domingo, 25 de agosto de 2024
20 anos @no_rumo do Sem Fim...
terça-feira, 20 de agosto de 2024
Para melhor
Para melhor
Texto e foto de Valéria del Cueto
Do meio do mundo emanam energias desconexas. Não, não me refiro ao contexto global. Apostar na falta de direcionamento seria um erro crasso de avaliação. Entre idas, vindas e acontecimentos é razoavelmente possível antever os fatos. Vivemos de efemérides previsíveis a curto e longo prazo.
Depois das Olimpíadas, utopia do encontro dos povos promovida pelos esportes com suas incríveis histórias de solidariedade e congraçamento, seguimos às Paraolimpíadas já misturadas com a temporada eleitoral. Aí tudo pode acontecer. Até a proposta de construção de um prédio de um quilômetro de altura na maior cidade da América do Sul, feita em meio a palavras de baixo calão, xingamentos e a demonstração pública de que o mundo político é uma selva em que o que menos importa é o bem comum. Ele, que deveria ser o objetivo dos candidatos seja a que cargo for.
Até os poderes que, em tese, deveriam ser harmônicos se digladiam em busca de... mais poder enquanto defendem com unhas, dentes e todos os golpes baixos prerrogativas que ocultam do povo. Privilégios que avançam sobre direitos básicos constitucionais. Cada um puxando a brasa para sua sardinha conforme o gosto de quem pode mais. E a gente vendo a banda das emendas do orçamento secreto tocando o dobrado do nosso dinheiro sendo entocado na encolha.
Ando longe dessas artimanhas, mesmo acompanhando de perto, pode dever de ofício, esses movimentos que compõem, como sempre, formas de domínio sobre a população.
Sim, tangidos pelas datas obrigatórias seguimos estimulados a tornar público e notório nosso dia-a-dia. Tem dia pra tudo e, parece, somos movidos por esses apelos sociais. Falta de interação é quase como deixar de existir. Experimenta não fazer uma postagem nos stories sobre, por exemplo, uma data comemorativa. Las-cou.
Desisti de seguir esse dobrado. Não sou gado pra ser tangido. Também cansei de opinar sobre tudo e todos, como se fizesse alguma diferença nesse mar de informações. É assim que se diluem ideias e posicionamentos. Pulverizados pela exigência de multiplicidade de compartilhamentos sociais. Perdidos no caldo indigesto de mensagens, emojis, gifs e memes que bombardeiam numa overdose viciante as redes sociais. Não condeno, não recrimino, mas tento fugir dessa esparrela que toma tempo e reduz a perspectiva histórica a próxima data comemorativa da folhinha. Tenho outras preocupações mais relevantes no momento.
Por exemplo, tento racionalizar as perdas de pessoas queridas. A quem interessar possa informo que resolvi não escrever sobre os que partem. No ritmo atual das despedidas teria que incrementar e muito a periodicidade da produção de textos para, merecidamente, exaltar os méritos de gente que fez e faz parte da minha história de vida.
Outro dia acho que falei que essa era uma forma de quebrar o luto e afastar a tristeza. Uma maneira e lúdica de concentrar e eternizar carinhos e afetos. Só que... no ritmo atual isso restringiria a temática da produção de cronista. Daí, pensei em outras formas de “embrulhar” esses momentos.
Fazer uma refeição especial seria uma solução. Cortar cebolas para chorar à vontade, misturar temperos de lembranças apurando encontros, esperar o ponto de cozimento para abraçar carinhosamente as saudades... Desisti dessa opção quando lembrei que sou uma negação culinária, especializada em pastinhas, molhos e, no máximo, saladas. Meu repertório não comporta as necessárias variações de tempo/espaço e sentimentos, além de não haver registros acessíveis depois de consumida a pretensa iguaria.
Com depurar e manter viva as ausências. Com que relacioná-las? Resolvi a charada inconscientemente quando de tão doída decido driblar a dor da perda partindo, por assim dizer, para a falta de ignorância. Me refugiei num livro. Voltei a um hábito que sempre me ajudou a fugir, tomar distanciamento e, sim, resolver problemas. Matei vários coelhos, cada qual com sua cajadada. O primeiro o foi ampliar um prazer, o da leitura. Os demais se acumulam a cada obra finalizada. Pro Aluízio Dezizans, “Os Romanov”, de Simon Sebag Montefiore. Renato Gomes Nery ganhou “Maldito invento de um baronete – uma breve história do jogo do bicho”, de Luis Antônio Simas. A Mauro Cid coube “Pessoas Decentes”, de Leonardo Padura.
Outros, certamente virão. A cada passagem, uma viagem literária. Pra melhor...
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM ... delcueto.wordpress.com
quinta-feira, 18 de julho de 2024
O acalanto do desencanto
O acalanto do desencanto
Texto e foto
de Valéria del
Cueto
Se a fila anda, por que não quebrar a rotina e mudar o local da
escrevinhação no caderninho? Vou jogar a responsabilidade pela alteração nesse
tempo instável que parece o inverno.
Por aqui estamos todos meio perdidos. O frio veio forte, mas
partiu rapidinho, já dá lugar ao tempo ameno e o anúncio de outro veranico. Tipo
Cuiabá, onde o inverno passa num sopro e nunca dura mais de 3 dias.
Situação: habemos sol entre
as árvores (afinal, pelo menos ele se mantém firme e forte em sua trajetória e,
nessa época do ano, está passando coladinho as montanhas que compõem o horizonte).
Também temos uma temperatura agradável que sugere toalhas e travesseiros na
janela para espantar a friaca e arejar a vida. O que me resta? Seguir o
exemplo.
Me preparei para aproveitar a tarde ao ar livre. Um (ou uns)
fator(es) altera(m) o objetivo inicial. Biquini (olha que ousadia) canga,
caderninho, caneta, boné, água mineral (da casa), celular pra fazer a foto da
crônica, óculos escuros, filtro solar no rosto e... Pra variar, mudei o rumo. Em
vez de sair porta a fora subi as escadas e me aboletei no janelão do mezanino.
Daqui vejo o meio do mundo da Mata Atlântica sentada numa das
cadeiras de ferro da mesa da varanda banhada pelo sol. O conjunto faz parte da
mobília que me acompanha desde que nasci. Ficava na varanda comprida do
apartamento em que morei quase uma vida no Leme. Só saiu de lá quando o imóvel
foi vendido.
Sempre que tenho uma casa é colocado num lugar especial. Ainda no
Leme foi pra varanda que virou floresta no pé da ladeira. Depois, foi cedido
pra Araras e resgatado quando vim pro meio do mundo.
Não pergunte como, sempre coube direitinho entre os braços de
ferro da melhor cadeira que conheço pra ficar horas lendo sem parar. Consigo me
aboletar desde criança em várias posições diferentes. Jogando, por exemplo, as
pernas por cima de um dos braços pra aliviar a coluna do tempão “concentrada”.
Tudo lindo, mas preciso ressaltar meu próprio espanto ao constatar
que nunca escrevinhei por aqui. Gosto de esticar as palavras ao ar livre quando
deixam.
Fiquei semanas emudecida, me recusando a registrar os últimos
acontecimentos. Pelo menos duas perdas me afastaram do intuito de manter a
regularidade das crônicas. Tem coisas que, na minha cabeça, só se concretizam
quando coloco no papel. Como não queria que essas fossem verdade, calei a
escrita enquanto pude e um pouco mais...
Falo primeiramente da partida silenciosa do meu guru mangueirense Aluízio
Derizans, o amigo que abriu as portas da verde e rosa pro acervo
carnevalerio.com, que só descobri no dia do seu aniversário e a quem não poderia
deixar de registrar @no_rumo do Sem fim meu agradecimento eternizado nas
incríveis imagens que que registrei nos anos que por lá passei.
Ainda estava depurando a perda quando o advogado e colega cronista
Renato Gomes Nery foi tocaiado em Cuiabá. Fui sua assessora na presidência
OAB-MT e nossa amizade sempre me fez recorrer a ele nos poucos “causos” legais
que enfrentei. Assim como a sociedade mato-grossense, aguardo esclarecimentos
sobre esse filme violento que já vimos tantas vezes em Mato Grosso.
Precisei alterar a paisagem para conseguir destravar minha escrita
cheia de indignação e revolta. Não o fiz por livre e espontânea vontade. O que
me levou ao movimento que libertará meu peito, esse poço até aqui de mágoa, destilando
no caderninho minhas dores foram... os mosquitos.
Sempre eles que, como eu, não reconhecem as estações do ano e,
vorazes, me empurraram para a proteção e o acalanto da mobília varanda da vovó
que desrepresou meu desencanto. Lá fora o sol brilha, mas a nuvem do
desequilíbrio ambiental não dá folga.
Os efeitos de suas picadas duram menos, mas são tão doídos como choro
que aperta meu peito e brota nas lágrimas de despedida aos amigos tão queridos e
insubstituíveis que encerram essa crônica.
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não
sei onde enquadrar” do SEM FIM ... delcueto.wordpress.com


