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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Nunca igual no planeta Carnaval



Nunca igual no planeta carnaval

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Já troquei três vezes de lugar tentando abrir o caderninho para escrever o último texto de 2025. No jardim, na rede e no gramado busco um ambiente ideal para a escrevinhação.

Sem sol, com chuva e frio, preciso reconfigurar os gatilhos que utilizo para encontrar os traços da inspiração quase natalina em meio a conflitos e quizilas locais e internacionais que desviam a atenção e exigem reflexão.

Pra não cair no velho e recorrente tema das retrospectivas, prefiro olhar pra frente, mirar no futuro sem apelar às previsões.

E, vamos concordar, querido leitor, o futuro é logo ali.

Adivinha onde? No carnaval!

Nesse quesito estou em casa... voltei do Centro-Oeste e caí no mini desfile do Dia Nacional do Samba no início de dezembro.

Três dias na pista da Cidade do Samba com direito a prévia, em pequena escala, do que serão as apresentações no carnaval da Passarela sem os tradicionais carros de som. Os que eram o coração do som das escolas na pista da Sapucaí. Agora, tudo será digital e sem fios!


As noites foram recheadas por teasers do que as escolas apresentarão em seus enredos no desfile de 2026.

Como sempre, o carnaval na Sapucaí não será igual ao do ano que passou.

Depois da nova iluminação cenográfica, consolidada no último carnaval, o incremento no sistema de som digital responde a uma demanda crítica e antiga num setor essencial para o espetáculo.

Os testes em larga escala no sambódromo serão nos ensaios técnicos programados para os dois finais de semana que antecedem o desfile oficial, que acontecerá no meio de fevereiro.

Pra quem ainda não abriu o calendário 2026, os desfiles do Grupo Especial do Carnaval Carioca acontecerão de domingo a terça-feira nos dias 15, 16 e 17 de fevereiro. Como esse ano, serão 4 escolas por noite.

Mas a agitação começa antes e não inclui apenas o povo do samba, que produz o espetáculo.

Dia 20 de janeiro, anote aí, uma terça-feira, é feriado no Rio de Janeiro, dia de São Sebastião, o padroeiro da Cidade Maravilhosa. Também será a abertura do projeto Rio Capital do Carnaval.

Os tambores vão batucar num novo espaço das escolas de samba, na ativação (a palavra está na moda) do Carnaval Fan Fest nas areias da praia de Copacabana, altura do Posto 3, na Rua República do Peru.

Durante um mês, a programação trará a festa carioca até a praia mais famosa do planeta, com apresentações das escolas, shows que promoverão encontros entre sambistas e astros da MPB e oficinas às sextas, sábados e domingos.

Os telões do espaço também transmitirão os ensaios técnicos e, claro, os desfiles carnavalescos nos dias da folia.


A festa começa com o desafio de juntar 1.200 ritmistas no espaço para uma performance candidata ao Guinness Book.

Será o registro da maior bateria do mundo com a participação de mestres das baterias e personalidades das agremiações.

Com a iniciativa do projeto Rio Capital do Carnaval a Liesa - Liga Independente das Escolas de Samba expande sua atuação geográfica do Sambódromo e da Cidade do Samba e ocupa o coração turístico da cidade no auge da temporada de verão.

Toda a programação, que se estende até o sábado das Campeãs, na semana seguinte ao carnaval, será gratuita e contará com shows que promovem grandes encontros musicais, como o de Neguinho da Beija-flor e Belo, Pretinho da Serrinha e Marcelo D2 e Jorge Aragão e Gilsons e será anunciada nos próximos dias.

“Inovador, inclusivo e 100% carioca”, segundo define o presidente de Liesa, Gabriel David, o conceito “Sinta o carnaval” do projeto pretende trazer ao público a experiência das etapas de produção dos desfiles por meio das oficinas carnavalescas e promete mais: um cortejo carnavalesco ao pôr do sol de Copacabana. “Estamos quebrando as barreiras entre o público e a festa”, comemora.

Haja coração, prepare as pernas, capriche na resistência! Amplie o fôlego, folião, pois sambar na areia não é pra qualquer um e serão muitas emoções...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “É Carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com



 Studio na Colab55

terça-feira, 13 de julho de 2021

À flor da pele


Texto e foto de Valéria del Cueto

O rendilhado dos raios de sol atravessando as folhagens se projeta nas cortinas cor de mostarda do quarto. Ditam a hora do primeiro movimento do dia.

Ainda é um esforço pequeno, apenas o suficiente para jogar o edredon de lado, chegar ao pé da cama e abrir as janelas deixando a luz solar que ultrapassa a borda da montanha entrar e aquecer a parede da estante e da escrivaninha, passeando ao lado do notebook detentor de escritos, imagens e segredos.

O murmúrio rouco e contínuo do riozinho predomina até os passarinhos começarem a algazarra intermitente entre as espécies que visitam a mangueira, a goiabeira as bananeiras e o bambuzal, do outro lado do fluxo da água, pirulitando entre as folhas e sacudindo os galhos, única forma de pressentir a dança das espécies que circulam na floresta.

É melhor nem respirar e evitar movimentos bruscos. Eles podem atravessar a cantoria e alertar a passarada da presença do ser estranho que espreita o espetáculo. Humanos assumidos não são bem-vindos na colorida e inquieta festa matinal, só os que aceitam a imposição da exigência da imobilidade e conseguem adequar o ritmo da respiração à sintonia da mãe natureza.

Até o acionamento da máquina fotográfica tem que ser delicado, nada brusco. Lento e seguro como o dedo no gatilho de uma arma. Que comparação terrível. Mas é verdadeira. O “tiro” da imagem não pode ser brusco. Tem que ser leve e constante. Quando se alcança essa afinidade os passarinhos quase fazem poses dançando, nesse caso, nos galhos e folhas largas do mamoeiro.

Depois é tempo de seguir o fluxo do riacho indo pela estradinha de terra que ladeia a água, cruzar a ponte de madeira, atravessar o gramado e, fazendo um esforço imenso para não se perder do objeto de desejo, evitar - não sem marcar a luz especial, a tentação de parar para “desenhar” com a máquina fotográfica as muitas flores e a vegetação. Elas tremulam com a brisa acenando suas cores em busca de atenção, o que desviaria o foco ainda não alcançado do projeto da manhã ensolarada de inverno.

As pedras do riozinho por onde a água cristalina brinca de deslizar é o destino quase inalcançável. São muitas as tentações. O guia sonoro fica mais definido a medida em que a aproximação da margem vai sendo feita. É o som da água que muda sua linguagem acrescentando tonalidades e notas, agora distinguíveis e estimulantes, diferentes do murmúrio rouco do despertar.

Tentar entender o diálogo das nuances do encontro das pedras com o serpentear aquático que forma cachoeirinhas, redemoinhos, ou se espreguiça nos remansos arenosos, é tão impossível quanto assistir um filme turco sem legenda. Mal dá para distinguir o início, o meio e o fim das frases dos diálogos, o que dirá compreender as palavras. Traduzi-las então...

O fluir deslizante no leito pedregulhento é assim. A gente, no máximo, capta o sentimento, a energia despendida no movimento capturada pelos reflexos espelhados que mudam de cores e alteram suas múltiplas tonalidades dependendo do ângulo, da intensidade e dos caprichos dos raios de sol.

Pensa no que acontece, por exemplo, com o passar festivo das nuvens ligeiras que sassaricam ao sabor das brisas e correm quando fustigadas pelos ventos. Lembre-se que falamos de um dia ensolarado.

Tudo é leve. Profunda, só a percepção para acionar a camada da sensibilidade (capaz de detectar a sutileza dessas nuances) e a memória. Ela, que permite esse registro. Feito no inseparável caderninho que vai sendo escrevinhado sobre a canga que protege a pele do cimento da piscina de água natural, abastecida pela bica que vem da mina, exigindo atenção com seu som forte e constante.

Assim vai se derramando e ritmando as palavras dessa que é mais uma crônica @no_rumo do Sem Fim...  

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


@delcueto.studio na Colab55