O Paraíso do Tuiuti trouxe para o mini desfile do Dia Nacional do Samba de 2024, na Cidade do Samba, elementos apresentados pelos segmentos da escola de samba de seu enredo para o carnaval 2025, "Quem tem medo de Xica Manicongo", do carnavalesco Jack Vasconcelos.
Os vídeos do acervo carnevalerio.com do Paraíso do Tuiuti no mini desfile do Dia Nacional do Samba, 2024.
Agradecimentos ao Presidente Thor, Renatinho Marins, à Super Som, Mestre Marcão, Markinhos, aos componentes do Paraíso do Tuiuti, às Liesa, Rio Carnaval e Riotur.
Imagens de Valéria del Cueto / acervo carnevalerio.com
Ensaio fotográfico e vídeos publicados no canal @del Cueto, no Youtube de (C)2024 Valéria del Cueto, all rights reserved @no_rumo do Sem Fim…
“A história é contada pelos vencedores”.
A frase é atribuída a George Wells, autor de “A revolução dos Bichos” e “1984”,
na revista britânica inglesa Tribune, em 1944. E ele tinha razão.
Em Mato Grosso, numa instituição que
deveria ser guardiã da memória política do estado, a Assembleia Legislativa,
uma informação divulgada no seminário de comemoração dos 35 anos da promulgação
da Constituição Estadual foi mais um tijolo na construção da “nova” história política
local.
A desinformação
Para um documentário, apresentado sem
ficha técnica e, portanto, autoria, sobre os trabalhos da a elaboração da
Constituição Estadual de 1989, o atual conselheiro do Tribunal de Contas e ex-deputado
constituinte, Antônio Joaquim deu a seguinte declaração “...Mas no final eu
acho que o deputado Hermes de Abreu propôs muitas coisas inusitadas, modernas.
O deputado Luíz Soares deu uma grande contribuição. Todos os dois também foram
relatores da Constituição Estadual” (aos 13’13” do vídeo do evento). https://www.youtube.com/live/GmQjB5APY7c?si=WzRPkjXn75yxxvBF)
A verdade
O único relator da Constituição de 1989 de Mato Grosso foi o deputado Luíz Soares,
falecido em 16 de junho de 2022. Seu colega, Hermes de Abreu era sub-relator da
Comissão de Organização do Estado, Antônio Joaquim foi o sub-relator da Comissão
do Executivo, assim como outros parlamentares desempenharam a mesma função nas
demais sub-relatorias. No total foram 7 comissões que, depois de sistematizadas,
viraram o que foi apelidado pela equipe da relatoria de Frankenstein, tantas
eram as demandas apresentadas pelos setores da sociedade. Não foi essa colcha
de retalhos que virou o anteprojeto votado pelos constituintes.
Depois de tudo sistematizado Luiz Soares
apresentou um substitutivo integral com as inovações mencionadas por Antônio Joaquim.
Este material recebeu emendas dos parlamentares e, então, foi concebida a atual
Constituição de Mato Grosso, uma das mais avançadas entre as dos estados
brasileiros, com a relatoria de um único deputado: Luizinho Cabeção.
Para comprovar, basta olhar na última
página da Constituição. Após os Atos das Disposições Transitórias, se encontram
os créditos dos parlamentares constituintes. Lá, há somente um relator.
A massificação da desinformação
O documentário, que ilustrou o evento comemorativo
dos 35 anos da Carta Magna mato-grossense, uma sessão especial que contou com as
presenças dos ministros Gilmar Mendes, Alexandre Moraes e Flávio Dino, do
Supremo Tribunal Federal, autoridades estaduais de todos os poderes e
convidados, contém a desinformação que está sendo divulgada nos canais de mídia
da Assembleia de Mato Grosso. Até o dia 26 de novembro, somente no youtube, o material já havia sido reproduzido mais de 1.700 vezes.
Segundo o site
Isso é Notícias, o concorrido seminário, que durou 2 horas e 53 minutos, foi
produzido por uma empresa de Brasília, a Academia Brasileira de Formação e
Pesquisa (ABFP) Ltda, contratada sem licitação pelo valor de R$ 393 mil.
Omissão provoca
apagamento
É a História que, mais uma vez, vem
sendo alterada, desconstruída e remodelada. Basta abrir o site da Assembleia,
que deveria ser um repositório das informações transparentes da rica trajetória
política de Mato Grosso, para encontrar outros sinais desse desmonte.
Na lista de parlamentares, desde o
falecimento de Luíz Soares, em junho de 2022, seu nome e o link para seu
currículo político já não constavam nas 10ª, 11ª, e 13ª legislaturas, as que o
parlamentar foi eleito com os votos do povo de Mato Grosso.
A substituição
Agora, verifica-se um acréscimo: pela
ordem alfabética dos deputados, no L de Luiz, aparece o nome da Procuradora do
Estado Sueli Capitula e a informação de que ela não tinha partido nos períodos
em que, supostamente, atuou no parlamento de Mato Grosso.
Informada da inclusão de seu nome na
lista de parlamentares estaduais, Sueli deixou nos comentários da postagem da página do facebook do jornalista Enock
Cavalcanti, a seguinte mensagem: "Acabei de confirmar
que no site da ALMT consta na ordem alfabética, ao
invés do nome de Luíz Soares, o meu nome em três legislaturas e nunca fui
deputada, na realidade sempre fui cabo eleitoral de Luiz Soares, o deputado que
está sendo injustiçado com a omissão do nome dele como um dos mais atuantes da
história de Mato Grosso, além de que foi relator da Constituinte de MT e
senador...”
Às futuras gerações
Que diferença isso
faz para a história política de Mato Grosso? Muita. Para um pesquisador que
tentar fazer um levantamento da divisão partidária no parlamento estadual os resultados
não serão reais já que, por exemplo, na 10ª e na 11ª Legislaturas, ao retirarem
Luiz Soares e incluírem Sueli Capitula, ela sem partido, o MDB perde um parlamentar,
alterando a composição das forças políticas na época.
Ao se omitir o nome
de Luiz Soares das listagens a base de informações deixa de ser uma opção de
fonte confiável dos registros das atuações parlamentares do período, fechando
uma linha de pesquisa nas atividades legislativas.
Outra constatação
desse apagamento legislativo pode ser feita por meio de uma busca no site da
Assembleia. Coloque o nome Luiz Soares no espaço intitulado “O que você
procura?” na página inicial. Do parlamentar, que trabalhou na casa fazendo leis
por 12 anos, foi 1º secretário da mesa diretora, relator da Constituição, vice-prefeito
de Cuiabá, senador, secretário de saúde municipal de Cuiabá, Várzea Grande e do
estado de Mato Grosso, aparecem somente 2 referências. Uma de 2003 e outra de
2017.
A história dos
vencedores se faz assim, alterando e omitindo dos canais oficiais os feitos dos
demais protagonistas dos eventos narrados. O resultado pode ser lido nas obras
de George Wells mencionadas no início dessa matéria.
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa.
Reportagem da série “Parador
Cuyabano” do SEM FIM ... delcueto.wordpress.com
Esse
ano não consegui acompanhar as escolhas dos sambas para o Carnaval 2025 nas
quadras. Não compareci em nenhuma delas nas finais.
O Paraíso
do Tuiuti, primeira escola a apresentar seu samba sobre o enredo "Quem Tem
Medo de Xica Manicongo?”, preferiu fazer uma encomendada aos compositores
Cláudio Russo e Gustavo Clarão. Das outras onze escolas de samba do grupo
especial do Rio de Janeiro, zapeei nas finais transmitidas ao vivo pelo
streaming.
É
a mesma coisa? Certamente que não. Mas supre a carência de foliões do Brasil e
do mundo interessados na emoção de ver as acirradas disputas. As transmissões,
principalmente das finais, são uma forma de expandir o alcance da onda da folia
e furar a chamada bolha carnavalesca.
As lives
são perfeitas? Certamente que não. É um “tour de force” dos responsáveis pela
captação e geração do material. Acontecem em espaços variados espalhados pela
zona metropolitana. Nas quadras de se desenrolam por semanas as eliminatórias,
até a grande final.
Tecnicamente
é quase impossível garantir um resultado homogêneo já na largada do
planejamento e produção dos eventos. Diferentes arquiteturas, variadas
condições acústicas, de iluminação, cada escola com um roteiro e uma direção
artística personalíssima.
O
básico: shows dos segmentos, apresentações dos sambas, intervalo para fechar o
escolhido e, finalmente, o anúncio tão esperado do hino do ano. A estrutura pode
ser semelhante, mas as peculiaridades são muitas. Os resultados não são lineares.
Cada roteiro é um roteiro. O mesmo ocorre com a ocupação dos espaços dos shows.
A maior parte se desenrola no palco ou numa área demarcada da quadra emoldurada
por uma intensa iluminação cenográfica.
Registrar
tudo isso é um trabalho hercúleo que, com o passar dos anos, tende a se
aprimorar cada vez mais, valorizando este período tão importante na dinâmica do
calendário carnavalesco.
Claro
que nada substitui a energia única que une a quadra de uma escola de samba no
movimento do anúncio do samba. Mas pra quem não tem tu, vai tu mesmo.
Agora
as atenções se voltam para os resultados das gravações da @RioCarnaval das
composições com os intérpretes oficiais, componentes dos carros de som, coros e
ritmistas das agremiações. Nelas já aparecem algumas bossas das baterias, a
base do que irá para avenida no carnaval em março de 2025.
Os
preparativos estão a todo vapor. Os calendários de mini desfiles da Cidade do
Samba, que comemoram o Dia Nacional do Samba, de 29 de novembro a 01 de
dezembro, no início de dezembro, e dos ensaios técnicos, em fevereiro, definidos.
Em 2025 estão marcados dois ensaios técnicos de cada escola do Grupo Especial.
Como
a segunda rodada acontece inteirinha no fim de semana que antecede a folia para
que, nesses quatro dias, todas as agremiações possam fazer testes de luz e de
som (antes eram apenas as mais bem colocadas), já estou pensando em como
realinhar minha ordem de trabalho.
Vai
ser preciso programar a produção detalhadamente. Não pelo período na pista em
si, mas para sistematizar e editar o material para os parceiros. O restante das
imagens e vídeos que, para mim é ouro, fica para depois. Até para pensar depois.
Daqui a pouco.
No
momento o empenho é em ouvir e decorar os 12 sambas da elite do carnaval 2025. É
nessa viagem que começo a escolher os “portos” onde pretendo ancorar as lentes
da câmera, definindo os melhores momentos para captar a emoção do povo do
Samba.
Como
faz isso? Cantando os sambas e sentindo onde eles tocam o coração. Quando
acabar essa etapa faço o mesmo com as escolas da Série Ouro. Se pudesse faria
também com as menores, as que desfilam na Intendente Magalhães. Mas não tenho, nem
teria, tempo para produzir as matérias e as fotos que distribuo para o jornal e
os queridos parceiros que reproduzem o material do carnavalerio.com.
Para terminar
o texto deixo uma pergunta para você leitor: sabe a quantos carnavais mantenho
e desenvolvo essa rotina maluca, que só uma paixão avassaladora sustenta?
É de lei um registro sobre as eleições. Sem muito prazer pela
constatação de que a política está tão degradante quanto a sociedade que ela
representa. O que estamos acompanhando é um show de horrores.
O tempo e a História nos levam à constatação que as crises são
cíclicas. A gente não aprende! Parece que foi ontem que o país se encantou com
um “Caçador de Marajás”. O mesmo que depois de eleito sequestrou as contas
bancárias da população.
Motivo extra para, reconhecendo a extrema necessidade de não me
omitir diante dos fatos e desempenhando o papel de jornalista cidadã, fazer o
alerta de sempre sobre o poder do seu voto, e-leitor. Quantos textos já produzi
antes de eleições? Sei lá... Me mantenho fiel a norma de pecar por excesso, não
por omissão. Sim, sua escolha tem poder
e consequências.
As pesquisas indicam que boa parte do eleitorado ainda não
escolheu seu candidato, especialmente para vereador, aquele que o representa na
Câmara Municipal. O encarregado de fiscalizar a atuação do poder executivo,
representado pelo prefeito, e fazer as leis que regem o município.
Muitos podem ser os pesos que o eleitor coloca na balança para
fazer sua escolha. Experiência, juventude, gênero? Projetos? Segurança (que não
está na esfera municipal?), saúde, educação, transporte, saneamento...
Tenho certeza que em qualquer lugar do Brasil o povo tem sentido
na pele as ondas de calor que assolam o continente (entramos na oitava desse
ano). A atual é um alerta amarelo que abrange partes do Sudeste, o Centro-Oeste
e o Paraná, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia. Com queda da umidade
relativa do ar, lógico. Nuvem de fuligem, também.
Baseada nessa sensação que não nos deixa, pensei que a questão do
clima estaria entre os quesitos que os eleitores iriam pesquisar. Vamos tomar
por exemplo Cuiabá. A capital de Mato Grosso. Ela já foi a Cidade Verde, com
suas mangueiras sombreando os quintais. Sua alcunha hoje é Cuiabrasa.
O que fazer para minimizar os efeitos, por exemplo, da arquitetura
contemporânea da metrópole que se projetou verticalmente usando e abusando de
vidros e janelas espelhadas, as que refletem... a luz do sol?
Quando comecei o treinamento da Associação Brasileira de
Jornalismo Investigativo, a ABRAJI, “Eleições e Jornalismo Ambiental” mergulhei
numa caixa de ferramentas para analisar e combinar bases de dados para
pesquisar, entre outros itens, a evolução da degradação (sim, degradação)
ambiental.
Claro que meu foco é Mato Grosso, o estado com três ecossistemas,
o Cerrado, a Amazônia e o Pantanal, como já destacava em vídeos e filmes que
produzi enquanto tive uma base por aí. Não dá para ficar impassível quando o
estado é o campeão de queimadas em setembro, com mais de 18 mil focos de incêndios,
por exemplo.
Entre as opções de consulta conheci a plataforma “Vote pelo clima”. A iniciativa visa dar
visibilidade a candidaturas que se comprometam em enfrentar as mudanças
climáticas nas cidades. Transporte, mobilidade, gestão de resíduos, transição
energética, adaptação e redução de desastres... Várias linhas de atuação podem
ser pesquisadas no banco de dados por estado, cidade, partido, etc. A inscrição
de candidaturas é liberada.
Aí, chegamos ao empurrãozinho que faltava para que eu desenrolasse
esse texto pré-eleição. Foi um choque verificar a adesão dos candidatos a
prefeitos e vereadores de Mato Grosso na plataforma. Prefeitos? Nenhum. Vereadores?
Dois de Cáceres, dois da Chapada dos Guimarães, um de Cuiabá, Rondonópolis e Tangará
da Serra. Duas mulheres, cinco homens. Três candidatos do PT, um do PV, PDT,
PSD e PCdoB. E só.
Ainda dá tempo de colocar um foco nos requisitos climáticos na
hora de escolher seus candidatos. Cobrar deles algo mais que a promessa de
sempre de plantar mais árvores em sua cidade. O tempo é pouco para ações efetivas
que mitiguem os efeitos dos danos que nos levaram à situação quase irreversível
que vivemos.
Vote certo! Boa sorte, eleitor. Sente o clima...
O link do Vote pelo Clima: https://votepeloclima.org/
Quem não sabe que Cuiabá remete a duas coisas: ao calor e ao
atraso? Não ao atraso de vida, maldoso leitor, mas aquele de nunca chegar na
hora aos compromissos? Sofria com ambas características, especialmente a
segunda, para fechar as pautas das reportagens nas TVs. Os jornais não levavam
em consideração essa dinâmica tão cuiabana.
No samba também é quase assim. Menos na Sapucaí, com o horário
rígidos e cronometrado das escolas que desfilam. Menos no sábado das campeãs, que
não tem transmissão global.
Dito isso, quero fazer mea culpa. E aí, entra o capim navalha que
corta tudo, menos esse atraso-preguiça cuiabano. Acontece que anos atrás, mais
especificamente entre 2021 e 2022, o jornalista Rodrigo Vargas desenvolveu o
projeto “O propósito de Aline”, sobre a renomada crítica de artes Aline
Figueiredo. Era composto por um livro e um documentário média metragem.
O livro recebi do autor antes do lançamento. Caí dentro e, poucos
dias depois, mandei pra ele minhas elogiosas impressões. Na sequência,
exatamente no dia 2 de fevereiro de 2022, recebi o link do vídeo e a informação
de que havia sido rodado na casa de Aline.
Corta para: Enquanto morei em Cuiabá fui frequentadora assídua dos
maravilhosos almoços pantaneiros que juntavam horas de conversas as delícias
preparadas por Márcia e sempre regadas a vinho tinto, já que não tomo cerveja.
Não listarei meus pratos preferidos, nem os temas abordados porque foram
justamente esses que me fizeram deixar correr o timeline de outras mensagens
trocadas com Rodrigo sem abrir o link do vídeo.
Sabia que se o conteúdo aguçasse as saudades não poderia voar para
Mato Grosso. A pandemia estava acabando, o carnaval adiado seria em abril, e
tinha outras prioridades na vida. Rodrigo nunca perguntou o que achei do
trabalho audiovisual, fotografado por José Medeiros, nem eu me justifiquei.
Aline andou pelo Rio em outubro numa palestra da exposição “Podre
de Chic”, com obras de Adir Sodré, no Paço Imperial. Fiz fotos e gravei pequenos
trechos de sua aula com ótimo conteúdo e nenhuma qualidade das imagens captadas.
Faltava luz. Novamente arquivei o assunto e guardei o material sem publicá-lo.
Sabia que ele seria a isca para pescar minhas saudades.
De vez em quando lembrava do vídeo, mas nunca achava que era o
momento certo para explorá-lo. Queria que fosse num intervalo de foco total,
quando não estivesse mergulhada, por exemplo, no carnaval. Depois decidi que só
o veria quando a falta do calor cuiabano fosse insuportável.
Com o passar do tempo e acompanhando o cotidiano da cidade concluí
que a distância que me separava da minha Cuiabá só aumentava. E, pela
velocidade das transformações locais o progresso tratorou parte do encanto do
local que tão calorosamente me acolheu. Portanto, nada “Eu sou de Capim Navalha”!
O que virou a chave foi esse fenômeno climático que assusta e surpreende
o país inteiro. “Já vi esse filme, já usei esse filtro fotográfico que parece
um fog londrino, esconde o sol e, quando a gente abre a porta ou a janela, é
aquela pancada de calor”, pensei. E também lembrei do vídeo que não tinha
assistido. Resolvi desvendar a lenda e assistir a obra.
Não me arrependo de ter guardado a última bolacha do pacote com
tanto cuidado. Com as câmeras de José Medeiros e Diogo Diógenes passei pelos
recantos da casa e, “tertuliei” nos diálogos de Aline Figueiredo sobre sua
vida, seus trabalhos e suas paixões.
É quase só ela na tela, meio desnuda e crua, sem firulas e muitas edições.
Exemplo claro de que menos pode ser muito mais quando o objeto do trabalho
esbanja riqueza de ideias e personalidade. Passou pelos meus sentidos a
essência da Cuiabá que tanto amo, a que me cercou de amigos, muitos citados no
documentário, e referências que levo pra vida.
Sabiamente o vídeo não mostra a mesa posta e as delícias que
brotam das mãos de Márcia. Um bom motivo para que volte aos meus planos uma ida
à antiga Cidade Verde, depois que esse inferno amainar.
No fim do doc, a surpresa: meu nome - escrito errado, pra variar,
aparece! Nos créditos, na lista de agradecimentos. O que deve aumentar a pena
pelo crime de não o ter assistido antes... Desculpe, Rodrigo, foi o espírito do
atraso cuiabano que permanece vivo em algum lugar da minha alma carioca.
Material em vídeo produzido na palestra de Aline Figueredo durante a Exposição "Podre de Chic", no Paço Imperial mencionada na crônica "Capim Navalha não Falha".
Palestra da crítica de artes Aline Figueiredo em "Podre de Chique: uma retrospectiva extraordinária de Adir Sodré", exposição de obras do artista mato-grossense Adir Sodré (1962-2020) no Paço Imperial, com apresentação do vídeo sobre o artista de José Medeiros.
A mostra reuniu obras inéditas ao público, de diversas coleções brasileiras que, desde cedo, reconheceram a importância artista mato-grossense. A retrospectiva de Adir Sodré dimensiona a relevância de sua obra. Temas tratados há mais de três décadas permanecem atuais: defesa ambiental, crítica ao poder político, o perfil elitista do sistema de arte e... sexualidade.
Organizada de forma não linear a exposição mescla obras em cinco eixos: Cuyaverá (Cuiabá), Tapa na cara pálida (horrores da branquitude), Ditos e malditos (imundos das artes), O pop não poupa ninguém (cultura de massas) e Manifestos paus, Brasil! (fabulações estético-eróticas)”.
Faixa Bonus 2
Sem usar o flash durante a palestra um estudo sem luz, como a luz que se perde no olhar de Aline, mencionada em "Eu Sou Capim Navalha", documentário de Rodrigo Vargas.
Cada um com seu cada qual. Mas,
como dizia Mestre Marçal, “tudo junto e misturado”. E foi comendo pelas
beiradas enquanto o mingau esfriava que o Rio ganhou dois representantes
legítimos do samba e da carioquice.
Para falar de Monarco, da Portela,
e Nelson Sargento, da Mangueira, é preciso saber o significado da expressão
“beber na fonte”. Se enredar nos fios de afetos e resistência que, entremeados,
teceram histórias, rebordaram sonhos e criaram fantasias interligadas por uma
de nossas maiores expressões populares musicais, o samba.
É preciso ser atraído pela energia
irresistível do saber carnavalesco como ponto de convergência e vivência
comunitária. Entender o significado dos fundamentos de uma escola. De samba.
Sentir no peito e deixar seu corpo ser dominado pelo pulsar de uma batucada.
E se, num desses momentos
inebriantes, você cantarolar versos como “Samba, agoniza, mas não morre,
alguém sempre te socorre...”, ou “...Agora, uma enorme paixão me
devora, a alegria partiu, foi embora. Não sei ficar, sem teu amor...”,
esteja seguro que você está apreendendo e
repassando costumes e lições de dois griôs.
Eles, os guardiões de saberes
ancestrais. Passados e ressignificados entre as gerações que circulam pelas
ruas dos subúrbios, vielas e becos das favelas da cidade. As que se encontram e
se interligam fortalecendo esse tramado único que podemos chamar de identidade
do carioca.
Oriundos de diferentes lugares da
cidade, se estabeleceram e conviveram com personalidades exponenciais de suas
comunidades, pelas quais sempre declararam paixão incondicional e, sim, beberam
na fonte!
Ao fazê-lo, por meio de seus
talentos inerentes e desde cedo reconhecidos, se tornaram protagonistas da
incrível epopeia suburbana do Rio de Janeiro. As cores de um, o azul e o
branco, as do outro, o verde e rosa.
Se não são crias, foram criados nos
terreiros de chão batido que mais tarde, depois de cimentados, passariam a ser
as quadras de suas agremiações. Nelas, testemunharam o florescimento das
comunidades que abraçaram com tanto amor.
Hildemar Diniz, em Oswaldo Cruz,
depois de ganhar o apelido de Monarco ainda criança, de passagem por Nova
Iguaçu, nasceu em Cavalcante. Nelson Mattos, que do exército levou a alcunha
Sargento, na Mangueira, vindo do morro do Salgueiro, nasceu na Praça XV.
Mais distante do centro da cidade,
Monarco conviveu com Paulo da Portela, Alcides, Manacéia e Chico Santana.
Nelson Sargento, ao lado da Quinta da Boa Vista, na primeira estação do trem,
com Alfredo Português, Cartola, Carlos Cachaça e Geraldo Pereira.
Um elo em comum entre os dois
bambas é Paulinho da Viola. Foi produtor, em 1970, de “Portela passado de
Glória” o primeiro disco da Velha Guarda portelense, já presidida por
Monarco. Dele, disse o mangueirense Nelson Sargento: “Dois ídolos. Cartola e Paulinho da Viola, o resto são
meus amigos”.
“Quitandeiro,
leva cheiro e tomate Pra casa do Chocolate que hoje vai ter macarrão...”
Monarco
e Paulo da Portela
“Oh!
primavera adorada, inspiradora de amores.
Oh!
Primavera idolatrada, sublime estação das cores...”
Nelson
Sargento, Alfredo Português e Jamelão. Samba enredo da Mangueira em 55.
Os
dois tiveram o privilégio de compor com seus mentores, mas apenas Sargento
venceu samba-enredo em sua escola, a Mangueira, apesar de Monarco ter
participado de disputas na Portela, a última em 2007, com seu filho Mauro Diniz
e outros parceiros.
Em
compensação a cada esquenta, antes da pista da Sapucaí virar o rio que passa
por nossa vida, o samba que compôs ainda garoto, “Retumbante Vitória”
(depois rebatizado como “O passado da Portela”), leva às lágrimas e
acelera o coração pulsante de quem desfila ou assiste a passagem da escola.
Nem
sempre conseguiram viver da excelência da arte que praticavam. Monarco guardou
carros, foi feirante e contínuo. Nelson Sargento, pintor de paredes. Cacá
Diegues, o cineasta, dizia que ele fez em sua casa “a pintura mais longa da
história da arquitetura”. Já reconhecido mostrou sua versatilidade artística na
literatura e nas artes plásticas, além de ser um ator premiado.
Ligados
às suas raizes foram membros e, depois, presidentes de lendárias Velhas
Guardas, grupos musicais compostos por pastoras, cantores e compositores das
escolas de samba.
Também
receberam o reconhecimento que lhes era devido ao serem escolhidos Presidentes
de Honra de suas agremiações. Por relevância e merecimento reverenciados nos
encontros do povo do samba.
Juntos
participaram do espetáculo “Apoteose do samba: 90 anos do Sargento – com
Monarco e Nelson Sargento”, escrito e apresentado por Ricardo Cravo Albin.
Na ocasião, Nelson disse que passou a se considerar “imortal do samba”. Ele já
sabia...
Os
ícones da Portela e da Mangueira partiram nesses tempos difíceis.
Para
não ficar no vácuo das saudades o jeito é virar o jogo imaginando com quem
estão agora (certamente em bom lugar). Na companhia de outros bambas que já por
lá se reuniam para pagodes celestiais!
Por
eles foram recepcionados, junto a outros sambistas que perderam a vida nesse
período da pandemia. Tantos que é melhor nem tentar nomeá-los sob o risco de
cometer a injustiça de algum esquecimento.
Sim,
merecidamente, como alguns dos outros que partiram, receberam flores em vida
(como pedia Nelson Cavaquinho), reconhecidos e reverenciados por serem exemplos
às novas gerações que, assim como eles, continuarão bebendo na fonte. Aquela,
sobre a qual Candeia já versava...
“O
sambista não precisa ser membro da academia
É
natural da sua poesia
O
povo lhe faz imortal”
......................................
Valeria del Cueto é jornalista, fotógrafa e, uns 500
textos depois, acha que um dia ainda será lembrada como cronista. Do carnaval e
da vida. Para isso conta com a sorte! Como a de ter o privilégio de receber a
honrosa missão de bordar palavras sobre ídolos que fizeram parte da história do
Samba. Da série "É carnaval".
Se a fila anda, por que não quebrar a rotina e mudar o local da
escrevinhação no caderninho? Vou jogar a responsabilidade pela alteração nesse
tempo instável que parece o inverno.
Por aqui estamos todos meio perdidos. O frio veio forte, mas
partiu rapidinho, já dá lugar ao tempo ameno e o anúncio de outro veranico. Tipo
Cuiabá, onde o inverno passa num sopro e nunca dura mais de 3 dias.
Situação: habemos sol entre
as árvores (afinal, pelo menos ele se mantém firme e forte em sua trajetória e,
nessa época do ano, está passando coladinho as montanhas que compõem o horizonte).
Também temos uma temperatura agradável que sugere toalhas e travesseiros na
janela para espantar a friaca e arejar a vida. O que me resta? Seguir o
exemplo.
Me preparei para aproveitar a tarde ao ar livre. Um (ou uns)
fator(es) altera(m) o objetivo inicial. Biquini (olha que ousadia) canga,
caderninho, caneta, boné, água mineral (da casa), celular pra fazer a foto da
crônica, óculos escuros, filtro solar no rosto e... Pra variar, mudei o rumo. Em
vez de sair porta a fora subi as escadas e me aboletei no janelão do mezanino.
Daqui vejo o meio do mundo da Mata Atlântica sentada numa das
cadeiras de ferro da mesa da varanda banhada pelo sol. O conjunto faz parte da
mobília que me acompanha desde que nasci. Ficava na varanda comprida do
apartamento em que morei quase uma vida no Leme. Só saiu de lá quando o imóvel
foi vendido.
Sempre que tenho uma casa é colocado num lugar especial. Ainda no
Leme foi pra varanda que virou floresta no pé da ladeira. Depois, foi cedido
pra Araras e resgatado quando vim pro meio do mundo.
Não pergunte como, sempre coube direitinho entre os braços de
ferro da melhor cadeira que conheço pra ficar horas lendo sem parar. Consigo me
aboletar desde criança em várias posições diferentes. Jogando, por exemplo, as
pernas por cima de um dos braços pra aliviar a coluna do tempão “concentrada”.
Tudo lindo, mas preciso ressaltar meu próprio espanto ao constatar
que nunca escrevinhei por aqui. Gosto de esticar as palavras ao ar livre quando
deixam.
Fiquei semanas emudecida, me recusando a registrar os últimos
acontecimentos. Pelo menos duas perdas me afastaram do intuito de manter a
regularidade das crônicas. Tem coisas que, na minha cabeça, só se concretizam
quando coloco no papel. Como não queria que essas fossem verdade, calei a
escrita enquanto pude e um pouco mais...
Falo primeiramente da partida silenciosa do meu guru mangueirense Aluízio
Derizans, o amigo que abriu as portas da verde e rosa pro acervo
carnevalerio.com, que só descobri no dia do seu aniversário e a quem não poderia
deixar de registrar @no_rumo do Sem fim meu agradecimento eternizado nas
incríveis imagens que que registrei nos anos que por lá passei.
Ainda estava depurando a perda quando o advogado e colega cronista
Renato Gomes Nery foi tocaiado em Cuiabá. Fui sua assessora na presidência
OAB-MT e nossa amizade sempre me fez recorrer a ele nos poucos “causos” legais
que enfrentei. Assim como a sociedade mato-grossense, aguardo esclarecimentos
sobre esse filme violento que já vimos tantas vezes em Mato Grosso.
Precisei alterar a paisagem para conseguir destravar minha escrita
cheia de indignação e revolta. Não o fiz por livre e espontânea vontade. O que
me levou ao movimento que libertará meu peito, esse poço até aqui de mágoa, destilando
no caderninho minhas dores foram... os mosquitos.
Sempre eles que, como eu, não reconhecem as estações do ano e,
vorazes, me empurraram para a proteção e o acalanto da mobília varanda da vovó
que desrepresou meu desencanto. Lá fora o sol brilha, mas a nuvem do
desequilíbrio ambiental não dá folga.
Os efeitos de suas picadas duram menos, mas são tão doídos como choro
que aperta meu peito e brota nas lágrimas de despedida aos amigos tão queridos e
insubstituíveis que encerram essa crônica.
Não, o próximo carnaval não vai ser igual aquele que passou. São
muitas as novidades anunciadas após a eleição de Gabriel David, de 26 anos, filho
do lendário patrono da Beija-Flor Anísio Abraão David, para a presidir a LIESA –
Liga das Escolas de Samba no final de abril. É ela que dá as cartas no carnaval
do Grupo Especial do Rio de Janeiro.
De geração à geração, Gabriel David e a mini passista
Já na apresentação de sua equipe uma quebra de paradigmas. Três
diretorias são ocupadas por mulheres. Rafaela Bastos, gestora pública e
vice-presidente de projetos especiais da Mangueira, substitui Gabriel na
diretoria de marketing, cargo criado em 2021; Evelyn Bastos, rainha de bateria
e presidente da escola mirim Mangueira do Amanhã, assume a diretoria cultural e
Natália Louise, que acompanha o novo presidente da Liesa desde sua passagem pela
Beija-Flor, a diretoria de comunicação.
Evelyn Bastos, presidente da Mangueira do Amanhã, na diretoria cultural
Sim, uma nova geração passa a comandar e transformar o espetáculo.
Na primeira plenária dos dirigentes da Liesa mudanças estruturais foram votadas
e imediatamente anunciadas.
Enquanto a ficha começava a cair sobre o desastre ambiental no Rio
Grande do Sul e o Rio de Janeiro ainda estava de ressaca do apoteótico
espetáculo que encerrou na Praia de Copacabana a turnê mundial da pop star
Madonna, com um público de mais de 1,6 milhões de pessoas, foi anunciado o
aumento dos dias de desfiles do Grupo Especial para o carnaval 2025. A dinâmica
da festa será significativamente alterada.
A mudança no calendário
De seis escolas desfilando em dois dias passarão a serem quatro
divididas em três noites. Desde a década de 1980 as agremiações se apresentavam
no domingo e na segunda-feira de carnaval após as escolas do Grupo Ouro, o de
acesso, na sexta e no sábado. Cabia ao desfile mirim ocupar a pista da Sapucaí
na terça-feira gorda.
O anúncio da esticada do Grupo Especial para o último dia de
carnaval provocou um tsunami e incendiou as redes sociais na bolha carnavalesca.
Argumentos favoráveis e contrários dividem as opiniões do universo do carnaval
com o drama gaúcho.
A polêmica foi ampliada pela estratégia escolhida para apresentar essa
e outras modificações ao mundo do samba. As chances das alterações, diante dos
argumentos, não serem implementadas são inexistentes. Foram aprovadas por
unanimidade pelo colegiado formado pelas 12 agremiações que compõem a LIESA.
Mudar pra que?
Entre os argumentos da LIESA está a democratização do espetáculo,
já que os ingressos costumam se esgotar. Garantem que os preços das
arquibancadas serão reduzidos.
Arquibancadas, promessa de redução dos valores
Também avaliam que haverá mais equilíbrio na competição com todas
as escolas tendo o mesmo peso no julgamento sob a nova iluminação cenográfica
do sambódromo, já implementada na pista. Alegam que as escolas que desfilam de
manhã são prejudicadas (argumento rebatido pelo fato de que esse ano
a campeã Viradouro e a vice Imperatriz Leopoldinense desfilaram com a luz
natural do amanhecer).
Outra mudança será no julgamento. Os envelopes passarão a serem
fechados noite por noite e não somente no final da competição. Isso altera,
certamente, os critérios dos julgadores que deverão ser menos comparativos.
Apoteose, palco dos shows após os desfiles
Haverá, também, shows após os desfiles na área da Apoteose para
encerrar as noites de desfile.
Valorização da AESM-Rio, celeiro de bambas
O desfile das crianças foi realocado para a sexta-feira pós
carnaval, um dia antes do desfile das campeãs. Foi firmado um acordo de
colaboração com a AESM-Rio, Associação das Escolas de Samba Mirins. Ela se
integra aos projetos da Liga num movimento de Evelyn Bastos, diretora Cultural,
para incentivar e fortalecer as novas gerações das escolas de samba.
Não será necessário esperar o carnaval para começar a observar a
mudança na dinâmica carnavalesca carioca. A intenção da nova diretoria é
adiantar todo o calendário de produção da festa antecipando o início dos
trabalhos com a definição, agora em maio, da ordem dos desfiles do carnaval 2025.
A novidade? O sorteio será aberto ao público.
Aí, você já sabe. A festa começa e só para no carnaval 2025.
SORTEIO DA ORDEM DOS DESFILES DO GRUPO ESPECIAL
Dia 23 de maio, a partir das 19h, na Cidade do
Samba
Confraternização de sambistas e torcedores com roda
de samba, show da atual campeã, Viradouro, e de Pretinho da Serrinha recebendo
convidados. Ingressos das 19 às 21h: um quilo de alimento não perecível para o
Rio Grande do Sul.