Mostrando postagens com marcador uruguaiana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador uruguaiana. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Nem sempre ganhando...


Nem sempre ganhando...

Texto e foto  Valéria del Cueto

Hora de parar o mundo para dizer a que vem aí. Mais uma crônica! Só assim tenho o estímulo necessário à escrevinhação, como sempre, no caderninho. Tenho prazo, espaço e vontade de exercitar o direito de dizer. Falar de quase nada no meio de muito tudo não é fácil.

Me desligar de tanta informação eu até sei. Mas nem para você, leitor, nem para mim - que do meio do mundo vejo o dito cujo se exaurindo em conflitos, dores e muito, muito desamor-, a tarefa é simples.

Sei que existem os que como eu, perplexos diante de tanta brutalidade, ainda procuram formas de, mesmo que indiretamente, interferirem no rolo compressor que parece incontrolável movido pela maldade humana. Atualmente, pra piorar, turbinado pela força motriz generativa da inteligência artificial que se multiplica a nossa imagem e semelhança. E que imagem, que semelhança!

Por isso acho que, como no caso dos que procuram estímulos para mudar essa vibração, também preciso de ajuda para sair, por exemplo, das águas turvas da flotilha que tenta chegar a Gaza com alimentos e a ajuda médica para aliviar o sofrimento dos palestinos, reféns involuntários do governo de Israel, sob as ordens de Netanyahu.

Quando se trata de genocídio volto à leitura de “Mila 18”, de Leon Uris. A história se passa no gueto de Varsóvia, sob o domínio alemão. Descreve o terrível cotidiano dos judeus na capital da Polônia ocupada.

Agora, os algozes são aqueles que foram vítimas no século passado, durante a Segunda Guerra Mundial. A diferença são os métodos, ainda mais cruéis, de extermínio.

Pra escrever preciso sair desse turbilhão de horrores que se multiplicam, sem tanta exposição e mídia, em outras partes do globo.

No meu pedaço o céu é o limite! Olhando pra ele sem nenhuma nuvem, me inspiro nas florezinhas amarelas na ponta do ipê meio raquítico, sem nenhuma folha, oscilando preguiçosas ao vento nesse início de primavera, suavemente lânguidas, animadas pelo balanço dos galhos. Sigo o movimento de uma das flores bailando solta, caindo na direção do rio. Não foi a brisa que a derrubou. Consigo ver um passarinho, inho,inhozinho brincando na galharia.

Aqui embaixo o som das águas do rio, meio seco devido a falta de chuvas, vem do resmungo preguicento do fluxo deslizando entre as pedras em seu leito. O sol não está mais a pino. Mesmo assim seu calor espanta a passarinhada que prefere descansar a sombra e só recomeçar a movimentação mais tarde.

Por uma questão de justiça climática esclareço que por mais abafado que seja o clima no meio do mundo não é nada comparável as temperaturas de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, (quente desde sempre no verão), e de Cuiabá, onde o que já era insalubre está ficando cada vez pior com a valiosa e insuperável colaboração, por exemplo, dos responsáveis pelas obras intermináveis do VLT/BRT.

Aí, mesmo sem querer cair novamente no redemoinho dos acontecimentos, me lembro do filme de Spike Lee, “Faça a coisa certa”, que narra os acontecimentos de um dia de calor insuportável no Harlem, em New York....

Mais um movimento no entorno! Graças a Deus, ele desvia o rumo da prosa antes que ela caia no buraco negro dos desastres climáticos. Aqueles que serão temas da COP 30. Claro que nela, o principal será as buscas por caminhos e soluções para mitigar a crise. O que se faz apontando e alertando sobre os problemas crescentes que exaurem o planeta.

Voltando às miudezas, essa nem tão miúda assim, o que me distrai é um dos vizinhos da Mata Atlântica. O lagarto teiú cruza a estrada de terra que liga o nada ao lugar nenhum aqui no meio do mundo. Ele me ignora solenemente passando pro terreno e se desviando do tapete de pitangas perpitolas que caíram da pitangueira com a ventania da manhã.

Elas estão merecendo uma varrida que só acontecerá quando os passarinhos e borboletas, animados pelo ciciar das cigarras, avisarem que a temperatura vai dar um refresco no cair do sol atrás do morro do outro lado do rio.

Terei pouco tempo para varrer o pitangal salpicado no deck e jogar uma água nas plantas. Das miudezas, que envolve uma conversinha com as plantinhas preferidas, parto para uma missão quase universal: torcer pelo meu Flamengo, que ocupa o primeiro lugar na tabela do brasileirão.

Enfim, apesar dos pesares, esse domingo ainda pode ser quase perfeito. Mas isso, como outros fatores da vida, não depende só de mim...

PS: Deu ruim. Depois de duas expulsões, o Mengão perdeu só de 1X0 para o Bahia. Agora, somos vice-líderes do campeonato. Sorte que ainda faltam 11 rodadas para o final do torneio!

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

terça-feira, 29 de abril de 2025

Mangrulho


Mangrulho  

Texto e foto  Valéria del Cueto

Você sabe, caro leitor, o que é um mangrulho? De acordo com o dicionário a palavra tem dois significados:

1- Posto de observação, em lugar elevado, feito de madeiras toscas.

2 -Armação metálica ou de madeira sobre a qual se fixa uma luz, farolete ou bandeira, que serve para orientar a navegação.

Fui apresentada a palavra na primeira Califórnia da Canção que assisti ao vivo em Uruguaiana, a décima edição do mais importante festival de música nativista do Rio Grande do Sul. “O Mangrulho” é título e mote da composição defendida por Jorge André e os Uruchês, em 1980. Seus autores, Knelmo Alves e Marco Aurélio Vasconcellos.

Já conhecia a produção musical do evento pelos registros em LP das edições anteriores, onde mergulhava em termos gauchescos e estar ali, na terra de parte de minha família, foi uma experiência tão marcante que acabei ancorando por lá durante alguns anos.

Como jornalista, repórter e diretora da TV Uruguaiana, do Grupo RBS, faria a cobertura de algumas edições da Califórnia, festival idealizado por Colmar Duarte. Aprendi muito nesse período profissional que se encerrou quando fui avisada que era persona non grata na Argentina por causa das matérias que produzi durante a Guerra das Malvinas...

A aventura na fronteira oeste do Rio Grande do Sul perdeu parte do seu encanto com o impedimento de circular no país vizinho e acabei puxando o carro. Primeiro para o Rio de Janeiro e, depois, em direção a Mato Grosso, onde os sulistas já estavam chegando. Décadas depois, voltaria em outras edições para mergulhar na cultura gauchesca e festejar minhas origens familiares.

Hoje observo o mundo de um mangrulho moderno, que não é de madeira, mas de concreto. Meu posto de observação primário está localizado no pé da serra fluminense, sobre um riozinho. Usando a tecnologia moderna tomo conhecimento não apenas do que a vista alcança, mas de qualquer lugar do mundo, graças a internet. É daqui que, na maior parte do ano, acompanho a evolução dos acontecimentos que sacodem a humanidade.

Gosto do som da palavra mangrulho. Ela me lembra mergulho. A troca da vogal e o empurrão do R para depois do G para que o N tome seu lugar me dá uma sensação contraditória de distância e envolvimento, de estar atenta, positiva e operante.

Todos os anos troco o mangrulho do pé da serra por outro, que já foi de concreto e hoje é de ferro.

Falo da estrutura da torre de transmissão da Marquês de Sapucaí onde fico empoleirada durante parte dos desfiles das escolas de samba do carnaval carioca. De lá tenho uma visão especial da pista, das arquibancadas e da Apoteose.

Já contei, inclusive, em outra crônica chamada “A torre (ou quem bejô, bejô)”, a aventura que foi para conquista-la, missão impossível para quem tem medo de altura, o que não é meu caso.

Tão difícil como chegar lá e ter forma física para o sobe, desce, corre pra pista. Por normas estabelecidas pela organização do espetáculo o caminho ficou muito mais longo, já que agora só dá para acessá-la pela armação ou pela dispersão. As passagens intermediárias, como pelo segundo recuo da bateria, foram fechadas. Haja perna, haja fôlego! A opção seria permanecer o tempo todo por lá, o que, é claro, não consigo fazer.

Esse ano o trajeto ficou ainda mais complicado. O corredor que dava acesso à estrutura pela parte de trás de circulação do sambódromo foi “incorporado” por um camarote. Agora, além do longo percurso, é preciso mergulhar num mar de gente que disputa o melhor lugar para assistir aos desfiles.

Chegar ao mangrulho de ferro requer mais prática, paciência e muitas amizades, especialmente dos seguranças e coordenadores que ajudam a abrir o caminho entre os animados frequentadores do espaço.

As imagens captadas da torre de transmissão valem o esforço!

Parece que o carnaval é o assunto desse texto, mas não.

O tema é o mangrulho, palavra antiga, quase perdida na imensidão dos pampas que serve de alerta aos cuiabanos, preocupados com a extinção de seu peculiar linguajar tradicional.

Sem que haja resistência e disseminação cotidiana, a preservação das raízes linguísticas acabará se perdendo, imergirá num mergulho sem volta nos novos maneirismos que hoje suplantam e suprimem os antigos costumes seculares da baixada cuiabana.

O Muxirum Cuiabano é um mangrulho que alerta à necessidade de registro e manutenção das tradições. Preserva, até em seu nome, não apenas relíquias arquitetônicas, mas também da língua e dos costumes dos que habitam a antiga Cidade Verde e a baixada cuiabana.   

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Das séries “Fronteira Oeste do Sul”, “Parador Cuiabano” e “É carnaval” (ponto triplo) do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Pose de gostosa

Pose de gostosa

Texto e foto de Valéria del Cueto

Esse texto também sai da foto que o ilustra. Por si só ela dá seu recado para quem, além de olhar a imagem, consegue ver a mensagem. Não espere que ela seja descrita por aqui. É ponto de partida. Ou de chegada, dependendo da interpretação de cada um.

A minha é que estamos assim, colados na rede, sem saber se vivos, por um fio, ou já secando sem saber.

Nas duas hipóteses, o que resta é a trama. Para o bem ou para o mal, a gosto do freguês.
Mudando a abordagem, temos o ferro, mineral sustentando a planta, vegetal. A rigidez dando suporte à flexibilidade do abraço orgânico enquanto se submeter a teia.

É vida real em que toda regra tem exceção. No caso, ainda no quadro visual do quinto andar, cercado de prédios pelas quatro ruas que o compõe, divisa de Copacabana e Ipanema, onde os muros das muitas garagens e poucas áreas de lazer se tocam formando uma ilusão de rascunho de desenho geométrico a lá Mondrian ainda não colorido (estou  ressignificando quase tudo no quarto mês de isolamento).

Visualizou o solo? Então, agora, levanta o olhar. No tédio insuportável da monotonia, convido você a contar o número de janelas que nos observam. Acima, já sabe: biruta, jardins suspensos, grades, antenas emolduram o céu azul.

A exceção mencionada anteriormente é composta por três elementos. Casas de uma vila com entrada ensanduichada entre dois prédios da Sá Ferreira e, no meio de seus telhados se lançam para o alto uma mangueira e outra árvore majestosa. Seus galhos e ramadas, pelas minhas contas, atingem até o oitavo andar, interferindo na paisagem de lego emoldurada pelas janelas dos apartamentos.

Não sei o efeito dessa informação para os leitores do restante do país, mas garanto que, para quem conhece Cuiabá e outras regiões de norte a sul, esse detalhe tem um significado especial. Com gosto, textura, aroma e lambança de fruta comida com a mão. Não sei você, mas sou adicta. Ter uma mangueira no raio visual sempre será um privilégio e uma forma ludicamente biológica de acompanhar o desenrolar do tempo.

Folhas novas, brotos, botões, florezinhas espevitadas amarelas, calor (chuva da manga em Cuiabá, já ouviu falar? Também tem a do caju...). Ouvir os uivos de agosto, mês do cachorro louco, derrubarem as mais frágeis. Calor, calor, vento e campana para ver os frutos crescerem e amadurarem. Tem que colher e, se possível, esperar ficar perpitola. Nunca chego lá. Gosto de frutas mais pra verde.

Já cheguei na colheita imaginária, mas a verdade é que nunca comi os frutos do pé de manga do quadrado. Pensando bem, acho que não costumo estar no Rio na época. Posso estar comendo manga em Mato Grosso, em Uruguaiana e até em Belém do Pará, a Mangueirosa, como me ensinou Ismaelino Pinto apresentando as maravilhas amazônicas.
Ano passado estava na fronteira do Paraguay com Mato Grosso do Sul. Beirando o Pantanal, flanando por Campo Grande e vendo a explosão dos Ipês Rosa.

Esse ano, a mangueira do quadrado emoldurada por sua amiga gigante é a salvação da pátria verde e amarela. Sua copa alimenta meus olhos, atiçando a imaginação.

Os movimentos dos seus galhos e o balanço das folhas ao vento acariciam, sem me tocar. Ao contrário dos moradores que, ao abrirem suas janelas, são abraçados pelo atrevimento da natureza, abusada.

Para mim, ela, essa mangueira que não é o Chapéu, minha comunidade, como dizia o grande Bola, nem a verde e rosa, só acena a distância fazendo pose de gostosa. E quer saber? Parece pouco, porém está de bom tamanho. Daqui a pouco vem o fruto e recomeça o ciclo...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Sem pena? É quarentena.

Sem pena? É quarentena

Texto e foto de Valéria del Cueto
Meio de junho. O decreto de isolamento social foi na metade de março por aqui. Noventa dias sem, praticamente, botar os pés fora de casa. O local, um dos epicentros da Covid-19 no Rio de Janeiro, Copacabana.

No momento vivemos num efeito sanfona, com um abre e fecha desritmado. Os governos municipal, estadual e federal não se entendem. Nem o Judiciário.

Não deu uma semana entre a batida da Polícia Federal na vida do governador Wilson Witzel e ser dado andamento a um processo para seu impeachment por parte dos parlamentares da Assembleia Legislativa.

Em Mato Grosso a Covid-19 está se apresentando agora. A onda avança.

E eu aqui. Vendo a vida passar com minha mãe. Em muitos sentidos. E em várias dimensões. Explico...

Aprendi um truque sábio: encher o pensamento e as ações com tarefas de rotina. De preferência monótonas, mas que prendam a atenção e não deixem ficar dando voltas no problema existencial.
Pensei nessa vibe quando me dispus a atualizar o ‘No Rumo do Sem Fim”. Havia um gap de anos no material inicialmente publicado numa plataforma que foi extinta, o multiply, lembra? Pois é.

É o material das fotos, textos, vídeos e áudios que estou recuperando e organizando. Nesse momento viajo nas postagens de 2009, em pleno carnaval! Na busca das imagens correlatas que revejo meus afetos.

Daqui a pouco seguirei para as postagens de Uruguaiana, seu carnaval fora de época e a Estância São Lucas. Antes de seguir para Mato Grosso, logo depois. Foi lá que voltei a ficar agarrada numa curva do Rio Cuiabá durante um bom período nessa época.

Sim, amigos, existem mundos paralelos. Assunto de um grupo bem restrito de whatsapp dia desses. Acho que além dos que estão em estudo, cada um pode criar seu(s) próprio(s)mundo(s) paralelo(s).
Enquanto corrijo os links das postagens adiciono os players de áudio e vídeo e procuro as imagens indicadas nos códigos HTMLs, nos antigos arquivos, revisitando o material, deixo a TV ligada. Normalmente num filme que já assisti. E só paro a edição quando “aquela cena” vai acontecer.

Outra opção é abrir a playlist de vídeos do mar no canal @delcueto, no Youtube, e deixar as centenas de registos em looping. Também ouço lives enquanto (per)corro os HDs em busca das imagens perdidas.

O trabalho é maior porque como seguro morreu de velho, realinho no arquivo, posto no Sem Fim e, quando o assunto é carnaval, no acervo carnevalerio.com. Precisa de muita atenção. Tanto quanto na faxina do apartamento, acredite.

Ainda não troquei a noite pelo dia, como alguns amigos, mas durmo muito tarde. Até às 14h me organizo. Trabalho direto até às 17:30. Almoço e parto para dentro de novo, trocando os filmes pelo noticiário.  Esse, só uma vez ao dia, a não ser em casos excepcionais (o que não tem faltado ultimamente).

Não tendo onde caminhar tomo sol no telhado do prédio. Daqui também não vejo o mar. Meu visual é o PPG, sigla das favelas Pavão/Pavãozinho/(Canta)Galo. Graças a Deus tranquilas, ultimamente.
Das rádios da comunidade ouço as músicas que podem ser gospel, se for no fim de semana, funk ou um samba. Agora, ouço Serginho Meriti.

É dia bom. Feriado de Corpus Cristi. O visual é um contraste das coberturas endinheiradas da Sá Ferreira no plano mais próximo e dos barracos da comunidade ao fundo. Quando o assunto é música, a favela dá de dez no repertório se comparado com os das festas que já presenciei nas varandas de alguns apartamentos. Vida que segue...

Aí pergunto a você leitor, se posso viajar no espaço e no tempo em várias direções, por que cargas d´águas me limitaria a ficar só nessas pandemias, a do vírus e a da ignorância, que nos assolam nesse momento?

Abri as asas...


*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com
Studio na Colab55

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Mário Barbará na luz



Partiu Marinho Barbará nessa manhã. Cumpriu sua missão na terra.

O cantor e compositor passou por Uruguaiana na última edição da Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul.

Se apresentou em dezembro de 2017 como concorrente com a toada "Tatuagens", letra de  Gilberto Carvalho e música de Lenin Nuñez.Também foi atração no intervalo da segunda noite lançando seu último trabalho, o DVD Desgarrados, com Chico Saratt.



Teve a chance de receber os aplausos calorosos dos inúmeros admiradores de sua arte e carreira na Fronteira Oeste.

Estivemos lá. Unimos nossos gritos e aplausos aos da platéia na mais poderosa prece que poderia ser feita para o cantor e compositor. A do reconhecimento e agradecimentos por tantas passagens inesquecíceis para nós, que aqui permanecemos.

Vai em paz, Marinho...

Gilberto Carvalho, em Tatuagens, dá o recado...

"Não sou de mim, não sou daqui,
só sei que estou e que existi.
Semeei a luz, sonho e amor
e embora a dor sei que vivi!"



Fotos e vídeo de Valéria del Cueto, para @no_rumo do Sem Fim...

Studio na Colab55

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Marcada de poeira e pampa, vem aí a 40º Califórnia da Canção

Marcada de poeira e pampa, vem aí a 40º Califórnia da Canção

Texto  de Valéria del Cueto
O nativismo gaúcho está em festa nesse final de semana em Uruguaiana, na fronteira oeste, divisa com a Argentina. A cidade volta a ser voz, alma e coração do movimento cultural que sacudiu o estado e se espalhou por todos os rincões brasileiros onde a cultura rio-grandense fez morada com a chegada de imigrantes do Rio Grande do Sul.

Dizem que a Califórnia da Canção, idealizada por Colmar Duarte, no início da década de 1970, está para a cultura gaúcha assim como a Semana de Arte Moderna de 1922 está para São Paulo. Hoje, é Patrimônio Cultural do Rio Grande do Sul e motivo de orgulho para quem viveu essa história de amor e resistência cultural.



Volta às origens

Depois de explodir nos anos 80 e gerar o fenômeno nativista que chegou a alcançar mais de 100 festivais espalhados por todo o Rio Grande a Califórnia perdeu força devido ao gigantismo do evento. Grandes shows e o crescimento da Cidade de Lona, onde inicialmente se realizavam as tertúlias musicais nos acampamentos campeiros dos participantes, acabaram por descaracterizar a festa.

Retornando às suas origens, a 40º Califórnia da Canção do Rio Grande do Sul volta a ter um formato mais enxuto ocupando, dias 8, 9 e 10 de dezembro, o palco do Teatro Municipal Rosalinda Pandolfo Lisboa.



O virtuose Yamandú Costa, melhor instrumentista numa das edições - arquivo Jornal Cidade



Instrumentista consagrado, Renato Borguetti marcaram presença no festival
Foto de Anderson Petroceli

O formato do festival
Califórnia que dizer em espanhol “conjunto de coisas belas”. O termo também é usado no Rio Grande do Sul para designar"competições entre vários concorrentes em busca de grandes prêmios".

E assim o é... Foram inscritas 571 composições e, delas, selecionadas as 20 músicas que concorrem em três linhas: a Campeira, identificada com usos e costumes do campo, com  instrumentos acústicos e arranjos vocais que guardem a simplicidade do canto campeiro; a de Manifestação Rio-grandense, enfocando aspectos socioculturais e geográficos, instrumentos acústicos e elétricos, como contrabaixo e piano elétrico, e liberdade de arranjos vocais e a Linha Livre, com sentido de universalidade artística, sem restrições ao instrumental ou vocal. Dentre os campeões das três linhas é escolhido o vencedor da Califórnia.

Onze compositores premiados em edições anteriores garantem a qualidade musical do evento esse ano. Um deles, Mauro Ferreira, poderá, caso ganhe mais uma edição, levar definitivamente para casa a cobiçada Calhandra de Ouro, prêmio máximo do festival. O troféu ficará definitivamente com o quem conseguir vencer cinco vezes o certame.

Palco Nativista da 36 Califórnia - foto Anderson Petroceli

O que atraiu tantos talentos, alguns há anos afastados da competição, foram os valores da ajuda de custo e dos prêmios, realinhados para valorizarem a competição, diante de outros festivais existentes no estado.

Efervescência cultural

Quem comparecer as duas eliminatórias e a final, disputada pelas 12 composições semifinalistas, também poderá acompanhar os shows de abertura e encerramento das noites que trarão ao Teatro Municipal, com capacidade para 1.200 pessoas, cantores e instrumentistas que já participaram de edições anteriores e, certamente, farão o público relembrar   momentos inesquecíveis cantando clássicos rio-grandenses vencedores - ou não - das disputas pela Calhandra de Ouro.

Cidade de Lona na Pastoril, lembrança inesquecível para os amantes da Califórnia (arquivo Jornal Cidade)

Com o fim da Cidade de Lona, localizada na Agrícola Pastoril, desde a 37º Califórnia, as Tertúlias, encontros musicais informais dos músicos e grupos nativistas que esquentavam as madrugadas campeiras, serão realizadas na praça central de Uruguaiana, a Barão do Rio Branco. O local que também abriga, desde 29 de novembro, a 41º Feira do Livro e a 2º Jornada Literária.
[ Calhandra de Ouro: prêmio máximo da Califórnia , objeto de desejo dos participantes - Foto de Anderson Petroceli

NATIVISMO: força de um movimento nascido da exclusão.

Em 1970 o compositor e escritor Colmar Duarte, hoje com 85 anos, inscreveu uma música num festival de MPB promovido em uma rádio local. A primeira grande dificuldade, conta ele, foi encontrar intérprete para “Abichornado”, termo gaúcho que significa triste e dava o nome da milonga de sua autoria. Na falta de quem aceitasse a missão de interpretá-la nasceu “Os Marupiaras” (pessoas felizes, em guarani), grupo composto pelos irmãos Colmar e Ricardo Duarte, Júlio Machado e Tasso Lopes.

Na falta de intérpretes, surge o Grupo Os Marupiaras. Colmar Duarte criador da Califórnia é um de seus componentes. ( arquivo Jornal Cidade)

A composição foi desclassificada sumariamente por se tratar de tema regional. “Foi classificado um baião cantando a seca do Nordeste”, conta Colmar, lembrando um trecho da composição: “Quero plantar minha roça, o tempo não deixa, não faço queixa, não vou chorar, e um boleto cantado em espanhol”, se recorda. “Na minha terra, o coração geográfico do Pampa, berço da cultura regional, se podia cantar em outro idioma, lamentar a seca do Nordeste, mas não se podia cantar a própria terra!”

Isso levou a criação da Califórnia. “O movimento tradicionalista gaúcho, que começou em 1947, ensinava a respeitar os ancestrais. Mas éramos apenas descendentes” ressalta. “O fenômeno que a Califórnia gerou trouxe o orgulho, os costumes campeiros para o cotidiano do povo gaúcho. O nativismo valorizou e popularizou hábitos anteriormente desconsiderados como símbolos culturais”.

Colmar destaca que “na época havia apenas uma costureira na região que ainda sabia fazer com perfeição as tradicionais bombachas gaúchas. Hoje, existem duas fábricas em Uruguaiana do produto”. Ele cita outro exemplo fácil de ser constatado: “Tomar chimarrão hoje é um hábito da juventude que se orgulha em viajar sempre levando seu equipamento composto de cuia, bomba e térmica para qualquer lugar, seja na praça de uma cidade gaúcha, ou numa praia do litoral de qualquer estado do país”, comemora.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fronteira Oeste do Sul”, do SEM   FIM... delcueto.wordpress.com

Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Luiz Márcio – Gênio
Studio na Colab55

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Pampa gaúcho


Pampa gaúcho

A região de Rivera, Uruguai, a BR 293, de Santana do Livramento a Uruguaiana, e a Ponte internacional que liga Uruguaiana a Paso de Los Libres, Argentina.

Uma mistura de olhares amplos e pequenos detalhes.
Pampas gaúchos
Clique AQUI  ou na foto para ver as imagens. Algumas foram selecionadas e estão a venda no GETTY IMAGE

Pampa gaúcho, Uruguai/Argentina/Brasil Rio Grande do Sul, Março e abril de 2017.

Ensaio de Valéria del Cueto
@no_rumo do Sem Fim… delcueto.wordpress.com
@delcueto convida você para explorar o Studio @delcueto
Studio na Colab55

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Macela Green no Studio @delcueto


A Coleção Marcela é de beira de estrada. A imagem que gerou a (des)padronagem foi feita entre Santana do Livramento e Uruguaiana, fronteira oeste do Rio grande do Sul, na BR - 293. 

Esta é a época do ano da colheita da marcela, uma tradição que sobrevive em alguns rincões gaúchos e outros campos brasileiros. Mas não dava para fazer uma padronagem de puro e simples capim. 

A imagem foi sendo estilizada, minimalizada e deu no que deu. Uma coleção para ambos os sexos. Da linha clean e funcional do Studio @delcueto parente por afinidade, acredite, das coleções V de Vão e V de Vão Azul.

O registro fotográfico de Valéria del Cueto feito na viagem à tríplice fronteira Brasil/ Argentina/ Uruguai, na região oeste do Rio Grande do Sul. O material rendeu fotos e matérias publicadas pelo Diário de Cuiabá/sites parceiros e agrupados na série Fronteira Oeste do Sul aqui No Rumo.

Vem daí também as últimas fotos incluídas na coleção Sem Fim... de Valéria del Cueto no Getty Images. Exclusivas do banco de imagens , elas também estão a venda!

Se você gostou do  Studio @delcueto, compartilhe nosso link com seus amigos e  aproveite as promoções. 

Desconto
Este link lhe dará um desconto de R$ 10,00 na primeira compra
https://www.colab55.com/via/delcueto. Lembre-se que há um prazo para os itens serem produzidos e enviados.

Aqui, a coleção inicial das artes. Para detalhes dos produtos, passe no Studio @delcueto

Studio na Colab55

domingo, 30 de abril de 2017

Leggings no Studio @delcueto

Itens essenciais no guarda-roupa feminino as leggings chegaram ao Studio @delcueto, no #colab55. Em lycra de poliéster, com proteção UV50 e costura reforçadas. A modelagem tem cós alto e   tecido elástico. Superconfortáveis e macias.

As leggings do Studio @delcueto estão sendo criadas em novas estampas, combinadas com outros acessórios como blusas, camisetas, chinelos e sacolas.

Uruguaiana e os Pampas gaúchos servem de base e inspiração para as coleções REFLEXO PB, REFLEXO COLOR E MACELA GREEN criadas a partir do trabalho da fotógrafa Valéria del Cueto

Studio na Colab55

Está pouco?
Quem procura acha

Studio na Colab55

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Estância São Lucas 2017, por Valéria del Cueto


Estância São Lucas, Uruguaiana, Rio Grande do Sul, é uma criadora de gado Braford, com anos de tradição no segmento. Estive por lá nos dias  30 e 31 de março de 2017 para fazer um registro da pesagem, avaliação do desmame para o PROMEBO animais Braford nascidos em 2016.

As impressões literárias da visita estão na crônica "A lo largo", publicada aqui @no_rumo do Sem Fim

Agora, é a hora de conhecer as coleções feitas por lá.

Primeiro, a do trabalho em si.
Estancia São Lucas 2017 - Pesagem, avaliação do desmame braford 2017<script>

E, agora, a das fotos do entorno e do clima do lugar tão especial do lugar.
Estancia São Lucas, entorno e viagens fotográficas 2017<script>

Agradecimentos aos anfitriões Nilson Faria Correa e Judith Faria Correa assim como a paciência dos peões que me viram rondando o trabalho da estância.


Ensaio fotográfico de Valéria del Cueto

@no_rumo do Sem Fim… delcueto.wordpress.com
@delcueto convida: passeie pelo o Studio @delcueto

Studio na Colab55

segunda-feira, 3 de abril de 2017


Texto e foto de Valéria del Cueto

É muito bom ser geminiana e gostar de ter diversas vidas. Isso faz que seja uma metamorfose tranquila trocar de ares como quem muda de roupa. Depois do carnaval de Uruguaiana é a hora de reacender as raízes pampianas. Para isso, nada melhor que um mergulho no silêncio das suaves colinas da fronteira oeste, na Estância São Lucas.

Tudo programado e preparado “au grand complet” com uma passagem na La Bodeguita pra providenciar um rancho a altura do cenário: queijo e salame da colônia, costelinhas de bovino, cebola para assar, bala de goma e alfajores para sobremesa e, vindo do outro lado da fronteira, no caso do Uruguai, algumas garrafas de vinho  a serem degustadas enquanto o fogo é feito, a carne fica no ponto e  um picado engana a fome que só aumenta enquanto ouvimos o trepidar do carvão em brasa. Vida mansa no final do dia.

Na chegada na estância no meio da tarde damos passagem ao gado da raça braford que vai sendo recolhido à mangueira. No dia seguinte os animais serão apartados pelos peões pilchados a cavalo para trabalharem o rebanho. Ali já dá para saber que o tão almejado silencio noturno será substituído pelo coro de mugidos  que ponteará madrugada afora, como uma sinfonia.

A imagem, impressionante para quem nunca viu a movimentação, é um colírio aos olhos saudosos que ficaram mais de um ano longe da lida campeira. Ao final do dia, uma mateada e algumas fotos dos gaúchos reunidos no galpão proseando ao cair da tarde.

A luz é muito especial. As sobras se alongam fazendo desenhos no campo, delineando o relevo das árvores contra as cores impressionantes do entardecer outonal.

Basta percorrer a cerca que protege a casa principal até a porteira para captar várias configurações da paisagem. O sol vai se pondo, ora no meio do arvoredo, ora no contorno suave da planície, dependendo do ponto de vista. O lusco fusco avermelha o horizonte e cria outras imagens dramáticas quando se acrescentam os contornos das porteiras e cercas dos bretes.

Quando resta penas um fiapo de luminosidade mais uma surpresa. A lua nova que dá as caras fininha, obriga a uma rápida mudança nos parâmetros da câmera fotográfica para que o sorrido do gato de Alice (a do País das Maravilhas) imprima nos sensores. Todo esse movimento acontece sem trégua. Deixa uma sensação de urgência para que tudo seja devidamente registrado. Mal comparando, é como uma escola de samba que passa na sua frente. A gente sabe que não pode perder nenhuma ação pois ela não se repetirá novamente. É hoje só, amanhã não tem mais, pelo menos daquela maneira exata.

O próximo ato é cair de boca no churrasco ao som de um programa de música nativa dos Pampas. Uma vingança à Carne Fraca que habita o cotidiano dos brasileiros em geral. E que se dane o colesterol, porque a gordurinha tostada é irresistível e o vinho dilui as incertezas futuras.

Coragem mesmo é mudar o fuso horário e, em busca da imagem perfeita, sair da cama por volta das 6 da matina, enfrentar o friozinho da madrugada partindo, de pilcha e botinas, em busca de ângulos que valorizem o prateado do orvalho que – ainda - molha os campos. O trabalho com o gado sendo apartado para a pesagem e a avalição rende registros de um estilo de vida fatigante, normalmente narrado de forma poética. Não é fácil a vida campeira. Essa conclusão se fortalece a medida em que o dia vai “adelante” e o calor castiga os animais e quem labuta na terra.

A poeira levantada pelas patas dos animais poderia ser apenas um filtro que deixa as imagens mais “doces” se não impregnasse a roupa, as peles suadas dos animais, de quem se dedica ao trabalho da pecuária e – ai de mim -, o delicado equipamento fotográfico.

Nada que não valha a pena quando o resultado do dia no campo ficar guardado, não apenas na memória de quem estava na lida, mas ao alcance dos que, sem passarem por todas as etapas aqui narradas, puderem viver esses momentos visitando os registros que trago de lá...   
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fronteira oeste do Sul”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

terça-feira, 28 de março de 2017

Uruguaiana, carnaval 2017

Uruguaiana, carnaval 2017.  Mais um registro fotográfico,  dessa vez do Carnaval Fora de Época de Uruguaiana, Rio Grande do Sul.

Localizada na fronteira oeste do estado, divisa com a Argentina, a cidade tem tradição na festa. Realizada num formato semelhante ao do Rio de Janeiro, três semanas depois do carnaval. suas escolas de samba disputam o título em três dias. Na quinta e na sexta desfilam agremiações dos dois grupos, o principal e o de acesso. No sábado se apresentam apenas as escolas do grupo de elite. A soma das notas define o campeão.

Este ano,  o Carnaval Fora de Época de Uruguaiana aconteceu entre os dia 17 e 19 de março, sagrando-se bicampeã a escola de samba Os Rouxinóis, com o enredo "África de Todos Nós", dos carnavalescos Severo Luzardo, Júnior Schall e Marcos Kopke.

Ensaio fotográfico de Valéria del Cueto, agradecimentos a Fred Marcovici

As fotos do ensaio estão divididas pelos dias das apresentações. No sábado, o dia exclusivo das escolas do grupo principal, o trabalho foi realizado exclusivamente com a lente 50mm.

A festa carnavalesca de Uruguaiana

Clique AQUI para acessar as fotos de quinta-feira, 16 de março de 2017.
Uruguaiana, carnaval 2017, quinta-feira

Clique AQUI  para acessar as fotos de sexta-feira, 17 de março de 2017. Uruguaiana, carnaval 2017, sexta-feira

Clique AQUI para acessar as fotos de sábado, 18 de março de 2017, dia do desfile do Grupo Especial.Uruguaiana, carnaval 2017, sábado

@no_rumo do Sem Fim…


Explore  o Studio @delcueto  e conheça os objetos da sua paixão
Studio na Colab55

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Caravana musical

POAUGN 151021 008.jpg pampa silueta boi

Caravana musical

Texto e foto de Valéria del Cueto
Entrar no Cine Pampa, em Uruguaiana, fronteira do Brasil com a Argentina, foi como voltar no tempo. No mesmo espaço, no início da década de 80, tive o prazer de conhecer o berço do movimento que geraria o de melhor a música nativista gaúcha produziu: a Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul.
Novamente as raízes levavam ao agora Teatro Rosalina Pandolfo Lisboa. Era uma apresentação de música campeira, a “Caravana Chamameceira”, uma promoção do Arte Sesc que aportava no berço do nativismo com um show da família Fagundes, Elton Saldanha e Alejandro Brittes.
Dos gaúchos já conhecia um pouco de suas obras re-conhecidas por todos. Do acordeonista  argentino nunca ouvira falar.
Depois de passar pela portaria do teatro e até entrar na sala de espetáculo a impressão que o tempo parou. Destaque para a boa conservação do espaço, muito bem cuidado.
Foi só impressão e durou pouco. A sensação foi quebrada. No palco, junto aos microfones, duas cadeiras, dessas brancas de plástico, destoavam do clima. Substituíam antigos mochos em que violeiros sentavam-se e acordeonistas apoiavam os pés.
Um giroscópio alucinado começou a projetar nas paredes laterais espirais lançados de canhões de luz no fundo do palco. Cai na real, diminui a expectativa pensando que era melhor retornar ao vigésimo primeiro milênio e abrir a mente para o que viria.
O espetáculo dirigido e produzido por Magali de Rossi já percorreu 12 cidades brasileiras, 2 argentinas e fez uma excursão pela Itália, rodando por 9 cidades, entre elas, Veneza, Verona e Roma.
Quando o show começou mais um estranhamento. Elton Saldanha abriu com algo parecido com um iê-iê-iê (lembram disso?) e lascou em seguida uma batida tipo sertanejo universitário. Demorou mas engrenou. Ernesto Fagundes, tocando bumbo legüeiro, apresentou os parentes. Neto e o Bagre, seu pai. Começou a falação. Neto Fagundes é apresentador do programa Galpão Crioulo, e Elton Saldanha locutor. Várias vezes se referiram ao fato de que ali era o palco da Califórnia entre outros clichês. Ora, ali só tinha “cobra criada”...
Trocaria a prosa por mais uns dois bons números musicais. Principalmente se executados por quem quase nada falou e arrasou. Quando Alejadro Brittes abriu a gaita começou a melhor parte do espetáculo.
A magia foi quebrada quando cantaram em castelhano um chamamé lindíssimo composto em guarani. Se vale português e espanhol, por que não na língua nativa dos paraguaios?
Nem mesmo a iluminação de Fabrício Simões (que colocou os canhões de luz giroscópicas em linha na altura dos ombros dos artistas, torturando quem estava na plateia), conseguiu quebrar a força da gaita chamamecera que enfeitiçava a todos. Bastava fechar os olhos para sair da vulgaridade cênica sem conexão lógica com o espírito musical.
Depois de clássicos como “Km 11”, “Merceditas”, “Eu sou do Sul”, a noite foi encerrada com o emblemático “Canto Alegretense”. Podia ter mais...
Todo espaço para a maravilhosa música pampeira. Mais pureza e menos enfeite. Sem traduções e tentativas de explicar o que, por si só, já diz a que veio e até onde pode chegar. Viva o Chamamé, o Sapucay.
E aguarde a caravana musical...
* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim...
E3- ILUSTRADO - SABADO 05-12-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo