domingo, 25 de agosto de 2024
20 anos @no_rumo do Sem Fim...
quinta-feira, 5 de janeiro de 2023
Pode ser...
Pode ser
Texto e fotos de Valéria del
Cueto
E não
apenas pela mudança previsível do ciclo anual. Depois de um longo e nebuloso
dezembro no primeiro dia do ano parece que mudou a chave e tudo que era cinzento
e molhado se acendeu.
Como cria
carioca fiquei mais tranquila quando vi, no último minuto do segundo tempo,
quase no final da partida que arrastaria o mau tempo noite da virada a dentro,
que a produção do mega espetáculo se rendeu ao charme de uma mandinga sempre
usada em outros episódios que que a chuva estragaria a festa.
Mais uma
vez, foi contratada a Fundação Cacique Cobra Coral para segurar as nuvens,
limpar o horizonte e encerrar a prolongada e detalhada lavagem celestial que se
arrastava há semanas, mudando as tonalidades do cenário da Cidade Maravilhosa. Pedido
devidamente feito, desejo de todos atendido. Foi justamente a ausência total da
mais leve brisa que escondeu parte dos fogos das 10 balsas posicionadas em
Copacabana atrás de uma quase sólida barreira de fumaça.
Atrapalhou?
Um pouco da segunda parte dos 12 minutos do espetáculo. O “defeito” climático
logo foi esquecido pelo astral de Zeca Pagodinho e da escola de samba
Acadêmicos do Grande Rio, com os axés do samba enredo 2023, que homenageia
justamente o querido cantor de Xerém, (distrito de Duque de Caxias, comunidade
da agremiação), e de Exu. O orixá que regerá 2023, junto com Oxum, Iansã e
Iemanjá.
Tirando esse
porém, a festa no Palco Copacabana foi de muita alegria. Um astral contagiante,
já alcançado no show de Alexandre Pires, a quem coube homenagear o Rei Pelé, antes
da meia noite.
A edição
desse ano entra na lista dos réveillons inesquecíveis, parte da história da
cidade e da memória de milhões de visitantes. Os números, como sempre, impressionam.
Perigos? Sim. O que esperar de uma multidão de mais de 2 milhões de pessoas.
Típica situação em que vale a regra três, “onde menos vale mais”, imortalizada
por Vinícius de Moraes e Toquinho.
A melhor medida para a sintonia que rolou nas míticas areias de Copacabana? O espírito e a energia que nortearam a festa da virada, inspirados por uma iluminação caprichada e pelas sensacionais imagens projetadas no fundo do palco emoldurado pelas luzes da Princesinha do Mar.
Demorei um
dia para voltar ao Rio. Como grande parte dos brasileiros passei o primeiro de
janeiro sintonizada em Brasília na terceira e, acho que mais emocionante, posse
do presidente Lula.
Imagina a
vontade de fazer do fim de tarde do dia 2 de janeiro, uma segundona, um “modelo”
para as mais de 50 aberturas de semana de 2023...
O destino
foi a entrada do Arpoador onde, com milhares (sim eu disse milhares, a praia
estava lo-ta-da) de turistas, lagarteei ao sol de fim de tarde sentada na
mureta aos pés de Tom Jobim.
Não, nada
de mar ou areia que é para deixar Iemanjá complementar o incrível trabalho dos
garis cariocas, tendo tempo de limpar a carga deixada em seus domínios na noite
da virada. Pés na areia e mergulho no mar, aquele primeiro do ano, só depois de
uma virada da maré.
Enquanto
isso, cedo o espaço aos visitantes que lotam um dos mais lindos cartões postais
brasileiros (para ser modesta), me deliciando com o som feito por um músico de
rua e seu violão amplificado.
Pode ser
que, como acontece a cada verão, o novo ano venha cheio de esperanças e desejos
que, nem sempre, se realizam. Pode ser. Mas agora, nesse momento, como grande
parte dos brasileiros, mentalizo as melhores vibrações.
Desejo a
todas as pessoas de bem e, claro que a você, leitor que me acompanha, apenas
que nossos sentidos se abram para receber as energias positivas que emanam dessa
incrível passagem de ciclo, promessa de novos desafios e realizações.
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Texto da série “Arpoador” do SEM
FIM... delcueto.wordpress.com
terça-feira, 11 de outubro de 2022
Horizonte
Horizonte
Texto e foto de Valéria del Cueto
Há muito em jogo! No momento, na mão de poucos. Isso, se compararmos com o total impactado pela decisão das urnas no Brasil. Falo dos que agora escolherão seu presidente migrando de outras opções, dos candidatos derrotados, votos nulos, brancos, abstenções. E, quer saber? Amiga isolada do outro lado do túnel, introjetei o espírito desse eleitor e já tenho lado.
O que não faz do seu amigo Pluct Plact, esse extraterrestre extraviado, um ser incapaz de ouvir os opositores. Ouvir, tentar entender e, confesso, não compreender como tantos se revelam (e como o fazem) diante das opções disponíveis. Que os incautos caiam na ladainha da família ameaçada, da liberrrrdade sem reciprocidade, da fé sendo testada nas colinhas obrigatórias, até entendo. Mas tenho visto coisas que até Deus duvida quando o assunto é respeito e sensibilidade social.
Transformar a religião em arma de guerra é pecado. Quanta iniquidade é violentar a fé, armar o credo. Tirar de Jesus o manto do amor, da bondade, o estender as mãos aos desvalidos, senão vira... comunista! Como sabe quem, querida amiga? O pop Papa Francisco.
Os próximos dias serão de provação nessa terra, que ironia, abençoada por Deus. Enquanto alguns jejuam por um deus impiedoso da guerra, outros o fazem por necessidade, falta de opção. Não há trégua no avanço do obscurantismo, falsamente intitulado de conservadorismo, dessa extrema-direita com embalagem Nutella.
Eu, graças a vasta experiência no tempo sideral e espaço interplanetário, não coaduno com quem quer calar os oponentes, transformar os que discordam em inimigos. O que não deu certo em outras galáxias, também vai dar ruim aqui, lamento informá-la.
Isso não é política. É a semente maléfica da ditadura, daquele mesmo mal que volta e meia ameaça a evolução. Esse modelo nefasto de governo que você já viu quando era criança e sei, não quer ver nunca mais.
Entendo porque não faz parte do seu perfil ser a favor da tortura, do desrespeito os poderes constituídos. Justo você. Raiz, tronco, galho, folha, flor, fruto e semente da Constituição de 1988.
Os próximos dias, como tantos em outras eleições em que você participou, como me contou, serão de convencimento, conversa e disputa por cada voto a ser depositado nas urnas.
Em nossos encontros pelo raio de luar que invade a cela onde voluntariamente você está recolhida do mundo, convivi com seus sonhos. Ouvi desejos de paz, do equilíbrio e da harmonia por um país em que todos tenham oportunidades iguais e um governo que provenha e acolha a população. As vibrações que recebo, dessa massa de centenas de milhões de pessoas por onde me embrenho, traz o mesmo desejo de educação, saúde, segurança e uma vida digna.
Não é hora de esmorecer, nem se deixar vencer pelo cansaço de lidar com tantos ataques mentirosos, fake news calcadas em sandices histéricas. Que as diferenças sejam respeitadas, as religiões livres em seus direitos de manifestação. Todas!
Não acho que essas eleições sejam uma cruzada do bem contra o mal, nem que um lado deva aniquilar o oponente, como tentam maldosa e criminosamente insuflar. Sem uma ponte para o diálogo não há política. Prática que, para ser salutar, tem que ser plural.
Se você cronista, (como eu, Pluct Plact, imagino), está entre os votos que decidirão as eleições, pense, antes de tudo, em quem lhe dará o sagrado direito de discordar.
Prepare-se! Saia da toca e se jogue na cabine eleitoral, lugar de todos os brasileiros que (ainda) têm o direito de optar pelo que acham melhor para o país. Você tem duas semanas para se decidir. O horizonte lhe aguarda, pronto para ser vislumbrado.
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
segunda-feira, 3 de janeiro de 2022
Nunca mais
Nunca mais
Texto e foto de Valéria del Cueto
Não sabia seu nome, posto que era incapaz de se olhar. Não era gordo, achava, como via outros nas estantes que decoravam as paredes frontais. Mas, pela posição que ocupava, deduziu ter algum valor. Estava ao alcance das mãos do “patrão”. Era constantemente manuseado. À vista quase inevitável dos visitantes curiosos que por ali passavam. E eram muitos.
Devia conter, imaginava, alguma erudição. E essa era ampliada pelo que apreendia em seu subconsciente literário pela tela em frente. Era testemunha involuntária da história que se desdobrava a cada dia no recinto por meio daquela imensa, diversificada e louca janela pra o mundo.
De tudo que viu preferiu a alegria. O momento mais esperado era o carnaval. Seu interesse começou quando numa madrugada se (ou)viu no ritmo de uma batucada e, nas imagens projetadas, apareceu a imensa alegoria de... um livro aberto! Um irmão gigante incrustado num carro repleto de foliões. Para descobrir o que fazia ali, no meio da festa, prestou atenção às cenas que quase saiam dançando enquanto reverberavam pelo ambiente, quebrando a severidade da vizinhança na biblioteca.
Então um livro podia alcançar o mundo! Passou a observar todos as escolas de samba ávido por novas expressões literárias nos desfiles. Se sentia representado e valorizado. E lá estavam eles, em vários enredos apresentados. O período carnavalesco era ansiosamente aguardado nos anos em que pontificou com whisky e salgadinhos no salão aconchegante.
Um dia, a surpresa. Uma mudança imprevista! Não o entra e sai da estante para uma consulta ou a espanada semanal. Da prateleira para a escuridão de uma caixa fechada e, pelo som, lacrada! Que destino o aguardava? Perdeu a noção do tempo.
Sua visão foi ofuscada quando pode respirar ar puro novamente. A rearrumação foi numa estante de metal, com mais folga entre os irmãos. A visão do entorno completamente diferente. Livro empilhados, mesas, muito movimento. Ouviu dizer que fazia parte de um acervo doado a uma biblioteca de comunidade. Mais uma vez ganhou lugar de destaque. Sinal de sua relevância. Afinal, descobrira. Era um exemplar da Constituição Federal! Passou a viver manuseado e consultado.
As notícias do mundo exterior não mais chegavam. Pegava umas rebarbas por cima dos ombros dos celulares dos frequentadores. O que não era muito em se tratando de uma biblioteca. Passou a entender mais de games do que acompanhar as novidades. E sentia falta... dos carnavais. Ausentes pelo fechamento do espaço bibliográfico popular nos dias de folia.
Com o passar do tempo foi se desgastando naturalmente. Sentiu as juntas ressecadas, as folhas se soltando. Pressentiu que seu fim estava próximo pedindo a Deus só mais um carnaval, nem que fosse no compacto da quarta feira de cinzas, dia da apuração.
Não teve forças nem estrutura para chegar sequer ao meio do ano. Se despedaçou. Foi literalmente desfolhado e, com as capas e lombada, jogados numa caixa. Fechou os olhos. Imaginava que para sempre quando o conteúdo da caixa foi sendo encharcado folha por folha com um líquido pegajoso. Se entregou. Desfaleceu.
Recuperou a consciência ouvindo o som da bateria e o rugido da arquibancada aclamando a verde e rosa. “Como assim”, pensou, “onde estou, o que sou?” A lucidez foi voltando devagar. Envolvida na alegria reverberando ao vivo e a cores! Ainda havia vida em suas páginas. Usadas que foram para empastelar uma escultura carnavalesca. Fazia parte de uma alegoria num dos carros da Mangueira!
Cruzando por um dos telões que transmitiam o desfile da Sapucaí de rabo de olho (meio grudado) pode se situar. Seu desejo inimaginável fora realizado. Era um livro que virara o livro. Papel picado reelaborado para compor outra obra. Também literária. E, dessa vez, visual.
Na passada de olhar pelo telão conseguiu ler seus dizeres em letras gigantes: “Ditadura Assassin”. Franziu a sobrancelha (e livro tem?) Nunca mais. Fizera sua parte. Ajudara a impedi-la. Merecia a recompensa, decidiu, se deixando sacolejar até chegar a Apoteose ao ritmo da “Tem que respeitar meu tamborim”, a bateria da Mangueira.
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “É carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
segunda-feira, 25 de outubro de 2021
Cego dos óio
Cego dos “óio”
Texto, foto e vídeo de Valéria
del Cueto
Deu bom dia ao porteiro elogiando as orquídeas que floresciam
abraçadas na árvore da rua em frente ao prédio.
Trocou uma ideia na portaria vizinha sobre as birutas sonoras
amarelas instaladas depois de anos sem serem necessárias e colocadas, aliás, no
momento em que a energia elétrica que aciona as geringonças está pela hora da
morte.
Subiu a rua quase ladeira rumo ao Arpoador, Ipanema, cartão
postal do Rio de Janeiro. O sol, que andara escasso em outubro, estalava no céu
surgindo no rendado das folhas de amendoeiras frondosas que sombreiam a rua.
Quando cruzou a última pista e precisou prestar atenção ao
espaço dos ciclistas, já ouvia o som do trompete do músico que bate ponto no
primeiro banco na entrada do Garota de Ipanema. Enquanto contornava o parque
ouvia os tristes acordes de Assum Preto, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, o
cego dos “óio” que canta de dor.
Na passagem lateral que leva à praia as pitangueiras coladas ao
muro grafitado estão carregadas de frutos amarelos. Os vermelhos, perpitolas,
como dizem os cuiabanos, são colhidos por quem reconhece as árvores frutíferas,
ainda mais nessa época de escassez.
A praia se descortina à frente. O sol, sem uma nuvem no céu,
reina soberano e absoluto.
A blusa de manga comprida parece quente demais. Só parece. Quem “é
da praia” sabe que ela é essencial na hora de voltar pra casa quando, com o
corpo quente, tiver que percorrer o caminho sombreado e, talvez, enfrentar os
corredores de vento nas ruas do bairro.
A areia da praia não está cheia (ainda) e o mar bate num som
que, não pergunte como, indica a subida da maré. O truque é não ficar na
beirada para poder escrever tranquilamente. Esquecer a linha de frente. Isso é
o que garante não haver surpresas quando a maré subindo der o bote para
recuperar seu espaço.
Antes da água surpreender a distraída com o caderninho, os
banhistas instalados próximos à água darão o alerta. Para facilitar, usa como
marcação o homem-camarão. Aquele que dorme distraído ao bronzeamento se
preparando, inadvertidamente, para uma noite de sofrimento inesquecível.
O mar baixou e tem uma linha animada de surfistas. Pelo horário
e o estilo dominante não está nela a rapaziada local que prefere as ondas que
fazem a fama do point em dias de ressaca.
O Rio está cheio e o sotaque do grupo ao lado é de sulistas.
Comentam sobre o visual das acomodações que ocupam na cidade.
Definida a ocupação é estender a canga na direção sul, tirar a
máscara (sim, ainda necessária para quem não está afim de bater palmas pra
maluco Bolsonaro ou Eduardo Paes dançar) e, finalmente, ser invadida pelo tão
almejado cheiro da maresia.
Ao sacar o caderninho está decretado o fim de todos os
incômodos. Até o do som da música porcaria do grupo que se confraterniza a
alguns metros adiante. É hora de mergulhar nas sensações de um dia normal.
Tudo cronometrado. Quando as linhas definidas pelo editor do
jornal para o espaço ideal da crônica estão se esgotando o homem-camarão pula,
levantando seus pertences. Sua toalha é alcançada por uma onda atrevida!
Hora de levantar a cabeça, focar a vista em direção ao sol que
desce cinematográfico em direção a ponta do Vidigal e fazer aquela foto cartão
postal “cego dos óio” pela beleza para ilustrar a crônica.
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Arpoador
do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
terça-feira, 13 de julho de 2021
À flor da pele
Texto e foto de Valéria del Cueto
O rendilhado dos raios de sol atravessando as folhagens se projeta nas cortinas cor de mostarda do quarto. Ditam a hora do primeiro movimento do dia.
Ainda é um esforço pequeno, apenas o suficiente para jogar o edredon de lado, chegar ao pé da cama e abrir as janelas deixando a luz solar que ultrapassa a borda da montanha entrar e aquecer a parede da estante e da escrivaninha, passeando ao lado do notebook detentor de escritos, imagens e segredos.
O murmúrio rouco e contínuo do riozinho predomina até os passarinhos começarem a algazarra intermitente entre as espécies que visitam a mangueira, a goiabeira as bananeiras e o bambuzal, do outro lado do fluxo da água, pirulitando entre as folhas e sacudindo os galhos, única forma de pressentir a dança das espécies que circulam na floresta.
É melhor nem respirar e evitar movimentos bruscos. Eles podem atravessar a cantoria e alertar a passarada da presença do ser estranho que espreita o espetáculo. Humanos assumidos não são bem-vindos na colorida e inquieta festa matinal, só os que aceitam a imposição da exigência da imobilidade e conseguem adequar o ritmo da respiração à sintonia da mãe natureza.
Até o acionamento da máquina fotográfica tem que ser delicado, nada brusco. Lento e seguro como o dedo no gatilho de uma arma. Que comparação terrível. Mas é verdadeira. O “tiro” da imagem não pode ser brusco. Tem que ser leve e constante. Quando se alcança essa afinidade os passarinhos quase fazem poses dançando, nesse caso, nos galhos e folhas largas do mamoeiro.
Depois é tempo de seguir o fluxo do riacho indo pela estradinha de terra que ladeia a água, cruzar a ponte de madeira, atravessar o gramado e, fazendo um esforço imenso para não se perder do objeto de desejo, evitar - não sem marcar a luz especial, a tentação de parar para “desenhar” com a máquina fotográfica as muitas flores e a vegetação. Elas tremulam com a brisa acenando suas cores em busca de atenção, o que desviaria o foco ainda não alcançado do projeto da manhã ensolarada de inverno.
As pedras do riozinho por onde a água cristalina brinca de deslizar é o destino quase inalcançável. São muitas as tentações. O guia sonoro fica mais definido a medida em que a aproximação da margem vai sendo feita. É o som da água que muda sua linguagem acrescentando tonalidades e notas, agora distinguíveis e estimulantes, diferentes do murmúrio rouco do despertar.
Tentar entender o diálogo das nuances do encontro das pedras com o serpentear aquático que forma cachoeirinhas, redemoinhos, ou se espreguiça nos remansos arenosos, é tão impossível quanto assistir um filme turco sem legenda. Mal dá para distinguir o início, o meio e o fim das frases dos diálogos, o que dirá compreender as palavras. Traduzi-las então...
O fluir deslizante no leito pedregulhento é assim. A gente, no máximo, capta o sentimento, a energia despendida no movimento capturada pelos reflexos espelhados que mudam de cores e alteram suas múltiplas tonalidades dependendo do ângulo, da intensidade e dos caprichos dos raios de sol.
Pensa no que acontece, por exemplo, com o passar festivo das nuvens ligeiras que sassaricam ao sabor das brisas e correm quando fustigadas pelos ventos. Lembre-se que falamos de um dia ensolarado.
Tudo é leve. Profunda, só a percepção para acionar a camada da sensibilidade (capaz de detectar a sutileza dessas nuances) e a memória. Ela, que permite esse registro. Feito no inseparável caderninho que vai sendo escrevinhado sobre a canga que protege a pele do cimento da piscina de água natural, abastecida pela bica que vem da mina, exigindo atenção com seu som forte e constante.
Assim vai se derramando e ritmando as palavras dessa que é mais uma crônica @no_rumo do Sem Fim...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
terça-feira, 15 de junho de 2021
Ruptura
Ruptura
Texto e foto de Valéria del Cueto
Nem é preciso abrir os olhos. Basta aguçar os demais sentidos. Os sons não ferem.
O do fundo é contínuo. Água correndo nas pedras, mas não muita. Um murmúrio alto em tempo de pouca chuva.
Um pássaro solitário cantante e um grilo quase falante de tão animado discutem! Também dá para perceber a conversa mansa do bambuzal, mas só quando venta.
Nada de tecer comparações, que é para não precisar fazer um exercício de memória e transpor para o papel a tortura dos meses a fio de enclausuramento.
Os cheiros também são outros. Até o de comida, única possível semelhança entre os ambientes.
Terra, plantas, flores e frutos. Carambola. O de cachorro molhado também.
Sangue bom é um vira-latasss aventureiro e, quando volta das viralatices que podem durar vários dias, vem todo estropiado. E fedorento...
Mesmo sem nenhuma tentativa de aproximação escolheu a mesa baixa da varanda, junto ao interruptor da luz pra se recuperar das estrepolias.
Dependendo da direção do vento o cheiro de cachorro molhado chega até a rede que balança tão vadia quanto ele.
Quando o vento muda de lado as roupas penduradas nos varais próximos da lavanderia exalam um leve perfume enquanto secam num vai-e-vem. Tão preguiçosas ao sol do pé da serra.
O tempo do tempo mudou, mas continua sendo pouco, seja na cidade ou por aqui. Ainda falta tempo para fazer um monte de coisas, tudo no seu próprio tempo. Que urge, porém não se adianta.
A rotina agora é outra. Também marcada pelas risadas, correrias e a gritaria animada das menininhas felizes, sapecas e saltitantes que se sobrepõe ao cantar distante do galo equivocado. Sempre às quatro horas da tarde.
Daqui a pouco começa a esfriar. O sol está caindo cedo...
Ah! Tem o céu. É o mesmo. Só que o daqui é emoldurado pelas copas das árvores gigantescas que fazer um desenho aleatório e filigranado contrastando com o azul, o branco e o cinza plúmbeo, mais pesado.
Nessa época a chuva é pouca. Num amanhecer seus sinais eram visíveis nas gotinhas dançarinas refletindo a luminosidade que brincavam de quase cair pela beirada do telhado da varandinha.
Dava pra vê-las do posto de observação. Dava até para tentar igualar o ritmo das idas e vindas com a queda dos pingos.
Leva tempo para sincronizar os movimentos. E tempo, sabemos, temos só algum. Porém não para muitas gotas.
Pra acabar com a experiência bate um sopro de vento da nuvem de algodão que passa rápida. Não muito forte.
O suficiente para jogar por terra a brincadeira junto com a pingação se precipita da calha, reanimada com a água derramada pelas folhas das árvores em cima da casa.
O sol reaparece, as roupas tremulam na corda e o dia recomeça.
O tempo já não nos pertence. O dono dele é o cheiro forte que vem da cozinha. Sangue bom se anima, sabe o que o espera.
Hora de tomar um café...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
segunda-feira, 1 de março de 2021
O preço do silêncio
O preço do silêncio
Texto, foto de Valéria del Cueto
O silêncio vale ouro, diz o ditado, e a gente sempre pesa e pensa na ausência das palavras. Ultimamente, talvez por conta da pandemia, a frase adquiriu outro sentido. Muito mais amplo.
O ruído é tanto (e não é o Manifesto), que um momento de silêncio vale grafeno. Sabe o que é? O nanomaterial de carbono puro, (como o diamante) que é leve, condutor de eletricidade, rígido e impermeável.
O silêncio anda assim, tão excitante como o cristal mais fino conhecido, com utilidades em campos tão diversos como a dessanilização e purificação da água do mar e a redução de emissões de CO2. Sensores biomédicos poderão detectar doenças, células solares flexíveis e mais transparentes captarão energia. Ao ser adicionado a materiais de construção civil os torna mais leves e resistentes.
Tudo isso pode parecer distante do cotidiano. Mas e se o nanomaterial chegar aos cosméticos com sua pulverização na coloração dos cabelos? E na mobilidade urbana, com sua aplicação nos pneus e a fabricação de quadros de bicicleta que pesem 350 gramas?
O silêncio passou a ser tão valorizado quanto o grafeno! Enquanto todo mundo berra e grita, as obras martelam, quebram, esmerilham e calam os passarinhos prisioneiros das gaiolas do sétimo andar, as TVs, celulares, o “cinco, quatro, mais uma, três, dois, tá quase lá, ummm” da ginastica online do vizinho, o som das lives, dos filmes, das aulas, da porra da vida que passa.
O silêncio vale grafeno e o povo se esgoela pelos combustíveis fósseis...
Passei a persegui-lo, o silêncio, como um prêmio. Tentei a madrugada, com quem tenho afinidade. Descobri que ele não existe e fica mais difícil no verão. Dezenas de aparelhos de ar condicionado habitam o meu quadrado. De um lado, do outro, em frente, em cima, embaixo... Tá tudo dominado pelos roncos dos motores, alguns desregulados. Nem os miados do gato do andar de baixo são capazes de superar a barreira do ronco de concreto dos aparelhos mal aparafusados e trepidantes, ainda sem a tecnologia fantástica do grafeno.
Os únicos com possibilidades de quebrar a barreira da monotonia monocórdia e calorenta são os latidos estridentes e histéricos do cachorro da vizinha que vem do alto, mas não muito. Mas ele prefere dar seu showzinho já de manhã, quando os ares já começaram a ser desligados. E nos acordar, claro. A mim e aos vizinhos, porque aqui ninguém larga a mão de ninguém. Tá todo mundo na mesma vibe, isso antes das obras enlouquecidas da pandemia. Virou sinfonia!
Sem o dia e a calada da noite o que resta? Trocar o quarto pela sala que dá para um espaço mais amplo e menos interno, apesar de ser de fundos. E apelar para o amanhecer.
A virada mais difícil para quem, como eu, gosta de atravessar a noite. Mas como ir dormir quando a batucada começa cedo e termina lá pela hora do chá? Das cinco da tarde...
Temos mais um esforço indesejado, porém necessário.
Achei o silencio por poucas horas, entre às seis da matina e o início da aula de ginástica e o “três, dois, um” online de um vizinho abusado e sem desconfiômetro que geme e bufa a cada movimento. Antes, pra saber que há vida na terra, se manifesta animadona a arara da casa da vila que tem a mangueira e outra árvore gigante que anima e esverdeia a coleção de janelas da parte interna do quarteirão.
E sim ele vale grafeno. Ver o nascer do dia se colorindo, no céu cercado de janelas adormecidas em Copacabana, em silencio total, custa caro para quem não gosta de acordar cedo.
E não tem preço quando a gente não sabe viver sem ele...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
terça-feira, 2 de fevereiro de 2021
Depois do amanhã
Depois do amanhã
Texto, foto de Valéria del Cueto
Estamos no ponto mais alto do triplo mortal carpado no trapézio. Sem rede de proteção. A distopia é aqui na porta ao lado. Quem somos nós para reconhece-la dentro do nosso próprio quadrado? Entramos no segundo mês do ano. Como se o carnaval, já cancelado na prática, mas fervilhante em nossos corações, fosse loguinho ali.
Temos tudo, nesse nada sem sentido em que vegetamos. Dos grandes fatos aos pequenos atos quem somos nós nessa contradança? O nada combinado com o lugar nenhum. Somando, dividindo, subtraindo e multiplicando vamos levando a aritmética incorreta do dia a dia da pandemia. Aquela que assusta no âmbito geral e provoca um efeito inverso no individual. Todo mundo sabe que a ordem dos fatores altera o produto, o que não impede o “queroomeu” de sempre dando cartas de mão no pano não tão verde da humanidade.
O caos é aqui. Os sinais são bem claros, a gente é que não tem olhos para ver. O primeiro deles, no meu caso, é o local e o horário que saquei a caneta e abri o caderninho. São seis e meia da manhã da primeira segunda feira de fevereiro. Escrevo no chão da sala com o sol invadindo, ainda tímido, os tecidos de voil e a renda delicada da cortina que protege as plantas.
Ao meu lado o tomateiro informa, pela alegria serelepe de suas folhas que tremulam no ritmo preguiçoso da brisa passeando pela janela recém aberta que, apesar da falta de chuvas nesse janeiro esturricado, houve uma evolução sensível e visível a olho nu no jardim suspenso da pandemia.
Ao lado dele, uma rosa cor de rosa bem antigo desabrocha no vaso em que uma espécie desconhecida e com folhas de cheiro forte se desenvolve animadona. Tirei uma foto da mudinha virando arbusto abusado e o google indicou que pode ser um pé de Dama da Noite. Achei um pouco diferente dos “modelos” similares apresentados pelo sábio da Inteligência Artificial. Tenho a impressão que as folhas são mais lustrosas. As do vaso parecem ser, se não aveludadas, como a do pezinho de tomate, menos rígidas e “polidas”.
O sol que tomo todas as manhãs produz o tom moreno, quebra o tom esverdeado do isolamento na minha pele e pode ser reverenciado no desenvolvimento progressivo das plantas (inclusive eu, a ameba mor). Agora está forte e, caso não tomemos os devidos cuidados, deixará suas marcas. Isso me leva a mudar constantemente de posição. O caderninho me guia. E também ao meu corpo como um todo para evitar aquelas marcas nas dobrinhas, garantindo um bronzeado equilibrado. Igual a quando escrevo as crônicas nas Pontas, do Leme ou do Arpoador num verão qualquer.
Onde quero chegar? A nossa incrível e perigosa capacidade de adaptação, quase sempre inconsciente. A que nos faz acordar de madrugada num primeiro de fevereiro (amanhã é dia de Iemanjá), num ano sem carnaval, depois de um final de semana clássico com muito calor (chuvas por aqui, só se for de bençãos, pra quem acredita), praias lotadas, arrastões e variantes inclassificáveis das novas cepas se beijando nas bocas turísticas de Ipanema e outros points.
Não, não está pouco. Nem essas informações traduzem um retrato fiel do que nos aguarda, além da lentidão na vacinação contra a covid-19. O radinho que está desligado informa os movimentos de mais uma greve de caminhoneiros anunciada, ainda hoje decidirão os comandos do parlamento brasileiro. Mas, antes, Rodrigo Maia poderia até pautar o impeachment de Bolsonaro no Congresso Brasileiro, enquanto da miúda Myanmar o amigo desconhecido avisa sobre o último golpe de estado de um outro lado do mundo. Que não é aquele onde milhares de manifestantes são presos ao protestarem contra a prisão de um oposicionista ao regime, no caso, o russo.
O dia mal começou. Eu aqui, entre rosas, azaléas, tomateiros, hortelãs e mudinhas de pimentões. Observo o passarinho que borboleteia no pé de camélia que nunca deu flor. Agora, torro as cascas de bananas e jogo moída na terra. Diz que a ausência de flores é falta de potássio. Só saberei o efeito na próxima primavera. Enquanto converso com ela reparo que já dá pra ver uma mudança nos brotos das novas folhas que explodem nas pontas dos galhos. As flores, só o futuro dirá se resistirão ao inverno que (ainda) está por vir....
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
quarta-feira, 27 de maio de 2020
Quer comprar?
Quer comprar?
Dobrou a esquina procurando espaço aberto em direção à praia. Mas não chegou a atravessar as pistas. Justo naquela rua não havia sinal nem faixa de pedestres que permitisse a passagem segura para a orla.
Pegou o calçadão caminhando no desenho das pedras portuguesas, um dos patrimônios paisagísticos de Burle Marx na cidade maravilhosa, cartão postal do Rio de Janeiro.
Naquele trecho não havia bancos para descansar contemplando a vista, somente as árvores que se esparramavam em desenhos inesperados correndo atrás da luz do sol, derramadas sobre a calçada.
Era um dia que ficou azul. Começou cinzento. O vento afastou a bruma e mudou o humor das nuvens, reverberando o contraste do caminho. De um lado a natureza, céu, mar, areia, praia. Do outro, concreto e a mão do homem, no trabalho maravilhoso do paisagista sob os pés da muralha de prédios da Avenida Atlântica, em Copacabana.
Carros estacionados, ao longe moradores. Os de rua perambulando, os dos prédios passeando seus cachorros, turistas... tudo igual naquela quarta-feira, início de março.
O olhar que vagava na mesmice do verão pós carnaval foi atraído por um conjunto de elementos incomuns na paisagem. Vários elementos.
Ter caçambas recolhendo material das obras em apartamentos da orla não era incomum. Cercada de catadores que nos containers garimpavam tesouros, inclusive. Mas aquela espécie de burro sem brabo malocado no emaranhado de troncos distorcidos entre um grupo de árvores era incomum.
No carrinho de ferro uma pilha de pedaços de corpos rígidos, brancos e cores da pele. Pernas, braços troncos e nádegas amontoadas. Tudo, menos as cabeças. O brilho da superfície fria dos manequins contrastando com o formato orgânico, caótico dos troncos e o corte irregular das pedras portuguesas.
Enquanto explorava os objetos, rodeando a “instalação”, uma imagem delirante de sobrepõe. Os corpos passaram a serem reais, ali amontoados!
Buscou avidamente alguém no entorno. Procurava explicação para o conjunto ali exposto. Não viu ninguém. É como se o mundo tivesse parado, esvaziado.
Para se convencer de que a visão dos corpos reais era apenas ilusória, talvez efeito do vinho consumido no almoço na Trattoria, ali atrás, racionalizou. Raciocinando, não podia ser real o seu delírio porque faltava sangue! Duas piscadas depois os corpos desnudos voltaram a ser apenas bonecos inanimados. Sem cabeças.
Mais uma vez deixou o olhar vagar procurando quem explicasse os adereços surreais naquele lugar.
Uma mulher se aproximou observando a pilha de corpos imóveis inquirindo. “Serão de quem?” perguntou, observando os corpos em vários ângulos antes de explicar. “Se tivessem cabeça até me interessava”.
“Quer comprar?” A voz vinha do nada. Tirando o cachorro que arrastava o dono que dobrava a esquina ao longe não havia viva alma no calçadão. Depois de hesitar, a mulher conversou com o vazio perguntando a origem dos corpos mutilados. “Preciso de cabeças, por acaso não tinha por lá?”
Do alto dos galhos das árvores a resposta veio ligeira. “A Gente pegou o que tinha. Era tudo isso aí. Que comprar? “Só queria as cabeças”, respondeu a interessada. Como não tinha, seguiu solitária pelo calçadão enquanto o observador silencioso rodeava o grupo das árvores em busca de ângulos inusitados dos objetos em cima do burro sem rabo.
Da galharia novamente a oferta. Dessa vez para o dono do cachorro que veio chegando. Puxava o “chefe” pela coleira. Se aproximou para farejar as rodas do carrinho. Não foi só a ele que a visão causou uma sensação estranha.
Como sabia o texto do diálogo que aconteceria e já esgotara as possibilidades fotográficas, seguiu o seu caminho em direção ao posto 6.
Carregado pela nuvem etílica que o embalava, esqueceu o material capturado e do estranho diálogo. Perdido num sonho delirante, uma miragem ilusória do último passeio antes do início do afastamento compulsório definido pelo vírus.
Duas ou três luas de isolamento provocado pelo flagelo da Covid-19, remexendo nos arquivos ressurgiram as imagens. Uma premonição visual do que acontecia na vida real.
Foi aí que veio à memória a pergunta que não deveria calar, o enunciado do enigma que desafiava a humanidade.
“Quer comprar?”
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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com
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