Mostrando postagens com marcador 2015. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2015. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 27 de março de 2017

Ver-o-Peso de Belém faz 390 anos

Ver-o-Peso de Belém faz 390 anos

Um mundo de cores, sabores e cheiros exóticos. Assim é o Mercado Ver-oPeso, em Belém do Pará, que hoje completa 390 anos, tombado pelo IPHAN em 2011.

Para comemorar eis o ensaio fotográfico que fiz por lá guiada pelo querido amigo Michel Vilhena,para a série Belém Tem, aqui do No Rumo do Sem fim, em setembro de 2015.

Clique AQUI ou na foto abaixo para a coleção completa das fotos.
Ver-o-Peso, Belém do Pará<script>
O ensaio fotográfico é de Valéria del Cueto
@no_rumo do Sem Fim… por @delcueto 

*curta nossa página turística No Rumo, no Facebook

Acompanhe as viagens pelo instagram @valeriadelcueto

Conheça no Studio @delcueto  os objetos para a sua paixão
Studio na Colab55

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Caravana musical

POAUGN 151021 008.jpg pampa silueta boi

Caravana musical

Texto e foto de Valéria del Cueto
Entrar no Cine Pampa, em Uruguaiana, fronteira do Brasil com a Argentina, foi como voltar no tempo. No mesmo espaço, no início da década de 80, tive o prazer de conhecer o berço do movimento que geraria o de melhor a música nativista gaúcha produziu: a Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul.
Novamente as raízes levavam ao agora Teatro Rosalina Pandolfo Lisboa. Era uma apresentação de música campeira, a “Caravana Chamameceira”, uma promoção do Arte Sesc que aportava no berço do nativismo com um show da família Fagundes, Elton Saldanha e Alejandro Brittes.
Dos gaúchos já conhecia um pouco de suas obras re-conhecidas por todos. Do acordeonista  argentino nunca ouvira falar.
Depois de passar pela portaria do teatro e até entrar na sala de espetáculo a impressão que o tempo parou. Destaque para a boa conservação do espaço, muito bem cuidado.
Foi só impressão e durou pouco. A sensação foi quebrada. No palco, junto aos microfones, duas cadeiras, dessas brancas de plástico, destoavam do clima. Substituíam antigos mochos em que violeiros sentavam-se e acordeonistas apoiavam os pés.
Um giroscópio alucinado começou a projetar nas paredes laterais espirais lançados de canhões de luz no fundo do palco. Cai na real, diminui a expectativa pensando que era melhor retornar ao vigésimo primeiro milênio e abrir a mente para o que viria.
O espetáculo dirigido e produzido por Magali de Rossi já percorreu 12 cidades brasileiras, 2 argentinas e fez uma excursão pela Itália, rodando por 9 cidades, entre elas, Veneza, Verona e Roma.
Quando o show começou mais um estranhamento. Elton Saldanha abriu com algo parecido com um iê-iê-iê (lembram disso?) e lascou em seguida uma batida tipo sertanejo universitário. Demorou mas engrenou. Ernesto Fagundes, tocando bumbo legüeiro, apresentou os parentes. Neto e o Bagre, seu pai. Começou a falação. Neto Fagundes é apresentador do programa Galpão Crioulo, e Elton Saldanha locutor. Várias vezes se referiram ao fato de que ali era o palco da Califórnia entre outros clichês. Ora, ali só tinha “cobra criada”...
Trocaria a prosa por mais uns dois bons números musicais. Principalmente se executados por quem quase nada falou e arrasou. Quando Alejadro Brittes abriu a gaita começou a melhor parte do espetáculo.
A magia foi quebrada quando cantaram em castelhano um chamamé lindíssimo composto em guarani. Se vale português e espanhol, por que não na língua nativa dos paraguaios?
Nem mesmo a iluminação de Fabrício Simões (que colocou os canhões de luz giroscópicas em linha na altura dos ombros dos artistas, torturando quem estava na plateia), conseguiu quebrar a força da gaita chamamecera que enfeitiçava a todos. Bastava fechar os olhos para sair da vulgaridade cênica sem conexão lógica com o espírito musical.
Depois de clássicos como “Km 11”, “Merceditas”, “Eu sou do Sul”, a noite foi encerrada com o emblemático “Canto Alegretense”. Podia ter mais...
Todo espaço para a maravilhosa música pampeira. Mais pureza e menos enfeite. Sem traduções e tentativas de explicar o que, por si só, já diz a que veio e até onde pode chegar. Viva o Chamamé, o Sapucay.
E aguarde a caravana musical...
* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fronteira Oeste do Sul” do Sem Fim...
E3- ILUSTRADO - SABADO 05-12-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo

domingo, 29 de novembro de 2015

Fronteiras da força

Uruguai 151106 044.jpg beira rio delirioFronteiras da força

Texto e fotos de Valéria del Cueto
A lua era tua! Hás de convir que vê-la por onde o sol nasce quadrado não é lá muito animador. Para uns, uma tragédia. Para outros - poucos esses -, uma opção conscientemente sábia.
“O mundo está assim, levando tudo para o lado pior. Cambando a vida para a beira do barranco, deixando a lama correr solta: sem chance de reduzir, amenizar, afagar. E quando não é lá, é cá”.
Singelos exercícios filosófico transparecem no texto digitado por Pluct, Plact, o alienígena já quase humano. Ele segue tentando recolher energia para um impulso toín,óin,óin que o devolva para o espaço interplanetário a que de direito pertence. Mas... Ainda não será dessa vez que ultrapassará a camada de ozônio, cada vez mais pesada, reflexo das energias circulantes, dominantes e reinantes.
Não, caros amigos, ele não tem a menor ideia de como suas palavras alcançarão a cronista enclausurada.  Talvez nunca. Ela se recusa a manter qualquer contato com o mundo exterior. Trancou-se em seu espaço no outro lado do túnel. Jogou a chave fora, por entre as barras da janela antiga. Avisou a lua que numa certa época do ano não poderá saudá-la por seu exíguo, mas suficiente, quadradinho de luz. Melhor para ela. Só alimento para o corpo. Para a alma, evita-se perturbações. Portanto, nada de tudo.
Não há justificativa plausível para os últimos acontecimentos. Muitos últimos. Que num jogo entre a França e a Alemanha, em Paris, seria o princípio de uma carnificina religiosa, estopim para a violência em vários continentes do planeta. Que no Brasil um desastre ambiental sem precedentes exporia a incompetência e a paralisia geral diante de prioridades equivocadas. De Mariana aos Abrolhos os detritos tóxicos que desceram pelo Rio Doce transformam a paisagem e apontam a sucessão de falhas e a incompetência para lidar com as consequências do rompimento das barragens físicas e morais, em Minas.
Na Argentina, uma novidade eleitoral: a vitória apertadíssima de Macri, o novo presidente é oposição ao governo anterior.  Na Venezuela, um representante da oposição é abatido num comício. Pensem no clima. No Mercosul fronteiras abertas...
E como se não bastasse, depois de dar o bote no homem do Passe Livre (não, não o futebol, querida, o fazendeiro de Mato Grosso do Sul, chapa do Lula), num desdobramento da operação Lava Jato, acordamos no meio da semana com o Senado visitado pela Polícia Federal que apreendeu documentos e numa ação inesperada, prendeu o senador Líder do Governo e presidente da Comissão de Assuntos Econômicos, Senador Delcídio Amaral. Além dele, também foi parar no xilindró André Esteves, um banqueiro bilionário.  A ordem de prisão veio e foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal. Os desdobramentos proporcionaram uma aula intensiva de processo congressual a quem acompanhou a sessão do Senado que decidia como seria a votação (voto aberto ou secreto) e qual a posição dos pares da augusta casa em relação a autorização necessária para que o apreendido assim permanecesse. Foi um barata voa. Elas ainda passeiam pelos espaço aéreo. Por enquanto livres, leves e soltas. Mas não circulam mais pelo espaço telefônico, meio pelo qual o peixe mordeu a isca e, mais um, acabou morrendo pela boca.
Fui, amiga. Meu processador perde potência! Só um banho de sal grosso e lua para depurar essa energia.   
* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim...
E3- ILUSTRADO - SABADO 28-11-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo

domingo, 15 de novembro de 2015

É a lama!

SLucas 151028 046 bota alpargataÉ a lama

Texto de Cassio Novo e Valéria del Cueto
Cassio Novo “Não há nada, no atual momento, mais ensurdecedor do que o criminoso silêncio da mídia sobre o desastre ambiental na maior bacia hidrográfica da região sudeste do país! Percebam que nem coloco em destaque a questão da atribuição de culpas e responsabilidades (expediente usual da nossa imprensa). Mas à inexistência da cobertura. Qualquer que seja. Silêncio criminoso. Aviltante. Perturbador.”
Valéria del Cueto “Há sim. O silêncio de quem flexibilizou a concessão de licenças ambientais, desmontou as agências fiscalizadoras e criou facilitadores para a distribuição indiscriminada de recursos públicos e incentivos fiscais para o "desenvolvimento industrial" visando a aceleração econômica em detrimento da proteção ambiental, meu querido geógrafo.”
C.N. “Minha querida jornalista, não ignoro tudo isso. Inclusive por ter vivido, à época, em empresa gigante do setor de geração e distribuição de energia, estas mudanças e ter sido testemunha (e refém) de tudo isso. Como geógrafo com especialização em análise ambiental e mestrado em cultura e natureza, como consultor ambiental com anos de experiência na área, sei bem do que você está falando. Tudo isso que você lista, acertadamente, só torna o silêncio da mídia ainda mais criminoso. Porque não foi noticiado à época. Não vem sendo monitorado. Não é pauta. E não se utiliza tudo isso para embasar as notícias e reportagens que NÃO estão sendo feitas sobre o desastre. As ações (e ausência de ações) do governo fazem parte de um todo. Cujo desdobramento, perverso, é isso aí. E muito mais (que sequer chega aos olhos e conhecimento da sociedade e do público). Mas repito e reforço: no ATUAL momento, de acordo com o que escrevi lá em cima, não há nada mais ensurdecedor do que o silêncio.
O governo (não este ou aquele partido, mas O Governo) é refém dos interesses de gigantes que operam na transformação da natureza. Basta que estejamos atentos aos muitos milhões de reais (além dos favores e privilégios) distribuídos entre tantos parlamentares e partidos "oferecidos" (investidos) por boa parte, senão a totalidade, das maiores empresas em operação. O governo é co-responsável pela tragédia. Pelos motivos por você listado e tantos outros. E é compreensível (não quer dizer que seja correto ou aceitável) que se blinde e se esquive de responder ou se pronunciar. É uma das principais partes interessadas (por qualquer que seja a abordagem) no âmbito do ocorrido. Não falar é fazer a poeira abaixar, não colocar lenha na fogueira, não dar oportunidade para que se descubram ainda mais "ilícitos". E, justamente por tudo isso, deveria ser impelido a abandonar o silêncio covarde (e também criminoso) por uma imprensa sabedora e defensora do que é o cerne da sua existência: conhecer, informar e comunicar.”
V.d.C. “Meu geógrafo... Por que acha que respondi a sua postagem? Por saber que desse mato ia sair coelho! Jornalistas com “J” maiúsculo estão demitidos, boa parte processados e a maioria alijada dos meios de comunicação. Aqueles, bancados essencialmente por verbas públicas. A prática se tornou exponencial de 2002 para cá. Tipo assim “à la Stalin”. Só que abrangendo várias correntes partidárias coligadas aqui e ali, unidas por intere$$e$ maiore$.
Parti para a produção de conteúdo independente obviamente não remunerado. É No rumo do SEM FIM... entre crônicas carnavalescas, reflexões da Ponta do Leme e os delírios das Fabulas Fabulosas que vou driblando a ignorância, evitando os processos que quebram os independentes e registrando carinhosamente, com bom humor e alguma esperança, meu testemunho desses tempos.  Atente para o detalhe que me refiro a jornalistas e não divulgadores de releases e informações sem checagem. É claro que existem honrosas exceções. Não dá para generalizar.   Agradeço por suas provocações que me levam a falar de coisas que foram essenciais na minha formação e hoje não têm mais espaço para serem discutidas.”
C.N. “Não há o que agradecer, Valéria del Cueto! Sigo acompanhando com interesse e admiração o seu trabalho. Há tempos. E sigamos nos provocando e provocando os matos. Tem muito mais do que cachorro pra ser”

*Cassio Novo é geógrafo, especialista em análise ambiental e gestão do território e doutorando em Geografia, Cultura e Natureza no PPGEO/UERJ.
**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do Sem Fim...
E3- ILUSTRADO - SABADO 14-11-2015

domingo, 8 de novembro de 2015

Fome de quê?

Belém 150916 160 Ver o Peso vegetal Banca Pimenta lataFome de que?

Texto e fotos sobre Belém, de Valéria del Cueto
A Itália me chama, mas não posso chegar lá (ainda). Dessa vez fui despertada por um alerta do Periscope,  aplicativo de transmissão de vídeo em tempo real (streaming) do Twitter. Fui parar, ainda dormindo, na abertura da edição 2015 da Artíssima, a feira de arte contemporânea que agita Torino, no Piemonte, no primeiro final de semana de novembro. Em 2013, o evento que ocupa o Oval, pavilhão do Lingotto Fiere, rendeu o texto “Torino, Corso dell’Arte Contemporânea” em que explorava  o evento italiano.
Um pouco mais tarde, outro alerta. Dessa vez é um email da Mendes Wood DM,(de Pedro Mendes, do time de curadores da Artíssima), uma das três galerias brasileiras, dentre as 207 participantes, de 35 países, com obras de Paulo Nimer Pjota. Do Rio, comparecem A Gentil Carioca com peças de João Mode, Rodrigo Torres, Maria Laet, Laura Lima, Thiago Rocha Pitta e a Luciana Caravello, com Nazareno. Artistas brasileiros como Matheus Rocha Pitta e Paulo Nazareth, estão representados nas galerias Sprovieri, de Londres, e Franco Noero, de Torino, respectivamente.
Por que não estou lá? Pergunta uma parte do meu cérebro adormecido. Já totalmente desperta tento responder ao questionamento e volto no tempo. Agora, até Milão onde vi, na mesma viagem, um detalhe que  me incomodou, narrado na crônica Tiro ao Alto: a poluição visual da cidade, com banners e penduricalhos referentes a Expo Milano 2015 que, com o tema “Nutrir  o planeta, energia para a vida”, movimentaria (e  inflacionaria) a cidade lombarda de maio a outubro.
“Alimentando o mundo com soluções”. Com esse slogan lá estivemos nós, nos últimos 6 meses, entre os 145 países que ocuparam gigantescos pavilhões, uma área de 1.1 milhão de metros quadrados, para receber um público estimado em mais 20 milhões de visitantes. O brazuca tinha 4.133 metros quadrados e várias bossas. Entre elas, uma rede suspensa por onde os visitantes passeavam. De 2013 pra cá procurei (sem muito sucesso) informações do que apresentaríamos por lá. O melhor canal, acreditem, era nas notícias veiculadas na Itália. Foi lá que descobri como seria nosso pavilhão, seu projeto arquitetônico e outros detalhes. Queria saber quais as premissas que norteariam nossa participação. Quando a EXPO começou, achei um site oficial que mencionava algumas receitas que seriam apresentadas por lá. Junto a tradicional Caipirinha aparecia um drink chamado Diabo Roxo. Lado a lado com a Feijoada, uma receita de Macarrão com Molho de Soja! Como estava numa fase “paz e amor” preferi não polemizar e acompanhar o que os outros países apresentariam de interessante.
Vi, mais uma vez, o Brasil na fita quando o ex-presidente Lula pontificou numa foto premonitória, literalmente andando na corda bamba, dando pinta na tal rede “multissensorial e imersiva”, atração do  pavilhão brasileiro. E assim se passaram os meses do evento que lotou e movimentou a Lombardia, o Piemonte e o território italiano, razões pelas quais não fiz nenhum esforço para visitar a Itália neste período. Ainda mais com a desvalorização de nossa moeda...
Nada chamou minha atenção positivamente nesse intervalo, especialmente porque expor produtos pecuários e agrícolas como frutas, entre elas morangos (aqueles entupidos de agrotóxicos), não era exatamente relevante para a sustentabilidade planetária. Não estávamos ali para discutir ou inovar, mas para vender o peixe institucional sem maiores questionamentos.
Até o evento dos dois últimos dias no pavilhão: o lançamento do Centro Global de Gastronomia e Biodiversidade da Amazônia. Ele será implantado no Complexo Feliz Lusitânia, em Belém do Pará, para  viabilizar a pesquisa, o ensino e  formação, o fomento econômico, turístico e cultural, com uma escola de gastronomia, laboratório de alimentos, barco-cozinha, museu e restaurante. Pois não é que veio da cidade que completará 400 anos em 2016 a proposta que mais se  coaduna com o tema da ExpoMilano? Como sempre, o Pará. Surpreendente e na vanguarda...
A mais de 3.000 quilômetros no rumo sul, em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, juro que em breve atravessarei o país e, novamente, mergulharei nos sabores e saberes paraenses. Enquanto aguardo o inverno passar para, quem sabe, matar o desejo de explorar, mais uma vez, a terra de meus antepassados, a “Bella Italia”.
* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do Sem Fim...

sábado, 17 de outubro de 2015

Florestas urbanas

Belém 150915 068 Bosque Rodrigues Alves Iara lago amazônia

Florestas urbanas

Texto e fotos sobre Belém, de Valéria del Cueto
Há mais em Belém do que se imagina numa primeira abordagem. A cidade em 2016 comemora  400 anos da sua fundação e foi considerada, na época da áurea do extrativismo da  borracha, de 1890 a 1920, a “Paris n’América”. Pensam que é pouco?
Foi do “Bois de Bologne”, da Cidade Luz que veio a inspiração para a reforma do Parque Municipal, criado em agosto de 1883. Antônio Lemos, intendente municipal, o transforma no Bosque Rodrigues Alves, hoje reconhecido como Jardim Zoobotânico da Amazônia.
Passear por sua área de 15 hectares, é uma viagem à floresta amazônica, com direito a alamedas, viveiros, monumentos e recantos com grutas, riachos e cascatas. São mais de 10 mil árvores, de aproximadamente 300 espécies da região, incluído algumas em extinção. Caso do Cedro, Anjelim Rajado e Talibuca. O clima fica completo com 430 animais, de 29 espécies, que vivem em cativeiro. Outras 26 circulam livremente pelo espaço. São aves, répteis e mamíferos regionais coexistindo em perfeito equilíbrio com a natureza.
Pereira Passos, em 1905 faria a reforma urbanística do Rio de Janeiro. O prefeito carioca se inspirou e bebeu da mesma fonte que o responsável pelas mudanças urbanísticas que até hoje caracterizam Belém. Antes disso, a capital do Pará já havia partido na frente: foi a primeira cidade brasileira a ter luz elétrica e linhas de bonde elétricos. Era o auge do Ciclo da Borracha, em plena Belle Époque.
Da Europa chegam máquinas e peças de ferro, oriundas das mudanças provocadas pela Revolução Industrial. Muitas dessas estruturas podem ser vistas pela cidade. Entre elas o Chalé de Ferro, pré-fabricado e trazido da Bélgica. Montado entre 1882 e 1900, com 378 metros quadrados, serviu de residência e foi realocado no Bosque Rodrigues Alves.
Todo o complexo, que também é um campo de estudos e cultivos de mudas, é responsabilidade da Prefeitura Municipal e gerenciado pela Secretaria de Meio Ambiente.
Um Parque Zoobotânico está bom? Está não... Belém tem, além do Mangal das Garças, (já devidamente destrinchado em “Céu na terra”), mais um lugar especial para interagir com a grandiosidade da natureza local.
Belém 150917 007 Parque do Museu Goeldi preguiça
O Museu Emílio Goeldi, instituição de pesquisas ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, se dedica, desde 1866, a estudar cientificamente os sistemas naturais e socioculturais da Amazônia. São mais de 5 hectares com  2 mil espécies, 600 exemplares da fauna e muitas atividades. Entre elas, exposições sobre temas locais, como “Amazônia, o homem e o ambiente” que ocupa uma das quatro salas do prédio principal, conhecido como Rocinha.
Belém 150917 012 Parque do Museu Goeldi Michel Vilhena e Rafael, pesquisador
Destaco a recepção proporcionada por Rafael, um dos integrantes do Clube do Pesquisador Mirim. Nos abordou uniformizado, de prancheta na mão, querendo que respondêssemos a algumas questões sobre o parque, seus animais e nossas expectativas em relação ao passeio. Compenetrado, nos acompanhou mostrando algumas das atrações que mais gostava. Explicou que não havia chegado ao Clube pela escola, mas pedindo que sua mãe o levasse até o Museu depois de assistir na televisão uma reportagem sobre as atividades dos participantes. As matrículas anuais estavam abertas. “Não parei de perturbar até ela me trazer. Estou adorando.” A ação educativa começou em 1997 e, de lá para cá, foi definitiva na escolha da profissão de inúmeros estudantes que passaram pelo clube. Muitos seguiram carreiras nas áreas de Zoobotânica, alguns São profissionais ligados a instituição.
Talvez esteja na hora do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, fazer uma visita a Belém do Pará para entender como é essencial a existência de um zoológico para uma comunidade. Quem sabe, não volte de lá com noções de como manter esse tipo de estrutura sem precisar entrega-la à iniciativa privada. Todos os espaços aqui citados pertencem e são geridos pelo poder público. Vivendo e aprendendo...
* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do Sem Fim...
E3- ILUSTRADO - SABADO 17-10-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo


sábado, 10 de outubro de 2015

PARAiso dos sabores

Belém 150914 017 Bar do Rubão fogão caranguejo

Texto e fotos sobre Belém, de Valéria del Cueto
Se é Nossa Senhora de Nazaré no céu durante os festejos do Círio, também é gula (que Deus nos perdoe)  aqui na terra. Quem resiste aos encantos culinários de Belém do Pará? Nem eu que não sou lá grande coisa quando o assunto é gastronomia. M sinto impedida por um fato prosaico: não como frango, galinha, nem nada que voe. Falamos da terra do Pato com Tucupi, captou?
Vou começar pelo fim e num lugar bem fácil: a óbvia e imbatível sorveteria Cairú, na Estação das Docas (sonho de consumo de cidades como o Rio de janeiro, um enorme complexo turístico cultural composto por três antigos armazéns, ao lado do famoso Mercado Ver o Peso e da Cidade Velha e seus monumentos). Meus preferidos são o picolé de Tapioca e o sorvete Carimbó: castanha verde com geleia de cupuaçu. Meu Deus! De comer ajoelhada e repetir várias vezes.
Sabia que ia voltar ao “Lá em Casa”, no Armazém 2, o Boulevard da Gastronomia, de Daniela Martins. Primeiro passei num almoço, tipo self-service. Melhor o clima da noite, mais aconchegante e tranquilo. O Filé Ilha do Marajó, prato da Boa Lembrança, tem geleia de cupuaçu, pimenta rosa, queijo do Marajó e jambu.
Demorei a entender por que às cindo horas da tarde, num calor mais abafado do que deveria ser (considerando que dos 10 dias que passei, só duas vezes choveu no horário costumeiro e num outro dia já de noite), vinha o convite para irmos tomar um Tacacá. Caldo de Tucupi sobre a goma de tapioca, jambu, chicória, camarões, etc, etc. No segundo chamado no mesmo horário incomum foi que deduzi que esse é um costume local e, assim sendo, fui introduzida no metier na hora que, na Inglaterra, é costume tomar o chá das cinco. Numa calçada da Avenida Nazaré, no Largo Redondo, em frente ao colégio Nazaré, fica o Tacacá da dona Maria. Peleio para me entender com a cuia, cestinha, palito e, fundamental, muito guardanapo. Não há como negar que é soberbo!
Também tem o Açaí. No Point Boulevard ele vem com tudo: tapioca e farinha d’agua. Acompanha o Filé de Pirarucu com vinagrete, arroz, farofa. Isso após um passeio pelo variadíssimo Ver-o-Peso, o entreposto fiscal fundado em 1625 para aferir os produtos e pagar os impostos para a coroa portuguesa que se transformou na maior feira livre da América do Sul, com seu estilo Belle Époque. Fartura e variedade de produtos, cheiros e coisas que nunca se viu na vida.  Vai Pitaya ai?
Outro lugar muito agradável é o Restô do Parque, no mesmo espaço da Estação Gasômetro, o Parque da Residência, antiga Casa dos Governadores. Um buffet à quilo, da rede Pommed’Or. Tanto aqui quanto no Manjar das Garças o quesito visual é nota dez. No restaurante do Mangal das Garças, o buffet é a preço fixo, o que, no meu caso, não é muito interessante.
Belém 150914 016 Bar do Rubão e cozinha
A não ser... no lugar que deixei por último. O Bar do Rubão, na Travessa Gurupá, Cidade Velha. O “carnavalesco e cozinheiro” me pegou pelo sorriso e também pelo estômago. Bati ponto. A primeira vez, para experimentar o caranguejo desfiado com farofa. Depois, numa madrugada, foi a vez da singela e reconfortante sopa de caranguejo.

A última investida foi durante o Projeto Circular em que conheci a Casa Stúdio de PP Condurú, depois de visitar a Elf Galeria, de Lucinha Chaves, na Passagem Bolonha, e a Kamara Kó, galeria de fotos ali mesmo, na Cidade Velha. Pois chegamos nas mesinhas colocadas na calçada dispostos a experimentar o Pirarucu de Casaca. Pura ilusão. Pauta para a próxima visita. A iguaria havia acabado logo no início dos trabalhos. Além do caranguejo de consolação, fui apresentada ao Camusquim, macarrão com molho branco e camarão. Li em algum lugar que é prato típico do Marajó. Uma coisa!
Mas não é tudo. E aí, um toque que faz de Belém um local para todos os tipos de paladares. Foi no Bar do Rubão que comi uma das melhores batatas fritas que já provei na vi-da. Crocante por fora e um cremezinho por dentro. Viciante. De dar água na boca só de lembrar.
Belém é um PARAiso dos sabores para todos os gostos...
* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do Sem Fim...
E3- ILUSTRADO- SABADO 10-10-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo

sábado, 3 de outubro de 2015

Céu na terra

Belém 150915 119 Mangal das Garças ave laranjaCéu na terra

Texto e fotos sobre Belém, de Valéria del Cueto
Belém do Pará é um lugar multifacetado e isso é apenas uma de suas seduções. Outubro, o mês de sua maior festa, o Círio de Nazaré. A cidade se engalana para receber os romeiros e devotos da santa.
Antes do início da festa, no intervalo após o Festival de Ópera do Theatro da Paz, Belém é deliciosamente calma. Bem diferente do agito social frenético que domina as festividades religiosas.
Um ótimo momento para explorar o Mangal das Garças! Era desejo antigo guardado para quando tivesse tempo sobrando para sintonizar e realinhar as energias com a natureza exuberante. O espaço, aberto em 2005, ocupa 40 mil metros quadrados na margem do rio Guaná, ponta da Cidade Velha, ao lado do Arsenal de Marinha.
O Memorial Amazônico da Navegação apresenta os elementos dominantes no meio de transporte que forjou Belém: o militar(Marinha), o comercial(ENASA) e o regional. A estrutura do prédio, em Ipê, e seu telhado de palha se integram com os objetos exibidos. Destaque para as peças refletidas em espelhos e enquadradas pelas laterais vazadas da construção. Um divertido exercício fotográfico, antes de uma mudança radical nas dimensões exploradas.
É no alto do Farol de Belém, outra das atrações pagas, assim como as demais visitas monitoradas, que temos uma ideia do espaço geográfico onde está encravado o Mangal.
O rio, o projeto arquitetônico do Parque Naturalístico (capitaneado por Paulo Chaves Fernandes, secretário estadual de Cultura) e a cidade de Belém, dominada por suas maravilhosas mangueiras, se descortinam de 47 metros de altura, no topo da torre da caixa d’água que abastece todo o complexo.
Os Lagos Cavername, da Ponta e o minizoológico, onde os animais interagem ou ignoram solenemente os visitantes, são os recantos referenciais do espaço gratuito concebido para apresentar as matas de terra firme, de várzea e os campos: componentes do ecossistema amazônico.
Aberto das 9h às 18h de terça a domingo, a partir das 7h está liberado para caminhadas. Também é possível acompanhar diversas atividades relacionadas ao cotidiano local como alimentação de peixes, tartarugas e garças, no Recanto da Curva, e soltura de borboletas, no Borboletário.
Se a sintonia for fina, a energia boa e a paciência muita, é possível “dialogar” e clicar garças, maguaris, socós, marrecos, tartarugas, iguanas que “ocupam” o espaço.
Dois viveiros, um de pássaros, outro de beija-flores e borboletas, podem ser visitados. No dos pássaros, conta seo Carlos, o encarregado, estão abrigadas espécies recolhidas pelo Ibama e ainda incapazes de voltarem para a natureza. Do órgão também vem a madeira apreendida nas operações contra o desmatamento utilizada na conservação e manutenção do parque e seus equipamentos. Pelo menos uma vez por ano, por causa das chuvas, parte das estruturas de madeira tem que ser substituída para segurança dos visitantes: aves, animais e turistas.
O restaurante Manjar das Garças, com um visual incrível, e o Mirante do Rio, projetado sobre o Guaná no final de uma passarela de 100 metros sobre os mangues com sua vegetação típica, o aningual, são outras atrações a serem exploradas. Tudo num tempo próprio, onde a luz modifica o ambiente e cria efeitos diferentes no correr do dia. O Armazém do Tempo, no galpão de ferro da ENASA, Empresa de Navegação da Amazônia S/A, usado como oficina mecânica e de reparo de embarcações, transformou o ambiente restaurado num espaço de exposições e venda de produtos indígenas.
Criado há dez anos, o Mangal das Garças é, sem dúvida, um referencial urbanístico brasileiro. Integra a comunidade, permite a interação homem/natureza e explora de forma sustentável as belezas da Amazônia.
* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do SEM   FIM... 

sábado, 12 de setembro de 2015

Passarins pasarán

Mang Bar 150206 159 2 piso carro abre alas rosas led delirioPassarins pasarán

Esta Fábula Fabulosa se embalou no pedido a Deus feito por Luizito, intérprete da Mangueira, na sua última apresentação no Palácio do Samba: "que me de saúde para cantar para ela (Maria Betânia) e pra vocês esse ano..." Afinal, o que poderia ter impedido que seu desejo se realizasse?
Passarão era o rei da voz. Incontestavelmente. Sabia de suas qualidades e fez jus ao título enquanto intérprete da trilha musical. Empoleirado no alto do alto do Jequitibá encantava toda a floresta.
Tinha ajudantes. Seu segundo, Passarito, ciente do seu papel, conhecedor do seu lugar. Sabia quando e onde pontuar as melodias tão belas que representavam a rainha das flores, a rosa formosa.
Era um prazer ouvir a sinfonia. A floresta se animava se sentindo estimulada e afagada pela cantoria magistral dos pássaros. Quase um feitiço.
Um dia chegou o dia de Passarão cantar para subir. Era esperado. Seu tempo, esgotado. Partiu. Houve gurufim e homenagens. Passarito assumiu o posto vago.
Dias antes de sua primeira apresentação a frente dos pássaros cantores, num ensaio técnico, passou mal. Coração disparou e quase saiu do peito. No céu, carimbaram o passaporte celestial de Passarito. O que  estabelecia o caos no conjunto do desfile e falha na harmonia. Mas era vontade do Criador.
Só que... O anjo encarregado de conduzir Passarito em sua passagem havia chegado mais cedo e assistido extasiado ao ensaio final do espetáculo, no palco não totalmente iluminado, mas tomado pela imensa  emoção.  Naquele momento, seu coração inebriado de anjo se tomou de amores pelas cores e o perfume da flor verde e rosa e não achou justo que Passarito faltasse ao compromisso assumido e esperado por tanto tempo.
Quebrando a regra número um dos condutores das boas almas resolveu dar um perdido nas instâncias mais elevadas e soprou novamente a vida pelo bico de Passarito. Este, desperto e animado, não parou mais nem deixou em nenhum momento de fazer por merecer a confiança do anjo.
Anjo protetor por seu ponto de vista, mas traidor pela ótica do Primeiro e Único.
Por muito tempo infinitos afazeres tiraram o foco e a atenção do Altíssimo para o desvio, vamos chamar assim, que havia acontecido.
Passarito, ave boa e cantadeira, espalhava alegria e fazia por merecer seu tempo extra no plano terreno. Não havia uma melodia melhor do que outra, nem emoção maior do que poder soltar seus gorjeios e trinados. Estes reverberavam pelas árvores para animar a vida de todos os seres da floresta. A cada verão uma nova canção para celebrar a alegria.
Até que um dia, chegou a hora de falar de Oyá. E quando Passarito abriu o peito e pediu forças ao Criador para, mais uma vez, elevar seu canto verde e rosa, Iansã soprou um vento empolgada e, pensando ajudar Passarito, fez seu pedido chegar lá no céu.
Céus! O que virou a notícia lá em cima. A pergunta que não quis calar foi: como podia estar faltando o trinado de Passarito no coro celestial? Então já não havia sido determinado que Passarito se juntasse aos “Bambas da Lira” tempos atrás?
Chamado aos costumes fez o anjo um “mea culpa” e surpreendeu o conselho dos arcanjos ao pedir perdão, mas sem se arrepender. Disse que qualquer punição é válida diante do prazer de ter acompanhado, durante o tempo de Passarito na terra, suas apresentações puxando gorjeios das almas dos bicudos voadores. Quase encantado...
Não teve nem tempo de argumentar. Enquanto tentava se defender, lá embaixo, Passarito partia. Sem direito a nem mais um minuto de acréscimo. Rapidamente ele foi catapultado para o nível superior e já caiu no meio da cantoria celeste festejado e arrebatado
No Jequitibá, ainda sentido, a passarinhada já segue a vida. Passanerey assumiu o posto de Passarito, que era de Passarão, e a responsabilidade de embalar o canto de Iansã na próxima apresentação.
Será igual? Nunca! Mas não esqueça: “Passarins pasarán e sempre, para sempre, passarinharão...”
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosa” do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

E3- ILUSTRADO - SABADO 12-09-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo

sábado, 5 de setembro de 2015

Pura verdade

Pura verdade

Pulava de um galho balançante para o topo do arbusto junto da parede. De lá, para o xaxim da samambaia. Dele, cruzava o espaço num voo rápido para um pedacinho de terra, no pé de uma Felicidade.
Mirava com seus olhinhos assustados – e já estressados - sempre a maior porção possível de céu azul.
Lá no fundo podia vê-la.  Ia ele em sua direção e... “TABOUF”. Caindo desgovernado para um lado, asas desalinhadas do outro e aquela sensação de haver batido de frente com uma coisa muito, muito dura.
O barulhão já indicava o nível da porrada contra o que, até sentir nas penas e no corpinho leve e mirrado por elas protegido, era nada.
Agora, mais que uma pedra, havia uma barreira invisível e impenetrável no caminho de volta à liberdade.
Atordoado com as pancadas, assustado com os barulhos,  desalinhadas as plumagens encarregadas de sua engenharia perfeita de voo, o chão duro era o limite intransponível para o final da queda desajeitada por falta de tempo/espaço para realinhar a descida.
Doída e inexplicável.
Dizem que a curiosidade matou o gato. Pois fiquem sabendo que também foi ela que prendeu e desorientou o passarinho.
Pelo menos esse foi o caso...
Rompeu a barreira das casas empilhadas dos Joãos e Josés, não de barro, mas, sim, de cimento saindo do aconchego das árvores protetoras das ruas, ao entrar numa fresta entre dois poleiros de concreto. Trocou o corredor de árvores e abrigos por outro. Sempre imaginando o que havia por lá, do outro lado.
Nunca pensou entre em rasantes e embicadas que daria naquilo. Aquele quadradão inútil, uma selva de pedra com duas árvores e muitas divisões estéreis, pateticamente possuídas e pouco utilizadas em pequenos coletivos egoístas.
Primeiro um geralzão planando entre prédios e janelas, com direito a rasantes pelos tristes espaços vazios, em tons de nada, nem mesmo terra. Uns mais altos. Outros mais baixos. Num dos espaços um verde grama falso de carpete tenta engambelar os olhos e, certamente, não tem o mesmo efeito nos outros sentidos: tato, paladar, olfato. É plástico ou algo assim muito sintético e nada natural, experimentou.
A revista aérea continuou até descobrir uma variação nas cores, um algo mais. Numa altura maior, quase na quina do quadrado, florezinhas cor de rosa e arbustos sacudidos pela brisa convidavam a uma parada extra.
Foi lá que como Ivo, ele viu a uva, quer dizer, as plantas dentro da casa. Diferentes, variadas. Ia alcança-las. Rodeou, deu voltas e achou uma fresta. Mal sabia que disfarçada. Por ali não teria volta. Mas pra que? O céu azul estava ali, tão perto...
Bateu, tonteou, voltou, mirou com cuidado e mergulhou de novo. Perdeu o voo e despencou. E ali ficou. Desejando nunca ter entrado no paraíso.
Pancada daqui, confusão dali, o barulho finalmente atraiu uma boa alma que, depois de pelear um pouco com o pássaro assustado, abriu passagem escancarando as  janelas. Em mais uma tentativa (dessa vez meio cuidadosa, sem muito ímpeto devido aos efeitos das incontáveis trombadas anteriores) da ave, o céu inacreditavelmente voltou a ser o limite.
Ela aprendeu a lição: nesse mundo surpreendente, coisas que parecem não são exatamente. Nesses jardins individuais, feitos para suprir a ausência dos pés no chão, não há espaço para a fertilidade. E - quem não sabe? - onde a fauna não é bem vinda, a vida não reproduz. Esta é a mais pura verdade...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosa” do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com