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quinta-feira, 30 de julho de 2026

O momento e seus movimentos


O momento e seus movimentos

Texto e foto de Valéria del Cueto

 

Estou querendo sair da toca e recarregar as baterias. A primeira e melhor opção é rumar para os lados da Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso.

Acontece que "querer muito" não afasta os senões que se acumulam nesta possibilidade para a temporada inverno/primavera 2026.

O maior senão é, sem dúvida, climático. Morei décadas em Cuiabá e não sou uma desavisada em relação ao calorão dos próximos meses.

Tenho uma lembrança vívida da parede de quentura que enfrentam os desavisados e desacostumados passageiros ao desembarcarem do avião no aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande. É uma sensação inesquecível.

Melhorou com o tempo, com a chegada dos fingers que ligam a porta da aeronave diretamente ao prédio do aeroporto. O que apenas fez que o "soco" não aconteça mais nas escadas do avião, com o calor refletido no asfalto do pátio de manobras e, sim, mais tarde um pouco, depois de pegar as malas, ao se abrirem as portas automáticas do aeroporto Marechal Rondon para a área do estacionamento.

Quer saber? Quem mora em Mato Grosso pode não notar, mas a temperatura e a baixa umidade do ar estão aumentando! Sinto porque as ausências me desacostumam ao clima local e, a cada volta, acho que ele está ainda mais crítico, mais bruto.

Agora, pensa com o El Niño mais poderoso de todos os tempos, o que vai acontecer!

Esse não é o único motivo que está pesando contra as saudades que sinto de Chapada, do Pantanal e, principalmente, de amigos queridos que adoro encontrar sempre que posso.

Acontece que acho que não mereço atravessar os dias da campanha política em Mato Grosso.

Em alguns momentos, certas qualidades podem trazer sérios prejuízos e, quando não há um objetivo que compense, é melhor não arriscarmos nosso patrimônio moral numa guerra que não é mais nossa.

Esse é, para mim, o caso da política de Mato Grosso e da tal qualidade que pode custar muito caro. Falo da memória, da história mato-grossense. Essa que, parece, está muito em falta por aí. Por isso, estou adiando minha ida até o mês de novembro, como fiz no ano passado. O tempo será mais ameno, com a chegada das chuvas e o final do período eleitoral.

Se desembarcar antes do final das eleições, pelo menos do primeiro turno, sei que não vou conseguir seguir à risca meu objetivo.

Ele está resumido num dos ditados de Luizinho Soares. Aquele político que, se não é lembrado por sua vida pública, por seu trabalho em benefício da população mato-grossense, sempre estará nos meus pensamentos norteando objetivos por frases que levo pela vida. O mote da vez é: "quanto menos conversa, nenhuma”.

Até onde puder, nesses tempos de embates eleitorais, pretendo me dedicar a não gastar energias onde não há espaço para a argumentação. O universo eleitoral de Mato Grosso é minúsculo e restrito, perto da dimensão da disputa nacional e, diante disso, pouco significativo no contexto brasileiro.

Então, estar preocupada com as disputas regionais, o que certamente acontecerá caso resolva enfrentar o El Niño em uma de suas piores versões por aí, diminuirá o raio de ação relacionado aos embates que estão por vir.

Já dei minha cota de colaboração aos caminhos de Mato Grosso em outros tempos, quando havia melhores condições para argumentar e algum sentido em alertar. Hoje, o que vejo é a radicalização e o firme propósito, não de dialogar, mas de confrontar.

Aí, volto alguns parágrafos, para a parte que menciona o fator memória, aquela que, parece, nem todos têm de sobra.

Sou do tempo em que contra os fatos (eles estão aí para quem quiser comprovar) não existiam argumentos. Os alertas foram repetidos e, em muitos setores, não surtiram efeitos.

O que temos é mais do mesmo e só em tempos de eleições: Pantanal, meio ambiente, agricultura familiar, preservação, infraestrutura, a melhoria do serviço público, da educação, saúde, segurança…

Tudo com prazo de validade, até a colocação do voto na urna!

Depois, tudo volta ao normal, onde a lei de Gérson, que diz que gosta de levar vantagem em tudo, volta a imperar e encher os bolsos dos de sempre. 

Resumindo o momento e definindo os movimentos, pretendo me dedicar aos indecisos.

Como eu, são eles que ainda aceitam dialogar e, talvez, se dispunham a ouvir argumentos. É com eles que pretendo conviver nos próximos meses. 

Longe da temperatura quase insuportável de Mato Grosso e junto ao calor dos debates produtivos que definirão o futuro do Brasil.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

segunda-feira, 27 de abril de 2026

A vez de um até logo, Mato Grosso


A vez de um até logo, Mato Grosso (espero)

Texto e foto de Valéria del Cueto

“Prometer e não cumprir é pior do que mentir”. O verso que abria o jingle da campanha de Roberto França à prefeitura de Cuiabá, em 1988, entranhou na minha mente e virou lema nas andanças da vida.

Aprendi a não fazer promessas vãs e descobri que as piores promessas não cumpridas são as que fazemos a nós mesmos.

É para não cair de forma irrevogável no quesito missão não realizada que deixei de lado as comemorações do dia do Santo Guerreiro, São Jorge da Capadócia.

Vim correr atrás das palavras que compõem o último texto antes da pausa da Revista Ruído Manifesto, prevista para começar no mês de maio. Não há prazo definido de quando a aventura, idealizada pelo jornalista e escritor Rodivaldo Ribeiro, deixará de ser uma “já teve” e voltará para quem sabe, ser uma surpreendente “voltamos a ter” em Cuiabá.

Aprendi a teoria do “já teve” com a crítica de artes Aline Figueiredo. Ela me ensinou ser esta uma particularidade da capital de Mato Grosso que já teve de um tudo! “Já teve e, agora, não tem mais...” complementava com uma enxurrada de exemplos irrefutáveis nossa maior expressão em análise e reconhecimento do que há de mais relevante nas artes plásticas no centro-oeste e no país.

Se o assunto é literatura, a expressão também se aplica e se replica de forma acelerada.

Quando soube da parada da Ruído Manifesto, gentilmente alertada pelo editor da coluna Crônicas do Sem Fim, Wuldson Marcelo, caiu a ficha da perda de importantes disseminadores da cultura local nos últimos tempos.

A incrível iniciativa de Rodivaldo foi para o mesmo patamar do Tyrannus Melancholicus, capitaneada pelo imortal da Academia de Letras Mato-grossense, Lorenzo Falcão, contabilizei chorosa. Ao que Wuldson acrescentou o Cidadão Cultura e a Revista Pixé, pilotada por outro imortal, Eduardo Mahon.

Quer saber, leitor amigo? Está doendo. No meu caso lá se vão duas fontes de distribuição do material do Sem Fim. Textos, fotos, vídeos... Fiquei sem o piado do passarinho e espero que, momentaneamente, sem a Ruído. Teimosa, sigo me manifestando!

Como sou otimista por natureza, enquanto espero que a pausa sonora seja apenas uma pausa, tento racionalizar. Avalio (chutando) que esse sumiço das publicações culturais seja apenas uma mudança de formato da maneira de disseminar a criatividade, as ações e nosso conjunto alegórico cultural.

O que virá agora? Essa é a pergunta que não quer calar e, claro, não sei responder enquanto converso, do outro lado do universo com o responsável, depois de um embate de gigantes, pela criação da coluna Crônicas do Sem Fim, Rodivaldo Ribeiro.

Repito de novo o que já contei em outro texto, mas faço questão de registrar na crônica pré-pausa: eu, correspondente do Diário de Cuiabá para assuntos carnavalescos cariocas; Rodivaldo, editor do caderno Ilustrado. Véspera de carnaval, texto e fotos enviados ao jornal e um passarinho me conta que os planos do responsável pelo caderno eram que a capa do caderno fosse um festival de rock!

Tomei uma atitude que normalmente não faz parte do meu repertório. Apelei às instâncias superiores. Afinal, meses de trabalho produzindo fotos, acompanhando os ensaios técnicos na Sapucaí, não poderiam ser desperdiçados assim.

Capa realinhada, expliquei os meus motivos ao editor do caderno, certa de que ele não perdoaria a interferência. Lêdo engano... Rodivaldo deixou o Diário um tempo depois. Foi para outro veículo e, mais tarde, lançou seu projeto, tão especial, a Ruído Manifesto.

Qual não foi minha surpresa ao receber sua ligação com o convite para publicar meu material na revista eletrônica? E mais: para manter uma coluna, a qual ele deu o nome de Crônicas do Sem Fim, seguindo a linha inicial das águas que percorro.

Fizemos planos, muitos planos que se perderam subitamente quando ele partiu. Ângela Coradini primeiro e, depois, Wuldson Marcelo passaram a fazer a ponte editorial da coluna.

Graças a Ruído Manifesto, os textos, fotos e vídeos que compõem o universo do Sem Fim se expandiram chegando onde a revista fez barulho até agora. E foi longe! Tanto no Brasil como no exterior.

AS boas notícias foram as de que “é uma pausa” e que o site continuará ativo, com a íntegra do material publicado por todos nós que fizemos parte do sonho de expandir a cultura brasileira para o mundo, partindo, (que ousadia1) de Cuiabá, Mato Grosso...

A Ruído Manifesto, pausa, mas não se cala. Seus participantes seguem o fluxo das águas, unidos pelos fios tramados nos últimos 9 anos na rede idealizada com tanto amor e realizada por tantas mãos.

No meu caso, sigo no rumo do Sem Fim, acumulando afetos, textos e imagens publicadas em outros veículos parceiros enquanto, como tantos, aguardo de novo o chamado da Ruído, sempre manifesto...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

 



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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Mais um adeus, Mato Grosso

Mais um adeus, Mato Grosso

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Alguns textos são difíceis de escrever. São aqueles que concretizam ações que, até estarem no papel, eram apenas possibilidades distantes. Algumas boas, outras nem tanto.

Poucos anos após chegar em Mato Grosso, depois da campanha política de 1988, apareceu uma oportunidade de comprar uma terra na Chapada do Guimarães. Uma área rural, na beira da estrada da Água Fria, perto do Colégio Buriti.

Quem me botou na fita foi Luizinho Soares. Viramos vizinhos. Na hora da venda eu estava viajando. Na confiança foi feita uma procuração para um terceiro para que, mais tarde (e demorou por inconsequência de minha parte), a escritura fosse lavrada em meu nome.

Quando voltei e vi o meu latifúndio de cem hectares, me apaixonei perdidamente. O que era aquele horizonte? Meu lugar na terra!

Fiz muitos planos para a área que, para mim, era uma imensidão. Para começar, escolhi o lugar da casa. Na beira das únicas árvores altas existentes na extensão do terreno.

Logo comecei a ver as dificuldades da empreitada. Fazer a cerca, puxar a energia elétrica. Cavar poço para achar água ou trazer do Monjolinho, cuja nascente, formadora do Véu da Noiva, estava um pouco acima?

Me planejei para executar essas etapas com o que pretendia ganhar nas campanhas políticas seguintes.

Bastaram duas eleições para entender que aquele não era o desejo dos deuses. Cada vez que me preparava para um avanço, levava um cano! Foi assim com o projeto arquitetônico, com os fundos para construir a casa tão sonhada... 

Como não brigo com o universo, acatei a mensagem e desisti da empreitada.

Durante um tempo uma família morou por lá. O marido era o caseiro, a mulher trabalhava no Buriti, onde as crianças estudavam. Fizeram um pequeno pomar e plantaram um pouco de abacaxi. 

Até o dia em que o caseiro me disse que “não recebia ordens de uma mulher”. Detalhe: naquele momento estava solteira. Num arranjo providencial a família foi prestar serviço numa propriedade vizinha.

As terras ficaram abandonadas? Não. Era como se estivessem cobertas pelo manto da invisibilidade. Sempre tive a segurança de que o vizinho estava de olho no que acontecia por lá.

Quantas vezes, nos períodos em que estive fora de Mato Grosso, me perguntei por que não me desfazia da Estância Vista Alegre, tão longe, de mim distante?

Bastava voltar à Chapada, passar pela porteira da terra do Cabeção, que dava acesso às minhas posses, olhar para os pés de pequi e outras espécies nativas para ter essa resposta. 

Ali estavam minhas raízes mato-grossenses. Daquela terra linda eu era a guardiã!

Decidi que aqueles hectares seriam Cerrado natural. Intocado e preservado. Onde a vegetação se expandisse. Um espaço à riqueza inexplorada que o bioma nos proporciona e que aproveitamos tão mal. E assim foi, sem alarde, por décadas.  

Os orixás abençoaram minhas intenções e, juntos, protegemos a vegetação e os animais que por ali circularam livremente por 38 anos. 

Uma única vez o fogo lambeu a Estância. Foi na década de 1990. Vi a terra se regenerar, renascer e voltar à sua forma exuberante.

Mas os tempos mudaram. A estrada para a Água Fria foi asfaltada. A cidade se expandiu naquela direção. O que era área rural está virando urbana. 

Luizinho partiu e, com ele, o manto de proteção e a ligação que nos unia no lugar se romperam.

Um dia, no Rio, recebi uma mensagem espiritual. Dizia: “Cuida do que é seu”. Respondi que o faria assim que pudesse. A réplica foi: “Agora!”

Segui para o Chapada imediatamente. Foi no final do ano passado. Bem na hora. Havia várias sondagens para levantar em órgãos públicos a quem o terreno pertencia. Mau sinal...

Pedi ajuda a Exu, o que abre os caminhos, quando pisei no trecho que corta a terra e meu destino, para não sucumbir mais uma vez aos encantos mágicos da Estância Vista Alegre. Para, finalmente, transferir a outra dimensão este laço que, por quase quatro décadas, me uniu a Mato Grosso.

Agora, corro uma maratona para regularizar a documentação da terra. Georreferenciamento, escritura, Incra, Sema, Receita e o que mais vier. E olha que, na medida do possível, sempre procurei me manter em dia com minhas obrigações.

Oxóssi, o caçador, e Oxum, a mãe dos rios, que por esse tempo protegeram meu pedaço de chão, agora dividem a missão com Nossa Senhora de Santana, padroeira da Chapada dos Guimarães. Mais um elo da corrente de amor que me liga a essas paragens que tão bem me receberam se rompeu.

É tempo de mais um adeus, Mato Grosso...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com




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terça-feira, 19 de agosto de 2025

Não fui eu


Não fui eu

Texto e foto  Valéria del Cueto

Ando correndo de problemas. Mas, parece, eles correm atrás de mim! Não só da minha humilde pessoa. De todos que tentam olhar o mundo com uma certa sensatez. Quando posso, desvio dos embates. Pelo menos, dos pequenos.

Usando as armas do arsenal valeriano: a caneta e um caderninho (novo!!!), me encarapitei na rede da varanda pronta para desenrolar mais uma crônica no meio do mundo. Eis que escuto o som do motor do cortador de grama... Como é domingo, dia de jogo do Mengão contra o Inter, estou determinada a não entrar em demanda e guardar as energias pra partida de logo mais.

Solução? Seguir o conselho do velho ditado “os incomodados que se mudem” e levantar acampamento em direção da cascata que jorra água na piscina vazia, do outro lado da casa. Que receba o primeiro respingo quem se arrisca a um mergulho nessa friaca. No máximo, uma ducha assustada e rapidinha no veranico que se aproxima.

O barulho da água batendo no cimento e escorrendo em direção ao ralo aberto abafa o som do motor da roçadeira. De lambuja fica no ar o cheiro da grama recém aparada do outro lado do rio que invade a atmosfera e quase me desvia do objetivo inicial do texto: os problemas meus, seus e nossos. Aqueles que não podemos solucionar nem, tampouco, ignorar.

Uns alheios a nossa realidade próxima como o genocídio incontrolável na Palestina, os conflitos na África, Asia e Europa, pra começar.

Outros aqui, embaixo dos nossos narizes, provocados por atitudes voluntárias e com sérias consequências. Como enfrenta-las? Em que momento devemos apenas observar, se omitir ou agir?

Que a maré não está para peixe, os ânimos pra lá de exaltados e os acontecimentos se sucedendo sem previsão ou controle de danos, é evidente.

Todos os estímulos nos levam a excessos. Comprar mais, postar mais, se expor mais... mesmo quando não temos nada a acrescentar. Simplesmente para mantermos o “engajamento”. E tem os cortes!

Então, o mundo fica atolado num lamaçal de tolices que camuflam e diluem o que é, realmente, essencial e digno de ser notado, devidamente registrado e, se possível, solucionado.

Se possível porque algumas ações são, a princípio, incorrigíveis.

Um exemplo que assombra e assolará a população cuiabana por um tempo é a eleição do atual prefeito.

Ao escolhe-lo fizeram um bem enorme à Câmara dos Deputados, apesar de sua função a frente da prefeitura de Cuiabá não ter garantido sua ausência total no cenário federal. Ele esteve presente, por exemplo, pra se solidarizar no deplorável episódio da tomada da mesa diretora e do plenário que visava impedir - e chantagear – o ordenamento da pauta dos trabalhos da casa.

O que não é bom para o Brasil não tem sido proveitoso a Cuiabá. A capital de Mato Grosso pagará caro por sua escolha. Seus habitantes sofrerão por alguns anos os reflexos do resultado das urnas eleitorais.

Todos, todas e todes são testemunhas e vítimas do equívoco do jeito de governar adotado pelo atual mandatário. Foi em frente a prefeitura que ele passou mais um recibo do desempenho de sua gestão, vital para o cotidiano da cidade.

Ao apagar as palavras artisticamente escritas num tapume mandou, mais uma vez, a liberdade de expressão (defendida ferozmente como um mantra por sua corrente política) às favas e confundiu a arte popular do grafite com a contravenção da pichação.

Como jurei desviar de problemas, não farei um registro do conjunto da obra que se desenvolve pros lados do Palácio Alencastro.

Foi a maioria do eleitorado da antiga Cidade Verde que decidiu seu destino até 2029! Nas próximas eleições que as escolhas sejam melhores, cuiabanos. Mais cuidadosas para com a urbe que os abriga.

Pra ilustrar a crônica, agora sim, uma piXação (essa, com X) que viralizou nos muros, paredes e tapumes há um tempinho aqui no Rio com uma mensagem sem distinção de gênero.

Sabe o que ela dizia? “NÃO FUI EU”.

E tenho dito...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

terça-feira, 27 de maio de 2025

Em penca



Em penca  

Texto e foto  Valéria del Cueto

Essa mania de escrever parece ginástica. Depois que a gente embala vai ladeira abaixo. Mas quando dá uma parada técnica, para sair da inércia é um sufoco.

Várias razões me forçam a interromper a meta quinzenal. Incluindo, o que não foi o caso nessa parada forçada, a preguiça pura e simples.

Só pego no tranco pra descer o barranco. Falta de assunto? Ao contrário. Fico perdida nas inúmeras possibilidades que garimpei no período silencioso.

Vou acumulando numa gavetinha mental coisas que vejo, observo e sinto. Acontecimentos do cotidiano, fatos da vida e do mundo.

Quando arrumo tempo e disposição para botar as ideias no papel fico mais atrapalhada que a boneca Emília, personagem de Monteiro Lobato.

No primeiro livro do que será o Sítio do Picapau Amarelo, "A Menina do Narizinho Arrebitado", quando a boneca de pano feita por Tia Anastácia desanda a falar, após tomar uma pílula falante do Dr. Caramujo no Reino das Águas Claras, é um atropelo.

Uma mistureba de palavras e tolices daquela que vai ser uma das maiores “ideieiras” das aventuras infantis que embalaram gerações. Primeiro, nos livros. Depois, nos programas infantis das tardes ou manhãs na televisão.

Quem não conhece o Sítio do Pica Pau Amarelo e seus personagens não sabe o que está perdendo!  

Não estou dizendo, quer dizer, escrevendo que não é fácil sair da inércia criativa?

É uma ginástica de paciência puxar o freio de mão e não sair atropelando as linhas de forma desordenada, sem medidas ou critérios além da manha de deixar a caneta tentar escorregar pelo papel. Indo atrás de diálogos que mantenho com o Eu pensante que me habita, puxando os fios que bailam de dentro do compartimento aberto na minha (fértil) imaginação de geminiana.

E aí, vem mais um ponto em comum com a ginástica, não a mental, mas a física. Sabe quando, depois de um tempo parada, você volta a fazer exercício no tranco, sem medir os movimentos e se esquece que seus músculos não correspondem ao seu entusiasmo?

A sensação no dia seguinte é de que passou trator desgovernado sobre seu corpo. Todas as fibras e músculos reclamam. Especialmente quando você quer iniciar um movimento e... sair da inércia.

Já experimentou revisar um texto escrito após jogar um WD na fechadura, desempenar a tampa e abrir a caixinha de assuntos acumulados? Lé não bate com Cré que deixou penduradas muitas ideias lelés.

E dói a cada trecho da palavra escrita saber que ali, naquela barafunda com aparente falta de nexo, estão contidas tantas sensações, inspirações e reflexões mal distribuídas e quase perdidas no limbo da memória.

As que, em algum momento da pausa entre as crônicas devidas e não pagas, poderiam render relatos e textos que você, caro leitor, teria a oportunidade desfrutar. E, neles, reconhecer a capacidade da autora que lhe escreve tem de dar voltas em suas quase sempre inconstantes linhas...

Para fechar, mais uma comparação nesse exercício literário após a abertura da caixa quase de Pandora atulhada de ideias imaginantes: minha gavetinha mental é tipo bananeira, que está sempre dando cacho.

No começo só vemos aquele enorme coração. Mas, na medida em que se desenvolve, a gente descobre que o melhor está na penca repleta de frutas aguardando o tempo certo de amadurecer.

Enquanto espero o tempo certo de colher os frutos vou continuar editando as imagens do carnaval 2025.

Como todos que gostam da folia, acompanho, cheia de curiosidade, os anúncios dos enredos das escolas de samba do ano que vem, repletos de homenagens a diversas personalidades.

Criteriosamente vou mexendo o doce das fotos que registrei em março e estou agregando ao acervo carnavalerio.com. observando os frutos, agora bebês, da nova penca de bananas amadurecerem no pé.

PS: Ganhei de presente um texto lindo de Jejé do Quilombo da Lixeira, do Pasquim Cuiabano João Guato, intitulado “Valeria del Cueto, a Rainha das memórias do Samba”. Está no link para quem quiser saber o estímulo que recebi para, mais uma vez, sair da inércia.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Das séries “Parador Cuiabano” e “É carnaval” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

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quarta-feira, 19 de junho de 2024

Minhas regras

Minhas regras

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou enrolando, pra variar. Se tenho um motivo, o prazer de abrir um novo caderninho para rabiscar as crônicas do Sem Fim, outras razões me levam a procurar uma rota de fuga da atividade e da realidade.

A troca de caderninho é a passagem que os leitores fiéis já a reconhecem de outras leituras. Acontece graças ao costume de escrevinhar textos que começou a surgir nas areias da praia do Leme, sempre às sextas, há uns 20 anos atrás). A “Ponta do Leme” foi a primeira série que surgiu, seguida de outras tantas definidas, inicialmente, geograficamente. O “Parador Cuyabano”, a “Fronteira Oeste do Sul” e a sempre abastecida “É Carnaval” estão sendo chuleadas há décadas (ui).

Raramente troquei o caderninho pelo teclado do computador. Não é a mesma coisa. O pensamento flui numa velocidade diferente. Daí eles vão se acumulando, ocupando um espaço considerável na estante. E sabe que me apego ao caderno da vez? Quando vejo que estão chegando ao fim a letra vai diminuindo na intenção de prolongar nossa convivência. Já houve caso do vazio ser tão sentido que falhei na periodicidade evitando a realidade da troca de companheiro. O inevitável a não ser no dia que encerrar a saga do Sem Fim.

Trocar o caderninho demanda adaptações. Passei por vários modelos e formatos. Uns foram espirais, outros não. Sempre capa dura. Maiores ou menores, mas nunca grandes ou pesados demais. Têm que caber nas bolsas. Uns tinham pautas, outros não. Nesses, as linhas imaginárias formavam muitas curvas e poucas retas.

A única coisa que evito na escolha dos caderninhos é que as folhas sejam porosas, que os rabiscos vazem pra a página de trás. Sei a dificuldade que é decifrar o que escrevi na hora de preparar o material para enviá-lo aos parceiros que publicam as crônicas.

Apesar da angústia da busca do caderninho perfeito a chegada do novo companheiro é sempre um prazer. Por isso procuro inaugurá-lo com palavras e pensamentos otimistas e de alegria quando dá.

Esse é um caso que, infelizmente, não dá. Considere as razões que citei no início dessa conversa e as intenções do Sem Fim de manter um vínculo com a realidade.

Ela está horrorosa e piorou mais um pouco com as más intenções eleitoreiras do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. Em busca de votos para fazer seu sucessor no comando da casa, ele cravou um regime de urgência, votado no tempo recorde de 24 segundos, no projeto de lei 1904 do deputado Sóstenes Cavalcante, do PL carioca, que prevê pena de 20 anos para a mulher que fizer aborto após 22 semanas de gestação, nos casos previstos em lei.

Se vamos dar nome aos bois, vale citar que o primeiro da lista dos fundamentalistas que aprovaram a urgência maladeta é o do candidato a prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini. Como Deus está vendo o tamanho dessa aberração espero que a manobra eleitoreira seja a pá de cal na sua pretensão.

Certamente, nenhum dos aqui citados imaginaram o tamanho da reação que a proposta esdrúxula geraria. O estuprador, um dos casos em que o aborto é permitido por lei, é condenado a 10 anos. A estuprada a 20! Foi um sacode na opinião pública. O mote “Criança não é mãe” virou um efeito cascata bombado, inclusive, pelas escolas de samba cariocas. Tão forte como a informação que a cada 8 minutos uma mulher é estuprada, segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher.

E lá se foram as questões que deveriam estar sendo objetos de análise parlamentar enquanto, mais uma vez, a sociedade é jogada numa cruzada moral e ideológica em que o que menos importa é a nossa decisão pessoal,  a das mulheres, atingidas pelos rigores da lei xiita.

Pra mim, danem-se as leis. Sempre foi assim. Meu corpo, minhas regras. Na vida e aqui no novo caderninho fica o registro: NÃO AO PL 1904!

Boa sorte aos eleitores de Cuiabá e aos do Rio de Janeiro também. O Delegado Ramagem, candidato do PL a prefeito de lá, foi outro que votou pela urgência do famigerado projeto.

A campanha eleitoral já começou, infelizmente, com pautas que não dizem respeito às que deveriam ser a maiores preocupações dos futuros prefeitos, suas cidades e o bem estar das populações. A sociedade não merece regredir. Escolham com cuidado seus candidatos, eleitores.

O que for decidido irá para o caderno da História da capital mato-grossense, da Cidade Maravilhosa e é sua responsabilidade também!

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Paraíso Imperdível

Paraíso imperdível

Texto e fotos de Valéria del Cueto

E lá se vai, mais uma vez, a frágil tranquilidade da Ponta do Arpoador. Depois do carnaval, o fim do verão e a passagem de transatlânticos tardios ficou uma brecha bem estreita antes do fim da quaresma e do feriado da Semana Santa.

Resumindo: quem avisa, amigo é. E o mar mandou seu recado para os próximos dias. Engoliu a faixa de areia do Arpoador, especialmente no cotovelo do paredão no encontro de Ipanema, ali pela altura da estátua do Tom Jobim. Só ficou parede e pedra.

Sabedora da densidade demográfica superpopulosa da próxima sexta, em pleno feriado, acomodei a agenda e antecipei a visita e a crônica da vez para o meio da semana. Pra que disputar espaço na areia com os visitantes, caso o sol resolva firmar no feriadão da semana santa?

É numa tarde ensolarada, cheia de surfistas disputando espaço nas ondas ainda altas e quase perfeitas por causa da ressaca que, como faço (há quantos anos não sei dizer) me conecto com o centro geodésico da América do Sul para celebrar, mais uma vez, mesmo que a distância, o aniversário da minha querida Cuiabá.

Sempre foi uma data festiva pra mim. Quando cheguei aí porque fazia questão de trabalhar no dia 8 de abril e seguir, como repórter, uma parte da programação. A outra, fazia eu mesmo. Comer Bolo de Arroz da dona Eulália, filar um peixe numa casa bem cuiabana...

Fiquei aqui pensando no dinamismo da metrópole que ocupa a margem do rio que dá nome a Capital de Mato Grosso. Em como tudo passa rápido e pouco fica gravado na memória de seus habitantes.

Por isso, escolhi o meu presente desse ano para os 304 anos do aniversário de Cuiabá no baú das lembranças. Tirei dele o registro de que há 10 carnavais, em 2013, antes do evento da Copa do Mundo no Brasil, a então Cidade Verde (outra recordação) era uma das estrelas no carnaval carioca. Foi em fevereiro de 20213 que a homenagem da comunidade da Mangueira embarcou no sonhado trem cuiabano a Estação Primeira e cruzou a pista do Sambódromo da Marquês de Sapucaí levando Cuiabá para o mundo até a Apoteose de Oscar Niemeyer.


Clique AQUI para acessar o álbum Mangueira carnaval 2013 no Flickr


Com o enredo do carnavalesco Cid Carvalho “Cuiabá, um Paraíso no Centro da América” a verde e rosa levou o disputado prêmio Estandarte de Ouro de Melhor Escola de Samba e mais: Porta-bandeira (Marcella Alves), Revelação (com Matheus Olivério, então 3 mestre-sala e, hoje, o titular do casal que conduz o pavilhão da Estação Primeira) e da Ala da Baianas...

A escola, depois da paradona da bateria no ano anterior, literalmente dobrou a aposta e levou duas baterias para a Sapucaí, feito inédito nos desfiles, mais uma ousadia de seu presidente, Ivo Meirelles.

Décimos preciosos foram perdidos, o que prejudicou a posição final na disputa oficial, justamente no último carro, o da Copa do Mundo, inspirado em obras do artista plástico João Sebastião. Ele também assinou as camisas de diretores, coordenadores e apoios da escola.

Aconteceu um causo beeeem cuiabano na perda da pontuação que deixou à Mangueira o oitavo lugar em 2013. É que uma borboleta, parte da última alegoria controlada por fios, se rebelou e, diante da festa ma-ra-vi-lho-sa que via embaixo de suas asas inquietas, resolveu não sair da pista! Para tanto se agarrou na torre de transmissão de imagens da Tv. Justamente em frente ao último módulo de julgadores...

Dez anos depois essas são lembranças de uma Cuiabá que ainda espera a chegada do trem que saiu da Estação Primeira. João partiu e a cidade não parou. Nem ela, nem o estado hoje dividido que não se lembra ou reconhece, por exemplo, seus filhos, os do Mato Grosso uno.

É que, parece, a praia da cultura e do refinamento, assim como a minha aqui no Arpoador, ficou pequena e está ocupada por quem desconhece séculos de histórias. Como as dos que fizeram dessa terra o Paraíso no Centro da América.

 *Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Texto strike das séries “Parador Cuyabano”, “Arpoador” e “É carnaval”, do SEM FIM... delcueto.wordpress.com




Studio na Colab55

sexta-feira, 22 de julho de 2022

De cabeça pra baixo


De cabeça pra baixo

Texto e foto de Valéria del Cueto

É agora ou nunca. Ou desenrolo essa crônica ou teremos mais uma semana desse silêncio maior que o buraco negro que devora gulosamente parte do universo. Não é uma ausência de ruído por falta de barulho. Talvez seja por excesso.

Os fatos (atenção, eu disse fatos e não notícias), atropelam o já conturbado e pouco prazeroso cotidiano.

Subindo a rua um toco de cigarro acesso sendo arremessado por um armário barbudo em direção ao meio fio atravessa o caminho natural de quem transita na via pela calçada.

Na sequência uma motocicleta, das grandes, desce na banguela evitando a contramão. O piloto e o carona deslizam velozes impávidos pelo calçamento de pedras portuguesas, desviando e fazendo cara feia pros pedestres que circulam indo ou vindo do metrô.

Na esquina o vermelho da sinaleira não intimida o motorista do buzão. Nenhum sinal de uma simples intenção de reduzir a velocidade, nem mesmo ao passar pela faixa de segurança do cruzamento movimentado.

Esses eventos ocorreram num curtíssimo espaço de tempo. Menor que uma performance tiktokeana, quiçá no espaço de uns 5 stories instagrâmicos.

Diante dos alertas deu pra sentir que era melhor seguir pelas sombras das amendoeiras coloridas pelo outono por ruas menos movimentadas em direção a um lugar em que pudesse sacar o caderninho.

Não vou dizer onde para não dar margem ao argumento de que este é um texto “localizado”. Nem pensar! Como eu e meu celular essa escrevinhação desligou (não, desativou como é correto definir) o modo localização.

O que me interessa é o sol. Esse, que brilha em qualquer lugar e, ultimamente, cospe fogo e ondas magnéticas em direção a nosso já tão combalido planeta. E nem pense em jogar a responsabilidade dos calorões, incêndios, enchentes, chuvaradas, nevascas e afins no astro rei. Os protagonistas dessa tragicomédia somos nós, estúpidos, inconsequentes e prepotentes seres humanos.

Qual um dominó gigante chutamos, não apenas a pedra original das mudanças climáticas, como ainda jogamos as peças para servir de lenha na fogueira do desastre quase irreversível.

Tá vendo porque tenho evitado manifestações croniquescas?

Não é que não queira dar o recado. É que sei que, para a maioria, ele entra por um ouvido e sai pelo outro sem nenhum grau de assimilação. Não há argumentos que se sobreponham aos fatos e nem a esses estão dando a mínima bola.

Por isso, o que (ainda) me faz escrever é deixar para o futuro algumas observações desse momento único da história contemporânea. Aquele em que o ser humano parece ter ligado, com o perdão da palavra, o phoda-se!

Para o golpe anunciado que se aproxima. À entrega da Amazônia a bandidos e redes internacionais, (sob os quepes dos militares que deveriam defender o território, mas ocupam cargos burocráticos em gabinetes e estão mais preocupados com suas candidaturas a políticos profissionais, onde o butim é maior e não deixa rastros). Para mais um passo da agonia do Pantanal, carimbada com o arcabouço legal ardilosamente tramado pelos deputados da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.

A aprovação do PL 561/22   libera a pecuária extensiva em áreas de preservação e capricha nas alterações de pontos chaves para a manutenção do bioma. Sabe o que falta para virar lei? A assinatura de Mauro Mendes, o garimpeiro cria de Blairo Maggi, agraciado com título de “Motosserra de Ouro” que, em breve, voltará a pontificar nas paradas de sucesso.

As barbaridades explodem como os humores do sol magnético. E, sim, deixarão sequelas permanentes.

Cá entre nós, queria muito ficar em silêncio e me “localizar” em minhas visões, normalmente tão poéticas e otimistas...

Mas, quer saber? Não dá. Pelo menos enquanto houver uma única chance de não nos entregarmos aos dementadores que circulam livremente para tirar nossas esperanças de dias melhores.

É hora de pecar por excesso, não por omissão!    

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

@delcueto.studio na Colab55

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Como no quartel

Como antes no quartel

Dúvida cruel, o que e para onde?

Série Arpoador para falar do Rio de Janeiro e da guerra do tráfico que recrudesce na Zona Sul e colapsa boa parte da cidade. Isso não quer dizer que o bicho começou a pegar agora, asi no más.
Nada disso. Os sinais de que, mais dia menos dia, o que já estava fora do controle em outras áreas urbanas explodiria na maior favela carioca, a Rocinha, estavam visíveis.

Para coroar a levada hard core a violência explodiu no meio do caminho para o festival de música que pretendia ser o ponta pé inicial de uma “retomada” turística do Rio. É puro rock and roll! Com direito a muitos coros de “fora Temer” e protestos contra a classe política, a cura gay, pela demarcação das terras indígenas, a proteção da Amazônia e por aí a fora Temer de novo.

Enquanto isso Pezão, o governador estado, declarou ter “afinado a viola” depois de “discutir a relação” com o Ministro da Defesa, Raul Jungmann. Ele disse, no primeiro dia de ocupação do Exército, que a Rocinha “estava pacificada”. Como esqueceu de avisar “aos alemães”, o pipoco continua comendo solto.

A segunda possibilidade literária é partir para a série Parador Cuyabano abordando os últimos acontecimentos em Mato Grosso. Como a delação da delação do ex-chefe de gabinete do também delator ex-governador Silval Barbosa, que garantiu à nossa terra mais um título de primeiro lugar, dessa vez na categoria “dedo-duro escorpião”, o que morre com o próprio veneno. Aperfeiçoando o modus operandi estreado pela dupla sertaneja da J&S, Joesley e Ricardo, a que involuntariamente se auto gravou, Sílvio César se deixou levar pela falsa impressão que seria o único a ter a brilhante ideia de gravar colóquios comprometedores. Morreu pela boca. Existirá peixe-escorpião?

Enquanto alguns dormem com um pijaminha social (para o caso de precisar descer para vistoriar obras de emendas parlamentares em Várzea Grande), outros perdem o sono sem saber quando receberão a dádiva do despertar ao doce toque madrugador da campainha acionada pelos homens da valorosa Polícia Federal.

Aí, me pego pensando e desafio você, leitor, a exercitar sua imaginação e responder:

1) O que faria se soubesse que estava na mira dos tiras e que, mais cedo ou mais tarde, veria o sol nascer quadrado?

2) Como viver como se não houvesse amanhã, sem saber em que amanhã a vida boa acabaria?

3) O que você comeria e beberia se soubesse que o amanhã lhe reserva o direito garantido de uma marmita carcerária?

Voltando à realidade (só pode ser ironia), ainda há uma terceira opção para a crônica, a série Fábulas Fabulosas. Não fosse o detalhe que a última escrevinhação foi Senta no Toco, protagonizada pelo extraterrestre Pluct, Plact. Repeteco não dá, né?

Enquanto a dúvida persiste cruel impedindo o desenvolvimento adequado do texto, daqui da TV ao lado ouço a canção: “Só uso necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais”. Martelo batido! Definida a ambientação do restante da crônica em construção. “Mogli, o Menino Lobo”, mata a charada!

É lá na floresta (aquela onde a anta perdeu o cargo de presidente para o morcegão sugador do sangue da fauna local e as hienas continuam rondando a carniça governamental), que se desenrola o que sobra do espaço semanal que me pertence.

Acontece que, mais uma vez, as raposas foram convocadas para tomar conta do galinheiro da denúncia de que o morcegão e várias hienas parceiras andaram sugando sangue e comendo as beiras e o miolo da “ceva” florestal.

Apesar da revolta geral da bicharada, sibilam as cobras, coaxa a saparada em sintonia, uivam os lobos a luz da lua que, garantido mesmo, nesse caso, há apenas um direito: o “jus esperniandi” para engambelar a fauna torcedora. Por enquanto, fica tudo como antes no quartel de Abrantes.

Até quando?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas” do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

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