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segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

No princípio (também) era a roda

No princípio (também) era a roda

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Um réveillon sem o espocar das rolhas de champagne e espumantes na virada do ano em Copacabana. O som só será ouvido se levarem gravações do pipocar característico das comemorações da entrada do ano junto a Rainha do Mar, Iemanjá. Vidros estão proibidos e confiscados nas barreiras de acesso a praia.

Comecei pelo final e volto ao início.

Nele, as famílias e amigos dos moradores de Copacabana iam até a orla observar a celebração dos terreiros que, em rodas espalhadas pela areia, faziam seus rituais para homenagear Iemanjá e outros orixás na virada do ano.

De branco, com suas vestes características, dançavam ao som de atabaques e berimbaus iluminados pelas velas cercadas de oferendas depois lançadas ao mar junto com muitas flores. A energia do axé podia ser sentida e partilhada por iniciados e curiosos que passeavam entre as rodas recebendo bençãos generosas.



Aí, surgiu a cascata de fogos do Hotel Méridien que escorria pelo prédio. Depois os fogos na areia. (Terá sido em ordem inversa?). A passagem de ano em Copacabana virou atração turística...

Os primeiros expulsos foram os que criaram a fresta com seus deuses. A multidão crescia ano a ano e passou a ter donos. Áreas começaram a serem delimitadas. Dos shows, seus palcos, backstages, áreas vips; dos quiosques, cercadinhos...

Um acidente com os fogos na areia provocou o deslocamento dos efeitos especiais para o mar com o uso de balsas para seu lançamento no cenário cinematográfico da Princesinha do Mar. A competição com outros pontos turísticos do globo se acirrou: maior público, poder pirotécnico...

E, claro, o espírito inicial da festa religiosa a beira mar se perdeu, engolido pela multidão e pela fome de lucro. Com o tempo os moradores do bairro ficaram reféns da organização do maior réveillon carioca. Trânsito interrompido, metro superlotado, insegurança e sujeira, apesar dos esforços sobre-humanos dos garis, heróis urbanos invisíveis.

Durante anos deu para driblar esse “avanço civilizatório”. O Leme sempre foi o paraíso que incluía uma imagem única do Caminho dos Pescadores onde eles, os próprios, se reuniam no final e faziam uma comemoração especial para saudar o novo ano. De lá o registro de Copacabana a meia noite é especial. Não vou contar o porquê. Se quiser conferir procure nos àlbuns dos réveillons que passei por lá.

Foi nesse período que dividi a meia noite em duas etapas, nos tempos do horário de verão. Nos fogos fotografava e gravava, no horário do fuso de Cuiabá brindava, fazia meus pedidos e comia as uvas verdes, uma para cada mês do ano vindouro.

Um dia, quando fui em direção ao Caminho do Pescadores um tempinho antes da meia noite para pegar um bom lugar na mureta, uma multidão atrapalhou os planos. O quiosque no canto da Pedra havia sido turbinado. O resto não preciso explicar. Nem só o mar dos surfistas fica crowded.

Saí do Leme que não saiu de mim, mas ficou muito longe para ser alcançado na movimentada noite da virada. Cruzar a praia da ponta do Forte Copacabana até o Leme ficou impossível. Ainda mais na volta, sem transporte. Todos os anos quando vejo as luzes da minha ponta, de onde estiver em Copacabana ou fora dela, fecho os olhos e me transporto para as areias de onde sou cria comemorando o privilégio dos maravilhosos réveillons que lá passei.

Esse ano vai ser diferente. Não sentirei a distância. Nada, eu disse, nada me faria almejar a programação gospel do palco do Leme, que, em anos anteriores, foi o palco do samba! O prefeito Eduardo Paes fica devendo essa escolha equivocada aos moradores do Leme. É só mais uma de muitas. Só não vê quem não tem memória.

Vamos ver como reage Iemanjá a ausência do axé do espocar das champagnes em sua homenagem na hora da virada. Pode ser que nem note no alarido da multidão de milhões de pessoas. Pode ser...

PS: “No princípio era a roda – um estudo sobre o samba, partido alto e outros pagodes” é o título do livro essencial sobre o assunto de Roberto Moura.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Ponta do Leme” do SEM FIM ... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Quando poetas se encontram

Papo de Boteco, o blog,  também é colunismo cultural:
Registramos a passagem pelo Rio de Janeiro do editor Lorenzo Falcão, do DC Ilustrado, caderno de cultura do jornal Diário de Cuiabá onde, como colaboradora, publico crônicas, fotos e outras coisinhas do SEM FIM...

O que não faltou em sua ronda carioca foi motivação. E boa conversa. Em Copacabana ele papeou com Carlos Drummond de Andrade, por exemplo.



Na jogação de conversa fora, Drummond reconheceu o santo trabalho que é divulgar poesia e cultura por estes rincões brasileiros. Olha aí Lorenzo com sua "auréola" de roda gigante.


A Ponta do Leme também fez parte do roteiro de Loro que, nascido em Niterói e praieiro toda vida, soube interpretar perfeitamente o aviso:


Nada que impedisse que ele fiscalizasse detalhadamente minhas rotineiras condições de trabalho.


No final da tarde visitamos, no Caminho dos Pescadores, o local onde se reúne a turma do POLEM (Poesia no Leme), aos domingos. Pena que passamos por lá durante a semana. Loro teve, pelo menos, a chance de usufruir os ares que inspiram nossos poetas.


Bom, pra finalizar, desejo a Lorenzo um bom retorno para Cuiabá e muito fôlego para aguentar (cadê o trema, meu Deus!) a mim e a todos os outros jornalistas e escritores que passeiam pelas páginas do DC Ilustrado com suas histórias e fantasias.
Vida longa e sucesso para o DC Ilustrado e seu editor poeta é o que desejamos nós, do Papo de Boteco. Os leitores merecem!