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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Mais um adeus, Mato Grosso

Mais um adeus, Mato Grosso

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Alguns textos são difíceis de escrever. São aqueles que concretizam ações que, até estarem no papel, eram apenas possibilidades distantes. Algumas boas, outras nem tanto.

Poucos anos após chegar em Mato Grosso, depois da campanha política de 1988, apareceu uma oportunidade de comprar uma terra na Chapada do Guimarães. Uma área rural, na beira da estrada da Água Fria, perto do Colégio Buriti.

Quem me botou na fita foi Luizinho Soares. Viramos vizinhos. Na hora da venda eu estava viajando. Na confiança foi feita uma procuração para um terceiro para que, mais tarde (e demorou por inconsequência de minha parte), a escritura fosse lavrada em meu nome.

Quando voltei e vi o meu latifúndio de cem hectares, me apaixonei perdidamente. O que era aquele horizonte? Meu lugar na terra!

Fiz muitos planos para a área que, para mim, era uma imensidão. Para começar, escolhi o lugar da casa. Na beira das únicas árvores altas existentes na extensão do terreno.

Logo comecei a ver as dificuldades da empreitada. Fazer a cerca, puxar a energia elétrica. Cavar poço para achar água ou trazer do Monjolinho, cuja nascente, formadora do Véu da Noiva, estava um pouco acima?

Me planejei para executar essas etapas com o que pretendia ganhar nas campanhas políticas seguintes.

Bastaram duas eleições para entender que aquele não era o desejo dos deuses. Cada vez que me preparava para um avanço, levava um cano! Foi assim com o projeto arquitetônico, com os fundos para construir a casa tão sonhada... 

Como não brigo com o universo, acatei a mensagem e desisti da empreitada.

Durante um tempo uma família morou por lá. O marido era o caseiro, a mulher trabalhava no Buriti, onde as crianças estudavam. Fizeram um pequeno pomar e plantaram um pouco de abacaxi. 

Até o dia em que o caseiro me disse que “não recebia ordens de uma mulher”. Detalhe: naquele momento estava solteira. Num arranjo providencial a família foi prestar serviço numa propriedade vizinha.

As terras ficaram abandonadas? Não. Era como se estivessem cobertas pelo manto da invisibilidade. Sempre tive a segurança de que o vizinho estava de olho no que acontecia por lá.

Quantas vezes, nos períodos em que estive fora de Mato Grosso, me perguntei por que não me desfazia da Estância Vista Alegre, tão longe, de mim distante?

Bastava voltar à Chapada, passar pela porteira da terra do Cabeção, que dava acesso às minhas posses, olhar para os pés de pequi e outras espécies nativas para ter essa resposta. 

Ali estavam minhas raízes mato-grossenses. Daquela terra linda eu era a guardiã!

Decidi que aqueles hectares seriam Cerrado natural. Intocado e preservado. Onde a vegetação se expandisse. Um espaço à riqueza inexplorada que o bioma nos proporciona e que aproveitamos tão mal. E assim foi, sem alarde, por décadas.  

Os orixás abençoaram minhas intenções e, juntos, protegemos a vegetação e os animais que por ali circularam livremente por 38 anos. 

Uma única vez o fogo lambeu a Estância. Foi na década de 1990. Vi a terra se regenerar, renascer e voltar à sua forma exuberante.

Mas os tempos mudaram. A estrada para a Água Fria foi asfaltada. A cidade se expandiu naquela direção. O que era área rural está virando urbana. 

Luizinho partiu e, com ele, o manto de proteção e a ligação que nos unia no lugar se romperam.

Um dia, no Rio, recebi uma mensagem espiritual. Dizia: “Cuida do que é seu”. Respondi que o faria assim que pudesse. A réplica foi: “Agora!”

Segui para o Chapada imediatamente. Foi no final do ano passado. Bem na hora. Havia várias sondagens para levantar em órgãos públicos a quem o terreno pertencia. Mau sinal...

Pedi ajuda a Exu, o que abre os caminhos, quando pisei no trecho que corta a terra e meu destino, para não sucumbir mais uma vez aos encantos mágicos da Estância Vista Alegre. Para, finalmente, transferir a outra dimensão este laço que, por quase quatro décadas, me uniu a Mato Grosso.

Agora, corro uma maratona para regularizar a documentação da terra. Georreferenciamento, escritura, Incra, Sema, Receita e o que mais vier. E olha que, na medida do possível, sempre procurei me manter em dia com minhas obrigações.

Oxóssi, o caçador, e Oxum, a mãe dos rios, que por esse tempo protegeram meu pedaço de chão, agora dividem a missão com Nossa Senhora de Santana, padroeira da Chapada dos Guimarães. Mais um elo da corrente de amor que me liga a essas paragens que tão bem me receberam se rompeu.

É tempo de mais um adeus, Mato Grosso...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com




Studio na Colab55

terça-feira, 31 de outubro de 2023

(Ch)orando mando a dor embora

(Ch)orando mando essador embora  

Texto e foto de Valéria del Cueto

A casa no meio do mundo é de Oxum. Como eu, ela chora. Vejo fios de suas lágrimas nas paredes azulejadas. Sinto o piso molhado quando caminho descalço em direção as janelas para fechá-las. Hoje isso é um perigo. Um copo escorregou do escorredor e se esfacelou no chão da sala.

A única maneira de secar o pranto acumulado entre as paredes é impedindo a entrada da umidade carregada pelo ar puro do rio que serpenteia ao lado da garagem no andar de baixo.

É como meu reservatório de choração. Nada de conter, tem que esvaziar. Prefiro quando consigo abrir o peito e deixar o choro desabar como cachoeira. Pronto, passou. Mas tem lamento que é de corixo. Vem mansinho, vai longe passeando entre a vegetação ribeirinha e tentando dar uma paradinha. É pranto de remanso. A cada música, lembrança, pensamento...

Esse é aquele que a lágrima fica pendurada e desce devagar, fazendo cócegas no rosto. Até outro dia tinha mantido a promessa de chorar preferencialmente por coisas boas.

Tirando a tristeza, o que me faz chorar com mais facilidade é a raiva. É uma reação imediata. Nem estou “chorando” e as lágrimas já começam a rolar abusadas e desobedientes. Como dizia Carol, chefe de gabinete de Luizinho Soares e escudeira de vida dele, espantada: “E você nem faz careta. Não fica com cara de choro”!

Pois é. O “X” da questão é o que vem depois. Pra mim, esse rompimento de represa é um sinal de que há o risco de virar bicho. Para evitar esse processo tenho corrido de demandas. Deve ser a tal sabedoria da idade. Funciona até a terceira página. Daí pra frente...

Estou chorando. Me prometi uma crônica quinzenal. A meus editores e leitores. Para isso, insisto, logo, penso... E acabo me enroscando porque apesar de ter tanto a dizer (não me pergunte como, depois dessas centenas de textos publicados) não consigo organizar de forma clara as ideias.

Ao som do violão payador de Noel Guarany sigo no ritmo da vassoura com que (esqueci que o piso está chorando) puxo pra fora de casa a poeira em pleno domingo tentando limpar a alma e organizar a crônica. Sou péssima na função, mas gosto de fazer a vassoura riscar o chão chiando e dançando ao ritmo da milonga, no momento.


Para tudo! Corta o plano para quando mal imagino a poeira sufocante e quente da terra arrasada de Gaza. Para não abrir as janelas (mais umidade porque meu choro já começou) corro pra porta. Do lado de fora o vento e os passarinhos. Os que, certamente, não passeiam assanhados entre os escombros provocados pelas mãos dos homens da guerra. E ele rola...

Pra escrevinhar essa crônica meu refúgio é ao lado dela, a queda d’água. Um desvio do rio que já dialogou com você, leitor, em outras ocasiões. Oxum canta pra mim.

Sinceramente, entendo o todo, mas não alcanço os pormenores que fazem alguém achar que tem direito adquirido a qualquer tipo de morticínio. Seja lá quem for. Penso nas mães vendo seus filhos transformados em máquinas assassinas a disposição da sanha de políticos desequilibrados.

Não estou preparada para represar as lágrimas de impotência e desalento diante de tanto horror. Nelas, derramo parte da dor que sinto por quem sofre, os que realmente se esforçam para tentar evitar a barbárie e todos os que, como podem, se manifestam mundo afora pela causa palestina, no caso.

As lágrimas de raiva e revolta vão para aqueles que, por conveniência e oportunismo, passam pano para o espetáculo pavoroso que o mundo acompanha atônito em tempo real.

Aos insanos que promovem e incentivam mais um genocídio com reflexos planetários um alerta divino.  Está tudo lá anotado no caderninho de Deus. Aquele de Amor. A volta, infelizmente, virá. É a lei do retorno em looping universal.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquandrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

 


Studio na Colab55

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

2018, a mensagem dos orixás

2018, a mensagem dos orixás

Como em dezembro andei pela tríplice fronteira, na 40 Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, a subida para Araras, foi mais certeira. Nem antes, nem depois... Foi no Sítio das Mulatas, em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, em busca de renovação e  boas energias para 2018, que passei o réveillon.

Teve chuva forte, chuva mansa e vento nos dias que antecederam a passagem de ano. Mas a lua quase cheia deu o ar da graça na virada. E o sol apareceu para clarear os  remansos e quedas do Córrego das Mulatas, com as mensagens da mata e das cachoeiras.

É só sintonizar e captar os sinais no playlist do Canal del Cueto.

http://www.youtube.com/playlist?list=PLNVGym3VNemDJbO75syNMWBewGIlnHlMZ

Se quiser comparar com 2017, a mensagem dos orixás, é só clicar.

*A foto da postagem foi uma produção conjunta. Flávia Guimarães trouxe a folha dos caminhos do córrego das Mulatas e cedeu a mão firme para a realização do conceito que, certamente, em breve está numa peça do Studio@delcueto. Até a novidade chegar por lá, aproveite as coleções dispiníveis

Um bom 2018 para todos!

Valéria del Cueto

Studio na Colab55

domingo, 31 de dezembro de 2006

VOLTA AO LAR

VOLTA AO LAR

De Valéria del Cueto
Dezembro de 2006
Hoje é sexta. São 4 horas estou na praia, em plena ponta. Do Leme, é claro! Mas não é um dia como os outros em que, daqui, filosofo, exercito minhas idéias poucas e/ou penso na vida...

Esta sexta é especial. É dia de louvação. Oito de dezembro. De agradecimento. Dia e Nossa Senhora da Conceição. De oração. Salve Oxum, minha mãe.

Não pratico o candomblé, mas hoje sou filha da santa: fita enfeitando, vela para iluminar, rosas amarelas para ofertar.

Tudo para louvar, muito pra agradecer. Certamente, sem a ajuda dela, não teria navegado nos meses secos do cerrado, no Planalto Central, nem conseguido superar a sensação de rejeição e desamor que reina no início desse tipo de travessia.

Não teria tido a paciência de tramar, junto com pessoas maravilhosas que se uniram nesse caminho, uma teia forte e resistente que pudesse catapultar as coisas incríveis que vivemos por lá.

Foi Oxum, sim, quem adoçou a força de Oxossi, o guerreiro que detesta injustiças que se abriga no meu eu masculino. Ela trouxe a serenidade diante dos absurdos cotidianos e o carinho para tentar consolar os carentes de qualquer tipo de amor.

A ela agradeço agora e sempre, a compreensão, ainda que tardia, de que nem todos estão cobertos de boas intenções, mas que, por pior que estas sejam, lá no fundo, ainda brilha uma luz vacilante (em alguns momentos) que, no final, ofuscará as dores, inibirá o sofrimento e nos guiará para nossos afetos verdadeiros.

A minha luz está aqui comigo. Refletida no melhor lugar do meu mundo. Ou melhor... sou, novamente, da Ponta.

Para daqui, olhando o oceano, ouvindo o barulho do mar, sentindo o sol dourar minha pele, o vento desarrumando insolentemente meus cabelos, esfregar meus pés na  areia e, através deles, trocar energia com meu lugar. Ele faz parte de mim física e mentalmente. Para ele trago minhas mágoas, nele comemoro minhas pequenas e grandes vitórias, com ele divido meus segredos.

Depois de tantos meses ausente, guardei meu retorno para esse momento de louvação à minha mãe Oxum, ao meu lastro de vida, a um renovar constante e independente da minha própria vontade, como aprendi este ano que termina.

Trouxe flores, trouxe fita, acendi vela, tudo pra ela, sempre por ela. Mãe que encaminha, mulher que deseja. Como eu.

Não quero muito, só o que me é de direito. Por nascimento e, sempre, por opção. Me dê a Ponta, meu Leme e o mar, que já está de bom tamanho. Este lugar que é abrigo e repouso da minha alma.

Do resto, Oxossi, meu santo guerreiro e protetor das matas e florestas se encarrega.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito
Este artigo faz parte da Série "Ponta do Leme"