Caravana musical
Texto e foto de Valéria del Cueto
É público e notório que meu escritos freqüentam páginas reais e virtuais de vários lugares do Brasil. As pontas de lança são o diário de Cuiabá/MT e o Tribuna de Uruguaiana/RS.
Como já disse aqui sempre estou dividida tentando agradar a gregos e troianos procurando assuntos que interessem ou digam respeito a esta vasta gama de leitores.
Hoje vou contar uma história de Uruguaiana mas, se mudarmos os nomes e endereços, ela vale para vários lugares do país. Sou editora e administradora do blog do Tribuna, onde temos por norma não censurar os comentários, mesmo que anônimos. E lá, neste espaço anárquico e democrático, por meses a fio, foram postados centenas de reclamações contra a única empresa de ônibus que faz a rota Uruguaiana/Porto Alegre. Todos em caixa alta e com textos que pouco variavam, eles diziam “ABAIXO A ...” ( não vou citar o nome por que não quero fazer propaganda neste disputadíssimo espaço)
O protesto, como disse, apareceu em várias postagens com tanta freqüência que, até eu já estava cansada de vê-lo no blog.
Um dia, tentei fazer uma viagem de ônibus entre Cuiabá e a chapada dos Guimarães e, devido as condições inacreditáveis da linha, pensei em seguir o exemplo do anônimo uruguaianense e começar uma campanha similar em Mato Grosso. Troquei de meio de transporte para subir para a chapada e me esqueci do assunto.
Pois voltei a me lembrar dele outro dia, após fazer uma viagem entre Porto Alegre e Uruguaiana, lógico que pela dita cuja companhia (pela qual, diga-se de passagem – ui – tinha até uma boa lembrança por ter sido ela nos idos do início da década de 80 do último século do milênio passado, patrocinadora de um programa da primeira rádio FM da fronteira, que eu e o Fred Marcovici redigíamos diariamente com dicas da programação cultural da capital gaúcha).
Bom, esta boa lembrança foi totalmente apagada depois de ter ficado, durante os 640 quilômetros que separam POA de UGN sentada a bordo, num percurso de mais de nove horas, num ônibus da companhia em questão.
A viagem, pasmem, foi feita com uma única parada de apenas 15 minutos na rodoviária de São Gabriel.
Esta não é a primeira vez que enfrento a maratona, mas agora resolvi “botar a boca” por que uma coisa é uma falha momentânea, outra é ser submetida a uma tortura recorrente.
Retiro tudo o que disse se alguém me der uma explicação pelo menos razoável para as condições da parada permanente da companhia, onde não há opções para se alimentar e usar um toalete, pelo menos razoável, e me contento, por exemplo, com um singelo pão de sal (ou francês) com queijo na chapa e um café ou refrigerante. Pois a parada de São Gabriel é a única do Brasil que já encontrei em que esta iguaria não está disponível.
E, mesmo que estivesse não seria possível prepará-la no tempo exíguo em que lá permanecemos. Se não vejamos: se dividirmos os 15 minutos (isso depois de quatro horas e meia de viagem) em três tarefas indispensáveis numa para de ônibus, banheiro, comida e esticar as pernas, teríamos 5 minutos para cada atividade. Isso se fosse apenas uma única pessoa a realizá-las.
Não vou falar em outros detalhes, por que não caberão no meu espaço. Quem puder publicará a foto da “decoração do estabelecimento". Ela diz tudo...
Portanto, a partir de agora sou parte ativa e operante da campanha contra os monopólios de qualquer linha de ônibus. Monopólios trazem grana para os monopolizadores e fazem o público refém dos maus prestadores de serviços públicos, que passam a achar que usuários são apenas, e tão somente, gado a ser transportado, sem direito a reclamar. Afinal, gado não fala!
* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Fronteira Oeste do Sul, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com


Quando nos mudamos para o apartamento novo, foi um drama pra me desfazer daquelas aparentes porcarias. O que elas faziam ali, ocupando espaço na gaveta da penteadeira que seria dispensada, trocada por móveis zerinhos?
Acredite, cada um daqueles objetos veio parar nas minhas mão de uma maneira incomum e, pensava eu, caso os guardasse com carinho, minha vida teria outro rumo, dado por eles, como objetos mágicos. Gente, eu pensava no rumo da minha vida aos 10 anos, época em que voltamos de Mato Grosso para o Rio!
Pois é. Então, se estava num lugar e visse algum objeto totalmente fora do seu contexto previsível, pensava eu que se passasse por aquele “sinal” sem dar a ele a devida atenção, estaria mudando meu destino, deixando de lado algo que poderia vir, não sabia quanto tempo depois, a ser muito importante no meu caminho.
Chegou uma hora, lá pelos meus 15 anos, que entendi que daquela maneira, em breve eu seria a feliz possuidora de um caminhão de cacarecos, difícil de carregar no mundo que eu queria descobrir. Passei, então, a guardar estes objetos no cofre mais seguro que conheço: minha memória.
Hoje, com o ano chegando ao fim e ainda uma fiel seguidora do meu princípio de que um momento pode mudar nosso destino, a questão é apenas saber quando ele acontece e ter paciência e sapiência para reconhecer o efeito provocado pela causa, fico escavando os objetos ou ações que tiveram este poder.
Ir à Uruguaiana para o carnaval passado, sem dúvida está nesta lista. Essa viagem, feita graças ao meu querido editor e amigo do peito Fred Marcovivi, foi o princípio de uma freeway que começo a percorrer. A idéia de abrirmos o blog do Tribuna de Uruguaiana foi primeiro grão de neve (estamos no natal, né gente?) da bola/ avalanche que está deslizando montanha abaixo, crescendo e agregando novos aliados e a valores a todos os que dela participam.
Nela, veio o del Cueto, pai (que não se tocou, ou evitou reagir ao poder transformador que a viagem teve em mim, e desistiu de participar da aventura uruguaianese carnavalesca na véspera do embarque, em fevereiro). Veio também um punhado de reencontros familiares (foi emocionante rever minha FAMÍLIA) e sentimentais. Me refiro aos 60 anos de Passarinho, que provocou o adiamento do meu retorno pro Rio para podermos fazer uma edição especial do Tribuna pra ele, o que me fez voltar no tempo pra laçar a saudade e dar um nó na tristeza de andar pelos lugares em que nos cruzávamos pela cidade - e tantos outros fatos que hoje me ligam de novo a fronteira oeste.
Bom, o que aconteceu com o jornal e o blog não preciso contar. Fizemos isso juntos. Perdemos alguns aliados importantes mas, em compensação, fomos cercados pelo carinho e o respeito de uma legião de tribuneiros que, a princípio de forma radicalmente anônima e depois - com o cala boca que levamos da justiça -, não mais tão anônima assim, nos mostrou, ao Fred e eu, que havia sim, gente que entendia nossos propósitos e não deixaria que desanimássemos ou mudássemos o rumo do sonho que havíamos vislumbrado no escritório micro do apartamento de Dona Diva.
Ela estava ali. E só nos deixou no mundo físico, por que sei que lá de cima, mexe os pauzinhos e coloca na nossa frente pequenos objetos que, jogados no blog, são recolhidos e valorizados pelos que nos acessaram quase 250 mil vezes nos últimos 10 meses.
Outro dia, aconteceu de novo. Por uma polêmica esportiva numa rede de relacionamentos na internet, Miguel Paiva, o cartunista, ouviu falar do Tribuna. Um auxílio pai-sem-inpiração trouxe-nos o Gatão de Meia Idade e a Radical Chic. Asi, no mas.
Dá pra reclamar? Eu acho que não. Que dizer, eu não. Priscila, a diagramadora, sim. Ela vai à loucura cada vez que me empolgo aqui no Dito e Feito. Pois é ele, o nome desta coluna, escolhido pelo Fredim, que desejo pra vocês, nesse período de renascimento. Que todo mundo um dia tenha a chance de assim como nós. De peito aberto, poder decretar sobre o ano que está terminando: DITO E FEITO!
Obrigado a todos que nos fizeram, em 2009 250 mil vezes mais felizes...
* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com
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Tão longe, de ti distante. Porém sempre guardando referências, Uruguaiana. Mas é fácil ser lembrada de lembrar. Aqui, em terras mato-grossenses, tem Cargnelutis e Furlans. Por estas plagas cuiabanas já passaram Fitipaldis, por exemplo. E olhe, caro leitor, que falo apenas da capital. Se a gente der uma olhada no restante do estado de Mato Grosso quantas outras semelhanças e parentescos encontraremos?
Não sou mulher de abandonar minhas gauchices. Assim como também não dispenso a minha carioquice do Leme ou minhas referências belavistenses. Sempre gostei de gostar dos lugares onde moro. Cada um com suas características, muitas delas totalmente contraditórias (norte/sul, calor/frio, mar/cerrado/pampa/ pantanal). Reconheço os méritos e qualidades pessoais e intransferíveis dos rincões que percorro e onde ancoro por temporadas e, seguindo essa linha de raciocínio, posso usufruir do melhor de cada mundo.
Sou múltipla, facetada e complicada. Misturo tango com rock, rasqueado com blues, danço conforme a música. De preferência de outro lugar: agora, por exemplo, ouço tango eletrônico numa janela cuiabana, mas nem tanto assim, por que é no segundo andar de um prédio de quase vinte pavimentos. Moderno a bessa! Se eles podem, por que não eu?
Essa mescla atinge vários pontos da minha vida. Usos sempre peças de roupa características destas diferentes latitudes e longitudes. É uma faixa paraguaia aqui, uma bombacha ou alpargata ali, no meio dos jeans e camisetas que me aquecem ou esfriam, dependendo do ar condicionado e/ou d a (in)clemência do sol a pino que castiga o fundo da panela onde está localizada a futura sub-sede da Copa do Pantanal .
O biquini e a canga carioca fazem uma dobradinha constante. Uma exceção, já que o segredo dessa mistureba pouco fashion e muito confortável é não abusar dos elementos típicos. Um de cada vez…
Onde eu estava mesmo? Dizendo que é impossível esquecer o que faz parte da gente. Por dentro ou por fora. O truque é sempre estar onde suas referências te levam e levá-las para onde for.
Sei que parece muita profundidade para pouco espaço. Esta é a vantagem de ser a dona, não apenas do seu nariz e do seu texto, além de amiga dos editores dos espaços que publicam as séries do Sem Fim: Ponta do Leme, Parador Cuiabano e Fronteira Oeste do Sul.
Falo o que penso e penso o que posso a cada semana, procurando pontos de contato entre as diversas realidades que me habitam. Não sei direito como elas conseguem co-habitar em meu interior. Só sei que faço delas o que é possível para, sem dividir meu coração, deixar que cada uma tenha um longo reinado no imaginário que alimenta meus escritos.
Isso, enquanto você leitor, se dispuser a me acompanhar nessa e tantas outras viagens. Até a próxima, até talvez, só Ele sabe!
Valéria del Cueto é jornalista, gestora de carnaval. Este artigo faz parte de uma das séries do SEM FIM e cabe a você, leitor , escolher qual delas.
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