Mostrando postagens com marcador prefeitura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador prefeitura. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Não fui eu


Não fui eu

Texto e foto  Valéria del Cueto

Ando correndo de problemas. Mas, parece, eles correm atrás de mim! Não só da minha humilde pessoa. De todos que tentam olhar o mundo com uma certa sensatez. Quando posso, desvio dos embates. Pelo menos, dos pequenos.

Usando as armas do arsenal valeriano: a caneta e um caderninho (novo!!!), me encarapitei na rede da varanda pronta para desenrolar mais uma crônica no meio do mundo. Eis que escuto o som do motor do cortador de grama... Como é domingo, dia de jogo do Mengão contra o Inter, estou determinada a não entrar em demanda e guardar as energias pra partida de logo mais.

Solução? Seguir o conselho do velho ditado “os incomodados que se mudem” e levantar acampamento em direção da cascata que jorra água na piscina vazia, do outro lado da casa. Que receba o primeiro respingo quem se arrisca a um mergulho nessa friaca. No máximo, uma ducha assustada e rapidinha no veranico que se aproxima.

O barulho da água batendo no cimento e escorrendo em direção ao ralo aberto abafa o som do motor da roçadeira. De lambuja fica no ar o cheiro da grama recém aparada do outro lado do rio que invade a atmosfera e quase me desvia do objetivo inicial do texto: os problemas meus, seus e nossos. Aqueles que não podemos solucionar nem, tampouco, ignorar.

Uns alheios a nossa realidade próxima como o genocídio incontrolável na Palestina, os conflitos na África, Asia e Europa, pra começar.

Outros aqui, embaixo dos nossos narizes, provocados por atitudes voluntárias e com sérias consequências. Como enfrenta-las? Em que momento devemos apenas observar, se omitir ou agir?

Que a maré não está para peixe, os ânimos pra lá de exaltados e os acontecimentos se sucedendo sem previsão ou controle de danos, é evidente.

Todos os estímulos nos levam a excessos. Comprar mais, postar mais, se expor mais... mesmo quando não temos nada a acrescentar. Simplesmente para mantermos o “engajamento”. E tem os cortes!

Então, o mundo fica atolado num lamaçal de tolices que camuflam e diluem o que é, realmente, essencial e digno de ser notado, devidamente registrado e, se possível, solucionado.

Se possível porque algumas ações são, a princípio, incorrigíveis.

Um exemplo que assombra e assolará a população cuiabana por um tempo é a eleição do atual prefeito.

Ao escolhe-lo fizeram um bem enorme à Câmara dos Deputados, apesar de sua função a frente da prefeitura de Cuiabá não ter garantido sua ausência total no cenário federal. Ele esteve presente, por exemplo, pra se solidarizar no deplorável episódio da tomada da mesa diretora e do plenário que visava impedir - e chantagear – o ordenamento da pauta dos trabalhos da casa.

O que não é bom para o Brasil não tem sido proveitoso a Cuiabá. A capital de Mato Grosso pagará caro por sua escolha. Seus habitantes sofrerão por alguns anos os reflexos do resultado das urnas eleitorais.

Todos, todas e todes são testemunhas e vítimas do equívoco do jeito de governar adotado pelo atual mandatário. Foi em frente a prefeitura que ele passou mais um recibo do desempenho de sua gestão, vital para o cotidiano da cidade.

Ao apagar as palavras artisticamente escritas num tapume mandou, mais uma vez, a liberdade de expressão (defendida ferozmente como um mantra por sua corrente política) às favas e confundiu a arte popular do grafite com a contravenção da pichação.

Como jurei desviar de problemas, não farei um registro do conjunto da obra que se desenvolve pros lados do Palácio Alencastro.

Foi a maioria do eleitorado da antiga Cidade Verde que decidiu seu destino até 2029! Nas próximas eleições que as escolhas sejam melhores, cuiabanos. Mais cuidadosas para com a urbe que os abriga.

Pra ilustrar a crônica, agora sim, uma piXação (essa, com X) que viralizou nos muros, paredes e tapumes há um tempinho aqui no Rio com uma mensagem sem distinção de gênero.

Sabe o que ela dizia? “NÃO FUI EU”.

E tenho dito...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Minhas regras

Minhas regras

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou enrolando, pra variar. Se tenho um motivo, o prazer de abrir um novo caderninho para rabiscar as crônicas do Sem Fim, outras razões me levam a procurar uma rota de fuga da atividade e da realidade.

A troca de caderninho é a passagem que os leitores fiéis já a reconhecem de outras leituras. Acontece graças ao costume de escrevinhar textos que começou a surgir nas areias da praia do Leme, sempre às sextas, há uns 20 anos atrás). A “Ponta do Leme” foi a primeira série que surgiu, seguida de outras tantas definidas, inicialmente, geograficamente. O “Parador Cuyabano”, a “Fronteira Oeste do Sul” e a sempre abastecida “É Carnaval” estão sendo chuleadas há décadas (ui).

Raramente troquei o caderninho pelo teclado do computador. Não é a mesma coisa. O pensamento flui numa velocidade diferente. Daí eles vão se acumulando, ocupando um espaço considerável na estante. E sabe que me apego ao caderno da vez? Quando vejo que estão chegando ao fim a letra vai diminuindo na intenção de prolongar nossa convivência. Já houve caso do vazio ser tão sentido que falhei na periodicidade evitando a realidade da troca de companheiro. O inevitável a não ser no dia que encerrar a saga do Sem Fim.

Trocar o caderninho demanda adaptações. Passei por vários modelos e formatos. Uns foram espirais, outros não. Sempre capa dura. Maiores ou menores, mas nunca grandes ou pesados demais. Têm que caber nas bolsas. Uns tinham pautas, outros não. Nesses, as linhas imaginárias formavam muitas curvas e poucas retas.

A única coisa que evito na escolha dos caderninhos é que as folhas sejam porosas, que os rabiscos vazem pra a página de trás. Sei a dificuldade que é decifrar o que escrevi na hora de preparar o material para enviá-lo aos parceiros que publicam as crônicas.

Apesar da angústia da busca do caderninho perfeito a chegada do novo companheiro é sempre um prazer. Por isso procuro inaugurá-lo com palavras e pensamentos otimistas e de alegria quando dá.

Esse é um caso que, infelizmente, não dá. Considere as razões que citei no início dessa conversa e as intenções do Sem Fim de manter um vínculo com a realidade.

Ela está horrorosa e piorou mais um pouco com as más intenções eleitoreiras do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. Em busca de votos para fazer seu sucessor no comando da casa, ele cravou um regime de urgência, votado no tempo recorde de 24 segundos, no projeto de lei 1904 do deputado Sóstenes Cavalcante, do PL carioca, que prevê pena de 20 anos para a mulher que fizer aborto após 22 semanas de gestação, nos casos previstos em lei.

Se vamos dar nome aos bois, vale citar que o primeiro da lista dos fundamentalistas que aprovaram a urgência maladeta é o do candidato a prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini. Como Deus está vendo o tamanho dessa aberração espero que a manobra eleitoreira seja a pá de cal na sua pretensão.

Certamente, nenhum dos aqui citados imaginaram o tamanho da reação que a proposta esdrúxula geraria. O estuprador, um dos casos em que o aborto é permitido por lei, é condenado a 10 anos. A estuprada a 20! Foi um sacode na opinião pública. O mote “Criança não é mãe” virou um efeito cascata bombado, inclusive, pelas escolas de samba cariocas. Tão forte como a informação que a cada 8 minutos uma mulher é estuprada, segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher.

E lá se foram as questões que deveriam estar sendo objetos de análise parlamentar enquanto, mais uma vez, a sociedade é jogada numa cruzada moral e ideológica em que o que menos importa é a nossa decisão pessoal,  a das mulheres, atingidas pelos rigores da lei xiita.

Pra mim, danem-se as leis. Sempre foi assim. Meu corpo, minhas regras. Na vida e aqui no novo caderninho fica o registro: NÃO AO PL 1904!

Boa sorte aos eleitores de Cuiabá e aos do Rio de Janeiro também. O Delegado Ramagem, candidato do PL a prefeito de lá, foi outro que votou pela urgência do famigerado projeto.

A campanha eleitoral já começou, infelizmente, com pautas que não dizem respeito às que deveriam ser a maiores preocupações dos futuros prefeitos, suas cidades e o bem estar das populações. A sociedade não merece regredir. Escolham com cuidado seus candidatos, eleitores.

O que for decidido irá para o caderno da História da capital mato-grossense, da Cidade Maravilhosa e é sua responsabilidade também!

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Sol e Chuva com você


Sol e chuva com você

Texto e foto de Valéria del Cueto
Pluct Plact totalmente ambientado, definitivamente à vontade, se sentindo quase em casa, está impregnado do espírito carioca. Só quando ele baixa é capaz de turbinar seus sentidos sem perder a consciência do paraíso presente quase perdido. Se não for assim... é desespero! Bem que tentou se aprofundar, encontrar os princípios, delinear teorias, estabelecer parâmetros, enquadrar os conceitos básicos que permitem a sobrevivência no cenário espetacular de uma cidade em processo de falência existencial. Desistiu.

Só a encantaria pregada e estudada pelo professor e historiador Luiz Antônio Simas, entrincheirado no Bode Cheiroso, pé sujo de subúrbio do Rio de janeiro, para explicar o fenômeno. E, como extraterrestre, Pluct Plact sabe reconhecer os efeitos desse processo!

Imbuído de sua missão de olheiro das penúltimas, últimas e imprevisíveis possíveis novidades do mundo exterior para sua amiga e confidente, a cronista mais que nunca voluntariamente enclausurada do outro lado do túnel, mudou um pouco seu local de pouso escrevinhante. Trocou a Pedra do Arpoador pelo famoso Posto 9, entre a Vinícius e a Joana Angélica, na praia de Ipanema.

Cariocamente caminhado pela orla foi atraído pelo som do sax de um grupo que se apresentava na Vieira Souto. Não, não é o barulho chato de bate estacas imposto pelo evento da cerveja Itaipava no Arpoador! Sem direito a DJ pop e desperdício de infra, o instrumento era acompanhado pelo baixo e a bateria da Dub Club Band. Arrancou aplausos e assobios entusiasmados nos intervalos de quem parou para apreciar os improvisos jazzísticos encerrados no embalo de Alceu Valença: “Não, não quero mais brincar de sol e chuva com você...não suporto mais brincar...”

O recado faz Pluct Plact voltar à sua missão (delicada, diga-se de passagem) de na fresta da lua levar as f(r)estas das ruas à cela da cronista.

Tá fácil começar pela Copa da Rússia. A que será lembrada pela atuação impecável do Santo dos Bolões Perdidos. E foram muitos. Especialmente se considerarmos que, apesar de no início não levar muito a sério a participação brazuca no certame, o bolão sempre foi de fé!

Com o passar dos jogos da primeira fase, vagarosamente, o espírito da festa só não pegou mais que o sarampo. Aquele que, depois de erradicado do território nacional, volta a fazer vítimas a torto e a direito. Nas oitavas já não existia amanhã. A pátria vestia as chuteiras da seleção, gemia e rolava junto a cada presepada do rapaz que torrava o coco a cada troca de cor dos cabelos e respectivo penteado, quer dizer, a cada partida disputada.

Enquanto isso, livres leves e soltos os de sempre tramavam e executavam seus planos pré-eleitorais fazendo e acontecendo em benefício dos parças nas barbas da pátria distraída com a competição esportiva.

Mas, pra variar, começam a botar o carro na frente dos bois e, quando o assunto passou a ser se os campeões do mundo visitariam ou não a capital federal, eis que a Bélgica enquadrou a nação e colocou no devido lugar o escrete canarinho.

Não sem antes permitir que alguém tivesse a luz de gravar o ágape matutino oferecido pelo prefeito do Rio de Janeiro, o bispo licenciado porém ativo e operante (como ouvimos) da igreja Universal, Marcelo Crivella. Eis que foi introduzido no imaginário carioca sua mais nova musa. A Márcia! Obreira e funcionária indicada nos registros de áudio como contato para agilizar operações de catarata, vasectomias e demandas na saúde municipal, quase uma São Pedro. Detentora das chaves do paraíso do furo das filas quilométricas do sistema de regulação da saúde. Ao Dr. Milton coube a função de trazer para perto dos templos dos 250 pastores presentes interessados quebra-molas e pontos de ônibus...

Para resumir, porque a fresta de luar não dura para sempre, uma última efeméride. O surpreendente domingo ioiô de Lula. “Libertado” por um juiz de plantão nas férias do judiciário, enquadrado por Moro, liberado de novo pelo plantonista, mantido na cadeia pelo relator do processo. Depois do juiz dar prazo de uma hora para que a Polícia Federal o soltasse, o ex-presidente acabou permanecendo na sede da Federal de Curitiba após mais uma contraordem. Dessa vez, do presidente da tchurma. Um fica-e-sai que movimentou o feriado emendado frustrado, já que terça não será mais folga com a eliminação do Brasil...

Fechando o informe, aquele lembrete que, certamente, arrancará da cronista seu melhor sorriso: o Mengão continua líder!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM...delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Sol e chuva com você


Sol e chuva com você

Texto e foto de Valéria del Cueto
Pluct Plact totalmente ambientado, definitivamente à vontade, se sentindo quase em casa, está impregnado do espírito carioca. Só quando ele baixa é capaz de turbinar seus sentidos sem perder a consciência do paraíso presente quase perdido. Se não for assim... é desespero! Bem que tentou se aprofundar, encontrar os princípios, delinear teorias, estabelecer parâmetros, enquadrar os conceitos básicos que permitem a sobrevivência no cenário espetacular de uma cidade em processo de falência existencial. Desistiu.

Só a encantaria pregada e estudada pelo professor e historiador Luiz Antônio Simas, entrincheirado no Bode Cheiroso, pé sujo de subúrbio do Rio de janeiro, para explicar o fenômeno. E, como extraterrestre, Pluct Plact sabe reconhecer os efeitos desse processo!

Imbuído de sua missão de olheiro das penúltimas, últimas e imprevisíveis possíveis novidades do mundo exterior para sua amiga e confidente, a cronista mais que nunca voluntariamente enclausurada do outro lado do túnel, mudou um pouco seu local de pouso escrevinhante. Trocou a Pedra do Arpoador pelo famoso Posto 9, entre a Vinícius e a Joana Angélica, na praia de Ipanema.

Cariocamente caminhado pela orla foi atraído pelo som do sax de um grupo que se apresentava na Vieira Souto. Não, não é o barulho chato de bate estacas imposto pelo evento da cerveja Itaipava no Arpoador! Sem direito a DJ pop e desperdício de infra, o instrumento era acompanhado pelo baixo e a bateria da Dub Club Band. Arrancou aplausos e assobios entusiasmados nos intervalos de quem parou para apreciar os improvisos jazzísticos encerrados no embalo de Alceu Valença: “Não, não quero mais brincar de sol e chuva com você...não suporto mais brincar...”

O recado faz Pluct Plact voltar à sua missão (delicada, diga-se de passagem) de na fresta da lua levar as f(r)estas das ruas à cela da cronista.

Tá fácil começar pela Copa da Rússia. A que será lembrada pela atuação impecável do Santo dos Bolões Perdidos. E foram muitos. Especialmente se considerarmos que, apesar de no início não levar muito a sério a participação brazuca no certame, o bolão sempre foi de fé!

Com o passar dos jogos da primeira fase, vagarosamente, o espírito da festa só não pegou mais que o sarampo. Aquele que, depois de erradicado do território nacional, volta a fazer vítimas a torto e a direito. Nas oitavas já não existia amanhã. A pátria vestia as chuteiras da seleção, gemia e rolava junto a cada presepada do rapaz que torrava o coco a cada troca de cor dos cabelos e respectivo penteado, quer dizer, a cada partida disputada.

Enquanto isso, livres leves e soltos os de sempre tramavam e executavam seus planos pré-eleitorais fazendo e acontecendo em benefício dos parças nas barbas da pátria distraída com a competição esportiva.

Mas, pra variar, começam a botar o carro na frente dos bois e, quando o assunto passou a ser se os campeões do mundo visitariam ou não a capital federal, eis que a Bélgica enquadrou a nação e colocou no devido lugar o escrete canarinho.

Não sem antes permitir que alguém tivesse a luz de gravar o ágape matutino oferecido pelo prefeito do Rio de Janeiro, o bispo licenciado porém ativo e operante (como ouvimos) da igreja Universal, Marcelo Crivella. Eis que foi introduzido no imaginário carioca sua mais nova musa. A Márcia! Obreira e funcionária indicada nos registros de áudio como contato para agilizar operações de catarata, vasectomias e demandas na saúde municipal, quase uma São Pedro. Detentora das chaves do paraíso do furo das filas quilométricas do sistema de regulação da saúde. Ao Dr. Milton coube a função de trazer para perto dos templos dos 250 pastores presentes interessados quebra-molas e pontos de ônibus...

Para resumir, porque a fresta de luar não dura para sempre, uma última efeméride. O surpreendente domingo ioiô de Lula. “Libertado” por um juiz de plantão nas férias do judiciário, enquadrado por Moro, liberado de novo pelo plantonista, mantido na cadeia pelo relator do processo. Depois do juiz dar prazo de uma hora para que a Polícia Federal o soltasse, o ex-presidente acabou permanecendo na sede da Federal de Curitiba após mais uma contraordem. Dessa vez, do presidente da tchurma. Um fica-e-sai que movimentou o feriado emendado frustrado, já que terça não será mais folga com a eliminação do Brasil...

Fechando o informe, aquele lembrete que, certamente, arrancará da cronista seu melhor sorriso: o Mengão continua líder!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM...delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Deu bolero no samba

Deu bolero no samba

Encontro do Samba lota a orla carioca no primeiro sábado do ano
Texto e fotos de Valéria del Cueto
Graças a Deus o tempo estava nublado! O que não evitou que o mormaço da tarde de verão, na espera pelo horário do início do desfile do “Encontro do Samba” na pista da orla da Avenida Atlântica, Copacabana, deixasse os rostos das passistas e porta-bandeiras das 13 escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro salpicados de gotas de suor, antes seguirem em direção ao palco montado para o réveillon carioca, em frente ao Copacabana Palace.

O evento inédito foi promovido pela Prefeitura, por meio da Riotur, no sábado, 6 de janeiro, e faz parte do calendário “Rio de Janeiro a Janeiro”. Reuniu ritmistas das agremiações, parte saindo da Avenida Princesa Isabel e o restante da Figueiredo de Magalhães, para uma apresentação com a Orquestra Petrobrás Sinfônica que já vem popularizando seu trabalho de renovação de público e acesso à música erudita, sob a regência do Maestro Isaac Karabtchesky. Também participaram da festa os sambistas Martinho da Vila, Alcione, Diogo Nogueira e Iza, a cantora pop.

O cortejo
Montadas as “alas” de baterias, cada escola teve direito a cinco minutos de “esquenta” mostrando de forma livre o suingue das agremiações e das passistas selecionadas, encabeçadas pelas bandeiras e seus respectivos guardiões.

O público, separado da pista por grades, se acotovelou para acompanhar o percurso embalado por sambas antigos. Ironicamente, a seleção musical começou pelo emblemático samba de Beto Sem Braço e Aluísio Machado BUM BUM, PRATICUMBUM, PRUGURUNDUM, da escola campeã em 1982, Império Serrano. Diz a famosa composição: “Super Escola de Samba S/A, super alegorias, escondendo gente bamba, que covardia!”

Para um espetáculo transmitido para TV, no caso pelo Multishow, está comprovado que 40 minutos de desfile, sem o restante do corpo das escolas de samba, está de bom tamanho. Depois, foi subir para o palco e se posicionar. Antes que a frágil grade que separava o público fosse rompida ou que os mais entusiasmados, avançando pela pista atrás das escolas campeãs (esse ano foram duas, Portela e Mocidade) que fechavam o cortejo, conseguissem ultrapassar a barreira da segurança.


Você ouviu algum samba enredo recente, dos últimos anos? Claro que não, porque o repertório se limitou a standards e clássicos. Foi asséptico. Como todo o espetáculo, diga-se de passagem.

No palco
Sob o impacto de “Also Sprach Zarathustra”, de Richard Strauss, popularizada na abertura do filme “2001, uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, o Maestro Isaac Karabtchevsky abriu espetáculo no palco central, em formato de pandeiro, acoplado a uma super alegoria visual concebida por Abel Gomes. A curadoria musical foi de Guto Graça Mello e a direção coreográfica dos casais que conduziam os pavilhões ficou a cargo de Carlinhos de Jesus.

Alcione, Martinho da Vila, Diogo Nogueira e Iza se revezaram interpretando antigos clássicos como “Aquarela do Brasil”, “Não deixa o Samba Morrer” e medleys de Cartola, Ataulpho Alves e Dona Ivone Lara. A composição mais recente do repertório foi “Deixa a Vida Me Levar”, de Sergio Meriti e Eri do Cais. Popularizada por Zeca Pagodinho, ela embalou a seleção brasileira de futebol no penta de 2002.


Bolero no samba
A parte mais original do espetáculo foi a apresentação do “Bolero”, de Ravel, pela orquestra Petrobrás Sinfônica e as baterias posicionadas no entorno do palco principal. Lucinha Nobre e Marlon Lamar, improvisaram uma performance “adornando” a música com passos e piruetas típicos da dança dos casais de mestre-sala e porta-bandeira. Em seu perfil no facebook, a dançarina com formação clássica, conta que estava brincando durante o ensaio, reproduzindo gestos que ela lembrava da coreografia de Maurice Bejárt. Carlinhos de Jesus perguntou se ela toparia fazer os movimentos na apresentação. Mais tarde, Lucinha enviou para o parceiro um vídeo com a performance antológica dos bailarinos Jorge Don e  Maya Plisetskaya. Nela, o casal portelense se inspirou para arrebatar o público.

Em tempo: a porta-bandeira dedicou o momento tão especial aos bailarinos do Teatro Municipal que enfrentam tempo difíceis, assim como todo o funcionalismo do estado do Rio.

As reações
Pelo caminho, conversando com os espectadores colados nas grades, dava para sentir que o programa agradou, mas não substituiu os finais de semana que antecedem o carnaval na Sapucaí. “Serviu como aperitivo, mas é pra gringo ver”, analisou uma entusiasmada torcedora da Mocidade Independente, fazendo sua crítica para a amiga de toda a vida, turista de Belém do Pará que acabara de conhecer e soube por acaso do programa inédito: “Imagina ver a escola inteira e ainda mais cantando o samba desse ano”, sonhava. “Está dando pro gasto, mas não satisfaz”, finalizou.

A resposta foi complementada por um vendedor ambulante que fez questão de dar seu pitaco: “Não foi dessa vez que o prefeito Crivella fez as pazes com o povo do samba. Está todo mundo insatisfeito”.

A maior voz dessa insatisfação veio de Neguinho da Beija-Flor que se recusou a participar do evento e fez questão de se posicionar: “Na hora de fazer festa na Avenida Atlântica, esse “Encontro do Samba”, eles lembram das escolas. Mas pro desfile cortaram a verba pela metade, atrasaram os preparativos do espetáculo, deixaram centenas de profissionais sem trabalho, porque as escolas foram pegas de surpresa com o corte e tiveram que reduzir o pessoal. E as escolas da Série A e as que desfilam na Intendente Magalhães, que não receberam nada até agora? Por essas e por outras, é que tô fora”

Se é para gringo ver, eles devem ter gostado muito. Mas, para a maioria carioca dos 400 mil espectadores que lotou a orla de Copacabana, o espetáculo deixou um gosto de queremos mais. Ou melhor: queremos os ensaios técnicos da Sapucaí de volta...




*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É Carnaval”, do SEM FIM 

sábado, 8 de outubro de 2016

Lágrimas de nossa, senhora

Lágrimas por nossa, senhoraLágrimas por nossa, senhora

Texto e foto de Valéria del Cueto
Na falta de solução, apelemos para a gentileza. Vamos pregar a delicadeza. Porque não, não está fácil pra ninguém.

A constatação é de Pluct Plact, aquele extraterrestre extraviado no planeta Terra, sem chance imediata de retorno para qualquer lugar menos lunático da galáxia.

Bem que ele tentou como paliativo uma vaguinha junto a sua amiga cronista, voluntariamente isolada já tem um tempo numa “invernada”, do outro lado do túnel (é seu correspondente, único contato com o mundo exterior). Mas a lotação anda esgotada, com uma imensa fila de terráqueos querendo vaga no lugar. Como alienígena juramentado, não conseguiu sequer fazer sua inscrição. Chegaram a conclusão que de louco, ele não tinha nada.

Uma pena. Isso o obrigou a acompanhar mais uma eleição  para poder contar na próxima visita, entre outras novidades, que passado o limpa banco eleitoral, vem aí um refresco até a votação do segundo turno.

Pelo menos em 55 cidades com mais de 200 mil eleitores divididos (onde os candidatos não alcançaram maioria simples mais um), haverá chance de uma discursão mais aprofundada sobre o modelo de gestão a ser adotado.

Não que adiante muito em alguns lugares. No Rio, tédio... Vai dar Marcelo. Crivella ou Freixo. Oito ou oitenta. Com muitas ausências, votos nulos e brancos entre os extremos.
Sobre São Paulo pretende nem citar, se ela não perguntar...

Um pedido garantido da reclusa será um rápido painel do seu Mato Grosso. Momento de tensão. Pra começar, a inacreditável sinalização referente a  participação feminina no pleito. Dos 141 municípios, 15 prefeitas se elegeram. Delas, 12 são marinheiras de primeira viagem no cargo. Parece pouco?

Nos legislativos elas ocuparão reles 12,93% das cadeiras. 42 localidades não têm nenhuma única mulher na câmara municipal! Santa Carmem é o único município do estado em que estão em maioria ocupando 5, das 9 vagas. Informações do jornalista Eduardo Gomes.

E quanto ao segundo turno na capital, assunto de interesse geral? Em Cuiabá, entre Emanuel Pinheiro, do PMDB, e Wilson Santos, do PSDB. Lá, como no Rio e São Paulo, a ausência foi campeã de votos no primeiro turno. É difícil saber quem é o mais do mesmo.

Sim, Emanuel, do PFL, para o PDT (onde costurou o apoio do partido a candidatura de Wilson Santos à prefeitura, conta seu site), na Secretaria de Trânsito e Transportes Urbanos do prefeito eleito... Wilson Santos. Vai pro PL, PR e, finalmente para o PMDB de... Carlos Bezerra.

Já Wilson Santos abre os trabalhos no PMDB de... Carlos Bezerra, como vereador. Passa para o PDT e depois para o PSDB. Prefeito por um mandato e meio.

Tudo parecido. Wilson diz que é Dante. Emanuel é Jonas Pinheiro. Emanuel é Blairo que governava quando Wilson era prefeito. Que é Pedro Taques. Wilson só não é Mauro Mendes e esse jamais será Wilson, se nem agora assumiu. Mas são do mesmo grupo político, captou?

A parte boa é que há mais tempo para conhecer as características dos postulantes e suas propostas.

Isso, enquanto o mundo continua girando e a história é atropelada pelos acontecimentos. O Brasil está... Melhor deixar pra lá. Vamos manter o ânimo elevado.

Como Pluct, Plact é otimista, idealiza um período de depuração. Considera que pior não pode ficar.Então o jeito é peneirar. O problema é: peneirar o que?

Os surpreendentes sinais de que há humanidade no meio de tanta crueldade, sugere. Pequenas sutilezas. Como as miúdas Lágrimas de Nossa Senhora fotografadas (colher jamais) para a amiga. Elas florescem! Num pé de árvore numa rua qualquer de Copacabana...  
flor-sa-ferreira-161006-img_20161006_125423888_29528144743_o
Studio na Colab55

domingo, 28 de julho de 2013

Quem vai querer?

d8829-lemepapa130723109gradeprincesaisabelguardachuvaambulante

Texto e foto de Valéria del Cueto
Somos uma ilha cercada de peregrinos na nossa única saída. O resto vocês já sabem: morro, pedra e mar.

Estamos abençoados por tabela e ricochete. Não precisa nem chegar no palco Rock in Rio de Francisco.

Ele nem deve ter notado os “patrocinadores” pendurados em seu cangote. Nextel na concepção “solideridade” do VT exaustivamente exibido e Rock in Rio na Cidade da Fé e outras alusões conceituais. 

Os de sempre, né, gente? Devem ter sido chamados a colaborar, mas como o Vaticano já tem seus próprios e apropriados apoiadores, tipo  Allitália e Fiat - italianos como o Vaticano  original - tiveram que se desdobrar pra pegar uma beira no merchandising de Francisco.

Um destaque especial para a Coca-Cola que colou seus adesivos nos isopores de água e refri. Por que cerveja, nem pensar! (evento no Rio sem cerveja?)

E foi pensando nesses detalhes que resolvi desenvolver a crônica de adieu a Francisco. O cara, sem dúvida, é gente boa. Além da benção e do perdão dos pecados conseguiu o milagre de apagar as propagandas explícitas invasivas e de mau gosto que pululam nos eventos na Cidade Maravilhosa. Provou que dá pra fazer a festa sem escancarar e empurrar goela abaixo a poluição visual que descaracteriza o Rio a cada nova atração.

No quesito decoração é assim que o Rio deveria ser se não fossem os vendilhões de cabeça curta e bolso largo. Os que não se dão conta que ao encher o Rio de penduricalhos cada vez mais acintosos e invasivos, só depõem contra nossa beleza natural, desvalorizam nosso corpinho.

Mal comparando, é a nobreza aristocrática de Paris (já viu banner na Torre Eiffel? Propaganda no Arco do Triunfo?) perto da Garota de Ipanema, transformada em quenga de quinta carioca. Aquela que se depender de seus gestores, abre as pernas e empresta seu corpo pra qualquer um que aparece com um troquinho. Não para a cidade, mas para os amigos.

Pois esse é um dos legados de Francisco que tantas coisas nos ensinou e com tanto carinho nos tratou: a prova de que é possível, sim, realizar festa sem vender nosso patrimônio visual, sem poluir a cidade com tanta propaganda invasora.

Quanto mais limpo melhor e mais caro. Aproveitamos para botar os publicitários de plantão para exercerem seu papel que é criar, inventar alternativas mais atraentes e menos poluentes.

Foi quando vi a caixa de isopor padrão que escolhi qual seria meu olhar (míope) quando saísse pra fazer fotos: procuraria o Rio entre os ambulantes.

Afinal, é possível sentir o pulsar da cidade por suas ofertas. Isso não é novidade. Debret já retratava os ambulantes em 1800 e lá vai pedrinha.

As condições do tempo e temperatura impuseram os hits da temporada: guarda-chuva e capa. As cangas, especialmente as da bandeira do Brasil, viraram proteção para o frio. Acho que se estivesse fazendo um calorzinho a tendência teria sido mais, digamos, liberal. Não que as moças usassem biquínis, mas um topzinho básico ia rolar. Depois, confessionário! Um item bem avaliado foram os banquinhos de quinze reais, pra quem não quisesse sentar na areia úmida. 

A essa altura eu já estava preocupada. Onde andavam os produtos tipicamente cariocas? (A estampa da sombrinha/cartão postal não conta). Rodei bastante até achar um vendedor de Biscoito Globo. Quanto ao Mate Leão, tão genuíno... Lamento informar. Procurei muito. Mas mate por aqui, só a erva (mate) do chimarrão oferecido por um peregrino a  Francisco, o Papa argentino mais brasileiro do mundo.

925a4-lemepapa130723042ambulantebiscoitoglobo

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

domingo, 9 de junho de 2013

Espelho, espelho seu...

Texto e foto de Valéria del Cueto
Quando a “coisa” começa assim meio marola já sei que vou ter que rebolar fazer crescer a onda que costuma rebentar toda semana nesse espaço privilegiado. Não é falta de assunto, gente. São tantas opções...

Parece que o mundo está caindo na cabeça de escrivinhadores como eu essas semanas. Primeiro, com a informação de que redações importantes do país e do exterior estão demitindo seus jornalistas e fechando veículos. Segundo ,com as notícias mundiais dão conta que estão mandando seus fotógrafos 
para casa e passando o trabalho de registro de imagens para os... jornalistas.

Não é um caso isolado. O que me faz pensar que há sim, uma mudança “climática” abalando o mundo dos veículos de comunicação espalhados mundo a fora.

É ruim? Não sei não... Faz tempo que procuro novos formatos de distribuição de conteúdo. Trabalho possibilidades com bases mais gerais e brinco de pique como com nichos direcionados. Atiro em várias direções em busca de novos mares e picos onde possamos deslizar e interagir com novas tecnologias.

Afinal, se o formato jornalístico que dominou o mercado está se esgotando, alguém precisa fazer expedições precursoras, tentar descobrir para onde irá essa onda. A onda das informações. Um tsunami querendo se espraiar.

Uma coisa é certa: pode haver falta de empregos para jornalistas nos veículos... jornalísticos mas a necessidade de conteúdo de qualidade além de não haver diminuído, só tende a aumentar.

O mundo via internet e outros meios, está ávido de saber. E quem detiver a informação e conseguir filtrá-la e traduzi-la para seu público alvo estará nadando de braçada nessa nova era.

Assim como eu, os jornalistas sentirão saudades do antigo formato. É horrível ver seus postos ocupados por copiadores de releases assessóricos, sem ao menos uma checagem básica nas informações contidas nos mesmos. Só pra citar um problema crônico e intransferível. 

Tenho visto coisas de doer. E que ninguém contesta. Quem se limita a reproduzir as barbaridades recebidas, sem checar a veracidade do conteúdo, corre o risco de vender a ignorância alheia sem titubear.

Vou citar um fato como exemplo: a incrível e relevante notícia de que “pela primeira vez” na história da capital do maior estado do centro-oeste a bandeira de São Benedito (aquele) havia entrado na sede do paço municipal em questão. Do jeito que a informação veio da assessoria do novo prefeito foi três palitos: imediatamente reproduzida por órgão de imprensa, sem dó nem piedade com os festeiros de anos anteriores que, sim, sempre levaram a bandeira e a coroa para abençoarem antigos prefeitos e a sede do órgão municipal.

E olha que não precisava ir muito longe para alcançar as pernas curtas da mentira pregada assim, na maior cara de pau! Uma simples e singela busca no google indicaria que por ali já passaram várias bandeiras do santo, sempre empunhadas pelos festeiros do ano que, como eu, rezam – e muito – para que os caminhos municipais se abram, não apenas para os amigos do rei mas para toda a população da cidade a quem, em primeira e última análise, o alcaide jurou servir.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador cuyabano”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

sábado, 4 de agosto de 2012

A segurança e a lei - o desafio




Há um código de normas de segurança, sinalização e acessibilidade para a realização de intervenções de conservação no município do Rio de Janeiro.

A pergunta é: quantas irregularidades podem ser observadas na "ação" da Secretaria Municipal de Conservação de Obras, sob a batuta do prefeito Eduardo Paes, registrada na rua Nossa Senhora de Copacabana, na altura da Bolívar, nos flagrantes feitos numa tarde do no final de julho?

* fotos de Valéria del Cueto