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segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Cego dos óio

Cego dos “óio”

Texto, foto e vídeo de Valéria del Cueto

Com secura de mar. Foi assim que chegou na praia. Saboreou cada detalhe do caminho antecipando alcançar a sensação irreal de normalidade de buscava.

Deu bom dia ao porteiro elogiando as orquídeas que floresciam abraçadas na árvore da rua em frente ao prédio.

Trocou uma ideia na portaria vizinha sobre as birutas sonoras amarelas instaladas depois de anos sem serem necessárias e colocadas, aliás, no momento em que a energia elétrica que aciona as geringonças está pela hora da morte.

Subiu a rua quase ladeira rumo ao Arpoador, Ipanema, cartão postal do Rio de Janeiro. O sol, que andara escasso em outubro, estalava no céu surgindo no rendado das folhas de amendoeiras frondosas que sombreiam a rua.

Quando cruzou a última pista e precisou prestar atenção ao espaço dos ciclistas, já ouvia o som do trompete do músico que bate ponto no primeiro banco na entrada do Garota de Ipanema. Enquanto contornava o parque ouvia os tristes acordes de Assum Preto, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, o cego dos “óio” que canta de dor.

Na passagem lateral que leva à praia as pitangueiras coladas ao muro grafitado estão carregadas de frutos amarelos. Os vermelhos, perpitolas, como dizem os cuiabanos, são colhidos por quem reconhece as árvores frutíferas, ainda mais nessa época de escassez.

A praia se descortina à frente. O sol, sem uma nuvem no céu, reina soberano e absoluto.

A blusa de manga comprida parece quente demais. Só parece. Quem “é da praia” sabe que ela é essencial na hora de voltar pra casa quando, com o corpo quente, tiver que percorrer o caminho sombreado e, talvez, enfrentar os corredores de vento nas ruas do bairro.

A areia da praia não está cheia (ainda) e o mar bate num som que, não pergunte como, indica a subida da maré. O truque é não ficar na beirada para poder escrever tranquilamente. Esquecer a linha de frente. Isso é o que garante não haver surpresas quando a maré subindo der o bote para recuperar seu espaço.

Antes da água surpreender a distraída com o caderninho, os banhistas instalados próximos à água darão o alerta. Para facilitar, usa como marcação o homem-camarão. Aquele que dorme distraído ao bronzeamento se preparando, inadvertidamente, para uma noite de sofrimento inesquecível.  

O mar baixou e tem uma linha animada de surfistas. Pelo horário e o estilo dominante não está nela a rapaziada local que prefere as ondas que fazem a fama do point em dias de ressaca.  

O Rio está cheio e o sotaque do grupo ao lado é de sulistas. Comentam sobre o visual das acomodações que ocupam na cidade.

Definida a ocupação é estender a canga na direção sul, tirar a máscara (sim, ainda necessária para quem não está afim de bater palmas pra maluco Bolsonaro ou Eduardo Paes dançar) e, finalmente, ser invadida pelo tão almejado cheiro da maresia.

Ao sacar o caderninho está decretado o fim de todos os incômodos. Até o do som da música porcaria do grupo que se confraterniza a alguns metros adiante. É hora de mergulhar nas sensações de um dia normal.

Tudo cronometrado. Quando as linhas definidas pelo editor do jornal para o espaço ideal da crônica estão se esgotando o homem-camarão pula, levantando seus pertences. Sua toalha é alcançada por uma onda atrevida!

Hora de levantar a cabeça, focar a vista em direção ao sol que desce cinematográfico em direção a ponta do Vidigal e fazer aquela foto cartão postal “cego dos óio” pela beleza para ilustrar a crônica.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Arpoador do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

 




@delcueto.studio na Colab55

terça-feira, 27 de julho de 2021

Força maior


Texto e foto de Valéria del Cueto

Esse veranico de julho é de lei! Andava com saudades. Danadas. Ano passado praticamente passou batido. Sem a relativa margem de segurança que a vacina e os protocolos proporcionam a ida ao Arpoador para usufruir do combo sol, sal e areia, mar, céu e calor no inverno ficou praticamente inviável.

Ano passado, disse, e sinto que você, leitor das crônicas do Sem Fim, entendeu a sutileza do recado.

Pois é, caderninho no colo, canga colorida, mochila com a alça presa no braço, havaianas viradas de barriguinha pra baixo, que é para não queimar os pezinhos quando for calçá-las na saída, e eis-me aqui. Caneta em punho riscando a folha pautada, texteando no Arpex, Ipanema, Rio de Janeiro, Brasil.

Mal comparando, o dia de hoje é como a pausa olímpica que encanta nossa rotina, agora nas ondas do fuso horário do Japão, no outro lado do mundo.

Um refresco emocional para quem está vivendo o reality show da pandemia que se desdobra em capítulos e reviravoltas na CPI da Covid, a estrela da política brasileira, que anda levantando a beira do tapete do sempre surpreendente cenário nacional.

É, tipo assim, um respiro em que temos ídolos olímpicos, histórias edificantes e até uma fadinha de verdade que leva a gente em seus voos saltitantes. Logo ali.

Aqui ao lado vejo pranchas sentinelas cujas sombras crescem surfando na areia ao cair do sol. Fotografo a mensagem. Sei lá, né? E não é que deu o não tão midiático Ítalo Ferreira na cabeça?

As férias um dia acabam, em todos os sentidos. Primeiro, voltam as aulas logo depois da próxima frente fria acabar com o refresco do veranico.

Talvez quando você estiver lendo essa crônica, o bicho frio já esteja chegando e pegando. No Sul, já quase é. O corre começou com chuvas lá para as bandas da fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Mas pode ser que não... A esperança é a última a dizer “pode ir” a esse calorzinho delicioso. Como eu, ela não quer render-se às promessas de frio intenso, geada e neve!

Pensa num azul quase Caribe.  Um mar não muito pesado ainda se desvestindo da força das ondas pós ressaca. O sacode veio na última passagem de massa polar pelo pedaço, antes do sol se reinstalar para manter a lenda viva do veranico.

Pela ordem dos acontecimentos, todos agendados, após o frio quem retorna é a CPI. Vai embolar a programação com o (con)fuso olímpico!

Tem mais um monte de coisas acontecendo, mas só tenho ouvidos para os sons da praia onde se destacam as ladainhas dos pregoeiros que circulam na areia oferecendo seus produtos. A todos os apelos junta-se mais um item à cantoria. O atrativo é a facilidade do pagamento: “Temos PIX!!!”

Aí, chega aquela hora em que passa no miudinho a ideia que nunca devemos pensar, o que dirá formular. “Que dia lindo, o que pode dar errado?”. Pensei, levei, caro leitor, como sempre. Não, não foi o vento. Poderia entrar gelado, encarneirando o mar, levantando areia anunciando a mudança o tempo.

Foi mais simples e definitivo. Quando a cor começou lentamente a empalidecer e perder aquele excesso que sempre deixa marcas? Adivinhou, curioso? Não foi um céu sendo encoberto, nuvens, bruma ou maresia empalidecendo o azul. O azul desbotou as letras, a tinta da caneta que bordava as palavras.

Se despediu lentamente enquanto a maré subia avisando que era hora de recolher a canga, rumar pra casa e fazer o acabamento no restinho de palavras que falta para arrematar a escrevinhação. Rapidamente. Antes do início de outro amanhecer olímpico em Tokyo 2021. O sol ainda ilumina as pranchas para alunos de surf, o esporte em que somos os primeiros campeões olímpicos.   



*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

@delcueto.studio na Colab55

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Não conto

Não conto

Texto e foto de Valéria del Cueto

Esperei. Por sete dias...

Nos tempos da natação, nas categorias infanto-juvenil da equipe do Flamengo, quem treinava de manhã no grupinho de três ou quatro tinha uma mania/simpatia. Se você sonhava com uma coisa e quisesse que ela acontecesse tinha que contar antes do café da manhã. Se fosse um pesadelo só podia contar depois para evitar sua concretização.

Era o tipo de brincadeira como encontrar placa de carro em que os números da licença somassem nove e fazer um pedido. Se a gente cruzasse com uma mulher grávida e alguém de chapéu (boné não valia), era certeza que o desejo se tornaria realidade.

O que causava transtorno na simpatia do sonho é que o treino começava às seis da matina e sem chance para se alimentar e enfrentar horas de piscina. O café com pão e companhia eram depois do esforço físico. Não dá para treinar de barriga cheia...

Contar o sonho, se fosse bom, era uma das coisas que atrapalhavam e mereciam reprimendas do técnico que não alcançava o motivo de tanto tititi madrugador. Era mais difícil esperar o fim do treino porque todo mundo saía correndo apressado para começar a rotina diária.

Sempre que tenho um SONHO com maiúsculas me lembro da brincadeira e, sim, procuro seguir à risca a simpatia.

Deixei passar o café da manhã e muitos dias sem contar pra ninguém sobre o silêncio ensurdecedor. Ultrapassei os prazos para nem depois do almoço, ou dos jantares, externar em palavras o hiato absurdo da ausência.

Pulei o evento e passei para o outro lado, imaginando o despertar para a irrealidade dos sonhos interrompidos, dos projetos infindos. Sou parte disso, o que facilita a projeção. E, sim, acredito em passagem, em “firmar” na inconsciência para facilitar a consciência.

Não consigo ir além da estupefação e da revolta, então tentei mentalizar saídas, opções e a muito breve reencarnação para poder continuar de onde parou (dizem que a gente não esquece o que aprende e sempre anda pra frente). Com a mesma fome de justiça, a voz rouca punk rock. Talvez um tiquinho menos explosivo, que é para segurar o coração, mas sempre jogando de maneira franca e aberta. Como foi o convite para fazer a coluna batizada por ele de “Crônicas do Sem Fim...”, na revista Ruído Manifesto.

Mal entrei e ele partiu. Me deixou muda exatamente depois de combinarmos fazer muito barulho. O soco no estômago ainda dói como se fosse verdadeiro.

A falta do fio com a revista se mantém porque não há linha forte o bastante para resistir ao cerol da fatalidade que mandou para o céu a big pipa inquieta e curiosa que vadiava (no bom sentido) em busca de horizontes mais altos e visíveis para novos escritores, poetas, artistas. De Mato Grosso para o mundo. A pipa se foi, mas o fio ficou...   

E os dias se passaram, com aquele vácuo barulhento incomodando, impedindo qualquer forma de expressão, qualquer tentativa de reação.

Foi assim até o dia que o mar, devagarzinho, pariu no horizonte a lua cheia de agosto. Redonda que nem bolacha (lembrou alguém?). Fazendo suas gargalhadas se refletirem nas marolas animadas de uma pós ressaca daquelas!

Fiquei em paz com minha revolta, guardada para as muitas ocasiões que, meu amigo sabia e sobre isso conversamos, precisaríamos muito dela.

Ao fio, que une a todos nós do Ruído Manifesto (olha eu bancando aquele...) anuncio que estou aqui, pronta para “voar” na gritaria.

Re-começo com “Não Conto” para, como ele que partiu até ali, (res) suscitar na poesia, na prosa e, no meu caso, nas imagens. Elas, as que  fazem de nós ruidosos manifestos impermanentes da inquietação e, quem sabe, da esperança.

*Pro Rodivaldo.

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


Studio na Colab55

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Não está fácil pra ninguém

Não está fácil pra ninguém

Texto e foto de Valéria del Cueto

Duas coisas me fazem sacar o caderninho que uso para registrar as crônicas. A primeira é a paz na terra na beira de um mar que não pode ser um qualquer. Essa “saída o corpo”, mesmo no cenário paradisíaco que frequento, ultimamente na ponta do Arpoador, nem sempre acontece e se condiciona a certos fatores. Entre eles está a segurança do entorno.

Foi justamente ela que me impediu de sacar o caderninho na última passagem pela praia. Em plena tarde de um sábado com uma lotação até agradável, sob um sol ameno de outono.

Depois de fazer algumas fotos e vídeos dos ambulantes que circulavam anunciando seus produtos, num pedaço pouco frequentado entre a Pedra do Arpoador e o posto 8, em Ipanema, me preparei para puxar a caneta e abrir o caderno.

Antes de começar a escrevinhar chamaram minha atenção dois ambulantes que confabulavam nas proximidades. Entre uma negociação para a troca de um pouco de gelo para o isopor por produto e a avaliação das vendas do dia, o assunto passou pela ação de ladrões que estavam atuando na areia, prejudicando ainda mais a féria do dia. Que já não estava das melhores.

Ligada no bate papo e sempre prevenida, fechei a bolsa, pedi licença e entrei na conversa querendo entender o movimento local. Argumentei que era estranho e fora de época. As férias e a alta temporada já tinham terminado e, na praia vazia, não havia “clientela”, a não ser os locais, como... eu!

“É que ainda não avisaram ao “bloco” que o carnaval já acabou.” A resposta veio em meio a risadas pela metáfora criada por um dos rapazes. O outro explicou: “Isso aqui está largado, dona, a gente sai de perto para não ser confundido com eles.” “Você devia tomar cuidado”, alertou o mais velho, “por isso vim para esse lado."

Enquanto conversávamos comecei a me “situar” melhor no entorno. Sempre procuro ficar num local com visibilidade ampla e rotas de fuga. Apesar de estar na parte mais estreita da ligação de Ipanema com o Arpoador, onde o paredão é mais alto e, portanto, impossível de ser escalado, montei meu point próximo a duas barracas que, coladas nos grafites que enfeitam a “muralha”, produziam e distribuíam caipirinhas e outros drinks para diversos vendedores que volta e meia passavam para reabastecer as bandejas.

Aliás, essa foi uma das razões que me atraiu para aquela posição. A possibilidade de ampliar as fotos que estou fazendo sobre os ambulantes que passeiam oferecendo seus produtos. A outra foi a escada que dava acesso rápido ao calçadão. Foi o que expliquei para o vendedor que ficou papeando comigo enquanto o outro seguia para a “zona de confronto”, como chamou a caminhada em direção a Ipanema.

Foi ali que fiquei sabendo que os “blocos” podiam ser da área ou de fora e que, provavelmente, só os primeiros respeitam (um pouco) os locais.

Não fiquei chateada quando o vendedor se aproximou e, puxando seu celular, explicou que trabalhava na construção civil. Me mostrou, cheio de orgulho, várias fotos de trabalhos que havia realizado.

Disse que era da Pavuna e que tinha descido para a Zona Sul para deixar seus cartões de visita com um amigo que havia contado que estavam abrindo vagas por aqui na segunda-feira. Que era regularizado e, inclusive, tinha MEI. O problema era ter “capital” para pagar o contador. Aliás, era isso que ele estava fazendo ali. Tentando melhorar o caixa, que andava no negativo.

A conversa continuou até a volta do amigo que foi mais claro em relação a necessidade financeira do parceiro: “Vamos nessa, ainda dá para fazer mais umas duas voltas e, pelo menos, juntar o troco da pensão alimentícia. Se chegar com algum pode ser que a ex patroa não procure a justiça. Você já sabe onde vai parar...”. Imaginem a rapidez com que meu novo amigo se levantou, se despedindo.

A segunda possibilidade de puxar o caderninho, (lembra? Foi assim que a crônica começou) é quando estou numa espera. No caso foi bancária. Contar essa história me fez viajar para um lugar muito mais agradável do que onde me encontro, aguardando para falar com o gerente do banco. Não está fácil pra ninguém...
 
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.comStudio na Colab55

domingo, 3 de junho de 2018

Não é não...


Não é não...

Pensa que é fácil?
Esperar o mar, aguardar a luz,
captar a essência
do momento, passageiro?
Tenta!

Vagabinha tuiteira e foto de Valéria del Cueto a espera de uma foto @no_rumo do SEM FIM

O garimpo é longo e, na bateia, não apenas fotos (as melhores estão no Getty Images) mas, também, os vídeos do playlist MAR.

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Studio na Colab55

terça-feira, 8 de maio de 2018

Teu cenário é uma beleza!


Teu cenário é uma beleza! 

Mangueira. Passado, presente e futuro. Os filhos fiéis celebram os 90 anos da verde e rosa.

Texto e fotos de Valéria del Cueto
Não sou a única que está assim. Procurando palavras. Sem encontrar uma forma adequada para expressar seus sentimentos sobre a Estação Primeira, a de Mangueira.

Não sei se foi minha primeira estação, tão volátil e inconstante que sempre fui nos meus (grandes) amores. Uma coisa tenho certeza. O verde e o rosa sempre estiveram ali. Natural e simplesmente.

A vida que me levava largou minhas lentes por lá. Por felizes coincidências e amizades muito especiais um dia aportei no Palácio do Samba. E, na curva da entrada do palanque daquela bateria, fiz morada.

Mas daí a conseguir sintetizar essa sensação vai uma longa distância. Uma distância que, certamente, ultrapassará os seus atuais e tão comemorados 90 anos de existência.

Não fui a única a quem a inspiração faltou. Vi muitos mangueirenses pescando palavras e juntando lembranças para tentar descrevê-la ou traduzi-la.

Quer saber? Desisti enquanto era tempo e voltei as energias para captar em imagens o que marcou as celebrações do aniversário no sábado, 28 de abril de 2018.

Visto assim do alto

Céu claro e tempo aberto na noite da véspera, dia de missa rezada no alto do Corcovado. Vários monumentos cariocas, inclusive o Cristo Redentor, se vestiram com o verde e rosa da “maior escola de samba do planeta”, como anunciava Luizito, seu saudoso intérprete.

Alvorada lá no morro

Na manhã de sábado a alvorada começou às 8 da manhã e juntou a comunidade na quadra.  O hasteamento das bandeiras ao som de uma banda militar uniu as famílias fundadoras, diretoria, baluartes, velha guarda, crianças e jovens dos inúmeros projetos sociais da Mangueira. Passado, presente e futuro reunidos no café da manhã, depois da queima de fogos.



Hora de alimentar as energias e elevar o espírito trazendo bons fluidos com a lavagem da quadra e das escadarias do Palácio do Samba. Baianas paramentadas da escola, ao som de atabaques, abriram os caminhos e pediram benção aos orixás.

O descerramento de uma placa homenageando os fundadores ao lado da muda de uma mangueira que será plantada no espaço e a distribuição do calendário comemorativo dos 90 anos encerraram a manhã.


Festa na favela

A pausa durou pouco. Logo a quadra começou a encher para a feijoada de comemoração. Mangueirenses ilustres como Alcione, Beth Carvalho, Nelson Sargento e a Velha Guarda dividiram o palco com convidados. Ferrugem, Teresa Cristina e Roberta Sá passaram por lá.


 Batuque no porto

Não dava mais para se mexer no Palácio do Samba quando uma comitiva composta por representantes da diretoria, ritmistas e o segundo casal de mestre sala e porta bandeira partiu para o Museu de Arte do Rio, o MAR, na Praça Mauá, região portuária carioca. Uma participação estava prevista para a abertura da Exposição “O Rio do Samba, resistência e reinvenção”.



Um manto verde e rosa ornamentava o teto projetado do edifício. Em frente, do outro lado da praça, na beira da Baia de Guanabara, as mesmas cores desenhavam a estrutura do Museu do Amanhã.

No retorno ao reduto mangueirense o presidente Chiquinho apresentava a equipe e anunciava as contratações para o carnaval 2019. Marquinho Art Samba, o novo intérprete, foi muito bem recebido pela comunidade.

O som dos seus tamborins

Cansou? Ainda não era hora de encerrar a festa. A feijoada deu o tempero, mas ainda faltava um toque mangueirense para firmar a celebração. Era a batida inconfundível do surdo um. A que marca o ritmo da primeira ala.



Mestre Wesley não se fez de rogado ao assumir, pela primera vez, o comando da bateria. Quando a cortina com o símbolo máximo da Mangueira que escondia o espaço e o palanque da bateria se abriu, o que se viu, ouviu e sentiu foi a essência verde e rosa, o coração pulsante do morro da Mangueira. Em sua mais completa tradição...

Se depender do alcance de suas batidas e das vozes apaixonadas de seus componentes, além desses 90, serão muitos, muitos anos de glória. Salve o povo da Mangueira que, por ela, tem um amor que nunca tem fim.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É Carnaval”, do SEM   FIM...delcueto.wordpress.com


Edição Gustavo Oliveira
Diagramação Luiz Márcio

Studio na Colab55

segunda-feira, 26 de março de 2018

Quase parando

Quase parando

Texto e foto de Valéria del Cueto
Já tentei de um tudo para voltar á normalidade semanal na escrevinhação. Sem muito sucesso...

É a vontade de continuar firme e forte no propósito que me traz até aqui, numa parte importante de como tudo começou. Várias partes aliás, menos aquela que responde a uma das questões essenciais de quase todos os bons textos.

O “onde” está alterado. Sai a Ponta do Leme para dar lugar à Ponta do Arpoador. Guardadas as devidas proporções, é tudo pedra. Do Leme, do Arpoador...

No más é o retorno à ideia original.

Hoje é sexta-feira, são quatro horas da tarde e estou... na praia.

Temos o onde, o quando e o como. Cadê o porquê? Esse, não sei porque não anda dando tempo para decifrá-lo.

Como a imagem que ilustra a crônica. Foi questão de segundos. Eu disse de segundos! Só deu tempo (olha ele aí) para pegar a Lumix e clicar duas vezes. Entre o abrir a bolsa e puxar o celular para fazer a #xepa, o registro do Instagram, e lá se foi a composição.

Antes de que eu conseguisse armar a câmera o sol saiu detrás da nuvem (ou será que foi a nuvem que correu da frente dele?) e lavou a imagem com seu brilho, tirando o “drama” do contorno da nebulosidade fugitiva.

Assim anda tudo. Muita velocidade para pouca capacidade de absorção.

Claro que nem meu exercício fotográfico, nem a ginástica mental, fazem a mínima diferença para quem está ao redor.

Na pouca areia os vendedores circulam entre turistas e locais dispostos a aproveitarem o dia pós dilúvio. Quinta foi de chuvarada.

Os surfistas não dão a mínima para a sujeira da água do mar. Só têm olhos, braços e pernas para as desafiantes ondulações ainda altas, graças a última ressaca. E tem muitos atletas.

Todos querendo tirar o atraso dos dias em que o mar, de tão mexido, não permitia que ninguém caísse. Não era uma questão só de coragem. Era de formação das ondas. Indomáveis!

A calmaria ainda não chegou, mas já permite o zig-zag nas ondas enquanto para o sul se vê a nova frente fria se aproximando por cima do Vidigal e do Dois Irmãos. Tudo preto para aquele lado.

Uma delícia gastar linhas e páginas descrevendo o paraíso na terra. E em que terra. Nessa mesma, onde o pingo que já foi letra não passa de uma eterna reticência.

Aquela pátria amada que, faz muito, abandonou a gentileza e adotou a violência como ponto de partida para qualquer princípio de conversa(?).

Aquela que sempre já começa... atravessada. Que nem escola de samba, quando a bateria vai para um lado e a cantoria para o outro.

Não há mais tempo para os outros. O que dirá para nós.

Por isso as crônicas andam rateando. Elas se baseiam nos pressupostos de observação, sensação (não necessariamente nessa ordem), pesquisa, análise e dedução amorosa, se possível.

Ah, tá. E a velocidade dos atos e fatos, onde é que fica? Ela deturpa, invalida, desvia as conclusões.

Se não por forçar uma depuração artificial e apressada (e, portanto, perigosa), pela desatualização imediata dos dados e parâmetros consolidados para desenvolver o raciocínio dos textos.

O que é, era e não será mais. Num piscar de olhos. Como na foto...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

domingo, 30 de julho de 2017

Física Aplicada

Física aplicada

Texto e foto de Valéria del Cueto

Faz tempo que o caderninho anda no fundo da bolsa só fazendo número e peso nos ombros para cima e para baixo. A culpa não é dele. É da vida que, ultimamente, se não impede as boas intenções de serem intenções, provoca situações em que elas não podem se efetivar.

Foi assim na última vez em que, cheia de empolgação, largou as vicissitudes da vida, chutou o balde das aflições e rumou para a praia mais próxima pronta para rasgar o verbo sob o sol de inverno carioca. O ímpeto inspirador voltou ao nível 0 (zero) quando descobriu que havia caderninho na bolsa como sempre, mas faltava... a caneta!

De tão revoltada pulou aquela semana e, tal e qual Sherazade não pode fazer para o seu sultão em nenhuma das mil e uma noites, não mandou a crônica semanal.

Pior. Não apenas falhou, o que já havia acontecido antes, como não deu a menor satisfação nem mesmo para seu editor carrasco mais exigente.

Sabem o que aconteceu? NADA! Ninguém reclamou nem reparou na ausência das suas palavras.
E, como já provado pela terceira lei de Newton, a que diz que “a toda ação há sempre uma reação oposta de igual intensidade: as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em sentidos opostos”, dessa vez não teve conversa. A crônica está saindo como devia antes que, além de ignorada, ainda perca seu espaço nos jornais, sites e blogs. Afinal, são mais e 450 textos das séries de crônicas no rumo do Sem Fim fiados e bordados ao longo de anos.

Em plena quinta feira um sol de veranico de julho aquece a ponta do Arpoador numa tarde clássica. Como é férias tem muita gente na praia aproveitando o dia perfeito para uns, como os adeptos de stand up paddle, já que o mar está mais para liso.

As poucas e fracas ondas não atraem os Surfistas com S maiúsculo. Os poucos que arriscam um mergulho o fazem só por pura fé e com roupas de neoprene. Sim. Clara e numa tonalidade espetacular verde azulada esmeralda, a água está fria!

O que parece não fazer muita diferença para os insistentes atletas que, prestando bastante atenção, inclusive nas suas poucas habilidades, pode-se concluir serem alunos das escolinhas de surf. Elas atraem principalmente entusiasmados turistas, os que não resistem ao mar perfeito para iniciantes, mesmo que gelado. Tipo: “é hoje só amanhã não tem mais por que venho de um lugar frio pra caramba. Está bom demais!”

Felizinhos estão os vendedores ambulantes. Dias atrás gritavam seus bordões deles para eles mesmos. Agora têm para quem vender seus variados produtos: no abre-alas o Mate Leão e o Biscoito Globo. Cuscus, picolé, queijo coalho, amendoim, cangas e biquínis, camarão, óculos de sol, caipirinha, pau de selfie, bronzeador, esfirra, cerveja, água, empadas. Especificamente nessa (des)ordem.

Dois minutos depois tudo de novo. No sentido inverso e com a mesma intensidade, como a lei. Graças ao bate volta no fim da faixa de praia, poucos vendedores ultrapassam a Praça Millor Fernandes para alcançar a Praia do Diabo. A exígua clientela do local não vale o esforço...

Na semana que vem essa moleza acaba com a volta às aulas, o fim das férias. O veranico torcemos para permanecer por mais uns dias adiando ao máximo a entrada daquela frente fria que vira o tempo no litoral no início de agosto. A previsão meteorológica incerta diminui as chances de outras crônicas relax como essa.

Sem vento, com a maré subindo para morder as areias de Ipanema, anda na contramão dos apreciadores do pôr do sol no Arpoador. Iniciantes. Nessa época do ano, o astro rei desce no meio dos prédios. Bonito mesmo é no auge do verão, quando o sol cai no meio das ilhas...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.comStudio na Colab55

sábado, 23 de abril de 2016

Onda que leva, traz

Arpoador 160421 006 Arpoador ressaca paredão palmeiras gente  onda espuma e mar lindaOnda que leva, traz

Texto e foto de Valéria del Cueto
Ensaio fotográfico Ressaca no Arpoador
Tu, só tu e ninguém mais! Apesar da multidão a beira- mar sem praia que me cerca nessa quinta-feira deadline, 21 de abril de 2016, aqui no Arpoador, Rio de Janeiro.
Preciso desenhar cada letra, compor palavra por palavra, sentir a caneta deslizando e seu leve atrito no papel. Preciso do caderninho. Da sensação do espiral incomodando a mão direita que o segura, enquanto com a esquerda escrevo empoleirada na ponta de um banco.
O mais próximo que encontrei dos borrifos aspergidos pelas ondas da ressaca monumental que castiga a costa. Incluindo o paredão sem as usuais gorduras areníticas do Arpex. Da infra usual restam encarapitado o posto de salvamento e a estrutura da guarda da rampa concretada. O resto está tomado pelas nervosas ondulações que chegam do Oceano Atlântico.
A maresia forma uma bruma que, pousada no horizonte, esmaece as imagens dramáticas da força poderosa do mar. A pedra vinha sendo cantada. A maré cada vez mais alta dos últimos dias com a chegança da lua cheia dessa noite de quinta-feira, a de escrever a crônica semanal...
Gritos a minha direita indicam visitantes molhados pelas franjas rebeldes da onda que bate na murada do Arpoador há dias sem areia, o aviso que o caldo ia engrossar sendo dado diariamente.
Por mais que a vontade de emendar o feriado e engolir a redação do texto da semana fosse uma tentação quase irresistível, a curiosidade – a que matou o gato -  de ver com meus próprios olhos a revolução marítima e sua força descomunal   certamente me trariam para uma ponta. Não a minha do Leme, mas aquela que me cabe no momento...
“ Ô água mineral é 2, ô água, ô água e Guaravita...” recita o vendedor, anunciando os preços pós verão, de baixa temporada, re-pe-ti-da-men-te. Ancorou no banco ao lado. Uma poita de monotonia no ritmo desgovernado e inconstante dos pancadaços que seguem arrancando gritos de susto, exclamações de excitação e alguns poucos olhares de respeito. Com o mar não se brinca.
Depois de uma semana de acontecimentos quase nunca vistos na história desse país, a vontade de escrever era praticamente nenhuma e, por mais que tentasse, não conseguia encaixar os acontecimentos a serem narrados numa fabula brincante fabulosa. Era uma daquelas circunstâncias em que “quanto menos conversa nenhuma”. O melhor era guardar o fôlego para correr ladeira abaixo na frente da avalanche que não para de descer e ameaça nossas mais caras instituições.
E assim lá ia eu, observar a ressaca. Sentir o cheiro da névoa de maresia, ser abençoada pelos respingos purificadores do mar de Ipanema. Hoje, qual Maomé, chegando até a montanha da desumanidade em que habitamos...
Enquanto me arrumava vi a notícia do desmoronamento na Ciclovia Tim Maia, ligando o Leblon a São Conrado, inaugurada dia 17 de janeiro deste mesmo ano da graça. Um trecho foi “levantado” pela força das ondas que batem no Costão da Niemeyer. O Rio chora de tristeza, morre de vergonha! E a responsabilidade não é das ondas, da ressaca, do mar, das forças da natureza.
Foram elas, essas forças, que me grudaram hoje ao caderninho e ao desafio auto imposto de fazer o texto mais devagar, elaborar a escrita, desenhar o pensamento. E lamentar.
Como a ressaca, pedra cantada, força estranha presente quando menos se espera (mas sempre lá), só o caderninho é capaz de me salvar da ausência, preencher as lacunas da descrença, cimentar a escrita num esforço vão de descrever a imponderabilidade.
O resto já conhecemos. É o desprezo e o desleixo dos que deveriam zelar para preservar a segurança e o bem estar carioca. O nosso! Corpo e alma – ambos maculados - da sempre corajosa e destemida Cidade Maravilhosa.
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim...
** Link para o ensaio fotográfico Ressaca no Arpoador, do dia 21/04/2016

domingo, 9 de fevereiro de 2014

É duro


Texto e foto de Valéria del Cueto
É duro ter que recorrer aos mais poderosos artifícios para poder gerar a crônica nossa de todas as semanas.
É duro pensar, raciocinar, exercitar a mente e não conseguir imaginar uma mensagem otimista que faça valer a pena esse esforço semanal de disseminar ideias e conceitos pelos escritos espalhados onde opiniões são bem vindas.
É duro procurar avidamente entre os acontecimentos que viraram notícia, ou não, algo que contraponha a pilha de mazelas que nos bombardeiam incessantemente.
É duro – e necessário – reconhecer que se não fosse o refúgio da Ponta do Leme provavelmente você, leitor, não estaria correndo  seus olhos por essas não tão bem traçadas linhas.
É duro dizer quem para garantir nosso prazer (o meu de escrever e o seu de ler) foi necessário colocar em risco a saúde da escriba, exposta aos piores raios solares do planeta, para garantir a produção literária semanal.
Era isso ou não ter texto. O horário do dead line se aproximava e... nada!
São meio dia e quarenta e cinco de uma sexta-feira e eis-me aqui, como já disse, na Ponta do Leme. Sorte que corre uma brisa leve ameniza um pouco minha febre literária. É verão e, como tal, o dia se apresenta. Não chove há semanas e o calor bate os quarenta graus, o que potencializa os raios ultravioletas.
É duro começar tentando poetar ao som do mar da praia do Leme e, deixando a mente divagar, pensar só no calor dessa praia paradisíaca e seus malefícios solares.
Respiro fundo escutando o canto do vendedor oferecendo mate com limão. Quero parar e me deliciar, mas não posso. Tenho pressa.
É duro ter vontade de mandar essa crônica às favas e dar um mergulho nessa água transparente verde esmerada que convida a uma nadada margeando a praia, ou um passeio de prancha. O mar está um espelho, sem chance para os surfistas. A pressa é tanta que nem sei se a água está gelada como nos últimos dias.
A questão é respondida por um banhista que passa voltando do mar. Não posso descrevê-lo, por que nem levantei a cabeça. “Pô, a água está geladona”, avisa em direção a barraca para onde retorna.
É duro ter a impressão que tudo que poderia melhorar o estado de espírito geral desse registro tem um “porém”.
E olha que jurei não abordar temas como o aumento das passagens de ônibus no Rio de Janeiro e a qualidade do sistema de transporte público, a quebradeira no centro do Rio num protesto contra o ato do prefeito Eduardo Paes e suas tristes consequências, os preços exorbitantes na cidade e a reação dos cariocas com o Rio $urreal e a desdobramentos como a página “Cansei de der mal atendido”.
E os apagões? Resisti bravamente a polêmica do ladrão preso ao poste pelo pescoço com um cadeado de bicicleta, por “civis” no bairro do Flamengo.
Quase sucumbi ao destaque dado à bronca da presidente capturada pelos    vidros das janelas do Planalto (penso cá com meus botões que se ela gritasse mais, cobrasse mais e reclamasse mais, talvez as coisas estivessem melhores...). Capitulei com a notícia do russo que, em nome da poesia, assassinou a facadas quem defendia a prosa, numa discussão literária.
É duro querer ser positiva nesse clima em que até as pirâmides emitem raios para os céus. Por isso, me despeço com uma única certeza positiva: quando o sol baixar, lá pelas cinco, estarei aqui. De volta ao paraíso...
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

domingo, 22 de setembro de 2013

Eira e beira

Praia Leme130901 002 rosas sem tirar nem por

Texto e foto de Valéria del Cueto
A porta aberta era um convite. Passou por ela. Do lado de fora um corredor. Seguiu até a escada. Olhou para cima, pensou em subir. Olhou para baixo, deduziu que a saída era por ali. Desceu para a vida.
Na portaria viu o outro lado do vidro: calçada de pedras portuguesas, asfalto, carros, árvores... Tudo depois da grade. Achou o acesso à saída. Mal tocou, um sinal indicou que o portão estava liberado. Abriu e saiu. Ouviu o barulho da grade se fechando rapidamente. Não havia como retroceder.
O caminho para a rua liberado. Várias opções: esquerda, direita ou em frente, cruzando a linha de carros que subia por cima dos canteiros e fazia das árvores sobreviventes do sufoco urbano. Abusadas, que são insistindo em resistir.
Sujeira, lixo, abandono. Calçadas mal cuidadas, com armadilhas para pedestres, desrespeitados cada vez que, ao fazer a curva da ladeira, graças ao ângulo para desviar dos carros que ocupam indevidamente o espaço público, sob as barbas complacentes e cúmplices dos representantes da lei e da ordem, os caminhões vão comendo sua beirada, subindo pela quina e afundando as tampas dos bueiros e afins. Ironicamente, cada invasão da calçada é presenciada por um atento policial militar. Destacado para vigiar as pessoas e ignorar solenemente as irregularidades que não são de sua competência. Mesmo sendo justamente sua viatura uma das que contribuem para o afunilamento e consequente destruição do bem público.
O olhar vai subindo para acompanhar o caos e a desordem daquela que já foi uma rua tranquila e bucólica. As marcas da degradação não são suficientes para encobrir o encanto que persiste nos pequenos detalhes da arquitetura, na graciosidade das árvores centenárias que formam um corredor de sombras onde passarinhos se divertem no meio da selva de pedra.
Pode parecer clichê, mas foi assim que viu e descreveu o entorno.
Um último detalhe chamou sua atenção: no alto das árvores as orquídeas floresciam brancas e lilases, agarradas aos troncos e sustentadas pelo carinho dos porteiros dos prédios. Quase um sinal. Aquele que procurava.
Mas não valia. Afinal, a florada acontecia anualmente e fazia parte do ciclo local.
Tomou o rumo do final da curta rua e ao dobrar viu, acima dos tapumes invasores da empreiteira, o azul do céu sem limites emoldurado pelas copas de amendoeiras confusas.
Suas vidas agora são assim. Num tempo especial. Suas folhas amarelam e caem quase na primavera, deixando o outono sem suas cores avermelhadas. Fazer o que?
Para frente segue o caminho que passa pelo calçadão, atravessa as pistas asfaltadas, atinge as ondas de pedras portuguesas de Burle Marx e, finalmente, chega na faixa de areia branca da praia quase deserta.
O vento sopra, os coqueiros balançam, o mar resmunga. Um deserto sem miragens, atravessado em passadas lentas. O mar chegando.
Na beira da imensidão, marcas de pés tatuam o terreno há pouco lambido por uma onda mais atrevida. Elas ajudam a contar a história das duas hastes com algumas poucas folhas que sustentam as flores espetadas na areia. Rosas vermelhas. Solitas e dramaticamente emolduradas pelo colorido de dia espetacular, sem meio tom.
Olhou as rosas. E se armou de cor, de paz e um pouco do amor alheio. Continuou.  Era o sinal...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

domingo, 14 de abril de 2013

Vai de que?


Vai de que?
Texto e foto de Valéria del Cueto
Estou preferindo desenhar. Ando com pouca disposição para escrever. As linhas andam muito tortas e irregulares.
Meu refúgio, a Ponta do Leme. A areia ainda úmida do sereno da madrugada, misturado com a bruma da maresia do amanhecer, acolhe o flanar preguiçoso da canga sacudida para ser estendida na praia.
Sinto cheiro de mofo misturado com o ar da manhã. Sinal de que faz tempo que os pavões misteriosos estampados no tecido não saem do armário lá de casa. O cheiro me incomoda, mas é por pouco tempo, sabemos. O necessário para o sol quarar meu quadrado, comigo dentro.
Há uns dois ou três dias venho pensando nessa crônica. O que não é muito comum. Gosto simplesmente de abrir a torneira da imaginação e deixar as ideias escorrerem pelo papel sem muita preparação para, depois, só enxugar os excessos, secar uns poucos respingos. Normalmente são pontos, vírgulas, exclamações e reticências. Foram as pausas da respiração, entre os pensamentos que se atiravam abusados pela corrente sem muita ordem, como quem não pede licença. Fazem cócegas quando são alegres e arranham se violentos, até que sejam polidos e enfileirados nas linhas imaginárias do meu caderninho sem pauta.
Quase sempre é assim, e como é bom! Acontece que, umas trezentas aberturas na torneira da fonte da imaginação depois, a gente se pergunta se o conteúdo despejado não está se tornando repetitivo. Pode ser chato para o leitor ler sempre sobre a mesma ponta/pedra/praia. O mar esmeralda, a bola colorida que rola para um lado e para o outro entre os pés ágeis dos garotos que capricham no altinho,  aguardando a chegada dos novos parceiros para completar o time e darem início a pelada clássica na linha d’água, e o surfista que, sentado com as pernas cruzadas em posição de lótus, de frente para as ondas, seus objetos de desejo, arruma concentrado a tira do strep, preparando o velcro para prende-la no tornozelo, segundos antes de se entregar de corpo e alma ao mar que murmura sua musica, qual Flautista de Hamerlim.
Como o atleta, que já corre em direção a água, sou uma ratinha, atraída pelo feitiço musical, efeito mágico para meu coração cheio de dúvidas. Por que faz dias que ando preocupada com o tema dessa crônica... Falar de que? Tentei estabelecer parâmetros, e, por eles, eliminar algumas hipóteses.
Sem saber o que abordar, decidi definir o que evitar. Isso depois que surgiu a questão da repetição. Prontamente esse conceito foi substituído por outros. Substituído não, complementado. O bom humor e a leveza seriam essenciais. O texto não falaria de..., nem de..., muito menos abordaria..., ...,... ( não posso escrever as coisas a que me refiro sob pena de deixar de lado meu objetivo excludente). A lista de possibilidades plausíveis foi diminuindo, diminuindo... com o passar dos dias e o acompanhamento do desenrolar dos acontecimentos.
Até que resolvi reconsiderar as opções. Para encurtar, aboli o impedimento quanto a repetições, pelo menos no quesito Ponta do Leme. Foi ele o mais concreto, superlativo e fundamental (não posso usar essa palavra sem lembrar-me de Dante de Oliveira) mote para uma crônica quase outonal. Para terminar em grande estilo só falta descrever o desenho feito pelos rastros das pranchas que serpenteiam abusadas nas ondas lindas, tentadoras, mas perigosas - por que hoje paredes inexpugnáveis, já que quebrando sem piedade. Mesmo convidativas, são um sinal explícito de que a maré não está para peixe, pelo menos para certas espécies.  
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com 

segunda-feira, 18 de março de 2013

O que atravanca são “ozoutro”


Texto e foto de Valéria del Cueto

A ressaca está braba! Como os prazos para as obras da Copa do Mundo implacável, inexorável.

Estou na ponta, olhando um único atleta solitário despencando pelas ondas que parecem nascer na Pedra do Leme e lamber o Caminho dos Pescadores, ainda não interditado, o que acontecerá - creio eu - logo mais, devido ao perigo do mar atingir a mureta.

Até lá, admiro a arte de Nilson Marques, que na sua prancha de bodyboard, dá um show solitário para os poucos fanáticos, como eu, que não podem ver um mar alto e já correm para a Ponta. Sei quem é o atleta solitário por que, entre os poucos assistentes dois são primos dele, moradores do Chapéu Mangueira.

O que o talento não faz com uma prancha, pés de pato e a enorme coragem para enfrentar as ondas? Um dos primos me diz cheio de orgulho que no morro tem um monte de bons atletas como Nilson. Respondo acrescentando que eles estão espalhados por diversas modalidades ligadas a nossa exuberante paisagem.

A sorte é que, já sabendo da previsão das ondas, havia levado minha câmera. Não tem tempo ruim ou má fase que perdure olhando a beleza plástica dos movimentos do bodyboarder. Eles nos encantam e surpreendem a cada manobra. Quando vejo, meu olhar está lá, no mesmo ponto que o dele, “escolhendo” as melhores ondas, as que merecem as remadas e pernadas que o levarão quase ao céu.  Fico ali, parada, pensando na vida, enquanto Nilson rema de volta para o pico, enfrentando de frente as ondas gigantes.

Cada um com seus desafios. Fui parar na ponta por que em casa não posso ficar com o a gritaria do motor do chupa lama do Eduardo Paes, que castiga meus ouvidos e acaba com a paciência e a saúde dos vizinhos, moradores do pé  da Ladeira Ari Barroso, quina com a Ribeiro da Costa, no Leme. As ondas do mau humor quase me derrubam e preciso  ser imparcial ao acompanhar as aventuras da preparação dos eventos mundiais no Rio e no Brasil, incluindo aí a Vila do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. É necessário um olhar complacente e otimista para lidar com o despreparo (pra ser boazinha) e o desrespeito vigente.

Perdi definitivamente a esportiva quando li que a Secopa fez uma reunião com os locatários dos imóveis que serão desapropriados: “O Consórcio Diefra/Cappe, responsável pela elaboração de laudo de avaliação e fundo de comércio para instruir os processos de desapropriações, listou os documentos que deverão ser entregues: contrato social da empresa; balancete dos últimos três anos; os documentos dos donos e sócios da empresa”. A melhor parte é o prazo de entrega da papelada: 25 de março (com dois finais de semana no meio). Não é piada. É desrespeito. Se fosse só com os locatários, já não estava bom. Essa é a atitude com os “atingidos”. É não é uma exclusividade cuiabana! É geral.

A realidade é que além de alta(s), a(s) conta(s) não ser(ão) devidamente “verificada(s)” e, com isso, nós, os trouxas de sempre, pagaremos a fatura do pato, levando gato por lebre.

O mais inacreditável é a cara de pau de quem nos diz – e já reconhece - que obras importantíssimas, ficarão prontas em cima do laço. Como cumprirão  requisitos básicos de segurança e engenharia? Alguém já viu um habite-se e os alvarás dos bombeiros e da vigilância sanitária  saírem em menos de dois meses?

É a força tarefa do mal (feito) dominando tudo!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM... delcueto.cia@gmail.com 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Estou na dele



Texto e foto de Valéria del Cueto
Saudades do meu caderninho, simplesinho, queridinho e tão útil. Pronto para receber de páginas abertas impressões e expressões de maneira serena, democrática, independente de linha ou assunto.
Estou me rendendo com alegria ao deslizar da tinta, o ritmo do desenho das palavras, o prazer de quem se entrega a escrevinhar no papel.
O caderninho é o momento em que o pensar só é mais rápido que a ideia que brota os décimos de segundos necessários para descarregar, linha afora tão soltamente a ponto de não haver dúvida(s) sobre a grafia correta, as palavras feiticeiras. Elas, que surgem saltitantes e se deitam preguiçosas, libertas e cheias de disposição, até aquela destinada a ser a flecha certeira que atinge o alvo do ponto final da frase.
Pode parecer delírio -  e talvez seja - provocado por fortíssimos sintomas de felicidade intrínseca, dos que só podem ser provocados por uma sensação efêmera e quase única. – como tudo que é bom.
Falo do meu mar é azul, verde esmeralda cristalino e da minha praia é a mais limpa do Rio. Não é pouco.
Tenho observado esses tempos estranhos. E agora, sinto começou o verão no Rio. Temperaturas altíssimas, enquanto que no Rio Grande do Sul, mais precisamente em Uruguaiana, onde o verão costuma ser escaldante, o clima da estação anda ameno.
Aqui, o calor começou nos últimos dias de carnaval deixando para trás um janeiro ranheta que não fez jus a nossa fama de paraíso na terra. Parecia praga! Tanta gente de fora querendo ver o que faz do Rio um lugar abençoado por Deus e, no céu só nuvens passando, em sentido único, sempre de lá para cá, o caminho do mau tempo. E mais... a água do mar estava horrorosa. Foi isso que os visitantes viram. Meio caldo de cana em alguns dias.
Mas isso foi antes. Bastou passar a temporada pra que o cara lá de cima, vendo o paraíso mais vazio, mais disponível, resolvesse aproveitar uns dias especiais na sua maravilhosa cidade. E caprichou no ambiente!
Subiu a temperatura da terra, pra que queiramos o mar. Para torna-lo irresistível, deixou tépida a sensação na pele até na hora do mergulho, aquele, na corrida, sem testar antes com a pontinha do pé o que te espera.
Também como resistir ao apelo daquela cor que era, sim, do mar, e apenas dele, celestialmente, por assim dizer? Ele filtrou a água a ponto de fazê-la brilhar como esmeralda translúcida e transparente, capaz levar qualquer um a viajar nas suas profundezas até alcançar, lá no fundo o relevo da areia.
Deu uma soprada no vento e amenizou, com uma ajuda substancial da maré, as ondas e movimentos. Ondas sim, mas no tamanho certo para não turvar demais o que os olhos podiam notar, sem sei lá não sei não.
Para não dizer que não obteve ajuda humana, soprou os ouvidos dos garis do bairro um pedido de ajuda para que dessem uma geral na areia e... pronto!
É o paraíso da Ponta do Leme. Em pleno meio da semana que é para garantir o testemunho. Há muito aprendi a não esperar para usufruir amanhã o que me é oferecido hoje. E vocês sabem mesmo ele, o senhor, um dia precisa descansar, relaxar e aproveitar o lado bom da vida que arduamente tenta nos dar.
Por que sei, ele está aqui agora em minha companhia usufruindo o sucesso do melhor de sua concepção. Aqui exaltado  por esta vivente feliz, na Ponta do Leme.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM... delcueto.cia@gmail.com 

sábado, 3 de novembro de 2012

Deu xabu



Deu xabu
Texto e foto de Valéria del Cueto
Chegar a praia e descobrir que esqueceu a canga, base para montar seu acampamento solar é quase igual a esquecer em casa o passaporte e só descobrir no aeroporto, na hora de embarcar.
Como querer sacar dinheiro no banco sem o cartão eletrônico. Pular de paraquedas sem o meio de transporte adequado. Participar de prova de hipismo sem o animal que dá nome ao esporte. Praticar tiro ao alvo, mas faltar a arma, de fogo ou branca.

Um retorno à base era impensável. O tempo urgia, o sol chamava e a preguiça rugia. Transformou o vestidinho numa pequena ilha evasê e ali se aboletou, largando na areia a bolsa e dela sacando o caderninho e a caneta. Era isso ou adeus à crônica.

A ordem era desordenar a rotina e antecipar o material. A periodicidade seria alterada por conta do feriado. De dominical, esta seria uma edição sabadal, sabadense e sabática.

Explique esses pequenos detalhes para a sua inspiração, caro editor. Por que para ela, a musa que a guiava, hoje não era dia de pensar, sugerir ou intervir.

O dia seria amanhã. Hoje com amanhã não orna. Entre outras razões por motivos bancários, vejam só que prosaico. Inspiração e banco não se entendem, e, raramente combinam. Diante das circunstâncias até ela foi obrigada a concordar com a justa reclamação do setor bancário. Era o dia dele.

A inspiração não achou muita graça por levar a culpa involuntária destes acontecimentos. Afinal, que responsabilidade tinha se sexta feira seria feriado? Como poderia aceitar de bom grado ser requisitada, recrutada e intimada a comparecer fora do dia semanal contratado e, mais importante e decisivo, em pleno 31 de outubro, Dia das Bruxas no hemisfério norte e, portanto, para os não iniciados, no mundo inteiro? É muita audácia.

Audácia e falta de noção. Do perigo, inclusive. E não se engane. Não é por estar na Ponta do Leme, em pleno Rio de Janeiro, numa tarde ensolarada de primavera, ouvindo as ondas quebrarem tão preguiçosas quanto ela, sem seu metro e meio quadrado de canga, que é possível sentir-se imune aos perigos abaixo mencionados. Bruxaria, magia, energia.

Mesmo as melhores e mais bem intencionadas feitiçarias devem ser usadas de forma parcimoniosa seguindo os devidos rituais.

Isso se aprende em Florianópolis, Santa Cataria, que, não por acaso, tem o codinome de Ilha da Magia, e é um entre outros pontos de contato entre os mundos paralelos da realidade e da mágica.

Há que respeitar e reverenciar os desígnios caprichosos da inspiração argumentava a pobre cronista procurando “pescar” um bom assunto.

Quem já perdeu a musa sabe disso. E se ela exige o sacrifício do conforto espacial, que assim o seja.A canga, pendurada abandonada solitária na janela do apartamento, fica fora de cena e o vestido assume o papel de micro ilha nas areias quentes da praia.

A inspiração bondosa e companheira, finalmente concede o sopro de sua graça. Mas, por seus estimados e valorizados serviços, cobra um alto preço da cronista necessitada de seus préstimos.

Por reverência, ao imobiliza-se no exíguo espaço literário, ciente de que qualquer movimento pode romper o fio que a liga com a musa, deixa as costas imobilizadas pelo tempo em que redige, provocando uma entorse que durará todo o feriado.

Deu xabu, mas a crônica saiu. O relaxante muscular que virá mais tarde é um preço justo pela inestimável contribuição.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com