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terça-feira, 13 de julho de 2021

À flor da pele


Texto e foto de Valéria del Cueto

O rendilhado dos raios de sol atravessando as folhagens se projeta nas cortinas cor de mostarda do quarto. Ditam a hora do primeiro movimento do dia.

Ainda é um esforço pequeno, apenas o suficiente para jogar o edredon de lado, chegar ao pé da cama e abrir as janelas deixando a luz solar que ultrapassa a borda da montanha entrar e aquecer a parede da estante e da escrivaninha, passeando ao lado do notebook detentor de escritos, imagens e segredos.

O murmúrio rouco e contínuo do riozinho predomina até os passarinhos começarem a algazarra intermitente entre as espécies que visitam a mangueira, a goiabeira as bananeiras e o bambuzal, do outro lado do fluxo da água, pirulitando entre as folhas e sacudindo os galhos, única forma de pressentir a dança das espécies que circulam na floresta.

É melhor nem respirar e evitar movimentos bruscos. Eles podem atravessar a cantoria e alertar a passarada da presença do ser estranho que espreita o espetáculo. Humanos assumidos não são bem-vindos na colorida e inquieta festa matinal, só os que aceitam a imposição da exigência da imobilidade e conseguem adequar o ritmo da respiração à sintonia da mãe natureza.

Até o acionamento da máquina fotográfica tem que ser delicado, nada brusco. Lento e seguro como o dedo no gatilho de uma arma. Que comparação terrível. Mas é verdadeira. O “tiro” da imagem não pode ser brusco. Tem que ser leve e constante. Quando se alcança essa afinidade os passarinhos quase fazem poses dançando, nesse caso, nos galhos e folhas largas do mamoeiro.

Depois é tempo de seguir o fluxo do riacho indo pela estradinha de terra que ladeia a água, cruzar a ponte de madeira, atravessar o gramado e, fazendo um esforço imenso para não se perder do objeto de desejo, evitar - não sem marcar a luz especial, a tentação de parar para “desenhar” com a máquina fotográfica as muitas flores e a vegetação. Elas tremulam com a brisa acenando suas cores em busca de atenção, o que desviaria o foco ainda não alcançado do projeto da manhã ensolarada de inverno.

As pedras do riozinho por onde a água cristalina brinca de deslizar é o destino quase inalcançável. São muitas as tentações. O guia sonoro fica mais definido a medida em que a aproximação da margem vai sendo feita. É o som da água que muda sua linguagem acrescentando tonalidades e notas, agora distinguíveis e estimulantes, diferentes do murmúrio rouco do despertar.

Tentar entender o diálogo das nuances do encontro das pedras com o serpentear aquático que forma cachoeirinhas, redemoinhos, ou se espreguiça nos remansos arenosos, é tão impossível quanto assistir um filme turco sem legenda. Mal dá para distinguir o início, o meio e o fim das frases dos diálogos, o que dirá compreender as palavras. Traduzi-las então...

O fluir deslizante no leito pedregulhento é assim. A gente, no máximo, capta o sentimento, a energia despendida no movimento capturada pelos reflexos espelhados que mudam de cores e alteram suas múltiplas tonalidades dependendo do ângulo, da intensidade e dos caprichos dos raios de sol.

Pensa no que acontece, por exemplo, com o passar festivo das nuvens ligeiras que sassaricam ao sabor das brisas e correm quando fustigadas pelos ventos. Lembre-se que falamos de um dia ensolarado.

Tudo é leve. Profunda, só a percepção para acionar a camada da sensibilidade (capaz de detectar a sutileza dessas nuances) e a memória. Ela, que permite esse registro. Feito no inseparável caderninho que vai sendo escrevinhado sobre a canga que protege a pele do cimento da piscina de água natural, abastecida pela bica que vem da mina, exigindo atenção com seu som forte e constante.

Assim vai se derramando e ritmando as palavras dessa que é mais uma crônica @no_rumo do Sem Fim...  

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


@delcueto.studio na Colab55

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Canto pros santos do meu canto

Canto pros santos do meu canto

Texto e foto de Valéria del Cueto

Acordar ouvindo a gritaria da passarada na janela enorme a sombra das borboletas de metal que dançam ao vento presas no entorno da não parede transparente. O pulo da cama é para tomar um copo de água fresca e fazer a ginástica diária de subir o toldo e abrir o janelão, deixando o ar da imagem matinal invadir e clarear o espaço do quarto.

Ao descer as escadas não esquecer de apagar a luz. Guia para o caso de precisar ir até a parte de baixo da casa durante a noite. Entre reparar na luz acesa e chegar ao pé da escada de madeira e ferro, a atenção é desviada para luminosidade que vem do lado de fora.

São poucas paredes. Os vãos envidraçados fazem com que tudo se mexa onde normalmente haveria apenas o senso comum de decoração interior. Os raios de sol projetados invadem o ambiente e quanto mais o vento agita as folhagens que cercam a habitação, maior o ritmo do balanço que alegra o chão e as pilastras de sustentação da sala/cozinha vazada. As sombras dos passarinhos que dão rasantes entre as árvores em busca do alimento matinal também fazem da manhã uma festa na Vivenda da Vovó Suely.

O tempo está perfeito. Quase julho e o ar ainda está limpo, como se já não fizesse mais de um mês sem uma gota d´água vinda do céu, apesar de algumas ameaças e a torcida geral por chuvas que adiassem o princípio da secura insuportável do “verão” no cerrado cuiabano.

Deu até uma esfriada. Aquela que o céu fica vermelho e a lua tem um halo em seu redor. Isso, um dia antes da parede de nuvens pesadas se formar para o lado sul no meio da tarde e ir invadindo o horizonte e depois completando o céu inteiro. Chegou o frio! Notado até por aqueles que, mais acostumados que os cuiabanos em geral, só o sentem quando a temperatura baixa dos 14 graus. Pois baixou...

Graças a Deus não durou nem pegou a temporada dos festejos de São Benedito, o santo padroeiro de Cuiabá. Assim, todos os devotos puderam louvá-lo com pompa e circunstância. Especialmente nas atividades da madrugada, como a novíssima lavagem das escadarias da igreja a ele dedicada e o tradicionalíssimo levantamento do mastro, com a imagem do Divino Espirito Santo ornamentando o topo. Diz a lenda que o lado que a bandeira aponta é de onde virá o futuro Imperador, organizador os festejos no próximo ano. Seja cumprindo promessa, fazendo pedidos para o santo, usando sua coroa, entoando os cânticos da missa da madrugada, experimentando o café com bolo depois da função, participando da procissão ou frequentando as barracas de comidas típicas cuiabanas, a fé do povo se manifesta a cada gesto.

Tão significativa e necessária é a devoção aos santos, como o ritual correspondente à natureza local. Ele pede o banho de rio na Chapada dos Guimarães onde, certamente, descem nas águas cristalinas as energias excessivas que se acumulam no corpo e na alma do vivente. Com sorte a água pode não estar muito gelada depois da inevitável descida até a beira do rio Paciência, por exemplo. E não adianta somente colocar os pés na água, molhar as mãos e a nuca.

O ideal é um mergulho físico e espiritual em que apenas o esforço para não rodar riacho abaixo faça o fio terra com o mundo real. Se der, que a conexão seja feita só com a ponta dos dedos dos pés, numa aula prática de física para demostrar como um único ponto fixo pode segurar a força do corpo contra a correnteza das águas.

Como na vida, em que os pequenos gestos e movimentos podem ser definitivos e decisivos diante do turbilhão que nos cerca e tenta nos devorar, serão as delicadezas e sutilezas que nos manterão ligados ao que temos de melhor a preservar.

A essência da simplicidade é a luta pela verdade. A nossa verdade interior. Aquela que insiste em resistir em se manifestar livremente, como um direito que todos deveríamos exercer plenamente em nosso dia a dia.

Lembra da luz ao pé da escada? Voltando para apagar. Ficou acesa...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Luiz Márcio – Gênio
Studio na Colab55

terça-feira, 31 de julho de 2012

Copacabana, a que engana




É um,
é dois
é três,
Atenção...
Bruno Barreto vai filmar.
Ação!

* fotos de Valéria del Cueto, no set de época da rua Fernando Mendes, ao lado da Trattoria, depois de um almoço com meu pai, Jayme del Cueto.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Ar qui tetura

https://www.flickr.com/photos/delcueto/9323242409


Muio
refletido
e fuio

*Fotos e quase vagabinha de Valéria del Cueto.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Lua, tua




Cheia
Real reflexo projetado.
Desenho no ar,
linhas nuas
Eclipse, estação.

* fotos e vagabinha de Valéria del Cueto, para o Sem Fim...

domingo, 5 de dezembro de 2010

Sábado de decisão




Areia x Embalo.
O Leme ligado numa de suas mais completas tradições, o futebol de areia.
Areia na frente, Embalo empada.
Nos penaltis, deu Embalo.
Cheguei no final do jogo, quando iam bater as penalidades.
Como dois amigos, um de cada time, preferi nem olhar.
As fotos dizem quase tudo.
Parabéns ao vencedor.
*fotos de Valéria del Cueto

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Poucas e boas






Poucas e boas
Texto e foto de Valéria del Cueto








l

Chove lá fora,
agora.
Como chove aqui,
dentro.
 
Parece permanente,
sem cor.

O tempo da dor

insiste no que persiste:
a hora de ser,
adeus.
 
II
chegou, passou,
partiu, fiquei.
ainda sou.
 
não estou
pra ninguém.
 
 
Vagabinhas de Valéria del Cueto para a série Ponta do Leme, do Sem Fim... http://delcueto.multiply.com
 

quinta-feira, 6 de março de 2008

Sem e com




Sem migo
com migo

Reflexo de Valéria del Cueto, idem para as fotos

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

A Ponta aponta



Mal o sol firmou lá estávamos nós: comemorando o final da última quinta feira de 2007.
Mar na frente, Ponta do Leme de um lado, Copacabana do outro.
A luz ditando a tonalidade e a textura dos registros.
A panorâmica é de Lula Araújo, a foto em que apareço também. O restante, você já sabe: É mais um fio da trama do SEM FIM, ainda em 2007...


quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Não seca não!

Pimenteira-013

Estou quase lá e, pra chegar, fiz uma excursão a Vargem Grande, logo ali...
Torçam por mim!

Pimenta da boa,
forte e poderosa,
Eita, está cheirosa.

Prepara o transporte
está acabando (é cano)
O rumo é o prumo
Existe um lugar...

Diz a lenda!



sexta-feira, 13 de julho de 2007

COPACABANA NA ABERTURA DO PAN


foto de Valéria del Cueto

Tudo tem seu preço: sirenes, buzinas, engarrafamentos...
É hora de seguir para o Maracanã, onde acontece a abertura oficial do Pan.
Um lindo dia emoldura a empreitada.
Toda a paciência é pouca...

fotos de Valéria del Cueto

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Rio Carnaval 2007 - Leme e Vila Isabel - marchas e sambas


http://valeria-delcueto.podomatic.com
Link para sambas e marchinhas de alguns blocos tradicionais e charmosos cariocas do Leme e Vila Isabel

No Leme existem 6 agremiacoes carnavalescas: Meu Bem Volto Ja, Boca Seca, Cordao da Confraria do Peru Sadio, Cutucano Atras, Não Mexe que Fede e a Banda do Leme.

GRBC BOCA SECA
AMOR, MUITO MAIS QUE SIMPATIA EMBALA O BOCA SECA
que vai cantar o amor em todas as suas formas: amor entre casais, amor ao esporte, amor comunitário, amor ao proximo, amor a família, amor ao Boca Seca e, principalmente, o amor à vida.

O Boca Seca e das comunidades do Chapeu Mangueira e Babilonia.
Seu samba e de autoria do Deja.

Desfile: 18, domingo e 20, terca-feira as 17hs.
Concentracao: Avenida Atlantica esquina com a Rua Anchieta – Leme
Percurso – Atlantica e Gustavo Sampaio

PERU SADIO
O Cordao da Confraria Peru Sadio homenageia o musico Miguelzinho do Cavaco. A confraria a cada ano escolhe personalidades do bairro para exaltar.

Miguelzinho, carioca de Botafogo, ha 42 anos esta no Leme. Trabalhou como porteiro na Roberto Dias Lopes durante o dia e a noite aprendeu a tocar cavaquinho. Partideiro e chorao, ha 8 anos anima as tardes de sabado na Taberna Atlantica.

Dono de uma Variant azul inteiraca que arranca suspiros de quem passa pela Gustavo Sampaio, pode ser visto de bermuda, bone, tenis e meiao pelas ruas do bairro.

O Cordao da Confraria do Peru Sadio desfila na segunda dia 19, a partir das 6 da tarde, puxado pelo Maestro Ney e Darcy Maravilha. Concentracao as 3, em frente ao Sindicato, na Atlantica.

SORRI PRA MIM
Do bloco de Vila Isabel ja falamos um bocado no artigo SAO 10 ANOS, SORRI PRA MIM no link http://delcueto.multiply.com/journal/79 .
Fotos da escolha do samba no http://delcueto.multiply.com/photos/album/64 .
Desfila pela 28 de setembro na terca as 16h, concentracao no Petisco da Vila

Agora, aprenda as musicas que animarao os blocos no http://valeria-delcueto.podomatic.com

Bom carnaval!

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

O QUE OS OLHOS NAO VÊEM...





O QUE OS OLHOS NÃO VÊEM...



De Valéria del Cueto
Julho de 2006
Tuc, tuc, tuc... ouço as batidas insistentes. Tec, tec, tec... essas, num ritmo diferente. O tuc tuc é o som da prancha quando o garotão tira a areia, grudada na superfície molhada, o tec, tec é o choque dos pés de pato, também úmidos que ele sacode ritmadamente.

O inverno carioca é insuperável. E, eu sei, você sabe do que estou falando... Eles estão indo embora. Eu, chegando. Como usam roupas de neoprene e batem queixo enquanto se aquecem ao sol de julho, imagino que a água está fria.

Se prepare: hoje vai ser assim, tudo na base da dedução. Estou literalmente deficiente. É sério. Normalmente tem conserto, porém por uma contingência médica hoje minha insuficiência visual está assim: exposta.

Explico. Sou míope, miopérrima, miopíssima. E, para fazer exame no meu oftalmologista,
amigo, colega e ex-nadador, tenho que ficar vinte e quatro horas sem as lentes de contato. “Bota os óculos”, você argumenta. “Não posso, ele está quebrado, por isso vou bater ponto no consultório”, esclareço, enquanto exercito meus outros sentidos aqui na Ponta do Leme.

“Água mineral, Guaraviton, cerveja, mate”, apregoa o vendedor que imagino ser um senhor carregando um isopor pendurado em cada ombro. Disse imagino, já que só  vislumbro uma mancha cor de abóbora. Creio ser ela da camisa do mate. Laranja, como o uniforme dos garis cariocas.

Gritinhos de alegria e recomendações maternas chegam agora aos meus ouvidos. Mãe e filha adentram a areia, passam por mim e se instalam bem na beirinha da água. Minha irmã diz que ficar assim, quase beijando o mar, diminui a distância a ser percorrida, caso suas filhotas precisem de ajuda ou tomem um caldo.

Como não tenho filhos, nem coração de mãe, acho isso uma besteira. Prefiro ficar um pouco acima, para ter uma visão melhor das menininhas quando as duas se aventuram comigo no mar do Leme. Tenho uma técnica para reuni-las. Um assobio cujo significado é: parem tudo, meia volta e se apresentem aqui, juntinho a mim. Já!!!!!

Funciona, para espanto da mãezona das gurias. Pra começar, ela não sabe assobiar como eu. E não diga que, no entanto, ela enxerga, coisa que não posso fazer por vinte e quatro horas, pois lamento informar, ela também é míope...

Aperto bem os olhos na direção do mar, tentando adivinhar se há ondas e surfistas. Vejo vários pontinhos coloridos, mas sou incapaz de avaliar as ondas. O barulho do mar me informa que não há ressaca nem calmaria. Se necessitasse desesperadamente de uma definição marítima mais precisa, poderia ir até a água e sentir a força da correnteza. Se o mar está puxando, saberia que o mar está perigoso, com valas.

Mas já disse e repito: detesto água fria. Ela mata minha curiosidade e me limita no
espaço da areia bem quentinha, onde minha deficiência visual não me afeta: míopes são águias de perto. Por isso escrevo. É uma ótima forma de matar o tempo que falta para a consulta libertadora, após a qual poderei recolocar as lentes de contato e voltar á luz da imagem.

Usando uma metáfora, seria ótimo se pudéssemos resolver nossos problemas assim, simplesmente corrigindo o grau focal...

Filosofando: Considero que quase tudo pode, sim, ser resolvido quando conseguimos “focar”
nossas contradições e problemas.

Contra argumentando: É por que a solução deste “quase” em contraposição ao “tudo” talvez
não seja uma questão de nitidez, mas de ângulo. Mude o ponto de vista e assuma outra perspectiva.

Quem sabe não foi isso que foi isso que me faltou na vida, deduzo do alto da miopia
que me induz a tais pensamentos...

Da Ponta do Leme reconheço, quase surpresa, uma nova deficiência: a miopia estrábica de sentimentos...

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta

liberado para reprodução com o devido crédito
Este artigo faz parte da Série "Ponta do Leme"






sexta-feira, 31 de março de 2006

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

ANTES A TARDE DO QUE NUNCA





ANTES A TARDE DO QUE NUNCA

texto e foto de Valéria del Cueto

fevereiro de
2006





Foi
o ditado do dia que me fez chegar até aqui. Hoje é uma sexta feira clássica.
Tão clássica que fui parar no centro da cidade! O motivo não poderia ser mais
animador e estimulante: pra fazer a credencial de imprensa da Riotur (o nome
diz tudo) e ter todo o sambódromo e outros logradouros carnavalescos a seus pés
é necessária a entrega de fotos e documentos pessoais na sede da rua da
Assembléia, centro do Rio de janeiro.



Baseada
na previsão do tempo, teoricamente encoberto e com chuvas, como vinha
acontecendo desde o último fim de semana, aproveitei para marcar um almoço com
uma grande amiga e parceira na Cinelândia.




Só
quando sai para a expedição foi que tive uma idéia do que era realmente o dia.
E que idéia! Caminhando pelo calçadão até a estação Arco Verde do metrô, só não
morri de calor por que usava uma roupa bem fresquinha, apesar da saia ser
comprida. E o solzão lá, torrando a mim e a outros desavisados, já conformados
com a expectativa de um dia cinzento e chuvoso como os anteriores.




CRIAÇÃO

Inspirada
pelos ditos filosóficos de Mestre Marçal, personalidade do samba, ritmista e
cantor, que venho estudando ultimamente numa das cadeiras do Instituto do
Carnaval, pensando na praia e no prazer que estava adiando, já que heroicamente
resolvi manter minha programação “downtown”, suspirei e me indaguei: “Dispensar
esta ida à Ponta (do Leme)?” E me respondi, cheia de ânimo: “Antes a tarde do
que nunca”






Seria
infame se não fosse verdadeiro. Se a infâmia não tivesse gerado uma ação.
Eis-me aqui, reagindo adequadamente, tal e qual uma lei de física tricentenária.




Fui
ao Centro, fiz o que tinha que fazer e voltei correndo para casa. Quer dizer,
para a praia. Por que em casa só passei
para trocar o figurino executivo pelo meu bom e confortável biquíni.




OLHA O GARI AÍ...

Tá
bom, o mar não está na sua melhor condição ainda cuspindo o lixo das últimas
chuvaradas e muita gigoga emergente, mas graças ao esforço da categoria que deveria
ser tema e inspiração do verão 2006, os garis, a praia está limpinha.




Primeiro,
disseram que este seria o verão do Zé Dirceu. Depois, das gigogas. Eu acho que
este é o verão dos garis. Graças a eles, não ficamos à mercê de centenas de
toneladas de gigogas e todas as porcariada que desceu para o oceano nos últimos
dias.




É
claro que o mar devolveu quase tudo. E aí entram os rapazes, tratando de varrer
mais, tirar mais lixo, limpar o pedaço. E olha que o pedaço a que me refiro é
extenso. Quem manda termos esta orla que Deus nos deu? Bom, já que não dá pra
me preocupar com tanta praia, volto os olhos para o canto em que habito.




O sol ainda está alto, para compensar o mar
está baixo, o que não agrada aos surfistas de plantão. A praia até vazia.
Outros gatos pingados como eu aproveitam o final do dia.




Nunca?
Antes à tarde. De preferência na Ponta do Leme, esperando o carnaval chegar.



Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito

http://delcueto.multiply.com

Este artigo faz parte da Serie Ponta do Leme,
composta por:
Farol da Alma, No Leme, 18 é pouco. Do resto não sei dizer, Onda,
Pedra e Maneiras de Ver o Leme
, A Vingança do Gato Preguiçoso, E o Rapa Levou, Até onde a Vista Alcanca, Pre Visões do Tempo, O Rei da Praia, Ha os que não Gostam, Ora Pois,
N.G. por V.d.C. e outros
mais que ainda virão....






















sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Stones no Rio de Janeiro

Start:     Feb 18, '06 7:00p
Location:     Praia de Copacabana, em frente ao Copacabana Palace
Quem viver verá o que restará da nossa praia.

domingo, 22 de janeiro de 2006

NO LEME, 18 É POUCO. DO RESTO, NÂO SEI DIZER...






texto e foto de Valéria del Cueto

janeiro de 2006




Ano
novo, caderno novo, vida nova... Projeto enquanto coloco, no alto da folha do
caderninho ainda engomado, a data de hoje. Pauzinho, bolinha, barrinha, bolinha,
pauzinho, barrinha, bolinha, bolinha mal calculada. 10/01/06. É isso aí. Da Ponta
do Leme, beira de Copa, orla do Rio, sudeste do Brasil... 2006.


Antes
da avaliação climática de praxe, respiro fundo... e inspiro areia e chuviscos
do vento que, em rajadas irregulares e mal calculadas, macula o dia clássico de
verão. Só há um jeito de sobreviver. Se entregando ao som inconstante e a seus
significados intrínsecos: areia, sal, calor e vento. Não necessariamente nesta
ordem...Ordem?


Tempo
enganador. Não dá para notar o sol que castiga, amenizado pelos rasgos de
ventania. O mar tem carneirinhos também inconstantes. E, se está para peixe,
certamente, não quer papo com os banhistas que tentam encarar sua água gélida.






Disseram-me.
Eu vejo e, por isso, dispenso apresentações pessoais. Perguntei para o cara que
pediu para cuidar dos óculos, chaves e havaianas, enquanto ia dar um mergulho,
quando ele voltava, um tempo depois da empreitada. Só confirmei o que já havia
observado através das atitudes dele.




Seguiu
para a água todo animado. Quando atingiu a faixa de areia dura, recém molhada
pela última onda mais espraiada, reduziu discretamente o passo e continuou corajosamente
em frente. Sua disposição diminuiu visivelmente quando a próxima marola mais
afoita lambeu seu pé.




A
primeira onda que chegou a altura de seu tornozelo fez com que os músculos de
seus ombros se contraíssem e os braços se elevassem numa posse de gaivota
querendo voar. Eu disse que a primeira onda pegou só um dos tornozelos? O outro
estava elevado fugindo do encontro inevitável com o mar gelado. Vamos trocar a
imagem da gaivota pela da garça. É mais “d´acord”.






Foi
nessa fase que ele ficou mais tempo. Com a água pela canela. Tentando convencer
seu cérebro a guiá-lo mar adentro. Explicando para seus nervos, músculos e
esqueleto que não ficariam ali para sempre. Era só um mergulho refrescante. Achei
que não ia encarar o desafio de frente...Fiquei olhando um tempão.






E
ele lá. Na beirinha.


Uma
rajada mais forte de vento e maresia encheu meus domínios de areia. Canga,
bata, chinelo... Nada ficou incólume. Tentando salvar meus pertences e os do cara
de serem soterrados, desviei minha atenção. Justo no momento do mergulho.






Quando
recuperei os sentidos, embotados pelo vento e pela tempestade de areia, o
momento crucial havia se perdido. Já disse em outras eras e volto a repetir.
Como na vida. Focamos nosso olhar e/ou sentido, aguardando um momento único,
raro. Deixamos de olhar em volta. Mas “motivos de força maior” acabam desviando
a atenção. A ação acontece, o momento passa. Horrível.


Não,
não a sensação. Esta, é de ter sido inadiável. Ser sempre inevitável. De que
perdemos o bonde. Que bonde? Nunca saberemos. Horrível é a resposta, quando indago
ao banhista sobrevivente sobre a temperatura da água, depois de ter recuperado
seus pertences, enquanto agradece e se despede, perguntando gentilmente sobre o
que estou escrevendo, tão concentrada.


Sobre
o dia, sobre a Ponta, do Leme, respondo engolindo a maresia e um pouco de areia
trazida pelo vento leste, incomum nesta época do ano, de água estupidamente
fria: 18º não é para qualquer banhista. Paciência. As rajadas estragam a minha praia, mas
fazem a festa de outros que também amam o mar: a tribo do windsurf. Bons e inesperados ventos abrem o
ano de Iansã.



Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito

http://delcueto.multiply.com