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quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Nem sempre ganhando...


Nem sempre ganhando...

Texto e foto  Valéria del Cueto

Hora de parar o mundo para dizer a que vem aí. Mais uma crônica! Só assim tenho o estímulo necessário à escrevinhação, como sempre, no caderninho. Tenho prazo, espaço e vontade de exercitar o direito de dizer. Falar de quase nada no meio de muito tudo não é fácil.

Me desligar de tanta informação eu até sei. Mas nem para você, leitor, nem para mim - que do meio do mundo vejo o dito cujo se exaurindo em conflitos, dores e muito, muito desamor-, a tarefa é simples.

Sei que existem os que como eu, perplexos diante de tanta brutalidade, ainda procuram formas de, mesmo que indiretamente, interferirem no rolo compressor que parece incontrolável movido pela maldade humana. Atualmente, pra piorar, turbinado pela força motriz generativa da inteligência artificial que se multiplica a nossa imagem e semelhança. E que imagem, que semelhança!

Por isso acho que, como no caso dos que procuram estímulos para mudar essa vibração, também preciso de ajuda para sair, por exemplo, das águas turvas da flotilha que tenta chegar a Gaza com alimentos e a ajuda médica para aliviar o sofrimento dos palestinos, reféns involuntários do governo de Israel, sob as ordens de Netanyahu.

Quando se trata de genocídio volto à leitura de “Mila 18”, de Leon Uris. A história se passa no gueto de Varsóvia, sob o domínio alemão. Descreve o terrível cotidiano dos judeus na capital da Polônia ocupada.

Agora, os algozes são aqueles que foram vítimas no século passado, durante a Segunda Guerra Mundial. A diferença são os métodos, ainda mais cruéis, de extermínio.

Pra escrever preciso sair desse turbilhão de horrores que se multiplicam, sem tanta exposição e mídia, em outras partes do globo.

No meu pedaço o céu é o limite! Olhando pra ele sem nenhuma nuvem, me inspiro nas florezinhas amarelas na ponta do ipê meio raquítico, sem nenhuma folha, oscilando preguiçosas ao vento nesse início de primavera, suavemente lânguidas, animadas pelo balanço dos galhos. Sigo o movimento de uma das flores bailando solta, caindo na direção do rio. Não foi a brisa que a derrubou. Consigo ver um passarinho, inho,inhozinho brincando na galharia.

Aqui embaixo o som das águas do rio, meio seco devido a falta de chuvas, vem do resmungo preguicento do fluxo deslizando entre as pedras em seu leito. O sol não está mais a pino. Mesmo assim seu calor espanta a passarinhada que prefere descansar a sombra e só recomeçar a movimentação mais tarde.

Por uma questão de justiça climática esclareço que por mais abafado que seja o clima no meio do mundo não é nada comparável as temperaturas de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, (quente desde sempre no verão), e de Cuiabá, onde o que já era insalubre está ficando cada vez pior com a valiosa e insuperável colaboração, por exemplo, dos responsáveis pelas obras intermináveis do VLT/BRT.

Aí, mesmo sem querer cair novamente no redemoinho dos acontecimentos, me lembro do filme de Spike Lee, “Faça a coisa certa”, que narra os acontecimentos de um dia de calor insuportável no Harlem, em New York....

Mais um movimento no entorno! Graças a Deus, ele desvia o rumo da prosa antes que ela caia no buraco negro dos desastres climáticos. Aqueles que serão temas da COP 30. Claro que nela, o principal será as buscas por caminhos e soluções para mitigar a crise. O que se faz apontando e alertando sobre os problemas crescentes que exaurem o planeta.

Voltando às miudezas, essa nem tão miúda assim, o que me distrai é um dos vizinhos da Mata Atlântica. O lagarto teiú cruza a estrada de terra que liga o nada ao lugar nenhum aqui no meio do mundo. Ele me ignora solenemente passando pro terreno e se desviando do tapete de pitangas perpitolas que caíram da pitangueira com a ventania da manhã.

Elas estão merecendo uma varrida que só acontecerá quando os passarinhos e borboletas, animados pelo ciciar das cigarras, avisarem que a temperatura vai dar um refresco no cair do sol atrás do morro do outro lado do rio.

Terei pouco tempo para varrer o pitangal salpicado no deck e jogar uma água nas plantas. Das miudezas, que envolve uma conversinha com as plantinhas preferidas, parto para uma missão quase universal: torcer pelo meu Flamengo, que ocupa o primeiro lugar na tabela do brasileirão.

Enfim, apesar dos pesares, esse domingo ainda pode ser quase perfeito. Mas isso, como outros fatores da vida, não depende só de mim...

PS: Deu ruim. Depois de duas expulsões, o Mengão perdeu só de 1X0 para o Bahia. Agora, somos vice-líderes do campeonato. Sorte que ainda faltam 11 rodadas para o final do torneio!

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

terça-feira, 2 de maio de 2023

Já combinaram?



Já combinaram?

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Eis-me aqui, querida cronista, sem nenhuma justificativa no estoque para validar a ausência além do objetivo de corroborar, caso mantivesse a correspondência de forma regular entre nós, sua firme intenção de permanecer no seu retiro voluntário, aí na confortável cela do outro lado do túnel, isolada desse mundo louco e tóxico.

Como você sabe, ultrapassamos mais um período de apogeu na história da humanidade. O mundo segue numa descida cavada em direção ao fundo do poço civilizatório. Digo ultrapassamos porque, diante de minha incapacidade de romper a bolha da camada de ozônio, passei a fazer compor, se não diretamente, como extraterrestre observador inserido na distopia humana.

São justamente as bolhas que impedem o correto desenvolvimento da espécie. Nesse momento, ao contrário das correlatas as de sabão, elas não se dissolvem, nem se misturam, após explodirem diluídas no composto saponáceo que as fazem belas, inquietas, coloridas e efêmeras.

Seu amigo Pluct Plact fala, cronista, de bolhas resistentes, fundidas temperadas no ódio, cimentadas com o rígido concreto da intolerância. Quando se rompem, explode a violência, a brutalidade.

Tudo que esse mundão não precisa nesse, ou em qualquer momento. A guerra na Ucrânia prossegue implacável. Do Sudão conflagrado nações retiram seus representantes diplomáticos e cidadãos. Dois de muitos exemplos de conflitos.

Por aqui, o “eles contra nós” corrói as instituições com manifestações explicitas de egocentrismo e idolatria cega cujos objetivos, já sabemos, causarão danos colaterais à maioria da população que elegeu seus representantes para conduzirem os destinos do país.

Cronista, é só umbigo. Tudo funciona em torno dele. Os verdadeiros interesses populares são como peões num tabuleiro de xadrez, prontos para serem sacrificados em prol de interesses defendidos por grandes lobbies.

O todo não é tudo! Aliás, é nada...

Os juros mensais estão em 13,75%, a maior taxa de juros reais do mundo! 77,9% de brasileiros estão endividados, são escravos do fantasma da inadimplência.

Há, querida cronista, uma nova forma de domínio. A inteligência artificial comanda e substitui os humanos em diversos e cada vez mais variados campos. Um número exponencial de empregos e funções deixam de existir com o avanço da tecnologia.

Você já viu esse filme. A realidade ultrapassou a ficção que não serviu de alerta efetivo. A humanidade já se atirou no precipício de um (ou vários) projeto(s) de domínio da inteligência artificial.

Houve uma tentativa de interromper o processo. Cientistas e lideranças das big techs do mundo todo pediram uma pausa de (pasme) 6 meses para estudarem o impacto do pulo no escuro irreversível que foi dado e tentarem uma regulamentação do processo. Não funcionou. Os mesmos que assinaram o manifesto continuaram mimando suas “filhotas” que, claro, ignoraram solenemente as intenções de seus criadores e seguiram impávidas alimentando seus quase incomensuráveis bancos de dados.

Termino essa missiva que seguirá até você pelo raio de luar que invade sua cela para, mais uma vez, agradecer nossas conversas. Uma delas me permite mal comparar esses eventos com a sabedoria do gênio do futebol chamado Garrincha. O craque, em sua estreia na Seleção Brasileira, na preleção do técnico Feola no jogo contra a União Soviética, depois das instruções de como “driblar” o esquema tático do adversário, perguntaria: “Já combinou com a Inteligência Artificial?

PS: Antes que me esqueça, sem querer zoar com você (uma atitude tão humana que faz parte do ritual), o time de Mané derrotou o seu Flamengo por 3X2. Apesar de contar com um jogador a menos. Pensa num amigo querido feliz! Ele mesmo, o Magnífico Gabriel Novis Neves...

Falei e corri, quer dizer, voei.    

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Texto  da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

 

https://youtu.be/na8CUEyUj2w link preleção Fiola.

Studio na Colab55