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quinta-feira, 18 de julho de 2024

O acalanto do desencanto

O acalanto do desencanto

Texto e foto de Valéria del Cueto

Se a fila anda, por que não quebrar a rotina e mudar o local da escrevinhação no caderninho? Vou jogar a responsabilidade pela alteração nesse tempo instável que parece o inverno.

Por aqui estamos todos meio perdidos. O frio veio forte, mas partiu rapidinho, já dá lugar ao tempo ameno e o anúncio de outro veranico. Tipo Cuiabá, onde o inverno passa num sopro e nunca dura mais de 3 dias.

Situação:  habemos sol entre as árvores (afinal, pelo menos ele se mantém firme e forte em sua trajetória e, nessa época do ano, está passando coladinho as montanhas que compõem o horizonte). Também temos uma temperatura agradável que sugere toalhas e travesseiros na janela para espantar a friaca e arejar a vida. O que me resta? Seguir o exemplo.

Me preparei para aproveitar a tarde ao ar livre. Um (ou uns) fator(es) altera(m) o objetivo inicial. Biquini (olha que ousadia) canga, caderninho, caneta, boné, água mineral (da casa), celular pra fazer a foto da crônica, óculos escuros, filtro solar no rosto e... Pra variar, mudei o rumo. Em vez de sair porta a fora subi as escadas e me aboletei no janelão do mezanino.

Daqui vejo o meio do mundo da Mata Atlântica sentada numa das cadeiras de ferro da mesa da varanda banhada pelo sol. O conjunto faz parte da mobília que me acompanha desde que nasci. Ficava na varanda comprida do apartamento em que morei quase uma vida no Leme. Só saiu de lá quando o imóvel foi vendido.

Sempre que tenho uma casa é colocado num lugar especial. Ainda no Leme foi pra varanda que virou floresta no pé da ladeira. Depois, foi cedido pra Araras e resgatado quando vim pro meio do mundo.

Não pergunte como, sempre coube direitinho entre os braços de ferro da melhor cadeira que conheço pra ficar horas lendo sem parar. Consigo me aboletar desde criança em várias posições diferentes. Jogando, por exemplo, as pernas por cima de um dos braços pra aliviar a coluna do tempão “concentrada”.  

Tudo lindo, mas preciso ressaltar meu próprio espanto ao constatar que nunca escrevinhei por aqui. Gosto de esticar as palavras ao ar livre quando deixam.

Fiquei semanas emudecida, me recusando a registrar os últimos acontecimentos. Pelo menos duas perdas me afastaram do intuito de manter a regularidade das crônicas. Tem coisas que, na minha cabeça, só se concretizam quando coloco no papel. Como não queria que essas fossem verdade, calei a escrita enquanto pude e um pouco mais...

Falo primeiramente da partida silenciosa do meu guru mangueirense Aluízio Derizans, o amigo que abriu as portas da verde e rosa pro acervo carnevalerio.com, que só descobri no dia do seu aniversário e a quem não poderia deixar de registrar @no_rumo do Sem fim meu agradecimento eternizado nas incríveis imagens que que registrei nos anos que por lá passei.

Ainda estava depurando a perda quando o advogado e colega cronista Renato Gomes Nery foi tocaiado em Cuiabá. Fui sua assessora na presidência OAB-MT e nossa amizade sempre me fez recorrer a ele nos poucos “causos” legais que enfrentei. Assim como a sociedade mato-grossense, aguardo esclarecimentos sobre esse filme violento que já vimos tantas vezes em Mato Grosso.

Precisei alterar a paisagem para conseguir destravar minha escrita cheia de indignação e revolta. Não o fiz por livre e espontânea vontade. O que me levou ao movimento que libertará meu peito, esse poço até aqui de mágoa, destilando no caderninho minhas dores foram... os mosquitos.

Sempre eles que, como eu, não reconhecem as estações do ano e, vorazes, me empurraram para a proteção e o acalanto da mobília varanda da vovó que desrepresou meu desencanto. Lá fora o sol brilha, mas a nuvem do desequilíbrio ambiental não dá folga.

Os efeitos de suas picadas duram menos, mas são tão doídos como choro que aperta meu peito e brota nas lágrimas de despedida aos amigos tão queridos e insubstituíveis que encerram essa crônica.  

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM ... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

segunda-feira, 5 de junho de 2023

De onde sou cria


De onde sou cria

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Vim pelo caminho escrevendo o texto em pensamento enquanto observava os desenhos dos raios de sol de outono entre as árvores enormes do caminho pra Ponta do Arpoador. Queria ver o nascer da lua cheia de junho da Praia do Diabo, à direita do continente, para os lados do litoral norte. O plano estava feito. Como sempre, para variar, algo mudou o rumo da escrita.

Acontece que estou impregnada do meu amor primeiro, apesar de traído várias vezes, o Leme. É a ele que o olhar se volta assim que chego perto da guarita da pedra, na divisa do Forte de Copacabana. Uma mureta e um aramado impedem a passagem guardada por um soldado vigilante. Pergunto se sabe onde nascerá a lua. Diz que não com cara de quem não entende muito de coisas de lua. Natural, espacial nem exotérica. Aviso que é muito sortudo apesar do friozinho. Do ponto em que está de sentinela verá um lindo anoitecer.

A lua subirá cedo, às 17:42. Enquanto escrevo ergo o olhar e observo o céu azul sem nuvens. Só com a barra de poluição sendo colorizada em tons rosados no lusco-fusco. Observo a quantidade de pinguins, os turistas, que esperam o sol cair para aplaudi-lo em Ipanema. Que contraluz. Tudo lindo!

Acho que expandi a sensibilidade visual ontem no Leme.  Fazia tempo que não ia ao meu paraíso perdido. Achava que seria uma passagem rápida só pra acarinhar, como sempre, a Pedra do Leme do Caminho dos Pescadores. O tempo andou manhoso, birrento, cheio de crises de choro. O mar pesadão sempre em tons de chumbo refletindo o céu cinzento e nublado que trazia as chuvaradas. Não esperava nada do passeio, só que...

Quando cheguei na subida do Caminho dos Pescadores, já na estátua de Clarice Lispector e seu cachorro sentada na mureta, vi que o passeio ia dar liga. A primeira imagem pulou da câmera quando um outro cão se chegou na poetisa enquanto seu dono estava sentado ao lado. O fundo era aquele visual de Copacabana inteira. Cortei o dono (que me perdoe) e esperei um tempo até o Totó olhar para os mistérios de Clarice.

Continuei para o Caminho em busca do ponto em que entre pichações, grafites variados e, hoje, uma bike camuflada. Me agarro nela, a pedra, para saudá-la. Imagine a cena, caro eleitor. De costas à beleza estonteante, mãos e corpo grudados ao monólito como uma lagartixa, conversando com os meus e os visitantes passando de um lado pro outro. O ritual não é demorado. É o tempo uma saudação, um Pai Nosso, aquecer a alma e deixá-la ser embalada pelo som das ondas e marolas do vai-e-vem do mar no costão do Leme. Estou em casa.

Camufladas. Ela, que não é minha, e eu.


Depois de impregnada da força da pedra é só fazer um giro de 180 graus e abrir, aí sim, a visão para a força estonteante do cenário que se descortina de lá. Imagino caravelas em tempos antigos acompanhando o deslizar de um veleiro.

Pode ser que essa beleza não provoque nenhum efeito em outras pessoas. Em mim é um sopro de vida, numa ressuscitação boca-a-boca. Audição e visão expandidas à grandiosidade da paisagem. Minha reação é baixar os olhos para o local que produz o som inconstante que hipnotiza e, achava, estaria turvo, agitado. Aí, vem o que fez mudar o rumo do registro aqui no caderninho. O primeiro ponto é a cor da água. O segundo, sua limpidez azul esverdeada. Está bom? No sobe e desce da maré da lua cheia (olha ela) deu para sentir a sedução?

Enquanto me entregava ao ritmo calmo do mar, vi a dupla passeando. Duas tartarugas brincavam no play aquático natural do costão entre cardumes. O tempo parou para nadar com eles e eu engatei nas imagens. Ô sina. Sabe aquele compromisso? Perdi a hora.

E agora, para finalizar porque o espaço está acabando, vou ali correndo! Se escrever mais as “tugas” (estou íntima) também me fazem perder a lua cheia do mês de junho que está nascendo. Onde? Para o lado de onde sou cria. Do Leme... #saiodoLememasoLemenaosaidemim

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Texto  das séries “Arpoador e Ponta do Leme” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Tartarugas no Caminho

Tartarugas no Caminho

Texto, vídeos e fotos de Valéria del Cueto

Não sou a única que respira melhor na Ponta. Outro dia tartarugas escolheram, como eu, a Pedra do Leme para relaxar. As águas claras e transparentes serviram de cenário para o bailado das meninas. Cheguei lá pelas duas da tarde e acabei perdendo a hora na marola do sábado.

Não era uma, nem duas. Filmei três e vi outra fora de quadro. Para poder gravar e fotografar tive que me integrar ao ambiente. Havia chegado no final do Leme em busca do melhor lugar que conheço para refletir (sem desmerecer outros sensacionais). O que diferencia, para mim, a Ponta do Leme das outras pontas, como a do Arpoador, é a minha pedra, o monólito vigilante da Praia de Copacabana.

Em vários momentos, abraçar a Pedra do Leme foi a maneira que encontrei de me conectar a natureza e, dela, tirar forças e ensinamentos transmitidos por sinais que me situam nesse universo. É ali, sentindo seu calor que recebo forças vitais pelo ar, a água, a terra e o calor do sol. Tudo interligado com o bloco mineral que se projeta na paisagem.

Não é só lá que dialogo com a natureza. É isso mesmo, eu me aproximo com minhas dúvidas, incertezas e imprecisões e ela me responde em sua essência. Tipo os sinais de fumaça dos índios, vistos a muita distância, contanto que o tempo colabore. Há que estar em sintonia.

Já tinha esse sistema de mensagens inserido no inconsciente. Me lembro, muito garota, de num momento crucial ter ido para a Praia de Copacabana, no posto 6. Era um dia muito feio, mas estava precisando dialogar comigo mesma. Vestia um suéter verde musgo do meu pai. Caso a chuva anunciada despencasse, certamente ele seria não só inútil como, também, viraria um pano de chão, daqueles que absorvem a água e a gente torce no balde.

Pois foi só chegar num banco, perto do que hoje mora Carlos Drummond de Andrade, para que algo acontecesse nos céus. Por incrível que pareça, chovia pra todos os lados, menos no caminho até o Forte Copacabana. Nunca entendi o fenômeno, mas não demorei muito a captar a mensagem. 

Mesmo que o entorno sofresse muitos abalos, o meu equilíbrio se manteria intacto. Sacudido, claro, mas ele suportaria o tranco.

Foi no Pantanal, entre Cáceres e Corumbá, na viagem da Expedição do Sem fim... do Paraguai, que aprendi com o Chicão, um dos piloteiros, a observar outros sinais. Ele me mostrou as estrelinhas sorrindo no imenso céu pantaneiro. A instrução se complementou na Ilha do Brandão, em Angra do Reis. Lá, Dona Maria me explicou como o ronco de setembro podia definir as ressacas de fevereiro. Se a natureza manda recados, por que não usá-los e lê-los, como mensagens mais diretas?

É claro que não vale a gente pensar só na gente. Funciona melhor quando estamos firmando em energias coletivas. Mas, vez em quando, acredito num recado personalizado. Ultimamente ando lendo as nuvens que se formam para as bandas dos Dois Irmãos, ao lado do Vidigal, depois da curva do Leblon, vista de Ipanema.

Foi com esse espírito que dobrei a curva no início da orla de Copacabana, subindo a rampa para alcançar a estátua de Clarice Lispector na linha dos quiosques, contornando a Pedra do Leme. E, ali, parei diante de uma alteração na paisagem...


Pasmem, agora a Comlurb, a do prefeito Marcelo Crivella, está usando o espaço na areia colado no acesso ao Caminho dos Pescadores como “parque” dos maquinários que usa na limpeza da praia. Os equipamentos, além de poluirem o visual, agridem o meio ambiente. São motorizados. Qualquer vazamento cai direto na areia da praia! A Comlurb e uma penca de secretarias municipais devem explicações e, também, tomar providências urgentes para acabar com essa agressão a um dos mais lindos cartões postais do Rio de Janeiro!

Tudo isso para alcançar o paraíso e, nele, encontrar as tartarugas, cardumes de peixinhos e outros exemplares da vida marinha ali, ao alcance de nossos sentidos.

E chego lá, na mensagem prometida. Ela indica que assim como as tartarugas centenárias... nós ficaremos, eles passarão! Qual as lebres de Esopo e La Fontaine nas suas fábulas, podem até te largado na frente, mas estão indo com muita sede ao pote...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com


Studio na Colab55

domingo, 7 de maio de 2017

Flamengo, Campeão Carioca de 2017

Mangueira e Flamengo, dois ícones cariocas num cenário de cartão postal da Cidade Maravilhosa para comemorar o título rubro-negro de Campeão Carioca de 2017
Copacabana, no meio da semana entre o dois jogos, Fla XFlu, da final do Campeonato Carioca de 2017.

Em pleno outono o sol cai rápido por trás dos prédios na orla o que destaca ainda mais a paisagem do Leme, os morros do Leme e o Pão de Açúcar,  Niterói ao fundo depois da entrada da baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. 

O registro de Valéria del Cueto foi feito na Avenida Atlântica, no posto 6, lado oposto da praia de Copacabana.

Conheça outros trabalhos fotográficos na coleção Sem Fim... de Valéria del Cueto no Getty Images. 

Explore o  Studio @delcueto e acesse os produtos inspirados e gerados a partir das fotos produzidas.
Studio na Colab55

sábado, 1 de agosto de 2015

Enluarada

Leme Lua 150730 010 Pedra do leme, Lua calçadão boaEnluarada

Texto e foto de Valéria del Cueto
Seu contorno sedutor movia-se pelo piso num tempo quase parado.
Uma aula de perspectiva geométrica das sombras que delimitavam o espaço concedido para receber sua intensa luminosidade.
Pela fresta da janela era ela. Tão bela!
Esparramando-se por seu espaço circular, ofuscando a vizinhança do céu com a claridade enquanto por aqui, de tão nua, sua luz fazia sombras nas coisas da terra.
Dava para andar no mato sem lanterna nem cachorro, com a luz que vinha dela, imaginava se deliciando a cronista em sua cela.
Que estas, as noites, tragam o ar lunar já meio sem sentido do infinito desejar...
Para ela, sempre haveria uma lua nascendo. Em sua imaginação. Acima da risada triste da pedra lascada do Morro do Urubu, invadindo sua infância por baixo e pelas frestas das muitas venezianas do nono andar do Leme.
Passou por todas nas brincadeiras com a companheira. Venezianas abrindo e fechando, diminuindo e aumentando a entrada da alegria, os triângulos laterais e a intensidade da invasão. As persianas mais cerradas ou espaçadas e também as cortinas! Umas delas, véus simples, deslizantes ou como devaneios. Outras, como as delicadas listas de voile, escorrendo pela parede, ou as rendas. Algumas de flores dançando lânguidas ao sabor da brisa.
Desde sempre aprendeu a contar o tempo para saber que a cada dia a brincadeira começava mais tarde. 51 minutos e 26 segundos para ser exata e sabuda.
Isso contribuiu para seu aluamento. Acostumou-se a mudar os horários ou acordar para dar boa noite para a “Lua, lua, ó bela lua”. Aquela que sempre fazia caretinha na sua canção de ninar favorita.
Da mesma maneira que aprendeu a caitituar os raios de sol que deveriam “entrar e se manterem firmes, sem ir e vir”, para garantir o caminho da praia, ficava de butuca esperando, olhos grudados na noite, quase soprando para as nuvens passarem.
Era de lei saudar a amiga e acompanhar seus reflexos se deslocando pela parede oposta a da veneziana. Triste era quando o tempo nublado impedia o espetáculo particular. Sempre mal acostumada, criada assim, com um tudo todo só para si.
O encontro com Pluct,plact estava marcado, sabia que ele viria para a segunda lua cheia.
Era um dos dias dela. Daqueles. Queria não ser notada, mas como? Irradiando, luzindo, brilhando e encantando. Mudanças no ar...
A cada 2,7 anos acontecem duas luas cheias no mesmo mês. A próxima só em maio de 2018. Sabia que o visitante não pretendia esperar o próximo evento lunar. Tudo para descobrir que a Lua Azul, como é chamada de azul, não tem nada...
A verdadeira Lua Azul acontece quando plumas de fuligem de uma erupção vulcânica ou de um grande incêndio ficam em suspensão na atmosfera terrestre. Aconteceu em 1883 na erupção do vulcão Krakatoa, na Indonésia, 100 anos depois no México, com o El Chichon. As nuvens de fumaça compostas de gotículas de óleo das árvores no grande incêndio de 1953, em Alberta, Canadá, criaram luas azuis da América do Norte até a Inglaterra!
Já Lua Vermelha, mais comum, acontece quando a Lua passa pela linha do horizonte e atravessa uma camada mais espessa da atmosfera. Poluição ajuda horrores!
A espera valeu a pena, o encontro com Pluct, Plact, o extraterrestre, também. Mas isso é assunto para outro dia. Que ainda virá, depois de hoje.
É quando começa. Vocês sabem... Agosto a gosto.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
E3- ILUSTRADO -SABADO 01-O8-2015
Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo


domingo, 3 de agosto de 2014

Mistura fina, de Valéria del Cueto

LemeChap 140727 018 Bar do Davi feijoada de frutos do mar Chapéu Mangueira
Texto e foto de Valéria del Cueto
Nesse tempinho gelado acabamos o jornalista Cacá de Souza e eu, subindo o morro até a entrada do Chapéu Mangueira, aqui no Leme, para uma farra pantagruélica no Bar do David.
Entre shots de cachaça e camarões empanados com catupiry, alcançamos o nirvana caindo de boca num dos pratos mais famosos do bar do filho do Lúcio, morador querido e tradicional da comunidade: a Feijoada de Frutos do Mar.
Cacá, íntimo de David e de todas as atendentes, não deixa de bater ponto no pedaço todas as vezes que vem ao Rio e é mais bem chegado do que eu, que apresentei o point para ele.
Como “autoridade”, foi ele que me fez experimentar a iguaria feita com feijão branco, peixe, mexilhões, camarões, lulas e etc, acompanhada de arroz branco e uma farofinha de alho dos deuses.
Um mix equilibrado de sabores e texturas, daqueles que a gente tem vontade de degustar ajoelhado. Tudo na medida certa, sem que um único tempero se sobreponha aos diferentes tipos de ingredientes do prato, talvez o mais famoso do lugar.
É muito difícil alcançar esse equilíbrio, por exemplo, com tantos pontos diferentes de cozimento ideal. As lulas são mais sensíveis e se passam do ponto podem ficar emborrachadas, os mexilhões nem se fala. Já o peixe precisa de um tempinho maior, para adquirir a textura ideal.
Confesso que como não sou especialista em cozinha, a não ser como consumidora, nem tentei arrancar de Andréia, a garçonete maravilhosa que ainda indica o que está mais caprichado no cardápio do dia, e do sempre simpático e receptivo David, os segredos da Feijoada de Frutos do Mar. Mas, como provadora gastronômica, sou capaz de avaliar o grau de complexidade, apuro e equilíbrio do acepipe servido.
É por isso que posso imaginar a ciência para preparar um prato como a Feijoada de Frutos do Mar, assim como alcanço a complexidade de outras misturas, alimentares ou não, principalmente as com ingredientes díspares e contrastantes.
Cada um tem sua personalidade, sua consistência e características (cor, cheiro e sabor) próprias e precisam ser acomodados e mesclados de forma a valorizar suas qualidades para comporem um novo elemento único e particular.
Um pouco demais, um pouco de menos, o erro no tempo de preparo, no cozimento e na apresentação podem simplesmente “entornar o caldo” transformando uma preciosidade num angu de quinta. Isso vale para outras situações: equipes de trabalho, grupos de amigos e... política.
Compor o quebra-cabeças das chapas que concorrem as eleições 2014 e saber como dosar os ingredientes, qual a ordem correta de juntá-los no caldeirão eleitoral e o tempo ideal de exposição de cada um, é essencial no processo.
E é aí que a porca torce o rabo sem que ele possa ser agregado ao mexidão que teremos em 2014. Até o momento não está dando para definir os diversos sabores e depurar as escolhas, simplesmente por que há de um tudo em todos os agrupamentos que se apresentam.
O resultado são opções insossas e mal finalizadas, com acompanhamentos que tentam aparecer mais que o prato principal, resultando numa gororoba indigesta e mal apresentada para o eleitorado.
Tem gente precisando de umas aulas com o David para aprender que a simplicidade é o principal do cozido...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
GRAVATA     
Compor o quebra-cabeças das eleições, dosar os ingredientes, a ordem de juntá-los no caldeirão eleitoral e o tempo exposição é essencial no processo.
ILUSTRADO TER A A S BADO     NOVEMBRO  2009

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Como dois e dois

Rio 140716 004 Ponta do leme surfista onda deitado
Como dois e dois
Texto e foto de Valéria del Cueto
Virou moda e está infestando as redes sociais os cinco. Antes, tudo eram dez. Mas de uns dias pra cá acho que passaram a pensar que dez era muito! Então, agora, fashion são os cinco. Explico: “cinco piscinas naturais mais belas do mundo”, “cinco conselhos para quem vai andar de ônibus”, “cinco dicas para viver melhor”, “cinco tipos de maquiagem que você tem que conhecer” e por aí vai...
Sempre fui adepta das sete: minha primeira lei de vida sempre foi “sete ondas fracas e sete ondas fortes para entrar e sobreviver no mar”. É isso mesmo. Desde criancinha que aprendi a esperar a hora certa (as sete ondas fracas) de ultrapassar a arrebentação e outras sete (dependendo da altura das ondas) para me atirar lá de cima, em direção à praia como se não houvesse amanhã. Digo dependendo porque se o mar está muito grande confesso, do alto dos meus cinquenta e poucos anos de experiência, que prefiro uma marola veloz que um paredão inexpugnável e, quem sabe, assassino.
E por viver pintado o sete, seguindo as fases da lua que mudam aproximadamente a cada sete dias e tentando ver as sete cores do arco-íris, é que reparei na onda dos cinco que assola as redes sociais e, portanto, o cotidiano de grande parte da população hoje ligada e linkada ao mundo virtual.
Como já disse antes tudo eram dez: “dez lugares que você tem que conhecer antes de morrer”, “dez conselhos para uma vida saudável”, “dez alimentos que não podemos deixar de consumir”, “as dez cidade mais poluídas do planeta” e por aí ia...
E eis que, acho eu, a velocidade do mundo encurtou o número de opções disponibilizadas a cada postagem, especialmente as de 144 toques do Twitter. Criaram até um site amplamente divulgado por ali que apresenta sempre as tais cinco opções de tudo! Dez é muito, três é pouco, cinco está de bom tamanho, estabeleceu a onda de postagens no meu timeline.
A impressão que fica é que uma única opção nunca vai satisfazer a todo mundo e acabará gerando polêmica e/ou discussões acirradas conta ou a favor, então o truque é ampliar o leque de possibilidades e, assim, abarcando mais variáveis, atingir – e agradar - a um público maior e mais diversificado.
Fico pensando aqui com os fios das franjas puídas da minha canga estendida nas areias calientes da praia, na Ponta do Leme, banhados que somos sob um único sol que passeia vagarosamente cortando o céu de leste a oeste, que ser uno é uma prática parece em extinção. Ficamos assim, com os cinco que já são sentidos, dedos, e por mais um tempo, títulos mundiais do futebol... Agradeço a paz (una) voltou ao paraíso que hoje compartilho com um pouco mais de cinco gatos pingados que observo no entorno. Mais adiante, no marzão que vai e vem no ritmo das ondas, há mais de cinco surfistas evoluindo, afinal, o mar está alto e nos convida a quebrar a “heptaescrita”, fazendo dos cinco a regra e, nela, como tal com todo direito, somos a exceção. Mas não a única!
Viajando pela rede, me deparei com outra variante muito justa e apropriada. Numa postagem de viagens, as que mais têm me atraído ultimamente, - graças a proposta de dar dicas e mostrar por fotos ou textos os lugares que já visitei ou gostaria de um dia conhecer e que gerou o “No Rumo”, encontrei no Catraca Livre: “Confira 35 dicas geniais antes de fazer as malas”
Minha conclusão? Fico com as exceções. Gosto mesmo é das descobertas que podem me surpreender muito mais do que cinco vezes. Vêm delas a sensação única de que não há limites para as inúmeras e incontáveis coisas que ainda quero descobrir - e sentir - nessa vida...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
ILUSTRADO TER A A S BADO ABRIL  2014

domingo, 15 de junho de 2014

Cara de paisagem

Copa 14060711 001 Copacabana CAM e lua
Texto e foto de Valéria del Cueto
O Rio de Janeiro é uma festa e seu epicentro até entrar em campo o cenário do novo Maracanã, na partida entre Argentina e a Bósnia Herzegovina, na tarde desse domingo, é sem dúvida, a praia de Copacabana.
Daqui do oásis de paz e tranquilidade que (ainda) é a Ponta do Leme fiscalizo a movimentação, dando umas pernadas pelo calçadão para ir visitar, lá no Forte de Copacabana, do outro lado da praia, o CAM – Centro Aberto de Mídia, uma das bases do jornalismo mundial que cobre o evento.
Dá pra sentir a animação que se espalha em ondas pela orla de Copacabana. A “arrebentação” é logo ali, depois do Leme, na altura da Avenida Princesa Isabel, onde está localizado o FIFA FAN FEST.
Talvez seja essa gigantesca estrutura que ocupa a areia e estreita o calçadão por vários quarteirões a barreira que delimita nosso reduto de paz. À frente, em direção ao Posto 6, o ritmo é outro.
As levas coloridas de turistas que ocupam as areias, calçadas e, principalmente, os quiosques, bares e restaurantes se movimentam felizes e barulhentas. Ao contrário de nós cariocas, que precisamos manter nossa rotina de moradores e trabalhadores no maior cartão postal do país, para eles tudo é festa!
E, nesse quase carnaval, no quesito fantasia a originalidade conta muitos pontos. O uniforme mais comum é a bandeira do coração amarrada no pescoço servindo, inclusive, de proteção contra o ar mais fresco dessa época do ano. São como fantasias de alas das escolas de samba: básicas e em profusão.
O prêmio maior é ser notado por uma das dezenas ou centenas de câmeras de TVs e de celulares de jornalistas (são mais de dois mil cadastrados no Centro Aberto de Mídia) registrando dia e noite as cenas que mais chamam a atenção nesta incrível miscelânea cultural e esportiva.
O cocar gigantesco do torcedor solitário sul americano; a boneca inflável em tamanho natural com a camisa da Argentina, igual a do seu dono; os tradicionais chapéus mexicanos, perfeitos para proteger do sol carioca (se não tiver vento, é claro), todos já tiveram seus momentos de fama em fotos e nas telas de TVs do mundo inteiro.
Com o passar dos dias, os grupos começam a adotar seus lugares preferidos nos points do calçadão, delimitando seus territórios.
Indo e vindo, dá para mapear as preferências. Nas imediações do Copacabana Palace, por exemplo, o movimento é sempre intenso: além do cartão postal, é também, saída do metro. Tem gente à ufa! Ali, num dos quiosques, os colombianos montaram seu QG.
Estou só dando um exemplo, pra não acabar com a divertida brincadeira de encontrar as diversas representações pelo caminho da Princesinha do Mar.
Tem de tudo!  Embalado muita cantoria e barulho. Nos quiosques a música só pode ser “voz e violão”. Percussão é proibida, sobre pena de multa para os proprietários. Em compensação, bateria na calçada, inserida no contexto de bandas de rock ou grupos de jazz ambulantes, isso pode.
Camelos vendem apitos e outros apetrechos que complementam as indumentárias turísticas, não apenas brasileiras. A linguagem é universal para realizar os negócios.
Durante o período da Copa do Mundo de Futebol, Copacabana é a Babel do século 21, com seus pecados e diferenças embalados e movidos por uma paixão, não apenas nacional, mas mundial.
Somos a mais linda paisagem da Cidade Maravilhosa!
Imagem síntese de um espírito maior: O esporte que a todos une. Em qualquer lugar do mundo...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
Copa 14060711 004 copa quiosque festa

domingo, 23 de março de 2014

Tempestade na cidade

Leme 1402 087 calçadão palmeiras por do sol
Texto e foto de Valéria del Cueto
Quem avisa amigo é, diz o ditado desatualizado. Avisar não é mais o que era antes. Hoje, todo mundo avisa. Nem sempre por ser amigo…
Desde quando estão avisando que as chuvas vão chegar aqui no Rio? Faz tempo. O Climatempo e co-irmãos estão firmando nessa tese, sem muito sucesso, desde o final do ano passado e durante todo o verão que já terminou.
Eram as chuvas de fim de tarde que nunca caíram, as águas de março que estão a caminho e por aí adiante. Um mar de esperanças climáticas não realizadas. E lá se vão os reservatórios já sem chances de recuperarem as chuvas prometidas e jamais desaguadas, cada vez mais minguados, assim como a nossa paciência.
Há quem tenha desistido da tecnologia das informações massificadas por garotas do tempo e seus efeitos especiais nos telejornais, aplicativos nos smartphones e, até mesmo, os horários dos eventos nas páginas das redes sociais que já vem com a previsão do tempo incluída. Outro dia foi disparado um convite irrecusável, mas que ao lado da data e do horário trazia a temperatura prevista e o aviso: TEMPESTADE. E olha que não era nem uma possibilidade, era uma informação monossilábica e demolidora. Intrigada com o detalhe procurei um lugar para desativar a informação e descobri ser impossível. A anti propaganda estava obrigatoriamente indexada na página, desestimulando os convidados ou, no mínimo, recomendando o uso de capa, guarda-chuva e galocha. E olha que o evento pedia traje passeio completo! Vá que “tchova”, cuiabanicamente falando…
Por Cuiabá a situação é inversa. Tanto que a desculpa para o atraso das obras da Copa é a totalmente previsível e anualmente encharcante. “Diz que” a quantidade de chuvas atrapalhou o cronograma do estádio que não está pronto. Mas é o menos atrasado entre os atrasados, comemora o site da SECOPA!
Se a gente considerar que dos 12 estádios 9 já estão entregues chegamos a conclusão aristotélica e pitagoresca, (sem precisarmos aplicar a teoria de Fermat), que somos os antepenúltimos no ranking! (o que parece ser uma grande vitória, especialmente se levarmos em conta que, no caso de São Paulo, o atraso foi provocado pelo acidente com o guindaste, lembram?) Melhor sabermos que pagamos por uma informação tão precisa e animadora disparada para os nossos veículos de comunicação. Afinal, é muita matemática para explicar o inexplicável. A mesma aplicada nos cálculos do custo da obra de construção da Arena Pantanal. Só especialistas de alto gabarito mesmo…
Voltando às águas que não chegam ao Rio de Janeiro: outro dia enquanto, mais uma vez, se anunciava uma virada no tempo cigarras cantavam animadíssimas nas árvores que sombreiam as ruas. O comentário geral era a chuva que chegaria. Quando alguém salientou o fato de que cigarras avisam que o tempo vai firmar… tomou uma vaia. O argumento era de que está tudo muito confuso na natureza e, portanto, as cigarras estavam embolando o meio de campo. Pergunto a vocês: choveu?
Niente. Está quente e seco. O que é problema para uns(Dilma, nossa ex-ministra das Minas e Energia, que o diga se, dessa vez, leu o relatório completo) é alegria para outros: um céu deslumbrante, num azul especial, enfeita o horizonte das fotos que retratam a paisagem da Cidade Maravilhosa divulgadas para incentivar o turismo entre uma notícia e outra de ataques as UPPs, mortes de policiais e seres humanos sendo arrastados nos carros dos PMs. A Copa vem aí!
No céu, as gaivotas enlouquecem. Passeiam em bando de um lado para o outro. “Alinhadas”, disseram, é sinal de que as águas estão chegando. Olho para o Atlântico,  na Ponta do Leme. Lá estão elas, bailando bem na linha da água, em voos aparentemente desordenados. Abaixo, a superfície do mar num tom esmeralda, não está espelhada. Parece se mexer. Outro sinal da chuva chegando? Quiçá para eles. Para elas e para mim a situação é clara: há um gigantesco cardume na área e muito alimento para os pássaros. Talvez digam que a peixarada seja o sinal das chuvas que estão a caminho.
 Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com
@delcueto
@no_rumo
ILUSTRADO TER A A S BADO     NOVEMBRO  2009

domingo, 9 de fevereiro de 2014

É duro


Texto e foto de Valéria del Cueto
É duro ter que recorrer aos mais poderosos artifícios para poder gerar a crônica nossa de todas as semanas.
É duro pensar, raciocinar, exercitar a mente e não conseguir imaginar uma mensagem otimista que faça valer a pena esse esforço semanal de disseminar ideias e conceitos pelos escritos espalhados onde opiniões são bem vindas.
É duro procurar avidamente entre os acontecimentos que viraram notícia, ou não, algo que contraponha a pilha de mazelas que nos bombardeiam incessantemente.
É duro – e necessário – reconhecer que se não fosse o refúgio da Ponta do Leme provavelmente você, leitor, não estaria correndo  seus olhos por essas não tão bem traçadas linhas.
É duro dizer quem para garantir nosso prazer (o meu de escrever e o seu de ler) foi necessário colocar em risco a saúde da escriba, exposta aos piores raios solares do planeta, para garantir a produção literária semanal.
Era isso ou não ter texto. O horário do dead line se aproximava e... nada!
São meio dia e quarenta e cinco de uma sexta-feira e eis-me aqui, como já disse, na Ponta do Leme. Sorte que corre uma brisa leve ameniza um pouco minha febre literária. É verão e, como tal, o dia se apresenta. Não chove há semanas e o calor bate os quarenta graus, o que potencializa os raios ultravioletas.
É duro começar tentando poetar ao som do mar da praia do Leme e, deixando a mente divagar, pensar só no calor dessa praia paradisíaca e seus malefícios solares.
Respiro fundo escutando o canto do vendedor oferecendo mate com limão. Quero parar e me deliciar, mas não posso. Tenho pressa.
É duro ter vontade de mandar essa crônica às favas e dar um mergulho nessa água transparente verde esmerada que convida a uma nadada margeando a praia, ou um passeio de prancha. O mar está um espelho, sem chance para os surfistas. A pressa é tanta que nem sei se a água está gelada como nos últimos dias.
A questão é respondida por um banhista que passa voltando do mar. Não posso descrevê-lo, por que nem levantei a cabeça. “Pô, a água está geladona”, avisa em direção a barraca para onde retorna.
É duro ter a impressão que tudo que poderia melhorar o estado de espírito geral desse registro tem um “porém”.
E olha que jurei não abordar temas como o aumento das passagens de ônibus no Rio de Janeiro e a qualidade do sistema de transporte público, a quebradeira no centro do Rio num protesto contra o ato do prefeito Eduardo Paes e suas tristes consequências, os preços exorbitantes na cidade e a reação dos cariocas com o Rio $urreal e a desdobramentos como a página “Cansei de der mal atendido”.
E os apagões? Resisti bravamente a polêmica do ladrão preso ao poste pelo pescoço com um cadeado de bicicleta, por “civis” no bairro do Flamengo.
Quase sucumbi ao destaque dado à bronca da presidente capturada pelos    vidros das janelas do Planalto (penso cá com meus botões que se ela gritasse mais, cobrasse mais e reclamasse mais, talvez as coisas estivessem melhores...). Capitulei com a notícia do russo que, em nome da poesia, assassinou a facadas quem defendia a prosa, numa discussão literária.
É duro querer ser positiva nesse clima em que até as pirâmides emitem raios para os céus. Por isso, me despeço com uma única certeza positiva: quando o sol baixar, lá pelas cinco, estarei aqui. De volta ao paraíso...
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

domingo, 28 de julho de 2013

Quem vai querer?

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Texto e foto de Valéria del Cueto
Somos uma ilha cercada de peregrinos na nossa única saída. O resto vocês já sabem: morro, pedra e mar.

Estamos abençoados por tabela e ricochete. Não precisa nem chegar no palco Rock in Rio de Francisco.

Ele nem deve ter notado os “patrocinadores” pendurados em seu cangote. Nextel na concepção “solideridade” do VT exaustivamente exibido e Rock in Rio na Cidade da Fé e outras alusões conceituais. 

Os de sempre, né, gente? Devem ter sido chamados a colaborar, mas como o Vaticano já tem seus próprios e apropriados apoiadores, tipo  Allitália e Fiat - italianos como o Vaticano  original - tiveram que se desdobrar pra pegar uma beira no merchandising de Francisco.

Um destaque especial para a Coca-Cola que colou seus adesivos nos isopores de água e refri. Por que cerveja, nem pensar! (evento no Rio sem cerveja?)

E foi pensando nesses detalhes que resolvi desenvolver a crônica de adieu a Francisco. O cara, sem dúvida, é gente boa. Além da benção e do perdão dos pecados conseguiu o milagre de apagar as propagandas explícitas invasivas e de mau gosto que pululam nos eventos na Cidade Maravilhosa. Provou que dá pra fazer a festa sem escancarar e empurrar goela abaixo a poluição visual que descaracteriza o Rio a cada nova atração.

No quesito decoração é assim que o Rio deveria ser se não fossem os vendilhões de cabeça curta e bolso largo. Os que não se dão conta que ao encher o Rio de penduricalhos cada vez mais acintosos e invasivos, só depõem contra nossa beleza natural, desvalorizam nosso corpinho.

Mal comparando, é a nobreza aristocrática de Paris (já viu banner na Torre Eiffel? Propaganda no Arco do Triunfo?) perto da Garota de Ipanema, transformada em quenga de quinta carioca. Aquela que se depender de seus gestores, abre as pernas e empresta seu corpo pra qualquer um que aparece com um troquinho. Não para a cidade, mas para os amigos.

Pois esse é um dos legados de Francisco que tantas coisas nos ensinou e com tanto carinho nos tratou: a prova de que é possível, sim, realizar festa sem vender nosso patrimônio visual, sem poluir a cidade com tanta propaganda invasora.

Quanto mais limpo melhor e mais caro. Aproveitamos para botar os publicitários de plantão para exercerem seu papel que é criar, inventar alternativas mais atraentes e menos poluentes.

Foi quando vi a caixa de isopor padrão que escolhi qual seria meu olhar (míope) quando saísse pra fazer fotos: procuraria o Rio entre os ambulantes.

Afinal, é possível sentir o pulsar da cidade por suas ofertas. Isso não é novidade. Debret já retratava os ambulantes em 1800 e lá vai pedrinha.

As condições do tempo e temperatura impuseram os hits da temporada: guarda-chuva e capa. As cangas, especialmente as da bandeira do Brasil, viraram proteção para o frio. Acho que se estivesse fazendo um calorzinho a tendência teria sido mais, digamos, liberal. Não que as moças usassem biquínis, mas um topzinho básico ia rolar. Depois, confessionário! Um item bem avaliado foram os banquinhos de quinze reais, pra quem não quisesse sentar na areia úmida. 

A essa altura eu já estava preocupada. Onde andavam os produtos tipicamente cariocas? (A estampa da sombrinha/cartão postal não conta). Rodei bastante até achar um vendedor de Biscoito Globo. Quanto ao Mate Leão, tão genuíno... Lamento informar. Procurei muito. Mas mate por aqui, só a erva (mate) do chimarrão oferecido por um peregrino a  Francisco, o Papa argentino mais brasileiro do mundo.

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O Papa é pop, já a Igreja...

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Texto e foto de Valéria del Cueto
O mundo está rodando. Lá fora.

Aqui, no meu canto do Leme, olho pra tudo e não vejo quase nada, por que os tapumes de Cristo fecham a visão de alguns quarteirões e isso não é pouco para um pequeno bairro que tem em sua extensão não mais que meia dúzia de três ou quatro deles.

A obra para louvar a Deus é gigantesca, maior do que o palco dos Stones, montado em frente ao Copacabana Palace, na primeira década do novo milênio.

Os moradores do Leme, é claro, só têm a reclamar contra a invasão da nossa pequena e humilde praia. E com razão. E muitas razões...

Por que nada justifica a mania de grandeza dessa igreja que não me representa e – parece - nem ao próprio Papa Francisco.

A soberba chegou ao ponto da Arquidiocese carioca, pedir e a Fundação Parques e Jardins da cidade autorizar a retirada das palmeiras que, imaginem, estavam plantadas há anos justamente na lateral do local onde ficará a boca do palco voltado para a praia de Copacabana.

Isso que estamos falando de mais uma imensa multidão numa área tombada, de acordo com o Inepac, Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, que assim descreve a região: “O calçadão de Copacabana, de autoria de Roberto Burle Marx, foi executado no início da década de 1970, sendo o maior exemplo de obra de arte aplicada existente no mundo. Pensado como um painel contínuo em escala urbana passível de ser visualizado em grandes trechos oferece aos pedestres a possibilidade de desfrutar de uma variedade de desenhos e composições. Adota motivos do abstracionismo formal que caracteriza a pintura de Roberto Burle Marx a partir da década de 1950. O projeto paisagístico agrupa árvores de copas amplas em conjuntos, cuja distribuição se integra ao desenho do calçadão. O trabalho em pedra portuguesa das calçadas incorpora a figura tradicional das ondas que simbolizam o bairro...”

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Tudo bem que as palmeiras abusadas não estão no calçadão. Mas a, no máximo, uns metros areia adentro.

Não tão bem assim porque, senão, o prefeito Eduardo Paes não teria revertido a ordem de transplantação dos coqueiros, contrariando a Arquidiocese e a sua própria Fundação de Parques e Jardins. Ponto para ele. Mas só um. Antes de sua contra ordem as palmeiras já haviam passado por muito sufoco, literalmente, servindo de apoio involuntário para parte dos ferros que formarão a estrutura papal.
Pensando bem, a palmeira sufocada é uma metáfora do estilo do novo papa Francisco, diante das exigências do cargo. Um cara simples, tentando se livrar do aparato luxuoso e exagerado que o cerca, cheio de penduricalhos e salameleques desnecessários, mas servindo de apoio para a estrutura que o sufoca.

Vai ser uma longa luta, na qual, a visita ao Rio é apenas um round. Um round que obrigará o pontífice argentino, entre outras coisas, a comer um “churrasco brasileiro”.

Faremos meio assim como a presidente do país vizinho ao levar de presente, quando da sua elevação ao trono de São Pedro, um cuia e um bomba de chimarrão! Como se não soubesse que, para o mateador, nada supera seu equipamento pessoal, aquele que carrega campanha afora, esteja ela no Pampa que for...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com