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terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Beija-flor carnaval 2025 ensaio técnico 250201

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(C)2025 Valéria del Cueto, all rights reserved.  Imagem protegida pela lei 9610/1998

A Beija-flor de Nilópolis foi a segunda escola a se apresentar na noite do segundo sábado, 01 de fevereiro de 2025, dos ensaios técnicos na Sapucaí para o carnaval 2025.

Apresentou elementos de seu enredo para o carnaval 2025, "Laíla de Todos os Santos, Laíla de  Todos os Sambas", do carnavalesco João Vitor Araújo.

Agradecimentos aos componentes da Beija- Flor, à Liesa, Rio Carnaval e Riotur.
Imagens de Valéria del Cueto / acervo carnevalerio.com


Ensaio fotográfico e vídeos publicados no canal @del Cueto, no Youtube de (C)2025 Valéria del Cueto, all rights reserved 
@no_rumo do Sem Fim… @delcueto para CarnevaleRio.com

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terça-feira, 31 de outubro de 2023

(Ch)orando mando a dor embora

(Ch)orando mando essador embora  

Texto e foto de Valéria del Cueto

A casa no meio do mundo é de Oxum. Como eu, ela chora. Vejo fios de suas lágrimas nas paredes azulejadas. Sinto o piso molhado quando caminho descalço em direção as janelas para fechá-las. Hoje isso é um perigo. Um copo escorregou do escorredor e se esfacelou no chão da sala.

A única maneira de secar o pranto acumulado entre as paredes é impedindo a entrada da umidade carregada pelo ar puro do rio que serpenteia ao lado da garagem no andar de baixo.

É como meu reservatório de choração. Nada de conter, tem que esvaziar. Prefiro quando consigo abrir o peito e deixar o choro desabar como cachoeira. Pronto, passou. Mas tem lamento que é de corixo. Vem mansinho, vai longe passeando entre a vegetação ribeirinha e tentando dar uma paradinha. É pranto de remanso. A cada música, lembrança, pensamento...

Esse é aquele que a lágrima fica pendurada e desce devagar, fazendo cócegas no rosto. Até outro dia tinha mantido a promessa de chorar preferencialmente por coisas boas.

Tirando a tristeza, o que me faz chorar com mais facilidade é a raiva. É uma reação imediata. Nem estou “chorando” e as lágrimas já começam a rolar abusadas e desobedientes. Como dizia Carol, chefe de gabinete de Luizinho Soares e escudeira de vida dele, espantada: “E você nem faz careta. Não fica com cara de choro”!

Pois é. O “X” da questão é o que vem depois. Pra mim, esse rompimento de represa é um sinal de que há o risco de virar bicho. Para evitar esse processo tenho corrido de demandas. Deve ser a tal sabedoria da idade. Funciona até a terceira página. Daí pra frente...

Estou chorando. Me prometi uma crônica quinzenal. A meus editores e leitores. Para isso, insisto, logo, penso... E acabo me enroscando porque apesar de ter tanto a dizer (não me pergunte como, depois dessas centenas de textos publicados) não consigo organizar de forma clara as ideias.

Ao som do violão payador de Noel Guarany sigo no ritmo da vassoura com que (esqueci que o piso está chorando) puxo pra fora de casa a poeira em pleno domingo tentando limpar a alma e organizar a crônica. Sou péssima na função, mas gosto de fazer a vassoura riscar o chão chiando e dançando ao ritmo da milonga, no momento.


Para tudo! Corta o plano para quando mal imagino a poeira sufocante e quente da terra arrasada de Gaza. Para não abrir as janelas (mais umidade porque meu choro já começou) corro pra porta. Do lado de fora o vento e os passarinhos. Os que, certamente, não passeiam assanhados entre os escombros provocados pelas mãos dos homens da guerra. E ele rola...

Pra escrevinhar essa crônica meu refúgio é ao lado dela, a queda d’água. Um desvio do rio que já dialogou com você, leitor, em outras ocasiões. Oxum canta pra mim.

Sinceramente, entendo o todo, mas não alcanço os pormenores que fazem alguém achar que tem direito adquirido a qualquer tipo de morticínio. Seja lá quem for. Penso nas mães vendo seus filhos transformados em máquinas assassinas a disposição da sanha de políticos desequilibrados.

Não estou preparada para represar as lágrimas de impotência e desalento diante de tanto horror. Nelas, derramo parte da dor que sinto por quem sofre, os que realmente se esforçam para tentar evitar a barbárie e todos os que, como podem, se manifestam mundo afora pela causa palestina, no caso.

As lágrimas de raiva e revolta vão para aqueles que, por conveniência e oportunismo, passam pano para o espetáculo pavoroso que o mundo acompanha atônito em tempo real.

Aos insanos que promovem e incentivam mais um genocídio com reflexos planetários um alerta divino.  Está tudo lá anotado no caderninho de Deus. Aquele de Amor. A volta, infelizmente, virá. É a lei do retorno em looping universal.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquandrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

 


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terça-feira, 11 de outubro de 2022

Horizonte


Horizonte

Texto e foto de Valéria del Cueto

Se não for no tranco é barranco. Não estava nos planos uma carta na manga no meio do caminho que era para ter terminado ali atrás. Não sei aí, querida cronista, mas por aqui é hora de sair da inércia.

Há muito em jogo! No momento, na mão de poucos. Isso, se compararmos com o total impactado pela decisão das urnas no Brasil. Falo dos que agora escolherão seu presidente migrando de outras opções, dos candidatos derrotados, votos nulos, brancos, abstenções. E, quer saber? Amiga isolada do outro lado do túnel, introjetei o espírito desse eleitor e já tenho lado.

O que não faz do seu amigo Pluct Plact, esse extraterrestre extraviado, um ser incapaz de ouvir os opositores. Ouvir, tentar entender e, confesso, não compreender como tantos se revelam (e como o fazem) diante das opções disponíveis. Que os incautos caiam na ladainha da família ameaçada, da liberrrrdade sem reciprocidade, da fé sendo testada nas colinhas obrigatórias, até entendo.  Mas tenho visto coisas que até Deus duvida quando o assunto é respeito e sensibilidade social.

Transformar a religião em arma de guerra é pecado. Quanta iniquidade é violentar a fé, armar o credo. Tirar de Jesus o manto do amor, da bondade, o estender as mãos aos desvalidos, senão vira... comunista! Como sabe quem, querida amiga? O pop Papa Francisco.

Os próximos dias serão de provação nessa terra, que ironia, abençoada por Deus. Enquanto alguns jejuam por um deus impiedoso da guerra, outros o fazem por necessidade, falta de opção. Não há trégua no avanço do obscurantismo, falsamente intitulado de conservadorismo, dessa extrema-direita com embalagem Nutella.

Eu, graças a vasta experiência no tempo sideral e espaço interplanetário, não coaduno com quem quer calar os oponentes, transformar os que discordam em inimigos. O que não deu certo em outras galáxias, também vai dar ruim aqui, lamento informá-la.

Isso não é política. É a semente maléfica da ditadura, daquele mesmo mal que volta e meia ameaça a evolução. Esse modelo nefasto de governo que você já viu quando era criança e sei, não quer ver nunca mais.

Entendo porque não faz parte do seu perfil ser a favor da tortura, do desrespeito os poderes constituídos. Justo você. Raiz, tronco, galho, folha, flor, fruto e semente da Constituição de 1988.

Os próximos dias, como tantos em outras eleições em que você participou, como me contou, serão de convencimento, conversa e disputa por cada voto a ser depositado nas urnas.

Em nossos encontros pelo raio de luar que invade a cela onde voluntariamente você está recolhida do mundo, convivi com seus sonhos. Ouvi desejos de paz, do equilíbrio e da harmonia por um país em que todos tenham oportunidades iguais e um governo que provenha e acolha a população. As vibrações que recebo, dessa massa de centenas de milhões de pessoas por onde me embrenho, traz o mesmo desejo de educação, saúde, segurança e uma vida digna.

Não é hora de esmorecer, nem se deixar vencer pelo cansaço de lidar com tantos ataques mentirosos, fake news calcadas em sandices histéricas. Que as diferenças sejam respeitadas, as religiões livres em seus direitos de manifestação. Todas!

Não acho que essas eleições sejam uma cruzada do bem contra o mal, nem que um lado deva aniquilar o oponente, como tentam maldosa e criminosamente insuflar. Sem uma ponte para o diálogo não há política. Prática que, para ser salutar, tem que ser plural.

Se você cronista, (como eu, Pluct Plact, imagino), está entre os votos que decidirão as eleições, pense, antes de tudo, em quem lhe dará o sagrado direito de discordar.

Prepare-se! Saia da toca e se jogue na cabine eleitoral, lugar de todos os brasileiros que (ainda) têm o direito de optar pelo que acham melhor para o país. Você tem duas semanas para se decidir. O horizonte lhe aguarda, pronto para ser vislumbrado.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

@delcueto.studio na Colab55

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

A folia sempre alcança


A folia sempre alcança

Texto e foto de Valéria del Cueto

O ar está bem pesado e já se escuta o barulho da chuva. Primeiro foram as trovoadas que chegaram anunciando o que virá daqui a pouco.

Melhor assim, ninguém se lembrará, nem tentará me mover enquanto o céu estiver caindo e as prioridades forem outras. Como os alagamentos que sempre acontecem ali pros lados do Maracanã, por exemplo.

Fico aqui aos seus pés, onde passei desapercebido até uma twittada entregar, com direito a prova documental fotográfica, minha permanência na praça. A despretensiosa postagem na rede social continha a imagem em que grades e tapumes, sabedores e cúmplices da minha ventura, tentavam camuflar meu disfarce alegórico quase abraçado a Apoteose. Ela chamou a atenção do mundo (pelo menos o do samba) para minha localização inusitada.

Sem querer ofender (pelo contrário), o ilustre responsável pelo conteúdo maravilhoso da plataforma Ouro de Tolo, acho que rolou uma certa invejinha boa.

Não pude acreditar quando eu, um chassi apaixonado pelo carnaval, cujo nirvana para o povo do samba é chegar a Apoteose, fui dirigido a esse local icônico após o hiato do calendário carnavalesco provocado pela pandemia.

Quer saber? Pode chamar de paixão, classificar como doença ou dizer que é um vício irrecuperável. Arrio todos os meus pneus pela emoção de cruzar aquela Sapucaí de ponta a ponta. Topo tudo! A imobilidade exasperante e os maus tratos na preparação da alegoria do ano, o peso insuportável dos ferros, madeiras, forrações, esculturas, traquitanas, badulaques. O remelexo extra nos meus já cansados amortecedores das composições e destaques que sacolejam no percurso da pista nos desfiles das agremiações carnavalescas.

Ultimamente atravessava a avenida apenas uma vez por ano, no Grupo Ouro. Mas já reinei imponente numa escola do Especial! Daquelas que além do desfile oficial têm vaga cativa no sábado das campeãs. O esforço de minha robusta estrutura de ferro era reconhecido e saudado pelo concreto armado dos arcos da Apoteose. Sempre gentil e incentivadora dos que se aproximavam. Corações palpitantes, corpos suados, mentes em êxtase no caso dos componentes das agremiações. Sempre dedicou um cumprimento estimulante às estruturas inumanas incorporadas a procissão profana.

Assim nasceu nosso querer. Nos aproximamos num momento em que os acessórios anteriormente descritos, aliado ao calor insuportável da iluminação e parte elétrica da alegoria quase fizeram com que me rendesse ao mau humor recorrente da torre traiçoeira que desejava uma pane nas engrenagens acopladas para travar a maravilhosa apresentação que a escola fazia. Foi o estímulo revigorante da visão dos arcos da Apoteose e sua energia que geraram o esforço extra necessário para impedir o colapso eminente e me fizeram deslizar para o aconchego do seu abraço.

Quando o desgaste natural fez com que fosse substituído por um equipamento mais novo, agradeci ao deus do carnaval por ter sido doado a uma afilhada do grupo de acesso. Pelo menos uma vez por ano podia cair nos braços da Apoteose e, felicidade das felicidades, conseguia avistá-la do barracão situado no bairro do Estácio, nas proximidades da Sapucaí!

Até que a pandemia chegou. Diante do estado deteriorado em que me encontro temi nunca mais voltar ao abraço da icônica escultura de Oscar Niemeyer. Foi quando o milagre aconteceu. Fui acionado e movimentado para a Sapucaí. Meus Deus! E, em vez de uma passagem cronometrada deixado bem ali embalado no berço do samba. Aos pés dos guias, os arcos, e da mítica de minha paixão carnavalesca, a Apoteose.

Até Pedro Migão me notar, registrar e postar.

Não guardo mágoas nem rancor. Se tiver que partir tive o que, talvez, outros não tenham. A oportunidade de matar essa saudade doída ritmada pelos sons distantes que chegam a você, Apoteose, e a mim, chassi véio de guerra, das quadras que começam seus ensaios para o carnaval. Sou pura esperança. Daquele que podemos não saber quando, mas certamente virá.

Como a espera, a folia sempre alcança.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “É carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

@delcueto.studio na Colab55

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Índios


Soa à toa
Ecos recorrentes de pungentes lamentos.
Atento aos murmúrios da floresta?
Choram a dor de perdas permanentes,
insurgentes resíduos recicláveis.
Macerados a cada avanço,
triturados ao som de cantos, dons e saberes.
A mata reclama a presença de seus protetores.
Os Deuses não estão por perto.
Quem pode ajudar?
Persiste a batalha interminável.
Cobiça, (in)justiça, realidade.
Soa à toa,
Vem garimpo, passa boiada,
Trator e corrente.
Ninguém escuta a pergunta.
Resposta vazia.
Soa à toa.
No tranco, na luta, caem os guardiões.
Gritos estrangulados.
Não sobrou ninguém.
Índios?
Eu, heim?

Vagabinha compridinha de Valéria del Cueto, para a série Parador Cuiabano

segunda-feira, 1 de março de 2021

O preço do silêncio


O preço do silêncio

Texto, foto de Valéria del Cueto

O silêncio vale ouro, diz o ditado, e a gente sempre pesa e pensa na ausência das palavras. Ultimamente, talvez por conta da pandemia, a frase adquiriu outro sentido. Muito mais amplo.

O ruído é tanto (e não é o Manifesto), que um momento de silêncio vale grafeno. Sabe o que é? O nanomaterial de carbono puro, (como o diamante) que é leve, condutor de eletricidade, rígido e impermeável.

O silêncio anda assim, tão excitante como o cristal mais fino conhecido, com utilidades em campos tão diversos como a dessanilização e purificação da água do mar e a redução de emissões de CO2. Sensores biomédicos poderão detectar doenças, células solares flexíveis e mais transparentes captarão energia. Ao ser adicionado a materiais de construção civil os torna mais leves e resistentes.

Tudo isso pode parecer distante do cotidiano. Mas e se o nanomaterial chegar aos cosméticos com sua pulverização na coloração dos cabelos? E na mobilidade urbana, com sua aplicação nos pneus e a fabricação de quadros de bicicleta que pesem 350 gramas?

O silêncio passou a ser tão valorizado quanto o grafeno! Enquanto todo mundo berra e grita, as obras martelam, quebram, esmerilham e calam os passarinhos prisioneiros das gaiolas do sétimo andar, as TVs, celulares, o “cinco, quatro, mais uma, três, dois, tá quase lá, ummm” da ginastica online do vizinho, o som das lives, dos filmes, das aulas, da porra da vida que passa.

O silêncio vale grafeno e o povo se esgoela pelos combustíveis fósseis...   

Passei a persegui-lo, o silêncio, como um prêmio. Tentei a madrugada, com quem tenho afinidade. Descobri que ele não existe e fica mais difícil no verão. Dezenas de aparelhos de ar condicionado habitam o meu quadrado. De um lado, do outro, em frente, em cima, embaixo... Tá tudo dominado pelos roncos dos motores, alguns desregulados. Nem os miados do gato do andar de baixo são capazes de superar a barreira do ronco de concreto dos aparelhos mal aparafusados e trepidantes, ainda sem a tecnologia fantástica do grafeno.

Os únicos com possibilidades de quebrar a barreira da monotonia monocórdia e calorenta são os latidos estridentes e histéricos do cachorro da vizinha que vem do alto, mas não muito. Mas ele prefere dar seu showzinho já de manhã, quando os ares já começaram a ser desligados. E nos acordar, claro. A mim e aos vizinhos, porque aqui ninguém larga a mão de ninguém. Tá todo mundo na mesma vibe, isso antes das obras enlouquecidas da pandemia. Virou sinfonia!

Sem o dia e a calada da noite o que resta? Trocar o quarto pela sala que dá para um espaço mais amplo e menos interno, apesar de ser de fundos. E apelar para o amanhecer.

A virada mais difícil para quem, como eu, gosta de atravessar a noite. Mas como ir dormir quando a batucada começa cedo e termina lá pela hora do chá? Das cinco da tarde...

Temos mais um esforço indesejado, porém necessário.

Achei o silencio por poucas horas, entre às seis da matina e o início da aula de ginástica e o “três, dois, um” online de um vizinho abusado e sem desconfiômetro que geme e bufa a cada movimento. Antes, pra saber que há vida na terra, se manifesta animadona a arara da casa da vila que tem a mangueira e outra árvore gigante que anima e esverdeia a coleção de janelas da parte interna do quarteirão.

E sim ele vale grafeno. Ver o nascer do dia se colorindo, no céu cercado de janelas adormecidas em Copacabana, em silencio total, custa caro para quem não gosta de acordar cedo.

E não tem preço quando a gente não sabe viver sem ele...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Depois do amanhã


Depois do amanhã

Texto, foto de Valéria del Cueto

Estamos no ponto mais alto do triplo mortal carpado no trapézio. Sem rede de proteção. A distopia é aqui na porta ao lado. Quem somos nós para reconhece-la dentro do nosso próprio quadrado? Entramos no segundo mês do ano. Como se o carnaval, já cancelado na prática, mas fervilhante em nossos corações, fosse loguinho ali.

Temos tudo, nesse nada sem sentido em que vegetamos. Dos grandes fatos aos pequenos atos quem somos nós nessa contradança? O nada combinado com o lugar nenhum. Somando, dividindo, subtraindo e multiplicando vamos levando a aritmética incorreta do dia a dia da pandemia. Aquela que assusta no âmbito geral e provoca um efeito inverso no individual. Todo mundo sabe que a ordem dos fatores altera o produto, o que não impede o “queroomeu” de sempre dando cartas de mão no pano não tão verde da humanidade.

O caos é aqui. Os sinais são bem claros, a gente é que não tem olhos para ver. O primeiro deles, no meu caso, é o local e o horário que saquei a caneta e abri o caderninho. São seis e meia da manhã da primeira segunda feira de fevereiro. Escrevo no chão da sala com o sol invadindo, ainda tímido, os tecidos de voil e a renda delicada da cortina que protege as plantas.

Ao meu lado o tomateiro informa, pela alegria serelepe de suas folhas que tremulam no ritmo preguiçoso da brisa passeando pela janela recém aberta que, apesar da falta de chuvas nesse janeiro esturricado, houve uma evolução sensível e visível a olho nu no jardim suspenso da pandemia.

Ao lado dele, uma rosa cor de rosa bem antigo desabrocha no vaso em que uma espécie desconhecida e com folhas de cheiro forte se desenvolve animadona. Tirei uma foto da mudinha virando arbusto abusado e o google indicou que pode ser um pé de Dama da Noite. Achei um pouco diferente dos “modelos” similares apresentados pelo sábio da Inteligência Artificial. Tenho a impressão que as folhas são mais lustrosas. As do vaso parecem ser, se não aveludadas, como a do pezinho de tomate, menos rígidas e “polidas”.

O sol que tomo todas as manhãs produz o tom moreno, quebra o tom esverdeado do isolamento na minha pele e pode ser reverenciado no desenvolvimento progressivo das plantas (inclusive eu, a ameba mor). Agora está forte e, caso não tomemos os devidos cuidados, deixará suas marcas. Isso me leva a mudar constantemente de posição. O caderninho me guia. E também ao meu corpo como um todo para evitar aquelas marcas nas dobrinhas, garantindo um bronzeado equilibrado. Igual a quando escrevo as crônicas nas Pontas, do Leme ou do Arpoador num verão qualquer.

Onde quero chegar? A nossa incrível e perigosa capacidade de adaptação, quase sempre inconsciente. A que nos faz acordar de madrugada num primeiro de fevereiro (amanhã é dia de Iemanjá), num ano sem carnaval, depois de um final de semana clássico com muito calor (chuvas por aqui, só se for de bençãos, pra quem acredita), praias lotadas, arrastões e variantes inclassificáveis das novas cepas se beijando nas bocas turísticas de Ipanema e outros points.

Não, não está pouco. Nem essas informações traduzem um retrato fiel do que nos aguarda, além da lentidão na vacinação contra a covid-19. O radinho que está desligado informa os movimentos de mais uma greve de caminhoneiros anunciada, ainda hoje decidirão os comandos do parlamento brasileiro. Mas, antes, Rodrigo Maia poderia até pautar o impeachment de Bolsonaro no Congresso Brasileiro, enquanto da miúda Myanmar o amigo desconhecido avisa sobre o último golpe de estado de um outro lado do mundo. Que não é aquele onde milhares de manifestantes são presos ao protestarem contra a prisão de um oposicionista ao regime, no caso, o russo.

O dia mal começou. Eu aqui, entre rosas, azaléas, tomateiros, hortelãs e mudinhas de pimentões. Observo o passarinho que borboleteia no pé de camélia que nunca deu flor. Agora, torro as cascas de bananas e jogo moída na terra. Diz que a ausência de flores é falta de potássio. Só saberei o efeito na próxima primavera. Enquanto converso com ela reparo que já dá pra ver uma mudança nos brotos das novas folhas que explodem nas pontas dos galhos. As flores, só o futuro dirá se resistirão ao inverno que (ainda) está por vir....      

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


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domingo, 26 de julho de 2020

Sobrevoo no @delcueto.studio


Sobrevoo

Hora de partir para a coleção 2020 no hub brasileiro do @delcueto.studio. Na terceira temporada no colab55 já dá para pensar não somente numa coleção, mas num universo mais amplo. 

A volta ao mar é inevitável. Não obrigatoriamente num registro novo mas com a ideia da brincadeira do pássaro fujão que uma hora ia voar para mais longe

Origem


A imagem surgiu num dia luminoso e extraordinariamente claro. Mostra a costa ao norte do Rio de Janeiro, vista de Praia do Diabo, em Ipanema. Não foi feita com a Nikon, mas com a Lumix, da Panasonic, que tem um zoom extraordinário. 

No momento da foto as gaivotas faziam um voo e passaram, uma abaixo e outra acima da cadeira de montanhas.

Concepção


Mais uma coleção "guiada" pela liberdade do voo dos pássaros. Dessa vez, a linha das montanhas serviu como divisória da imagem original. Bastou libertar a gaivota que já tinha tomado o rumo do céu, pelo menos do ponto de vista de quem captura e traduz em imagens as coleções de #photodesign do @delcueto.studio.

Assim nasceu a coleção Sobrevoo, a primeira da temporada 2020 do colab55.com/@delcueto, nosso hub brasileiro.

Esse shape já nasceu pronto e foram necessárias poucas adaptações para as diferentes versões.

Desenvolvimento

Nos objetos de uso pessoal, como canecas, carteiras e capinhas de celulares
 
Nas t-shirts, clássicas ou baby long, são várias possibilidades de cores estonadas


As fullprints são em duas versões: feminina e masculina. Essa, com diferentes opções de golas e mangas


Sobrevoo também está aplicado nas sacolas (tote bags), meias e toalhas de banho e rosto.

 

Adesivos, tattoo, cadernos e cartões postais compõem a linha de cartonaria

   

A coleção se completa com azulejos, almofadas quadradas e retangulares, posters e imãs/porta-copos.
    


Na Colab55, o hub brasileiro de nossos produtos, a hashtag é #coisadorio. 

No hub internacional do @delcueto.studio coleções como  Black Rainbow e  Bamboo estão na plataforma do redbubble. Novos produtos e muitas opções exclusivas.

 No Getty Images

Imagens produzidas estão na coleção Sem Fim… de Valéria del Cueto no banco de imagens Getty Images.

Conheça também o hub na #colab55 do  Studio@delcueto

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quarta-feira, 22 de julho de 2020

Pose de gostosa

Pose de gostosa

Texto e foto de Valéria del Cueto

Esse texto também sai da foto que o ilustra. Por si só ela dá seu recado para quem, além de olhar a imagem, consegue ver a mensagem. Não espere que ela seja descrita por aqui. É ponto de partida. Ou de chegada, dependendo da interpretação de cada um.

A minha é que estamos assim, colados na rede, sem saber se vivos, por um fio, ou já secando sem saber.

Nas duas hipóteses, o que resta é a trama. Para o bem ou para o mal, a gosto do freguês.
Mudando a abordagem, temos o ferro, mineral sustentando a planta, vegetal. A rigidez dando suporte à flexibilidade do abraço orgânico enquanto se submeter a teia.

É vida real em que toda regra tem exceção. No caso, ainda no quadro visual do quinto andar, cercado de prédios pelas quatro ruas que o compõe, divisa de Copacabana e Ipanema, onde os muros das muitas garagens e poucas áreas de lazer se tocam formando uma ilusão de rascunho de desenho geométrico a lá Mondrian ainda não colorido (estou  ressignificando quase tudo no quarto mês de isolamento).

Visualizou o solo? Então, agora, levanta o olhar. No tédio insuportável da monotonia, convido você a contar o número de janelas que nos observam. Acima, já sabe: biruta, jardins suspensos, grades, antenas emolduram o céu azul.

A exceção mencionada anteriormente é composta por três elementos. Casas de uma vila com entrada ensanduichada entre dois prédios da Sá Ferreira e, no meio de seus telhados se lançam para o alto uma mangueira e outra árvore majestosa. Seus galhos e ramadas, pelas minhas contas, atingem até o oitavo andar, interferindo na paisagem de lego emoldurada pelas janelas dos apartamentos.

Não sei o efeito dessa informação para os leitores do restante do país, mas garanto que, para quem conhece Cuiabá e outras regiões de norte a sul, esse detalhe tem um significado especial. Com gosto, textura, aroma e lambança de fruta comida com a mão. Não sei você, mas sou adicta. Ter uma mangueira no raio visual sempre será um privilégio e uma forma ludicamente biológica de acompanhar o desenrolar do tempo.

Folhas novas, brotos, botões, florezinhas espevitadas amarelas, calor (chuva da manga em Cuiabá, já ouviu falar? Também tem a do caju...). Ouvir os uivos de agosto, mês do cachorro louco, derrubarem as mais frágeis. Calor, calor, vento e campana para ver os frutos crescerem e amadurarem. Tem que colher e, se possível, esperar ficar perpitola. Nunca chego lá. Gosto de frutas mais pra verde.

Já cheguei na colheita imaginária, mas a verdade é que nunca comi os frutos do pé de manga do quadrado. Pensando bem, acho que não costumo estar no Rio na época. Posso estar comendo manga em Mato Grosso, em Uruguaiana e até em Belém do Pará, a Mangueirosa, como me ensinou Ismaelino Pinto apresentando as maravilhas amazônicas.
Ano passado estava na fronteira do Paraguay com Mato Grosso do Sul. Beirando o Pantanal, flanando por Campo Grande e vendo a explosão dos Ipês Rosa.

Esse ano, a mangueira do quadrado emoldurada por sua amiga gigante é a salvação da pátria verde e amarela. Sua copa alimenta meus olhos, atiçando a imaginação.

Os movimentos dos seus galhos e o balanço das folhas ao vento acariciam, sem me tocar. Ao contrário dos moradores que, ao abrirem suas janelas, são abraçados pelo atrevimento da natureza, abusada.

Para mim, ela, essa mangueira que não é o Chapéu, minha comunidade, como dizia o grande Bola, nem a verde e rosa, só acena a distância fazendo pose de gostosa. E quer saber? Parece pouco, porém está de bom tamanho. Daqui a pouco vem o fruto e recomeça o ciclo...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

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quinta-feira, 9 de julho de 2020

Biruta batuta

Biruta batuta

Texto e foto de Valéria del Cueto
Dessa vez começo pela foto que também é vídeo e ilustra essa crônica. É da biruta que habita uma cobertura da Souza Lima, em Copacabana, em meio a exuberantes folhagens ornamentais e ramos de palmeiras do jardim suspenso de algum morador felizardo.

Não tenho jardim suspenso, mas quem sou eu para desdenhar da minha laje no telhado? Ao lado do puxadinho (mais um de muitos) que protege as caixas d´água do prédio e seus canos de ferro do sol e de fios, cabos, antenas e parabólicas, não tenho do que reclamar.

Ou melhor, tenho sim (é a força do hábito) das coberturas de amianto que, criminosamente, com o passar do tempo, substituíram as telhas de barro da cobertura do edifício, pra começar.

Posso dar meu testemunho afetivo porque, antes da pandemia, há décadas atrás, a meninada do condomínio, na qual me incluía, costumava frequentar o telhado. Naquela época, inclusive, dava para viajar aqui por cima e dar a volta pelos tetos até chegar a Souza Lima, um quarteirão depois.

Agora é impossível já que, como diz o ditado “o que os olhos não veem a fiscalização não atinge". As partes superiores dos arranha-céus de Copacabana viraram emaranhados de objetos inúteis, caso de cabos, e antenas obsoletos, substituídos por equipamentos mais modernos sem o devido descarte dos antigos que vão ficando por ali num emaranhado confuso.

Nem assim estou reclamando, apenas constatando e avaliando o material disponível para os ensaios fotográficos e literários quando se trata de falar da realidade do entorno (com um certo ar de Mad Max pandemia de Covid-19)  sem direito a escapes como a imaginação ou temas visuais que nos transportem para outros mundos, de preferência mais delicados que o nosso.

Por isso a biruta é tão significante no universo real onde habito. Ela, que é um peixe, me dá o rumo e indica o prumo dos ventos. Me conta por que vias eles andam circulando lá no alto.

Quando a meteorologia anuncia ventos e tempestades é para ela que meus olhos se voltam tentando mensurar a intensidade da tormenta por cima do quadrado de prédios que, como guerreiros com sua barreira de escudos, protegem a área formada pelos pátios internos, solitários e egoístas de cada prédio.

O flanar do peixe biruta indica a intensidade e a direção da ventania.

As mais severas são aquelas que o rabo do peixe saracoteia para todos os lados, inflados pela boca que engole e engasga com o vento. Sem direção. Na dúvida entre a eira e a beira, dá umas paradas, como se descansasse de tanta agitação e precisasse respirar. Mas, logo em seguida, recomeça sua dança alucinada, para um lado, para o outro, no meio...

Em volta, as folhagens da cobertura fazem coreografias, contrastando com as rígidas barras brancas da grade que protegem os vasos do chacoalho.  Ás vezes suaves, outras vigorosas, tentam descabeladas acompanhar o peixe biruta guia.

Qualquer semelhança com a nossa biruta Covid-19 não é mera coincidência. É contraste.
O peixe/biruta está seguro, agarrado no mastro da ponta da varanda da cobertura. Já o vírus biruta, vagueia desgovernado, sem eira nem beira, distribuindo suas consequências nefastas e deixando seu rastro de morte por onde passa.

Pobre corona sem noção. De batuta não tem nada, biruta, segue flanando na inconsequência irresponsável que o impele e rasga o pais.



*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com
Studio na Colab55

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Quem vem lá?

Quem vem lá?

Texto e foto de Valéria del Cueto
Hoje o assunto é a bicharada, mas não a da Flotropi. A que me cerca nesse isolamento da Covid-19. Bem aqui, na quebrada da Bulhões, quase Sá Ferreira, em Copacabana.

Depois de meses de reclusão tudo vira motivo de observação para um olhar treinado, porém acostumado as imensidões e horizontes vastos, como os das Pontas do Leme e do Arpoador.
Comecei procurando o céu pela janela do apartamento. Continuei ampliando a dimensão do voo das gaivotas e urubus que ficam rodeando o maciço do PPG (os morros do Pavão, Pavãozinho e o Cantagalo), ou cruzam de leste para oeste e vice-versa, dependendo dos bons ventos seguindo a orla carioca, na cobertura do prédio.

Pelo telhado também passam pombos, mas esses não circulam em bando, não têm um desenho de voo tão harmonioso e preferem voar mais baixo, procurando comida.

Fico pensando como estão se virando com menos gente nas ruas e, principalmente nas praias. Era lá que eles bicavam os resíduos deixados pelos “generosos” banhistas nas areias.

Também recebo a visita de um ou dois bem-te-vis. Sempre dão uma paradinha numa antena de TV de antigamente, encravada entre parabólicas de canais de HDTV.

Já consegui fotografa-los uma vez, mas costumo ser lenta no desenrolar da abertura da bolsa em busca da câmera. Foram muitas as vezes que os danadinhos me escaparam enquanto me enrolava nos zippers e cordéis da sacola de telhado, uma bolsa de praia com o conteúdo adaptado para as necessidades do banho de sol nas alturas.

Em casa costumo das bom dia a um bem-te-vi que passeia entre as floreiras das janelas. Ele saltita entre a azaleia e o pé de camélia cheio de botões que, sabe-se lá por que motivo, nunca desabrocham.
Aqui começa, justamente nele, meu exíguo contato com o mundo animal. Me dedico (sem muito sucesso) a diminuir o vai-e-vem de micro formigas que circulam e botam ovos nas folhas e brotos do pé de camélia.

Quando apertei o olhar descobri que os antúrios também andam nas mãos do exército de formigas! Minha estratégia será partir para uma pesquisa em busca do formigueiro central. Como não tenho fumo de rolo, estou lavando as folhas das plantinhas com água e sabão de coco, pra ver se espanto os batalhões.   

Foi esse olhar microscópico que me fez localizar os caramujinhos e minhocas. Agora, nas plantas da área de serviço.

Essas tomam menos sol. O local é ideal para samambaias e outras espécies que preferem locais mais sombreados e protegidos do vento do mar que encana por entre os prédios.
A gente também recebe visitantes!

Outro dia, nos maços de verduras orgânicas que vieram do mercado, apareceu um mini grilo. Um filhotinho perdido. Deu até para gravar sua passagem aqui pelo quinto andar, bem verdinho e olhudo.
Partiu e, dias depois, me deixou outro “grilo”. Dessa vez na cabeça, com a notícia das nuvens de gafanhotos que passeiam pelo sul da América do Sul. Teria sido um aviso?

Bom, a última novidade foi o aparecimento de Joanita, a joaninha. Justamente no dia 25 de junho, dia de... São João, ela deu um giro pelas floreiras das janelas.

Se for um sinal, meu desejo mais profundo é que seja alvissaro. Estamos todos precisando de boas novas.  

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com
Studio na Colab55

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Está pedreira na clareira

Está pedreira na clareira

Texto e foto de Valéria del Cueto
Lembra da Flotropi, aquela que já foi governada por uma anta, um morcego vampiresco e, agora, está sob os auspícios do mico que pensa ser mito? A que anda fora do foco dos relatos pela dificuldade de explicar a bagunça institucionalizada que anda por aqui. Faz tempo que não há um momento de tranquilidade.

Nem no reino vegetal, nem no mineral. O que dirá no animal... A clareira central e toda a periferia andam um pandemônio. Os MIs estão fazendo uma tremenda agitação.

A bicharada baseada no mais primitivo instinto, o da sobrevivência, se entoca. Enquanto o mico mito, a família miquilenta, os ministros amestrados, incluindo uma penca de gorilas, os seguidores bovinos (coitados) e a miquilicia, insistem que não há motivo de alarme. Ordenando que a vida a caminho da morte premeditada seja retomada nor-mal-men-te.

Como se não bastasse a praga do vírus na floresta tem também a praga da desinformação sendo utilizada de forma maldosa e criminosa, segundo os códigos de sobrevivência na selva, para confundir e amedrontar os animais.

É claro que a maioria das espécies não segue o aboio. Afinal, nem todos os animais têm por instinto andarem no passo do flautista, emprenhados por marchas requentadas. A qualidade musical já derruba a possibilidade. Nem os ratos aguentam. Só surdos.

A pressão é grande e, diante da falta de um comando consciente e preocupado com o coletivo florestal, diversas espécies deixaram o mico esbravejando sozinho e foram cuidar de garantir a sobrevivência (a duras penas, escamas, couros e cascos) do equilíbrio ambiental. A sabedoria da mata ensina a recolher o flap durante as tempestades.

Fazer o que? Quando se conclui que a família é mais importante e que o mundo animal é o que menos importa para quem foi escolhido para cuidar da floresta inteira...

Não, não é tagarelice, papagaiada, nem leva e traz da pombarada. Os incrédulos habitantes da Flotropi foram surpreendidos pela íntegra da reunião do conselho na clareira central. Nela, as piores intenções do gabinete florestal foram expostas sem pudor.

Quem esperava uma ajuda pra tocar seus empreendimentos, caso das formigas e de espécies como as abelhas, por exemplo, já tirou o cavalinho da chuva. Ouviu da hiena financeira que o dindin é só para adimplentes. Na Flotropi castigada. A que amarga os prejuízos de crises e ataques sucessivos.

Foi no encontro dos “notáveis”, dito pelo encarregado da proteção do meio ambiente, que souberam que havia uma boiada passando pelo Diário Oficial da Flotropi. Só falta a cabra chifruda decretar o correntão como instrumento de utilidade pública!

Também teve a fala da araponga beata, a que viu o ser supremo passeando de cipó. Avisava que vai dar um “teje preso” nos líderes da fauna que agirem contra o contágio eminente, acredite!

 A araponga abriu MESMO o bico diante da hipótese de transformar a floresta num parque temático. Com direito a jogatina monetizada e vuco-vuco. À possibilidade da criação do parque ela não se alterou. Mas, diante da liberação do jogo, saiu dando bicadas na cabeça do predador do turismo.

Não terminam aí as surpresas desagradáveis do conselho. O javaporco do saber aproveitou a deixa pedindo a prisão da cúpula da Suprema Corte da Floresta e ainda declarou que, para ele, os bichos eram todos iguais! Da terra, do mar e do ar. Oi?

Pensa que os demais conselheiros se abalaram? Nem o mico, nem os gorilas. Ouviram com cara de paisagem as tolices e sandices proferidas no conselho florestal, entre guinchados esbravejantes pedindo proteção para os miquinhos trapalhões peraltas e outras ilações.

Tanto cutucou, incomodou e destratou o corvo da justiça que, para não distribuir bicadas e evitar perder a linha, esse chutou o poleiro e bateu asas, se retirando do encontro. Dias depois, ao cantar como uma cotovia, foi a ave que expôs as entranhas da reunião da maldade.

Claro que o mico e seu conselho macacal ainda estão dando as cartas. Mas, agora, além dos coiotes e hienas com o apoio de cobras e baratas para (des) governar. Aquelas que sobrevivem na face da terra desde os primórdios. Sem essa aliança não teriam mais forças para manter o território.

Por se saberem num mato sem cachorro, em que nem a onça está conseguindo ir beber água em paz, os animais passaram a se organizar por conta própria garantindo, na medida do possível, a sobrevivência das espécies.

70 por cento dos habitantes já entenderam que a Flotropi não pode ficar à mercê de guincharia e macaquices enquanto seu patrimônio ambiental, sua maior riqueza, é dilapidado e depredado.

Mas, e aí? Está pedreira na clareira...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com


Studio na Colab55

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Quer comprar?

Quer comprar?

Texto, fotos e vídeos de Valéria del Cueto

Dobrou a esquina procurando espaço aberto em direção à praia. Mas não chegou a atravessar as pistas. Justo naquela rua não havia sinal nem faixa de pedestres que permitisse a passagem segura para a orla.

Pegou o calçadão caminhando no desenho das pedras portuguesas, um dos patrimônios paisagísticos de Burle Marx na cidade maravilhosa, cartão postal do Rio de Janeiro.

Naquele trecho não havia bancos para descansar contemplando a vista, somente as árvores que se esparramavam em desenhos inesperados correndo atrás da luz do sol, derramadas sobre a calçada.

Era um dia que ficou azul. Começou cinzento. O vento afastou a bruma e mudou o humor das nuvens, reverberando o contraste do caminho. De um lado a natureza, céu, mar, areia, praia. Do outro, concreto e a mão do homem, no trabalho maravilhoso do paisagista sob os pés da muralha de prédios da Avenida Atlântica, em Copacabana.

Carros estacionados, ao longe moradores. Os de rua perambulando, os dos prédios passeando seus cachorros, turistas... tudo igual naquela quarta-feira, início de março.

O olhar que vagava na mesmice do verão pós carnaval foi atraído por um conjunto de elementos incomuns na paisagem. Vários elementos.


Ter caçambas recolhendo material das obras em apartamentos da orla não era incomum. Cercada de catadores que nos containers garimpavam tesouros, inclusive. Mas aquela espécie de burro sem brabo malocado no emaranhado de troncos distorcidos entre um grupo de árvores era incomum.

No carrinho de ferro uma pilha de pedaços de corpos rígidos, brancos e cores da pele. Pernas, braços troncos e nádegas amontoadas. Tudo, menos as cabeças. O brilho da superfície fria dos manequins contrastando com o formato orgânico, caótico dos troncos e o corte irregular das pedras portuguesas.
Enquanto explorava os objetos, rodeando a “instalação”, uma imagem delirante de sobrepõe. Os corpos passaram a serem reais, ali amontoados!

Buscou avidamente alguém no entorno. Procurava explicação para o conjunto ali exposto. Não viu ninguém. É como se o mundo tivesse parado, esvaziado.

Para se convencer de que a visão dos corpos reais era apenas ilusória, talvez efeito do vinho consumido no almoço na Trattoria, ali atrás, racionalizou. Raciocinando, não podia ser real o seu delírio porque faltava sangue! Duas piscadas depois os corpos desnudos voltaram a ser apenas bonecos inanimados. Sem cabeças.

Mais uma vez deixou o olhar vagar procurando quem explicasse os adereços surreais naquele lugar.

https://youtu.be/jQhpIfMa-3w
Uma mulher se aproximou observando a pilha de corpos imóveis inquirindo. “Serão de quem?” perguntou, observando os corpos em vários ângulos antes de explicar. “Se tivessem cabeça até me interessava”.

“Quer comprar?” A voz vinha do nada. Tirando o cachorro que arrastava o dono que dobrava a esquina ao longe não havia viva alma no calçadão. Depois de hesitar, a mulher conversou com o vazio perguntando a origem dos corpos mutilados. “Preciso de cabeças, por acaso não tinha por lá?”
Do alto dos galhos das árvores a resposta veio ligeira. “A Gente pegou o que tinha. Era tudo isso aí. Que comprar? “Só queria as cabeças”, respondeu a interessada. Como não tinha, seguiu solitária pelo calçadão enquanto o observador silencioso rodeava o grupo das árvores em busca de ângulos inusitados dos objetos em cima do burro sem rabo.

Da galharia novamente a oferta. Dessa vez para o dono do cachorro que veio chegando. Puxava o “chefe” pela coleira. Se aproximou para farejar as rodas do carrinho. Não foi só a ele que a visão causou uma sensação estranha.

Como sabia o texto do diálogo que aconteceria e já esgotara as possibilidades fotográficas, seguiu o seu caminho em direção ao posto 6.

Carregado pela nuvem etílica que o embalava, esqueceu o material capturado e do estranho diálogo. Perdido num sonho delirante, uma miragem ilusória do último passeio antes do início do afastamento compulsório definido pelo vírus.

Duas ou três luas de isolamento provocado pelo flagelo da Covid-19, remexendo nos arquivos ressurgiram as imagens. Uma premonição visual do que acontecia na vida real.
Foi aí que veio à memória a pergunta que não deveria calar, o enunciado do enigma que desafiava a humanidade.

“Quer comprar?”


Clique aqui oou na foto para acessar a sequência de fotos que inspirou o texto no Flickr
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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Coronga é a vovozinha!

Coronga é a vovozinha!

Texto e foto de Valéria del Cueto

Querida cronista sem mais delongas na sua ausência voluntária incorporei seu papel de jornalista e, aceitando a sugestão de Bebeto, entrevistei a pseudo causa de todos os males que assolam a humanidade nesse momento, a Covid-19.

Pluct Plact - Olá, senhora Covid-19, como está vendo esse momento de “evidência”, por assim dizer?
Cvd19 – Estou estupefata e carente. Afinal, mesmo novinha, parece que me responsabilizam por todos os problemas do mundo.

PLct – E não é esse seu papel no contexto atual?
Cvd19 – Claro que não! Fico indignada com essa visão reducionista. Tudo bem que não vim a esse mundo a passeio, mas vamos botar os pingos nos “i”s: Covid-19 só tem uma! Cadê o pingo da crise da saúde ignorada? E veja que não foi por falta de aviso. E da economia esgotada? Do tal do capitalismo globalizado ensandecido?

PLct – Sem querer botar lenha na fogueira (mais um pingo) capitalismo em dose dupla.
Cvd19 – E se pingo é letra, meio ambiente também. Esses ignorantes brincaram com coisa séria e agora jogam o esgotamento planetário nas minhas costas.

PLct – E, na sua opinião, qual é a solução para que o impasse que obriga a humanidade a se esconder da vida e correr da senhora mais que o diabo corre da cruz?
Cvd19 – É sério, caro Pluct Plact, que o senhor supõe que eu tenho essa resposta?

PLct – Quem sabe...
Cvd19 – Pois não tenho e não cabe a mim responder. Já me basta levar nas costas a culpa de todos os males do mundo. “Faliu a saúde?” É a Covid -19. “Os empregos sumiram?” Vai para a conta do coronavirus da vez. “Os transportes subiram as tarifas?” Covid-19. “O petróleo despencou, a bolsa caiu, o dólar subiu?” Por que a Covid-19 se expande... Tudo cai na minha conta!

PLct – Mas qual a luz no fim do túnel, a senhora sabe?
Cvd19 – Tenho cara de cientista, extraterrestre? Sou consequência. Pergunte a quem faz balbúrdia, como diz o ministro da educação especializados em tolices ou, talvez, o astronauta que depois de ir à lua admite se juntar a quem acha que a terra é plana para ser chamado de ministro da tecnologia.

PLct – Ah, Covid, o Brasil está num mato sem cachorro...
Cvd19 – Naninanaum. Tem o capetão para tocar horror na rapaziada. Seus seguidores que oram nas calçadas e se entregam ao Jim Jones do terceiro milênio que brada “Eu sou a Constituição”. O Brasil está bem na foto da loucura mundial.

PLct – E então...
Cvd19 – Enquanto os loucos uivam e ameaçam o povo, ou parte dele, demostra o que tem de melhor. Há muito tempo palavras como solidariedade andavam sem significado. Sem destaque nesse mundo véio e mal tratado. Agora, não!

PLct – Deduzo que a senhora acha que tem jeito...
Cvd19 – Eita, não bote palavras nas minhas verruguinhas poderosas. Só água e sabão para me deter. Palavras o vento leva, já dizia o poeta.

PLct – Nesse caso...
Cvd19 – Não tem caso nem acaso. Só pesquisa, resistência e união (e olha que essa parte está difícil) para conter minha disseminação. Ah, e o esforço sobre humano dos verdadeiros heróis da pandemia. Agentes de saúde, por exemplo. Também destaco e aplaudo incondicionalmente os garis, não deixando de lado os caminhoneiros e quem continua produzindo alimentos.

PLct – E quem são os vilões dessa história macabra?
Cvd19 – São muitos, mas é melhor não citar ninguém. Pode ser que cometa uma injustiça, deixando uma família, um burocrata ou ministro qualquer fora da lista. Especialmente daqui do Brasil.

PLct – Já que a senhora foi tão específica, mais uma pergunta: por que me escolheu para fazer essa entrevista exclusiva?
Cvd19 – Elementar, meu caro Pluct Plact, para me manifestar tinha que ser no epicentro da ignorância consentida. Poderia ter sido nos EUA, quase no mesmo nível da lei de Gerson. O presidente de lá também gosta de levar vantagem em tudo. Mas aqui, além da maldade aprimorada e potencializada, qual a curva ascendente de contaminados e vítimas, tem algo que nenhum outro lugar tem.

PLct – O que seria?
Cvd19 – Um extraterrestre residente, ora. Com a desconstrução da imagem da imprensa e dos jornalistas, quem teria isenção e credibilidade para levar a minha mensagem ao mundo? Só um ser interplanetário.

PLct – Muito obrigado pela distinção, Dona Coronga, afinal, fazer uma exclusiva com a senhora é uma honra!
Cvd19 – Você me chamou de que? Abusado.

PLct – Queira desculpar, cara Covid-19, escapou sem querer seu apelido...
Cvd19 – Você está humano demais. Aprendeu a brincar com coisa séria. Coronga é a vovozinha! Pronto... só de raiva desenvolvi uma mutação que não tem restrição de idade. Agora é assim, pega um, pega geral!

PLct – Foi ato falho.
Cvd19 – Na próxima garanto que vou incluir extraterrestres na lista de infectáveis.

PLct – Então é melhor encerrarmos a entrevista, senhora. Vou ali tentar um novo lançamento para o espaço. Quem sabe escapo da sua ira que, reconheço, é plenamente justificável...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com
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terça-feira, 14 de abril de 2020

Que mundo é esse?

Que mundo é esse?

Texto e foto de Valéria del Cueto

Querida cronista estou aqui, mais uma vez, para dar notícias do lado de cá. Falo dessa maneira porque não posso dizer que seja um informe do seu mundo. Aquele que, sinto comunicar de supetão, não existe mais!

Para situá-la, lamento dizer que não escrevo do lugar de sempre. Troquei a ponta do Arpoador, agora inacessível, pelo telhado de um prédio próximo.

Não está entendendo nada desse relato, não é? Nem você nem os bilhões de habitantes desse planeta que, egoistamente, todos se acostumaram a chamar de SEU. Concluo diante do que tenho visto que esse sentimento de posse pode ter sido uma das causas das atuais circunstâncias, as que tento relatar. Sei que a narrativa deve estar gerando confusão. Mas a vida é assim, como no futebol, uma caixinha de surpresas. E as últimas têm sido estarrecedoras.

Definitivamente, meus estudos interplanetários de extraterrestres de passagem indicam que por se achar dono do mundo o ser humano, que idiota, pensou que poderia fazer gato e sapato do planeta. Tanto tentou e cutucou a onça com vara curta que o felino se irritou e resolveu reagir a altura.
Eu, que bati nesses costados na minha missão de explorador das galáxias e vi minha nave.

interplanetária não ter potência para sair da armadilha atmosférica da detonada e maltratada camada de ozônio, eu, amigo confidente e correspondente dessa cronista enclausurada por vontade própria do outro lado do túnel, tenho a triste e frustrante missão de informá-la pela fresta de luar que invade sua cela que nem os alertas dos cientistas, nem meus avisos desesperados surtiram qualquer efeito para impedido o desastre. O mundo acabou!

Seu fim veio de forma invisível e silenciosa. Ao contrário de todas as previsões não houve maremoto nem terremoto. Não foi pelo fogo, pela água ou pela seca.

Foi, simplesmente, pelo alastramento de um vírus mutante capaz de dizimar parte da população. Tirando em poucos dias a capacidade das pessoas respirarem! Começou na China, passou pela Itália e se espalha por todos os continentes.

Sei que você deve estar pensando que este quadro é fruto da minha imaginação, provocado pelo uso experimental desses alucinógenos que, você sabe, andei testando nas minhas andanças... Gostaria que fosse isso. Pelo bem dessa humanidade que, perplexa, hoje se esconde em suas casas, estoca alimentos e se comunica pelas redes sociais esperando um milagre da ciência.

Os governos que não acreditaram na potência e na letalidade da Covid-19 (é assim que essa variante do coronavirus se chama) estão pagando um preço altíssimo e, acredito, ainda serão responsabilizados criminalmente por suas escolhas equivocadas na condução desse “processo”.
Cronista querida, aqui no seu país os governantes no início da pandemia estavam preocupados sabe com o que? Como o mercado! Como se o “Deus” do capitalismo fosse capaz de evitar a quebra de todos os paradigmas sociais e econômicos do mundo inteiro!  Quanta ignorância...

Além disso, para piorar a situação, um louco desequilibrado conduz o Brasil num momento dramático como esse. Ele diz que o evento que paralisou o planeta, impedindo a circulação de pessoas, a aproximação entre os humanos, separando famílias por causa do seu incrível grau de contágio e letalidade, é apenas “uma gripezinha”.

Abraçar? Não pode. Beijar? Nem pensar. Tocar? Transmite o vírus. Os costumes mudaram, os valores também. Mas o delirante mandatário contraria todas as normas e cuidados definidos por quem está no meio da tempestade viral tentando conduzir o barco.

Lá, no resto do mundo, fronteiras foram fechadas. É terminantemente proibido sair às ruas a não ser para comprar comida, remédio ou procurar ajuda médica. Só serviços essenciais funcionam. Sistemas de saúde entram em colapso. Sem mencionar as mortes velozes, os corpos cremados ou enterrados sem velórios, quando não ficam abandonados nas habitações para serem recolhidos.

Enquanto isso aqui, até em rede nacional, se incentiva o povo a não respeitar o isolamento social necessário para refrear o avanço da calamidade em larga escala.

Cronista, sinto informar, mas é tudo verdade! E, com essa forma empírica que adotei de me fazer humano por osmose nessa missão intergaláctica interminável aqui na Terra, descobri um sentimento terrível até agora desconhecido. O medo.

Foi ele que me trouxe a este novo cenário, o telhado. Único lugar em que alcanço a luz do sol e vejo, ao longe, seres humanos em suas enclausuras.

Para terminar, uma esperança. Essa que segue, valente, imune ao vírus. Com a paralisia compulsória, poucos veículos circulando, com o colapso econômico e o recolhimento social, a Mãe Terra se recupera das agressões cotidianamente provocadas pelos humanos. A poluição diminui, o mundo respira e conspira por uma mudança radical de comportamento.

Em resumo, enquanto castiga severamente seus algozes, o planeta agradece a pausa obrigatória e se regenera.

Fico por aqui. Gostaria de estar ao seu lado, dando maiores esclarecimentos sobre os fatos relatados. Mas, para sua própria segurança, prefiro me manter afastado procurando, junto com muitos outros valorosos cientistas, uma forma de ajudar na preparação para o novo mundo que surgirá. Espero que em breve...

Saudações do seu extraterrestre e confidente, Pluct Plact.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com
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