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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Tudo ótimo



TUDO ÓTIMO



Texto e foto de Valéria del Cueto


- Bom dia, como vai, senhora? – (essa senhora sou eu).

- Tudo ótimo – respondo sorrindo ao pensar que não reparei o momento exato em que virei “senhora”.

- Nossa, que coisa incrível – diz a atendente do balcão da padaria. – Que milagre! – Exclama com um sincero “ar” de surpresa.

- Como assim? – pergunto intrigada com sua reação - Não entendi...

- Me desculpa, dona, acontece que nunca ninguém respondeu com um “tudo ótimo” ao meu bom dia – explica a moça enquanto para de esfregar furiosamente a superfície do balcão. Seus olhos brilham tão úmidos quanto pano que ela tem nas mãos.

E eu, que na noite anterior havia sido despachada do bonde que me trouxe à Florianópolis, abro o meu mais caloroso e especial sorriso. Era isso ou tê-la que ajudar a limpar o balcão inundado de nossas ameaçantes lágrimas.

Como não estaria tudo ótimo? Na véspera, ao sair pela última vez do local em que trabalhei arduamente, em média 12 horas por dia, desde que aqui cheguei (campanha é assim mesmo) uma ENORME lua cheia desenhava o contorno de uma das montanhas da Ilha da Magia, enchendo o céu quase claro de feitiço noturno.

Foi com ela me guiando que, pela primeira vez, pude entrar num maravilhoso restaurante a beira mar onde um filho de Oxalá se apresentou e me abrigou com uma conversa tão deliciosa quanto o gnocchi da fortuna que saboreei com um dia de atraso, “firmando” e pensando na simpatia que é de lei na casa da minha avó.

A conversa, embalada por uma garrafa de um excelente vinho português, de matar de inveja minha maninha  Maria Lima, fluiu gostosa. Como aquelas que temos com velhos amigos que se reencontram mesmo sem nunca terem se visto anteriormente. Cercada de atenção e carinho por Andrade, o encarregado de nos levar pelos caminhos das delícias do restaurante Macarronada Italiana.

Quando abri a janela, na manhã seguinte, o sol, que há dias andava de castigo encoberto por pesadas nuvens que traziam as chuvas e um frio de bater os dentes, daqueles que penetram até pelos pespontos da costura lateral da calça jeans, resplandecia abusado. Aquecendo meu corpo ele me intimava a um esforço extra para, ao menos, tirar dois dias de folga antes de rodar a roleta e jogar a bolinha que definirá meu próximo pouso.

Foi assim que cheguei ao pão com queijo na chapa e ao expresso duplo que me levou ao “tudo ótimo”.

Enquanto tomo o café e conto um conto pra você, fiel leitor(a) e confidente, ouço o toque do celular que interrompe e quebra minha concentração.

A voz que escuto vem de longe, bem de longe. Vem do Rio. É minha mãe que, atendendo a um pedido meio impossível, passa o telefone para Dona Ena. Minha avó, minha madrinha, minha mais antiga e mais querida amiga. O amor incondicional da minha vida.

Ela, que está no hospital, quase tão perto de Deus quanto de nós, que tanto a amamos, me chama de “Maria Valéria” e diz que me ama muito. Como sempre. Muitas vezes. Pedindo pra que eu me cuide, diz baixinho outras palavras carinhosas enquanto, tentando disfarçar a voz, sinto as lágrimas do “tudo ótimo” querendo deslizar pelo meu rosto. Ali, em plena padaria do posto de gasolina. Sei que ela vai sair dessa! Tenho fé e rezo para isso.

Não sei como está a sua vida, querido leitor, mas para mim, ainda que triste, ela sorri. E se alguém me perguntar, mesmo que só por gentileza, como estou, a resposta, você já sabe: Está tudo ótimo! E com você?

PS A minha foto de hoje é um ato. Feche os olhos e imagine quem está nesse retrato.

*Valéria del Cueto é acima de tudo, uma neta amorosa e apaixonada. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

domingo, 12 de agosto de 2012

Galinha morta



Galinha morta




Texto e foto de Valéria del Cueto


Não andou de diligência, mas passeou de carroça e trem com banco de madeira. Atravessou São Paulo de Bauru a Campo Grande, desembarcou em Aquidauana e tomou trecho de estradas sem asfalto até Ponta Porã.  Imagine cair em Pedro Juan Caballero: dois países e uma linha, mulheres de calça comprida e saias por cima. E o guarani. No espanhol se comunicou rapidinho, mas o guarani era uma atração. Na vila militar o monte de regras era uma continuação da terra vermelha sem asfalto, as vacas pastando no campo de polo depois de aperitivarem as rosas dos jardins da mãe, por cima do muro ou entrando no quintal pelo portão que algum desavisado deixou só encostado.


Vacas não fazem parte da fauna familiar. Cachorro, o Quarup, e coelho fazem, além dos animais minúsculos como grilos, besouros e louva-deuses que a irmã, que quer ser entomologista, usualmente carrega nos bolsos dos casacos. Lembra perfeitamente de um de lã vermelha com a bicharada ressecada depositada no fundo do bolsinho.


Foi lá que aprendeu a andar nos muros. Era mais prático que fazer o caminho normal. Passar pelos portões, contornar o quarteirão. Era por eles, os portões mais baixos, o ponto ideal para alcançar os altos dos muros laterais e seguir pela via aérea, de vez em quando beirando o telhado de uma churrasqueira e evitando as passagens acrobáticas por entre as árvores debruçadas sobre os paredões, normalmente mangueiras (fácil), laranjeiras e limoeiros (com espinhos) amoreiras (queimaduras de marandruvás) e bananeiras (formigas). 


O problema era não matar a vizinhança de susto. Já bastavam as brigas quando a galinha do vizinho resolvia ciscar no quintal alheio e por lá batia as botas, sendo encontrada por uma das crianças, meio comida pelo cachorro da terceira casa. Difícil o alheio explicar para o enfurecido ex-dono do galináceo que não foi o meigo Quarup o responsável pelo assassinato, nem o mesmo foi premeditado, sem amplificar o caso da mordida e dedurar diretamente o cachorro feroz da terceira casa. Afinal se o cão se parece com o dono o que esperar? O truque era estar preparado para pular para o terreno do lado oposto em caso de um avanço traiçoeiro do cachorrão que já latia como se não houvesse uma miríade de felinos passantes pelo local. Nas brincadeiras de polícia e ladrão saber o percurso dos muros era uma vantagem e tanto.


Saber subir em árvores também. O pé de cinamomo que o diga. Incrível como os perseguidores nunca olham para o alto quando procuram suas vítimas. Também é um ótimo elemento surpresa em emboscadas. Foi lá, nessas brincadeiras que aprendeu que se misturar é essencial. Nada só de meninos ou meninas, filhos de militares ou “civis”, brasileiros ou paraguaios, ricos ou pobres. O segredo é o “e”: meninas e meninos, civis e militares,  brasileiros e paraguaios. E! E. E..., e?


Aprendia a ser paraguaio de pequeno, paraguaio do interior, diga-se de passagem. Quando era criança entendia um pouco o guarani. Hoje, nem isso. Mas não deixou de ser leal ao povo que tão bem o acolheu. Foi quando começou pelo começo a entender o pensamento do paraguaio e, para isso, a primeira regra é não pensar como brasileiro. Mudar o foco e, radicalmente, seu ponto de vista. Eles não são o que pensamos ou queremos que sejam. Têm sua história, uma linda e, em alguns momentos, triste trajetória. Não têm por que nos olharem com quem olha seus salvadores. Somos seus algozes, sempre, até que provemos o contrário. E quem se arrisca a isso? Contra a realidade, não há argumentos.


O que para nós é golpe, com reflexos diplomáticos e internacionais, que dão brecha para o Mercosul abraçar o bolivarianismo venezuelano, para eles é uma questão de sobrevivência. Temos que ter em mente que é a história deles e que eles a farão como podem e acham que devem. Que a energia de Itaipu deve reverter em benefícios para a população paraguaia é fato. Lugo reivindicou isso e os preços  de aviltantes passaram a módicos. O novo presidente faz a mesma coisa. 


Por que, afinal, o Paraguai deveria aceitar passivamente o papel de galinha morta do quintal alheio?


*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM.delcueto.cia@gmail.com

domingo, 5 de agosto de 2012

Sinais, sintomas e tais

Sinais, sintomas e tais

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Um, dois, três e... já! Respirar fundo e deixar as radiações do sol se expandirem pela extensão da pele exposta ao seu calor aconchegante.

Ao longe a lancha cruza o mar como se fosse beijar a pedra que se projeta na quina do Caminho dos Pescadores. A ilusão perfeita dura apenas alguns segundos até o barco sumir em direção a entrada da Baia de Guanabara.

Acima, quase na linha do horizonte, os navios de grande calado aguardam a maré alta para passarem pelo canal estreito que leva ao movimentado porto do Rio de Janeiro. Abaixo, ondas quase perfeitas são cenários ideais  para os surfistas que deslizam entre os topos de suas cristas.

Hoje está tudo normal.

A bandeira do Brasil tremula em direção ao mar indicando os bons ventos que dominam e limpam o céu pontilhado de gaivotas.

A prancha com o bico cravado na areia e as quilhas projetadas na direção do leme, formato que dá nome à pedra, insinua o alinhamento dos sentidos e sentimentos literários do texto que ora redijo.

Atrás de mim, uma voz masculina com sotaque nordestino recita uma oração (nos dois sentidos) comum aos que, durante as férias, ancoraram nessa paragem: “Ô vidinha mais ou menos... Estou no Rio de Janeiro! Hoje, aqui no mar. Amanhã  vou no Cristo.” Prefiro não olhar na direção da declaração de amor e deixo a imaginação desenhar o dono da voz e suas companhias.  No mínimo, mais uns três, dois homens e uma mulher.

Faça o mesmo, brinque de imaginar como são.

À frente vejo um atleta fazendo abdominal para cultivar sua barriga de tanquinho. O tempo do exercício e a lisura da taboa indicam que ele não é do tipo que não sabe o que faz. Faz, e muito.

Sinto falta dos peladeiros que só adentrarão no campinho mais tarde, depois que as ondas perderem seu formato mais que perfeito. As ondas variam, têm seu sabor e valor, sobem quando querem. A pelada é de lei. Pode demorar, mas rola. É inevitável, necessária e essencial.

Como o fato de hoje ser sexta feira e cá estar eu, enquanto posso, na Ponta do Leme. Estou mais pra onda do que para partida de futebol, com suas duas carcaças de coco verde servindo de traves em lados opostos do campo a beira d’água.

Estou na linha, junto com as pranchas de surf e bodyboard esperando a onda perfeita, entre as sete representantes das séries fortes que se seguem as séries fracas, desde que o mar é mar.

Por princípio e experiência gosto muito da segunda onda da série. Deixo a primeira para os afoitos e suas pranchas maravilhosas e assisto de camarote o espetáculo enquanto sinto seu empuxo nas pernas e localizo o melhor ponto para surfar de peito na próxima que desce, já no embalo da série em questão.

Ela tem o equilíbrio da força inercial explosiva da primeira ondulação e a constância das que virão na sequência. Dá para remar, se jogar, deslizar e descer, ainda com direito a manobras clássicas pelo caminho desimpedido, sob o olhar cuidadoso dos experts que retornam para além da arrebentação para caitituar novas descidas, quem sabe ainda nessa mesma série de ondas fortes.

Onde eu estava mesmo?

Aqui, registrando os sinais que também passeiam pelas nuvens. Rápidos e inconstantes, mas visíveis para quem, deslizando na espuma formada na crista da onda que explode em direção da praia, a da Ponta do Leme, ainda consegue levantar os olhos salgados da água do mar para o céu azul que se esparrama e surpreende com seus desenhos fugazes. Um segundo, um olhar, passou...

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Sinais, sintomas e tais

Sinais, sintomas e tais

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Um, dois, três e... já! Respirar fundo e deixar as radiações do sol se expandirem pela extensão da pele exposta ao seu calor aconchegante.

Ao longe a lancha cruza o mar como se fosse beijar a pedra que se projeta na quina do Caminho dos Pescadores. A ilusão perfeita dura apenas alguns segundos até o barco sumir em direção a entrada da Baia de Guanabara.

Acima, quase na linha do horizonte, os navios de grande calado aguardam a maré alta para passarem pelo canal estreito que leva ao movimentado porto do Rio de Janeiro. Abaixo, ondas quase perfeitas são cenários ideais  para os surfistas que deslizam entre os topos de suas cristas.

Hoje está tudo normal.

A bandeira do Brasil tremula em direção ao mar indicando os bons ventos que dominam e limpam o céu pontilhado de gaivotas.

A prancha com o bico cravado na areia e as quilhas projetadas na direção do leme, formato que dá nome à pedra, insinua o alinhamento dos sentidos e sentimentos literários do texto que ora redijo.

Atrás de mim, uma voz masculina com sotaque nordestino recita uma oração (nos dois sentidos) comum aos que, durante as férias, ancoraram nessa paragem: “Ô vidinha mais ou menos... Estou no Rio de Janeiro! Hoje, aqui no mar. Amanhã  vou no Cristo.” Prefiro não olhar na direção da declaração de amor e deixo a imaginação desenhar o dono da voz e suas companhias.  No mínimo, mais uns três, dois homens e uma mulher.

Faça o mesmo, brinque de imaginar como são.

À frente vejo um atleta fazendo abdominal para cultivar sua barriga de tanquinho. O tempo do exercício e a lisura da taboa indicam que ele não é do tipo que não sabe o que faz. Faz, e muito.

Sinto falta dos peladeiros que só adentrarão no campinho mais tarde, depois que as ondas perderem seu formato mais que perfeito. As ondas variam, têm seu sabor e valor, sobem quando querem. A pelada é de lei. Pode demorar, mas rola. É inevitável, necessária e essencial.

Como o fato de hoje ser sexta feira e cá estar eu, enquanto posso, na Ponta do Leme. Estou mais pra onda do que para partida de futebol, com suas duas carcaças de coco verde servindo de traves em lados opostos do campo a beira d’água.

Estou na linha, junto com as pranchas de surf e bodyboard esperando a onda perfeita, entre as sete representantes das séries fortes que se seguem as séries fracas, desde que o mar é mar.

Por princípio e experiência gosto muito da segunda onda da série. Deixo a primeira para os afoitos e suas pranchas maravilhosas e assisto de camarote o espetáculo enquanto sinto seu empuxo nas pernas e localizo o melhor ponto para surfar de peito na próxima que desce, já no embalo da série em questão.

Ela tem o equilíbrio da força inercial explosiva da primeira ondulação e a constância das que virão na sequência. Dá para remar, se jogar, deslizar e descer, ainda com direito a manobras clássicas pelo caminho desimpedido, sob o olhar cuidadoso dos experts que retornam para além da arrebentação para caitituar novas descidas, quem sabe ainda nessa mesma série de ondas fortes.

Onde eu estava mesmo?

Aqui, registrando os sinais que também passeiam pelas nuvens. Rápidos e inconstantes, mas visíveis para quem, deslizando na espuma formada na crista da onda que explode em direção da praia, a da Ponta do Leme, ainda consegue levantar os olhos salgados da água do mar para o céu azul que se esparrama e surpreende com seus desenhos fugazes. Um segundo, um olhar, passou...

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

sábado, 4 de agosto de 2012

Um bom lugar




Um bom lugar
para se olhar, Copacabana...
(Leme, Pão de Açúcar, bondinho e tal)

* fotos de Valéria del Cueto, para o Sem Fim...

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

LeLuHe




Leme, lua, helicóptero
E mais não tenho a dizer.
É pra ver!

* fotos de Valéria del Cueto para a séria Ponta do Leme, do Sem Fim... - projeto da del Cueto - assessoria e produção

domingo, 29 de julho de 2012

Simples, assim

Simples, assim

Texto e foto de Valéria del Cueto


Houve um tempo em que não era. Escrevia muito, escrevia sempre e ia liberando aos poucos as crônicas semanais de acordo com o astral da ocasião. Sexta a tarde, na Ponta do Leme, era pule 10 fartura da  produção. O tempo passou e o que nunca acreditei ser possível, aconteceu: as crônicas que, pensava eu, teriam um caráter transitório, viraram um hábito de anos.


Já não sei quem nasceu primeiro: os textos ou o prazer de escrevê-los qual um ritual que, a princípio, era meio AA (Alcóolatras Anônimos). “Uma de cada vez”, dizia a cada nova publicação. Se funciona com o processo literário, é por que faz efeito para situações mais sérias e delicadas...


Não que não haja seriedade no que faço, ao escrever. Tanto há que depois de muitas luas a fome se juntou a vontade de comer e todos os meus queridos editores definiram o meu deadline, o limite para entrega do material, para a sexta-feira, às 15 horas, horário de Brasília.


Uma beleza e a certeza de que as mal traçadas linhas no caderninho nem terão tempo de secarem direito antes de serem digitadas para seu envio às prensas e sites.


Por isso, informo, estou aqui. Plena na praia da Ponta do Leme, sob um sol de rachar e uma ventania teimosa e enganosa.


Teimosa por descabelar o mar, adornar seu azul-esmeralda de carneirinhos brancos, obrigando as gaivotas a darem um duro danado para manter o rumo desejado, deixando os surfistas a verem os navios que esperam a maré alta para entrarem na Baia de Guanabara. Por que o mar, apesar de batido, cheio de correntezas e valas, está uma droga para os atletas, com ondas baixas disformes e mexidas.


Isso é o entorno, por que o contorno está um caos. Não há barreira nem peso que segure a canga, lotada da areia que passa - enlouquecida e desgovernada - levada pela ventania. Aquela que pinica nas partes do corpo em que bate, gruda e vai com a gente pra casa escondida nos cabelos, nos cantos da bolsa, do bolso do short, nas dobras da camiseta, no meio do livro, no caderninho...


Essa é a parte da teimosia. A do engano, além de tudo, pode ser dolorosa. Especialmente para os turistas desavisados e despreparados que não conhecem as manhas da praia em dias de viração. Eles, que de tão fortes provocam arrepios de frio, por que vem do sul, são os mesmos ventos que mascaram a força dos raios solares que estão tinindo no veranico de meio do ano. O resumo da ópera são as queimaduras inesperadas, aquelas que só descobrimos quando a água quente do chuveiro toca na pele castigada pelo sol inclemente.


Para fechar meu espaço literário dominical, duas  observações. Uma nunca havia visto, outra, que fazia tempo não via.

A primeira, os grãos de areia abusados grudado na  tinta da ponteira da caneta que estou usando que fazem falhas minha escrita praiana.


A segunda, as várias piscinas na beira da água, onde crianças se divertem e, protegidas pelos caprichos esculturais da maré baixa, não se incomodam com o desconfortável entorno provocado pela tempestade de areia que assola a minha Ponta, sob um sudeste  poderoso. A ponto de tirar da paisagem a enorme bandeira brasileira que sempre tremula hasteada no Forte Duque de Caxias, no alto da Pedra do Leme. Sinal dos tempos, aviso dos dias que estão para chegar...


Agora peço licença, caro leitor, mas vou ali, até uma das piscinhas naturais, formadas pela maré, brincar de fazer castelos de areia e olhar o mundo sob o ponto de vista das crianças. Simples assim...


Por que hoje é sexta, estou na Ponta e a crônica já está misturada, só falta descansar para poder ir pro do forno.


*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM 
http://delcueto.multiply.com

domingo, 22 de julho de 2012

O riso alegre do Rio

O riso alegre do Rio

Texto e foto de Valéria del Cueto


“Hoje eu não quero chorar, hoje eu não quero sofrer. Guardei a tristeza lá fora, mandei a saudade esperar...” Por que, lá do fundo do profundo poço, surgiu um sorriso. O sorriso.


Vi na capa de um jornal. Nela um personagem exultante, vestido de laranja segurando sobre os ombros uma bandeira do Brasil, rasga  o espaço de corpo inteiro. Corpo e alma. Trata–se de Renato Sorriso, o gari carioca que vai encerrar as  Olimpíadas de 2012, em Londres, representando o Rio de Janeiro, próxima parada dos jogos mundiais.


Conhecia o Sorriso de vista de alguns carnavais quando, em 2000, fui trabalhar na produção de um filme institucional sobre a Cidade Maravilhosa, chamado “Rio Incomparável”.


Peguei  o bonde andando, já com alguns dias de filmagem e, ao me incorporar a equipe, fiquei encarregada de  cuidar do elenco do dia composto por atores e figurantes acomodados numa van e iam sendo distribuídos nas filmagens nos pontos turísticos do roteiro. Foi entre eles que (re) conheci Renato Sorriso, o gari que encerraria o filme.


Foi um longo dia em que tive a oportunidade de constatar que o sorriso do Renato não era apenas uma expressão facial, mas um estado de espírito composto de gentileza, educação, humildade e simpatia.


Ele rodou o dia inteiro com a equipe. Sua participação, atrás do Museu de Arte Moderna, no cenário do Aterro do Flamengo, com a enseada de Botafogo e o Pão de Açúcar ao fundo, tinha que ser ao cair da tarde quando a luz estaria no ponto desejado pelo diretor de fotografia Lula Araújo.


Claro que meu vício jornalístico foi maior e, depois de almoçar ao lado dele, já estava com a ficha completa do gari. Sabia inclusive, a merreca que ele ia ganhar para “assinar” a produção que correria o mundo como peça de propaganda da campanha publicitária que venderia o Rio de Janeiro no exterior.


Um detalhe, diante das histórias saborosas e do carinho do Renato que, não conseguindo ficar parado, acabou de assistente da assistonta que vos narra. 


Finalmente, quando chegou a hora de sua participação, acabou dando uma aula sobre vassouras da Comlurb, se recusando a contracenar com um exemplar genérico para não denegrir a imagem de seu material de trabalho!


Nunca mais perdi Renato de vista. Adoro o cara e sinto modéstia a parte, a cada reencontro, sempre emocionantes e cheios de registros fotográficos, que a recíproca é verdadeira. Todos os anos nosso encontro é inevitável, tem data e local marcados: na Sapucaí, no carnaval.


É o único momento em que – sei - coloco meu equipamento em risco ao abraçá-lo bem apertado ciente de que seu suor abundante, provocado por seu desempenho ao sambar pela avenida afora, pode causar “danos enxugáveis” às lentes e máquina fotográfica, mas que sua energia boa não tem preço sendo um dos sinais que, mais uma vez, estou no local certo, fazendo a coisa certa, por mais um ano, graças a Deus!


É quando saio do meu papel de fotógrafa compenetrada e me permito “brincar”! Normalmente de roubar sua vassoura quando ele a deixa equilibrada e sai para sambar para o seu povo das arquibancadas. Foi assim que, há alguns anos, fui flagrada num desfile do grupo de acesso pelas câmeras de uma TV: de molecagem com o sorriso do Renato. 


A quem declaro meu representante pessoal e intransferível da alegria carioca. Por que ele, que chegou de mansinho e humildemente estabeleceu seu reinado incondicional de gentileza e amizade, merece ser reconhecido, acarinhado e coroado!


*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

domingo, 15 de julho de 2012

Quem faz nem se sacode, mesmo quando não pode













Quem faz nem se sacode, mesmo quando não pode

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Em cima do laço, tento manter o traço e faço de meu compasso medida para decidir. É tempo de olhar, apreciar e analisar, para DEPOIS... votar!

Sou do bem e estou de mal com quem só quer o que é mau. Rebelde e guerreira que sempre fui, achava que essa força se esvairia com o tempo. Qual o quê. Sigo implacável. Não tenho um pingo de piedade com quem não faz direito seu papel, insiste em jogar pra torcida e comete todos os tipos de jogadas proibidas achando que está abafando. Entrou em campo? Conhece as regras? Então trate de segui-las. Não apenas por obrigação, mas para mostrar sua convicção em relação ao que é certo ou errado. Isso é sinal de respeito com seus opositores e quem assiste de arquibancada a partida.

Ética, a ética. Conhece essa palavra? Sabe o que significa e implica? Se não sabe, sai da reta, pega o rumo, pica a mula ou passa longe, por que não tenho mais paciência para aguentar mentirosos e embromadores capazes de qualquer coisa por um pouco mais do mesmo cesto podre: o poder! Peguei pesado? Eu não! Eles que já botaram suas garras de fora mesmo antes do tempo regulamentar e que, quando adentraram o gramado saíram cometendo infrações a torto e a direito, sem medo de serem verdadeiramente punidos!

Fez uma, duas, três? Sai de campo, meu irmão. Está provado que não há respeito ao próprio pleito. Tá, te dou uma moral: em vez da decisão ficar restrita ao apito do juiz, vamos usar também o recurso de replay. Ele não mente jamais!

Nessa eleição a farra é nacional, mas está fragmentada: não há informações gerais, por assim dizer. Então a festa come solta! Por isso sugiro que o TSE produza um mapa nacional das irregularidades para que o país possa ver como a banda vai tocar seus vários instrumentos: de sopro, percussão e as cordas. Vai ser uma cacofonia! Com a pesquisa teríamos um ranking partidário, do quesito “quem faz mais merda” e, portanto, já demonstra sua intenção de enganar o eleitor. Sim, por que quem faz para se eleger, imagina do que é capaz depois de eleito. Imagina não. Dá muito trabalho e precisa puxar pela cabeça. Abre os jornais que está tudo lá!

Seria apenas uma questão de sistematizar as decisões na medida em que fossem saindo e jogá-las num banco de dados único para nossa gente bronzeada poder ver quem está no topo da parada dura das irregularidades eleitorais. Primeiro foram Haddad e Lula, depois Serra. Todos ainda antes de começar a campanha. Se a multa é tão ridícula e ainda pode ser paga por terceiros, vale a pena errar, inclusive desumanamente, repetidamente.

O atual prefeito do Rio de Janeiro é um que pegou a manha e está com bico para exercitar seu direito(?) de ser punido. Em poucos dias de campanha já chutou várias vezes a gol: deu a largada participando de várias inaugurações Dilmisticas, inclusive de um projeto apenas 10% concluído. Vaia neles que eles merecem! Na sequência, um final de semana, fomos brindados com gravações telefônicas pedindo votos pro cara. A compra de banco de dados é proibida. Infernizar a vida alheia não. Ele deve ter usado sua vastíssima agenda pessoal. Adentrando o gramado da apelação pura e simples, o  vascaíno Eduardo Paes pegou carona na chegada ao Botafogo do jogador holandês Seedorf. O recebeu com o presidente do clube, filiado ao PMDB, no Palácio da Cidade. Cumprimentar o alcaide é praxe para todos os que aqui chegam! Tente ir lá. Ou, se for funcionário, aguarde notícias por que anexado ao contracheque de junho veio um panfleto falando dos feitos realizados. Crime eleitoral...

Enfim, se abriram as porteiras do universo da ilegalidade e pipocam irregularidades. Elas são muitas e, infelizmente, ficam voando por aí sem punição espalhadas em baixo dos tapetes processuais dos tribunais eleitorais locais, sem que possamos ter um quadro aproximado e atualizado do conjunto da obra no período em que é criada. Mais tarde, a gente sabe, Inês é morta, eles  eleitos e nós? Continuaremos fazendo papel de idiotas, pelos próximos 4 anos.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

domingo, 8 de julho de 2012

Caixote

Caixote

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Ai meu santo caderninho dos registros improváveis. Valei-me!

Cá estou de volta depois de várias publicações redigidas nas frias teclas do computador. Não por minha livre e espontânea vontade. E, sim, por pura e simples necessidade. Provocada por fatores variados e complexos como o tempo ruim, a falta de agenda, a pressa... Todos indignos da minha devoção!

É, por que o caderninho demanda uma posição geográfica nem sempre específica, porém, desejável. Quem acompanha meus escritos sabe do que falo: refiro-me a Ponta do meu Leme. Preferencialmente. Ao lugar que abriga o paraíso na terra que Deus me deu.

É nele que me encontro. São 2 horas de uma quinta feira de sol e o que poderia parecer um privilégio é uma necessidade urgente. Tão essencial como respirar e andar. Tão emergencial a ponto de antecipar em um dia a produção semanal dessa crônica.

Era urgente olhar o mundo pelo filtro divino que só o sol, a luz, o mar e seu murmúrio podem conjurar para me proteger.

Por que o trem está feio, aqui e acolá. É nessas horas que me apego ao imutável, mesmo que, ao aportar no meu chão de areia testemunhe que a redoma também tem suas contendas, por mais estranha que elas pareçam.

No caso, me pego matutando sobre a bronca do vendedor que grita com os possíveis ex futuros clientes esbravejando pelo fato deles reclamarem dos preços praticados. “Não existe nada de dois reais. O biscoito Globo é três desde 2010”, reclama ele, exaltadíssimo com a desatualização dos fregueses estupefatos.

Se a coisa está assim aqui, imagina lá fora...

Esfrego os pés na areia e deixo o sol explodir nas minhas costas enquanto com o corpo produzo a sombra que me permite escrever no caderninho apoiado nos joelhos.

É grave a crise, eu já sei. Mas daí a minha Lumix acusar falta de carga, apesar de haver trocado as baterias minutos antes de sair e, numa concessão praticamente inaceitável, ter lançado mão de pares do kit do flash da Nikon com que trabalho...

Ia - do verbo não vou mais - fazer a foto da cena que descrevi para que você tivesse parâmetros para julgar minha capacidade descritiva. Citando Paulinho da Viola “Não sou em quem me navego, quem me navega é o mar...”

A mim resta apenas o bom e velho exercício de jogar o “Jogo do Contente”, que aprendi com Poliana, e agradecer a quem de direito o fato das baterias não falharem durante um trabalho a vera, em plena função profissional.

Até por que, esse mesmo ser de luz, só deixou as baterias arriarem depois de vários cliques anteriores do paraíso com os quais ilustrarei estes riscados.

Sinto que o texto está chegando ao fim, o que lamento como nunca o fiz antes. Por mim ia assim seguindo página após página. Parando o mundo aqui no meu recanto para contar da maneira mais honesta possível minhas tentativas de sobreviver a esses tempos difíceis. E, mais importante, falando das lições que estou aprendendo e me permitem saber “ler” o entorno pressentindo e aproveitando (como der) os sinais de esperança enviados através do céu, da terra e do ar que me cercam e agasalham.

Por menores em mais sutis que sejam eles estão aí. Para serem captados, absorvidos, multiplicados e reenviados para quem precisar...

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Pinguim passeia na Ponta




O menino chamou,
ele sentiu a vibração.
Passou devagarinho
e perto do coração.

*fotos e vagabíssima de Valéria del Cueto para a série Ponta do Leme do Sem Fim...

domingo, 1 de julho de 2012

Fleurs du mal

Fleurs du mal

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Estava assim, quase meio...
Pedi uma luz, ganhei o céu.
Com o que tinha direito:  

lua, gaivota - um bando inteiro.
Nas nuvens, o sinal.
A seta que aponta
pro rumo, meu prumo!
*Vagabinha dadaista do Sem Fim...

E lá vinha eu, repleta da minha pobre poesia, olhando o mundo derramando por suas bordas inspiração para minhas rimas pobres provocadas por uma avalanche de imagens que se atiraram em cima de mim vindas diretamente do meu céu da Ponta do Leme.

Não havia como fazer de conta que o recado não era direcionado, endereçado e precisava ser devidamente capturado. Afinal, tinha minha “arma” nas mãos, um pedido no coração e os olhos voltados para o entorno que se estendia até onde minha vista podia alcançar.

Só me restou uma possibilidade. Entregar-me ao momento e mergulhar nos elementos que me cercavam. Não vou repeti-los citados que estão na vagabinha ilustrativa acima reproduzida.

Parei o mundo e não foi para descer! Me senti tomada pela força da mensagem implícita nas imagens cinematograficamente fotografadas que registrei.

Acho que isso não é um fato isolado, nem sou a única capaz de chafurdar e me lambuzar no meu entorno e, se possível, fazer algo para torná-lo ainda melhor.

Essa semana, uma notícia me intrigou. Um sinal dos tempos e das forças que nos governam. A de um grupo de traficantes que decidiu que o crack não fazia bem para os negócios e “diz que” ordenou a suspensão da venda do produto “após o final dos estoques existentes”. Até o momento, apenas a favela do Jacarezinho, no Jacaré, subúrbio carioca, onde está situada uma das maiores cracolândias da cidade, acatou a ordem que, segundo a inteligência da polícia, teria vindo de dentro dos presídios cariocas.

Para a minha xará, a delegada Valéria Aragão, titular da Delegacia de Combate às Drogas, a ação dos traficantes poderia ser “uma jogada de marketing”.

O que chamou minha atenção foi a preocupação com a possibilidade dos usuários se “espalharem” e “infestarem” por outros pontos da cidade, demonstrada, inclusive, em manifestações na zona sul da cidade.

Me peguei, mais uma vez, pensando nesse mal que nossa presidente(A) Dilma em sua campanha política jurou combater com afinco, denodo e fé para se eleger. Principalmente no segundo turno, apelando para a trágica situação das famílias envolvidas nesse flagelo e na esperança (vã) de extirpá-lo pelas vias governamentais republicanas.

Incrível verificar que contra ele de forma eficaz e – espero – definitiva quem está agindo são os traficantes. Mais incrível é a tentativa de menosprezar e duvidar da eficácia da decisão da bandidagem. Quem faz marketing impunemente são os políticos que prometem, manipulam e não cumprem seus compromissos depois de eleitos.

Para falar a verdade, minha experiência de vida me diz que entre a palavra de um bandido e a de um político, a primeira, sem dúvida, vale muito mais, ao contrário do que supõe e expõe minha xará policial.

Mais uma verdade: não importa quem vai levar os méritos. O que interessa para o povo é que essa sangria humana e familiar tenha fim. Venha ele das autoridades constituídas (não fariam mais que a obrigação) ou dos bandidos empresários, preocupados com sua imagem e/ou clientela.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Luz do céu




Estava assim, quase meio...
Pedi uma luz,
ganhei o céu.
Com o que tinha direito:
Lua,
gaivota.
Um bando inteiro.
Nas nuvens,
o sinal.
A seta
que aponta
pro rumo, meu prumo!

*fotos e vagabinha dadaista de Valéria del Cueto, para a série "Ponta do Leme"do Sem Fim...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Mangueira, a do Chapéu




É lá de cima, do alto do Chapéu Mangueira que se tem essa vista espetacular.

O gato, de olho, vasculha o horizonte, vendo os tons delicados da luz ir se alterando quando a tarde de outono cai...

* fotos de Valéria del Cueto, para o Sem Fim...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A voz de Deus


A voz de Deus

Texto e foto de Valéria del Cueto

"Será que amanhã vai ser novamente como era antes?" Pensava ontem antes de dormir já antecipando acordar como havia acontecido de manhã pela voz maravilhosa da Fátima, uma ex-moradora da comunidade da Babilônia.

Antes, era o tempo em que na casa da minha avó aqui no Leme, despertava ao som das cantorias religiosas (nada é perfeito, não é?) da ambulante livreira do bairro descendo pela escadaria do morro que dá na Gustavo Sampaio para ir trabalhar.

Quando me mudei para o Rio tive a sorte de alugar um apartamento justamente por onde ela passava. E seu canto foi uma espécie de reconhecimento de que estava no meu lugar, no meu Leme.

Sempre fui freguesa da “livraria” e, com o tempo, Fátima passou a me contar um pouco dos seus perrengues, sonhos e do cotidiano no morro. Sua banca era múltipla. Começou vendendo discos (LPs) e passou para  os CDs.

Na medida em que o vácuo provocado pela inexistência de livrarias no bairro cresceu, junto com ele se expandiu o negócio ajudado pelos moradores intelectuais do canto do Leme. Eles passaram a abastecê-la com os volumes que não cabiam mais em seus apartamentos. Dela, comprei excelentes livros, alguns mais velhos e outros visivelmente nunca manuseados.

É claro que quando me mudei foi no seu “sebo” que foram parar meus amados companheiros que não tinham mais lugar nas estantes da nova casinha. Sabia que eles estavam em boas mãos.

Vou resumir a importância da banquinha lembrando que foi a ela que um músico instrumentista entregou para serem passados adiante seus violino e violão. Fátima vendeu o violino. Mas quis ficar com o violão interessada em aprender a tocá-lo. Com aquela voz divina e poderosa, nada mais justo.

Como dá para ver, nossa amizade é antiga e, com isso, venho acompanhando suas agruras pessoais. Nascida e criada na comunidade foi uma das “contempladas” com uma merreca quando sua casa foi desapropriada. Como o valor irrisório que não lhe permitiu comprar nada no Chapéu Mangueira, nem na Babilônia, acabou sendo “removida” para uma periferia distante.

Manteve a banca. Seu mundo é o Leme. Mas, para minha tristeza, já não cantava feliz todas as manhãs louvando o dia e a Deus pelo que não era mais seu caminho de vida. Vi Fátima ficar triste e doente. Vi moradores tentando ajudá-la. Vi sua música emocionante deixando nossos despertares, assim como ela havia sido obrigada a deixar seu lar.  Vi e ainda a vejo lutando para sobreviver com sua banca na esquina.

O tempo passou. Anos, na verdade. Acabei me mudando também. Graças a Deus ainda para a minha Ponta Leme. Vim morar ao lado da ladeira, a outra entrada da comunidade. Passei a ver e ouvir a vida do meu bairro por outro ângulo. E, por saber que o que estou vivendo, graças as obras de saneamento que muda nossa rotina com o vai e vem de máquinas e trabalhadores “estrangeiros”, é um momento longo, porém passageiro, acompanho e registro com muito interesse os acontecimentos da vizinhança.

Pois não é que ontem, fui despertada pela voz de anjo poderoso da Fátima descendo pela ladeira? Sabia que aquilo era o prenúncio de um bom dia! Sonhei que hoje e sempre voltou a ser assim. Mas foi só ontem...

Hoje amanheci - e permaneço enquanto escrevo - envolvida pelo zumbido ensurdecedor do superdesentupidor de esgotos que tenta limpar mais uma barbeiragem da obra.

Isso poderia contaminar minha crônica. Não fosse esta dedicada aos justos, aos mansos e àqueles que, como eu, tinham e de vez em quando ainda têm, o privilégio de escutar a voz de Deus ao ouvir  Fátima cantando a plenos pulmões pela vida a fora!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A véspera da vésperada visita - Rio+20.




A obra tem mais de ano no Leme. Fechou ruas - a rua Aureliano Leal, entre a Gustavo Sampaio e a Av. Atlântica, onde até hoje é o dormitório, estacionamento e depósito da empreiteira encarregada - empoeirou, engarrafou e atrapalhou a vida dos moradores do bairro carioca. Primeiro na Gustavo Sampaio, depois na Ribeiro da Costa e, agora na ladeira Ari Barroso.

O prazo para sua conclusão - dizia a lenda - era o início da Rio+20. Dia 14 o prefeito Eduardo Paes e sua entourage iam subir o morro para mostrar o que faz uma UPP, como se ele estivesse inventando o que há anos as favelas do Rio constroem diariamente; uma vida melhor, com mais dignidade.

A vitrine da Rio+20 de cá parece um pesadelo: atrasos, atropelos, barbeiragens que transformaram as vidas dos moradores do bairro e especialmente das comunidades de Chapéu Mangueira e Babilônia num inferno. Na última semana faltou água, luz e houve sérios problemas, ainda não solucionados, nas tubulações de esgotos.

Os moradores tinham mais uma dificuldade para subir o morro: a ladeira virou primeiro um lamaçal, depois uma corredeira (fatos narrados na crônica "Régua, esquadro e compasso" e mostrados no ensaio com o memso nome), e finalmente, sobrou o esgoto jorrando num pouco acima do cruzamento e sendo desviado para um bueiro da Ribeiro da Costa. E olhem que estamos falando apenas da entrada, imaginem como estavam as coisas lá em cima...

Na antevéspera da visita, um desemtupidor gigante perturbou com seu altíssimo rotor toda a vizinhança durante toda a tarde tentanto, sem sucesso, solucionar o problema. No final do trabalho, tinha retirado parte da terra que filtrava os dejetos pelesas tubulações que desciam. Horas depois, quando parou o barulhão, havia trocado as águas quase transparentes que desciam pelo esgoto fétido e insalubre. E assim ficamos toda a noite, até a véspera do início dos eventos quando, na parte da tarde, três caminhões de misturar cimento fizeram sua base na Ribeiro da Costa, trazendo nas caçambas os símbolos da Copa do Mundo e das Olímpiadas, irônicamente lembrando as agruras que certamente iremos enfrentar a cada chegada de evento, com a agilidade e eficiência aqui demonstrados.

Para finalizar o balanço, ficamos com a obra que chamo de bandeira do PAC, uma junção de tapumes da CEG, fechando a calçada cheio de entulhos num buraco com os canos de serviço (água,gás,energia) soterrados com a terra que desceu do morro. E mais a água jorrando do bueiro entupido, fazendo a curva pela esquina da Ribeiro da Costa até a boca de lobo mais próxima para mostrar aos visitantes o que é que o Leme tem!

Que vergonha, senhor prefeito Eduardo Paes, quanto atraso e malfeito Dimensional...

* texto e fotos de Valéria del Cueto para a séria "Pé do Morro da Ponta do Leme", para o Sem Fim...

domingo, 10 de junho de 2012

Régua, esquadro e compasso

Régua, esquadro e compasso

Texto e foto de Valéria del Cueto

Não tem jeito. É com régua, esquadro e compasso que se calcula o espaço. “Pode usar o GPS e simplificar tudo”, diz uma vozinha interna matreira querendo confusão logo no primeiro parágrafo da crônica, ainda engatinhante. E só pra soprar besteira: GPS apenas digitaliza a sistemática. Não mudou o principio espacial/matemático. Trocou o plástico/madeira da régua e do esquadro, e o metal do compasso por uns chips e circuitos, mas manteve os fundamentos. Captou?

Saí de uma obra e caí na mesma uma rua para trás, acredita? No último ano, a rua onde morava passou por uma série de obras de infraestrutura para resolver de vez o problema da rede de esgoto do bairro. “Quem bonzinhos”, pensa você, “que governo”! Coisa nenhuma, a intervenção deve-se aos planos de megaempresários e – sempre eles - políticos cariocas de “elitização” das favelas e, no caso do Leme, fazer um upgrade nas moradias do Chapéu Mangueira e Babilônia, inclusive com a construção – pasmem – de prédios. Para viabilizar a heresia precisavam solucionar os problemas de esgotamento sanitário, facilitando – e valorizando - o “avanço” morro acima. As obras começaram na rua da frente, passaram para a de trás e subiram a ladeira Ari Barroso, causando uma incrível alteração na rotina dos moradores. Onde há obra interrompe-se o tráfego. Lá em cima só tem uma rua para subir e para descer. Imaginaram o transtorno?

Meu sacolejo me colocou justamente na quina. Num andar perfeito para observar a movimentação do pé da ladeira. Com vista para a rua e a subida, até a primeira curva. Quando me mudei, conversando com um encarregado da obra, perguntei se os prazos previstos seriam cumpridos, já que eu estava “acompanhando” os trabalhos e, claro, saturada das britadeiras, apitos e motores desde a antiga rua. Lá, havia sido quase um ano de bagunça. Ele me surpreendeu prevendo que o fim do sofrimento seria antecipado para meados de junho. Havia uma “ordem” para que a UPP do Leme fosse umas das visitadas durante a Rio+20. Resumindo, o prazo para a entrega do pacote é essa semana!

Quando soube a façanha que tentariam fazer passei, com a ajuda de um olheiro cuiabano, o jornalista e quase arquiteto Cacá de Souza, a monitorar os trabalhos. Nunca pensei que minha janela pudesse proporcionar tantas emoções e provocar tamanho interesse! Depois, compreendi que esse é um filme que, diz a lenda, vai terminar muito em breve por aqui. Mas, no caso da sede da Copa do Pantanal, “mal e má” começou. Pois faço questão de deixar meu testemunho desta experiência.

Nas últimas semanas, lá em cima, no meio das obras, um poste caiu abalado pelas máquinas. Acabou a luz em parte das moradias e outra também ficou sem água. Estourou um cano. Os bueiros aqui da esquina se encheram de água e a terra das obras desceu, entupindo-os (enquanto tentavam recuperar o cronograma perdido, vi subindo as partes do palanque ou da UPP que será montado(a) na favela). A terra, que desceu se esparramou na rua, secou e os protestos obrigaram os responsáveis pela obra a molharem o asfalto, por causa da poeira que invadia os apartamentos. Quando a situação foi resolvida o tempo virou. Uma tempestade de horas transformou a ladeira numa cachoeira (ops!) e, é claro, os bueiros não deram vazão. O buraco aberto sem proteção dentro do qual passa toda a fiação subterrânea da rua, (que não tem fios aparentes nos postes) primeiro encheu de água, depois recebeu uma incrível quantidade de terra. Aquela que os caminhões caçambas passaram a semana toda subindo. Buraco, canos e tubos, tudo soterrado! Sentiu a responsabilidade?

Não sei como será o dia D, mas sei que o atropelo é inevitável com régua, esquadro e compasso, ou GPS. Isso diz alguma coisa pra quem adiou, por causa da chuva, o início das obras viárias em Cuiabá?

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Régua, esquadro e compasso - as fotos do fato


Em breve, perto de você!

Como andam as obras no pé da ladeira Ari Barroso, no Leme, Rio de Janeiro?

Previstas para serem entregues antes da Rio+20, as melhorias na infra estrutura no acesso as comunidades do Chapéu Mangueira e da Babilônia vem sofrendo reveses consecutivos. Postes caem, canos estouram, a terra desce repetidas vezes ladeira abaixo fazendo lamaçais e empoçando água na Rua General Ribeiro da Costa e fechando a única entrada de carros morro acima com a terra que desceu ladeira abaixo. Como ninguém explicou para ela que deveria fazer a curva, ali se acumula, entupindo bueiros, bocas de lobo e alagando todo o trecho.

A bandeira das obras mal feitas e muitas vezes pagas pela população abre e fecha o ensaio, em duas versões.

E viva o PAC e a eficiência da empreiteira , a Dimensional, que toca essa incrível operação tatu!

*fotos de Valéria del cueto, para a série "Pé do morro da Ponta do Leme"

terça-feira, 5 de junho de 2012

Ele, o Leme




Umas básicas para registrar a luz outonal, outras nem tanto.
A Ponta e Copacabana na mira.

* fotos de Valéria del Cuetohttp://images.multiply.com/multiply/icons/clean/24x24/x.png, para o Sem Fim...

Tria




Linhas que indicam no meio, por fim.

* fotos e vagabinha de Valéria del Cueto