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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Toró eleitoral

Toró eleitoral

Texto e foto de Valéria del Cueto

Quem aguenta essas tormentas intermináveis?

Temos tempestades de todos os jeitos. Para todos os lados.

São borrascas de águas, enchentes de informação, enxurradas de corrupção...

Para pensar positivo considero que o sol apareceu!

Depois de semanas escondido pelas nuvens que, além de enchentes, granizo e tornados, trouxeram (essa é a parte boa) a subida dos níveis dos reservatórios. Andavam abaixo da linha do alerta da insuficiência hídrica.

Melhorar as reservas é essencial ao enfrentamento dos prometidos tempos de El Niño marombado que estão chegando.

Os poucos dias com tempo firme também permitiram que pelo menos as roupas finalmente sequem nos varais. É uma beleza vê-los cheios de adereços. As peças dançando alegremente.

Também fizeram que, mais uma vez, o caderninho entrasse em ação.

Sim, gosto de escrever ao ar livre, se possível ouvindo um barulho de água.

Pode ser na beira do mar esticada numa canga na praia. Ou, como agora, empoleirada nos degraus a caminho da ponte de madeira que une os dois lados do rio no meio do mundo.

Diante do estado de umidade do gramado, esse é o melhor ponto para deixar que o murmúrio do regato (no momento límpido, depois de crescer enlameado durante as últimas semanas) conduza as ideias que vou alinhavando no caderninho.

Foi isso que adiou a entrega do texto da vez.

Era tanta lama de informações atingindo minhas ideias que, mal formulava uma linha de pensamento cronical, já surgiam outras revelações, desatualizando as colocações cuidadosamente buriladas.

Virou um escreve-apaga interminável, com os textos perdendo a validade antes de conseguir fechar as duas laudas de praxe. Elas são definidas pelo espaço que me cabe no Diário de Cuiabá.

Cheguei a pensar em trocar o encadeamento costumeiro por notinhas, tipo uma coluna.

Não consegui dar adeus às crônicas e optei por atrasar o envio do material até ter a chance de encadear os assuntos como sempre fiz.

Mal comparando, se fosse nos tempos das máquinas de escrever, a lata de lixo do lado da escrivaninha estaria transbordando de bolinhas de papel amassadas de trechos inacabados.

A vida está assim, uma lixeira lotada de informações que chegam rápidas em grande quantidade e são descartadas ou absorvidas sem tempo de checagem, de aprofundamento. 

Enquanto isso, o Brasil e o mundo não rolam, capotam descontrolados em meio a tiroteios de snipers invisíveis. Dispostos a transformar nossas vidas num inferno agem sempre em causa própria, sem pensar no coletivo.

Querido leitor, teremos eleições daqui a alguns dias!

Dizem os analistas que elas serão decididas, não pelo quesito das propostas, mas por quem tiver menos rejeição.

E dá-lhe tiro, porrada e bomba para desconstruir os adversários.

O povo estarrecido procura se defender das balas perdidas sem ter tempo de atinar, analisar.  É hora de procurar os melhores quadros para o poder legislativo. Já escolheu seus representantes?

Se lembra em quem votou para deputado estadual, federal e senador nas últimas eleições?

Não sei você. Vou escolher aqueles que, realmente, pensam no bem comum e não apenas no próprio umbigo e seus interesses familiares e pessoais. BETs, emendas impositivas dirigidas aos apaniguados, entregar o país à tutela de terceiros. Como assim?

São eles, os parlamentares, que poderão fazer a diferença numa busca coletiva de melhorias reais para o povo brasileiro, seus eleitores.

Existem indecisos a serem convencidos, os que definirão os rumos do país nos próximos anos. Cabe a nós trazermos de volta a esperança de que o país deve seguir independente, soberano e altivo, sem se curvar às ingerências externas. É ela que fará os eleitores nortearem suas escolhas.

Sabemos que o céu voltará a ficar limpo, deixando espaço para o sol, a lua e as estrelas, nossas armas para convencer os indecisos de que o mau tempo vai passar. Com a ajuda deles, podemos fazer um toró de esperança, alegria e fé no Brasil chegar às urnas nessa eleição.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica das séries “Não sei onde enquadrar” e do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Algumas coisas mudam, outras não... crônica de Valéria del Cueto


Algumas coisas mudam, outras não...

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Fim de noite de domingo, quase pronta para o começo de mais uma semana, e eis que vem o breu. Deviam faltar uns quinze minutos para o fim de um episódio da série da vez quando a escuridão se instalou. Era geral. Nem os postes da rua eram visíveis no meio do mundo.

Nada a fazer além de ligar a lanterna do celular e desligar os interruptores a caminho da cama. A bateria do aparelho, menos por sorte e mais por prevenção, estava cheia.

Afinal, há dias está sendo anunciada mais uma onda de efeitos do El Niño. Dessa vez, um ciclone bomba trazendo ventanias, um calorão incomum para o mês de agosto e, na sequência, a queda abrupta da temperatura com a chegada de mais uma frente fria.

Já chove lá fora, a última etapa do roteiro programado e, graças a Deus, por aqui executada apenas parcialmente. A prometida ventania não atingiu essa parte do Sudeste com a violência prevista, poupando a região metropolitana do Rio de Janeiro de seus piores efeitos.

Os que, por precaução e prevenção, colocaram o poder público e as autoridades em geral em alerta permitindo, inclusive, um final de semana estendido, por assim dizer.

Houve a recomendação de uma liberação antecipada dos trabalhadores no início da tarde de sexta-feira para evitar problemas na volta pra casa no final do último dia da semana causados pelas turbulências visualizadas nos modelos meteorológicos.

Uns dizem que a renovação do contrato com a Fundação Cobra Coral, a entidade espiritual que previne desastres naturais, anunciada pela prefeitura do Rio um dia antes da chegada do fenômeno por aqui, foi que evitou maiores danos e transtornos. Outros reclamam e fazem piadas sobre o sistema de prevenção, o que alertou para o provável evento climático.

Claro que a maioria da população se sentiu aliviada pela ausência do possível sacode do El Niño. Pelo menos por aqui. Em outros pontos, mais ao sul do país, as consequências foram mais severas...

Segunda de manhã e nada da energia voltar. A tarde chegou e a levada ainda é a mesma. Planos? Não os tenho mais.

Olho a geladeira, agora quase apenas um armário, e a mantenho fechada para que o ar ainda geladinho não escape e tenha forças para conservar os alimentos até que a concessionária de energia local tome as devidas e já tardias providências. Lá se vão mais de quinze horas.

Minha segunda-feira é um prolongamento do fim de semana. Nenhum plano pôde ser executado, nenhuma agenda cumprida. Sem contatos via internet, nem edição no computador com pouca bateria, ou notícias para rechear esse texto.

Estou sujeita a uma pausa involuntária num dia úmido, friorento e salpicado por uma chuvinha fina, também fora de época. Nada que incomode mais que a imponderabilidade de estar viva.

Essa segunda-feira que o Garfield, o gato preguiçoso (lembra dele?), dizia odiar é apenas uma chance de quebrar a rotina que, dizem, não é muito salutar e procurar alternativas para espantar o tédio inevitável.

Uma varrida na casa (esquece o aspirador de pó, não tem energia, lembra?), fazer doce de banana ou biscoitinho de queijo (ops, emprestei a farinha de trigo pra vizinha fazer panquecas ontem). Nem pensar no jardim que está todo encharcado e feliz com a chuva constante fora de época...

Ah, claro, tudo precisa ser feito enquanto ainda há luz do dia. Da elétrica, nem notícias. Então, há que se adiantar as atividades!

Depois que terminar a crônica, após abrir mais uma vez a geladeira/armário (ui) e esquentar a comida, me resta (com muito prazer) a opção mais indicada para um dia como hoje.

Abrir um livro, no caso, “Memória verde-rosa, cem anos de amor”, de Marcelo Oliveira, e mergulhar em saborosas reminiscências mangueirenses de outros carnavais. O livro é o volume 1, “Bambas da Estação Primeira de Mangueira” do projeto do autor para o centenário da agremiação, que será comemorado em 2027.

Por meio dos históricos de 50 personalidades, famosas ou não, fundamentais para o surgimento e a consolidação da “maior escola de samba do planeta”, como dizia o intérprete Luizito, traça um quadro formado por fragmentos e causos que transportam o leitor para o cotidiano e os eventos que ajudaram a transformar em realidade o sonho dos arengueiros da Mangueira.

Hoje é terça-feira. A luz ainda não voltou e já estou na letra T, de Tantinho, um amigo querido com quem convivi no Palácio do Samba. Sim, estou triste pelas poucas páginas que faltam para terminar a obra que remete a tempos em que faltar energia deveria ser mais corriqueiro do que hoje.

Pois é, algumas coisas mudam, outras não...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica das séries “Não sei onde enquadrar” e “É carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com



Studio na Colab55

quinta-feira, 30 de julho de 2026

O momento e seus movimentos


O momento e seus movimentos

Texto e foto de Valéria del Cueto

 

Estou querendo sair da toca e recarregar as baterias. A primeira e melhor opção é rumar para os lados da Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso.

Acontece que "querer muito" não afasta os senões que se acumulam nesta possibilidade para a temporada inverno/primavera 2026.

O maior senão é, sem dúvida, climático. Morei décadas em Cuiabá e não sou uma desavisada em relação ao calorão dos próximos meses.

Tenho uma lembrança vívida da parede de quentura que enfrentam os desavisados e desacostumados passageiros ao desembarcarem do avião no aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande. É uma sensação inesquecível.

Melhorou com o tempo, com a chegada dos fingers que ligam a porta da aeronave diretamente ao prédio do aeroporto. O que apenas fez que o "soco" não aconteça mais nas escadas do avião, com o calor refletido no asfalto do pátio de manobras e, sim, mais tarde um pouco, depois de pegar as malas, ao se abrirem as portas automáticas do aeroporto Marechal Rondon para a área do estacionamento.

Quer saber? Quem mora em Mato Grosso pode não notar, mas a temperatura e a baixa umidade do ar estão aumentando! Sinto porque as ausências me desacostumam ao clima local e, a cada volta, acho que ele está ainda mais crítico, mais bruto.

Agora, pensa com o El Niño mais poderoso de todos os tempos, o que vai acontecer!

Esse não é o único motivo que está pesando contra as saudades que sinto de Chapada, do Pantanal e, principalmente, de amigos queridos que adoro encontrar sempre que posso.

Acontece que acho que não mereço atravessar os dias da campanha política em Mato Grosso.

Em alguns momentos, certas qualidades podem trazer sérios prejuízos e, quando não há um objetivo que compense, é melhor não arriscarmos nosso patrimônio moral numa guerra que não é mais nossa.

Esse é, para mim, o caso da política de Mato Grosso e da tal qualidade que pode custar muito caro. Falo da memória, da história mato-grossense. Essa que, parece, está muito em falta por aí. Por isso, estou adiando minha ida até o mês de novembro, como fiz no ano passado. O tempo será mais ameno, com a chegada das chuvas e o final do período eleitoral.

Se desembarcar antes do final das eleições, pelo menos do primeiro turno, sei que não vou conseguir seguir à risca meu objetivo.

Ele está resumido num dos ditados de Luizinho Soares. Aquele político que, se não é lembrado por sua vida pública, por seu trabalho em benefício da população mato-grossense, sempre estará nos meus pensamentos norteando objetivos por frases que levo pela vida. O mote da vez é: "quanto menos conversa, nenhuma”.

Até onde puder, nesses tempos de embates eleitorais, pretendo me dedicar a não gastar energias onde não há espaço para a argumentação. O universo eleitoral de Mato Grosso é minúsculo e restrito, perto da dimensão da disputa nacional e, diante disso, pouco significativo no contexto brasileiro.

Então, estar preocupada com as disputas regionais, o que certamente acontecerá caso resolva enfrentar o El Niño em uma de suas piores versões por aí, diminuirá o raio de ação relacionado aos embates que estão por vir.

Já dei minha cota de colaboração aos caminhos de Mato Grosso em outros tempos, quando havia melhores condições para argumentar e algum sentido em alertar. Hoje, o que vejo é a radicalização e o firme propósito, não de dialogar, mas de confrontar.

Aí, volto alguns parágrafos, para a parte que menciona o fator memória, aquela que, parece, nem todos têm de sobra.

Sou do tempo em que contra os fatos (eles estão aí para quem quiser comprovar) não existiam argumentos. Os alertas foram repetidos e, em muitos setores, não surtiram efeitos.

O que temos é mais do mesmo e só em tempos de eleições: Pantanal, meio ambiente, agricultura familiar, preservação, infraestrutura, a melhoria do serviço público, da educação, saúde, segurança…

Tudo com prazo de validade, até a colocação do voto na urna!

Depois, tudo volta ao normal, onde a lei de Gérson, que diz que gosta de levar vantagem em tudo, volta a imperar e encher os bolsos dos de sempre. 

Resumindo o momento e definindo os movimentos, pretendo me dedicar aos indecisos.

Como eu, são eles que ainda aceitam dialogar e, talvez, se dispunham a ouvir argumentos. É com eles que pretendo conviver nos próximos meses. 

Longe da temperatura quase insuportável de Mato Grosso e junto ao calor dos debates produtivos que definirão o futuro do Brasil.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Os ventos nos levarão

Clique no LINK para acessar o ensaio fotográfico no FLICKR

Os ventos nos levarão

Texto e foto de Valéria del Cueto

 

Fiz tudo que podia para tentar retornar a um velho hábito. Em busca de uma reconexão com o antigo costume de escrever as crônicas nas areias da praia, me preparei para rumar em direção ao Arpoador numa sexta-feira à tarde.

No dia anterior fiz um reconhecimento no terreno sem o equipamento necessário para desenrolar o texto. A saber: o caderninho e a caneta.

Era uma tarde de quinta-feira linda! Céu azul e águas claras. Cenário perfeito para bater perna entre Ipanema, o Arpoador e a Praia do Diabo. Um dia ideal para “farmar aura”! Me adiantei porque, primeiro, queria matar as saudades. Trocar o murmúrio regular do rio que corre no meio do mundo que habito no pé da serra pelo barulho inconstante e desritmado do mar, sem arrependimento pela ausência do material literário.

Para escrevinhar, queria o ambiente perfeito que só uma sexta-feira proporciona. Sabe aquela vibe de véspera de final de semana? O compromisso inexistente depois de uma caminhada pela beira do mar molhando os pés com as marolas que invadem a areia?

O ideal para refletir o quase pôr do sol antes de mergulhar nas linhas inexploradas das páginas e formas do caderninho que renderão mais uma crônica do Sem Fim...

Antes de chegar ao destino e atingir meus objetivos para abrir o final de semana, uma bateria de exames de check-up anual me aguardava no período da manhã. Obstáculo superado entre um aparelho e outro, corri para cada em busca dos apetrechos da missão literária e parti para destino tão almejado.

Como estava tudo certo e nada decidido, faltou combinar com o… clima. O tempo havia virado!

Tudo o que era azul anil estava encoberto por uma bruma fina que foi se adensando e virando uma barreira de nuvens rápidas e pesadas, embaladas por uma ventania incessante.

Daquelas que levantam as ondulações no espelho d'água, crispam as ondas e formam carneirinhos de espuma. 

Se o mar estava pra peixe, como veremos a seguir, não era propício para banhistas e surfistas. Apesar de mexido, as ondas ainda não haviam subido.  

Voltei lutando contra o vento ao mesmo lugar do dia anterior. O cenário era totalmente diferente.

Para começar, não havia nin-guém no largo do Millôr. Só eu e um ambulante com seu isopor, sem nenhuma chance de fazer sequer uma venda por falta de clientela.

Nas pernas, a areia chicoteava pinicando a cada rajada de vento, invadindo as dobras do casaco corta-vento, fustigando as pernas protegidas até os joelhos por uma bermuda de malha e se ajuntando dentro do tênis.

O visual era lindo, com as nuvens correndo rápido sobre o contorno do morro Dois Irmãos.  Muitos mergulhões e gaivotas lutavam contra as correntes de ar que os impedia de mirar os peixes do cardume que tentava dobrar a ponta do Arpoador. 

Um verdadeiro espetáculo da natureza!

As chances de realizar meu desejo de escrever o texto no banco de concreto embaixo do poste do refletor que ilumina as águas para os surfistas em noites mais amenas eram nulas! Não tinha agasalho que segurasse a friaca das lufadas de areia temperada pelos respingos de maresia grudenta.

Clique na foto ou no LINK para acessar o ensaio fotográfico no FLICKR

Aguentei as intempéries esperando que um respiro no corre das nuvens deixasse passar um raio solar. Que ele fizesse um contorno na massa polar que se aproximava trazendo o swell (que faria a alegria dos surfistas no campeonato que aconteceu no final de semana). A crônica? Ficou para depois.

Depois que a Argentina ganhou da heroica seleção de Cabo Verde naquela mesma noite. Depois que o Brasil foi vergonhosamente eliminado pela Noruega. Depois que a FIFA caísse de joelhos, revertendo a expulsão de Balogun, o jogador da equipe americana, solenemente ignorada pela Bélgica e, que nojo! Depois que o Egito fosse garfado e saísse da competição após fazer a campeã mundial, a Argentina, passar um tremendo perrengue antes de garantir sua classificação às quartas de final. Essa mesma, só com campeões!

Com os Estados Unidos fora da competição, para indignação mundial, foi quebrado o cessar-fogo no Estreito de Ormuz. A Groenlândia e a Faixa de Gaza estão novamente sob ameaças iminentes. E nós? Voltamos a ser alvo de quem, sabemos, não tem espírito esportivo nem é capaz de respeitar os direitos básicos alheios.

É vida que segue ao sabor dos ventos que não sabemos onde nos levarão. Assim como esta crônica...

PS: Pluct Plact, o extraterrestre estava certíssimo. Faz tempo que os seres de outros planetas circulam por aqui.

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*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Arpoador” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


Studio na Colab55

quinta-feira, 25 de junho de 2026

A antiga musa

A antiga musa

Texto e foto de Valéria del Cueto

Querida cronista, voltei para você! Aqui fala seu extraterrestre preferido, Pluct Plact, que há vários anos procura mantê-la informada do mundo exterior.

Reconheço que cada vez esses informes estão mais espaçados. Não pense que é desleixo ou falta de carinho. Ao contrário. Acontece que os filtros de notícias e assuntos inerentes a nossa amizade e convívio estão cada vez mais aprimorados e seletivos.

Não acho justo invadir a santa paz que você escolheu para se isolar do mundo nesta cela do outro lado do túnel com o mais do mesmo que, sinto, não traz novidades significativas nem, tampouco, amplia seu bem-estar ou acrescenta qualquer benefício à sua proposta de vida.

Sim, é melhor ficar na ignorância do que mergulhar nas armadilhas sempre renovadas e cada vez mais sofisticadas que este mundo apresenta.

Por aqui, tudo está em oferta. Mas cada uma delas traz inúmeras e variadas pegadinhas. As que, quando pegam, nos levam para um (ou diversos) buraco(s) sem bula ou instruções para sair deles. Tudo brilha, mas nada entrega o que promete. Quando se descobre que o produto é mais falso que nota de três reais, não tem mais devolução.

É surpreendente a capacidade humana de propor maravilhas! O povo embarca para depois, não muito depois, descobrir a canoa furada que naufraga ao primeiro clique. Pronto! Alguém já passou a mão no que é seu. Expertise das bets que infestam a vida e são impossíveis de exterminar do convívio. Quer apostar que ainda nos livraremos delas?

Cronista, faz tanto tempo que esse seu isolamento perdura que tenho sérias dificuldades em explicar o que move o mundo atualmente.

Me refiro a cliques e likes ou curtidas (para aportuguesar). Coraçõezinhos, joinhas e estrelinhas nas redes virtuais são os códigos atuais de validação humana.

Esqueça os sorrisos, os olhares, afetos e os apertos de mão. Abraços, então, quase nem pensar. Agora, mandatários informam e governam pelas redes sociais. Sabe o que é cancelamento? Pois é... A pessoa submerge na ignorância coletiva!

Sei que tudo isso não faz parte do seu show. Mas, caso haja interesse, posso fazer um resumo deste way of life e enviar-lhe um arquivo pelo próximo raio de luar que invadir a sua cela aí do outro lado do túnel.

Faço a sugestão por desencargo de consciência a que, você me explicou em nossos primeiros encontros, todos os seres humanos possuíam. Pois alerto, cara amiga, não possuem mais. Pelo menos a grande maioria. Afinal, quem, em sã consciência, é capaz de produzir tantas maldades?

A humanidade anda assim, caprichando no direito de se  autodestruir. Entre uma guerra e outra sem direito à  reconstrução ou regeneração, tentando, por meio de genocídios executados com planejamento milimétrico, apagar as civilizações que não se adequam aos seus modus vivendi.

Nada de novo no front além da intensidade e da perversidade, agora explícitas, declaradas e, sim, cronista, glorificadas. Não se finge mais gentileza, solidariedade ou bondade. Tudo é na base do grito e, hoje, quem grita mais não são os excluídos, os desvalidos. Quem tem mais "poderes" nas redes sociais é quem banca o desamor...

De novo, não queria escrever estas mal traçadas linhas para falar do arrasa-quarteirão e da destruição da Palestina temperada pela guerra dos Estados Unidos com o Irã que, entre outras mazelas, fechou o Estreito de Ormuz e deu um peteleco no frágil sistema econômico mundial.

Também gostaria de pular a advertência da chegada de um super El Niño e da falta de prevenção adequada aos desastres tantas vezes anunciados. Agora, é correr atrás do prejuízo que se anuncia com a chegada de uma frente fria glacial. Pede os cobertores extras, amiga, porque, dizem as previsões, o frio será de rachar.

Então... a antiga musa canta e vamos falar de Copa do Mundo? Essa, a mais longa de todos os tempos, tem mais uma novidade. Acontece em três sedes. México, Canadá e EUA. A-di-vi-nha onde será a final?

A parte boa é que alguns países surpreenderam na primeira fase. Caso, por exemplo, de Cabo Verde um estreante no certame.

Deixei esse assunto pro final porque ele se mistura com o aviso da chegada de mais outros extraterrestres no planeta. Dizia a lenda que a apresentação tem data e hora marcadas no dia do jogo Brasil x Escócia. Com direito à abdução de alguns jogadores e centenas de torcedores!

Se essa cartinha lhe alcançou é porque o alerta dado era falso. Ou seja, o Brasil passou incólume à próxima fase do campeonato. Detalhe: no momento estamos na cabeça do grupo e até o menino cai-cai andou em campo. Quem sabe se para ser nosso embaixador intergaláctico. Porque futebol que é bom...    

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com



Studio na Colab55

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Bom tempo


Bom tempo

Texto e foto de Valéria del Cueto

Depois de um verão para lá de quente parece que deu uma refrescada! Por vários meses até os animais sumiram de circulação.

Só conseguia detectar o ciciar das cigarras anunciando o bom tempo, o coaxar da saparada de noite e, claro, uma quantidade incrível de mosquitos que dominava o ambiente mal o sol se escondia.

Bastava chegar a primeira sombra atrás da linha da vegetação da morraria e lá estavam eles. Grandes, médios e os mais microscópicos e doídos, os donos das noites encaloradas...

Vi a primeira mudança quando detectei as lagartas se fartando na samambaia da varanda, apelidada de latifúndio. Uma ironia referente a seus poucos metros quadrados. A maioria é ocupada por plantas que me acompanham há vários anos. Incluindo uma chorona que, diz a lenda, tem a minha idade!

Confesso que eliminei várias lagartas comilonas de diversos tamanhos, impedindo a metamorfose de algumas borboletas.

Entre elas e as plantas que vieram da casa da minha avó, passaram pelo apartamento do Leme, depois foram para Araras e, agora, habitam o pé da serra, adivinha? Preferi zelar pela saúde das antigas companheiras.

O tempo anda firme, porém mais ameno. O que atraiu, por exemplo, as formigas de várias tribos e periculosidades.

Elas passaram a circular intensamente no deque se arriscando a passear pela canga em que gosto de me deitar apoiada numa pedra para ler embalada pelo barulho das águas do rio correndo entre as pedras.

Não satisfeitas em devorarem as plantas específicas, como as folhas das Lágrimas de Cristo (até hoje não floriram, então, não sei se as flores são brancas ou vermelhas), começaram a expandir suas moradas. No gramado o combate à expansão imobiliária dos formigueiros passou a ser incessante.

A natureza está despertando depois desse verão tórrido?

Que o digam os morcegos e seus rasantes no final do dia. Começaram a ser assunto constante nas conversas pelos arredores. Os moradores relatam a ocupação e os problemas causados nos telhados.

Quando não é morcego, são os gambás. Um vizinho até achou bonitinho saber que tinha um instalado no forro da sua casa. Até a hora que descobriu que os habitantes haviam se multiplicado. Era, agora, uma família. E numerosa!

Outro dia, a gatinha da casa em frente estava ressabiada, rodeando sem chegar no cômodo onde costuma dormitar durante o dia.

Bastou uma inspeção cuidadosa para parecer a ponta de um rabo perto da porta. Debaixo do sofá surgiu uma cobra com pinta de coral. Depois, devidamente anaquilada e analisada, concluíram que era falsa. O susto foi grande!

Nem todos os animais são peçonhentos ou perigosos.

Além das borboletas, os passarinhos também estão mais animados e cantadores.

Volta e meia um confunde a orientação do voo e dá um encontrão nos vidros das janelas. Eles se iludem com as árvores próximas refletidas. Já descobri que a ilusão de ótica aumenta se as cortinas estão abertas. Por isso, as mantenho semicerradas.

No rio que limita a casa tem mais movimento de peixes médios e peixinhos passeando entre as corredeiras.

A novidade é um cágado que escolheu uma pedra para lá da curva, margeando a estrada, para tomar sol todas as manhãs. Arisco, é muito difícil ele deixar registrar sua presença. Ainda não desisti da missão, apesar de nossos horários estarem desconectados. Ele chega cedo e eu durmo até tarde.

O cágado é tão rápido quanto os lagartos que habitam a toca perto da garagem. Não são tão grandes quanto os teiús que circulam pela rua não asfaltada na lateral da casa, nem tão pequenos quanto as lagartixas que cultivo e respeito profundamente.

Outro dia vi que a família dos lagartos também está crescendo. Um filhote passou raspando entre as rodas de pedra do antigo moinho desativado, guardadas como recordação na entrada da oficina ao lado da garagem.

Agora, com o outono pela metade a vida volta a pulsar no pé da serra, não tão forte quanto antigamente.

Já foi confirmado, constatado e concluído que o El Niño está chegando. Teremos (mais)um inverno aquecido e com temperaturas acima da média.

Pensando bem, nos últimos anos sempre tem algum elemento que garante o aumento da temperatura no planeta, já reparou?

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55