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terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Liberdade no coração, salve o Almirante Negro


Liberdade nocoração, salve o Almirante Negro

Texto, fotos e vídeos de Valéria del Cueto

Finalmente vou falar de carnaval. É claro que com uma virada de maré pela proa. Ia elogiar o mini desfile do Dia Nacional do Samba, os ensaios de rua que agitam as noites nas comunidades cariocas e da região metropolitana que se dedicam à f(r)esta, falar do lançamento dos sambas enredo pela Rio Carnaval nas plataformas musicais e a expectativa na chegada dos ensaios técnicos em janeiro. Faltam só dois meses para o carnaval!

Playlist do mini desfile

https://youtube.com/playlist?list=PLNVGym3VNemBmCWEGksqShl8TYNoiNre1&si=GVK8-rla1F02EZIc

Ia e vou, mas com o olhar voltado para uma escola, um enredo. Pelo menos nessa crônica.

Visitei os enredos para analisar os mais interessantes aos ouvidos e olhares dos leitores, especialmente os de Mato Grosso e do Rio Grande do Sul, que acompanham a longa saga da série “É carnaval” em crônicas, matérias, fotos e vídeos.

De cara pensei no caju, fruta tão cuiabana. Seja perpitola (dane-se a linguagem simples), com seu sabor, aroma e cores, seja na música (de Vera e Zuleica, por exemplo), ou na arte de gente do naipe de Adir Sodré e João Sebastião, lá está a delícia.

Passei pela onça da Grande Rio, pela cigana Esmeralda da Imperatriz e o Lunário Perpétuo da Porto da Pedra. Tudo aí ligado a nosso imaginário popular.



Só que no caminho, antes de terminar a rodada, topei com o Paraíso do Tuiuti, o Almirante Negro e episódio que durante muito tempo não fez parte da história do Brasil. Aquele que a gente conhece da música de Aldir Blanc e João Bosco, censurada na ditadura. A que teve que mudar o título de “Almirante Negro” para “O mestre-sala dos mares” e que no refrão almirante virou navegante. Essa!


O movimento que eclodiu dia 22 de novembro de 1910 e só foi nomeado como Revolta da Chibata em 1959 no livro de Edmar Morel, o primeiro a “retratar” o evento. De 1937 a 1945, por exemplo, a história não pode ser contada por causa da ditadura Vargas. Aquela cujo chefe do DPI, Departamento de Imprensa e Propaganda era Filinto Muller. Ele mesmo. Ela ressurge no samba que viraria um clássico do repertório da MPB em plana ditadura de 1964.

Mas, afinal, onde entra Mato Grosso nesse episódio?

Acontece que a revolta que fez os marinheiros tomarem os quatro maiores navios da esquadra brasileira e voltarem seus potentes canhões para o centro da capital federal, o Rio de Janeiro, foi desencadeada por um castigo corporal imposto a Marcelino Rodrigues Menezes.

É aí que entra o personagem nascido em Nossa Senhora da Conceição do Alto Paraguai Diamantino em 1856, João Batista das Neves. Pelo código disciplinar o castigo poderia ser de, no máximo, 25 chibatadas (!). Só que... Ele, o comandante do couraçado Minas Gerais, ordena que sejam dadas 250. Na frente da tripulação que vê o marinheiro desmaiar e continuar apanhando. Deu ruim.

A ordem do mato-grossense desencadeia a revolta que o levaria à morte, já que voltou ao navio mais cedo de uma homenagem, se recusou a sair da embarcação e feriu um marinheiro revoltoso. Deu muito ruim.

Os insurgentes exigiam o fim dos castigos corporais (90% dos marinheiros eram negros) e melhoria na alimentação. Hermes da Fonseca, presidente que havia assumido uma semana antes, se recusou a dialogar e o Senado Federal assume as negociações que levam a proibição das chibatadas e a anistia dos revoltosos, rapidamente quebrada pelo governo.

Centenas de marinheiros foram fuzilados. 2000 expulsos da força. João Candido, o líder, preso, transferido para Hospital de Alienados, tem alta e volta para a prisão na Ilha das Cobras, até ser absolvido de todas as acusações em 1912. É defendido, a pedido da Ordem de Nossa Senhora do Rosário e dos Homens Pretos pelo jovem jurista Evaristo de Moraes.

Aos gaúchos, curiosos pra saberem qual a relação com essa saga esclareço que João Cândido Felisberto, que recentemente teve seu nome inscrito no livro dos Heróis da Pátria, nasceu na Provincia de São Pedro do Rio Grande do Sul. Hoje, município de Encruzilhada do Sul. Sua origem está na letra do samba enredo que diz:

“Ô,ô, a casa grande não sustenta temporais/ Ô, ô, veio dos Pampas para salvar Minas Gerais”

https://www.flickr.com/photos/delcueto/albums/72177720313139456/

Já a origem do estopim da Revolta da Chibata, essa não faz parte do samba. Uma rua de Cuiabá leva seu nome. Outra em Diamantino. Na capital de Mato Grosso não existe um logradouro com o nome de João Cândido.

Por aqui, depois da pérola musical de João e Aldir, é a vez do carnaval (mais uma vez), agora no Grupo Especial das Escolas de Samba, na composição de Moacyr Luz, contar a saga da “Revolta da Chibata” no samba que o Paraíso do Tuiuti “apura” nos ensaios de rua e levará à Sapucaí. Segura o refrão:

“Liberdade no coração/ o dragão de João e Aldir/ A cidade em louvação desce o morro do Tuiuti/”

Playlist do ensaio de rua 

https://www.youtube.com/playlist?list=PLNVGym3VNemB2dEk9XmAFaXIFMeT-BqV9

*Valériadel Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “É Carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com





Studio na Colab55

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

O bambu e a flecha



O bambu e a flecha  

Texto e foto de Valéria del Cueto

Queria falar de carnaval. Se pudesse. Esse título também caberia na crônica que imaginava escrevinhar no meio do mundo, pra variar, no domingo. O tema seria o samba do Salgueiro, um canto comovente e realista sobre os Yanomami.


Só que... Hoje é 12 de novembro, Dia do Pantanal.

Antes de ligar o bioma a efeméride vejo o drama que se desenrola em parte da maior planície inundável do mundo. Mais uma vez, como em 2020, ela arde sob os olhares complacentes e cúmplices de quem tem o dever constitucional de preservá-la.

Mesmo assim pensei em manter o foco na folia, ou falar dos planos do réveillon carioca, para compensar o peso dos últimos textos sobre os acontecimentos no Oriente Médio.

Resisti até abrir o “X” e me deparar com postagens do PL. Ele, o Partido Liberal, comemorando o Dia do Pantanal nas redes sociais. Ele e, também, sua parlamentar Carla Zambelli, a dona que correu atrás de um eleitor apontando uma arma pelas ruas de São Paulo nas últimas eleições.

https://t.co/SYdGuYH3iI

Foi a gota d´água para mudar minha melodia de um samba enredo para um lamento nativista. Falo de “Queimada”, um dos socos no estômago que levei na 10 Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, a primeira que acompanhei, em 1980. Defendida por Miguel Gonzalez, Os Uruchês e o piano triste e pungente de Cide Guez, sua melodia acompanha e sublima as imagens poéticas da agonia da terra e dos animais. Os versos finais dizem: “É hora do homem parar de agredir, ou gerações futuras serão caravanas errantes, condenadas a morte na fome numa terra que não vai parir”.


Ali caiu minha ficha da responsabilidade que tenho como cidadã desse mundão de não me omitir para alertar, a quem interessar possa, sobre o tamanho da encrenca em que nos metemos ao mexer com o planeta como estamos fazendo. É uma luta longa, muitas vezes inglória e frustrante. Mas, como diz o título do texto, se tem bambu, tem flecha.

E essas são as flechas que carregam mensagens a você, leitor, para alertá-lo a não se deixar enganar por banners motivacionais postados por aqueles que, com seus votos, colaboram de forma direta e criminosa para a destruição de nossas riquezas naturais.

Como assim? O partido que abriga representantes da bancada do agro, (a que quer ampliar a área de plantio às cabeceiras do Pantanal, demarcá-lo na vazante e não na cheia, fazer PCHs - Pequenas Centrais Hidroelétricas, interferindo no curso natural das águas que garantem o frágil equilíbrio do bioma, a mesma que incentiva o avanço indiscriminado agrícola no Cerrado, principalmente na chamada zona do Alto Paraguai), exaltando o Dia do Pantanal? Nele também pontifica a bancada da bala, que avança com projetos de liberação da caça!

Menciono um partido, mas sabemos que esse vírus invasivo permeia outros. Eles desenvolvem ações orquestradas nas câmaras parlamentares municipais, estaduais e federais que corroem a rede de proteção ambiental. O que tem de gente fazendo cara de paisagem, como se nada estivesse acontecendo. O que tem de manipulação de dados e informações!

Todo cuidado é pouco, por exemplo, quando o diligente ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, cria de Blairo Maggi, o eterno Motoserra de Ouro, “recorta” dados sobre o agro que não respeita as normas ambientais usando o santo nome de sua colega Marina Silva, do Meio Ambiente, em vão. “Ela disse que menos de 2% dos agricultores cometem delitos”, afirma o pupilo do magnata da soja, “mais de 98% agem de forma correta”, conclui.

Sabe conversa pra boi dormir? É por aí. O que ele não menciona é a quantidade absurda de terras que os “menos de 2%” detém. São os latifundiários que controlam a maior parte. Hoje, 0,7% das propriedades têm área superior a 2 mil hectares. Mas... somadas elas ocupam 50% das terras agricultáveis. Portanto, olha o tamanho do espaço em que esse pequeno e privilegiado contingente pode fazer estragos. Isso se chama manipulação de dados.

E, como ainda tem bambu, não custa nada flechar a meia informação tendenciosa de quem, como gestor público, contribui para colocar lenha na fogueira que arde sem a devida prevenção e contenção no Pantanal e no Cerrado, enquanto vende ao mundo a “defesa” da Amazônia.

Tudo parte do mesmo movimento, o alvo a ser atingido por informações claras que desmascarem a minimização de um problema gigantesco, concentrado e com recursos quase infinitos para patrocinar candidaturas, postergar ações judiciais e vender conceitos como o de que “O AGRO é POP”, botando no mesmo balaio os mega tubarões e o agricultor familiar pra confundir a cabeça do povo. Sinceramente, não acho que seja fácil mensurar o tamanho do problema e das forças que enfrentamos.

Então, deixo uma sugestão. Especialmente aos mato-grossenses que seguiram até aqui a trajetória dessa flecha.

Abra sua janela, tente ver o horizonte e inspire fundo o ar contaminado pelas consequências da ganância que destrói o meio e corrói a qualidade do nosso ambiente. Olhe em volta. Pense no futuro.

Agradeça se (ainda) houver algum bambu a seu alcance. E lute!

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM... pantanalsemfim.wordpress.com




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terça-feira, 31 de outubro de 2023

(Ch)orando mando a dor embora

(Ch)orando mando essador embora  

Texto e foto de Valéria del Cueto

A casa no meio do mundo é de Oxum. Como eu, ela chora. Vejo fios de suas lágrimas nas paredes azulejadas. Sinto o piso molhado quando caminho descalço em direção as janelas para fechá-las. Hoje isso é um perigo. Um copo escorregou do escorredor e se esfacelou no chão da sala.

A única maneira de secar o pranto acumulado entre as paredes é impedindo a entrada da umidade carregada pelo ar puro do rio que serpenteia ao lado da garagem no andar de baixo.

É como meu reservatório de choração. Nada de conter, tem que esvaziar. Prefiro quando consigo abrir o peito e deixar o choro desabar como cachoeira. Pronto, passou. Mas tem lamento que é de corixo. Vem mansinho, vai longe passeando entre a vegetação ribeirinha e tentando dar uma paradinha. É pranto de remanso. A cada música, lembrança, pensamento...

Esse é aquele que a lágrima fica pendurada e desce devagar, fazendo cócegas no rosto. Até outro dia tinha mantido a promessa de chorar preferencialmente por coisas boas.

Tirando a tristeza, o que me faz chorar com mais facilidade é a raiva. É uma reação imediata. Nem estou “chorando” e as lágrimas já começam a rolar abusadas e desobedientes. Como dizia Carol, chefe de gabinete de Luizinho Soares e escudeira de vida dele, espantada: “E você nem faz careta. Não fica com cara de choro”!

Pois é. O “X” da questão é o que vem depois. Pra mim, esse rompimento de represa é um sinal de que há o risco de virar bicho. Para evitar esse processo tenho corrido de demandas. Deve ser a tal sabedoria da idade. Funciona até a terceira página. Daí pra frente...

Estou chorando. Me prometi uma crônica quinzenal. A meus editores e leitores. Para isso, insisto, logo, penso... E acabo me enroscando porque apesar de ter tanto a dizer (não me pergunte como, depois dessas centenas de textos publicados) não consigo organizar de forma clara as ideias.

Ao som do violão payador de Noel Guarany sigo no ritmo da vassoura com que (esqueci que o piso está chorando) puxo pra fora de casa a poeira em pleno domingo tentando limpar a alma e organizar a crônica. Sou péssima na função, mas gosto de fazer a vassoura riscar o chão chiando e dançando ao ritmo da milonga, no momento.


Para tudo! Corta o plano para quando mal imagino a poeira sufocante e quente da terra arrasada de Gaza. Para não abrir as janelas (mais umidade porque meu choro já começou) corro pra porta. Do lado de fora o vento e os passarinhos. Os que, certamente, não passeiam assanhados entre os escombros provocados pelas mãos dos homens da guerra. E ele rola...

Pra escrevinhar essa crônica meu refúgio é ao lado dela, a queda d’água. Um desvio do rio que já dialogou com você, leitor, em outras ocasiões. Oxum canta pra mim.

Sinceramente, entendo o todo, mas não alcanço os pormenores que fazem alguém achar que tem direito adquirido a qualquer tipo de morticínio. Seja lá quem for. Penso nas mães vendo seus filhos transformados em máquinas assassinas a disposição da sanha de políticos desequilibrados.

Não estou preparada para represar as lágrimas de impotência e desalento diante de tanto horror. Nelas, derramo parte da dor que sinto por quem sofre, os que realmente se esforçam para tentar evitar a barbárie e todos os que, como podem, se manifestam mundo afora pela causa palestina, no caso.

As lágrimas de raiva e revolta vão para aqueles que, por conveniência e oportunismo, passam pano para o espetáculo pavoroso que o mundo acompanha atônito em tempo real.

Aos insanos que promovem e incentivam mais um genocídio com reflexos planetários um alerta divino.  Está tudo lá anotado no caderninho de Deus. Aquele de Amor. A volta, infelizmente, virá. É a lei do retorno em looping universal.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquandrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

 


Studio na Colab55

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Ainda somos. Ainda...


Ainda somos. Ainda...

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Buenas que me achego, querida cronista, e vamos ao que interessa pois sei que, por mais humano que ande ultimamente, não posso ser o motivo do atraso da publicação regular dessas crônicas (In)finitas. Seria o fim da picada do Sem Fim que o único frequentador dessas páginas literalmente de outro planeta tenha uma atitude tão característica dos terráqueos: o famoso “deixar o outro na mão”. Destaco que é pelo raio de luar que invade sua cela que lamento a falta de tempo para burilar melhor essa cartinha.

Acontece que os fatos se atropelam e abalroam de uma forma alucinante por aqui. De uma passagem meteórica pela ArtRio, na Marina da Gloria, pra beber da fonte das artes contemporâneas naquela paisagem deslumbrante carioca, vindo das enchentes que assolaram o “Sul Maravilha” (como dizia a iludida Graúna de Henfil), pluctplacteei direto para New York. Aqui, líderes mundiais se reúnem na 78 Assembleia Geral da ONU, com o lema “Paz, Prosperidade, Progresso e Sustentabilidade”. Se quiser acompanhar e ter um choque de (i)realidade é só se ligar no canal da ONU.

Ao contrário dos últimos encontros mundiais, as agendas estão lotadas de reuniões e compromissos brasileiros referentes a temas prementes como a Guerra da Ucrânia, a divisão das riquezas e a erradicação da pobreza, o colapso climático, fontes renováveis de energia, a preservação da Amazônia. De novo é que é o Velho que recoloca o Brasil na foto das pautas essenciais da humanidade.  

Cronista, o planeta está estrilando! Emitindo sinais pra todos os lados que seu esgotamento. Nos continentes e oceanos há indicações desse exaurimento. As emergências climáticas pipocam com força e amplitude. Não precisamos ir longe, geográfica e temporalmente.

Essa semana acaba o inverno e começa a primavera. Depois do junho mais quente, o julho suplantando o mês anterior e um agosto campeão no quesito, a meteorologia alerta que por esses dias as temperaturas serão recordes aí no Brasil. Se no Sul anunciam mais uma “onda de chuvas”, a panela do Planalto Central chia de tão aquecida e irradia seu insuportável calor de mais de 40 graus para o restante do país. Sem o alívio ou pena de quem, apesar dos alertas, anda a devastar a Floresta e o Cerrado acabando com o corredor de nuvens que vem da Amazônia.

Pensa, cara cronista isolada voluntariamente do outro lado do túnel, na diferença de abordagem do Brasil nesses e outros temas perante os governantes globais. Não que adiante muito, já que falar é mais simples que fazer. Mas, convenhamos, já é um avanço.

Enquanto aqui na Terra o pau está quebrando pra todos os lados, num mundo cada vez mais radicalizado em larga ou pequena escala (agora, a República Dominicana fechou suas fronteiras com o Haiti), a exploração espacial avança tão rápida como a velocidade do som multiplicada pela da luz. A Rússia não conseguiu sucesso na sua missão espacial. Já a Índia chegou ao lado escuro da lua. Lembrei muito do dia em que tive o prazer de, por seu intermédio, ouvir “Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd. Sabia que lançaram uma versão remasterizada para os 50 anos do grupo? Tão poético...



Também anunciaram a existência de um planeta “com sinais de vida”. O K2-18b é oito vezes maior que a Terra e está logo ali, a 120 anos luz daqui, na constelação, veja só, de Leão. Aliás, assim como quem não quer nada continuam aparecendo evidências de que extraterrestres circulam ou já estiveram no pedaço. Até corpos preservados foram apresentados na Câmara dos Deputados do México!

Cronista, vou parar por aqui. Sei que o assunto parlamentar aguça seu interesse. Mas, parodiando um hino da Portela, composição do saudoso Monarco (aprendi bem) “...se for falar da Câmara dos Deputados brasileira, hoje eu não vou terminar...” E olha que o assunto não envolve corpos de extraterrestres, mas múmias insepultas que assombram a vida política do país. As que tentam deixar o governo federal refém de suas já conhecidas e contumazes falcatruas, como o famigerado orçamento secreto e a distribuição desigual de cargos e ministérios para a aprovação das pautas de interesse popular.

Melhor deixar pra próxima missiva, porque tem assunto pra mais de metro...    

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com



Studio na Colab55

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Vai quem quer


Vai quem quer

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Não vou nem dar tempo para pensar. É pegar e não largar. Começar a escrever. Como prometi no último texto. Fiquei pensando nessa dificuldade de manter uma produção regular do que escrevo no papel (na cabeça é o tempo todo).

Depois de desistir de encontrar uma causa-mor e com receio de elencar razões tão poderosas que me convençam a, ao materializá-las no papel, largar mão desse que é um dos meus ofícios desde 2004 (se não me falha - o que é possível- a memória, mudei o rumo da prosa. Não chego aos pés da produção sensacional de Gabriel Novis Neves mas garanto um honroso lugar nesse quesito de contação.

Enfim optei por um argumento que, espero, não me leve a nenhuma medida drástica e definitiva. Acontece que no momento estou dando um tiro um pouco mais longo. É um texto com mais do que as duas laudas convencionais do espaço que ocupo e, vez por outra, extrapolo nas páginas do Ilustrado do Diário de Cuiabá.

Cada vez que largo esse trabalho que, diga-se de passagem, vem sendo atropelado por outras missões, mudo o foco e perco o fôlego dessa maratona literária.

Foram algumas paradas para selecionar imagens para as exposições “A força feminina do Samba”, no Museu do Samba, aberta no final de julho; “Artesania Ancestral nos 95 anos da Mangueira”, no CRAB/Sebrae, agora no final de agosto, e a “Mangueira - Carnaval 2023”, no mezanino do Centro de Memória Verde e Rosa do Palácio do Samba. Essa, ainda sem data para a abertura.

Estou concentrada e vendo passar ao longe vários eventos que estão marcando a já iniciada temporada do carnaval 2024.

O mais interessante até o momento é, sem dúvida, a Fênix renascida da escolha do Rei Momo e da Corte Carioca. O que mudou? Pra começar a data da disputa. Saiu de um período cheio de eventos no final do ano para uma época em que há um vácuo na agenda da folia.

A segunda mudança foi a indicação das concorrentes que deixou de ser individual e passou a ser feita pelas agremiações. O povo do samba assumiu disputa e acatou a demanda. Pontaço pra a Riotur. As comunidades vestiram as cores de suas camisas e ocuparam a Cidade do Samba defendendo e torcendo por seus candidatos a Rei Momo, Rainha e Princesas do Carnaval 2024.

Foi um sucesso de público e engajamento nas redes sociais. E, se não rompeu, deixou a bolha carnavalesca em evidência por várias semanas seguidas recheada de mulheres divinas. As eliminatórias e a final transmitidas pelo youtube.

A escolha da corte emenda com as disputas dos sambas enredo que prometem e lotarão as quadras, agitando o mundo do carnaval, até o feriadão de outubro. É o prazo para que as obras sejam definidas e as escolas entrem em estúdio para as gravações oficiais.

Exatamente para fugir dessa agitação é que me isolei no meio do mundo. Também é por isso que me esforço em manter a periodicidade das crônicas novamente. Se não for dessa maneira corro o risco de perder o contato com o mundo exterior, mergulhada no texto e imagens que exigem fôlego de nadador.

No caso atual de nadador com pouca ou nenhuma experiência em tiros longos, como o que me proponho agora. Confesso me dá um certo medinho de morrer nessa praia desconhecida e, por enquanto, inóspita.

O que me salva e segura minha onda são as participações coletivas nas exposições que mencionei, e, informo, ficarão abertas por bastante tempo.

Até o final do ano, no caso da “A força feminina do Samba”, e, esticadas para depois do carnaval, a do CRAB/Sebrae e a do Centro de Memória.

Deixo aqui, caros e fiéis leitores que passarem pela Cidade Maravilhosa, um convite para visita-las. Quem sabe, avisando com antecedência, não saio do meio do mundo para uma visita guiada?

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “É Carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


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terça-feira, 27 de junho de 2023

Longe perto


Longe perto

Texto e foto de Valéria del Cueto

Como pode ser difícil o que parece fácil.

O único pedido era por uma parada estratégica na praia de segunda. Feira, o dia da semana. O local, como sempre, é de primeira.

A intenção de lagartear na abertura do inverno carioca se justifica pelo dia clássico de céu de brigadeiro e um calor incomum de fim de junho. Fui.

“Só pode morar na favela”, observa o vendedor ambulante, desviando minha atenção do caderninho e da escrevinhação, motivo mais que justo para a parada solitária nas areias de Ipanema.

“...pra estar correndo atrás de pombo, só pode ser da favela”, especifica o precursor das areias enquanto a revoada passa e os pássaros riscam o azul anil do firmamento. Nota 5, e olhe lá, no quesito dedução.

Acontece que quem provoca rebuliço é “Joêi”, uma bola de pelo branquinho que veio marcar território assim que estendi a canga, já no meio da tarde, debaixo do paredão da mureta, pros lados da entrada do Arpoador.

“Vem cá Joêi”, chama a dona do cachorrinho quando ele se aproximou enquanto, disposta a cumprir minha missão, abria a bolsa e tirava meus instrumentos, o papel e a caneta, sem dar trela. Por isso sabia o nome do chow chow espevitado.

Olhei em direção ao vendedor que, junto comigo, apreciava a farra do animalzinho atrevido se criando na direção da pombarada fazendo alvoroço.

Ao sentir que o observavam, o casal e eu, emendou: “Ih, esse não é da favela, está limpo demais, branquinho desse jeito”, recebendo um sorriso complacente da dona de Joêi.

“É, mas pensando bem, que cachorro resistiria a essa chance?”, desenrola filosofando o ambulante apresentando seu produto ao casal com a “criança” no colo, formando o quadro da foto (que não vou tirar, vai ficar no texto descritivo). Registro pronto pra posteridade. A moça havia colocado óculos escuros no cachorro!

Sem abertura ao diálogo que permitiria uma oferta de seu produto o vendedor se satisfaz com o sorriso orgulhoso dos pais do bichinho e segue fazendo seu aboio pela areia quase vazia.

Fico eu, tentando lembrar qual era mesmo o fio que ia desenrolar pra esse texto e ainda pensando no que no que ouvi: “só pode ser da favela” e como o preconceito se apresenta de forma tão natural, inconsciente até, por quem sofre com ele.

Acho que sou que nem o animal que não (re)conhece seu lugar. Não posso ver um movimento que quero fazer marola. De vez em quando sou bem recebida. Outras vezes, como fiz com Joêi, sou ignorada. Também tem horas que consigo enfeitar o céu, desenhar no o azul bordando feliz a paisagem da vizinhança literária.

Sinto que estou desenrolando bem por aqui!

Especialmente para quem quase não conseguiu chegar ao paraíso. Foi um longo percurso que passou pelo purgatório de tentar dialogar com a ouvidoria da Claro.

A cia telefônica dedicou a vários amigos que, sabendo que não uso whatsapp, tentaram contato no dia do meu aniversário a singela mensagem que dizia: “Esse celular está programado para não receber chamadas”.

Foram horas pra explicar que que não havia ligado no dia porque não havia a menor possibilidade de me dedicar a esse processo kafkaniano e masoquista justamente quando tudo que queria era comemorar a vida!

Foi depois de desenrolar essa demanda, na primeira segunda-feira de desaniversário e de inverno, que me joguei aqui no longe perto de Ipanema pra dar um alô ao Joêi, meu novo amigo despreconceituoso, perseguidor de pombos indefesos e me reconectar a você, leitor.

Bom inverno!     

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com


 

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