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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Os ventos nos levarão

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Os ventos nos levarão

Texto e foto de Valéria del Cueto

 

Fiz tudo que podia para tentar retornar a um velho hábito. Em busca de uma reconexão com o antigo costume de escrever as crônicas nas areias da praia, me preparei para rumar em direção ao Arpoador numa sexta-feira à tarde.

No dia anterior fiz um reconhecimento no terreno sem o equipamento necessário para desenrolar o texto. A saber: o caderninho e a caneta.

Era uma tarde de quinta-feira linda! Céu azul e águas claras. Cenário perfeito para bater perna entre Ipanema, o Arpoador e a Praia do Diabo. Um dia ideal para “farmar aura”! Me adiantei porque, primeiro, queria matar as saudades. Trocar o murmúrio regular do rio que corre no meio do mundo que habito no pé da serra pelo barulho inconstante e desritmado do mar, sem arrependimento pela ausência do material literário.

Para escrevinhar, queria o ambiente perfeito que só uma sexta-feira proporciona. Sabe aquela vibe de véspera de final de semana? O compromisso inexistente depois de uma caminhada pela beira do mar molhando os pés com as marolas que invadem a areia?

O ideal para refletir o quase pôr do sol antes de mergulhar nas linhas inexploradas das páginas e formas do caderninho que renderão mais uma crônica do Sem Fim...

Antes de chegar ao destino e atingir meus objetivos para abrir o final de semana, uma bateria de exames de check-up anual me aguardava no período da manhã. Obstáculo superado entre um aparelho e outro, corri para cada em busca dos apetrechos da missão literária e parti para destino tão almejado.

Como estava tudo certo e nada decidido, faltou combinar com o… clima. O tempo havia virado!

Tudo o que era azul anil estava encoberto por uma bruma fina que foi se adensando e virando uma barreira de nuvens rápidas e pesadas, embaladas por uma ventania incessante.

Daquelas que levantam as ondulações no espelho d'água, crispam as ondas e formam carneirinhos de espuma. 

Se o mar estava pra peixe, como veremos a seguir, não era propício para banhistas e surfistas. Apesar de mexido, as ondas ainda não haviam subido.  

Voltei lutando contra o vento ao mesmo lugar do dia anterior. O cenário era totalmente diferente.

Para começar, não havia nin-guém no largo do Millôr. Só eu e um ambulante com seu isopor, sem nenhuma chance de fazer sequer uma venda por falta de clientela.

Nas pernas, a areia chicoteava pinicando a cada rajada de vento, invadindo as dobras do casaco corta-vento, fustigando as pernas protegidas até os joelhos por uma bermuda de malha e se ajuntando dentro do tênis.

O visual era lindo, com as nuvens correndo rápido sobre o contorno do morro Dois Irmãos.  Muitos mergulhões e gaivotas lutavam contra as correntes de ar que os impedia de mirar os peixes do cardume que tentava dobrar a ponta do Arpoador. 

Um verdadeiro espetáculo da natureza!

As chances de realizar meu desejo de escrever o texto no banco de concreto embaixo do poste do refletor que ilumina as águas para os surfistas em noites mais amenas eram nulas! Não tinha agasalho que segurasse a friaca das lufadas de areia temperada pelos respingos de maresia grudenta.

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Aguentei as intempéries esperando que um respiro no corre das nuvens deixasse passar um raio solar. Que ele fizesse um contorno na massa polar que se aproximava trazendo o swell (que faria a alegria dos surfistas no campeonato que aconteceu no final de semana). A crônica? Ficou para depois.

Depois que a Argentina ganhou da heroica seleção de Cabo Verde naquela mesma noite. Depois que o Brasil foi vergonhosamente eliminado pela Noruega. Depois que a FIFA caísse de joelhos, revertendo a expulsão de Balogun, o jogador da equipe americana, solenemente ignorada pela Bélgica e, que nojo! Depois que o Egito fosse garfado e saísse da competição após fazer a campeã mundial, a Argentina, passar um tremendo perrengue antes de garantir sua classificação às quartas de final. Essa mesma, só com campeões!

Com os Estados Unidos fora da competição, para indignação mundial, foi quebrado o cessar-fogo no Estreito de Ormuz. A Groenlândia e a Faixa de Gaza estão novamente sob ameaças iminentes. E nós? Voltamos a ser alvo de quem, sabemos, não tem espírito esportivo nem é capaz de respeitar os direitos básicos alheios.

É vida que segue ao sabor dos ventos que não sabemos onde nos levarão. Assim como esta crônica...

PS: Pluct Plact, o extraterrestre estava certíssimo. Faz tempo que os seres de outros planetas circulam por aqui.

Mais vídeos na PLAYLIST no canal @delcueto no YOUTUBE

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Arpoador” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


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quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Paz na terra



Paz na terra

Texto e foto  Valéria del Cueto

Querida cronista. Estou há dias alinhavando as últimas novidades para atualizá-la nos acontecimentos aqui de fora. Está difícil!

Tenho parte da responsabilidade no atraso e não nego. Porém, outros fatores aumentam a dificuldade de resumir tantos eventos nas poucas palavras que consigo enviar pelo raio de luar que ilumina sua cela.

Esse seu exílio voluntário do outro lado do túnel, cá para nós, torna nossa comunicação mais difícil e complicada que a ausência de um simples whatsapp, o meio de comunicação que, diz a lenda, mudou a maneira dos terráqueos se comunicarem.

Agora é costume usarem as redes sociais para tudo, inclusive comunicados oficiais, bate-bocas e DRs entre os governantes! Aí começa minha dificuldade plucplacteana de extraterrestre interplanetário ainda preso nesse mundão por problemas propulsores na minha nave viajante.

Pelo tempo de seu exílio sinto lhe informar que invertemos nossos papéis. Você, que me ensinou de um tudo quando caí sem paraquedas cultural aqui na Terra, me nutrindo de conhecimento popular e informações que permitiram minha sobrevivência no planeta de maneira menos traumática, se resolvesse abandonar seu refúgio voluntário, precisaria de aulas intensivas para se readequar ao cotidiano do lado de cá!

São essas instruções que gostaria de deixar em nossa intermitente correspondência. Não dá! Precisaria de muitas luas, dezenas ou até centenas de raios do luar que banham sua cela para prepará-la para sobreviver minimamente por aqui. E isso não seria tudo. Conhecimento é vida, mas a necessidade de um intenso preparo psicológico para segurar sua onda seria essencial!

Quase nada no pedaço é como antes e isso, certamente, mexerá profundamente com seu emocional. Aquele que você tenta valentemente preservar neste isolamento.

Para ajudar nesse sentido, tenho trocado algumas impressões com suas sobrinhas. A Luisa, no quesito psicológico, e a Natália, na parte de equilíbrio mental e corporal.

Caso não tenha registrado, as meninas viraram mulheres. Luluca é psicóloga e Nat acupunturista. Vai se formar em fisioterapia após largar de mão, depois de terminar, o curso de línguas estrangeiras para relações exteriores. Dos idiomas persiste no estudo do mandarim. Tudo a ver com a medicina chinesa a que se dedica.

Você vai precisar desses apoios para manter sua mente e seu corpo sãos. Pode ter certeza!

Já sei o que vai dizer. Que essa cartinha está com cara de abandono. Talvez sim. Mas garanto que não será voluntário, como seu exílio. Acontece que a maré não está para peixe, nem o céu é mais do condor.

O presidente dos EUA que se dedica a uma perseguição implacável aos imigrantes em seu território (como os nazistas caçavam os judeus e outras minorias nos tempos da segunda guerra) expandiu suas atividades bélicas aos mares internacionais. Bombardeia navios e barcos de pescadores. Sem direito a defesa! Alega, sem provas nem julgamento legal, o transporte de drogas para seu país.

Na Europa, drones interferem nas operações de aeroportos de vários países enquanto ataques da Rússia contra a Ucrânia prosseguem sem perspectivas de paz apesar do encontro, com direito a tapete vermelho no Alaska, dos que se acham donos do mundo. O resultado do rapapé foi nulo. A guerra continua...

Sim, amiga cronista, no meio desses tiroteios corro sérios riscos no céu, na terra e no mar. Por isso procuro uma rede de proteção para sua sobrevivência e sanidade. Sei lá, não sei do meu, antes quase tranquilo, futuro de viajante errante.

Não quero terminar essa missiva pra baixo. Trago a notícia de uma trégua na Palestina. Mais uma vez estão na primeira etapa da tentativa de uma paz negociada depois de Netanyahu arrasar e devastar a Faixa de Gaza. Mas não se anime!

No momento estão trocando reféns e prisioneiros. Para variar, os primeiros têm nomes, sobrenomes e histórias. Já os palestinos são apenas números despejados na terra destruída, sem direito sequer a entrada massiva de alimentos e apoio médico para a população atingida pela barbárie incontrolável.

A ação foi na medida para alimentar a pretensão do “King in América” a almejar o Prêmio Nobel, indicado pelo algoz do Oriente Médio. Só que... o pleito delirante não colou.

A laureada foi María Corina Machado “pelo seu incansável trabalho em promover os direitos democráticos pelas pessoas da Venezuela e pela sua luta para atingir uma transição justa e PACÍFICA de uma ditadura para a democracia”.

María Corina dedicou o prêmio a quem? Ao povo de seu país e ao presidente Trump, o que tem enviado navios militares à costa venezuelana e adota a estratégia de explodir barcos que os EUA “considerem” levar drogas ao território americano.

O primeiro Nobel sul-americano foi para quem incentiva ações belicosas, cronista. E, justamente, o Nobel da Paz!

Desconfio que o criador da honraria deva estar se revirando no seu túmulo sueco em Estocolmo...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Nem sempre ganhando...


Nem sempre ganhando...

Texto e foto  Valéria del Cueto

Hora de parar o mundo para dizer a que vem aí. Mais uma crônica! Só assim tenho o estímulo necessário à escrevinhação, como sempre, no caderninho. Tenho prazo, espaço e vontade de exercitar o direito de dizer. Falar de quase nada no meio de muito tudo não é fácil.

Me desligar de tanta informação eu até sei. Mas nem para você, leitor, nem para mim - que do meio do mundo vejo o dito cujo se exaurindo em conflitos, dores e muito, muito desamor-, a tarefa é simples.

Sei que existem os que como eu, perplexos diante de tanta brutalidade, ainda procuram formas de, mesmo que indiretamente, interferirem no rolo compressor que parece incontrolável movido pela maldade humana. Atualmente, pra piorar, turbinado pela força motriz generativa da inteligência artificial que se multiplica a nossa imagem e semelhança. E que imagem, que semelhança!

Por isso acho que, como no caso dos que procuram estímulos para mudar essa vibração, também preciso de ajuda para sair, por exemplo, das águas turvas da flotilha que tenta chegar a Gaza com alimentos e a ajuda médica para aliviar o sofrimento dos palestinos, reféns involuntários do governo de Israel, sob as ordens de Netanyahu.

Quando se trata de genocídio volto à leitura de “Mila 18”, de Leon Uris. A história se passa no gueto de Varsóvia, sob o domínio alemão. Descreve o terrível cotidiano dos judeus na capital da Polônia ocupada.

Agora, os algozes são aqueles que foram vítimas no século passado, durante a Segunda Guerra Mundial. A diferença são os métodos, ainda mais cruéis, de extermínio.

Pra escrever preciso sair desse turbilhão de horrores que se multiplicam, sem tanta exposição e mídia, em outras partes do globo.

No meu pedaço o céu é o limite! Olhando pra ele sem nenhuma nuvem, me inspiro nas florezinhas amarelas na ponta do ipê meio raquítico, sem nenhuma folha, oscilando preguiçosas ao vento nesse início de primavera, suavemente lânguidas, animadas pelo balanço dos galhos. Sigo o movimento de uma das flores bailando solta, caindo na direção do rio. Não foi a brisa que a derrubou. Consigo ver um passarinho, inho,inhozinho brincando na galharia.

Aqui embaixo o som das águas do rio, meio seco devido a falta de chuvas, vem do resmungo preguicento do fluxo deslizando entre as pedras em seu leito. O sol não está mais a pino. Mesmo assim seu calor espanta a passarinhada que prefere descansar a sombra e só recomeçar a movimentação mais tarde.

Por uma questão de justiça climática esclareço que por mais abafado que seja o clima no meio do mundo não é nada comparável as temperaturas de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, (quente desde sempre no verão), e de Cuiabá, onde o que já era insalubre está ficando cada vez pior com a valiosa e insuperável colaboração, por exemplo, dos responsáveis pelas obras intermináveis do VLT/BRT.

Aí, mesmo sem querer cair novamente no redemoinho dos acontecimentos, me lembro do filme de Spike Lee, “Faça a coisa certa”, que narra os acontecimentos de um dia de calor insuportável no Harlem, em New York....

Mais um movimento no entorno! Graças a Deus, ele desvia o rumo da prosa antes que ela caia no buraco negro dos desastres climáticos. Aqueles que serão temas da COP 30. Claro que nela, o principal será as buscas por caminhos e soluções para mitigar a crise. O que se faz apontando e alertando sobre os problemas crescentes que exaurem o planeta.

Voltando às miudezas, essa nem tão miúda assim, o que me distrai é um dos vizinhos da Mata Atlântica. O lagarto teiú cruza a estrada de terra que liga o nada ao lugar nenhum aqui no meio do mundo. Ele me ignora solenemente passando pro terreno e se desviando do tapete de pitangas perpitolas que caíram da pitangueira com a ventania da manhã.

Elas estão merecendo uma varrida que só acontecerá quando os passarinhos e borboletas, animados pelo ciciar das cigarras, avisarem que a temperatura vai dar um refresco no cair do sol atrás do morro do outro lado do rio.

Terei pouco tempo para varrer o pitangal salpicado no deck e jogar uma água nas plantas. Das miudezas, que envolve uma conversinha com as plantinhas preferidas, parto para uma missão quase universal: torcer pelo meu Flamengo, que ocupa o primeiro lugar na tabela do brasileirão.

Enfim, apesar dos pesares, esse domingo ainda pode ser quase perfeito. Mas isso, como outros fatores da vida, não depende só de mim...

PS: Deu ruim. Depois de duas expulsões, o Mengão perdeu só de 1X0 para o Bahia. Agora, somos vice-líderes do campeonato. Sorte que ainda faltam 11 rodadas para o final do torneio!

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

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sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Ainda os créditos

Ainda os créditos

Texto e foto  Valéria del Cueto

Só acaba quando termina. Para que, depois, seja possível à produção fechar os créditos finais. Aqueles que mencionei no último texto. Os dos filmes e, também, de quem participou do julgamento do ex-presidente e mais outros 6 integrantes do Núcleo 1, no STF.  

Tenha a quase certeza de que após a finalização da lista na pós-produção haverá a possibilidade de faltar algum nome na relação de colaboradores.

Seja por esquecimento involuntário ou até mesmo proposital. Afinal, nada é perfeito no mundo, nem a relação dos participantes de um trabalho coletivo. Ela pode ser quase generativa, interminável.

Não dá para medir esforços na busca de informações e reconhecimento para a posteridade de todos os técnicos, atores e colaboradores, sejam pessoas físicas ou jurídicas que participam da realização de uma obra idealizada por alguns e construída por muitos, no caso de obras artísticas. Já em outros casos, pode ser o inverso.  Sonhada por muitos, mas concretizada por poucos.

A não ser que...

O poder de contar a história esteja nas mãos de um único componente, cabendo a ele todos os papéis da iniciativa.

O povo, na sua sabedoria popular, diz que esse tipo de empreendedor é um autêntico representante do “bloco do eu sozinho”.

Foi o que o mundo assistiu na abertura da Assembleia Geral da ONU, em New York, horas antes do raiar da primavera, na tarde do dia 22 de setembro.

Primeiro, se manifestou o autor de uma obra coletiva. O presidente Lula, em sua fala ao abrir os trabalhos do encontro de quase duzentos países, defendeu a multiplicidade de ideias, no esforço coletivo. Em relações baseadas no diálogo e objetivos comuns à maioria dos membros.

Sublinhou as ações urgentes no que diz respeito ao fim dos conflitos mundiais e a preservação do planeta, alertando às graves consequências das mudanças climáticas.

Seu pronunciamento foi feito no tempo aproximado de 15 minutos solicitado pelos organizadores do encontro dos líderes mundiais.

Em vários momentos foi aplaudido pelos participantes, como no apelo pelo fim da guerra genocida em Gaza, no pedido do fim do embargo a Cuba, no alerta sobre as agressões ao planeta, a crise do clima e ao conclamar os países a fortalecerem a própria ONU.

Em seus créditos pessoais fez questão de lembrar de José Mujica, ex-presidente uruguaio e o Papa Francisco, ambos defensores da paz e promotores da igualdade entre os povos.

Que contraste com o orador que o seguiu na tribuna, autêntico representante do bloco do eu sozinho. Incapaz de ter a generosidade de delegar a terceiros a autoria de suas “realizações”, falou mal da organização do evento e da própria ONU já na abertura de seu discurso.

Nele, trouxe para si todos os “méritos” que considera relevantes nos feitos que agitam o conturbado cenário mundial, quase em colapso turbinado por sua atuação.

Como se, além de proprietário do campinho fosse, também, o dono da bola.

Respeito, que é bom, nem pelo tempo estipulado de fala.

Foi quase uma hora de uso do microfone, desconsiderando o protocolo estabelecido e os discretos alertas sobre o andamento da programação prevista.

Finalizou decretando que, no tempo de um anúncio de televisão, trinta e muitos segundos, algumas palavras e um abraço, concluiu que o presidente Lula é um “very nice man”, informando que haverá um encontro entre eles na próxima semana.

Mais uma vez, os créditos finais desse evento terão que ser reescritos. Dessa vez para incluir nos agradecimentos o nome do operador de teleprompter, o equipamento que o representante dos EUA reclamou ter falhado e provocou, inclusive, um pedido de formal de investigação à ONU assim como, também, a engasgada da escada rolante da sede da organização em sua gloriosa chegada.

Ah, o novo registro será de um integrante do entourage do próprio Donald Trump. A ONU esclareceu que o sistema era operado por um membro de sua selecionada equipe...

No mais, que venha a primavera e o aguardado encontro entre os presidentes.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

terça-feira, 31 de outubro de 2023

(Ch)orando mando a dor embora

(Ch)orando mando essador embora  

Texto e foto de Valéria del Cueto

A casa no meio do mundo é de Oxum. Como eu, ela chora. Vejo fios de suas lágrimas nas paredes azulejadas. Sinto o piso molhado quando caminho descalço em direção as janelas para fechá-las. Hoje isso é um perigo. Um copo escorregou do escorredor e se esfacelou no chão da sala.

A única maneira de secar o pranto acumulado entre as paredes é impedindo a entrada da umidade carregada pelo ar puro do rio que serpenteia ao lado da garagem no andar de baixo.

É como meu reservatório de choração. Nada de conter, tem que esvaziar. Prefiro quando consigo abrir o peito e deixar o choro desabar como cachoeira. Pronto, passou. Mas tem lamento que é de corixo. Vem mansinho, vai longe passeando entre a vegetação ribeirinha e tentando dar uma paradinha. É pranto de remanso. A cada música, lembrança, pensamento...

Esse é aquele que a lágrima fica pendurada e desce devagar, fazendo cócegas no rosto. Até outro dia tinha mantido a promessa de chorar preferencialmente por coisas boas.

Tirando a tristeza, o que me faz chorar com mais facilidade é a raiva. É uma reação imediata. Nem estou “chorando” e as lágrimas já começam a rolar abusadas e desobedientes. Como dizia Carol, chefe de gabinete de Luizinho Soares e escudeira de vida dele, espantada: “E você nem faz careta. Não fica com cara de choro”!

Pois é. O “X” da questão é o que vem depois. Pra mim, esse rompimento de represa é um sinal de que há o risco de virar bicho. Para evitar esse processo tenho corrido de demandas. Deve ser a tal sabedoria da idade. Funciona até a terceira página. Daí pra frente...

Estou chorando. Me prometi uma crônica quinzenal. A meus editores e leitores. Para isso, insisto, logo, penso... E acabo me enroscando porque apesar de ter tanto a dizer (não me pergunte como, depois dessas centenas de textos publicados) não consigo organizar de forma clara as ideias.

Ao som do violão payador de Noel Guarany sigo no ritmo da vassoura com que (esqueci que o piso está chorando) puxo pra fora de casa a poeira em pleno domingo tentando limpar a alma e organizar a crônica. Sou péssima na função, mas gosto de fazer a vassoura riscar o chão chiando e dançando ao ritmo da milonga, no momento.


Para tudo! Corta o plano para quando mal imagino a poeira sufocante e quente da terra arrasada de Gaza. Para não abrir as janelas (mais umidade porque meu choro já começou) corro pra porta. Do lado de fora o vento e os passarinhos. Os que, certamente, não passeiam assanhados entre os escombros provocados pelas mãos dos homens da guerra. E ele rola...

Pra escrevinhar essa crônica meu refúgio é ao lado dela, a queda d’água. Um desvio do rio que já dialogou com você, leitor, em outras ocasiões. Oxum canta pra mim.

Sinceramente, entendo o todo, mas não alcanço os pormenores que fazem alguém achar que tem direito adquirido a qualquer tipo de morticínio. Seja lá quem for. Penso nas mães vendo seus filhos transformados em máquinas assassinas a disposição da sanha de políticos desequilibrados.

Não estou preparada para represar as lágrimas de impotência e desalento diante de tanto horror. Nelas, derramo parte da dor que sinto por quem sofre, os que realmente se esforçam para tentar evitar a barbárie e todos os que, como podem, se manifestam mundo afora pela causa palestina, no caso.

As lágrimas de raiva e revolta vão para aqueles que, por conveniência e oportunismo, passam pano para o espetáculo pavoroso que o mundo acompanha atônito em tempo real.

Aos insanos que promovem e incentivam mais um genocídio com reflexos planetários um alerta divino.  Está tudo lá anotado no caderninho de Deus. Aquele de Amor. A volta, infelizmente, virá. É a lei do retorno em looping universal.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquandrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

 


Studio na Colab55

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Pipas, pra que(m) te quero?

Pipas, pra que(m) te quero?

Texto e fotos de Valeria del Cueto

Leves, alegres, saltitantes, preguiçosas, tensas, persuasivas, suaves, nervosas, agitadas, mansas, fugitivas, alegóricas, coloridas... Pipa  é  um substantivo capaz de comportar uma penca de adjetivos para definir seu espírito vigente, de acordo com o vento que a sustenta. Venho de um lugar de muitas pipas que, assim como as ondas do mar  deste local, são originais, fugazes e perenemente inéditas a cada movimento.

Chame do nome que quiser: pipa, papagaio pandorga... Elas são para quem te quero.  Mensageiras do amor e da dor. Para isso nasceram. Da dor quando servem de sinalização para o movimento das bocas e bandos. Do amor quando sobre a céu as milhares,  como aconteceu na Faixa de Gaza há poucos dias. Um objeto tão simples, tão frágil representando tanto. Poderoso e expressivo, como a paloma de Picasso há tantos anos atrás.

Bambu, seda, farinha, água e a linha. O milagre está feito. E se repete, numa resistência silenciosa pelos  “aís” onde passo. Uruguaiana tem o Julinho das Pipas que, entre um conserto de bicicleta e outro (olha a bicicletaria aí, gente!), encanta a garotada e transmite seu saber às gerações.  O Tribuna de Uruguaiana publicou uma matéria sobre ele, o que me fez enredar essas narrativas.  

Cuiabá tem o professor Ditinho que da UFMT expande seus conhecimentos pipeiros. Morador da Chapada dos Guimarães, lá estava ele no Festival de Inverno com sua oficina.  Tentei inscrever-me, mas acabei perdida, sem saber direito os horários. Conversando com uma organizadora das atividades soube que a oficina aconteceu num bairro periférico. Adorei a razão do desencontro.

Vamos espalhar pipas pela cidade, pensava eu. Colorir o céu da charmosa localidade com pandorgas “made” in Chapada, como um plus a mais para a Copa de 2014.  Ela vai acontecer na época dos melhores ventos, me contaram. 

Gente  que entende do assunto, freqüentadores da loja de pipas e infláveis que ilustra esse texto. Fica na mesma rua da bicicletaria, na Chapada. Lá se vende pipas, acessórios e se faz consertos. Quer um lugar mais adequado para uma piparada no mega evento?

É um programa bom, bonito e barato. E, muito importante, a bula deste produto não contém contra-indicações.  É politicamente correta e ambientalmente irrepreensível. Não causa danos nem efeitos colaterais.

Estaríamos fazendo nossa interpretação de uma arte difundida pelo mundo inteiro. Pipas chinesas são famosíssimas , o caçador de pipas corria atrás da sua pelas ruas de Cabul, a Faixa de Gaza levanta 3.000 papagaios e a Chapada dos Guimarães dialoga com o mundo através dos ventos que sopram nos paredões do centro geodésico.

Confesso a vocês que tenho uma frustração quando o assunto é pipa. Almejei, um dia, uma pipa. Essa, não era para voar. Trata-se de um exemplar (qualquer um serviria) da série feita pelo artista plástico mato-grossense Gervani de Paula. Vi os objetos do meu desejo numa exposição, na década de 80, e na ocasião não tive numerário para adquirir uma das peças. Anos depois, tentei descobrir o destino das pipas do Gervani. Estavam em coleções e eram intocáveis. Como seria a minha, se a tivesse...

O desejo teve que passar e, meu lado Poliana, me convenceu que pipas são assim. Dificilmente vêm pra ficar. Temos as nossas, podemos admirar as alheias  mas, ambas, dificilmente voltarão a se encontrar no mesmo céu. Seja ele qual for...

* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte de uma série do SEM FIM delcueto.wordpress.com.

 **Mais pipas na vida da autora no artigo "A pipa", publicado em maio de 2005. 

*** Se der uma busca no Sem Fim... encontra outros textos sobre pipas.