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terça-feira, 1 de outubro de 2024

Sente o clima!



Sente o clima

Texto e foto de Valéria del Cueto

É de lei um registro sobre as eleições. Sem muito prazer pela constatação de que a política está tão degradante quanto a sociedade que ela representa. O que estamos acompanhando é um show de horrores.

O tempo e a História nos levam à constatação que as crises são cíclicas. A gente não aprende! Parece que foi ontem que o país se encantou com um “Caçador de Marajás”. O mesmo que depois de eleito sequestrou as contas bancárias da população.

Motivo extra para, reconhecendo a extrema necessidade de não me omitir diante dos fatos e desempenhando o papel de jornalista cidadã, fazer o alerta de sempre sobre o poder do seu voto, e-leitor. Quantos textos já produzi antes de eleições? Sei lá... Me mantenho fiel a norma de pecar por excesso, não por omissão.  Sim, sua escolha tem poder e consequências.  

As pesquisas indicam que boa parte do eleitorado ainda não escolheu seu candidato, especialmente para vereador, aquele que o representa na Câmara Municipal. O encarregado de fiscalizar a atuação do poder executivo, representado pelo prefeito, e fazer as leis que regem o município.

Muitos podem ser os pesos que o eleitor coloca na balança para fazer sua escolha. Experiência, juventude, gênero? Projetos? Segurança (que não está na esfera municipal?), saúde, educação, transporte, saneamento...

Tenho certeza que em qualquer lugar do Brasil o povo tem sentido na pele as ondas de calor que assolam o continente (entramos na oitava desse ano). A atual é um alerta amarelo que abrange partes do Sudeste, o Centro-Oeste e o Paraná, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia. Com queda da umidade relativa do ar, lógico. Nuvem de fuligem, também.

Baseada nessa sensação que não nos deixa, pensei que a questão do clima estaria entre os quesitos que os eleitores iriam pesquisar. Vamos tomar por exemplo Cuiabá. A capital de Mato Grosso. Ela já foi a Cidade Verde, com suas mangueiras sombreando os quintais. Sua alcunha hoje é Cuiabrasa.

O que fazer para minimizar os efeitos, por exemplo, da arquitetura contemporânea da metrópole que se projetou verticalmente usando e abusando de vidros e janelas espelhadas, as que refletem... a luz do sol?

Quando comecei o treinamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a ABRAJI, “Eleições e Jornalismo Ambiental” mergulhei numa caixa de ferramentas para analisar e combinar bases de dados para pesquisar, entre outros itens, a evolução da degradação (sim, degradação) ambiental.

Claro que meu foco é Mato Grosso, o estado com três ecossistemas, o Cerrado, a Amazônia e o Pantanal, como já destacava em vídeos e filmes que produzi enquanto tive uma base por aí. Não dá para ficar impassível quando o estado é o campeão de queimadas em setembro, com mais de 18 mil focos de incêndios, por exemplo.

Entre as opções de consulta conheci a plataforma “Vote pelo clima”. A iniciativa visa dar visibilidade a candidaturas que se comprometam em enfrentar as mudanças climáticas nas cidades. Transporte, mobilidade, gestão de resíduos, transição energética, adaptação e redução de desastres... Várias linhas de atuação podem ser pesquisadas no banco de dados por estado, cidade, partido, etc. A inscrição de candidaturas é liberada.

Aí, chegamos ao empurrãozinho que faltava para que eu desenrolasse esse texto pré-eleição. Foi um choque verificar a adesão dos candidatos a prefeitos e vereadores de Mato Grosso na plataforma. Prefeitos? Nenhum. Vereadores? Dois de Cáceres, dois da Chapada dos Guimarães, um de Cuiabá, Rondonópolis e Tangará da Serra. Duas mulheres, cinco homens. Três candidatos do PT, um do PV, PDT, PSD e PCdoB. E só.

Ainda dá tempo de colocar um foco nos requisitos climáticos na hora de escolher seus candidatos. Cobrar deles algo mais que a promessa de sempre de plantar mais árvores em sua cidade. O tempo é pouco para ações efetivas que mitiguem os efeitos dos danos que nos levaram à situação quase irreversível que vivemos.

Vote certo! Boa sorte, eleitor. Sente o clima...

O link do Vote pelo Clima: https://votepeloclima.org/

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM ... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

terça-feira, 20 de agosto de 2024

Para melhor


Para melhor

Texto e foto de Valéria del Cueto

Do meio do mundo emanam energias desconexas. Não, não me refiro ao contexto global. Apostar na falta de direcionamento seria um erro crasso de avaliação. Entre idas, vindas e acontecimentos é razoavelmente possível antever os fatos. Vivemos de efemérides previsíveis a curto e longo prazo.

Depois das Olimpíadas, utopia do encontro dos povos promovida pelos esportes com suas incríveis histórias de solidariedade e congraçamento, seguimos às Paraolimpíadas já misturadas com a temporada eleitoral. Aí tudo pode acontecer. Até a proposta de construção de um prédio de um quilômetro de altura na maior cidade da América do Sul, feita em meio a palavras de baixo calão, xingamentos e a demonstração pública de que o mundo político é uma selva em que o que menos importa é o bem comum. Ele, que deveria ser o objetivo dos candidatos seja a que cargo for.

Até os poderes que, em tese, deveriam ser harmônicos se digladiam em busca de... mais poder enquanto defendem com unhas, dentes e todos os golpes baixos prerrogativas que ocultam do povo. Privilégios que avançam sobre direitos básicos constitucionais. Cada um puxando a brasa para sua sardinha conforme o gosto de quem pode mais. E a gente vendo a banda das emendas do orçamento secreto tocando o dobrado do nosso dinheiro sendo entocado na encolha.

Ando longe dessas artimanhas, mesmo acompanhando de perto, pode dever de ofício, esses movimentos que compõem, como sempre, formas de domínio sobre a população.

Sim, tangidos pelas datas obrigatórias seguimos estimulados a tornar público e notório nosso dia-a-dia. Tem dia pra tudo e, parece, somos movidos por esses apelos sociais. Falta de interação é quase como deixar de existir. Experimenta não fazer uma postagem nos stories sobre, por exemplo, uma data comemorativa. Las-cou.

Desisti de seguir esse dobrado. Não sou gado pra ser tangido. Também cansei de opinar sobre tudo e todos, como se fizesse alguma diferença nesse mar de informações. É assim que se diluem ideias e posicionamentos. Pulverizados pela exigência de multiplicidade de compartilhamentos sociais. Perdidos no caldo indigesto de mensagens, emojis, gifs e memes que bombardeiam numa overdose viciante as redes sociais. Não condeno, não recrimino, mas tento fugir dessa esparrela que toma tempo e reduz a perspectiva histórica a próxima data comemorativa da folhinha. Tenho outras preocupações mais relevantes no momento.

Por exemplo, tento racionalizar as perdas de pessoas queridas. A quem interessar possa informo que resolvi não escrever sobre os que partem. No ritmo atual das despedidas teria que incrementar e muito a periodicidade da produção de textos para, merecidamente, exaltar os méritos de gente que fez e faz parte da minha história de vida.

Outro dia acho que falei que essa era uma forma de quebrar o luto e afastar a tristeza. Uma maneira e lúdica de concentrar e eternizar carinhos e afetos. Só que... no ritmo atual isso restringiria a temática da produção de cronista. Daí, pensei em outras formas de “embrulhar” esses momentos.

Fazer uma refeição especial seria uma solução. Cortar cebolas para chorar à vontade, misturar temperos de lembranças apurando encontros, esperar o ponto de cozimento para abraçar carinhosamente as saudades... Desisti dessa opção quando lembrei que sou uma negação culinária, especializada em pastinhas, molhos e, no máximo, saladas. Meu repertório não comporta as necessárias variações de tempo/espaço e sentimentos, além de não haver registros acessíveis depois de consumida a pretensa iguaria.

Com depurar e manter viva as ausências. Com que relacioná-las? Resolvi a charada inconscientemente quando de tão doída decido driblar a dor da perda partindo, por assim dizer, para a falta de ignorância. Me refugiei num livro. Voltei a um hábito que sempre me ajudou a fugir, tomar distanciamento e, sim, resolver problemas. Matei vários coelhos, cada qual com sua cajadada. O primeiro o foi ampliar um prazer, o da leitura. Os demais se acumulam a cada obra finalizada. Pro Aluízio Dezizans, “Os Romanov”, de Simon Sebag Montefiore. Renato Gomes Nery ganhou “Maldito invento de um baronete – uma breve história do jogo do bicho”, de Luis Antônio Simas. A Mauro Cid coube “Pessoas Decentes”, de Leonardo Padura.

Outros, certamente virão. A cada passagem, uma viagem literária. Pra melhor...   

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM ... delcueto.wordpress.com


Studio na Colab55

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Minhas regras

Minhas regras

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou enrolando, pra variar. Se tenho um motivo, o prazer de abrir um novo caderninho para rabiscar as crônicas do Sem Fim, outras razões me levam a procurar uma rota de fuga da atividade e da realidade.

A troca de caderninho é a passagem que os leitores fiéis já a reconhecem de outras leituras. Acontece graças ao costume de escrevinhar textos que começou a surgir nas areias da praia do Leme, sempre às sextas, há uns 20 anos atrás). A “Ponta do Leme” foi a primeira série que surgiu, seguida de outras tantas definidas, inicialmente, geograficamente. O “Parador Cuyabano”, a “Fronteira Oeste do Sul” e a sempre abastecida “É Carnaval” estão sendo chuleadas há décadas (ui).

Raramente troquei o caderninho pelo teclado do computador. Não é a mesma coisa. O pensamento flui numa velocidade diferente. Daí eles vão se acumulando, ocupando um espaço considerável na estante. E sabe que me apego ao caderno da vez? Quando vejo que estão chegando ao fim a letra vai diminuindo na intenção de prolongar nossa convivência. Já houve caso do vazio ser tão sentido que falhei na periodicidade evitando a realidade da troca de companheiro. O inevitável a não ser no dia que encerrar a saga do Sem Fim.

Trocar o caderninho demanda adaptações. Passei por vários modelos e formatos. Uns foram espirais, outros não. Sempre capa dura. Maiores ou menores, mas nunca grandes ou pesados demais. Têm que caber nas bolsas. Uns tinham pautas, outros não. Nesses, as linhas imaginárias formavam muitas curvas e poucas retas.

A única coisa que evito na escolha dos caderninhos é que as folhas sejam porosas, que os rabiscos vazem pra a página de trás. Sei a dificuldade que é decifrar o que escrevi na hora de preparar o material para enviá-lo aos parceiros que publicam as crônicas.

Apesar da angústia da busca do caderninho perfeito a chegada do novo companheiro é sempre um prazer. Por isso procuro inaugurá-lo com palavras e pensamentos otimistas e de alegria quando dá.

Esse é um caso que, infelizmente, não dá. Considere as razões que citei no início dessa conversa e as intenções do Sem Fim de manter um vínculo com a realidade.

Ela está horrorosa e piorou mais um pouco com as más intenções eleitoreiras do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. Em busca de votos para fazer seu sucessor no comando da casa, ele cravou um regime de urgência, votado no tempo recorde de 24 segundos, no projeto de lei 1904 do deputado Sóstenes Cavalcante, do PL carioca, que prevê pena de 20 anos para a mulher que fizer aborto após 22 semanas de gestação, nos casos previstos em lei.

Se vamos dar nome aos bois, vale citar que o primeiro da lista dos fundamentalistas que aprovaram a urgência maladeta é o do candidato a prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini. Como Deus está vendo o tamanho dessa aberração espero que a manobra eleitoreira seja a pá de cal na sua pretensão.

Certamente, nenhum dos aqui citados imaginaram o tamanho da reação que a proposta esdrúxula geraria. O estuprador, um dos casos em que o aborto é permitido por lei, é condenado a 10 anos. A estuprada a 20! Foi um sacode na opinião pública. O mote “Criança não é mãe” virou um efeito cascata bombado, inclusive, pelas escolas de samba cariocas. Tão forte como a informação que a cada 8 minutos uma mulher é estuprada, segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher.

E lá se foram as questões que deveriam estar sendo objetos de análise parlamentar enquanto, mais uma vez, a sociedade é jogada numa cruzada moral e ideológica em que o que menos importa é a nossa decisão pessoal,  a das mulheres, atingidas pelos rigores da lei xiita.

Pra mim, danem-se as leis. Sempre foi assim. Meu corpo, minhas regras. Na vida e aqui no novo caderninho fica o registro: NÃO AO PL 1904!

Boa sorte aos eleitores de Cuiabá e aos do Rio de Janeiro também. O Delegado Ramagem, candidato do PL a prefeito de lá, foi outro que votou pela urgência do famigerado projeto.

A campanha eleitoral já começou, infelizmente, com pautas que não dizem respeito às que deveriam ser a maiores preocupações dos futuros prefeitos, suas cidades e o bem estar das populações. A sociedade não merece regredir. Escolham com cuidado seus candidatos, eleitores.

O que for decidido irá para o caderno da História da capital mato-grossense, da Cidade Maravilhosa e é sua responsabilidade também!

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

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