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terça-feira, 13 de julho de 2021

À flor da pele


Texto e foto de Valéria del Cueto

O rendilhado dos raios de sol atravessando as folhagens se projeta nas cortinas cor de mostarda do quarto. Ditam a hora do primeiro movimento do dia.

Ainda é um esforço pequeno, apenas o suficiente para jogar o edredon de lado, chegar ao pé da cama e abrir as janelas deixando a luz solar que ultrapassa a borda da montanha entrar e aquecer a parede da estante e da escrivaninha, passeando ao lado do notebook detentor de escritos, imagens e segredos.

O murmúrio rouco e contínuo do riozinho predomina até os passarinhos começarem a algazarra intermitente entre as espécies que visitam a mangueira, a goiabeira as bananeiras e o bambuzal, do outro lado do fluxo da água, pirulitando entre as folhas e sacudindo os galhos, única forma de pressentir a dança das espécies que circulam na floresta.

É melhor nem respirar e evitar movimentos bruscos. Eles podem atravessar a cantoria e alertar a passarada da presença do ser estranho que espreita o espetáculo. Humanos assumidos não são bem-vindos na colorida e inquieta festa matinal, só os que aceitam a imposição da exigência da imobilidade e conseguem adequar o ritmo da respiração à sintonia da mãe natureza.

Até o acionamento da máquina fotográfica tem que ser delicado, nada brusco. Lento e seguro como o dedo no gatilho de uma arma. Que comparação terrível. Mas é verdadeira. O “tiro” da imagem não pode ser brusco. Tem que ser leve e constante. Quando se alcança essa afinidade os passarinhos quase fazem poses dançando, nesse caso, nos galhos e folhas largas do mamoeiro.

Depois é tempo de seguir o fluxo do riacho indo pela estradinha de terra que ladeia a água, cruzar a ponte de madeira, atravessar o gramado e, fazendo um esforço imenso para não se perder do objeto de desejo, evitar - não sem marcar a luz especial, a tentação de parar para “desenhar” com a máquina fotográfica as muitas flores e a vegetação. Elas tremulam com a brisa acenando suas cores em busca de atenção, o que desviaria o foco ainda não alcançado do projeto da manhã ensolarada de inverno.

As pedras do riozinho por onde a água cristalina brinca de deslizar é o destino quase inalcançável. São muitas as tentações. O guia sonoro fica mais definido a medida em que a aproximação da margem vai sendo feita. É o som da água que muda sua linguagem acrescentando tonalidades e notas, agora distinguíveis e estimulantes, diferentes do murmúrio rouco do despertar.

Tentar entender o diálogo das nuances do encontro das pedras com o serpentear aquático que forma cachoeirinhas, redemoinhos, ou se espreguiça nos remansos arenosos, é tão impossível quanto assistir um filme turco sem legenda. Mal dá para distinguir o início, o meio e o fim das frases dos diálogos, o que dirá compreender as palavras. Traduzi-las então...

O fluir deslizante no leito pedregulhento é assim. A gente, no máximo, capta o sentimento, a energia despendida no movimento capturada pelos reflexos espelhados que mudam de cores e alteram suas múltiplas tonalidades dependendo do ângulo, da intensidade e dos caprichos dos raios de sol.

Pensa no que acontece, por exemplo, com o passar festivo das nuvens ligeiras que sassaricam ao sabor das brisas e correm quando fustigadas pelos ventos. Lembre-se que falamos de um dia ensolarado.

Tudo é leve. Profunda, só a percepção para acionar a camada da sensibilidade (capaz de detectar a sutileza dessas nuances) e a memória. Ela, que permite esse registro. Feito no inseparável caderninho que vai sendo escrevinhado sobre a canga que protege a pele do cimento da piscina de água natural, abastecida pela bica que vem da mina, exigindo atenção com seu som forte e constante.

Assim vai se derramando e ritmando as palavras dessa que é mais uma crônica @no_rumo do Sem Fim...  

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


@delcueto.studio na Colab55

sábado, 12 de setembro de 2015

Passarins pasarán

Mang Bar 150206 159 2 piso carro abre alas rosas led delirioPassarins pasarán

Esta Fábula Fabulosa se embalou no pedido a Deus feito por Luizito, intérprete da Mangueira, na sua última apresentação no Palácio do Samba: "que me de saúde para cantar para ela (Maria Betânia) e pra vocês esse ano..." Afinal, o que poderia ter impedido que seu desejo se realizasse?
Passarão era o rei da voz. Incontestavelmente. Sabia de suas qualidades e fez jus ao título enquanto intérprete da trilha musical. Empoleirado no alto do alto do Jequitibá encantava toda a floresta.
Tinha ajudantes. Seu segundo, Passarito, ciente do seu papel, conhecedor do seu lugar. Sabia quando e onde pontuar as melodias tão belas que representavam a rainha das flores, a rosa formosa.
Era um prazer ouvir a sinfonia. A floresta se animava se sentindo estimulada e afagada pela cantoria magistral dos pássaros. Quase um feitiço.
Um dia chegou o dia de Passarão cantar para subir. Era esperado. Seu tempo, esgotado. Partiu. Houve gurufim e homenagens. Passarito assumiu o posto vago.
Dias antes de sua primeira apresentação a frente dos pássaros cantores, num ensaio técnico, passou mal. Coração disparou e quase saiu do peito. No céu, carimbaram o passaporte celestial de Passarito. O que  estabelecia o caos no conjunto do desfile e falha na harmonia. Mas era vontade do Criador.
Só que... O anjo encarregado de conduzir Passarito em sua passagem havia chegado mais cedo e assistido extasiado ao ensaio final do espetáculo, no palco não totalmente iluminado, mas tomado pela imensa  emoção.  Naquele momento, seu coração inebriado de anjo se tomou de amores pelas cores e o perfume da flor verde e rosa e não achou justo que Passarito faltasse ao compromisso assumido e esperado por tanto tempo.
Quebrando a regra número um dos condutores das boas almas resolveu dar um perdido nas instâncias mais elevadas e soprou novamente a vida pelo bico de Passarito. Este, desperto e animado, não parou mais nem deixou em nenhum momento de fazer por merecer a confiança do anjo.
Anjo protetor por seu ponto de vista, mas traidor pela ótica do Primeiro e Único.
Por muito tempo infinitos afazeres tiraram o foco e a atenção do Altíssimo para o desvio, vamos chamar assim, que havia acontecido.
Passarito, ave boa e cantadeira, espalhava alegria e fazia por merecer seu tempo extra no plano terreno. Não havia uma melodia melhor do que outra, nem emoção maior do que poder soltar seus gorjeios e trinados. Estes reverberavam pelas árvores para animar a vida de todos os seres da floresta. A cada verão uma nova canção para celebrar a alegria.
Até que um dia, chegou a hora de falar de Oyá. E quando Passarito abriu o peito e pediu forças ao Criador para, mais uma vez, elevar seu canto verde e rosa, Iansã soprou um vento empolgada e, pensando ajudar Passarito, fez seu pedido chegar lá no céu.
Céus! O que virou a notícia lá em cima. A pergunta que não quis calar foi: como podia estar faltando o trinado de Passarito no coro celestial? Então já não havia sido determinado que Passarito se juntasse aos “Bambas da Lira” tempos atrás?
Chamado aos costumes fez o anjo um “mea culpa” e surpreendeu o conselho dos arcanjos ao pedir perdão, mas sem se arrepender. Disse que qualquer punição é válida diante do prazer de ter acompanhado, durante o tempo de Passarito na terra, suas apresentações puxando gorjeios das almas dos bicudos voadores. Quase encantado...
Não teve nem tempo de argumentar. Enquanto tentava se defender, lá embaixo, Passarito partia. Sem direito a nem mais um minuto de acréscimo. Rapidamente ele foi catapultado para o nível superior e já caiu no meio da cantoria celeste festejado e arrebatado
No Jequitibá, ainda sentido, a passarinhada já segue a vida. Passanerey assumiu o posto de Passarito, que era de Passarão, e a responsabilidade de embalar o canto de Iansã na próxima apresentação.
Será igual? Nunca! Mas não esqueça: “Passarins pasarán e sempre, para sempre, passarinharão...”
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosa” do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

E3- ILUSTRADO - SABADO 12-09-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo