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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Crônica de um quase carnaval

Crônica de um quase carnaval

Texto e foto de Valéria del Cueto
Demorou a hora de falar do carnaval. Foram tantos os percalços nessa temporada que o ano passou enquanto esperávamos no que iam dar.

Teve virada e desvirada de mesa na Liga da Escolas de Samba, a Liesa. Jorge Castanheira, seu presidente, quase foi e voltou. A Imperatriz Leopoldinense, rebaixada em 2019, fez o que podia para ficar no Grupo Especial, mas a manobra foi mal sucedida. Desceu pro Acesso e trouxe para desenvolver seu enredo reprisado “Só dá Lalá”, o carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira. Há males que vem pra bem. O realinhamento pode ser uma excelente oportunidade para a escola de Ramos.

Enquanto isso, as escolas aguardavam as decisões das esferas governamentais. Do mato da Prefeitura do Rio de Janeiro, sob o comando de Marcelo Crivella, já se imaginava que pouco ou nada surgiria.
Houve, inclusive, uma tentativa de entregar o Sambódromo para o Estado. O governador Wilson Witzel ficou animado. Mas na véspera da assinatura do convênio, dia 8 de novembro de 2019, a Procuradoria Geral do Município desaconselhou a iniciativa. Alegando que a transferência poderia ser contestada na justiça, já que feita sem a consulta ou o aval do legislativo municipal, cancelaram a cerimônia que aconteceria no Sambódromo.

Atentem para o fato que já era novembro e nada do comprometido no Termo de Ajuste de Conduta. O TAC, firmado entre o MP, a Prefeitura e a Liesa para a realização do desfile de 2019, incluía uma série de obras estruturais na Passarela do Samba. A urgência era maior já que os cuidados com a conservação deixam a desejar desde a última reforma, em 2012.

As obras foram, finalmente, anunciadas dia 13 de novembro. Um mês depois o Ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio e o deputado Flávio Bolsonaro tiravam fotos na Apoteose anunciando os repasses.

Na virada do ano, a prefeitura anunciou a abertura de “50 dias de carnaval” com o Bloco da Favorita, em Copacabana. Pegos de surpresa, agentes públicos de segurança, saúde e limpeza avisaram que não tinham contingente para atender um mega evento em cima do laço. Entre o libera, não libera, a Justiça decidiu que o bloco gigante não poderia se locomover, apenas se apresentar no palco. As cenas lamentáveis do final da festa, com enfrentamento entre polícia e ambulantes e foliões, percorreram o mundo.

A previsão informada na mesma coletiva da Riotur de que o Sambódromo seria entregue no dia 30 de janeiro já era, por si só, uma indicação da falta de planejamento do poder público. Em anos anteriores os ensaios chegaram a começar logo depois do dia Nacional do Samba, 5 de dezembro. Como buscar patrocinadores sem a garantia da entrega do espaço? A Liesa bem que tentou.

Mas podia piorar? Sim. Retardando a entrega da verba para as escolas da Intendente Magalhães (em setembro anunciou que iria triplicar o valor, passando para R$3 milhões). Crivella só efetivou o pagamento dia 13 de fevereiro.

Junto com o atraso das obras do sambódromo houve uma inversão dos gastos com as Escolas de Samba. As dos grupos que desfilam na Sapucaí não receberam subvenção da prefeitura. Essas agremiações vendiam seus ingressos, as da Intendente não. Ruim para o Grupo Especial, com mais viabilidade de patrocínios e venda de transmissão, péssimo para o Acesso com muito menos visibilidade.

Sem ensaios técnicos, com São Paulo dando banho na organização da festa, o final de semana que antecede o carnaval foi esperado com ansiedade pelos sambistas cariocas. O dia do ritual de lavagem da pista e o ensaio da escola campeã, no teste de luz e de som da Sapucaí é de lei. Necessário para “afinar” a estrutura da passarela.  Pois acredite, na sexta-feira ainda não havia confirmação da liberação da Sapucaí. A Riotur informou na véspera: “Na madrugada deste sábado, 15 de fevereiro, o Sambódromo foi liberado para a realização do evento de teste de luz e som com a campeã do Carnaval de 2019 e a tradicional lavagem da Marquês de Sapucaí para domingo”. E choveu a cântaros na hora da lavagem.

Em tempo: o prefeito Marcelo Crivella avisou que “por não saber sambar” não comparecerá aos desfiles.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Tartarugas no Caminho

Tartarugas no Caminho

Texto, vídeos e fotos de Valéria del Cueto

Não sou a única que respira melhor na Ponta. Outro dia tartarugas escolheram, como eu, a Pedra do Leme para relaxar. As águas claras e transparentes serviram de cenário para o bailado das meninas. Cheguei lá pelas duas da tarde e acabei perdendo a hora na marola do sábado.

Não era uma, nem duas. Filmei três e vi outra fora de quadro. Para poder gravar e fotografar tive que me integrar ao ambiente. Havia chegado no final do Leme em busca do melhor lugar que conheço para refletir (sem desmerecer outros sensacionais). O que diferencia, para mim, a Ponta do Leme das outras pontas, como a do Arpoador, é a minha pedra, o monólito vigilante da Praia de Copacabana.

Em vários momentos, abraçar a Pedra do Leme foi a maneira que encontrei de me conectar a natureza e, dela, tirar forças e ensinamentos transmitidos por sinais que me situam nesse universo. É ali, sentindo seu calor que recebo forças vitais pelo ar, a água, a terra e o calor do sol. Tudo interligado com o bloco mineral que se projeta na paisagem.

Não é só lá que dialogo com a natureza. É isso mesmo, eu me aproximo com minhas dúvidas, incertezas e imprecisões e ela me responde em sua essência. Tipo os sinais de fumaça dos índios, vistos a muita distância, contanto que o tempo colabore. Há que estar em sintonia.

Já tinha esse sistema de mensagens inserido no inconsciente. Me lembro, muito garota, de num momento crucial ter ido para a Praia de Copacabana, no posto 6. Era um dia muito feio, mas estava precisando dialogar comigo mesma. Vestia um suéter verde musgo do meu pai. Caso a chuva anunciada despencasse, certamente ele seria não só inútil como, também, viraria um pano de chão, daqueles que absorvem a água e a gente torce no balde.

Pois foi só chegar num banco, perto do que hoje mora Carlos Drummond de Andrade, para que algo acontecesse nos céus. Por incrível que pareça, chovia pra todos os lados, menos no caminho até o Forte Copacabana. Nunca entendi o fenômeno, mas não demorei muito a captar a mensagem. 

Mesmo que o entorno sofresse muitos abalos, o meu equilíbrio se manteria intacto. Sacudido, claro, mas ele suportaria o tranco.

Foi no Pantanal, entre Cáceres e Corumbá, na viagem da Expedição do Sem fim... do Paraguai, que aprendi com o Chicão, um dos piloteiros, a observar outros sinais. Ele me mostrou as estrelinhas sorrindo no imenso céu pantaneiro. A instrução se complementou na Ilha do Brandão, em Angra do Reis. Lá, Dona Maria me explicou como o ronco de setembro podia definir as ressacas de fevereiro. Se a natureza manda recados, por que não usá-los e lê-los, como mensagens mais diretas?

É claro que não vale a gente pensar só na gente. Funciona melhor quando estamos firmando em energias coletivas. Mas, vez em quando, acredito num recado personalizado. Ultimamente ando lendo as nuvens que se formam para as bandas dos Dois Irmãos, ao lado do Vidigal, depois da curva do Leblon, vista de Ipanema.

Foi com esse espírito que dobrei a curva no início da orla de Copacabana, subindo a rampa para alcançar a estátua de Clarice Lispector na linha dos quiosques, contornando a Pedra do Leme. E, ali, parei diante de uma alteração na paisagem...


Pasmem, agora a Comlurb, a do prefeito Marcelo Crivella, está usando o espaço na areia colado no acesso ao Caminho dos Pescadores como “parque” dos maquinários que usa na limpeza da praia. Os equipamentos, além de poluirem o visual, agridem o meio ambiente. São motorizados. Qualquer vazamento cai direto na areia da praia! A Comlurb e uma penca de secretarias municipais devem explicações e, também, tomar providências urgentes para acabar com essa agressão a um dos mais lindos cartões postais do Rio de Janeiro!

Tudo isso para alcançar o paraíso e, nele, encontrar as tartarugas, cardumes de peixinhos e outros exemplares da vida marinha ali, ao alcance de nossos sentidos.

E chego lá, na mensagem prometida. Ela indica que assim como as tartarugas centenárias... nós ficaremos, eles passarão! Qual as lebres de Esopo e La Fontaine nas suas fábulas, podem até te largado na frente, mas estão indo com muita sede ao pote...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com


Studio na Colab55

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Sol e Chuva com você


Sol e chuva com você

Texto e foto de Valéria del Cueto
Pluct Plact totalmente ambientado, definitivamente à vontade, se sentindo quase em casa, está impregnado do espírito carioca. Só quando ele baixa é capaz de turbinar seus sentidos sem perder a consciência do paraíso presente quase perdido. Se não for assim... é desespero! Bem que tentou se aprofundar, encontrar os princípios, delinear teorias, estabelecer parâmetros, enquadrar os conceitos básicos que permitem a sobrevivência no cenário espetacular de uma cidade em processo de falência existencial. Desistiu.

Só a encantaria pregada e estudada pelo professor e historiador Luiz Antônio Simas, entrincheirado no Bode Cheiroso, pé sujo de subúrbio do Rio de janeiro, para explicar o fenômeno. E, como extraterrestre, Pluct Plact sabe reconhecer os efeitos desse processo!

Imbuído de sua missão de olheiro das penúltimas, últimas e imprevisíveis possíveis novidades do mundo exterior para sua amiga e confidente, a cronista mais que nunca voluntariamente enclausurada do outro lado do túnel, mudou um pouco seu local de pouso escrevinhante. Trocou a Pedra do Arpoador pelo famoso Posto 9, entre a Vinícius e a Joana Angélica, na praia de Ipanema.

Cariocamente caminhado pela orla foi atraído pelo som do sax de um grupo que se apresentava na Vieira Souto. Não, não é o barulho chato de bate estacas imposto pelo evento da cerveja Itaipava no Arpoador! Sem direito a DJ pop e desperdício de infra, o instrumento era acompanhado pelo baixo e a bateria da Dub Club Band. Arrancou aplausos e assobios entusiasmados nos intervalos de quem parou para apreciar os improvisos jazzísticos encerrados no embalo de Alceu Valença: “Não, não quero mais brincar de sol e chuva com você...não suporto mais brincar...”

O recado faz Pluct Plact voltar à sua missão (delicada, diga-se de passagem) de na fresta da lua levar as f(r)estas das ruas à cela da cronista.

Tá fácil começar pela Copa da Rússia. A que será lembrada pela atuação impecável do Santo dos Bolões Perdidos. E foram muitos. Especialmente se considerarmos que, apesar de no início não levar muito a sério a participação brazuca no certame, o bolão sempre foi de fé!

Com o passar dos jogos da primeira fase, vagarosamente, o espírito da festa só não pegou mais que o sarampo. Aquele que, depois de erradicado do território nacional, volta a fazer vítimas a torto e a direito. Nas oitavas já não existia amanhã. A pátria vestia as chuteiras da seleção, gemia e rolava junto a cada presepada do rapaz que torrava o coco a cada troca de cor dos cabelos e respectivo penteado, quer dizer, a cada partida disputada.

Enquanto isso, livres leves e soltos os de sempre tramavam e executavam seus planos pré-eleitorais fazendo e acontecendo em benefício dos parças nas barbas da pátria distraída com a competição esportiva.

Mas, pra variar, começam a botar o carro na frente dos bois e, quando o assunto passou a ser se os campeões do mundo visitariam ou não a capital federal, eis que a Bélgica enquadrou a nação e colocou no devido lugar o escrete canarinho.

Não sem antes permitir que alguém tivesse a luz de gravar o ágape matutino oferecido pelo prefeito do Rio de Janeiro, o bispo licenciado porém ativo e operante (como ouvimos) da igreja Universal, Marcelo Crivella. Eis que foi introduzido no imaginário carioca sua mais nova musa. A Márcia! Obreira e funcionária indicada nos registros de áudio como contato para agilizar operações de catarata, vasectomias e demandas na saúde municipal, quase uma São Pedro. Detentora das chaves do paraíso do furo das filas quilométricas do sistema de regulação da saúde. Ao Dr. Milton coube a função de trazer para perto dos templos dos 250 pastores presentes interessados quebra-molas e pontos de ônibus...

Para resumir, porque a fresta de luar não dura para sempre, uma última efeméride. O surpreendente domingo ioiô de Lula. “Libertado” por um juiz de plantão nas férias do judiciário, enquadrado por Moro, liberado de novo pelo plantonista, mantido na cadeia pelo relator do processo. Depois do juiz dar prazo de uma hora para que a Polícia Federal o soltasse, o ex-presidente acabou permanecendo na sede da Federal de Curitiba após mais uma contraordem. Dessa vez, do presidente da tchurma. Um fica-e-sai que movimentou o feriado emendado frustrado, já que terça não será mais folga com a eliminação do Brasil...

Fechando o informe, aquele lembrete que, certamente, arrancará da cronista seu melhor sorriso: o Mengão continua líder!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM...delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Sol e chuva com você


Sol e chuva com você

Texto e foto de Valéria del Cueto
Pluct Plact totalmente ambientado, definitivamente à vontade, se sentindo quase em casa, está impregnado do espírito carioca. Só quando ele baixa é capaz de turbinar seus sentidos sem perder a consciência do paraíso presente quase perdido. Se não for assim... é desespero! Bem que tentou se aprofundar, encontrar os princípios, delinear teorias, estabelecer parâmetros, enquadrar os conceitos básicos que permitem a sobrevivência no cenário espetacular de uma cidade em processo de falência existencial. Desistiu.

Só a encantaria pregada e estudada pelo professor e historiador Luiz Antônio Simas, entrincheirado no Bode Cheiroso, pé sujo de subúrbio do Rio de janeiro, para explicar o fenômeno. E, como extraterrestre, Pluct Plact sabe reconhecer os efeitos desse processo!

Imbuído de sua missão de olheiro das penúltimas, últimas e imprevisíveis possíveis novidades do mundo exterior para sua amiga e confidente, a cronista mais que nunca voluntariamente enclausurada do outro lado do túnel, mudou um pouco seu local de pouso escrevinhante. Trocou a Pedra do Arpoador pelo famoso Posto 9, entre a Vinícius e a Joana Angélica, na praia de Ipanema.

Cariocamente caminhado pela orla foi atraído pelo som do sax de um grupo que se apresentava na Vieira Souto. Não, não é o barulho chato de bate estacas imposto pelo evento da cerveja Itaipava no Arpoador! Sem direito a DJ pop e desperdício de infra, o instrumento era acompanhado pelo baixo e a bateria da Dub Club Band. Arrancou aplausos e assobios entusiasmados nos intervalos de quem parou para apreciar os improvisos jazzísticos encerrados no embalo de Alceu Valença: “Não, não quero mais brincar de sol e chuva com você...não suporto mais brincar...”

O recado faz Pluct Plact voltar à sua missão (delicada, diga-se de passagem) de na fresta da lua levar as f(r)estas das ruas à cela da cronista.

Tá fácil começar pela Copa da Rússia. A que será lembrada pela atuação impecável do Santo dos Bolões Perdidos. E foram muitos. Especialmente se considerarmos que, apesar de no início não levar muito a sério a participação brazuca no certame, o bolão sempre foi de fé!

Com o passar dos jogos da primeira fase, vagarosamente, o espírito da festa só não pegou mais que o sarampo. Aquele que, depois de erradicado do território nacional, volta a fazer vítimas a torto e a direito. Nas oitavas já não existia amanhã. A pátria vestia as chuteiras da seleção, gemia e rolava junto a cada presepada do rapaz que torrava o coco a cada troca de cor dos cabelos e respectivo penteado, quer dizer, a cada partida disputada.

Enquanto isso, livres leves e soltos os de sempre tramavam e executavam seus planos pré-eleitorais fazendo e acontecendo em benefício dos parças nas barbas da pátria distraída com a competição esportiva.

Mas, pra variar, começam a botar o carro na frente dos bois e, quando o assunto passou a ser se os campeões do mundo visitariam ou não a capital federal, eis que a Bélgica enquadrou a nação e colocou no devido lugar o escrete canarinho.

Não sem antes permitir que alguém tivesse a luz de gravar o ágape matutino oferecido pelo prefeito do Rio de Janeiro, o bispo licenciado porém ativo e operante (como ouvimos) da igreja Universal, Marcelo Crivella. Eis que foi introduzido no imaginário carioca sua mais nova musa. A Márcia! Obreira e funcionária indicada nos registros de áudio como contato para agilizar operações de catarata, vasectomias e demandas na saúde municipal, quase uma São Pedro. Detentora das chaves do paraíso do furo das filas quilométricas do sistema de regulação da saúde. Ao Dr. Milton coube a função de trazer para perto dos templos dos 250 pastores presentes interessados quebra-molas e pontos de ônibus...

Para resumir, porque a fresta de luar não dura para sempre, uma última efeméride. O surpreendente domingo ioiô de Lula. “Libertado” por um juiz de plantão nas férias do judiciário, enquadrado por Moro, liberado de novo pelo plantonista, mantido na cadeia pelo relator do processo. Depois do juiz dar prazo de uma hora para que a Polícia Federal o soltasse, o ex-presidente acabou permanecendo na sede da Federal de Curitiba após mais uma contraordem. Dessa vez, do presidente da tchurma. Um fica-e-sai que movimentou o feriado emendado frustrado, já que terça não será mais folga com a eliminação do Brasil...

Fechando o informe, aquele lembrete que, certamente, arrancará da cronista seu melhor sorriso: o Mengão continua líder!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM...delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

sábado, 17 de junho de 2017

Caymmi tinha razão

Caymmi tinha razão

Texto e foto de Valéria del Cueto
Doente do pé e/ou ruim da cabeça, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, entre idas, vindas e bênçãos, mandou um recado (!) ao povo do samba: o dinheiro da subvenção da prefeitura para o carnaval 2018 foi reduzido pela metade.

Tal qual marido traído os responsáveis pelo espetáculo foram os últimos a saberem da intenção do alcaide. Em nota ele informou que botará iogurte na merenda das creches cariocas capando um milhão de cada escola do Grupos Especial (50%). Também pretende reduzir a verba do Acesso e cortar os recursos para a montagem da estrutura do desfile dos demais grupos, na Intendente Magalhães. Adieu cultura popular.

O que levaria o bispo Marcello Crivella a provocar um tsunami no mundo do samba, abalando as estruturas de um espetáculo que rende aos cofres da prefeitura  um retorno de 3 bilhões e movimenta em todos os níveis a cadeia produtiva do Rio de Janeiro?

As mesmas intenções que fizeram o agronegócio defenestrar o enredo sobre Xingu da Imperatriz no último carnaval e Luciano Huck correr atrás de uma escola que topasse contar sua riquíssima história na Sapucaí, dias atrás.

O mundo do carnaval é terreno em que se plantando tudo dá. Especialmente notícias e repercussão instantânea. Boa, bonita e barata. O “custo” de uma ação de marketing coordenada é muito baixo quando a capilaridade e a “sonoridade” dos defensores da maior manifestação cultural brasileira são acionadas.

Crivella tem planos maiores. Inicialmente, seu caminho natural, já que nunca participou da administração pública, seria da prefeitura ir para o governo do estado e, então, a Presidência da República seria o limite.

Só que, como verificamos dia a dia, o Brasil tem a capacidade de extrapolar a ficção e desconstruir projetos, especialmente a longo prazo. Com a instabilidade política, a estratégia traçada precisa ser readequada para acompanhar os acontecimentos. Com o cavalo passando encilhado, é hora tentar monta-lo!

Há um vácuo de poder federal e uma possibilidade de se movimentar com a falta de candidatos viáveis para a Presidência já em 2018. Bolsonaro se lançou, mas não é lógico entregar ao alheio o ativo de votos evangélicos. João Dória voa baixo, mas está muito exposto. Seu partido, o PSDB, implodindo.

A bancada e a base evangélica não têm porque apoia-los se tiver um nome com projeção nacional. Crivella pode se viabilizar nessa brecha. Para isso precisa se apresentar e posicionar no tabuleiro eleitoral.

A polêmica carnavalesca é um recurso caseiro para alavanca-lo. O assunto já mostrou que tem abrangência. É briga de cachorro grande e apaixonante.

Quantos municípios brasileiros cancelaram seus carnavais em 2017? Será que isso prejudicou a imagem de seus prefeitos? Ao contrário. Fortaleceu. Com o quadro atual, Crivella precisa apressar o processo. Bate de frente com o carnaval carioca, ganha exposição e cria um debate nacional que pode posiciona-lo como um possível candidato a presidente.

É jogo alto, baseado em pesquisas, projeções e acordos aos quais os eleitores comuns não têm acesso, mas que estão rolando nos bastidores. Juntando os votos evangélicos com os da direita ele pode virar um trator eleitoral.

O timming está certinho! Se não houver desvios de percurso, pavimenta sua candidatura à Presidência e se equipara a outro candidato (provavelmente da bancada ruralista). Se não der para ganhar, tem cacife para negociar. Que vença o melhor. Para eles.

Somos peça chave nesse tabuleiro. Com um detalhe estratégico: enquanto jogamos damas, ele joga xadrez...

Em tempo: parte dos recursos orçamentários que sobrou do carnaval de 2017, quase um milhão, foi realocado para uma campanha da Riotur de atração de turistas nacionais, a #vemprorio. Segundo anunciou o presidente do órgão, Marcelo Alves, em maio, o custo da iniciativa é de 200 milhões!

*A enquete da Revista Veja sobre o assunto.

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
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sábado, 15 de outubro de 2016

Vento que sopra

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Fábula fabulosa e foto de Valéria del Cueto

Não queria escrever o relatório para a cronista enclausurada porque estava com preguiça.

Ah, essa mania de querer ser humano... Dava nisso querer incorporar o “way of life” dos habitantes do planeta visitado. Mais que isso, da latitude e longitude atingida. Deu aqui, no Brasilzão. E o jeito é entrar na vibe e se deixar levar.

Por exemplo, pelos gritos que escuta pela escotilha da nave enquanto prepara a lista de novidades semanais. “Mengo”, brada uma possante voz. “Meeeengo”, responde outra, de um ponto mais distante. Já é tarde da noite. Mas algo agita o ar.

A preguiça inicial acabou sendo vencida quando chegou a conclusão que não seria de bom alvitre deixar a amiga voluntariamente isolada numa cela, do outro lado do túnel, sem saber que sim, ainda há esperança no mundo. E que ela de repente dá provas irrefutáveis de sua existência!

Primeiro foi a escolha do presidente da Colômbia para receber o prêmio Nobel da Paz, apesar da falha no processo que levou os colombianos a dizerem não no plebiscito para referendar o acordo proposto com as FARCs. Mesmo tendo sido rechaçado, o esforço de Juan Manoel Santos foi reconhecido como a mais importante ação dos últimos anos em direção à pacificação. A simples tentativa já valeu!

O próximo item que não poderia deixar de faltar na lista de novidades é um assunto que sempre provoca um brilho no olhar da cronista, mesmo em seus dias mais desligados da realidade circundante. O carnaval.

Trata-se do ocorrido na final da escolha do samba do Salgueiro, na véspera do feriado. A escola tijucana que ano passado teve como enredo “A Ópera dos Malandros” e abriu seu desfile com um Exu belíssimo na comissão de frente. 

Pois acontece que o apresentador dos concorrentes na noite da grande final (em 2017 ela apresentará o enredo “A Divina Comédia do Carnaval”), num certo momento do evento usou o microfone para pedir voto para um dos candidatos ao segundo turno da eleição para prefeito carioca.

Entre os Marcelos concorrentes foi de Crivella, o que já foi bispo da Igreja de Edir Macedo. Conseguiu provocar uma reação de combustão imediata que gerou uma vaia retumbante e mais: o coro de “Uh! É Freixo”, no caso, o outro Marcelo...

Por essas e por outras é que se diz que não se deve misturar política com samba. Os políticos passam. Já o samba... comemora seu centenário!

Além dessas novidades, é claro, irão as notícias de sempre. Quem delata quem, quem vai pra prisão... Agora, o novo ingrediente são os calotes olímpicos. Local, com a rede hoteleira carioca, e internacional, com cobradores croatas, entrando na justiça para receberem por seus serviços devidamente prestados.

Nada disso seria motivo forte suficiente para tirar da inércia o extraterrestre Pluct Plact que pegou a preguiceira por osmose. Afinal, tanto tempo ancorado no quadrante, sem conseguir ultrapassar a camada de ozônio para alcançar o espaço sideral, acabou deixando severos efeitos colaterais!

O que o moveu a largar de mão a pasmaceira foi uma última notícia. Não dá-la à cronista definitivamente seria muita deslealdade. Especialmente agora que é explícito, entre os motivos de sua reclusão voluntária, a falta de esperança.

Depois de tantas e tão longas noites de conversa na cela acolchoada uma predileção da amiga estava  clara. Pela música. A boa música.

Como deixa-la na ignorância, sem saber que  Bob Dylan essa semana ganhou o Nobel de Literatura? Seria como não soprar ao vento a poesia que a cronista precisa para sobreviver...

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim...
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sábado, 8 de outubro de 2016

Lágrimas de nossa, senhora

Lágrimas por nossa, senhoraLágrimas por nossa, senhora

Texto e foto de Valéria del Cueto
Na falta de solução, apelemos para a gentileza. Vamos pregar a delicadeza. Porque não, não está fácil pra ninguém.

A constatação é de Pluct Plact, aquele extraterrestre extraviado no planeta Terra, sem chance imediata de retorno para qualquer lugar menos lunático da galáxia.

Bem que ele tentou como paliativo uma vaguinha junto a sua amiga cronista, voluntariamente isolada já tem um tempo numa “invernada”, do outro lado do túnel (é seu correspondente, único contato com o mundo exterior). Mas a lotação anda esgotada, com uma imensa fila de terráqueos querendo vaga no lugar. Como alienígena juramentado, não conseguiu sequer fazer sua inscrição. Chegaram a conclusão que de louco, ele não tinha nada.

Uma pena. Isso o obrigou a acompanhar mais uma eleição  para poder contar na próxima visita, entre outras novidades, que passado o limpa banco eleitoral, vem aí um refresco até a votação do segundo turno.

Pelo menos em 55 cidades com mais de 200 mil eleitores divididos (onde os candidatos não alcançaram maioria simples mais um), haverá chance de uma discursão mais aprofundada sobre o modelo de gestão a ser adotado.

Não que adiante muito em alguns lugares. No Rio, tédio... Vai dar Marcelo. Crivella ou Freixo. Oito ou oitenta. Com muitas ausências, votos nulos e brancos entre os extremos.
Sobre São Paulo pretende nem citar, se ela não perguntar...

Um pedido garantido da reclusa será um rápido painel do seu Mato Grosso. Momento de tensão. Pra começar, a inacreditável sinalização referente a  participação feminina no pleito. Dos 141 municípios, 15 prefeitas se elegeram. Delas, 12 são marinheiras de primeira viagem no cargo. Parece pouco?

Nos legislativos elas ocuparão reles 12,93% das cadeiras. 42 localidades não têm nenhuma única mulher na câmara municipal! Santa Carmem é o único município do estado em que estão em maioria ocupando 5, das 9 vagas. Informações do jornalista Eduardo Gomes.

E quanto ao segundo turno na capital, assunto de interesse geral? Em Cuiabá, entre Emanuel Pinheiro, do PMDB, e Wilson Santos, do PSDB. Lá, como no Rio e São Paulo, a ausência foi campeã de votos no primeiro turno. É difícil saber quem é o mais do mesmo.

Sim, Emanuel, do PFL, para o PDT (onde costurou o apoio do partido a candidatura de Wilson Santos à prefeitura, conta seu site), na Secretaria de Trânsito e Transportes Urbanos do prefeito eleito... Wilson Santos. Vai pro PL, PR e, finalmente para o PMDB de... Carlos Bezerra.

Já Wilson Santos abre os trabalhos no PMDB de... Carlos Bezerra, como vereador. Passa para o PDT e depois para o PSDB. Prefeito por um mandato e meio.

Tudo parecido. Wilson diz que é Dante. Emanuel é Jonas Pinheiro. Emanuel é Blairo que governava quando Wilson era prefeito. Que é Pedro Taques. Wilson só não é Mauro Mendes e esse jamais será Wilson, se nem agora assumiu. Mas são do mesmo grupo político, captou?

A parte boa é que há mais tempo para conhecer as características dos postulantes e suas propostas.

Isso, enquanto o mundo continua girando e a história é atropelada pelos acontecimentos. O Brasil está... Melhor deixar pra lá. Vamos manter o ânimo elevado.

Como Pluct, Plact é otimista, idealiza um período de depuração. Considera que pior não pode ficar.Então o jeito é peneirar. O problema é: peneirar o que?

Os surpreendentes sinais de que há humanidade no meio de tanta crueldade, sugere. Pequenas sutilezas. Como as miúdas Lágrimas de Nossa Senhora fotografadas (colher jamais) para a amiga. Elas florescem! Num pé de árvore numa rua qualquer de Copacabana...  
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Studio na Colab55