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domingo, 12 de agosto de 2012

Galinha morta



Galinha morta




Texto e foto de Valéria del Cueto


Não andou de diligência, mas passeou de carroça e trem com banco de madeira. Atravessou São Paulo de Bauru a Campo Grande, desembarcou em Aquidauana e tomou trecho de estradas sem asfalto até Ponta Porã.  Imagine cair em Pedro Juan Caballero: dois países e uma linha, mulheres de calça comprida e saias por cima. E o guarani. No espanhol se comunicou rapidinho, mas o guarani era uma atração. Na vila militar o monte de regras era uma continuação da terra vermelha sem asfalto, as vacas pastando no campo de polo depois de aperitivarem as rosas dos jardins da mãe, por cima do muro ou entrando no quintal pelo portão que algum desavisado deixou só encostado.


Vacas não fazem parte da fauna familiar. Cachorro, o Quarup, e coelho fazem, além dos animais minúsculos como grilos, besouros e louva-deuses que a irmã, que quer ser entomologista, usualmente carrega nos bolsos dos casacos. Lembra perfeitamente de um de lã vermelha com a bicharada ressecada depositada no fundo do bolsinho.


Foi lá que aprendeu a andar nos muros. Era mais prático que fazer o caminho normal. Passar pelos portões, contornar o quarteirão. Era por eles, os portões mais baixos, o ponto ideal para alcançar os altos dos muros laterais e seguir pela via aérea, de vez em quando beirando o telhado de uma churrasqueira e evitando as passagens acrobáticas por entre as árvores debruçadas sobre os paredões, normalmente mangueiras (fácil), laranjeiras e limoeiros (com espinhos) amoreiras (queimaduras de marandruvás) e bananeiras (formigas). 


O problema era não matar a vizinhança de susto. Já bastavam as brigas quando a galinha do vizinho resolvia ciscar no quintal alheio e por lá batia as botas, sendo encontrada por uma das crianças, meio comida pelo cachorro da terceira casa. Difícil o alheio explicar para o enfurecido ex-dono do galináceo que não foi o meigo Quarup o responsável pelo assassinato, nem o mesmo foi premeditado, sem amplificar o caso da mordida e dedurar diretamente o cachorro feroz da terceira casa. Afinal se o cão se parece com o dono o que esperar? O truque era estar preparado para pular para o terreno do lado oposto em caso de um avanço traiçoeiro do cachorrão que já latia como se não houvesse uma miríade de felinos passantes pelo local. Nas brincadeiras de polícia e ladrão saber o percurso dos muros era uma vantagem e tanto.


Saber subir em árvores também. O pé de cinamomo que o diga. Incrível como os perseguidores nunca olham para o alto quando procuram suas vítimas. Também é um ótimo elemento surpresa em emboscadas. Foi lá, nessas brincadeiras que aprendeu que se misturar é essencial. Nada só de meninos ou meninas, filhos de militares ou “civis”, brasileiros ou paraguaios, ricos ou pobres. O segredo é o “e”: meninas e meninos, civis e militares,  brasileiros e paraguaios. E! E. E..., e?


Aprendia a ser paraguaio de pequeno, paraguaio do interior, diga-se de passagem. Quando era criança entendia um pouco o guarani. Hoje, nem isso. Mas não deixou de ser leal ao povo que tão bem o acolheu. Foi quando começou pelo começo a entender o pensamento do paraguaio e, para isso, a primeira regra é não pensar como brasileiro. Mudar o foco e, radicalmente, seu ponto de vista. Eles não são o que pensamos ou queremos que sejam. Têm sua história, uma linda e, em alguns momentos, triste trajetória. Não têm por que nos olharem com quem olha seus salvadores. Somos seus algozes, sempre, até que provemos o contrário. E quem se arrisca a isso? Contra a realidade, não há argumentos.


O que para nós é golpe, com reflexos diplomáticos e internacionais, que dão brecha para o Mercosul abraçar o bolivarianismo venezuelano, para eles é uma questão de sobrevivência. Temos que ter em mente que é a história deles e que eles a farão como podem e acham que devem. Que a energia de Itaipu deve reverter em benefícios para a população paraguaia é fato. Lugo reivindicou isso e os preços  de aviltantes passaram a módicos. O novo presidente faz a mesma coisa. 


Por que, afinal, o Paraguai deveria aceitar passivamente o papel de galinha morta do quintal alheio?


*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM.delcueto.cia@gmail.com

sábado, 4 de agosto de 2012

Um bom lugar




Um bom lugar
para se olhar, Copacabana...
(Leme, Pão de Açúcar, bondinho e tal)

* fotos de Valéria del Cueto, para o Sem Fim...

O Leme e a poluição visual do Morar Carioca




O calçadão central da Avenida Atlântica, em frente a rua Aureliano Leal, no Leme foi o local escolhido para a colocação das placas do projeto Morar Carioca, da Secretaria de Habitação.

A rua está interditada há mais de um ano e serve de canteiro de obras para a empreiteira Dimensional, responsável pelas obras que alteram o cotidiano dos moradores e prejudicam a mobilidade no local.

Um lado em branco, outro com um aspecto de desleixo, com a ponta solta, as placas não têm função, além de poluir o visual, já que nada informam, por não disponibilizarem as informações técnicas que poderiam interessar aos moradores como contatos, responsáveis pela obra, tempo previsto para a realização.

Elas enfeiam a orla e prejudicam a imagem do bairro, sem que qualquer providência seja tomada pelas secretarias afins da administração do prefeito Eduardo Paes para regularizar a situação.

Aureliano Leal, acessibilidade prejudicada




O canteiro do Morar Carioca, da empreiteira Dimensional, que há mais de um ano fechou o espaço entre a rua Gustavo Sampaio e a Avenida Atlântica contrariou, nesse período todos os princípios estabelecidos no código de conduta de obras públicas da Secretaria de Municipal Conservação e Obras, ao impedir o acesso a única rampa para deficientes do trecho com seu estacionamento exclusivo para veículos pesados tanto durante o dia quanto no período noturno, nas obras da Secretaria de Municipal de Habitação, comandada por Jorge Bittar.
* fotos produzidas no final de julho, início de agosto por Valéria del Cueto

Morar Carioca os bueiros da Ribeiro




A novela não termina. E enquanto a obra do Morar Carioca, do prefeito Eduardo Paes se re-dobra, as condições de segurança e acessibilidade seguem precárias, pela falta de respeito da empreiteira Dimensional e da secretaria de Municipal de Habitação, aos cuidados estabelecidos pelo código de execução de obras públicas não fiscalizados pela Secretaria de Conservação e etc...

A segurança funciona assim: primeiro sem aos equipamentos de proteção e sinalização exigidos por lei. Horas depois, quando reparam que os flagrantes estão sendo registrados, com telas que protegem... a passagem dos automóveis.

No que tange aos pedestres, nas calçadas e vias urbanas, os exemplos apresentados dispensam maiores detalhamentos: sinalização preventiva, opções de acessibilidade e segurança não existem.

Só não veem as irregularidades quem não não quer, senhor Eduardo Paes. Por favor, cobre de sua equipe de colaboradores, exija que as obras sejam fiscalizadas e a legislação da prefeitura cumprida!


domingo, 22 de julho de 2012

O riso alegre do Rio

O riso alegre do Rio

Texto e foto de Valéria del Cueto


“Hoje eu não quero chorar, hoje eu não quero sofrer. Guardei a tristeza lá fora, mandei a saudade esperar...” Por que, lá do fundo do profundo poço, surgiu um sorriso. O sorriso.


Vi na capa de um jornal. Nela um personagem exultante, vestido de laranja segurando sobre os ombros uma bandeira do Brasil, rasga  o espaço de corpo inteiro. Corpo e alma. Trata–se de Renato Sorriso, o gari carioca que vai encerrar as  Olimpíadas de 2012, em Londres, representando o Rio de Janeiro, próxima parada dos jogos mundiais.


Conhecia o Sorriso de vista de alguns carnavais quando, em 2000, fui trabalhar na produção de um filme institucional sobre a Cidade Maravilhosa, chamado “Rio Incomparável”.


Peguei  o bonde andando, já com alguns dias de filmagem e, ao me incorporar a equipe, fiquei encarregada de  cuidar do elenco do dia composto por atores e figurantes acomodados numa van e iam sendo distribuídos nas filmagens nos pontos turísticos do roteiro. Foi entre eles que (re) conheci Renato Sorriso, o gari que encerraria o filme.


Foi um longo dia em que tive a oportunidade de constatar que o sorriso do Renato não era apenas uma expressão facial, mas um estado de espírito composto de gentileza, educação, humildade e simpatia.


Ele rodou o dia inteiro com a equipe. Sua participação, atrás do Museu de Arte Moderna, no cenário do Aterro do Flamengo, com a enseada de Botafogo e o Pão de Açúcar ao fundo, tinha que ser ao cair da tarde quando a luz estaria no ponto desejado pelo diretor de fotografia Lula Araújo.


Claro que meu vício jornalístico foi maior e, depois de almoçar ao lado dele, já estava com a ficha completa do gari. Sabia inclusive, a merreca que ele ia ganhar para “assinar” a produção que correria o mundo como peça de propaganda da campanha publicitária que venderia o Rio de Janeiro no exterior.


Um detalhe, diante das histórias saborosas e do carinho do Renato que, não conseguindo ficar parado, acabou de assistente da assistonta que vos narra. 


Finalmente, quando chegou a hora de sua participação, acabou dando uma aula sobre vassouras da Comlurb, se recusando a contracenar com um exemplar genérico para não denegrir a imagem de seu material de trabalho!


Nunca mais perdi Renato de vista. Adoro o cara e sinto modéstia a parte, a cada reencontro, sempre emocionantes e cheios de registros fotográficos, que a recíproca é verdadeira. Todos os anos nosso encontro é inevitável, tem data e local marcados: na Sapucaí, no carnaval.


É o único momento em que – sei - coloco meu equipamento em risco ao abraçá-lo bem apertado ciente de que seu suor abundante, provocado por seu desempenho ao sambar pela avenida afora, pode causar “danos enxugáveis” às lentes e máquina fotográfica, mas que sua energia boa não tem preço sendo um dos sinais que, mais uma vez, estou no local certo, fazendo a coisa certa, por mais um ano, graças a Deus!


É quando saio do meu papel de fotógrafa compenetrada e me permito “brincar”! Normalmente de roubar sua vassoura quando ele a deixa equilibrada e sai para sambar para o seu povo das arquibancadas. Foi assim que, há alguns anos, fui flagrada num desfile do grupo de acesso pelas câmeras de uma TV: de molecagem com o sorriso do Renato. 


A quem declaro meu representante pessoal e intransferível da alegria carioca. Por que ele, que chegou de mansinho e humildemente estabeleceu seu reinado incondicional de gentileza e amizade, merece ser reconhecido, acarinhado e coroado!


*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

domingo, 8 de julho de 2012

Caixote

Caixote

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Ai meu santo caderninho dos registros improváveis. Valei-me!

Cá estou de volta depois de várias publicações redigidas nas frias teclas do computador. Não por minha livre e espontânea vontade. E, sim, por pura e simples necessidade. Provocada por fatores variados e complexos como o tempo ruim, a falta de agenda, a pressa... Todos indignos da minha devoção!

É, por que o caderninho demanda uma posição geográfica nem sempre específica, porém, desejável. Quem acompanha meus escritos sabe do que falo: refiro-me a Ponta do meu Leme. Preferencialmente. Ao lugar que abriga o paraíso na terra que Deus me deu.

É nele que me encontro. São 2 horas de uma quinta feira de sol e o que poderia parecer um privilégio é uma necessidade urgente. Tão essencial como respirar e andar. Tão emergencial a ponto de antecipar em um dia a produção semanal dessa crônica.

Era urgente olhar o mundo pelo filtro divino que só o sol, a luz, o mar e seu murmúrio podem conjurar para me proteger.

Por que o trem está feio, aqui e acolá. É nessas horas que me apego ao imutável, mesmo que, ao aportar no meu chão de areia testemunhe que a redoma também tem suas contendas, por mais estranha que elas pareçam.

No caso, me pego matutando sobre a bronca do vendedor que grita com os possíveis ex futuros clientes esbravejando pelo fato deles reclamarem dos preços praticados. “Não existe nada de dois reais. O biscoito Globo é três desde 2010”, reclama ele, exaltadíssimo com a desatualização dos fregueses estupefatos.

Se a coisa está assim aqui, imagina lá fora...

Esfrego os pés na areia e deixo o sol explodir nas minhas costas enquanto com o corpo produzo a sombra que me permite escrever no caderninho apoiado nos joelhos.

É grave a crise, eu já sei. Mas daí a minha Lumix acusar falta de carga, apesar de haver trocado as baterias minutos antes de sair e, numa concessão praticamente inaceitável, ter lançado mão de pares do kit do flash da Nikon com que trabalho...

Ia - do verbo não vou mais - fazer a foto da cena que descrevi para que você tivesse parâmetros para julgar minha capacidade descritiva. Citando Paulinho da Viola “Não sou em quem me navego, quem me navega é o mar...”

A mim resta apenas o bom e velho exercício de jogar o “Jogo do Contente”, que aprendi com Poliana, e agradecer a quem de direito o fato das baterias não falharem durante um trabalho a vera, em plena função profissional.

Até por que, esse mesmo ser de luz, só deixou as baterias arriarem depois de vários cliques anteriores do paraíso com os quais ilustrarei estes riscados.

Sinto que o texto está chegando ao fim, o que lamento como nunca o fiz antes. Por mim ia assim seguindo página após página. Parando o mundo aqui no meu recanto para contar da maneira mais honesta possível minhas tentativas de sobreviver a esses tempos difíceis. E, mais importante, falando das lições que estou aprendendo e me permitem saber “ler” o entorno pressentindo e aproveitando (como der) os sinais de esperança enviados através do céu, da terra e do ar que me cercam e agasalham.

Por menores em mais sutis que sejam eles estão aí. Para serem captados, absorvidos, multiplicados e reenviados para quem precisar...

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Pinguim passeia na Ponta




O menino chamou,
ele sentiu a vibração.
Passou devagarinho
e perto do coração.

*fotos e vagabíssima de Valéria del Cueto para a série Ponta do Leme do Sem Fim...

Leme, um bairro refém do desrespeito e despreparo




03/JUL/2012
Para: Jorge Bittar
"Esse declive na Rua Gustavo Sampaio, 208, foi causado por manobra indevida de caminhão do serviço do 'Morar Carioca', da Secretaria Municipal de Habitação, no Leme, o que já causou queda de vários pedestres. Até agora o reparo não foi feito, seguindo o risco eminente de novos acidentes. O que nunca vi enquanto residente há mais de 40 anos no ex-bucólico bairro da Zona sul do Rio."

A.K./ SOS LEME

Quando o email acima era enviado, no local, estava caída uma moradora de 94 anos, com fratura de fêmur.

04/JUL/2012

Conforme ordenado por Maurício Tostes o reparo começou a ser realizado nas condições apresentadas nas fotos: sem tapumes, proteção para os pedestres, espaço para passagem... Sem que a lei seja cumprida!

O trabalho começou a ser refeito apenas no prédio indicado ignorando a situação geral do local, onde, no prédio do lado, cadeirantes e carrinhos de bebes tem que passar por extensas poças d'águas provocadas pelo péssimo acabamento do serviço do Morar Carioca, a cargo da Dimensional, que provocou um desnível que impede, inclusive, a acessibilidade garantida por lei.

Questionado, o engenheiro João argumentou que "saída de garagem não é lugar de cadeiras de roda". O que deixa uma dúvida e leva a uma pergunta: por onde deveriam circular os cadeirantes, já que a obra da Prefeitura deixa obstáculos insuperáveis para eles?

Para finalizar, mais uma informação relevante e esclarecedora: segundo o engenheiro "temos 52 calceteiros, apenas 1 sabe fazer".
O que significa dizer o que mesmo, caros senhores Secretário Municipal de Habitação, Jorge Bittar e prefeito Eduardo Paes?

* fotos e texto de Valéria del Cueto

domingo, 1 de julho de 2012

Fleurs du mal

Fleurs du mal

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Estava assim, quase meio...
Pedi uma luz, ganhei o céu.
Com o que tinha direito:  

lua, gaivota - um bando inteiro.
Nas nuvens, o sinal.
A seta que aponta
pro rumo, meu prumo!
*Vagabinha dadaista do Sem Fim...

E lá vinha eu, repleta da minha pobre poesia, olhando o mundo derramando por suas bordas inspiração para minhas rimas pobres provocadas por uma avalanche de imagens que se atiraram em cima de mim vindas diretamente do meu céu da Ponta do Leme.

Não havia como fazer de conta que o recado não era direcionado, endereçado e precisava ser devidamente capturado. Afinal, tinha minha “arma” nas mãos, um pedido no coração e os olhos voltados para o entorno que se estendia até onde minha vista podia alcançar.

Só me restou uma possibilidade. Entregar-me ao momento e mergulhar nos elementos que me cercavam. Não vou repeti-los citados que estão na vagabinha ilustrativa acima reproduzida.

Parei o mundo e não foi para descer! Me senti tomada pela força da mensagem implícita nas imagens cinematograficamente fotografadas que registrei.

Acho que isso não é um fato isolado, nem sou a única capaz de chafurdar e me lambuzar no meu entorno e, se possível, fazer algo para torná-lo ainda melhor.

Essa semana, uma notícia me intrigou. Um sinal dos tempos e das forças que nos governam. A de um grupo de traficantes que decidiu que o crack não fazia bem para os negócios e “diz que” ordenou a suspensão da venda do produto “após o final dos estoques existentes”. Até o momento, apenas a favela do Jacarezinho, no Jacaré, subúrbio carioca, onde está situada uma das maiores cracolândias da cidade, acatou a ordem que, segundo a inteligência da polícia, teria vindo de dentro dos presídios cariocas.

Para a minha xará, a delegada Valéria Aragão, titular da Delegacia de Combate às Drogas, a ação dos traficantes poderia ser “uma jogada de marketing”.

O que chamou minha atenção foi a preocupação com a possibilidade dos usuários se “espalharem” e “infestarem” por outros pontos da cidade, demonstrada, inclusive, em manifestações na zona sul da cidade.

Me peguei, mais uma vez, pensando nesse mal que nossa presidente(A) Dilma em sua campanha política jurou combater com afinco, denodo e fé para se eleger. Principalmente no segundo turno, apelando para a trágica situação das famílias envolvidas nesse flagelo e na esperança (vã) de extirpá-lo pelas vias governamentais republicanas.

Incrível verificar que contra ele de forma eficaz e – espero – definitiva quem está agindo são os traficantes. Mais incrível é a tentativa de menosprezar e duvidar da eficácia da decisão da bandidagem. Quem faz marketing impunemente são os políticos que prometem, manipulam e não cumprem seus compromissos depois de eleitos.

Para falar a verdade, minha experiência de vida me diz que entre a palavra de um bandido e a de um político, a primeira, sem dúvida, vale muito mais, ao contrário do que supõe e expõe minha xará policial.

Mais uma verdade: não importa quem vai levar os méritos. O que interessa para o povo é que essa sangria humana e familiar tenha fim. Venha ele das autoridades constituídas (não fariam mais que a obrigação) ou dos bandidos empresários, preocupados com sua imagem e/ou clientela.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Luz do céu




Estava assim, quase meio...
Pedi uma luz,
ganhei o céu.
Com o que tinha direito:
Lua,
gaivota.
Um bando inteiro.
Nas nuvens,
o sinal.
A seta
que aponta
pro rumo, meu prumo!

*fotos e vagabinha dadaista de Valéria del Cueto, para a série "Ponta do Leme"do Sem Fim...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Mangueira, a do Chapéu




É lá de cima, do alto do Chapéu Mangueira que se tem essa vista espetacular.

O gato, de olho, vasculha o horizonte, vendo os tons delicados da luz ir se alterando quando a tarde de outono cai...

* fotos de Valéria del Cueto, para o Sem Fim...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A voz de Deus


A voz de Deus

Texto e foto de Valéria del Cueto

"Será que amanhã vai ser novamente como era antes?" Pensava ontem antes de dormir já antecipando acordar como havia acontecido de manhã pela voz maravilhosa da Fátima, uma ex-moradora da comunidade da Babilônia.

Antes, era o tempo em que na casa da minha avó aqui no Leme, despertava ao som das cantorias religiosas (nada é perfeito, não é?) da ambulante livreira do bairro descendo pela escadaria do morro que dá na Gustavo Sampaio para ir trabalhar.

Quando me mudei para o Rio tive a sorte de alugar um apartamento justamente por onde ela passava. E seu canto foi uma espécie de reconhecimento de que estava no meu lugar, no meu Leme.

Sempre fui freguesa da “livraria” e, com o tempo, Fátima passou a me contar um pouco dos seus perrengues, sonhos e do cotidiano no morro. Sua banca era múltipla. Começou vendendo discos (LPs) e passou para  os CDs.

Na medida em que o vácuo provocado pela inexistência de livrarias no bairro cresceu, junto com ele se expandiu o negócio ajudado pelos moradores intelectuais do canto do Leme. Eles passaram a abastecê-la com os volumes que não cabiam mais em seus apartamentos. Dela, comprei excelentes livros, alguns mais velhos e outros visivelmente nunca manuseados.

É claro que quando me mudei foi no seu “sebo” que foram parar meus amados companheiros que não tinham mais lugar nas estantes da nova casinha. Sabia que eles estavam em boas mãos.

Vou resumir a importância da banquinha lembrando que foi a ela que um músico instrumentista entregou para serem passados adiante seus violino e violão. Fátima vendeu o violino. Mas quis ficar com o violão interessada em aprender a tocá-lo. Com aquela voz divina e poderosa, nada mais justo.

Como dá para ver, nossa amizade é antiga e, com isso, venho acompanhando suas agruras pessoais. Nascida e criada na comunidade foi uma das “contempladas” com uma merreca quando sua casa foi desapropriada. Como o valor irrisório que não lhe permitiu comprar nada no Chapéu Mangueira, nem na Babilônia, acabou sendo “removida” para uma periferia distante.

Manteve a banca. Seu mundo é o Leme. Mas, para minha tristeza, já não cantava feliz todas as manhãs louvando o dia e a Deus pelo que não era mais seu caminho de vida. Vi Fátima ficar triste e doente. Vi moradores tentando ajudá-la. Vi sua música emocionante deixando nossos despertares, assim como ela havia sido obrigada a deixar seu lar.  Vi e ainda a vejo lutando para sobreviver com sua banca na esquina.

O tempo passou. Anos, na verdade. Acabei me mudando também. Graças a Deus ainda para a minha Ponta Leme. Vim morar ao lado da ladeira, a outra entrada da comunidade. Passei a ver e ouvir a vida do meu bairro por outro ângulo. E, por saber que o que estou vivendo, graças as obras de saneamento que muda nossa rotina com o vai e vem de máquinas e trabalhadores “estrangeiros”, é um momento longo, porém passageiro, acompanho e registro com muito interesse os acontecimentos da vizinhança.

Pois não é que ontem, fui despertada pela voz de anjo poderoso da Fátima descendo pela ladeira? Sabia que aquilo era o prenúncio de um bom dia! Sonhei que hoje e sempre voltou a ser assim. Mas foi só ontem...

Hoje amanheci - e permaneço enquanto escrevo - envolvida pelo zumbido ensurdecedor do superdesentupidor de esgotos que tenta limpar mais uma barbeiragem da obra.

Isso poderia contaminar minha crônica. Não fosse esta dedicada aos justos, aos mansos e àqueles que, como eu, tinham e de vez em quando ainda têm, o privilégio de escutar a voz de Deus ao ouvir  Fátima cantando a plenos pulmões pela vida a fora!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM

domingo, 10 de junho de 2012

Régua, esquadro e compasso

Régua, esquadro e compasso

Texto e foto de Valéria del Cueto

Não tem jeito. É com régua, esquadro e compasso que se calcula o espaço. “Pode usar o GPS e simplificar tudo”, diz uma vozinha interna matreira querendo confusão logo no primeiro parágrafo da crônica, ainda engatinhante. E só pra soprar besteira: GPS apenas digitaliza a sistemática. Não mudou o principio espacial/matemático. Trocou o plástico/madeira da régua e do esquadro, e o metal do compasso por uns chips e circuitos, mas manteve os fundamentos. Captou?

Saí de uma obra e caí na mesma uma rua para trás, acredita? No último ano, a rua onde morava passou por uma série de obras de infraestrutura para resolver de vez o problema da rede de esgoto do bairro. “Quem bonzinhos”, pensa você, “que governo”! Coisa nenhuma, a intervenção deve-se aos planos de megaempresários e – sempre eles - políticos cariocas de “elitização” das favelas e, no caso do Leme, fazer um upgrade nas moradias do Chapéu Mangueira e Babilônia, inclusive com a construção – pasmem – de prédios. Para viabilizar a heresia precisavam solucionar os problemas de esgotamento sanitário, facilitando – e valorizando - o “avanço” morro acima. As obras começaram na rua da frente, passaram para a de trás e subiram a ladeira Ari Barroso, causando uma incrível alteração na rotina dos moradores. Onde há obra interrompe-se o tráfego. Lá em cima só tem uma rua para subir e para descer. Imaginaram o transtorno?

Meu sacolejo me colocou justamente na quina. Num andar perfeito para observar a movimentação do pé da ladeira. Com vista para a rua e a subida, até a primeira curva. Quando me mudei, conversando com um encarregado da obra, perguntei se os prazos previstos seriam cumpridos, já que eu estava “acompanhando” os trabalhos e, claro, saturada das britadeiras, apitos e motores desde a antiga rua. Lá, havia sido quase um ano de bagunça. Ele me surpreendeu prevendo que o fim do sofrimento seria antecipado para meados de junho. Havia uma “ordem” para que a UPP do Leme fosse umas das visitadas durante a Rio+20. Resumindo, o prazo para a entrega do pacote é essa semana!

Quando soube a façanha que tentariam fazer passei, com a ajuda de um olheiro cuiabano, o jornalista e quase arquiteto Cacá de Souza, a monitorar os trabalhos. Nunca pensei que minha janela pudesse proporcionar tantas emoções e provocar tamanho interesse! Depois, compreendi que esse é um filme que, diz a lenda, vai terminar muito em breve por aqui. Mas, no caso da sede da Copa do Pantanal, “mal e má” começou. Pois faço questão de deixar meu testemunho desta experiência.

Nas últimas semanas, lá em cima, no meio das obras, um poste caiu abalado pelas máquinas. Acabou a luz em parte das moradias e outra também ficou sem água. Estourou um cano. Os bueiros aqui da esquina se encheram de água e a terra das obras desceu, entupindo-os (enquanto tentavam recuperar o cronograma perdido, vi subindo as partes do palanque ou da UPP que será montado(a) na favela). A terra, que desceu se esparramou na rua, secou e os protestos obrigaram os responsáveis pela obra a molharem o asfalto, por causa da poeira que invadia os apartamentos. Quando a situação foi resolvida o tempo virou. Uma tempestade de horas transformou a ladeira numa cachoeira (ops!) e, é claro, os bueiros não deram vazão. O buraco aberto sem proteção dentro do qual passa toda a fiação subterrânea da rua, (que não tem fios aparentes nos postes) primeiro encheu de água, depois recebeu uma incrível quantidade de terra. Aquela que os caminhões caçambas passaram a semana toda subindo. Buraco, canos e tubos, tudo soterrado! Sentiu a responsabilidade?

Não sei como será o dia D, mas sei que o atropelo é inevitável com régua, esquadro e compasso, ou GPS. Isso diz alguma coisa pra quem adiou, por causa da chuva, o início das obras viárias em Cuiabá?

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

terça-feira, 5 de junho de 2012

Ele, o Leme




Umas básicas para registrar a luz outonal, outras nem tanto.
A Ponta e Copacabana na mira.

* fotos de Valéria del Cuetohttp://images.multiply.com/multiply/icons/clean/24x24/x.png, para o Sem Fim...

Tria




Linhas que indicam no meio, por fim.

* fotos e vagabinha de Valéria del Cueto

domingo, 3 de junho de 2012

Tiro e queda

Tiro e queda

Texto e foto de Valéria del Cueto

Na dúvida, quase dancei. Perdi a hora, por que não sei o rumo e o tempo não ajuda. Faz calor, mas chove e minha praia está instável. O tempo nublado cinzentão me impede de ver o céu. Nada de sol, lua ou estrelas. Imagino a situação dos navegantes que se guiavam pelos astros para alcançarem territórios inexplorados. Não é fácil essa vida de tempo ruim astronômico. Ai, tudo fica assim, meio não sei não.

Aproveito para resolver as pendengas que pululam  influindo severamente no meu entorno: instalar  o depurador de ar (chique, não é? Que nada. A cozinha não tem janela, nem respiro. Dá pra acreditar? Fritar um bife, nem pensar. Fazer feijão, uma aventura cujo aroma se estende aos quartos e a sala e por ali permanece...), dar um jeito nas carrapetas do chuveiro, ressuscitar a velha TV, por que não quero comprar uma nova e ela resolveu, além de calar a boca, ficar sem imagem também. Uma seleção de pequenuras pelas quais - espante-se – agradeço.

A vida lá fora não está fácil. Quente, molhada, nebulosa e violenta. Tanto é verdade que a dúvida quase derrubou minha rotina semanal. Explico: tenho saudades e quero voltar a escrever no meu caderninho. Nele e seus antecessores sei que estão registrados, escritos à mão, meus melhores devaneios.  Lá, jurei deixar guardada uma visão (míope e astigmática, confesso, ainda que não me sinta responsável por um defeito de fabricação sobre o qual não tive chance de optar) do que vivi na passagem por esse mundão, na virada do milênio.

Ultimamente, reconheço que o tenho evitado por não querer contaminar esses relatos com assuntos triviais e asquerosos da vida sociopolítica que se desenrola diante dos olhares estupefatos de todos nós. Toda semana juro que vou voltar à antiga prática e, portanto ao meu meio preferencial de registro. Mas, quando vai chegando a hora de sentar e escrever, descubro que, como cidadã não há como calar-me diante dos acontecimentos que me cercam. Aí, lá se vai para o fundo da gaveta, (quer dizer, da bolsa de praia) o caderninho não afeito a assuntos menores, mas necessários de serem abordados.

E, na dúvida, procurando uma maneira de voltar à prática salutar, vou deixando para o fim do prazo a entrega da crônica semanal esperando, até o último minuto, que o tempo abra, o sol apareça e um fato novo positivo suplante minha indignação com o que vi no decorrer da semana. O tempo, inexorável voa em direção ao meio da tarde, assim como, num determinado momento, depois de me render ao teclado insensível do notebook, meus dedos tentam se entender com as teclas, obedecendo meu cérebro tão truncado quanto a vida.

Poetei, mas não escapei de chegar ao motivo desta crônica não estar no meu panteão escrito à mão. Lutei e rodeei até encontrar, pelo menos, uma abordagem positiva para o triste e lamentável assunto em pauta, a falência do que chamam Estado de Direito no país. Se os três poderes constituídos já não cumprem suas funções: o Judiciário não julga PRA O POVO ( trabalha de forma corporativa, defendendo outros e seus interesses), o Legislativo não legisla PARA O POVO (faz lobby e leis  em seu próprio benefício e dos que o bancam)  e o Executivo não executa PARA O POVO (e isso inclui não apenas uma classe, mas todas as que compõe nossa sociedade civil), isso é sinal de que não há mais, a rigor, um estado constitucional estabelecido e atuante.

Aí, chego ao lado bom. Os votos que nós milhares de mato-grossense demos, nas últimas eleições, ao senador Pedro Taques. Votos que o permitiram impedir o prosseguimento de mais uma agressão a uma norma constitucional: o direito ao silêncio, exercido por Demóstemes Torres, na CPI do Cachoeira.

Poucas vezes me senti tão bem representada politicamente como ali. O resto dos acontecimentos foi uma decorrência do Estado desordenado que citei acima. Onde a ignorância quer vencer a razão no grito e  interpretações superam os fatos reais tentando – espero que em vão - mudar seu significado.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

domingo, 27 de maio de 2012

Mil e quantas mais

Mil e quantas mais

Texto e foto de Valéria del Cueto

Vou começar, antes que acabe. É isso mesmo. Acabe o tempo para entregar ao diagramador mais uma crônica, ainda da Ponta do Leme (sentiu o quase movimento?).

Hoje é sexta feira, mas cá entre nós não parece! O tempinho chinfrim que se espalhou pelo Brasil chegou a minha beira mar, deixando um céu chumbento, sem atrativos com um ventinho vagaba e implicante. Ele não para de despentear meus cabelos que se encarregam de fazerem cócegas na ponta do meu nariz alérgico da mudança. Já deu pra avaliar o nível de concentração do início da tarde. Zero.

O mar baixou um pouco, mas ainda está mexido reflexo da última ressaca que, entre outras coisas, carregou dois viventes imprudentes e desprevenidos do Caminho dos Pescadores, na Pedra do Leme.  Foram fisgados de volta à terra firme, machucados e molhados, pelo Corpo de Bombeiros. Aqueles heróis de sempre, no lugar certo como sempre, mal pagos sempre.

Quando fincaram a placa avisando que a correnteza estava perigosa, ainda havia ele - o sol - e o céu estava azul, mais que a cor do mar. Mas isso foi antes.  

Agora, tá tudo cinza, com ou sem você. Nada animador. Ou melhor, muito inspirador pra gente ficar na caminha  lendo um bom livro, vendo um filme e, por decorrência, comendo pipoca enroladim num edredon.

Diz que pras bandas de Cuiabá a neblina tomou conta do entorno e invadiu até as almas mais poderosas. Pela foto que recebi do meu serviço particular de meteorologia local vai ser ruim o cuiabano  botar a cabeçinha pra fora da soleira de sua residência... Quem me manda as fotos diárias que me mantém informada e localizada na temperatura básica de Cuiabá é o mesmo ser bondoso que, esta semana, atingiu a marca das 1000 crônicas publicadas  nos jornais, blogs e sites espalhados pelo Brasil, o magnífico Gabriel Novis Neves.

Lembro quando ele começou a escrever. Certamente nunca lhe passou pela cabeça que seria uma Sherazade cuiabana e, em tão pouco tempo, alcançaria suas mil e uma histórias. Hoje responsáveis por manter, não um boi, mas uma boiada inteira de leitores atentos e interessados no que ele tem para dizer. Fantasia, ou não. E olha que a caixa de Pandora aberta nessas crônicas expos uma fresta da imensa cultura e dos variados interesses que movem o cronista em tela. Foi uma surpresa para muita gente.

Num primeiro momento, a novidade se espalhou e ele fisgou os aficionados pelo seu estilo literário direto e enxuto que, um dia me explicou, envolvia uma apresentação do assunto, a anamnese e, finalmente, um possível diagnóstico. Coisa de médico. Competente.

Com o passar do tempo, quem foi acompanhando o conjunto da obra, começou a reparar que os textos curtos poderiam ser ligados entre si e, aí, as histórias (que poderiam ser para boi dormir) passaram a ter um significado complexo e contundente. Alguns acharam que ele havia enlouquecido. Outros, que estava indo longe demais ao colocar na roda o que achava dos acontecimentos que agitam a comunidade em que vive... Não houve pressão que desestimulasse o autor. Ele prossegue cutucando, informando, questionando e procurando respostas para as questões que afligem, não apenas a ele, mas a sociedade como um todo.

Por isso, acredito que essas histórias ainda serão contadas por muitas e muitas crônicas. Daquelas que nos estimulam e fazem pensar no que somos e para onde vamos. Como essas são respostas ainda distantes de serem alcançadas, cabe a nós, não apenas buscá-las instigados pelo autor, mas na medida em que qualquer luz seja jogada sobre elas, fazer o possível para divulgá-las para o maior número de pessoas possível.

Admiro este percurso e procuro seguir este caminho  numa frequência exponencialmente menor. O que sempre o fará maior. Ser cronista aprendiz não é fácil...


*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

domingo, 20 de maio de 2012

Amor explícito: você é nosso e nós somos teu!

Amor explícito: você é nosso e nós somos teu

Texto de Valéria del Cueto

Estou no trecho, mas um pouco fora de contexto. Explico: o sol brilha, o tempo corre e faria quase qualquer coisa para poder ir até a praia, na Ponta do Leme, escrever minha crônica semanal, só que... Como você sabe, fui exposta a uma mudança involuntária  e ainda estou fazendo os ajustes finais na nova morada: luz, telefone, móveis, operação joga fora no lixo, aquilo tudo e mais um pouco.

Algumas coisas ficaram para depois e vão surgindo na medida em que as necessidades se apresentam. Prementes e urgentes. É o caso do aquecedor de gás do apartamento. Ele funcionava “mal e má”. Meio instável, meio fresquinho, mas cumprindo seu papel de forma razoável. Até que o frio começou. Aí, senti o drama do banho morno e precisei tomar as devidas e, até então, adiadas providências...

Existem algumas coisas que são assim. Têm que ser resolvidas de imediato. Parto desse princípio, principalmente, quando lido com mão de obra terceirizada. Se você ligou pro cara do gás e ele disse que pode atender i-me-dia-ta-men-te, não discuta: agradeça aos deuses da água fervendo que você merece, e mande-o rumar pra sua unidade habitacional. Sabe lá quando ele terá outra “vaga” na sua agenda disputadíssima? Não vacile, não postergue, não adie. Abra as portas do seu lar e diga: “bem vindo, ó amado técnico!” Outro conselho: só deixe o cara sair de lá quando tudo estiver funcionando como deve ser...

Por essa razão, lá se foi a minha praia inspiradora, nesse dia meio nublado e com uma brisa fresquinha, quase invernal. Não posso reclamar. Mas você pode se achar que estou apenas enchendo linguiça, o que não verdade. A verdade nua e crua é que, pelo menos, posso escrever uma crônica melhor na semana que vem ou, ainda, encontrar um mote surpreendente para terminar essa de hoje.

Difícil é recuperar a credibilidade quando fazemos coisas que não podem ser mudadas nem explicadas por que, de tão óbvias, não têm justificativas plausíveis. Quase como desprezar a hora disponível pelo bombeiro gasista alegando que no horário bom pra ele haveria outro compromisso, mais importante ou urgente do que garantir a qualidade dos meus banhos pelo inverno próximo e outros vindouros.

Tipo a declaração de amor “...você é nosso e nós somos teu” do deputado petista Cândido Vacarenzza, num SMS apaixonado e apaixonante para o descobridor dos benefícios eikedeltísticos, Sérgio Cabral, o governador turista do Rio de Janeiro!

Ora, assim como a sorte de achar uma brecha na agenda do bombeiro, lá estava o cinegrafista do SBT no lugar e no momento certo, gravando imagens que acabariam percorrendo o mundo cibernético para mostrar o grau de companheirismo, amizade e cumpadreio que permeia as relações políticas dos envolvidos na CPI do Cachoeira!

Este é o típico caso em que a exceção faz a regra do ‘lavô, tá novo” existir! Não adiante vir com guaraná, por que a coisa toda tem cor de chocolate. Um chocolate na seriedade política nacional, um vareio inconteste e inquestionável no que deveria ser uma apuração severa (e, como a justiça, cega) dos que roubam deslavadamente os cofres públicos e achincalham a moral, a ética e política combalida do nosso país.

E que não me venha dizer que “aquilo era uma conversa particular” por que foi devido às particularidades surrupiantes, indevidas e comentadas em milhares de horas de gravações de mensagens e recados enviados pelos protagonistas desse espetáculo de quinta categoria que chegamos a essa vergonha.

Pelo certo, Vacarenzza deveria também ir para o banco dos réus da CPI por cumplicidade explícita. Pensou que era o bombeiro da vez e, agora, tenta “esquentar” sua atitude jogando a culpa no (bom) serviço alheio. Parabéns à reportagem que não deixa sombra de dúvida sobre de que lado está o ex-líder e petista: do lado contrário aos interesses do povo, achando que “lavô, tá novo” e quem é sério vai cair nessa de novo!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com