Mostrando postagens com marcador #meiodomundo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #meiodomundo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Vem aí


Vem aí

Texto e foto de Valéria del Cueto

Jurei que não passaria de hoje a primeira crônica de 2026.

Apesar de distante adotei o modus operandi de Cuiabá e outras praças. O de veranear.

Me larguei com a condição de, nesse período, manter uma alimentação saudável. O eterno projeto de ano novo em plena execução!

Isso não quer dizer que nesse espaço de tempo tenha conseguido me desligar dos acontecimentos que não param de se suceder sem interrupções para um descanso ou pausas para reflexões mais profundas.

Haja nuvem e HDs para registrar as mudanças inesperadas que trazem reflexos imprevisíveis à vida em todo o planeta.

Falando em planeta fico pensando no trabalho que Pluct Plact, o extraterrestre, terá para colocar em dia as notícias do cotidiano do lado de fora da cela em que se encontra enclausurada voluntariamente a cronista com quem ele se corresponde.

Tudo que aconteceu nos últimos dias!

Sugiro que comece por uma notícia boa. A liberação pela ANVISA dos testes clínicos com o medicamento polilaminina no tratamento de lesão da medula espinhal. Uma inovação desenvolvida por pesquisadores da UFRJ.

Lembrando que foi na Escola de Comunicação da instituição na Praia Vermelha que nossa reclusa preferida iniciou sua insípida vida acadêmica.

E que “o outro lado do túnel” (sempre mencionado por Pluct Plact para indicar o local de recolhimento da amiga e correspondente das suas cartas enviadas pelo raio de luar que banha a cela) fica bem ali, entre a UFRJ, o Botafogo e o antigo Canecão que, prometem, ressurgirá em breve.

Viajei pensando no viajante da galáxia e sua relação com a cronista pra dizer que, assim como ele, só me cabe observar e, se possível, acompanhar a pantomima universal.

Confesso que não vou poluir este texto com uma narração precisa das efemérides porque nesse momento minhas atenções são outras.



Estão embaladas pelos sons da cascata desviada do riozinho e, dependendo dos horários, da cantoria dos passarinhos que bordejam em busca de frutas e flores. As frutas da estação são da goiabeira e das jabuticabeiras. As pitangas ainda estão floridas ou seus frutinhos muito verdes para o banquete da passarinhada.

Nesse calorão a sinfonia acontece na manhãzinha ou quando o sol se põe.

Pouco depois das cigarras começarem a ciciar anunciando que o bom tempo continua pelos próximos dias. Até a aguardada chegada de mais uma frente fria maluca, como a que tivemos nos primeiros dias do ano. Quem não se rende a um refresco?

Meu olhar é desviado para o filhotinho de teiu. Novinho, ele ainda não aprendeu que, por uma questão de sobrevivência, deve se esconder dos humanos com o mesmo afinco que os imigrantes perseguidos pelo ICE, a polícia agora assassina dos EUA.

Não que vá fazer alguma coisa contra ele, um pouco maior que as várias lagartixas que habitam (e matam mosquitos) no pedaço. Pra elas não há limites de acesso.

Ao contrário do gato da vizinha que bate ponto na microvaranda 2X2, conhecida como latifúndio, que dá acesso à casa do moinho. Volta e meia tenta me dar um vareio e, distraidamente, adentrar a sala pela janela.

Enfim, antes do meu mundo começar a andar (e olha que ele vai desembalar na corrida com a proximidade do carnaval), observo e gravo na memória as pequenas nuances do entorno.  

Ao som do rio e do vento no bambuzal folhas passeiam pelo ar caindo na superfície espelhada da água.

Já observou o caminho das formigas, o voo das libélulas, o nascer e desabrochar de uma flor ou de cogumelinhos no gramado?

Sentiu o prazer de ver brotar e se desenvolver uma semente que você plantou num vasinho na varanda?

Não dá like, nem engajamento. Não viraliza, mas proporciona a um ser humano sensível uma indescritível e sutil sensação de prazer.

Como ser testemunha de um pôr do sol cinematográfico imponderável.

Sim, a vida ultimamente tem sido mais surpreendente que qualquer ficção. Especialmente para o mal.

Mas quando não temos a opção de mudar essa realidade contundente, resta a opção de voltarmos nossos olhos às coisas miúdas que fazem valer a pena.

Até que o marinheiro novamente avise que vem aí bom tempo...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com





Studio na Colab55

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Nem sempre ganhando...


Nem sempre ganhando...

Texto e foto  Valéria del Cueto

Hora de parar o mundo para dizer a que vem aí. Mais uma crônica! Só assim tenho o estímulo necessário à escrevinhação, como sempre, no caderninho. Tenho prazo, espaço e vontade de exercitar o direito de dizer. Falar de quase nada no meio de muito tudo não é fácil.

Me desligar de tanta informação eu até sei. Mas nem para você, leitor, nem para mim - que do meio do mundo vejo o dito cujo se exaurindo em conflitos, dores e muito, muito desamor-, a tarefa é simples.

Sei que existem os que como eu, perplexos diante de tanta brutalidade, ainda procuram formas de, mesmo que indiretamente, interferirem no rolo compressor que parece incontrolável movido pela maldade humana. Atualmente, pra piorar, turbinado pela força motriz generativa da inteligência artificial que se multiplica a nossa imagem e semelhança. E que imagem, que semelhança!

Por isso acho que, como no caso dos que procuram estímulos para mudar essa vibração, também preciso de ajuda para sair, por exemplo, das águas turvas da flotilha que tenta chegar a Gaza com alimentos e a ajuda médica para aliviar o sofrimento dos palestinos, reféns involuntários do governo de Israel, sob as ordens de Netanyahu.

Quando se trata de genocídio volto à leitura de “Mila 18”, de Leon Uris. A história se passa no gueto de Varsóvia, sob o domínio alemão. Descreve o terrível cotidiano dos judeus na capital da Polônia ocupada.

Agora, os algozes são aqueles que foram vítimas no século passado, durante a Segunda Guerra Mundial. A diferença são os métodos, ainda mais cruéis, de extermínio.

Pra escrever preciso sair desse turbilhão de horrores que se multiplicam, sem tanta exposição e mídia, em outras partes do globo.

No meu pedaço o céu é o limite! Olhando pra ele sem nenhuma nuvem, me inspiro nas florezinhas amarelas na ponta do ipê meio raquítico, sem nenhuma folha, oscilando preguiçosas ao vento nesse início de primavera, suavemente lânguidas, animadas pelo balanço dos galhos. Sigo o movimento de uma das flores bailando solta, caindo na direção do rio. Não foi a brisa que a derrubou. Consigo ver um passarinho, inho,inhozinho brincando na galharia.

Aqui embaixo o som das águas do rio, meio seco devido a falta de chuvas, vem do resmungo preguicento do fluxo deslizando entre as pedras em seu leito. O sol não está mais a pino. Mesmo assim seu calor espanta a passarinhada que prefere descansar a sombra e só recomeçar a movimentação mais tarde.

Por uma questão de justiça climática esclareço que por mais abafado que seja o clima no meio do mundo não é nada comparável as temperaturas de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, (quente desde sempre no verão), e de Cuiabá, onde o que já era insalubre está ficando cada vez pior com a valiosa e insuperável colaboração, por exemplo, dos responsáveis pelas obras intermináveis do VLT/BRT.

Aí, mesmo sem querer cair novamente no redemoinho dos acontecimentos, me lembro do filme de Spike Lee, “Faça a coisa certa”, que narra os acontecimentos de um dia de calor insuportável no Harlem, em New York....

Mais um movimento no entorno! Graças a Deus, ele desvia o rumo da prosa antes que ela caia no buraco negro dos desastres climáticos. Aqueles que serão temas da COP 30. Claro que nela, o principal será as buscas por caminhos e soluções para mitigar a crise. O que se faz apontando e alertando sobre os problemas crescentes que exaurem o planeta.

Voltando às miudezas, essa nem tão miúda assim, o que me distrai é um dos vizinhos da Mata Atlântica. O lagarto teiú cruza a estrada de terra que liga o nada ao lugar nenhum aqui no meio do mundo. Ele me ignora solenemente passando pro terreno e se desviando do tapete de pitangas perpitolas que caíram da pitangueira com a ventania da manhã.

Elas estão merecendo uma varrida que só acontecerá quando os passarinhos e borboletas, animados pelo ciciar das cigarras, avisarem que a temperatura vai dar um refresco no cair do sol atrás do morro do outro lado do rio.

Terei pouco tempo para varrer o pitangal salpicado no deck e jogar uma água nas plantas. Das miudezas, que envolve uma conversinha com as plantinhas preferidas, parto para uma missão quase universal: torcer pelo meu Flamengo, que ocupa o primeiro lugar na tabela do brasileirão.

Enfim, apesar dos pesares, esse domingo ainda pode ser quase perfeito. Mas isso, como outros fatores da vida, não depende só de mim...

PS: Deu ruim. Depois de duas expulsões, o Mengão perdeu só de 1X0 para o Bahia. Agora, somos vice-líderes do campeonato. Sorte que ainda faltam 11 rodadas para o final do torneio!

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Manoelina Atlântica

Manoelina Atlântica

Texto e foto  Valéria del Cueto

Essa é uma crônica rapidinha que nem a vida.

Agora que o pato fez “quá” e tirou o mundo do eixo é tudo assim. Atropelado. Sem tempo para absorver os movimentos. O que dirá usufruir os momentos.

Não quero reclamar, apenas constato que está cada vez mais complicado manter os acontecimentos negativos fora do radar e invadindo o fluxo aqui @no_rumo do Sem Fim... que habito.

Me divido entre ser ativa e operante nas atualizações acompanhando o pancadão desritmado ou procurar boas energias e argumentos lúdicos para manter o moral elevado, vibrando numa sintonia positiva.

Se resvalo para o lado geminiano combativo e alerta, aquele que acompanha e analisa os acontecimentos e suas inexoráveis consequências, satisfaço o compromisso profissional e jornalístico que mantenho com o papel que escolhi para desempenhar no contexto planetário enquanto houver espaço para tal.

Tipo uma nano partícula a mais nesse mundão disposta a acreditar, trabalhar e difundir o humanismo. O bem estar geral.

Só mais uma micreza no meio de uma tempestade ácida que corrói o senso comum de solidariedade e amor ao próximo que deveria mover o mundo nesse momento tão complicado.

Dele, não quero falar. Consultem, caros leitores, as efemérides do ano da graça de 2025. Está tudo aí diante dos olhos, ouvidos e demais sentidos. Reais ou artificiais.

Escrito, descrito, gravado, analisado de forma minuciosa. Inexoravelmente indicando a vinda de tempos ainda mais difíceis.

Para evitar o esgotamento mental diante das circunstâncias, troco de gêmea. Deixo chegar a que persegue borboletas para fotografar.

A mesma que fica com pena das lagartas devoradoras das tenras folhas da renda portuguesa e, sem esmaga-las, tenta transportá-las a outros lugares do jardim para que possam se desenvolver e voltem aladas a flanar pelos caminhos floridos do meio do mundo.

Desvio o olhar das cenas brutais transmitidas maciçamente pelos meios de comunicação e amplificadas pelas redes sociais para a laranja natal, aquela que só serve para fazer doce, amadurecendo na ponta do telhado, balançando em cima do rio. A vejo amarelando na paisagem já de inverno.

Observo seu crescimento há meses. Desde quando quase despenquei pela janela, deslisando pelo telhado da garagem, em direção ao curso d´água lá embaixo.

Tentava colher uma goiaba antes que ficasse perpitola e os passarinhos começassem a beliscar a delícia quase madura. Disputa dura pelos melhores frutos. Ferrenha, concorda?

Na quase queda, estudando minhas chances de esticar o braço, jogando o corpo pra fora com as pernas agarradas na lateral do beiral, agarrar um chumaço de folhas que me permitisse puxar o galho do meu objeto de desejo. Reparei que a última chance de apoio aéreo, antes do desastre terminar dentro das águas do riozinho, seria me agarrar nos galhos não sei se frágeis da dita laranjeira.

Na ponta derradeira da ramagem vi a bebê laranjinha e comecei a acompanhar seu crescimento.

Como ainda estou aqui, alguns meses depois, deduzo que deixei a goiaba desejada para o deleite da passarinhada. Ia dar ruim.

No mesmo processo observatório vi, na outra margem, explodirem os botões das flores do pé de manacá. Lá do outro lado da ponte...



Estou me devendo um registro fotográfico desse visual exuberante de tom lilás com toques brancos salpicados. Um espetáculo!

Sim, diz essa gêmea à outra, o mundo(ainda) é belo.

Sei que sou privilegiada por ter essa rota de fuga, tenho consciência que isso não é para qualquer um.

E esse é o motivo que me move ao descrever essas miudezas tão manoelinas.

Para que elas cheguem, pelo menos assim descritas, em outros lugares onde haja a precisão de um pouco de quase nada para quem precisa de uma dose de delicadeza para enfrentar o mais que tudo.

Aquele que não pede licença nem permite outra opção a não ser enfrenta-lo com resiliência, coragem e (aí que eu entro) um sopro de humanidade e esperança de que as coisas, vagarosamente e com muito cuidado e zelo, podem, sim, melhorar...   


    

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Não sei onde enquadrar” e do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Folheando recuerdos


Folheando Recuerdos

Texto, foto e vídeo de Valéria del Cueto

Estou voltando ao meio do mundo depois de uma temporada carioca. O que significa que dele poderei ir a qualquer lugar ao fazer uma das coisas que mais gosto: mergulhar na leitura.

Depois de um tour de force pela mais longa dinastia da Rússia Imperial, de um passeio pelos meandros do zoológico do Barão de Drummond e os mistérios do jogo do bicho, uma temporada em Cuba na passagem de Obama e dos Stones pela ilha, durante a solução do roubo do sinete de Napoleão (num caso policial do detetive Mário Conde), precisei usar meu valioso tempo pra me dedicar a questões burocráticas.

Não, caro leitor. Não mencionarei essa aventura kafkaniana inconclusa. Daria um tratado que não caberia numa série, o que dirá numa reles crônica. Andei tudo que podia e, claro, ainda não resolvi quase nada. Porém, mais do que fiz não poderia fazer no momento. É tempo de esperar respostas e certidões.

Para desopilar caí no samba na Noite do Enredos. O evento agitou a Cidade do Samba, no Rio de Janeiro, reunindo 7 mil pessoas para acompanhar performances audiovisuais e musicais das 12 escolas da elite carnavalesca carioca. Cada agremiação teve 12 minutos para apresentar o tema que desenvolverá na Sapucaí em março do ano que vem.

O destaque foi, sem dúvida, a Portela. Seu homenageado no enredo do próximo carnaval, o cantor Milton Nascimento, surgiu no palco e saudou o público ao final de uma imersão em clássicos de seu repertório.

Outros eventos, promete Gabriel David, presidente da Liesa, ocuparão o espaço que reúne os barracões do Grupo Especial na temporada.  Para alegria do povo do samba, apreciadores e turistas que alimentam a economia do já presente carnaval 2025.

Tomei rumo, voltei pro paraíso e, daqui, parti para a Índia dos marajás, no começo do século XX. O que traz esse assunto às crônicas não é o que leio. Mas como leio. O livro era da minha avó. Na primeira página, a do título, seu nome e o ano que chegou a sua biblioteca: “Ena, 2006”. Foi o que me estimulou a escolhe-lo numa estante do apartamento de Copacabana.

Só quando cheguei no meu local preferido de leitura é que atentei às frágeis condições do volume. Acontece que a cola da brochura ressecou e as páginas, muitas delas, se soltaram. Para recupera-lo só fazendo uma nova encadernação. Pensei em desistir da empreitada “É difícil ler um livro assim desmantelado”, pensei folheando cuidadosamente suas folhas que iam se descolando cada vez mais.

Quando ia tomar a decisão um maço ainda colado se abriu na página 150 e, mais uma vez, lá estavam elas. Três letras escritas a caneta que indicavam a presença da avó na saga indiana. Ena. Em letras cursivas de uma caligrafia impecável. Tão linda a ponto de ser ela a encarregada de escrever as mensagens enviadas ao Vaticano pelas freiras do Colégio Sacré-Coeur de Jésus, onde a menina Maria Ena e sua irmã Júlia foram alunas internas na infância e na adolescência.

Acontece que, leitora voraz, minha avó escrevia seu nome em todos os seus livros a cada 50 páginas. Em alguma parte delas. Normalmente, entre os parágrafos do lado externo da página sem nunca o fazer, ao que me lembro, onde houvesse texto impresso. Sempre em espaços em branco.

Tem até uma história pitoresca de que ela emprestou um livro para um vizinho e ele, ao devolver, comentou ter reparado nas assinaturas e as relacionou com o que era mencionado nos textos, abordando o que achava que ela “havia destacado”. Dona Ena, a gentileza em pessoa, não teve coragem de esclarecer que não havia a relação mencionada, apenas uma questão aritmética e de espaço adequado para que desenhasse seu nome...

É ele que, impacientemente, me fez encarar o livro desmilinguido de sua biblioteca que nunca li. A certeza de que, a cada página terei a alegria de saber que sim, ela também esteve na Índia e viajou na mesma leitura que me espera.

Tomara que o livro seja bom. Antes de encontrar a segunda assinatura já posso dizer que há fineza na estrutura narrativa. Ela, como a vida, não é linear. Já me levou à Málaga, Madri, Paris e desembarcou em Bombaim para fazer um longo trajeto de trem rumo ao exótico mundo indiano do início de 1900 que se desfolha em minhas muito cuidadosas e pouco habilidosas mãos.   

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM ... delcueto.wordpress.com



** O título da crônica vem da letra de Retorno, de Juarez Bittencourt e Os Campeiros do Cambai, concorrente da 9 Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul. Meus peçuelos estão pesados de ausência...




Studio na Colab55

quinta-feira, 18 de julho de 2024

O acalanto do desencanto

O acalanto do desencanto

Texto e foto de Valéria del Cueto

Se a fila anda, por que não quebrar a rotina e mudar o local da escrevinhação no caderninho? Vou jogar a responsabilidade pela alteração nesse tempo instável que parece o inverno.

Por aqui estamos todos meio perdidos. O frio veio forte, mas partiu rapidinho, já dá lugar ao tempo ameno e o anúncio de outro veranico. Tipo Cuiabá, onde o inverno passa num sopro e nunca dura mais de 3 dias.

Situação:  habemos sol entre as árvores (afinal, pelo menos ele se mantém firme e forte em sua trajetória e, nessa época do ano, está passando coladinho as montanhas que compõem o horizonte). Também temos uma temperatura agradável que sugere toalhas e travesseiros na janela para espantar a friaca e arejar a vida. O que me resta? Seguir o exemplo.

Me preparei para aproveitar a tarde ao ar livre. Um (ou uns) fator(es) altera(m) o objetivo inicial. Biquini (olha que ousadia) canga, caderninho, caneta, boné, água mineral (da casa), celular pra fazer a foto da crônica, óculos escuros, filtro solar no rosto e... Pra variar, mudei o rumo. Em vez de sair porta a fora subi as escadas e me aboletei no janelão do mezanino.

Daqui vejo o meio do mundo da Mata Atlântica sentada numa das cadeiras de ferro da mesa da varanda banhada pelo sol. O conjunto faz parte da mobília que me acompanha desde que nasci. Ficava na varanda comprida do apartamento em que morei quase uma vida no Leme. Só saiu de lá quando o imóvel foi vendido.

Sempre que tenho uma casa é colocado num lugar especial. Ainda no Leme foi pra varanda que virou floresta no pé da ladeira. Depois, foi cedido pra Araras e resgatado quando vim pro meio do mundo.

Não pergunte como, sempre coube direitinho entre os braços de ferro da melhor cadeira que conheço pra ficar horas lendo sem parar. Consigo me aboletar desde criança em várias posições diferentes. Jogando, por exemplo, as pernas por cima de um dos braços pra aliviar a coluna do tempão “concentrada”.  

Tudo lindo, mas preciso ressaltar meu próprio espanto ao constatar que nunca escrevinhei por aqui. Gosto de esticar as palavras ao ar livre quando deixam.

Fiquei semanas emudecida, me recusando a registrar os últimos acontecimentos. Pelo menos duas perdas me afastaram do intuito de manter a regularidade das crônicas. Tem coisas que, na minha cabeça, só se concretizam quando coloco no papel. Como não queria que essas fossem verdade, calei a escrita enquanto pude e um pouco mais...

Falo primeiramente da partida silenciosa do meu guru mangueirense Aluízio Derizans, o amigo que abriu as portas da verde e rosa pro acervo carnevalerio.com, que só descobri no dia do seu aniversário e a quem não poderia deixar de registrar @no_rumo do Sem fim meu agradecimento eternizado nas incríveis imagens que que registrei nos anos que por lá passei.

Ainda estava depurando a perda quando o advogado e colega cronista Renato Gomes Nery foi tocaiado em Cuiabá. Fui sua assessora na presidência OAB-MT e nossa amizade sempre me fez recorrer a ele nos poucos “causos” legais que enfrentei. Assim como a sociedade mato-grossense, aguardo esclarecimentos sobre esse filme violento que já vimos tantas vezes em Mato Grosso.

Precisei alterar a paisagem para conseguir destravar minha escrita cheia de indignação e revolta. Não o fiz por livre e espontânea vontade. O que me levou ao movimento que libertará meu peito, esse poço até aqui de mágoa, destilando no caderninho minhas dores foram... os mosquitos.

Sempre eles que, como eu, não reconhecem as estações do ano e, vorazes, me empurraram para a proteção e o acalanto da mobília varanda da vovó que desrepresou meu desencanto. Lá fora o sol brilha, mas a nuvem do desequilíbrio ambiental não dá folga.

Os efeitos de suas picadas duram menos, mas são tão doídos como choro que aperta meu peito e brota nas lágrimas de despedida aos amigos tão queridos e insubstituíveis que encerram essa crônica.  

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM ... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

terça-feira, 2 de abril de 2024

Falhando, mas entregando!

Falhando, mas entregando!

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou me apegando a todos os santos e mandingas pra fazer esse texto pegar no tranco. Sorte que não sou um mecanismo digital ou hidramático, o que significa que um bom empurrão faz algum efeito sobre uma bateria exaurida. No caso, a minha.

Daqui a pouco ninguém mais vai saber do que trata essa metáfora automotiva do milênio passado, eu sei. Como também sei que estou, de novo, passando por aquele momento “se não tenho nada pra acrescentar, o melhor é calar”.

Só que essa hipótese pode trazer um prejuízo irrecuperável à regularidade das crônicas do Sem Fim. Queria que esse fosse o dilema atual da escrevinhadora. Só que não é. Os motivos das últimas rateadas são mais prosaicos.

Depois de eleger as areias das praias cariocas como espaço/tempo para desenhar as sempre mal traçadas linhas das páginas de muitos caderninhos - primeiro, na Ponta de Leme, de onde sou cria, há décadas atrás e, mais tarde, no paredão do Arpoador ou na sempre invisível Praia do Diabo, saí procurando outro paraíso que estimulasse, se não minha imaginação, ao menos meus vastos e inconstantes pensamentos catapultados pelo oceano de informações que, hoje, chegam a qualquer lugar pelas ondas indomáveis da Nazaré das redes sociais.

É justamente esse tsunami e todos os rejeitos que ele produz em sua rota de destruição que acaba provocando uma inversão na dinâmica de produção de conteúdo.

Em vez de garimpar pepitas brutas escondidas nas dobras do pensamento que chegam com as marés somos obrigados a virar catadores nos lixões irregulares transbordantes de chorume, com espumas de tolices, gosmas de sandices e dejetos movediços de horrores que nos impedem de depurar sentimentos, “dexavar” ideias, burilar conceitos.

Somos movidos por efemérides pré-estabelecidas e teorias rasamente concebidas por algoritmos gerados e comandados pela... inteligência artificial.

Aquela que dita regras como a de que “temos que ter um nicho” de ação na rede, por exemplo. Postar várias vezes ao dia, outra exigência. Ter uma “comunidade”, mais uma. Mostrar a cara. Expor sua rotina...

Estou lascada já na largada para esse “salto mortal digital” com esse meu complexo de senzala, como diz meu pai, que me impede de obedecer a qualquer regra ditada por sei lá quem quando era gente e o que pra IA que nos comanda e nem ser humano é. Sempre fui guiada por uma força estranha que me impede de ter amo e/ou senhor, como dizia o samba do Paraíso do Tuiuti de 2018. Não à toa um dos meus codinomes era “rebelde”.

Não foi por falta de tentativa de fazerem da minha, uma vida mais fácil nesse mundo que já não existe mais. Mundo esse, em que a individualidade tinha algum valor e bastava que essa chama fosse sempre (bem) alimentada com o conhecimento que gerasse argumentos para resistir ao assédio do mais do mesmo.

Dancei. Ou não, porque nem assim sucumbi e me orgulho de seguir pensando e expondo meus delírios nos últimos 20 anos.

Meu problema é com uma consequência dos ouvidos moucos feitos por todos os que, voluntariamente, ou não, ignoraram todos os alertas sobre as mudanças do planeta. Sim são eles, já cantados por Jorge Mauter e Nelson Jacobina no século passado: os mosquitos!

Especificamente o Aedes que transmite Zika, dengue, Chikungunya e, desde sempre a febre amarela, agora adormecida. Doenças virais capazes de tocar horror no sistema de saúde e exponencializar meu impedimento de uma produção literária sacralizada.

Eles mordem! E, cá entre nós, não se assustam mais com DDT, sprays e receitas caseiras de proteção. Estão dando de mão e comandando o jogo da saúde popular. E da minha crônica. Foi uma mordida no joelho repleto de creme protetor fedorento que me fez, mais uma vez, fechar o caderninho e dar por encerrado esse texto.

Mas só esse. Porque, assim como posso ignorar a ditadura artificial, serei capaz de mudar meu ritual e seguir falhando, mas entregando os rabiscos e fotos que registram meu tempo e o que vejo no planeta.      

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica das séries “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

 


Studio na Colab55

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Crônica vagal no pré-carnaval


Crônica vagal no pré-carnaval

Texto, foto e vídeo de Valéria del Cueto

Como água do rio que corre, o tempo não volta para trás. E ele é curto para esse 2023 que se esvai sem deixar saudades para muita gente.

Nessa virada mudei minha canção e dei as costas ao réveillon de Copacabana. Ele que sempre atraiu meu querer de horizonte infinito e colorido na passagem do ano.

Aliás, estou achando que essa será uma crônica bianual. Não me lembro de outra, em todos esses 20 anos (aumento e diminuo a frequência, mas nunca deixei de publicar desde que o Marco Antônio Moreira, o Vila, me empurrou para essa cachaça), que tenha começado a ser escrita num fim de dezembro e seu fecho tenha sido desenhado - no caderninho, como sempre, no ano seguinte.

Não tenho mais modas para inventar. Pelo menos até o ano que vem!

Que já é! Esse 2024 chegou enquanto percorria caminhos no meio do mundo procurando a imagem ideal para saudá-lo.

Acabei no meio da metade de uma floresta. O resto é muro. O chão de pedras, sem asfalto e muito barro das chuvas que fecharam os últimos dias de 2023, tatua na lama os rastros das rodas dos poucos carros que trafegam pelo local. Entre os trilhos a vegetação é bem verdinha e, quando chove muito, é o melhor lugar para andar e não levar para a casa a lama acumulada.

Hoje os lugares empoçados estão cobertos de folhas amareladas caídas nas ventanias que antecederam as chuvaradas das árvores que parecem se abraçarem no céu. O que chamou meu olhar vagabundo foram as florezinhas delicadas que salpicam o cenário, contrastando com os tons ocres da cama de folhas.

Só eu estou mirando as estrelas do chão praticamente intocado antes das próximas chuvas. Vai ser a cobertura florestal que protegerá meus passos antes do descampado me fazer apressá-lo para chegar em casa.

Não que me importe com um banho natural para levar embora as energias do final do ano que passa galopando.

O chão de flores é promissor para a imagem que procuro. Falta o miolo, a tal regra de três, que garanta o conteúdo da mensagem. Ergo o olhar só um pouco, evitando o topo do céu que, já sei está cinzento, querendo chorar.

Está tudo lá. Quer dizer, aqui. Ou aí, se você prestar atenção em mais uma foto exclusiva que ilustra essa crônica vagal (era só o que faltava, o título do texto brotar no meio da escrevinhação. Nem depois, em antes).

O caminho, em perspectiva, corta o meio do quadro. À direita um muro alto de cimento limita a visão guardado por um poste de concreto escurecido, como o muro, pelo musgo e a umidade. Do outro lado a vegetação fecha o campo. Exuberante, a mata Atlântica explode nos tons da flora local.

O caminho indica a direção da claridão que será alcançada caso os passos sigam a trilha de barro, pedra, grama, folhas e flores caídas. Todo meu, todo seu, para você que me acompanha.

Cabe a cada um escolher o que terá a seu lado. Muro ou floresta, e onde prefere pisar.

Meu conselho, quase uma advertência: não importa o que vem por aí. O que vai fazer a diferença é como você reagirá aos acontecimentos. Do jeito que vierem os três palitos, nunca se esqueça que só existe uma certeza, a do que somos.

Quando e, se, o mundo mostrar sua face, não faça de sua reação um espelho do comportamento alheio. Devolva ao outro seu eu verdadeiro, aja conforme seu caráter. Esse é capaz de mudar o mundo, se você for do bem.

No más, 2024 está aí anunciando que a festa está apenas começando com o início dos ensaios técnicos na Sapucaí, os que antecedem o carnaval. Hora de sair da toca.

PS: o fim da crônica foi atribulado porque uma vaca e alguns bezerros apareceram no caminho da floresta. Fugiram para passear no réveillon. É correr ou passar caminhando por elas. Sorte que tenho experiência campeira.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “É Carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com





Studio na Colab55