Mostrando postagens com marcador pedra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pedra. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Bom tempo


Bom tempo

Texto e foto de Valéria del Cueto

Depois de um verão para lá de quente parece que deu uma refrescada! Por vários meses até os animais sumiram de circulação.

Só conseguia detectar o ciciar das cigarras anunciando o bom tempo, o coaxar da saparada de noite e, claro, uma quantidade incrível de mosquitos que dominava o ambiente mal o sol se escondia.

Bastava chegar a primeira sombra atrás da linha da vegetação da morraria e lá estavam eles. Grandes, médios e os mais microscópicos e doídos, os donos das noites encaloradas...

Vi a primeira mudança quando detectei as lagartas se fartando na samambaia da varanda, apelidada de latifúndio. Uma ironia referente a seus poucos metros quadrados. A maioria é ocupada por plantas que me acompanham há vários anos. Incluindo uma chorona que, diz a lenda, tem a minha idade!

Confesso que eliminei várias lagartas comilonas de diversos tamanhos, impedindo a metamorfose de algumas borboletas.

Entre elas e as plantas que vieram da casa da minha avó, passaram pelo apartamento do Leme, depois foram para Araras e, agora, habitam o pé da serra, adivinha? Preferi zelar pela saúde das antigas companheiras.

O tempo anda firme, porém mais ameno. O que atraiu, por exemplo, as formigas de várias tribos e periculosidades.

Elas passaram a circular intensamente no deque se arriscando a passear pela canga em que gosto de me deitar apoiada numa pedra para ler embalada pelo barulho das águas do rio correndo entre as pedras.

Não satisfeitas em devorarem as plantas específicas, como as folhas das Lágrimas de Cristo (até hoje não floriram, então, não sei se as flores são brancas ou vermelhas), começaram a expandir suas moradas. No gramado o combate à expansão imobiliária dos formigueiros passou a ser incessante.

A natureza está despertando depois desse verão tórrido?

Que o digam os morcegos e seus rasantes no final do dia. Começaram a ser assunto constante nas conversas pelos arredores. Os moradores relatam a ocupação e os problemas causados nos telhados.

Quando não é morcego, são os gambás. Um vizinho até achou bonitinho saber que tinha um instalado no forro da sua casa. Até a hora que descobriu que os habitantes haviam se multiplicado. Era, agora, uma família. E numerosa!

Outro dia, a gatinha da casa em frente estava ressabiada, rodeando sem chegar no cômodo onde costuma dormitar durante o dia.

Bastou uma inspeção cuidadosa para parecer a ponta de um rabo perto da porta. Debaixo do sofá surgiu uma cobra com pinta de coral. Depois, devidamente anaquilada e analisada, concluíram que era falsa. O susto foi grande!

Nem todos os animais são peçonhentos ou perigosos.

Além das borboletas, os passarinhos também estão mais animados e cantadores.

Volta e meia um confunde a orientação do voo e dá um encontrão nos vidros das janelas. Eles se iludem com as árvores próximas refletidas. Já descobri que a ilusão de ótica aumenta se as cortinas estão abertas. Por isso, as mantenho semicerradas.

No rio que limita a casa tem mais movimento de peixes médios e peixinhos passeando entre as corredeiras.

A novidade é um cágado que escolheu uma pedra para lá da curva, margeando a estrada, para tomar sol todas as manhãs. Arisco, é muito difícil ele deixar registrar sua presença. Ainda não desisti da missão, apesar de nossos horários estarem desconectados. Ele chega cedo e eu durmo até tarde.

O cágado é tão rápido quanto os lagartos que habitam a toca perto da garagem. Não são tão grandes quanto os teiús que circulam pela rua não asfaltada na lateral da casa, nem tão pequenos quanto as lagartixas que cultivo e respeito profundamente.

Outro dia vi que a família dos lagartos também está crescendo. Um filhote passou raspando entre as rodas de pedra do antigo moinho desativado, guardadas como recordação na entrada da oficina ao lado da garagem.

Agora, com o outono pela metade a vida volta a pulsar no pé da serra, não tão forte quanto antigamente.

Já foi confirmado, constatado e concluído que o El Niño está chegando. Teremos (mais)um inverno aquecido e com temperaturas acima da média.

Pensando bem, nos últimos anos sempre tem algum elemento que garante o aumento da temperatura no planeta, já reparou?

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

terça-feira, 13 de julho de 2021

À flor da pele


Texto e foto de Valéria del Cueto

O rendilhado dos raios de sol atravessando as folhagens se projeta nas cortinas cor de mostarda do quarto. Ditam a hora do primeiro movimento do dia.

Ainda é um esforço pequeno, apenas o suficiente para jogar o edredon de lado, chegar ao pé da cama e abrir as janelas deixando a luz solar que ultrapassa a borda da montanha entrar e aquecer a parede da estante e da escrivaninha, passeando ao lado do notebook detentor de escritos, imagens e segredos.

O murmúrio rouco e contínuo do riozinho predomina até os passarinhos começarem a algazarra intermitente entre as espécies que visitam a mangueira, a goiabeira as bananeiras e o bambuzal, do outro lado do fluxo da água, pirulitando entre as folhas e sacudindo os galhos, única forma de pressentir a dança das espécies que circulam na floresta.

É melhor nem respirar e evitar movimentos bruscos. Eles podem atravessar a cantoria e alertar a passarada da presença do ser estranho que espreita o espetáculo. Humanos assumidos não são bem-vindos na colorida e inquieta festa matinal, só os que aceitam a imposição da exigência da imobilidade e conseguem adequar o ritmo da respiração à sintonia da mãe natureza.

Até o acionamento da máquina fotográfica tem que ser delicado, nada brusco. Lento e seguro como o dedo no gatilho de uma arma. Que comparação terrível. Mas é verdadeira. O “tiro” da imagem não pode ser brusco. Tem que ser leve e constante. Quando se alcança essa afinidade os passarinhos quase fazem poses dançando, nesse caso, nos galhos e folhas largas do mamoeiro.

Depois é tempo de seguir o fluxo do riacho indo pela estradinha de terra que ladeia a água, cruzar a ponte de madeira, atravessar o gramado e, fazendo um esforço imenso para não se perder do objeto de desejo, evitar - não sem marcar a luz especial, a tentação de parar para “desenhar” com a máquina fotográfica as muitas flores e a vegetação. Elas tremulam com a brisa acenando suas cores em busca de atenção, o que desviaria o foco ainda não alcançado do projeto da manhã ensolarada de inverno.

As pedras do riozinho por onde a água cristalina brinca de deslizar é o destino quase inalcançável. São muitas as tentações. O guia sonoro fica mais definido a medida em que a aproximação da margem vai sendo feita. É o som da água que muda sua linguagem acrescentando tonalidades e notas, agora distinguíveis e estimulantes, diferentes do murmúrio rouco do despertar.

Tentar entender o diálogo das nuances do encontro das pedras com o serpentear aquático que forma cachoeirinhas, redemoinhos, ou se espreguiça nos remansos arenosos, é tão impossível quanto assistir um filme turco sem legenda. Mal dá para distinguir o início, o meio e o fim das frases dos diálogos, o que dirá compreender as palavras. Traduzi-las então...

O fluir deslizante no leito pedregulhento é assim. A gente, no máximo, capta o sentimento, a energia despendida no movimento capturada pelos reflexos espelhados que mudam de cores e alteram suas múltiplas tonalidades dependendo do ângulo, da intensidade e dos caprichos dos raios de sol.

Pensa no que acontece, por exemplo, com o passar festivo das nuvens ligeiras que sassaricam ao sabor das brisas e correm quando fustigadas pelos ventos. Lembre-se que falamos de um dia ensolarado.

Tudo é leve. Profunda, só a percepção para acionar a camada da sensibilidade (capaz de detectar a sutileza dessas nuances) e a memória. Ela, que permite esse registro. Feito no inseparável caderninho que vai sendo escrevinhado sobre a canga que protege a pele do cimento da piscina de água natural, abastecida pela bica que vem da mina, exigindo atenção com seu som forte e constante.

Assim vai se derramando e ritmando as palavras dessa que é mais uma crônica @no_rumo do Sem Fim...  

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


@delcueto.studio na Colab55

domingo, 5 de agosto de 2012

Sinais, sintomas e tais

Sinais, sintomas e tais

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Um, dois, três e... já! Respirar fundo e deixar as radiações do sol se expandirem pela extensão da pele exposta ao seu calor aconchegante.

Ao longe a lancha cruza o mar como se fosse beijar a pedra que se projeta na quina do Caminho dos Pescadores. A ilusão perfeita dura apenas alguns segundos até o barco sumir em direção a entrada da Baia de Guanabara.

Acima, quase na linha do horizonte, os navios de grande calado aguardam a maré alta para passarem pelo canal estreito que leva ao movimentado porto do Rio de Janeiro. Abaixo, ondas quase perfeitas são cenários ideais  para os surfistas que deslizam entre os topos de suas cristas.

Hoje está tudo normal.

A bandeira do Brasil tremula em direção ao mar indicando os bons ventos que dominam e limpam o céu pontilhado de gaivotas.

A prancha com o bico cravado na areia e as quilhas projetadas na direção do leme, formato que dá nome à pedra, insinua o alinhamento dos sentidos e sentimentos literários do texto que ora redijo.

Atrás de mim, uma voz masculina com sotaque nordestino recita uma oração (nos dois sentidos) comum aos que, durante as férias, ancoraram nessa paragem: “Ô vidinha mais ou menos... Estou no Rio de Janeiro! Hoje, aqui no mar. Amanhã  vou no Cristo.” Prefiro não olhar na direção da declaração de amor e deixo a imaginação desenhar o dono da voz e suas companhias.  No mínimo, mais uns três, dois homens e uma mulher.

Faça o mesmo, brinque de imaginar como são.

À frente vejo um atleta fazendo abdominal para cultivar sua barriga de tanquinho. O tempo do exercício e a lisura da taboa indicam que ele não é do tipo que não sabe o que faz. Faz, e muito.

Sinto falta dos peladeiros que só adentrarão no campinho mais tarde, depois que as ondas perderem seu formato mais que perfeito. As ondas variam, têm seu sabor e valor, sobem quando querem. A pelada é de lei. Pode demorar, mas rola. É inevitável, necessária e essencial.

Como o fato de hoje ser sexta feira e cá estar eu, enquanto posso, na Ponta do Leme. Estou mais pra onda do que para partida de futebol, com suas duas carcaças de coco verde servindo de traves em lados opostos do campo a beira d’água.

Estou na linha, junto com as pranchas de surf e bodyboard esperando a onda perfeita, entre as sete representantes das séries fortes que se seguem as séries fracas, desde que o mar é mar.

Por princípio e experiência gosto muito da segunda onda da série. Deixo a primeira para os afoitos e suas pranchas maravilhosas e assisto de camarote o espetáculo enquanto sinto seu empuxo nas pernas e localizo o melhor ponto para surfar de peito na próxima que desce, já no embalo da série em questão.

Ela tem o equilíbrio da força inercial explosiva da primeira ondulação e a constância das que virão na sequência. Dá para remar, se jogar, deslizar e descer, ainda com direito a manobras clássicas pelo caminho desimpedido, sob o olhar cuidadoso dos experts que retornam para além da arrebentação para caitituar novas descidas, quem sabe ainda nessa mesma série de ondas fortes.

Onde eu estava mesmo?

Aqui, registrando os sinais que também passeiam pelas nuvens. Rápidos e inconstantes, mas visíveis para quem, deslizando na espuma formada na crista da onda que explode em direção da praia, a da Ponta do Leme, ainda consegue levantar os olhos salgados da água do mar para o céu azul que se esparrama e surpreende com seus desenhos fugazes. Um segundo, um olhar, passou...

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

Sinais, sintomas e tais

Sinais, sintomas e tais

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Um, dois, três e... já! Respirar fundo e deixar as radiações do sol se expandirem pela extensão da pele exposta ao seu calor aconchegante.

Ao longe a lancha cruza o mar como se fosse beijar a pedra que se projeta na quina do Caminho dos Pescadores. A ilusão perfeita dura apenas alguns segundos até o barco sumir em direção a entrada da Baia de Guanabara.

Acima, quase na linha do horizonte, os navios de grande calado aguardam a maré alta para passarem pelo canal estreito que leva ao movimentado porto do Rio de Janeiro. Abaixo, ondas quase perfeitas são cenários ideais  para os surfistas que deslizam entre os topos de suas cristas.

Hoje está tudo normal.

A bandeira do Brasil tremula em direção ao mar indicando os bons ventos que dominam e limpam o céu pontilhado de gaivotas.

A prancha com o bico cravado na areia e as quilhas projetadas na direção do leme, formato que dá nome à pedra, insinua o alinhamento dos sentidos e sentimentos literários do texto que ora redijo.

Atrás de mim, uma voz masculina com sotaque nordestino recita uma oração (nos dois sentidos) comum aos que, durante as férias, ancoraram nessa paragem: “Ô vidinha mais ou menos... Estou no Rio de Janeiro! Hoje, aqui no mar. Amanhã  vou no Cristo.” Prefiro não olhar na direção da declaração de amor e deixo a imaginação desenhar o dono da voz e suas companhias.  No mínimo, mais uns três, dois homens e uma mulher.

Faça o mesmo, brinque de imaginar como são.

À frente vejo um atleta fazendo abdominal para cultivar sua barriga de tanquinho. O tempo do exercício e a lisura da taboa indicam que ele não é do tipo que não sabe o que faz. Faz, e muito.

Sinto falta dos peladeiros que só adentrarão no campinho mais tarde, depois que as ondas perderem seu formato mais que perfeito. As ondas variam, têm seu sabor e valor, sobem quando querem. A pelada é de lei. Pode demorar, mas rola. É inevitável, necessária e essencial.

Como o fato de hoje ser sexta feira e cá estar eu, enquanto posso, na Ponta do Leme. Estou mais pra onda do que para partida de futebol, com suas duas carcaças de coco verde servindo de traves em lados opostos do campo a beira d’água.

Estou na linha, junto com as pranchas de surf e bodyboard esperando a onda perfeita, entre as sete representantes das séries fortes que se seguem as séries fracas, desde que o mar é mar.

Por princípio e experiência gosto muito da segunda onda da série. Deixo a primeira para os afoitos e suas pranchas maravilhosas e assisto de camarote o espetáculo enquanto sinto seu empuxo nas pernas e localizo o melhor ponto para surfar de peito na próxima que desce, já no embalo da série em questão.

Ela tem o equilíbrio da força inercial explosiva da primeira ondulação e a constância das que virão na sequência. Dá para remar, se jogar, deslizar e descer, ainda com direito a manobras clássicas pelo caminho desimpedido, sob o olhar cuidadoso dos experts que retornam para além da arrebentação para caitituar novas descidas, quem sabe ainda nessa mesma série de ondas fortes.

Onde eu estava mesmo?

Aqui, registrando os sinais que também passeiam pelas nuvens. Rápidos e inconstantes, mas visíveis para quem, deslizando na espuma formada na crista da onda que explode em direção da praia, a da Ponta do Leme, ainda consegue levantar os olhos salgados da água do mar para o céu azul que se esparrama e surpreende com seus desenhos fugazes. Um segundo, um olhar, passou...

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM http://delcueto.multiply.com

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

LeLuHe




Leme, lua, helicóptero
E mais não tenho a dizer.
É pra ver!

* fotos de Valéria del Cueto para a séria Ponta do Leme, do Sem Fim... - projeto da del Cueto - assessoria e produção

domingo, 29 de julho de 2012

Simples, assim

Simples, assim

Texto e foto de Valéria del Cueto


Houve um tempo em que não era. Escrevia muito, escrevia sempre e ia liberando aos poucos as crônicas semanais de acordo com o astral da ocasião. Sexta a tarde, na Ponta do Leme, era pule 10 fartura da  produção. O tempo passou e o que nunca acreditei ser possível, aconteceu: as crônicas que, pensava eu, teriam um caráter transitório, viraram um hábito de anos.


Já não sei quem nasceu primeiro: os textos ou o prazer de escrevê-los qual um ritual que, a princípio, era meio AA (Alcóolatras Anônimos). “Uma de cada vez”, dizia a cada nova publicação. Se funciona com o processo literário, é por que faz efeito para situações mais sérias e delicadas...


Não que não haja seriedade no que faço, ao escrever. Tanto há que depois de muitas luas a fome se juntou a vontade de comer e todos os meus queridos editores definiram o meu deadline, o limite para entrega do material, para a sexta-feira, às 15 horas, horário de Brasília.


Uma beleza e a certeza de que as mal traçadas linhas no caderninho nem terão tempo de secarem direito antes de serem digitadas para seu envio às prensas e sites.


Por isso, informo, estou aqui. Plena na praia da Ponta do Leme, sob um sol de rachar e uma ventania teimosa e enganosa.


Teimosa por descabelar o mar, adornar seu azul-esmeralda de carneirinhos brancos, obrigando as gaivotas a darem um duro danado para manter o rumo desejado, deixando os surfistas a verem os navios que esperam a maré alta para entrarem na Baia de Guanabara. Por que o mar, apesar de batido, cheio de correntezas e valas, está uma droga para os atletas, com ondas baixas disformes e mexidas.


Isso é o entorno, por que o contorno está um caos. Não há barreira nem peso que segure a canga, lotada da areia que passa - enlouquecida e desgovernada - levada pela ventania. Aquela que pinica nas partes do corpo em que bate, gruda e vai com a gente pra casa escondida nos cabelos, nos cantos da bolsa, do bolso do short, nas dobras da camiseta, no meio do livro, no caderninho...


Essa é a parte da teimosia. A do engano, além de tudo, pode ser dolorosa. Especialmente para os turistas desavisados e despreparados que não conhecem as manhas da praia em dias de viração. Eles, que de tão fortes provocam arrepios de frio, por que vem do sul, são os mesmos ventos que mascaram a força dos raios solares que estão tinindo no veranico de meio do ano. O resumo da ópera são as queimaduras inesperadas, aquelas que só descobrimos quando a água quente do chuveiro toca na pele castigada pelo sol inclemente.


Para fechar meu espaço literário dominical, duas  observações. Uma nunca havia visto, outra, que fazia tempo não via.

A primeira, os grãos de areia abusados grudado na  tinta da ponteira da caneta que estou usando que fazem falhas minha escrita praiana.


A segunda, as várias piscinas na beira da água, onde crianças se divertem e, protegidas pelos caprichos esculturais da maré baixa, não se incomodam com o desconfortável entorno provocado pela tempestade de areia que assola a minha Ponta, sob um sudeste  poderoso. A ponto de tirar da paisagem a enorme bandeira brasileira que sempre tremula hasteada no Forte Duque de Caxias, no alto da Pedra do Leme. Sinal dos tempos, aviso dos dias que estão para chegar...


Agora peço licença, caro leitor, mas vou ali, até uma das piscinhas naturais, formadas pela maré, brincar de fazer castelos de areia e olhar o mundo sob o ponto de vista das crianças. Simples assim...


Por que hoje é sexta, estou na Ponta e a crônica já está misturada, só falta descansar para poder ir pro do forno.


*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM 
http://delcueto.multiply.com

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O sol, aquele!




Indo da pedra do Arpoador, em Ipanema.

* fotos de Valéria del Cueto, para o Sem Fim...

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

P de p na pp de p




Passagem de pinguins na pedra povoada de paixões

* vagabinha de Valéria del Cueto para o SEM FIM...

domingo, 7 de janeiro de 2007

O ANO QUE QUASE CHEGOU


O ANO QUE QUASE CHEGOU


Texto e foto de Valéria del Cueto
Janeiro, 2007

Enrolei o máximo que pude para inaugurar as crônicas de 2007. Nada me inspirava nos primeiros dias do ano. Chuva fina, umidade, sol nenhum, a sensação de que por mais que corresse ou me esquivasse chegaria ao meu destino do mesmo jeito: ensopada e com arrepios de frio. Destemperada.

Em casa, abrir as janelas traz o vento gelado. Ao fechá-las, encerro a maresia e a umidade reinante sobre os móveis, utensílio e a vida em geral.

Já disse: nada inspira. A vontade é espirrar o mundo. Como numa gripe, resfriado ou alergia que jogamos fora as mazelas, vírus e doenças que nos impedem a saúde. A minha, reconheço, é frágil e, por isso, susceptível às variações climáticas que nos acometem no momento. Tento reagir, consulto a meteorologia.  O que adianta? A mentirosa havia prometido tempo bom no reveillon. Já entra o ano moralmente em baixa...

Quando sai de casa às onze e meia do dia 31, já sabia que era mico. Por isso, fui para o Caminho dos Pescadores, na Pedra do Leme, de saia nova e capa de chuva. Precisava de um poste da mureta que contorna o caminho que funcionasse como tripé para  minha máquina fotográfica. Nunca tinha visto os fogos de Copacabana do ponto de vista que escolhi e sabia que sem o apoio para a câmera as fotos iam ficar uma porcaria.

Tá bom, não vou enrolar. Fiz as fotos ainda não sei o resultado. Uso filme, aquilo que existia antes do digital. Ele ainda tem que ser revelado. 

Voltando ao Caminho e a noite da passagem de ano. Cheguei na hora certa por lá. Vaziinho.
O pilar da mureta foi protegido (estava todo encharcado, assim como fiquei depois de uns 15 minutos) por esta caderninho onde agora escrevo. Apoiada na capa plástica do meu MOB coloquei a máquina fotográfica.

Vendo meu esforço na montagem do set, um cara me ofereceu uma placa de madeira, para
apoiar o equipamento. “Grande demais”, expliquei agradecendo. Hugo - este era o seu nome - me contou, depois de se apresentar, que todos os anos passava a meia noite ali e predisse que eu veria um espetáculo diferente.

Enquanto a chuva caía, fina e persistente, meu novo amigo fazia sua declaração de amor ao bairro, aos 28 anos que pescava no pé da pedra do Leme e aos amigos que cultivava nas noites de bate papo, esperando os peixes morderem a isca. Falou muito, mas não me disse qual a diferença entre assistir a passagem de ano dali ou de qualquer outro ponto da praia de Copacabana. Só observou que a linha de luzes dos navios daquele ponto específico formava “a outra metade” do colar de luzes da praia famoso nos mais tradicionais cartões postais da cidade.

Perto da meia noite ele me desejou feliz ano novo e foi aguardar a contagem regressiva junto com os amigos, no final do Caminho dos Pescadores. Antes de sair, reclamou do vento “Agora ele está soprando mais forte, da terra para o mar. Lá vem mais chuva, vai apertar”. “Mais ainda?” pensei eu, que naquela altura dos acontecimentos, já estava usando parte da minha saia godê laranja como proteção por cima da câmera e temia, outra vez, me confrontar com a frustração de perder o meu trabalho por causa do aguaceiro como aconteceu no
desfile da Portela, no último carnaval, na Sapucaí. Para manter o meu abrigo era essencial que eu não me mexesse muito.

Aí, os fogos começaram. Nos primeiros minutos (foram mais de 20), como toda a multidão que ocupava a praia e o mar, prestei atenção a eles. Fogos, explosões e os navios acionando suas buzinas que soavam como lamentos sufocados.

O que me chamou a atenção foi outro foco de luzes que levei alguns segundos para identificar. Era disso que Hugo falava, deduzi imediatamente... Dali, da Pedra do Leme, os fogos tinham resposta e correspondência. Eram dobrados, multiplicavam-se como num espelho, refletidos nos vidros dos prédios da orla do Leme e Copacabana. Eles dialogavam com a noite e funcionavam como uma respiração, já que havia uma diferença de milésimos de segundos entre os fogos verdadeiros e a imagem impressa nas janelas, onde milhares de pessoas recebiam o ano novo.

Hugo tinha razão: era uma imagem diferente e, como vocês viram acima, difícil de explicar. Ele também estava certíssimo quanto ao tempo. Mais do que os meteorologistas de plantão.

Fiquei ali, fotografando, até que num movimento mais descuidado, senti que a pulseira
de lápis lazuli que usava para trazer boa sorte escorria pelo meu pulso. Abri a mão, para impedir que ela caísse pela mureta e fosse levada pelo mar. Tive sorte. Um pouco. Em vez da pulseira, acabei entregando para Iemanjá o anel que usava, uma jóia. Ele escorregou pelo meu dedo, fazendo um barulhinho ao ir batendo pela pedra abaixo. Como escutei o barulho no meio do tumulto? Não sei, mas que ouvi, isso ouvi...

Não tive tempo de pensar no que acontecia. Nesse momento, um homem desconhecido, sozinho como eu no meio da festa, todo vestido de branco, como a maioria que dos milhões de turistas que comemoravam o novo ano, me estendeu as mãos. Fiquei sem saber o que fazer: câmera, anel rolando, pulseira salva e o desconhecido ali sorrindo. Assim ficou ele, mãos estendidas à espera do meu cumprimento, aguardando que eu colocasse parte do meu equipamento na mochila, arrumasse a saia e me liberasse para receber sua benção. Que paciência. Não me desejou um feliz ano novo. Disse que ia ser um
ótimo ano e que eu conseguiria tudo o que almejava de verdade se fosse para o bem comum, por que este era o meu caminho...

Só hoje volto à vida, junto com o primeiro raio de sol que ilumina minha praia, depois de penar e purgar o preço da minha proeza. Foi tudo um quase. Certamente pior do que o todo em si.

Voltei pra casa naquela noite feliz, mas tão regelada que sucumbi a uma garrafa de vinho tinto e um banho bem quentinho, deixando na mão os amigos com quem combinei de festejar a passagem do ano, na Urca.

Foi uma quase gripe que me pegou nos primeiros dias de 2007. Incentivada pela quase chuva que me deixava meio molhada, cada vez que tentava sair de casa. Nada tinha muito gosto, nem me servia de consolo. Tentei a comida, a bebida, desisti da dieta que me prometera. Tudo por um afago de ano novo qualquer.

Até que descobri o cerne do problema: eu não era a única que precisava de um carinho. A chuva, a umidade, a quase tristeza reinante, eram formas de protesto de um 2007 que começava desolado. Cheio de expectativas e nenhuma certeza. Sei que é difícil acreditar, mas resolvi ser parte do desabrochar desta nova etapa. Com tempo ruim ou não...

Desafiei a nublação e me dirigi para a Ponta, onde, mais uma vez, procuro o que sempre acho por aqui. Quando cheguei, o dia estava horrível. Depois de um tempo o sol começou a tentar se projetar por uma brecha de nuvens mal humoradas, cinzentas e chorosas. Parecia apenas ter forças para iluminar de forma especial uma nuvenzinha mais fina. Ela era a única disposta a iniciar um diálogo amigável e disseminar o seu calor inseguro.

Depois, ele conseguiu um espaço maior e se projetou no mar. Mudou seu domicílio para a altura da Santa Clara, deu mole na Pedra do Leme. Cada vez que ele conquistava uma brecha, lá iam elas, acabar com a alegria, fechando a fenda que irradiava os raios solares. Mas ele, o sol, acabou se criando.

O vento, aquele de quem Hugo reclamou, resolveu atender aos pedidos do pescador (com um pequeno atraso, é verdade) e virou. Soprando, agora, do mar para a terra. As nuvens foram se espalhando. O por do sol, lá para os lados da Pedra da Gávea, prometeu e eu, como sempre, acredito e espero... Aqui, na Ponta, pelo novo ano e por outros tempos que construiremos juntos.

PS:
A meteorologia anuncia a chegada de mais uma frente fria. Mas, cá entre nós, que diferença isso faz, agora que o sol quase chegou a 2007?


Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito
Este artigo faz parte da Série "Ponta do Leme"