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segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

No princípio (também) era a roda

No princípio (também) era a roda

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Um réveillon sem o espocar das rolhas de champagne e espumantes na virada do ano em Copacabana. O som só será ouvido se levarem gravações do pipocar característico das comemorações da entrada do ano junto a Rainha do Mar, Iemanjá. Vidros estão proibidos e confiscados nas barreiras de acesso a praia.

Comecei pelo final e volto ao início.

Nele, as famílias e amigos dos moradores de Copacabana iam até a orla observar a celebração dos terreiros que, em rodas espalhadas pela areia, faziam seus rituais para homenagear Iemanjá e outros orixás na virada do ano.

De branco, com suas vestes características, dançavam ao som de atabaques e berimbaus iluminados pelas velas cercadas de oferendas depois lançadas ao mar junto com muitas flores. A energia do axé podia ser sentida e partilhada por iniciados e curiosos que passeavam entre as rodas recebendo bençãos generosas.



Aí, surgiu a cascata de fogos do Hotel Méridien que escorria pelo prédio. Depois os fogos na areia. (Terá sido em ordem inversa?). A passagem de ano em Copacabana virou atração turística...

Os primeiros expulsos foram os que criaram a fresta com seus deuses. A multidão crescia ano a ano e passou a ter donos. Áreas começaram a serem delimitadas. Dos shows, seus palcos, backstages, áreas vips; dos quiosques, cercadinhos...

Um acidente com os fogos na areia provocou o deslocamento dos efeitos especiais para o mar com o uso de balsas para seu lançamento no cenário cinematográfico da Princesinha do Mar. A competição com outros pontos turísticos do globo se acirrou: maior público, poder pirotécnico...

E, claro, o espírito inicial da festa religiosa a beira mar se perdeu, engolido pela multidão e pela fome de lucro. Com o tempo os moradores do bairro ficaram reféns da organização do maior réveillon carioca. Trânsito interrompido, metro superlotado, insegurança e sujeira, apesar dos esforços sobre-humanos dos garis, heróis urbanos invisíveis.

Durante anos deu para driblar esse “avanço civilizatório”. O Leme sempre foi o paraíso que incluía uma imagem única do Caminho dos Pescadores onde eles, os próprios, se reuniam no final e faziam uma comemoração especial para saudar o novo ano. De lá o registro de Copacabana a meia noite é especial. Não vou contar o porquê. Se quiser conferir procure nos àlbuns dos réveillons que passei por lá.

Foi nesse período que dividi a meia noite em duas etapas, nos tempos do horário de verão. Nos fogos fotografava e gravava, no horário do fuso de Cuiabá brindava, fazia meus pedidos e comia as uvas verdes, uma para cada mês do ano vindouro.

Um dia, quando fui em direção ao Caminho do Pescadores um tempinho antes da meia noite para pegar um bom lugar na mureta, uma multidão atrapalhou os planos. O quiosque no canto da Pedra havia sido turbinado. O resto não preciso explicar. Nem só o mar dos surfistas fica crowded.

Saí do Leme que não saiu de mim, mas ficou muito longe para ser alcançado na movimentada noite da virada. Cruzar a praia da ponta do Forte Copacabana até o Leme ficou impossível. Ainda mais na volta, sem transporte. Todos os anos quando vejo as luzes da minha ponta, de onde estiver em Copacabana ou fora dela, fecho os olhos e me transporto para as areias de onde sou cria comemorando o privilégio dos maravilhosos réveillons que lá passei.

Esse ano vai ser diferente. Não sentirei a distância. Nada, eu disse, nada me faria almejar a programação gospel do palco do Leme, que, em anos anteriores, foi o palco do samba! O prefeito Eduardo Paes fica devendo essa escolha equivocada aos moradores do Leme. É só mais uma de muitas. Só não vê quem não tem memória.

Vamos ver como reage Iemanjá a ausência do axé do espocar das champagnes em sua homenagem na hora da virada. Pode ser que nem note no alarido da multidão de milhões de pessoas. Pode ser...

PS: “No princípio era a roda – um estudo sobre o samba, partido alto e outros pagodes” é o título do livro essencial sobre o assunto de Roberto Moura.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Ponta do Leme” do SEM FIM ... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

segunda-feira, 5 de junho de 2023

De onde sou cria


De onde sou cria

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Vim pelo caminho escrevendo o texto em pensamento enquanto observava os desenhos dos raios de sol de outono entre as árvores enormes do caminho pra Ponta do Arpoador. Queria ver o nascer da lua cheia de junho da Praia do Diabo, à direita do continente, para os lados do litoral norte. O plano estava feito. Como sempre, para variar, algo mudou o rumo da escrita.

Acontece que estou impregnada do meu amor primeiro, apesar de traído várias vezes, o Leme. É a ele que o olhar se volta assim que chego perto da guarita da pedra, na divisa do Forte de Copacabana. Uma mureta e um aramado impedem a passagem guardada por um soldado vigilante. Pergunto se sabe onde nascerá a lua. Diz que não com cara de quem não entende muito de coisas de lua. Natural, espacial nem exotérica. Aviso que é muito sortudo apesar do friozinho. Do ponto em que está de sentinela verá um lindo anoitecer.

A lua subirá cedo, às 17:42. Enquanto escrevo ergo o olhar e observo o céu azul sem nuvens. Só com a barra de poluição sendo colorizada em tons rosados no lusco-fusco. Observo a quantidade de pinguins, os turistas, que esperam o sol cair para aplaudi-lo em Ipanema. Que contraluz. Tudo lindo!

Acho que expandi a sensibilidade visual ontem no Leme.  Fazia tempo que não ia ao meu paraíso perdido. Achava que seria uma passagem rápida só pra acarinhar, como sempre, a Pedra do Leme do Caminho dos Pescadores. O tempo andou manhoso, birrento, cheio de crises de choro. O mar pesadão sempre em tons de chumbo refletindo o céu cinzento e nublado que trazia as chuvaradas. Não esperava nada do passeio, só que...

Quando cheguei na subida do Caminho dos Pescadores, já na estátua de Clarice Lispector e seu cachorro sentada na mureta, vi que o passeio ia dar liga. A primeira imagem pulou da câmera quando um outro cão se chegou na poetisa enquanto seu dono estava sentado ao lado. O fundo era aquele visual de Copacabana inteira. Cortei o dono (que me perdoe) e esperei um tempo até o Totó olhar para os mistérios de Clarice.

Continuei para o Caminho em busca do ponto em que entre pichações, grafites variados e, hoje, uma bike camuflada. Me agarro nela, a pedra, para saudá-la. Imagine a cena, caro eleitor. De costas à beleza estonteante, mãos e corpo grudados ao monólito como uma lagartixa, conversando com os meus e os visitantes passando de um lado pro outro. O ritual não é demorado. É o tempo uma saudação, um Pai Nosso, aquecer a alma e deixá-la ser embalada pelo som das ondas e marolas do vai-e-vem do mar no costão do Leme. Estou em casa.

Camufladas. Ela, que não é minha, e eu.


Depois de impregnada da força da pedra é só fazer um giro de 180 graus e abrir, aí sim, a visão para a força estonteante do cenário que se descortina de lá. Imagino caravelas em tempos antigos acompanhando o deslizar de um veleiro.

Pode ser que essa beleza não provoque nenhum efeito em outras pessoas. Em mim é um sopro de vida, numa ressuscitação boca-a-boca. Audição e visão expandidas à grandiosidade da paisagem. Minha reação é baixar os olhos para o local que produz o som inconstante que hipnotiza e, achava, estaria turvo, agitado. Aí, vem o que fez mudar o rumo do registro aqui no caderninho. O primeiro ponto é a cor da água. O segundo, sua limpidez azul esverdeada. Está bom? No sobe e desce da maré da lua cheia (olha ela) deu para sentir a sedução?

Enquanto me entregava ao ritmo calmo do mar, vi a dupla passeando. Duas tartarugas brincavam no play aquático natural do costão entre cardumes. O tempo parou para nadar com eles e eu engatei nas imagens. Ô sina. Sabe aquele compromisso? Perdi a hora.

E agora, para finalizar porque o espaço está acabando, vou ali correndo! Se escrever mais as “tugas” (estou íntima) também me fazem perder a lua cheia do mês de junho que está nascendo. Onde? Para o lado de onde sou cria. Do Leme... #saiodoLememasoLemenaosaidemim

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Texto  das séries “Arpoador e Ponta do Leme” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Alto Risco

Alto Risco

Texto, foto e vídeo de Valéria del Cueto

Troco as pontas que tanto amo, a do Leme e do Arpoador. Esclareço aos mais recentes chegados às leituras do Sem Fim que são elas, na orla carioca, os lugares que mais gosto quando penso em falar da vida.

Para isso estendo a canga, estico o raciocínio destrinchando as ideias antes de embrulhar as palavras, apertadas nas duas laudas que me cabem, e mando ver.

Sai facilzinho mais um texto @no_rumo das histórias que passam diante dos meus olhos ultimamente tão perplexos. Desde o início da pandemia perdi o direito de estacionar ao ar livre e respeitei as recomendações. Quando não aguentava mais a falta das paradas obrigatórias, fiz igual ao gato. Subi no telhado. De lá, esticando a canga de peixinhos no concreto da laje e trocando o barulho do mar pelos resmungos da água subindo para encher a caixa, fiz um esforço danado, num exercício concentrado de imaginação para manter o fio das palavras, o curso das ideias.

O tempo passou e a imobilidade me obrigou a correr mais riscos que os andares que subia pela escada de incêndio para não dividir o elevador do prédio, sob direção bolsonarista e, portanto, gerenciado na toada da gripezinha e da terra plana.

Não, não há um cuidado maior por aqui que um álcool gel para quem pede na portaria. A entrada é livre para moradores, entregadores e afins. Tanto gente como cachorro não precisam pisar em tapetes sanitizadores. Se você não pedir para abrir o portão que corre, o da garagem, ainda tem que empurrar com as mãos o menor que é de mola. E também não, ninguém protesta, ninguém reclama. Eu passo voando pelos heróis da portaria e tento ajuda-los, quando posso.

A praia me espera. No início era só caminhada e entre os passos cuidadosos na areia fofa (fortalecer as pernas com cuidados básicos para não detonar os joelhos) ia construindo mentalmente a teia de cada crônica.

Quantas vezes pensei em tirar a canga demarcatória e rezar para ser mais rápida na rabiscagem que a chegada dos fiscais, guardas municipais e PMs, que deveriam permitir apenas exercícios na orla.

O diálogo seria mais ou menos esse... “Senhora, não pode ficar na praia. Só se estiver fazendo exercícios”, diria o responsável pela ordem do alto de seu quadriciclo de fiscalização.

“É o que estou fazendo, seo guarda”, tentaria explicar perscrutando seus olhos. O rosto da autoridade semicoberto pela máscara mal colocada impediria avaliar sua expressão. “Exercito minha escrita, dando um gás na imaginação para melhor a performance literária...”

Nem tentei o argumento diante da ausência do requisito mínimo de prevenção nas faces da maioria das autoridades vigilantes, aquelas que deveriam zelar pela saúde pública e as próprias.  Sinto que esse tipo de exercício, o literário, não estaria na lista dos admitidos no decreto municipal.

Um “teje preso”, inevitável diante das circunstâncias higiênicas dos valorosos membros das corporações, não seria de modo algum adequado.

Os dias passaram as crônicas, de uma maneira ou de outra, vieram e as praias parece que um dia serão liberadas. Enquanto aguardávamos os delirantes cercadinhos que o genial prefeito Crivella prometeu implementar por aplicativo virtual, quem pôde resolveu aproveitar a liberdade provisória.

Tive que fugir das pontas para alcançar um espaço que me permitisse desenhar meus pensamentos no caderninho! O bom e velho Quase Nove foi o local menos crítico, onde reencontrei o prazer de unir o som do mar, o apito dos salva-vidas e as cócegas da caneta deslizando pelo papel.

Pela sensação de conversar com o vento e construir o texto no ritmo do murmúrio do oceano? Vale o alerta da bandeira vermelha de ALTO RISCO da ressaca que levanta o mar para os surfistas ou da Covid-19, a que baila livre, leve e mortal impulsionada pela ignorância que circula de cara limpa impunemente pela cidade que já foi maravilhosa.

Use máscara!

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


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Studio na Colab55

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Tartarugas no Caminho

Tartarugas no Caminho

Texto, vídeos e fotos de Valéria del Cueto

Não sou a única que respira melhor na Ponta. Outro dia tartarugas escolheram, como eu, a Pedra do Leme para relaxar. As águas claras e transparentes serviram de cenário para o bailado das meninas. Cheguei lá pelas duas da tarde e acabei perdendo a hora na marola do sábado.

Não era uma, nem duas. Filmei três e vi outra fora de quadro. Para poder gravar e fotografar tive que me integrar ao ambiente. Havia chegado no final do Leme em busca do melhor lugar que conheço para refletir (sem desmerecer outros sensacionais). O que diferencia, para mim, a Ponta do Leme das outras pontas, como a do Arpoador, é a minha pedra, o monólito vigilante da Praia de Copacabana.

Em vários momentos, abraçar a Pedra do Leme foi a maneira que encontrei de me conectar a natureza e, dela, tirar forças e ensinamentos transmitidos por sinais que me situam nesse universo. É ali, sentindo seu calor que recebo forças vitais pelo ar, a água, a terra e o calor do sol. Tudo interligado com o bloco mineral que se projeta na paisagem.

Não é só lá que dialogo com a natureza. É isso mesmo, eu me aproximo com minhas dúvidas, incertezas e imprecisões e ela me responde em sua essência. Tipo os sinais de fumaça dos índios, vistos a muita distância, contanto que o tempo colabore. Há que estar em sintonia.

Já tinha esse sistema de mensagens inserido no inconsciente. Me lembro, muito garota, de num momento crucial ter ido para a Praia de Copacabana, no posto 6. Era um dia muito feio, mas estava precisando dialogar comigo mesma. Vestia um suéter verde musgo do meu pai. Caso a chuva anunciada despencasse, certamente ele seria não só inútil como, também, viraria um pano de chão, daqueles que absorvem a água e a gente torce no balde.

Pois foi só chegar num banco, perto do que hoje mora Carlos Drummond de Andrade, para que algo acontecesse nos céus. Por incrível que pareça, chovia pra todos os lados, menos no caminho até o Forte Copacabana. Nunca entendi o fenômeno, mas não demorei muito a captar a mensagem. 

Mesmo que o entorno sofresse muitos abalos, o meu equilíbrio se manteria intacto. Sacudido, claro, mas ele suportaria o tranco.

Foi no Pantanal, entre Cáceres e Corumbá, na viagem da Expedição do Sem fim... do Paraguai, que aprendi com o Chicão, um dos piloteiros, a observar outros sinais. Ele me mostrou as estrelinhas sorrindo no imenso céu pantaneiro. A instrução se complementou na Ilha do Brandão, em Angra do Reis. Lá, Dona Maria me explicou como o ronco de setembro podia definir as ressacas de fevereiro. Se a natureza manda recados, por que não usá-los e lê-los, como mensagens mais diretas?

É claro que não vale a gente pensar só na gente. Funciona melhor quando estamos firmando em energias coletivas. Mas, vez em quando, acredito num recado personalizado. Ultimamente ando lendo as nuvens que se formam para as bandas dos Dois Irmãos, ao lado do Vidigal, depois da curva do Leblon, vista de Ipanema.

Foi com esse espírito que dobrei a curva no início da orla de Copacabana, subindo a rampa para alcançar a estátua de Clarice Lispector na linha dos quiosques, contornando a Pedra do Leme. E, ali, parei diante de uma alteração na paisagem...


Pasmem, agora a Comlurb, a do prefeito Marcelo Crivella, está usando o espaço na areia colado no acesso ao Caminho dos Pescadores como “parque” dos maquinários que usa na limpeza da praia. Os equipamentos, além de poluirem o visual, agridem o meio ambiente. São motorizados. Qualquer vazamento cai direto na areia da praia! A Comlurb e uma penca de secretarias municipais devem explicações e, também, tomar providências urgentes para acabar com essa agressão a um dos mais lindos cartões postais do Rio de Janeiro!

Tudo isso para alcançar o paraíso e, nele, encontrar as tartarugas, cardumes de peixinhos e outros exemplares da vida marinha ali, ao alcance de nossos sentidos.

E chego lá, na mensagem prometida. Ela indica que assim como as tartarugas centenárias... nós ficaremos, eles passarão! Qual as lebres de Esopo e La Fontaine nas suas fábulas, podem até te largado na frente, mas estão indo com muita sede ao pote...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com


Studio na Colab55

segunda-feira, 26 de março de 2018

Quase parando

Quase parando

Texto e foto de Valéria del Cueto
Já tentei de um tudo para voltar á normalidade semanal na escrevinhação. Sem muito sucesso...

É a vontade de continuar firme e forte no propósito que me traz até aqui, numa parte importante de como tudo começou. Várias partes aliás, menos aquela que responde a uma das questões essenciais de quase todos os bons textos.

O “onde” está alterado. Sai a Ponta do Leme para dar lugar à Ponta do Arpoador. Guardadas as devidas proporções, é tudo pedra. Do Leme, do Arpoador...

No más é o retorno à ideia original.

Hoje é sexta-feira, são quatro horas da tarde e estou... na praia.

Temos o onde, o quando e o como. Cadê o porquê? Esse, não sei porque não anda dando tempo para decifrá-lo.

Como a imagem que ilustra a crônica. Foi questão de segundos. Eu disse de segundos! Só deu tempo (olha ele aí) para pegar a Lumix e clicar duas vezes. Entre o abrir a bolsa e puxar o celular para fazer a #xepa, o registro do Instagram, e lá se foi a composição.

Antes de que eu conseguisse armar a câmera o sol saiu detrás da nuvem (ou será que foi a nuvem que correu da frente dele?) e lavou a imagem com seu brilho, tirando o “drama” do contorno da nebulosidade fugitiva.

Assim anda tudo. Muita velocidade para pouca capacidade de absorção.

Claro que nem meu exercício fotográfico, nem a ginástica mental, fazem a mínima diferença para quem está ao redor.

Na pouca areia os vendedores circulam entre turistas e locais dispostos a aproveitarem o dia pós dilúvio. Quinta foi de chuvarada.

Os surfistas não dão a mínima para a sujeira da água do mar. Só têm olhos, braços e pernas para as desafiantes ondulações ainda altas, graças a última ressaca. E tem muitos atletas.

Todos querendo tirar o atraso dos dias em que o mar, de tão mexido, não permitia que ninguém caísse. Não era uma questão só de coragem. Era de formação das ondas. Indomáveis!

A calmaria ainda não chegou, mas já permite o zig-zag nas ondas enquanto para o sul se vê a nova frente fria se aproximando por cima do Vidigal e do Dois Irmãos. Tudo preto para aquele lado.

Uma delícia gastar linhas e páginas descrevendo o paraíso na terra. E em que terra. Nessa mesma, onde o pingo que já foi letra não passa de uma eterna reticência.

Aquela pátria amada que, faz muito, abandonou a gentileza e adotou a violência como ponto de partida para qualquer princípio de conversa(?).

Aquela que sempre já começa... atravessada. Que nem escola de samba, quando a bateria vai para um lado e a cantoria para o outro.

Não há mais tempo para os outros. O que dirá para nós.

Por isso as crônicas andam rateando. Elas se baseiam nos pressupostos de observação, sensação (não necessariamente nessa ordem), pesquisa, análise e dedução amorosa, se possível.

Ah, tá. E a velocidade dos atos e fatos, onde é que fica? Ela deturpa, invalida, desvia as conclusões.

Se não por forçar uma depuração artificial e apressada (e, portanto, perigosa), pela desatualização imediata dos dados e parâmetros consolidados para desenvolver o raciocínio dos textos.

O que é, era e não será mais. Num piscar de olhos. Como na foto...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

domingo, 11 de dezembro de 2016

Recado poético

Recado poético

Texto e foto de Valéria del Cueto

Todos os requisitos necessários para o bom andamento dessa fábula fabulosa estão aqui representados. O checklist de Pluct, Plact, o Mercúrio extraterrestre, mensageiro da cronista voluntariamente enclausurada, está completo. Divide-se em itens básicos, circunstanciais e os "extraplus", aqueles especiais.

Vamos ao básico: um sol de verão na primavera e vista paradisíaca com amplo horizonte marítimo. Não o ideal, porque só Ponta do Leme só existe uma. Mas o Arpoador disponível no momento, diante das circunstâncias, é mais do que aceitável. Um mar verde esmeralda hoje quase sem ondas e temperatura tépida. A praia praticamente vazia, onde predominam o barulho das ondas e os pregões dos vendedores ambulantes que circulam entre os frequentadores (tem bastante turistas) oferecendo queijo coalho, caipirinha, cangas, bronzeador, Mate Leão, limonada, óculos de sol, Biscoito Globo... 

Esses são aspectos do relatório que introduzem e ambientam a narrativa, aproximando a cronista rebelde de seu visitante interplanetário. Não que ele não tenha tentado inverter a ordem dos fatores, mas claramente, nesse caso, ele alteraria a o produto como você verá na sequência.

O segundo grupo é o de requisitos circunstanciais. Nele estão englobados os temas que mantém a amiga, isolada na cela do outro lado do túnel, enquadrada no contexto da loucura contemporânea. Inclui a tentativa na calada da noite do presidente do Senado de tornar urgente a tramitação da lei de abuso de autoridade. A liminar do ministro do STF Marco Aurélio afastando o réu da presidência do Senado. Sua conduta ao desafiar a justiça dando perdidos sucessivos no oficial da justiça! O espetáculo deplorável de assistir a suprema corte brasileira, mais uma vez, só botando a cabecinha. Técnica já apresentada na condução da sessão que tirou Dilma do poder, sem fazê-la perder seus direitos políticos. 

Pois dessa vez o puxadinho impede o réu de assumir a presidência da república, mas não o impede de “comandar” o poder cujo presidente, por determinação constitucional deveria ser, no momento, o segundo nome na linha de sucessão.

Nessa altura, a musa inspiradora de tantas fábulas fabulosas, estará olhando o infinito com olhos lassos. E há nos seus olhos ironia e cansaço, quase a dizer que não vai por ali. Pluct,Plact teme que ela se feche naquele mundo só visto pela fresta da janela, em que não há espaço para nada! Só cabe a lua. Que é dela...

Aí o ser, repleto de sabedoria universal, lança mão do “extraplus”, seu recurso derradeiro para trazê-la de volta. Conta que a presidente do STF, Ministra Carmem Lúcia, manteve sua louvável linha pop de citações literárias na histórica sessão. Mas, infelizmente, dessa vez errou a rima ao citar, (tirando de seu recém merecido repouso no mausoléu da Academia Brasileira de Letras), o poeta Ferreira Gullar! Isso ao proferir seu voto pela posição da maioria: a de deixar Renan na presidência do Senado...

É com esse estímulo que Pluct,Plact encerra a visita. Sai certo de que isolada, sim. Desconectada? Nunca estará quem recita poderosa a resposta do poeta à “afronta” literária.

Subversiva (de Ferreira Gullar)
A poesia
Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha
Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.
E promete incendiar o país.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Texto da série “Fábulas fabulosas” do Sem Fim...
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sábado, 29 de agosto de 2015

O próximo pode ser o seu

Ipanema 150813 004 árvore copa delirioO próximo pode ser o seu

Era a vez do dia de estender a mão. Já ouviu falar? Isso mesmo. O tempo de distribuir, aceitar e retribuir gentileza, agir com mais leveza. Não era um dia qualquer.
Você pode ter sido recrutado para exercitar seu espírito do bem. Mas lembre-se: não necessariamente combinaram o mesmo com os demais atores das cenas cotidianas vividas e observadas no entorno.
O telefone vai tocar muito cedo. Engano. Não dedique  ao descuidado que quer encomendar umas comprinhas no mercadinho palavras impublicáveis e indesejáveis para terceiros. Amigos, conhecidos ou inimigos. Interrompendo o ritual matinal, deseje um bom dia e excelentes compras, com o recebimento dos produtos bem fresquinhos, razão da ligação para o pedido “assim que o mercado abre”, explica a voz do outro lado, já querendo puxar assunto. Seja delicado, mas desligue. O dia mal começou...
Na entrada do edifício não se abale com a ausência do porteiro para abrir trancas e trincos, não contabilizados no tempo apertado para o compromisso. Pense positivo, tudo tem uma razão. Se o responsável está ausente é por desempenhar outra tarefa, mais necessária e urgente. O cara é do bem, não é de hoje. Dedique-lhe o melhor sorriso e deseje um espontâneo e sincero bom dia. Ele e todos nós merecemos.
Se na passada rápida para sacar dinheiro o sistema estiver fora do ar, releve. Tenha calma e um andar ritmado a caminho da próxima agência. Afinal são tantos estabelecimento. No seguinte pode ser que o sistema, agora no ar, possa ser acessado. Se o equipamento não estiver em manutenção.
Dirija-se gentilmente ao balcão e informe o problema. Mesmo sabendo que a atendente certamente perguntará se o problema não é do seu cartão, ou se ele está sendo usado de forma inadequada. Nada pessoal é claro.
Cumprimente a moça, trate-a com carinho. Pense em como deve ser a vida dela. Diariamente, todos os dias. Tudo bem, ela tem salário, coisa rara hoje em dia. Mas a que preço. Faça uma boa ação. Não discuta, não reclame, nem lembre que tem seus direitos. Líquidos,  certos, porém difíceis de serem garantidos no dia a dia. Até a moça reconhece  solidária, pensando nas suas próprias demandas reprimidas e incompreendidas.
Não é fácil ser informada pelo cliente da mesa ao lado que sim, o banco voltou a receber os pagamentos da operadora de telefonia no caixa. Até janeiro de 2016. A gerente não sabia... Também – console a moça – como saber de tantas idas e vindas, ainda mais com as mudanças sucessivas e o bate cabeça da economia nacional, internacional e, quiçá, planetária.
Saia do banco com um atraso insuperável para ser administrado, mas não deixe de desejar bom dia para o segurança da agência, enrolado com um cliente mais enrolado ainda com a porta-giratória, mochilas, chaves, celulares e afins. Sorria para ele também.
O dia começa quente e abafado. O trânsito engarrafado.  Mero detalhe. Dedique um olhar acolhedor para os ambulantes que povoam suas esquinas. Precisarão de boas energias para venderem e correrem do rapa. Mesmo que não pretenda comprar nada e quase tenha tropeçado nas mercadorias tentando alcançar o espaço exíguo que serpenteia entre as ofertas eles merecem um sorriso. O ritmo do dia se espreguiça. Mais leve, menos pesado.
É nas pequenas atitudes que podemos ser melhores.  Independentemente do que vem do outro lado. Quando as coisas não vão bem, nem mesmo a vida ajuda. Se o que temos pela frente não é aquilo que sonhamos, o truque é mostrar para a vida como a gente gostaria que fosse. Começando na forma delicada de tratar a vida.
Como aqui, como agora. Neste papel que, graças a Deus, aceita tudo. Incluindo o otimismo, boa vontade e pequenos gestos de gentileza.  Amanhã ou depois experimente. Faça do seu um dia de estender a mão. E... sorria!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Ponta do Leme” do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

sábado, 1 de agosto de 2015

Enluarada

Leme Lua 150730 010 Pedra do leme, Lua calçadão boaEnluarada

Texto e foto de Valéria del Cueto
Seu contorno sedutor movia-se pelo piso num tempo quase parado.
Uma aula de perspectiva geométrica das sombras que delimitavam o espaço concedido para receber sua intensa luminosidade.
Pela fresta da janela era ela. Tão bela!
Esparramando-se por seu espaço circular, ofuscando a vizinhança do céu com a claridade enquanto por aqui, de tão nua, sua luz fazia sombras nas coisas da terra.
Dava para andar no mato sem lanterna nem cachorro, com a luz que vinha dela, imaginava se deliciando a cronista em sua cela.
Que estas, as noites, tragam o ar lunar já meio sem sentido do infinito desejar...
Para ela, sempre haveria uma lua nascendo. Em sua imaginação. Acima da risada triste da pedra lascada do Morro do Urubu, invadindo sua infância por baixo e pelas frestas das muitas venezianas do nono andar do Leme.
Passou por todas nas brincadeiras com a companheira. Venezianas abrindo e fechando, diminuindo e aumentando a entrada da alegria, os triângulos laterais e a intensidade da invasão. As persianas mais cerradas ou espaçadas e também as cortinas! Umas delas, véus simples, deslizantes ou como devaneios. Outras, como as delicadas listas de voile, escorrendo pela parede, ou as rendas. Algumas de flores dançando lânguidas ao sabor da brisa.
Desde sempre aprendeu a contar o tempo para saber que a cada dia a brincadeira começava mais tarde. 51 minutos e 26 segundos para ser exata e sabuda.
Isso contribuiu para seu aluamento. Acostumou-se a mudar os horários ou acordar para dar boa noite para a “Lua, lua, ó bela lua”. Aquela que sempre fazia caretinha na sua canção de ninar favorita.
Da mesma maneira que aprendeu a caitituar os raios de sol que deveriam “entrar e se manterem firmes, sem ir e vir”, para garantir o caminho da praia, ficava de butuca esperando, olhos grudados na noite, quase soprando para as nuvens passarem.
Era de lei saudar a amiga e acompanhar seus reflexos se deslocando pela parede oposta a da veneziana. Triste era quando o tempo nublado impedia o espetáculo particular. Sempre mal acostumada, criada assim, com um tudo todo só para si.
O encontro com Pluct,plact estava marcado, sabia que ele viria para a segunda lua cheia.
Era um dos dias dela. Daqueles. Queria não ser notada, mas como? Irradiando, luzindo, brilhando e encantando. Mudanças no ar...
A cada 2,7 anos acontecem duas luas cheias no mesmo mês. A próxima só em maio de 2018. Sabia que o visitante não pretendia esperar o próximo evento lunar. Tudo para descobrir que a Lua Azul, como é chamada de azul, não tem nada...
A verdadeira Lua Azul acontece quando plumas de fuligem de uma erupção vulcânica ou de um grande incêndio ficam em suspensão na atmosfera terrestre. Aconteceu em 1883 na erupção do vulcão Krakatoa, na Indonésia, 100 anos depois no México, com o El Chichon. As nuvens de fumaça compostas de gotículas de óleo das árvores no grande incêndio de 1953, em Alberta, Canadá, criaram luas azuis da América do Norte até a Inglaterra!
Já Lua Vermelha, mais comum, acontece quando a Lua passa pela linha do horizonte e atravessa uma camada mais espessa da atmosfera. Poluição ajuda horrores!
A espera valeu a pena, o encontro com Pluct, Plact, o extraterrestre, também. Mas isso é assunto para outro dia. Que ainda virá, depois de hoje.
É quando começa. Vocês sabem... Agosto a gosto.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
E3- ILUSTRADO -SABADO 01-O8-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo


sábado, 2 de maio de 2015

Canto oculto

Arpoador 150322 032 gaivotas cruzadas mais
Canto oculto
Tem um pássaro piando. O som de seu lamento entra pela janela. Nada anormal, não fosse agora 22 horas de uma quarta-feira. Dia de futebol na TV e metade da semana que só foi até quinta. Na sexta os trabalhadores descansaram. Era o seu dia. Feriado.
E o pássaro piando no quadrado cercado de janelas de mais de 12 andares. Não dá para identificar onde ele está.  Piando.
Pau-sa-da-men-te.
Intermitentemente.
Periodicamente.
É o som da vida insistente ecoando entre cimento, pastilhas,  vidro, alumínio e poucas plantas. Espalhadas em alguns parapeitos procuram os raios solares que, dependendo da época do ano, passeiam fazendo desenhos nas paredes e diversificando a intensidade e a tonalidade da luz que ilumina os dias. Pela janela.
Assim como chamou a atenção de um, certamente, o piado irritará a outros. Considerarão um incômodo o som persistente.
Bonito, pungente e, por que dá essa impressão, doído.
“Será que não dá para fazer esse barulho parar? Está me irritando. É pior que o bebe chorando ou o cachorro latindo. Com esses a gente já se acostumou. Mas só durante o dia.”
Parte dos ocupantes adjacentes nem o notará, abafado pelos motores dos ares condicionados e filtrado pelos vidros das janelas fechadas. Elas isolam o ar fresco que teima em encanar pelo alto, vindo do céu.
O que se vê é um buraco escuro desenhado pelo recorte das quinas dos edifícios colados em desalinho.
Até agora a lua não deu o ar de sua graça cruzando o exíguo espaço. O que pode ou não acontecer, de acordo com o traçado do satélite em seu percurso anual.
Será necessário um longo tempo para acompanhar esse possível movimento lunar. Ele ampliaria os elementos cenográficos da paisagem que compõe o visual.
Um fator a ser observado e acompanhado. Na torcida para que ocorra a noite quando poderá ser mais notado do que durante o dia.
Paciência é a alma da compreensão do quadrado com piso de concreto de passagem para a garagem.
Até nesse horizonte limitado há poesia.
O piado do pássaro.
Que agora passou.
O dono cobriu sua gaiola.
Simples assim.
Parou.
Resta o silêncio. O rugido dos aparelhos de ar condicionado. O som de algumas TVs bem lá no fundo. Fazendo a noite cair na sua monótona rotina.
Como acontecerá depois do final de semana, quando retornar o dia-a-dia após mais um feriado prolongado. Um dia, um novo dia, um pio mais pios e o silêncio, bastando cobrir a gaiola. A vida seguindo em frente pelo quadrado de céu.
Gaivotas cruzam em bando espaço exíguo de fim de tarde, já cinzento. Seguem na mesma direção. Algumas voam mais baixo, outras, mais alto. Vão rumo sul. Livres, velozes e soberanas.
Abaixo, o silêncio do pássaro só é notado por quem dias antes, o escutou cantar seu lamento.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com
 E3- ILUSTRADO - SEXTA 01-05-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo 
GRAVATA 
Paciência é a alma da compreensão do quadrado com piso de concreto, passagem à garagem. No horizonte limitado há poesia.

sábado, 25 de abril de 2015

Choro, melodiada alma carioca

Choro, melodia da alma carioca
Choro, melodia da alma carioca
Texto e foto de Valéria del Cueto
A alma carioca tem tradução musical. E não é o samba. O samba é o seu coração palpitante. A alma musical carioca é o Choro. Gênero musical urbano, popular e erudito, definitivamente incorporado ao “phisique-du-role” da Cidade Maravilhosa.
No ano das comemorações de 450 de seu nascimento, o  Rio de Janeiro ganha um presente há muito esperado. Sua Casa do Choro está inaugurada com tudo o que tem direito nesse megaferiado turbinado por aqui com o  Dia de São Jorge. 23 de abril também é o Dia Nacional do Choro em homenagem ao nascimento de seu maior representante, o genial Pixinguinha. Desde 2000 o projeto vem sendo desenvolvido pelo Instituto Casa do Choro, com a criação da Escola Portátil de Música, capitaneada por nomes como Luciana Rabello e Maurício Carrilho.
O choro tem linhagem e origem. Luciana, por exemplo, é irmã do violonista Raphael Rabello, bebeu na fonte de César Farias, pai de Paulinho da viola e um dos componentes do conjunto Época de Ouro. Esse é o grupo que abre a principal parte do “tudo que tem direito” citado acima. O VI Festival Nacional do Choro ocupará hoje e domingo a Praça Tiradentes, esquina da Rua da Carioca, onde está localizado o imóvel tombado e restaurado com apoio financeiro do  BNDES e patrocínio da Petrobrás.
E vem gente de todo lugar: o estado do Rio puxa a fila com representantes cariocas, de Niterói e Cordeiro;  o Distrito Federal, os estados do Rio Grande do Sul, Alagoas, Pernambuco, São Paulo e Goiás, assim como a Holanda, se apresentarão a partir das 11 da manhã.
Pela praça passarão nomes como Hamilton de Holanda, Yamandu Costa, Henrique Cazes, Silvério Pontes, Zé da Velha, Maurício Carrilho, Trio Madeira Brasil, Quarteto Maogani, Zé Paulo Becker e outros. Todos seduzidos pelo estilo que surgiu em meados do século XIX, no Rio de Janeiro, capital do Império, uma forma  “chorosa” de interpretar as músicas na moda na Europa  como a valsa, o minueto e a polca. Influenciada pela languidez portuguesa e uma pegada africana.
A base inicial era um trio pau-e-corda: a flauta (de ébano, na época) que solava, o violão acompanhando como um contrabaixo e o cavaquinho também no acompanhamento, mais harmônico, com acordes e variações. O gênero que nascia interpretava popularmente o que chegava aos bailes e salões da alta sociedade. Os pequenos grupos ganharam espaço nos subúrbios e na área da Cidade Nova.
A música, com seu toque de improvisação, exige destreza, expertise de seus executores e rapidamente atraiu músicos de excelência. Joaquim Antônio da Silva Callado, autor da polca “Flor Amorosa”, pérola dos chorões, professor de flauta do Conservatório de Musica do Rio de janeiro, tinha entre os membros de seu grupo, a pianista Chiquinha Gonzaga, autora do cateretê “Corta-Jaca”, peça musical de uma de suas operetas.
E ninguém resistiu ao choro. Ernesto Nazareh o elevou e transformou em música erudita. Villa Lobos bebeu da fonte e compôs “Os Choros”, peça importante de seu repertório. De Anacleto de Medeiros fundador, entre outras, das Bandas Musicais do Corpo de Bombeiros e da Fábrica de Tecidos Bangu, que introduziu peças de choros em seus repertórios no início do século XX, aos arranjos orquestrados para big bands, como os da Orquestra de Severino Araújo, maestro pernambucano autor de “Espinha de Bacalhau” e “Um Chorinho em Aldeia”, que  bem representam sucessos da união do choro com o jazz, nosso gênero se consolida e evolui.
Com a Casa do Choro o Rio ganha um ponto de referência para consolidar com a preservação de seu acervo e expandir, por meio de educação e divulgação, a mais pura expressão da alma carioca. A musical...
* http://wp.me/p2Eomp-O1 é um playlist do que falamos acima e muitos exemplos deliciosos
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM... delcueto.wordpress.com
 E3- ILUSTRADO - SABADO 25- 04-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo 
GRAVATA 
Em meados do século XIX na capital do Império, surgiu uma forma  “chorosa” de interpretar as músicas da moda na Europa

sábado, 4 de outubro de 2014

A encruzilhada


Texto e foto de Valéria del Cueto
Conta uma velha lenda que um músico em busca das notas perfeitas andando pelo Mississipi, nos EUA, chegou a uma  encruzilhada.
E ali, na intercessão da rota 61 com a 49, em Clarksdale, fez um pacto com o diabo.
Este pegou o violão, afinou num tom mais baixo e o devolveu ao bluesman. Seu nome é Robert Johnson.
Ele nasceu no início do século XX, não se sabe bem o ano. Morreu dia 16 de agosto de 1938 e no seu atestado de óbito não há causa mortis. Apenas o termo: NO DOCTORS.
Jonhson era lavrador até os 16 anos quando caiu na estrada.
Dizem que aos 20  descobriu que deslizando pelas cordas o gargalo de uma garrafa quebrada, fazia “sua guitarra chorar”.
Tinha o costume de tocar de costas para a plateia. Segundo alguns para que não vissem seu olhar “diabólico”. Outros diziam que era para que não conseguissem ver as notas que inventava. 
Durante sua vida, Johnson fez dois registros de sua obra. Um em 1936 e outro em 1937. O primeiro em San Antônio, o segundo em Dallas, no Texas. Foram 29 músicas em 40 gravações. 13 repetidas.
Assim, ele entrou para a história do blues, da guitarra e da música.
É um dos maiores representantes do Mississipi Delta Blues e referência no formato de 12 compassos que caracterizam o  estilo musical o colocou em 5º lugar na lista da Rolling Stone dos melhores guitarristas de todos os tempos.
Lista que, diga-se de passagem, também contempla a arte e o talento de Helena Meireles, nossa grande violeira.
As notas de Robert Johnson embalam a criação desta crônica, por que a encruzilhada não sai da cabeça de quem a redige, marcada pelo compasso pesado e ritmado do músico sensacional.
A eleição é uma encruzilhada coletiva, em que cada um pode escolher com quem quer compactuar e o tipo de sacrifício que está disposto a fazer, dependendo de onde se quer chegar.
Sempre haverá um “diabo” cobrando – caro - o preço de nossas escolhas.
Não há como fugir do confronto, nem do pacto que regerá a vida de uma nação (a nossa!) nos próximos 4 anos. Por uma questão de ambição ou, simplesmente, porque o voto é obrigatório.
Mas há como interferir no resultado coletivo. Esse é o grande papel que involuntariamente nos cabe agora.
O Brasil é nosso blues... Mas o recado final vem mesmo em forma de samba, uma de nossas mais profundas raízes populares.
“Façam por ele, como se fosse por mim”... pediria Ismael Silva, em  “Antonico”, para ajudar o nosso Nestor. Cabe a nós começar a viração!
E, para isso, temos que fazer um pacto com nosso país na encruzilhada das urnas.
Vote bem, vote em quem realmente possa cumprir seu papel e dar o tom e o ritmo certo na grande obra que será executada nos próximos anos na vida de todos os brasileiros. Às urnas!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
GRAVATA 
Não há como fugir do confronto, nem do pacto que regerá a vida da nação nos próximos 4 anos. Por uma questão de ambição ou porque o voto é obrigatório


domingo, 28 de setembro de 2014

Ó raios, enfim, a salvação

CopaLeme 140923 008 Praia posto 6 ilhas e luz
Texto e foto de Valéria del Cueto
Nem ele, o extraterrestre, aguentava mais. Não tinha tanta resistência quanto os humanos. “Não era casca grossa”, lhe dissera a cronista enclausurada, dando risada de si mesmo e considerando a hipotética possibilidade de que ela também não o fosse. Caso contrário, que raios estaria fazendo ali, do outro lado do túnel, pela terceira semana seguida?
Pelo sim, pelo não, sugeriu a Pluct Plact que tentasse se reequilibrar dando um tempo numa praia, que não necessariamente precisava ser a dela, a Ponta do Leme.
Não resistiu a Copacabana, hipnotizado - como todos os turistas do mundo, pelo zig-zag das ondas de pedras portuguesas, da famosa calçada da orla carioca.
Até tentou chegar ao Arpoador, mas notou que o sol teria baixado antes que ele conseguisse transpor com mais um micro-pulo, a ponta do Forte de Copacabana e a praia do Diabo. Ainda não era verão.
Preferiu ficar por ali e olhar o mar, sentir o ar batendo em sua pele de alienígena pouco cascudo (como já sabia) e pensar...
Pensar no que estava acontecendo na floresta, de onde a anta vestiu o tênis e resolveu ir pagar mico diante dos representantes de toda a fauna mundial, na Assembleia Geral.
Ali deixou claro após um blablablá eleitoreiro capiau que não assinaria o tratado climático proposto. Afinal, depois de termos até ter tido um Embaixador Extraordinário de Mudanças Climáticas - chamado Serra, que não era o José, mas o Sérgio (nos tempos do crustáceo), agora, não havia mais intermediários. Ela queria dialogar com todos os elementos da flora, fauna e também os minerais.
A anta andava com a corda toda! Definiu, imaginem, que o papel dos jornalistas não é investigar. Também querendo piar no quintal, quer dizer, fechar o bico  da profissão alheia!
Justamente quando vazou os nomes de umas espécies  coleguinhas e parceiras na delação premiada de um dos lava-jatos recolhidos ao xilindró. Para ficar mais tranquilo, o dono dos dólares também está disposto a abrir o bico e cantar outras novidades sobre quem-levou-quanto-de-onde-para-onde, como e porquê. Considerando que só se ganha o benefício do dedurismo se as informações forem deveras interessantes e definitivamente comprovadas, calcule (por baixo, por favor) o que vem por aí a jato em plena falta d’água...
Tudo isso coisa velha, que pode ser ainda mais apimentada nas edições de final de semana das revistas nacionais. Ora, veja, que época para exame... Mas o que tirou nosso ET do sério não foi nada disso que, afinal de contas, não é a sua praia espacial.
Triste e desolado ficou quando a dita anta disse que irá nos próximos dois anos “preparar uma geração olímpica”. Sem que quase ninguém se revoltasse ou pedisse o segredo guardado no coração mais profundo da floresta que permitirá conseguir a proeza que todas as nações do mundo querem descobrir: como fazer em duas temporadas esportivas (começando das categorias de base, nas escolas), o que não foi feito nos  "troçantaslulas" anos, desde que fomos escolhidos sede olímpica. Período onde poucos esportes fizeram algo por uns quantos atletas, enquanto a maioria ficou na transposição da vala do esquecimento e do abandono.
Foi aí que viu os sinais: raios na areia! Poderia usá-los para tentar mais uma vez sua impulsão sideral. Não partiu. No seu exílio terreno, viu coisas que até Deus duvida! Mas aprendeu a nunca deixar um parceiro para trás. Não seria ele que abandonaria a cronista enluada no escuro. Quem sabe numa próxima oportunidade...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM... delcueto.wordpress.com
GRAVATA 
A anta anda com a corda toda! Definiu que papel de jornalistas não é investigar. Tá piando no quintal, quer dizer, fechando o bico da profissão alheia