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terça-feira, 20 de agosto de 2024

Para melhor


Para melhor

Texto e foto de Valéria del Cueto

Do meio do mundo emanam energias desconexas. Não, não me refiro ao contexto global. Apostar na falta de direcionamento seria um erro crasso de avaliação. Entre idas, vindas e acontecimentos é razoavelmente possível antever os fatos. Vivemos de efemérides previsíveis a curto e longo prazo.

Depois das Olimpíadas, utopia do encontro dos povos promovida pelos esportes com suas incríveis histórias de solidariedade e congraçamento, seguimos às Paraolimpíadas já misturadas com a temporada eleitoral. Aí tudo pode acontecer. Até a proposta de construção de um prédio de um quilômetro de altura na maior cidade da América do Sul, feita em meio a palavras de baixo calão, xingamentos e a demonstração pública de que o mundo político é uma selva em que o que menos importa é o bem comum. Ele, que deveria ser o objetivo dos candidatos seja a que cargo for.

Até os poderes que, em tese, deveriam ser harmônicos se digladiam em busca de... mais poder enquanto defendem com unhas, dentes e todos os golpes baixos prerrogativas que ocultam do povo. Privilégios que avançam sobre direitos básicos constitucionais. Cada um puxando a brasa para sua sardinha conforme o gosto de quem pode mais. E a gente vendo a banda das emendas do orçamento secreto tocando o dobrado do nosso dinheiro sendo entocado na encolha.

Ando longe dessas artimanhas, mesmo acompanhando de perto, pode dever de ofício, esses movimentos que compõem, como sempre, formas de domínio sobre a população.

Sim, tangidos pelas datas obrigatórias seguimos estimulados a tornar público e notório nosso dia-a-dia. Tem dia pra tudo e, parece, somos movidos por esses apelos sociais. Falta de interação é quase como deixar de existir. Experimenta não fazer uma postagem nos stories sobre, por exemplo, uma data comemorativa. Las-cou.

Desisti de seguir esse dobrado. Não sou gado pra ser tangido. Também cansei de opinar sobre tudo e todos, como se fizesse alguma diferença nesse mar de informações. É assim que se diluem ideias e posicionamentos. Pulverizados pela exigência de multiplicidade de compartilhamentos sociais. Perdidos no caldo indigesto de mensagens, emojis, gifs e memes que bombardeiam numa overdose viciante as redes sociais. Não condeno, não recrimino, mas tento fugir dessa esparrela que toma tempo e reduz a perspectiva histórica a próxima data comemorativa da folhinha. Tenho outras preocupações mais relevantes no momento.

Por exemplo, tento racionalizar as perdas de pessoas queridas. A quem interessar possa informo que resolvi não escrever sobre os que partem. No ritmo atual das despedidas teria que incrementar e muito a periodicidade da produção de textos para, merecidamente, exaltar os méritos de gente que fez e faz parte da minha história de vida.

Outro dia acho que falei que essa era uma forma de quebrar o luto e afastar a tristeza. Uma maneira e lúdica de concentrar e eternizar carinhos e afetos. Só que... no ritmo atual isso restringiria a temática da produção de cronista. Daí, pensei em outras formas de “embrulhar” esses momentos.

Fazer uma refeição especial seria uma solução. Cortar cebolas para chorar à vontade, misturar temperos de lembranças apurando encontros, esperar o ponto de cozimento para abraçar carinhosamente as saudades... Desisti dessa opção quando lembrei que sou uma negação culinária, especializada em pastinhas, molhos e, no máximo, saladas. Meu repertório não comporta as necessárias variações de tempo/espaço e sentimentos, além de não haver registros acessíveis depois de consumida a pretensa iguaria.

Com depurar e manter viva as ausências. Com que relacioná-las? Resolvi a charada inconscientemente quando de tão doída decido driblar a dor da perda partindo, por assim dizer, para a falta de ignorância. Me refugiei num livro. Voltei a um hábito que sempre me ajudou a fugir, tomar distanciamento e, sim, resolver problemas. Matei vários coelhos, cada qual com sua cajadada. O primeiro o foi ampliar um prazer, o da leitura. Os demais se acumulam a cada obra finalizada. Pro Aluízio Dezizans, “Os Romanov”, de Simon Sebag Montefiore. Renato Gomes Nery ganhou “Maldito invento de um baronete – uma breve história do jogo do bicho”, de Luis Antônio Simas. A Mauro Cid coube “Pessoas Decentes”, de Leonardo Padura.

Outros, certamente virão. A cada passagem, uma viagem literária. Pra melhor...   

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM ... delcueto.wordpress.com


Studio na Colab55

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Como dois e dois

Rio 140716 004 Ponta do leme surfista onda deitado
Como dois e dois
Texto e foto de Valéria del Cueto
Virou moda e está infestando as redes sociais os cinco. Antes, tudo eram dez. Mas de uns dias pra cá acho que passaram a pensar que dez era muito! Então, agora, fashion são os cinco. Explico: “cinco piscinas naturais mais belas do mundo”, “cinco conselhos para quem vai andar de ônibus”, “cinco dicas para viver melhor”, “cinco tipos de maquiagem que você tem que conhecer” e por aí vai...
Sempre fui adepta das sete: minha primeira lei de vida sempre foi “sete ondas fracas e sete ondas fortes para entrar e sobreviver no mar”. É isso mesmo. Desde criancinha que aprendi a esperar a hora certa (as sete ondas fracas) de ultrapassar a arrebentação e outras sete (dependendo da altura das ondas) para me atirar lá de cima, em direção à praia como se não houvesse amanhã. Digo dependendo porque se o mar está muito grande confesso, do alto dos meus cinquenta e poucos anos de experiência, que prefiro uma marola veloz que um paredão inexpugnável e, quem sabe, assassino.
E por viver pintado o sete, seguindo as fases da lua que mudam aproximadamente a cada sete dias e tentando ver as sete cores do arco-íris, é que reparei na onda dos cinco que assola as redes sociais e, portanto, o cotidiano de grande parte da população hoje ligada e linkada ao mundo virtual.
Como já disse antes tudo eram dez: “dez lugares que você tem que conhecer antes de morrer”, “dez conselhos para uma vida saudável”, “dez alimentos que não podemos deixar de consumir”, “as dez cidade mais poluídas do planeta” e por aí ia...
E eis que, acho eu, a velocidade do mundo encurtou o número de opções disponibilizadas a cada postagem, especialmente as de 144 toques do Twitter. Criaram até um site amplamente divulgado por ali que apresenta sempre as tais cinco opções de tudo! Dez é muito, três é pouco, cinco está de bom tamanho, estabeleceu a onda de postagens no meu timeline.
A impressão que fica é que uma única opção nunca vai satisfazer a todo mundo e acabará gerando polêmica e/ou discussões acirradas conta ou a favor, então o truque é ampliar o leque de possibilidades e, assim, abarcando mais variáveis, atingir – e agradar - a um público maior e mais diversificado.
Fico pensando aqui com os fios das franjas puídas da minha canga estendida nas areias calientes da praia, na Ponta do Leme, banhados que somos sob um único sol que passeia vagarosamente cortando o céu de leste a oeste, que ser uno é uma prática parece em extinção. Ficamos assim, com os cinco que já são sentidos, dedos, e por mais um tempo, títulos mundiais do futebol... Agradeço a paz (una) voltou ao paraíso que hoje compartilho com um pouco mais de cinco gatos pingados que observo no entorno. Mais adiante, no marzão que vai e vem no ritmo das ondas, há mais de cinco surfistas evoluindo, afinal, o mar está alto e nos convida a quebrar a “heptaescrita”, fazendo dos cinco a regra e, nela, como tal com todo direito, somos a exceção. Mas não a única!
Viajando pela rede, me deparei com outra variante muito justa e apropriada. Numa postagem de viagens, as que mais têm me atraído ultimamente, - graças a proposta de dar dicas e mostrar por fotos ou textos os lugares que já visitei ou gostaria de um dia conhecer e que gerou o “No Rumo”, encontrei no Catraca Livre: “Confira 35 dicas geniais antes de fazer as malas”
Minha conclusão? Fico com as exceções. Gosto mesmo é das descobertas que podem me surpreender muito mais do que cinco vezes. Vêm delas a sensação única de que não há limites para as inúmeras e incontáveis coisas que ainda quero descobrir - e sentir - nessa vida...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
ILUSTRADO TER A A S BADO ABRIL  2014