“Prometer e não cumprir é pior do que mentir”. O verso que abria
o jingle da campanha de Roberto França à prefeitura de Cuiabá, em 1988,
entranhou na minha mente e virou lema nas andanças da vida.
Aprendi a não fazer promessas vãs e descobri que as piores promessas
não cumpridas são as que fazemos a nós mesmos.
É para não cair de forma irrevogável no quesito missão não
realizada que deixei de lado as comemorações do dia do Santo Guerreiro, São
Jorge da Capadócia.
Vim correr atrás das palavras que compõem o último texto antes
da pausa da Revista Ruído Manifesto, prevista para começar no mês de maio. Não
há prazo definido de quando a aventura, idealizada pelo jornalista e escritor
Rodivaldo Ribeiro, deixará de ser uma “já teve” e voltará para quem sabe, ser uma
surpreendente “voltamos a ter” em Cuiabá.
Aprendi a teoria do “já teve” com a crítica de artes Aline
Figueiredo. Ela me ensinou ser esta uma particularidade da capital de Mato
Grosso que já teve de um tudo! “Já teve e, agora, não tem mais...” complementava
com uma enxurrada de exemplos irrefutáveis nossa maior expressão em análise e
reconhecimento do que há de mais relevante nas artes plásticas no centro-oeste
e no país.
Se o assunto é literatura, a expressão também se aplica e se
replica de forma acelerada.
Quando soube da parada da Ruído Manifesto, gentilmente alertada
pelo editor da coluna Crônicas do Sem Fim, Wuldson Marcelo, caiu a ficha da
perda de importantes disseminadores da cultura local nos últimos tempos.
A incrível iniciativa de Rodivaldo foi para o mesmo patamar do
Tyrannus Melancholicus, capitaneada pelo imortal da Academia de Letras
Mato-grossense, Lorenzo Falcão, contabilizei chorosa. Ao que Wuldson
acrescentou o Cidadão Cultura e a Revista Pixé, pilotada por outro imortal,
Eduardo Mahon.
Quer saber, leitor amigo? Está doendo. No meu caso lá se vão
duas fontes de distribuição do material do Sem Fim. Textos, fotos, vídeos...
Fiquei sem o piado do passarinho e espero que, momentaneamente, sem a Ruído.
Teimosa, sigo me manifestando!
Como sou otimista por natureza, enquanto espero que a pausa
sonora seja apenas uma pausa, tento racionalizar. Avalio (chutando) que esse
sumiço das publicações culturais seja apenas uma mudança de formato da maneira
de disseminar a criatividade, as ações e nosso conjunto alegórico cultural.
O que virá agora? Essa é a pergunta que não quer calar e, claro,
não sei responder enquanto converso, do outro lado do universo com o
responsável, depois de um embate de gigantes, pela criação da coluna Crônicas
do Sem Fim, Rodivaldo Ribeiro.
Repito de novo o que já contei em outro texto, mas faço questão
de registrar na crônica pré-pausa: eu, correspondente do Diário de Cuiabá para
assuntos carnavalescos cariocas; Rodivaldo, editor do caderno Ilustrado.
Véspera de carnaval, texto e fotos enviados ao jornal e um passarinho me conta
que os planos do responsável pelo caderno eram que a capa do caderno fosse um
festival de rock!
Tomei uma atitude que normalmente não faz parte do meu
repertório. Apelei às instâncias superiores. Afinal, meses de trabalho
produzindo fotos, acompanhando os ensaios técnicos na Sapucaí, não poderiam ser
desperdiçados assim.
Capa realinhada, expliquei os meus motivos ao editor do caderno,
certa de que ele não perdoaria a interferência. Lêdo engano...Rodivaldo deixou o Diário um tempo depois. Foi
para outro veículo e, mais tarde, lançou seu projeto, tão especial, a Ruído
Manifesto.
Qual não foi minha surpresa ao receber sua ligação com o convite
para publicar meu material na revista eletrônica? E mais: para manter uma
coluna, a qual ele deu o nome de Crônicas do Sem Fim, seguindo a linha inicial
das águas que percorro.
Fizemos planos, muitos planos que se perderam subitamente quando
ele partiu. Ângela Coradini primeiro e, depois, Wuldson Marcelo passaram a
fazer a ponte editorial da coluna.
Graças a Ruído Manifesto, os textos, fotos e vídeos que compõem
o universo do Sem Fim se expandiram chegando onde a revista fez barulho até
agora. E foi longe! Tanto no Brasil como no exterior.
AS boas notícias foram as de que “é uma pausa” e que o site
continuará ativo, com a íntegra do material publicado por todos nós que fizemos
parte do sonho de expandir a cultura brasileira para o mundo, partindo, (que
ousadia1) de Cuiabá, Mato Grosso...
A Ruído Manifesto, pausa, mas não se cala. Seus participantes
seguem o fluxo das águas, unidos pelos fios tramados nos últimos 9 anos na rede
idealizada com tanto amor e realizada por tantas mãos.
No meu caso, sigo no rumo do Sem Fim, acumulando afetos, textos
e imagens publicadas em outros veículos parceiros enquanto, como tantos,
aguardo de novo o chamado da Ruído, sempre manifesto...
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM
FIM... delcueto.wordpress.com
Estou igual as nuvens que costumam viajar pelo céu.
Uma hora deixo o sol entrar e aquecer a paisagem no meio do mundo em que me encontro entre uma chuvarada e outra das águas de março. Logo em seguida escondo a luz solar. O que, na pior e mais frequente das hipóteses, ativa a ação do inclemente e coçante do mosquital.
Os danados só dão folga quando o sol brilha num céu de brigadeiro. Estão animadíssimos com esses tempos úmidos de tantos temporais.
Nada a reclamar. Nem de minha parte, nem do lado da terra que andava esturricada e sedenta. Tudo cresce, a natureza explode e transforma a paisagem da Mata Atlântica que me cerca.
Se me equiparo às nuvens, sei que não mando em meu formato ou na velocidade que se alteram nos caminhos que percorro quando elas incrementam a paisagem natural como adereços da alegoria celestial.
Também não comando minhas qualidades e defeitos. Sou guiada por outros fatores. Pensando bem, por vários! Inclusive alguns, como contei no último texto “Ainda é cedo”, que podem me paralisar.
Hoje, o objetivo é sugerir uma forma de fugir desse colapso físico e mental, essa exaustão...
Ela que me deixou, inclusive, sem a menor vontade de fazer o que mais desejo de todo o coração: editar as fotos do carnaval 2026.
O conselho inicial é não forçar a barra. Tentar se dedicar, quando seu corpo pedir, a primeiro, fazer o mínimo.
Num dia qualquer acordar e escolher uma pequena tarefa para recomeçar a vida. Esqueça aquela enorme lista de pendências e objetivos pendurados na sua mente cansada.
Concentre-se, por exemplo, em retirar as ervas daninhas de um canto, só um cantinho, do jardim. E comemore a pequena vitória conquistada sem desviar o olhar para o latifúndio restante necessitando de atenção.
Fique feliz e se empenhe com afinco na produção super fácil de batatas rústicas do seu vasto(?) repertório culinário.
Afinal, foi o prato que abriu o apetite depois de semanas apenas esquentando as delícias produzidas pela Neuza e trazidas para consumo no pé da serra.
Se der vontade de passar aspirador (mesmo que seja véspera do dia da vinda da faxineira), mete bronca. Esconda seus pensamentos sob o ruído invasivo do motor do aparelho.
Ou... Se dê tempo para se reconectar com os sons da natureza como o das águas correndo entre as pedras do rio, as conversas dos passarinhos no final da tarde, e o ciciar das cigarras anunciando dias de sol. Procure vagalumes na escuridão!
Repito: não se cobre(muito) ou tente fazer tudo de uma vez só. Um dia, é a vontade de escrever que volta. Pode ser que duas semanas depois, prazo regulamentar entre as crônicas, ela permaneça.
De vez em quando passe pelo seu objeto final de desejo. No caso, as milhares de fotos esperando para serem editadas. Se não der liga, continue em frente. Vá assistir a uma série tcheca no streaming!
Não esqueça. Nunca perca a fé em retornar à sua escolha de difícil finalização. É o preço por optar por não usar flash, levantar o ISO e subir a velocidade na captação das imagens.
Tudo é empecilho. São tantas as dúvidas sobre a ordem de edição. A prioridade são as baterias?
O Lukumi da escola de samba Paraíso do Tuiuti ganha o primeiro lugar da fila de prioridades. A responsabilidade é do Pixulé e sua incrível interpretação do samba enredo.
“Derruba o muro, quem sabe asfaltar. Caminhos abertos nas mãos do Ifá. Que o mundo entenda o Ebó vence a dor sentado à esteira de um Babalaô”. É na mensagem explícita de Luiz Antônio Simas, Cláudio Russo e Gustavo Clarão, os autores da obra, que me apego.
Aproveito, nuvem que sou, os ventos me levarem. Sempre indo. Ou sumindo como no caso da imagem que ilustra esse texto. Na hora do registro, cadê elas? Onde fomos parar? Clareou, ou melhor, azulou geral!
Depois ressurgimos. Uns dias mais rápidas, outros mais lentas. Até que, por força dos deuses, viremos toró de chuvas ou de registros editados. Que encham de imagens o universo de quem capturei os movimentos no desfile de carnaval de 2026.
No momento, devagarzinho, informo mais uma conquista. Na edição saí da concentração do Tuiuti do lado dos Correios e consegui avançar até o Setor 1 da Marquês de Sapucaí junto a bateria Super Som de mestre Marcão.
Quebrei, sim, a maldição do colapso imagético que me dominava. Mas, confesso, foi difícil...
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da séries “Não sei onde enquadrar” e “É carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
(C)2025 Valeria del Cueto, all rights reserved. Protegido pela lei 9610/1998.
O Paraíso do Tuiuti trouxe para o mini desfile do Dia Nacional do Samba de 2025 elementos apresentados pelos segmentos da escola de samba de seu enredo para o carnaval 2026, "Lonã Ifá Lukumí", do carnavalesco Jack Vasconcelos.
Agradecimentos ao Presidente Thor, Renatinho Marins, à Super Som, Mestre Marcão, Markinhos, aos componentes do Paraíso do Tuiuti, à Liesa, Rio Carnaval e Riotur.
Imagens de Valéria del Cueto / acervo carnevalerio.com
Ensaio fotográfico e vídeos publicados no canal @del Cueto, no Youtube de (C)2025 Valéria del Cueto, all rights reserved @no_rumo do Sem Fim…
@delcueto para CarnevaleRio.com
LINK dos vídeos do acervo carnevalerio.com do Paraíso do Tuiuti no mini desfile do Dia Nacional do Samba, 2025.
Faça sua inscrição nos canais del Cueto no Youtube e no TikTok - desde 2008 registrando momentos do carnaval carioca.
Rápido, rasteiro e avassalador. Querida cronista
voluntariamente clausurada do outro lado do túnel, estes são os adjetivos que
descrevem os rumos do planeta ao qual você, sabiamente, resolveu virar as
costas novamente depois de sua escapulida no carnaval.
Sim, cronista, assim como o Grande Irmão que vigia
o cotidiano dos habitantes do planeta Terra em todos os seus movimentos, também
conseguimos nós, os extraterrestres visitantes, jogar nossa mira telescópica
sobre os indivíduos cujas rotinas nos interessam observar. No seu caso, o fiz
pelo mais genuíno interesse: a amizade que tenho por quem me introduziu nos meandros
humanos. Você!
Nesse período em particular, por nada nesse
universo de dados circulantes, deixaria de “bizoiar” suas atividades quase secretas
carnavalescas.
Acompanhei a tensão nas inúmeras etapas para obter
os credenciamentos dos ensaios técnicos, mais acessível, e o dos desfiles
oficiais, na maratona de todos os anos e suas variantes.
Vi seu esforço para tentar o quase impossível:
cobrir todas as escolas da Série Ouro e do Grupo Especial.
Senti na minha epiderme protetora (quem aguenta o
calor daqui?), sua frustração por não conseguir fotografar parte das escolas
que almejavam chegar na elite do carnaval carioca, incluindo aí a Acadêmicos de
Niterói que alcançou esse direito. Imagino a sua decepção por não ter o material
para incorporar no acervo carnevalerio.com
Vi a emoção brotar explicitada nas fotos e vídeos
do ensaio técnico do Império Serrano, por exemplo, após o fogo que lambeu
atelier e ceifou a vida de artesãos no espaço incendiado em Madureira.
Falo daquele episódio que parece fazer parte, apenas,
de um carnaval que passou. Sem trazer maiores providências para evitar novas
tragédias no processo de produção e desenvolvimento das escolas de samba,
especialmente as dos grupos inferiores, que desenvolvem seus desfiles em
condições tão precárias. Vi tudo e muito bem!
A parte boa é que não faltam imagens para serem
editadas e indexadas nos próximos meses em sua reclusão voluntária.
Elas são representativas da paixão inebriante que
move a maior festa popular do planeta. Aquela que não se restringe ao berço das
escolas de samba, o Rio de Janeiro, mas se expande e prolifera por muitas
cidades do Brasil, e até do mundo, em ritmo de samba.
Tudo isso, cronista, é muito bom para garantir sua
sanidade. Afasta-a da realidade cruel que movimenta esse planeta Terra que não
é mais aquele.
Foi-se o tempo da delicadeza, da gentileza. Uma
nova velha geração, no momento, testa as barreiras da intolerância e da
brutalidade. Guerras e disputas se retro alimentam apesar dos alertas de quem
sabe aonde isso vai dar. São muitos esses avisos. Porém, inócuos.
Não há mais conversas, diálogos, trocas de ideias.
Tudo é confronto e, sim, sem regras ou protocolos. No popular: é porrada e
bomba. Nada de argumentação.
Não vou particularizar os atos que incluem do
desequilíbrio comercial mundial à rapinagem pura e simples. Nesse quesito o
status quo foi destroçado.
O pau continua quebrando para enriquecer os
senhores das guerras em vários cantos desse mundão. Não há limites para
destruição, nem para a exterminação de populações inteiras.
O mais incrível é que eles não aprenderam
nada!
Quase ninguém parece se importar com o que estão
ensinando à nepobaby Inteligência Regenerativa, aquela que deixou de ser
artificial para se (con)fundir com os hábitos, rotinas e o cotidiano da
humanidade.
A impressão que dá é que, sabedor de que o próximo
passo é ser dominado por ela, o ser humano capricha em incutir no “modelo” seus
piores e mais tenebrosos instintos. Aguardem o tratamento que receberão depois.
Cansamos de avisar!
Está entendendo, cronista? Por isso tornei espaçada
nossa correspondência pela luz da lua que invade sua cela. Prefiro deixá-la às
voltas com as imagens capturadas em sua incrível fuga carnavalesca. Estive lá. Disfarçado.
Adivinha onde?
Tal qual a freirinha carmelita, que pula o muro do
convento de Santa Teresa para se acabar no bloco que leva seu nome, seu
objetivo é louvável: cair dentro da folia para fugir da realidade inexorável. É
a fresta da festa. A fresta, não a janela panorâmica que a vida deveria ser...
PS: Não mencionei o tombo porque você ensinou a mim,
PLuct Plact, o extraterrestre, a ser discreto.
Se os desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro,
transmitidos para o mundo inteiro, são caixas de ressonância que fazem ecoar as
questões abordadas nos enredos, por que não cantar a ancestralidade, suas
epopeias mitológicas e as influências no modo de vida material e espiritual de
quem produz e protagoniza o espetáculo?
Tem gira na pista e em dez dos doze enredos das escolas de samba
do Grupo Especial do carnaval carioca 2025. Os temas valorizam nossas raízes
africanas alertando sobre o crescente e alarmante aumento da intolerância no
país.
A vida como ela é - Nada de novo no universo das comunidades
do samba. São compostas pelo povo preto periférico que sofre com a dura
realidade e arbitrariedades em seu cotidiano.
Um exemplo são os terreiros proibidos de funcionarem em áreas
dominadas por evangélico/traficantes. O Complexo de Israel tem até bandeira daquele
país hasteada, na zona norte do Rio.
É uma hipótese para a predominância, no maior espetáculo popular
do planeta, de enredos sobre as tradições afro-indígenas religiosas. As
exceções são a Mocidade Independente e a Vila Isabel.
Mudanças estruturais – Há novidades na dinâmica do espetáculo promovido pela Liesa, a Liga das Escolas de Samba. Serão
três noites de disputa. De domingo a terça de carnaval quatro escolas passarão
pela Sapucaí seguidas de rodas de samba na praça da Apoteose.
Haverá alteração no número de cabines de jurados. Voltam a ser
quatro. Duas de cada lado, distribuídas ao longo da pista. O julgamento também
foi modificado. As notas não serão fechadas ao final de todas as apresentações,
mas após cada noite de desfile. Que diferença o novo formato faz? Veremos. Só
saberemos o resultado das mudanças após a abertura dos envelopes na apuração.
De arquibancada
- Essas e outras questões estiveram na boca do povo do samba que
bateu ponto na Sapucaí nos ensaios técnicos gratuitos, em 2025. Atire a
primeira serpentina quem não deu pitaco sobre a iluminação cenográfica. A que
transforma o visual das apresentações e acrescenta novos desafios estéticos à concepção
do espetáculo.
Os desenhos de luz se refletirão na avaliação dos quesitos? Como julgar,
por exemplo, o acabamento de fantasias e alegorias em meio ao pisca-pisca psicodélico
que esconde os detalhes das peças elaboradas pelos artesãos do carnaval?
Para aprimorar - As soluções de problemas
estruturais como o som da avenida, a segurança dos foliões no entorno do
sambódromo e a melhoria das condições de trabalho na indústria do
carnaval seguem em construção, apesar da urgência e relevância das
demandas.
Mas, como já dizia o samba consagrado, “o show tem que continuar”.
E, como “ainda estamos aqui”, a disputa pelo campeonato vai ser boa. Terá um
tempero especial: domingo tem Oscar, com Fernanda Torres e o filme sobre Rubens
Paiva concorrendo em três categorias. Vamos firmar o Xirê (roda ou dança
utilizada para evocação dos Orixás) e chamar os orixás! A vida presta e o
carnaval contagia...
Domingo, 02 de
março
A Unidos de Padre Miguel, campeã da Série Ouro em
2024, começa a gira com o enredo "Egbé Iya Nassô" dos carnavalescos Alexandre
Louzada e Lucas Milato. Canta o mais antigo terreiro de candomblé do Brasil, em
Salvador. A escola da Zona Oeste abre os caminhos e pede passagem: “Vila
Vintém é terra de macumbeiro. No meu Egbé, governado por mulher, Iyá Nasso é rainha do candomblé”
Após décadas sem enredos afros, a Imperatriz Leopondinense,
atual vice-campeã, embarca na proposta de Leandro Vieira: “Ómi Tútu ao Olúfon
- Água fresca para o senhor de Ifón”, um itan (lenda) sobre as peripécias da viagem de
Oxalá ao reino de Xangô. “Vai começar o itan de Oxalá, segue o cortejo
funfun...”
A Viradouro, de
Niterói,tenta o bi com “Malunguinho, o
mensageiro de três mundos”.
A mata, os mistérios da jurema e da encruzilhada compõem o enredo afro-indígena
de Tarcísio Zanon. Ele apresenta a entidade que é “O rei da mata que mata
quem mata o Brasil”.
A Mangueira trouxe
de São Paulo o carnavalesco Sidnei França para exaltar seus crias e a
influência do povo banto na cultura carioca e brasileira. “À Flor da Terra -
No Rio da Negritude Entre Dores e Paixões” projeta no contexto atual os saberes da negritude:
“O povo banto que floresce nas vielas, orgulho de ser favela”.
Segunda, 03 de
março
Na Unidos da Tijuca o samba conta com pesos pesados na
parceria encabeçada pela cantora Anitta. Desenvolvido por Edson Pereira, “Logun-Edé:
Santo Menino Que Velho Respeita”,
homenageia o orixá filho de Oxum e Oxóssi. “Eu não descanso depois da
missão cumprida, a minha sina é recomeçar...”
“Laíla de Todos os
Santos, Laíla de Todos os Sambas”, de João Vitor Araújo, chama à Sapucaí, mais uma
vez, o lendário sambista, carnavalesco e produtor musical autodidata, peça fundamental em vários campeonatos da Beija-flor. A
nação nilopolitana se despede de Neguinho da Beija-flor, que se aposenta, e roga
ao homenageado: “Volta e me dá os caminhos, conduz outra vez meu destino...”
“Macumbeiro, mandingueiro, batizado no gongá, quem
tem medo de quiumba não nasceu pra demandar. Meu terreiro é a casa da mandinga,
quem se mete com Salgueiro acerta as contas na curimba”. A parceria de
Xande de Pilares embala “Salgueiro de corpo fechado”, proposta do carnavalesco Jorge Silveira. Recado
dado...
O enredo de Paulo Barros “Quanto mais eu
rezo, mais assombração aparece”, na Vila
Isabel, foge da temática afro-indígena na safra 2025. Sai a macumba
e... “Solta o bicho, dá um baile de alegria. É o povo do samba virado na
bruxaria”
Terça, 04 de março
A Mocidade Independente de Padre Miguel abre
a última noite de desfiles. O enredo da dupla Renato e Márcia Lage (que nos
deixou no início do ano), “Voltando para o
futuro não há limites pra sonhar”, também foge da linha africana. “Quando o futuro
voltar, a juventude vai crer que toda estrela pode renascer”.
“Quem tem medo de
Xica Manicongo?”,
de Jack Vasconcelos, apresenta a primeira travesti do Brasil, fichada pelo Santo
Ofício. O Paraíso do Tuiuti terá o reforço de personalidades como
Eloína, pioneira no posto de rainha de bateria, e a deputada Erika Hilton.
Somam-se num protesto contra a discriminação, a homofobia e violência no país
que mais mata LGBTQIA+ no mundo. “Que o Brasil da terra plana, tenha consciência humana, Chica vive na fumaça”
"Pororocas
parawaras: as águas dos meus encantos nas contas dos curimbós". O samba da Grande Rio, da parceria de
Mestre Damasceno, veio das eliminatórias realizadas em Belém. Leonardo Bora e
Gabriel Haddad trazem do Pará a lenda de três princesas
turcas e encantarias da Amazônia. Paolla Oliveira se despede do reinado na bateria
de Mestre Fafá. “É força de Caboclo, Vodun e Orixá. Meu povo faz a curva
como faz na gira...”
Mando várias fotos
pra dar pra brincar com a diagramação. Claro que não consegui me decidir. Não é
preciso usar todas, nem na ordem. Fica a critério do Edson...
Uma matéria só como
fizemos ano passado.
A matéria é dividida
em: introdução, domingo, segunda e o box com a ordem dos desfiles, se couber.
Fotos:
Foto 01 – Topo
rasgada título na parte superior, no céu da Apoteose
ET Viradouro 250215
234 Ala da baianas componentes Apoteose boa
Título - Xirê na Sapucaí
Sub-título – Tem gira na passarela
do samba
Foto 2- ET Tuiuti 250201 153 Abre alas alegoria destaque leque fashion
Legenda – Tuiuti e o primeiro enredo LGBTQIA+ do Especial. Quem
tem medo?
Foto 3 - ET G Rio 250201 098 Ala
componentes adereços bamboles boa
Legenda – O colorido exuberante do carimbó na Grande Rio
Foto 4 – ET Mangueira 250201 071 CF componentes menino da Mangueira coroa
boa
Legenda – Os crias, herdeiros do povo banto, reinam na Mangueira
Foto 5 – ET B Flor 250201 010 CF componentes Exu boa
Legenda – Exu garante caminhos abertos na Sapucaí
Foto 6 - ET Tuiuti 250201 142 torcida frisas boa
Legenda – Na torcida, o amor e paixão carnavalesca
Foto 7 - ET Imp Leo 250215 103 Ala componente boa adereço coroa cut
Legenda – O povo do samba reina no quilombo da alegria
Foto 8 - ET Vila 250208 204 Destaque boa
Legenda – Um assombro a musa da Vila Isabel
Foto 9 - ET Portela 250208 078 Abre alas Águia CF componentes pista geral
boa
Legenda – Nas asas da águia portelense, a homenagem a Milton
Nascimento
Foto 10 - ET Portela 250208 176 Ala componente boa
Legenda – Girasssóis da Portela no caminho de Bituca
Se os desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro, transmitidos para o mundo inteiro, são caixas de ressonância que fazem ecoar as questões abordadas nos enredos, por que não cantar a ancestralidade, suas epopeias mitológicas e as influências no modo de vida material e espiritual de quem produz e protagoniza o espetáculo?
Tem gira na pista e em dez dos doze enredos das escolas de samba do Grupo Especial do carnaval carioca 2025. Os temas valorizam nossas raízes africanas alertando sobre o crescente e alarmante aumento da intolerância no país.
A vida como ela é - Nada de novo no universo das comunidades do samba. São compostas pelo povo preto periférico que sofre com a dura realidade e arbitrariedades em seu cotidiano.
Um exemplo são os terreiros proibidos de funcionarem em áreas dominadas por evangélico/traficantes. O Complexo de Israel tem até bandeira daquele país hasteada, na zona norte do Rio.
É uma hipótese para a predominância, no maior espetáculo popular do planeta, de enredos sobre as tradições afro-indígenas religiosas. As exceções são a Mocidade Independente e a Vila Isabel.
Mudanças estruturais – Há novidades na dinâmica do espetáculo promovido pela Liesa, a Liga das Escolas de Samba. Serão três noites de disputa. De domingo a terça de carnaval quatro escolas passarão pela Sapucaí seguidas de rodas de samba na praça da Apoteose.
Haverá alteração no número de cabines de jurados. Voltam a ser quatro. Duas de cada lado, distribuídas ao longo da pista. O julgamento também foi modificado. As notas não serão fechadas ao final de todas as apresentações, mas após cada noite de desfile. Que diferença o novo formato faz? Veremos. Só saberemos o resultado das mudanças após a abertura dos envelopes na apuração.
Na torcida, o amor e paixão carnavalesca
De arquibancada - Essas e outras questões estiveram na boca do povo do samba que bateu ponto na Sapucaí nos ensaios técnicos gratuitos, em 2025. Atire a primeira serpentina quem não deu pitaco sobre a iluminação cenográfica. A que transforma o visual das apresentações e acrescenta novos desafios estéticos à concepção do espetáculo.
Os desenhos de luz se refletirão na avaliação dos quesitos? Como julgar, por exemplo, o acabamento de fantasias e alegorias em meio ao pisca-pisca psicodélico que esconde os detalhes das peças elaboradas pelos artesãos do carnaval?
Nas asas da águia portelense, a homenagem a Milton Nascimento
Para aprimorar - As soluções de problemas estruturais como o som da avenida, a segurança dos foliões no entorno do sambódromo e a melhoria das condições de trabalho na indústria do carnaval seguem em construção, apesar da urgência e relevância das demandas.
Mas, como já dizia o samba consagrado, “o show tem que continuar”. E, como “ainda estamos aqui”, a disputa pelo campeonato vai ser boa. Terá um tempero especial: domingo tem Oscar, com Fernanda Torres e o filme sobre Rubens Paiva concorrendo em três categorias. Vamos firmar o Xirê (roda ou dança utilizada para evocação dos Orixás) e chamar os orixás! A vida presta e o carnaval contagia...
Domingo, 02 de março
A Unidos de Padre Miguel, campeã da Série Ouro em 2024, começa a gira com o enredo "Egbé Iya Nassô" dos carnavalescos Alexandre Louzada e Lucas Milato. Canta o mais antigo terreiro de candomblé do Brasil, em Salvador. A escola da Zona Oeste abre os caminhos e pede passagem: “Vila Vintém é terra de macumbeiro. No meu Egbé, governado por mulher, Iyá Nasso é rainha do candomblé”
O povo do samba reina no quilombo da alegria
Após décadas sem enredos afros, a Imperatriz Leopondinense, atual vice-campeã, embarca na proposta de Leandro Vieira: “Ómi Tútu ao Olúfon - Água fresca para o senhor de Ifón”, um itan (lenda) sobre as peripécias da viagem de Oxalá ao reino de Xangô. “Vai começar o itan de Oxalá, segue o cortejo funfun...”
A Viradouro, de Niterói,tenta o bi com “Malunguinho, o mensageiro de três mundos”. A mata, os mistérios da jurema e da encruzilhada compõem o enredo afro-indígena de Tarcísio Zanon. Ele apresenta a entidade que é “O rei da mata que mata quem mata o Brasil”.
Viradouro: em busca do bi
A Mangueira trouxe de São Paulo o carnavalesco Sidnei França para exaltar seus crias e a influência do povo banto na cultura carioca e brasileira. “À Flor da Terra - No Rio da Negritude Entre Dores e Paixões” projeta no contexto atual os saberes da negritude: “O povo banto que floresce nas vielas, orgulho de ser favela”.
Os crias, herdeiros do povo banto, reinam na Mangueira
Segunda, 03 de março
Na Unidos da Tijuca o samba conta com pesos pesados na parceria encabeçada pela cantora Anitta. Desenvolvido por Edson Pereira, “Logun-Edé: Santo Menino Que Velho Respeita”, homenageia o orixá filho de Oxum e Oxóssi. “Eu não descanso depois da missão cumprida, a minha sina é recomeçar...”
“Laíla de Todos os Santos, Laíla de Todos os Sambas”, de João Vitor Araújo, chama à Sapucaí, mais uma vez, o lendário sambista, carnavalesco e produtor musical autodidata, peça fundamental em vários campeonatos da Beija-flor. A nação nilopolitana se despede de Neguinho da Beija-flor, que se aposenta, e roga ao homenageado: “Volta e me dá os caminhos, conduz outra vez meu destino...”
Exu garante caminhos abertos na Sapucaí
“Macumbeiro, mandingueiro, batizado no gongá, quem tem medo de quiumba não nasceu pra demandar. Meu terreiro é a casa da mandinga, quem se mete com Salgueiro acerta as contas na curimba”. A parceria de Xande de Pilares embala “Salgueiro de corpo fechado”, proposta do carnavalesco Jorge Silveira. Recado dado...
O enredo de Paulo Barros “Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece”, na Vila Isabel, foge da temática afro-indígena na safra 2025. Sai a macumba e... “Solta o bicho, dá um baile de alegria. É o povo do samba virado na bruxaria”
Um assombro a musa da Vila Isabel
Terça, 04 de março
A Mocidade Independente de Padre Miguel abre a última noite de desfiles. O enredo da dupla Renato e Márcia Lage (que nos deixou no início do ano), “Voltando para o futuro não há limites pra sonhar”, também foge da linha africana. “Quando o futuro voltar, a juventude vai crer que toda estrela pode renascer”.
Tuiuti e o primeiro enredo LGBTQIA+ do Especial. Quem tem medo?
“Quem tem medo de Xica Manicongo?”, de Jack Vasconcelos, apresenta a primeira travesti do Brasil, fichada pelo Santo Ofício. O Paraíso do Tuiuti terá o reforço de personalidades como Eloína, pioneira no posto de rainha de bateria, e a deputada Erika Hilton. Somam-se num protesto contra a discriminação, a homofobia e violência no país que mais mata LGBTQIA+ no mundo. “Que o Brasil da terra plana, tenha consciência humana, Chica vive na fumaça”
O colorido exuberante do carimbó na Grande Rio
"Pororocas parawaras: as águas dos meus encantos nas contas dos curimbós". O samba da Grande Rio, da parceria de Mestre Damasceno, veio das eliminatórias realizadas em Belém. Leonardo Bora e Gabriel Haddad trazem do Pará a lenda de três princesas turcas e encantarias da Amazônia. Paolla Oliveira se despede do reinado na bateria de Mestre Fafá. “É força de Caboclo, Vodun e Orixá. Meu povo faz a curva como faz na gira...”