir que estamos bancando rinques de batalhas em que a prioridade é desconstruir os adversários. E só.

Onde estão as propostas, as soluções e as ações sugeridas para que o país avance?

Jogam na nossa cara os defeitos e malfeitos dos oponentes para que optemos pelos menos bandidos ou criminosos e não por quem possa apresentar alternativas viáveis (ou não) para melhorar nosso futuro.     

E o povo, inocente e teleguiado, vê o exíguo tempo do período eleitoral se extinguir aplaudindo os animais que se digladiam nas arenas virtuais, principalmente as das big techs, bombadas pelas verbas bilionárias das campanhas. No início do período democrático eram 90 dias, quando dava tempo para dialogar, argumentar e confrontar IDEIAS. Agora, é um mês astronomicamente caro e olhe lá.

Sim, quem busca propostas atraca no Porto Solidão do diálogo inexistente. Aquele que nos faria evoluir e analisar de forma racional e prática o que é, realmente, o melhor para os tempos (difíceis) que virão.  

Não se iluda, eleitor. A maré não está para peixe e o problema não é apenas brasileiro. É mundial. Como vamos encarar esses tempos que virão? Que interesses defenderemos com o voto que depositaremos nas urnas?      

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica das séries “Não sei onde enquadrar” e do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Porto Solidão, por Jessé. De Gink e Zeca Bahia




Studio na Colab55

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Não sei você...

Não sei você...

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Não sei você, ando em modo sobrevivência em muitos sentidos. A começar pelo básico, o geral. 

Não é fácil ser testemunha e personagem dos tempos atuais em que esse bombardeio de fatos, informações e contrainformações é constante.

Fico pensando: se é difícil para a geminiana racional e, acima de tudo, organizada que vos escreve, imagina para os nativos dos signos mais voláteis...

A realidade é que não dispomos de gavetinhas de memória para tantos dados e assuntos que nos perseguem durante as 24 horas do dia.

Alguns desses eventos já são previsíveis. Por exemplo: às sextas-feiras, no máximo aos sábados, Trump inventa uma novidade para ser assunto nos finais de semana.

Seu repertório é amplo. Vai do Papa aos extraterrestres, passando por querelas e quizumbas. Com direito a queixas, discussões e disputas com a Palestina, Venezuela,Cuba,o Irã... e, claro, nosso tão amado e rico Brasil.

"Soberania pouca, nosso pirão primeiro!" (Será que o homem mais poderoso da terra sabe o que é pirão?) Não faz diferença para quem jura que nariz de porco é tomada e quer ser e se fazer luz na base do tranco, ameaça e porrada.

Não sei você, mas andamos precisando é de tranquilidade e equilíbrio para resolvermos os nossos próprios problemas entre mais uma edição da Copa do Mundo de futebol e as eleições de novembro.

São tantos acontecimentos que brotam nas telas e redes sociais que nem a melhora do IDH foi merecidamente comemorada. Estamos numa posição no contexto mundial que nunca antes alcançamos!

Não sei você. Acho, só acho, que primeiro é preciso explicar à população em geral o que significa a sigla (mania de gestão que prejudica a compreensão popular).

IDH é o Índice de Desenvolvimento Humano. Como essa conquista pode sensibilizar essa massa cada vez mais desumana e cheia de opiniões definitivas?

Não sei você, apostaria na particularização dos exemplos. IDH é a rebimboca da parafuseta, mas a história de como a vida de dona Idalina melhorou e o porquê teria muito mais Ibope (olha que coisa antiga). Quer dizer, atualizando o vocabulário, engajamento, likes e compartilhamento.

Ninguém se espelha nem sente na pele o poder de alcance do IDH, já a conquista da vizinha... Ela pode provocar admiração ou inveja, dependendo da vibe do observador.

Não sei você. Sigo procurando rotas de fuga para essa loucurada geral.

É aí que a natureza me pega no contrapé e tira minha concentração do caderninho onde escrevo essa crônica, sentada na escada que dá acesso à ponte sobre o rio que murmura ali embaixo.

Enquanto escrevo, uma borboleta amarela passeia pela tampinha cor-de-rosa da garrafa de água que carrego pra todos os lados e por lá fica, dando pinta de sua exuberância, fazendo pose.

Largo de mão a caneta, fecho o caderninho e pego o celular para tentar registrar o desenho de suas asas enquanto acompanho seu descanso.

Pronto! Perdi a concentração. Ou melhor, desviei a atenção para um objeto mais interessante que Trump e as mazelas mundiais.

Não é toda hora que as borboletas ficam assim. A vida delas, normalmente, é borboletar inquietas e incessantemente. A nossa, tentar correr atrás para registrar essa beleza que dura tão pouco.

Parece brincadeira. A amarelinha ficou quieta até eu terminar de fotografar e chegar ao fim do parágrafo inspirado por ela e se picou...

Não sei você. Nem sempre tenho a sorte do acaso. Então, para sair deste buraco negro das notícias do dia a dia, borboleto em outras dimensões, quase sempre inesperadas. 

Foi assim que fui parar no encontro de carros antigos da Volkswagen no pé da serra. Pensa num estacionamento imenso. Boa parte dele ocupada pelos mais variados modelos que fizeram parte da vida de tantos brasileiros.

Fotos do encontro de carros antigos refrigerados a ar da Volkswagen  na Arena da Baixada,em Santa Cruz da Serra 

O queridinho era o fusca. Um modelo que sobrevive no imaginário de boa parte da população.

Minha brincadeira, circulando entre os veículos, foi a de reconhecer os que tinham mais peças originais no meio de centenas de fuscas incrementados e modificados, alguns à venda.

Já fui a muitos encontros de motociclistas (veículo que mora no meu passado e nos meus sonhos aventureiros) e de carros vintages. Essa foi a primeira visita a uma reunião de modelos de automóveis antigos de uma única montadora.

Além dos fuscas também havia no local outros veículos da marca: variants, brasílias, TCs, TLs e muitas kombis. Com direito a stands vendendo peças e produtos raros dos modelos.

Não sei você, como se sentiria. Fui teletransportada para um mundo num tempo paralelo, onde tudo era mais fácil e, principalmente, durável. Como já foi a vida.

Por aqui, hoje, ela passa supersônica e, algumas vezes, não deixa rastros. Como no caso do teste do motor do foguete planejado para levar os homens ao espaço que explodiu outro dia...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

segunda-feira, 27 de abril de 2026

A vez de um até logo, Mato Grosso


A vez de um até logo, Mato Grosso (espero)

Texto e foto de Valéria del Cueto

“Prometer e não cumprir é pior do que mentir”. O verso que abria o jingle da campanha de Roberto França à prefeitura de Cuiabá, em 1988, entranhou na minha mente e virou lema nas andanças da vida.

Aprendi a não fazer promessas vãs e descobri que as piores promessas não cumpridas são as que fazemos a nós mesmos.

É para não cair de forma irrevogável no quesito missão não realizada que deixei de lado as comemorações do dia do Santo Guerreiro, São Jorge da Capadócia.

Vim correr atrás das palavras que compõem o último texto antes da pausa da Revista Ruído Manifesto, prevista para começar no mês de maio. Não há prazo definido de quando a aventura, idealizada pelo jornalista e escritor Rodivaldo Ribeiro, deixará de ser uma “já teve” e voltará para quem sabe, ser uma surpreendente “voltamos a ter” em Cuiabá.

Aprendi a teoria do “já teve” com a crítica de artes Aline Figueiredo. Ela me ensinou ser esta uma particularidade da capital de Mato Grosso que já teve de um tudo! “Já teve e, agora, não tem mais...” complementava com uma enxurrada de exemplos irrefutáveis nossa maior expressão em análise e reconhecimento do que há de mais relevante nas artes plásticas no centro-oeste e no país.

Se o assunto é literatura, a expressão também se aplica e se replica de forma acelerada.

Quando soube da parada da Ruído Manifesto, gentilmente alertada pelo editor da coluna Crônicas do Sem Fim, Wuldson Marcelo, caiu a ficha da perda de importantes disseminadores da cultura local nos últimos tempos.

A incrível iniciativa de Rodivaldo foi para o mesmo patamar do Tyrannus Melancholicus, capitaneada pelo imortal da Academia de Letras Mato-grossense, Lorenzo Falcão, contabilizei chorosa. Ao que Wuldson acrescentou o Cidadão Cultura e a Revista Pixé, pilotada por outro imortal, Eduardo Mahon.

Quer saber, leitor amigo? Está doendo. No meu caso lá se vão duas fontes de distribuição do material do Sem Fim. Textos, fotos, vídeos... Fiquei sem o piado do passarinho e espero que, momentaneamente, sem a Ruído. Teimosa, sigo me manifestando!

Como sou otimista por natureza, enquanto espero que a pausa sonora seja apenas uma pausa, tento racionalizar. Avalio (chutando) que esse sumiço das publicações culturais seja apenas uma mudança de formato da maneira de disseminar a criatividade, as ações e nosso conjunto alegórico cultural.

O que virá agora? Essa é a pergunta que não quer calar e, claro, não sei responder enquanto converso, do outro lado do universo com o responsável, depois de um embate de gigantes, pela criação da coluna Crônicas do Sem Fim, Rodivaldo Ribeiro.

Repito de novo o que já contei em outro texto, mas faço questão de registrar na crônica pré-pausa: eu, correspondente do Diário de Cuiabá para assuntos carnavalescos cariocas; Rodivaldo, editor do caderno Ilustrado. Véspera de carnaval, texto e fotos enviados ao jornal e um passarinho me conta que os planos do responsável pelo caderno eram que a capa do caderno fosse um festival de rock!

Tomei uma atitude que normalmente não faz parte do meu repertório. Apelei às instâncias superiores. Afinal, meses de trabalho produzindo fotos, acompanhando os ensaios técnicos na Sapucaí, não poderiam ser desperdiçados assim.

Capa realinhada, expliquei os meus motivos ao editor do caderno, certa de que ele não perdoaria a interferência. Lêdo engano... Rodivaldo deixou o Diário um tempo depois. Foi para outro veículo e, mais tarde, lançou seu projeto, tão especial, a Ruído Manifesto.

Qual não foi minha surpresa ao receber sua ligação com o convite para publicar meu material na revista eletrônica? E mais: para manter uma coluna, a qual ele deu o nome de Crônicas do Sem Fim, seguindo a linha inicial das águas que percorro.

Fizemos planos, muitos planos que se perderam subitamente quando ele partiu. Ângela Coradini primeiro e, depois, Wuldson Marcelo passaram a fazer a ponte editorial da coluna.

Graças a Ruído Manifesto, os textos, fotos e vídeos que compõem o universo do Sem Fim se expandiram chegando onde a revista fez barulho até agora. E foi longe! Tanto no Brasil como no exterior.

AS boas notícias foram as de que “é uma pausa” e que o site continuará ativo, com a íntegra do material publicado por todos nós que fizemos parte do sonho de expandir a cultura brasileira para o mundo, partindo, (que ousadia1) de Cuiabá, Mato Grosso...

A Ruído Manifesto, pausa, mas não se cala. Seus participantes seguem o fluxo das águas, unidos pelos fios tramados nos últimos 9 anos na rede idealizada com tanto amor e realizada por tantas mãos.

No meu caso, sigo no rumo do Sem Fim, acumulando afetos, textos e imagens publicadas em outros veículos parceiros enquanto, como tantos, aguardo de novo o chamado da Ruído, sempre manifesto...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

 



Studio na Colab55



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Quem samba seus males encanta na Sapucaí, templo de saberes e dizeres

Fotos de Valéria del Cueto protegidas pela lei 9610/1998

Quem samba seus males encanta

Sapucaí, templo de saberes e dizeres

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Sob os arcos da Apoteose no final da Marquês de Sapucaí, no centro do Rio de Janeiro, passarão mais uma vez os protagonistas do maior espetáculo popular do planeta. O desfile das escolas de samba, carro-chefe do carnaval carioca, monopoliza a cidade, viraliza pelas redes sociais e na transmissão mundial de suas imagens.

A folia movimenta a economia. Atrai turistas do mundo inteiro e injetará nessa temporada recursos estimados em mais de 5,7 bilhões, projeta a Riotur. Gera empregos, estimula o empreendedorismo e alavanca ações de grandes marcas.

Em ano de Copa as cores do Brasil retomadas por quem de direito: o povo brasileiro.

O que move a festa é uma incrível mistura de sensações concentradas nos 800 metros da pista do Sambódromo idealizado por Oscar Niemeyer.

Para fazer o encanto funcionar, pelo menos 12 componentes, um de cada escola de samba do Grupo Especial, deverão ser acrescentados à poção mágica que será refinada no templo do carnaval.

Heitor dos Prazeres e seus protetores. Xangô e Oxum na comissão de frente da Vila

No caldeirão de emoções serão depurados, nas três noites de apresentações, de domingo a terça-feira, os seguintes ingredientes: a força da raiz, a resistência do caranguejo, muitas doses de essência, o poder da mandinga e o ponto da encruza. Misture com notas variadas de ritmo, uma enxurrada de palavras e as cores infinitas da aquarela. Tempere tudo com pitadas de imaginação, um toque de desbunde, acrescente respingos de loucura, a esperança concentrada de milhares de foliões e... evoé!

Temos mais uma disputa no Desfile de Escolas de Samba. Pela ordem, vamos às concorrentes.

Lula, tema da estreante Acadêmicos de Niterói e polêmica nas redes.
Domingo, 15 de fevereiro

A estreante na Sapucaí abre a primeira noite de disputa. Vem cercada de polêmica. É a campeã da Série Ouro, a Acadêmicos de Niterói. O enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, do carnavalesco Tiago Martins, gerou controvérsias nas últimas semanas. Demorou a cair a ficha. Foi anunciado no meio de 2025. O ingrediente para o encanto que a escola traz é a ESPERANÇA. Está presente no título do tema, na letra do samba, a carta de Dona Lindu, narradora da saga de seu filho que virou presidente da República, e na vida dos brasileiros.

A Imperatriz Leopoldinense ocupa a pista e dá seu toque de DESBUNDE em outra homenagem. Dessa vez sobre uma personalidade transgressora. Ney Matogrosso é o “Camaleônico”, de Leandro Vieira. O projeto não é biográfico. Viaja na parte musical e visual do cantor.  

“O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande” traz a ESSÊNCIA do nascimento do batuque gaúcho e Custódio Joaquim de Almeida, o príncipe do Benin com sua corte no Rio Grande do Sul, aposta do carnavalesco André Rodrigues na Portela.

Matheus e Cintya, com o pavilhão da Mangueira apresentam Mestre Sacaca e a Amazônia Negra do Amapá
Do extremo sul vamos ao extremo norte no desfile da última escola da primeira noite de competição. Vem do Amapá a RAIZ dos fundamentos das rezas que conectam Benedita de Oliveira, do Morro de Mangueira, a “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju - O Guardião da Amazônia Negra”, no enredo do paulista Sidnei França na verde e rosa.

Segunda, 16 de fevereiro

O carnavalesco Renato Lage invoca as LOUCURAS com “Rita Lee, a padroeira da liberdade”. Qual será a proposta do coreógrafo Marcelo Misailidis? Ano passado ele ousou reduzir a alegoria da comissão de frente, acabando com o trambolho que atrapalha a visão da cabeça do cortejo. Tomara que a Mocidade Independente de Padre Miguel tenha feito escola!

Quem vai para ENCRUZA na sequência é a Campeã de 2025, a Beija-Flor de Nilópolis, querendo o Bi com “Bembé”, primeiro enredo que não é sobre uma personalidade! João Vitor Araújo aborda a celebração afro-religiosa que acontece há mais de 130 anos no Recôncavo Baiano.


Ciça, o Caveira, mestre da bateria e enredo da Viradouro

Voltando ao COMPASSO das homenagens a Viradouro embarca na proposta de Tarcísio Zanon e dá flores em vida a seu próprio maestro. O título “Pra cima, Ciça” já diz tudo. O ex-passista e mestre-sala vai repetir o feito de 2007 evoluindo com seus ritmistas no alto de um carro alegórico. Tendo o privilégio de escolher sua rainha, trouxe à Sapucaí a atriz Juliana Paes que o acompanhava há duas décadas.

Segurança: demanda na pista, no entorno da Sapucaí e no país

Fecha a segunda noite a PALAVRA da escritora do livro “Quarto de Despejo” na Unidos da Tijuca. “Carolina Maria de Jesus” percorre o mundo sofrido da autora no enredo de Edson Pereira. O samba clama por mudar a história da escola do Borel buscando na comunidade a força para vencer novamente um campeonato.

Terça 17 de fevereiro

O Paraíso do Tuiuti viaja a Cuba para mostrar um culto afro-religioso yorubá oriundo da ilha e disseminado no Brasil, “Lonã Ifá Lukumi”. A MANDINGA proposta por Jack Vasconcelos se baseia no livro do pesquisador Nei Lopes. É entoada divinamente por Pixulé (sério candidato às premiações de melhor intérprete) e desafia o critério do julgador que ano passado canetou e rebaixou a Unidos de Padre Miguel por uso de palavras no idioma africano.

Mayara Lima, rainha do Tuiuti e das coreografias virais

Se já estava bom, vai ficar melhor com o aclamado samba da Vila Isabel sobre Heitor dos Prazeres. Em “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, Leonardo Bora e Gabriel Haddad pintam uma AQUARELA dos primórdios do samba e de memórias do Rio de antigamente. Na bateria do Mestre Macaco Branco, o naipe de tamborins, dirigido por Thalita Santos, traz de volta os instrumentos originais em formato quadrado.

 Vilma Nascimento, o Cisne da Passarela, e Manoel Dionísio, criador da escola de mestre-sala e porta-bandeira, a nobreza do bailado na Vila de Heitor dos Prazeres

Vice-campeã em 2025, a Grande Rio tem um novo carnavalesco, Antônio Gonzaga. “A Nação do Mangue” exalta o movimento inspirado no homem-CARANGUEJO e sua resiliência. Tem Chico Science e o Mangue Beat pernambucano pulsando na levada da bateria de Mestre Fafá.

A disputa se encerra com “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”. A IMAGINAÇÃO de Rosa Magalhães, maior campeã da Sapucaí, que nos deixou em 2024, é explorada por Jorge Silveira e a comunidade do Salgueiro partindo de uma biblioteca.

A iluminação amplia recursos como pinturas corporais fluorescentes

Com a mestra que fez tanta gente amar a festa fechamos a lista de ingredientes integrantes do feitiço que produz o sumo do imaginário carnavalesco a ser exposto pelo povo do samba nos três dias de desfile do carnaval 2026 na Sapucaí. Como o encantamento funcionará?

Saberemos na quarta-feira, com a apuração dos resultados! Poderemos provar novamente seu efeito no Sábado das Campeãs, semana que vem...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Texto da série “É carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Na Super Som do Tuiuti, molho de salsa e merengue cubano.

Ordem dos desfiles:

Domingo 15/02 – Acadêmicos de Niterói, Imperatriz, Portela, Mangueira

Segunda 16/02 – Mocidade, Beija-Flor, Viradouro, Unidos da Tijuca

Terça 17/02 – Paraíso do Tuiuti, Vila Isabel, Grande Rio e Salgueiro

Transmissão: TV Globo e Globoplay às 22h. Dica de comentários: sintonize o áudio na Tupi.fm e na Rádio Arquibancada




Studio na Colab55

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Essa difícil vida fácil

Essa difícil vida fácil

Texto, foto e vídeo de Valéria del Cueto

Consegui! Cheguei na praia. Por incrível que pareça, a primeira de 2026. Antes, só caminhadas pela orla. Resultado: escassez de crônicas, incluindo as carnavalescas.

Agora não dá mais pra enrolar. O tempo melhorou e, como dizia Giovanne Improta, personagem de José Wilker, “O tempo ruge e a Sapucaí é grande”. Ruge e fica concentrado. Em três finais de semana teremos passagens das 12 escolas de samba do Grupo Especial pela pista três vezes.

Faz a conta comigo: dois com ensaios técnicos de todas as agremiações do Especial, incluindo testes de som e luz do sambódromo, mais o desfile oficial e a passagem das quinze escolas da Série Ouro, o grupo de acesso, de sexta a terça-feira do carnaval. Bota na lista o cortejo de lavagem da pista e parte do grupo das crianças.  

A outra parte desfila na sexta-feira, antes do Desfile das Campeãs, no sábado depois do carnaval, com as seis escolas melhores classificadas no Desfile Oficial. Contando com as Campeãs, teremos, então, mais um final de semana. Quatro no total!

Como dizia Vinícius de Morais, “é preciso peito de remador” para aguentar esse rojão e viver um grande amor...

Antigamente parte dessas atividades eram distribuídas em deliciosos finais de semana desde o dia Nacional do Samba, 2 de dezembro, até o carnaval. Agora, como tudo na vida, o calendário carnavalesco ficou compacto e extenuante. A resposta que dou a esse excesso de atividades é ficar seletiva, deixando de lado uma qualidade que parece extinta: a contemplação.

Falei em excesso de atividades? Então vamos acrescentar na nessa listinha, que parece uma corrida maluca iniciada com a abertura do Fan Fest Rio Capital do Carnaval no dia do padroeiro da Cidade Maravilhosa, São Sebastião, 20 de janeiro, o encontro de 1243 ritmistas na praia de Copacabana. A Super Bateria entrou para o Guinness, o livro dos recordes.


Foi apenas a abertura da programação que o Rio Carnaval preparou para mostrar o que é e como se prepara “o maior espetáculo da Terra”. Tudo gratuito, mediante a inscrição no aplicativo do evento.

Junto, foi dada a largada dos desfiles dos 462 blocos cadastrados na programação da prefeitura para se apresentarem no centro da cidade e em vários bairros cariocas. Fora aqueles que saem no susto, em desfiles paralelos, tipo flash mob, marcados em cima da hora!

A região do Saara, a 25 de março local, fervilha de foliões e turistas em busca de fantasias e acessórios carnavalescos. A novidade é uma tiara de cabelo feita com fios, adereço que parece uma touquinha com penduricalhos de enfeites.

As redes sociais estão lotadas de imagens e sugestões para a folia. Quem não curte carnaval está lascado! Muito mais do que quem não dá a mínima às estrepolias do BBB e fica aturando aquele monte de tolices entre os cortes dos ensaios de rua, discussões sobre enredos, sambas, barracões e os últimos preparativos dos desfiles.

Incluindo a chegada (pra lá de atrasada) dos recursos para finalizar os trabalhos das escolas de samba. A prefeitura só liberou a verba esse ano e o alcaide recebeu os sinceros (?) e públicos agradecimentos das agremiações contempladas. Como se o aperto dos trabalhadores fosse uma coisa normal! O campeão da maldade e maior patrocinador da festa, com R$ 40 milhões, foi o governo do estado.

Cláudio Castro, o governador, que é evangélico, fez o povo do samba pagar todos os seus pecados antes de liberar a verba para o evento que traz mais lucros para o poder público no calendário turístico anual com seus 6 milhões de visitantes e a previsão de vultuosos R$ 5,7 bilhões movimentando a economia.

A indústria do carnaval continua sendo tratada como produto de segunda categoria por quem não respeita nossos organogramas de desenvolvimento de projetos e cronogramas de pagamentos. O dindin estadual foi liberado 29 de janeiro, 14 dias antes do desfile.

Se está ruim para as grandes, imagina para as agremiações dos grupos inferiores.  As maiores escolas ainda têm fôlego para segurar a onda. Mas pensa nos grupos de acesso da Sapucaí e nos que desfilam na Intendente Magalhães. Um verdadeiro desastre na organização das entidades é provocado, ano a ano, pelo atraso na liberação dos repasses. Quanta maldade. E ninguém pode reclamar, é claro...

Parece que as forças superiores concordam comigo. Enquanto escrevia no quadrado que ocupo na canga esticada na areia de Ipanema, as nuvens chegaram correndo pelo céu, antes azul. O vento agita as folhas do caderninho.

Nem me mexo, a chuva que virá será um treino para os dilúvios que ano sim e outro também (com raras exceções), costumamos enfrentar na Sapucaí. Estou apenas preparando minha imunidade corporal.

Vem carnaval, mas sem areia, por favor...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “É carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Vem aí


Vem aí

Texto e foto de Valéria del Cueto

Jurei que não passaria de hoje a primeira crônica de 2026.

Apesar de distante adotei o modus operandi de Cuiabá e outras praças. O de veranear.

Me larguei com a condição de, nesse período, manter uma alimentação saudável. O eterno projeto de ano novo em plena execução!

Isso não quer dizer que nesse espaço de tempo tenha conseguido me desligar dos acontecimentos que não param de se suceder sem interrupções para um descanso ou pausas para reflexões mais profundas.

Haja nuvem e HDs para registrar as mudanças inesperadas que trazem reflexos imprevisíveis à vida em todo o planeta.

Falando em planeta fico pensando no trabalho que Pluct Plact, o extraterrestre, terá para colocar em dia as notícias do cotidiano do lado de fora da cela em que se encontra enclausurada voluntariamente a cronista com quem ele se corresponde.

Tudo que aconteceu nos últimos dias!

Sugiro que comece por uma notícia boa. A liberação pela ANVISA dos testes clínicos com o medicamento polilaminina no tratamento de lesão da medula espinhal. Uma inovação desenvolvida por pesquisadores da UFRJ.

Lembrando que foi na Escola de Comunicação da instituição na Praia Vermelha que nossa reclusa preferida iniciou sua insípida vida acadêmica.

E que “o outro lado do túnel” (sempre mencionado por Pluct Plact para indicar o local de recolhimento da amiga e correspondente das suas cartas enviadas pelo raio de luar que banha a cela) fica bem ali, entre a UFRJ, o Botafogo e o antigo Canecão que, prometem, ressurgirá em breve.

Viajei pensando no viajante da galáxia e sua relação com a cronista pra dizer que, assim como ele, só me cabe observar e, se possível, acompanhar a pantomima universal.

Confesso que não vou poluir este texto com uma narração precisa das efemérides porque nesse momento minhas atenções são outras.



Estão embaladas pelos sons da cascata desviada do riozinho e, dependendo dos horários, da cantoria dos passarinhos que bordejam em busca de frutas e flores. As frutas da estação são da goiabeira e das jabuticabeiras. As pitangas ainda estão floridas ou seus frutinhos muito verdes para o banquete da passarinhada.

Nesse calorão a sinfonia acontece na manhãzinha ou quando o sol se põe.

Pouco depois das cigarras começarem a ciciar anunciando que o bom tempo continua pelos próximos dias. Até a aguardada chegada de mais uma frente fria maluca, como a que tivemos nos primeiros dias do ano. Quem não se rende a um refresco?

Meu olhar é desviado para o filhotinho de teiu. Novinho, ele ainda não aprendeu que, por uma questão de sobrevivência, deve se esconder dos humanos com o mesmo afinco que os imigrantes perseguidos pelo ICE, a polícia agora assassina dos EUA.

Não que vá fazer alguma coisa contra ele, um pouco maior que as várias lagartixas que habitam (e matam mosquitos) no pedaço. Pra elas não há limites de acesso.

Ao contrário do gato da vizinha que bate ponto na microvaranda 2X2, conhecida como latifúndio, que dá acesso à casa do moinho. Volta e meia tenta me dar um vareio e, distraidamente, adentrar a sala pela janela.

Enfim, antes do meu mundo começar a andar (e olha que ele vai desembalar na corrida com a proximidade do carnaval), observo e gravo na memória as pequenas nuances do entorno.  

Ao som do rio e do vento no bambuzal folhas passeiam pelo ar caindo na superfície espelhada da água.

Já observou o caminho das formigas, o voo das libélulas, o nascer e desabrochar de uma flor ou de cogumelinhos no gramado?

Sentiu o prazer de ver brotar e se desenvolver uma semente que você plantou num vasinho na varanda?

Não dá like, nem engajamento. Não viraliza, mas proporciona a um ser humano sensível uma indescritível e sutil sensação de prazer.

Como ser testemunha de um pôr do sol cinematográfico imponderável.

Sim, a vida ultimamente tem sido mais surpreendente que qualquer ficção. Especialmente para o mal.

Mas quando não temos a opção de mudar essa realidade contundente, resta a opção de voltarmos nossos olhos às coisas miúdas que fazem valer a pena.

Até que o marinheiro novamente avise que vem aí bom tempo...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com





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