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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Essa difícil vida fácil

Essa difícil vida fácil

Texto, foto e vídeo de Valéria del Cueto

Consegui! Cheguei na praia. Por incrível que pareça, a primeira de 2026. Antes, só caminhadas pela orla. Resultado: escassez de crônicas, incluindo as carnavalescas.

Agora não dá mais pra enrolar. O tempo melhorou e, como dizia Giovanne Improta, personagem de José Wilker, “O tempo ruge e a Sapucaí é grande”. Ruge e fica concentrado. Em três finais de semana teremos passagens das 12 escolas de samba do Grupo Especial pela pista três vezes.

Faz a conta comigo: dois com ensaios técnicos de todas as agremiações do Especial, incluindo testes de som e luz do sambódromo, mais o desfile oficial e a passagem das quinze escolas da Série Ouro, o grupo de acesso, de sexta a terça-feira do carnaval. Bota na lista o cortejo de lavagem da pista e parte do grupo das crianças.  

A outra parte desfila na sexta-feira, antes do Desfile das Campeãs, no sábado depois do carnaval, com as seis escolas melhores classificadas no Desfile Oficial. Contando com as Campeãs, teremos, então, mais um final de semana. Quatro no total!

Como dizia Vinícius de Morais, “é preciso peito de remador” para aguentar esse rojão e viver um grande amor...

Antigamente parte dessas atividades eram distribuídas em deliciosos finais de semana desde o dia Nacional do Samba, 2 de dezembro, até o carnaval. Agora, como tudo na vida, o calendário carnavalesco ficou compacto e extenuante. A resposta que dou a esse excesso de atividades é ficar seletiva, deixando de lado uma qualidade que parece extinta: a contemplação.

Falei em excesso de atividades? Então vamos acrescentar na nessa listinha, que parece uma corrida maluca iniciada com a abertura do Fan Fest Rio Capital do Carnaval no dia do padroeiro da Cidade Maravilhosa, São Sebastião, 20 de janeiro, o encontro de 1243 ritmistas na praia de Copacabana. A Super Bateria entrou para o Guinness, o livro dos recordes.


Foi apenas a abertura da programação que o Rio Carnaval preparou para mostrar o que é e como se prepara “o maior espetáculo da Terra”. Tudo gratuito, mediante a inscrição no aplicativo do evento.

Junto, foi dada a largada dos desfiles dos 462 blocos cadastrados na programação da prefeitura para se apresentarem no centro da cidade e em vários bairros cariocas. Fora aqueles que saem no susto, em desfiles paralelos, tipo flash mob, marcados em cima da hora!

A região do Saara, a 25 de março local, fervilha de foliões e turistas em busca de fantasias e acessórios carnavalescos. A novidade é uma tiara de cabelo feita com fios, adereço que parece uma touquinha com penduricalhos de enfeites.

As redes sociais estão lotadas de imagens e sugestões para a folia. Quem não curte carnaval está lascado! Muito mais do que quem não dá a mínima às estrepolias do BBB e fica aturando aquele monte de tolices entre os cortes dos ensaios de rua, discussões sobre enredos, sambas, barracões e os últimos preparativos dos desfiles.

Incluindo a chegada (pra lá de atrasada) dos recursos para finalizar os trabalhos das escolas de samba. A prefeitura só liberou a verba esse ano e o alcaide recebeu os sinceros (?) e públicos agradecimentos das agremiações contempladas. Como se o aperto dos trabalhadores fosse uma coisa normal! O campeão da maldade e maior patrocinador da festa, com R$ 40 milhões, foi o governo do estado.

Cláudio Castro, o governador, que é evangélico, fez o povo do samba pagar todos os seus pecados antes de liberar a verba para o evento que traz mais lucros para o poder público no calendário turístico anual com seus 6 milhões de visitantes e a previsão de vultuosos R$ 5,7 bilhões movimentando a economia.

A indústria do carnaval continua sendo tratada como produto de segunda categoria por quem não respeita nossos organogramas de desenvolvimento de projetos e cronogramas de pagamentos. O dindin estadual foi liberado 29 de janeiro, 14 dias antes do desfile.

Se está ruim para as grandes, imagina para as agremiações dos grupos inferiores.  As maiores escolas ainda têm fôlego para segurar a onda. Mas pensa nos grupos de acesso da Sapucaí e nos que desfilam na Intendente Magalhães. Um verdadeiro desastre na organização das entidades é provocado, ano a ano, pelo atraso na liberação dos repasses. Quanta maldade. E ninguém pode reclamar, é claro...

Parece que as forças superiores concordam comigo. Enquanto escrevia no quadrado que ocupo na canga esticada na areia de Ipanema, as nuvens chegaram correndo pelo céu, antes azul. O vento agita as folhas do caderninho.

Nem me mexo, a chuva que virá será um treino para os dilúvios que ano sim e outro também (com raras exceções), costumamos enfrentar na Sapucaí. Estou apenas preparando minha imunidade corporal.

Vem carnaval, mas sem areia, por favor...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “É carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55


domingo, 26 de junho de 2022

No Tempo


O tempo perguntou pro tempo...

Resposta: [s i l ê n c i o ] só barulho do mar.

Então, o tempo mostrou pro tempo.

A bruma que o tempo traz.

O tempo? Como maresia. Passou.


Vagabinha meteorológica de Valéria del Cueto


@delcueto.studio na Colab55

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Afinal, quem nunca?

Afinal, quem nunca?

Texto, foto e vídeo de Valéria del Cueto

Preparei o espírito, montei o kit praia (SQN) e tomei rumo. Não, não é sexta-feira, mas me dei folga. Assim, relativa, já que cá estou. Na escrevinhação.

Desci com tudo (pensava eu) para a rua e subi saltitante a ladeira da Bulhões de Carvalho. Diretão. Sem opção de desvio, até a Francisco Otaviano e cruzei pelo Parque Garota de Ipanema, com destino quase certo. Apostava na Praia do Diabo. Mas nem cheguei lá...

Queria evitar o vício de caminhar, quase marchar, na areia fofa, parte importante do treinamento para enfrentar a pista de desfile das escolas de samba, a Marquês de Sapucaí, no carnaval que se aproxima.
Acontece que andei forçando o joelho no vai e vem do réveillon em Copacabana entre o apartamento, no Posto 6, o palco, no Posto 2 e a festa maravilhosa, na altura do 4. Foram algumas idas e vindas entre os focos do meu prazer na virada para 2020.

O uso de um calçado inadequado acabou “estragando” o joelho esquerdo. Sempre ele. Então, caminhar na areia não pode fazer parte do cardápio de hoje por precaução e zelo. Entre repouso, massagens e arnica por dentro e por fora, é melhor não facilitar.

A praia não está cem por cento lotada porque o dia começou mal-humorado. Muita gente apostou na previsão do tempo. Menos ele, claro. São 4 horas da tarde de um dia glorioso. Feito pra vagabundear.
Nem estava pensando em escrever, apesar de estar em falta com os fiéis leitores que desde o ano passado, ou a última década como preferem alguns desavisados, não recebem notícias do lado de cá. Confesso que não tinha a menor intenção de exercitar a imaginação.

Ia deixar esse esforço para me dedicar a leitura de Escravidão, de Laurentino Gomes. Fazem dias que o livro me observa na ponta da mesa aguardando, pacientemente, o momento de entrar em cena.
Eu olho pra ele, ele olha pra mim. Mas, entre vídeos para subir para o Youtube e as fotos que precisam ser editadas e indexadas para o acervo carnevalerio.com, não conseguia achar liga para mergulhar na leitura.

Até que outro dia, numa boca da madrugada, depois terminar de postar o material da Bateria da Mangueira, meu xodó de muitos verões e desse também, resolvi dar uma investida na trilogia do jornalista. Se vim para a praia com o livro na bolsa, dá pra deduzir que fui seduzida. Assim, tracei meu destino para a tarde ensolarada e quente.

Como se fosse senhora da minha vida, deusa do meu próprio destino, capaz de administrar coerentemente meus planos, passos e decisões. Doce ilusão. Com esse marzão me chamando escolhi um bom lugar para baixar acampamento. Sem muita gente em volta e a uma distância precavida do movimento da maré que avança subindo areia a dentro.

Coloquei a mão na bolsa de 1001 utilidades e... CADÊ? Tinha livro, caderninho, caneta, máquina fotográfica. Lenço, carteira, fones de ouvido, batom. Tinha de um tudo. Só não tinha... a canga!
Rebobinei a fita para lembrar que usei a dita cuja como proteção de um pé d´água e, como estava molhada, botei na corda para secar na área de serviço.

Sorte sua. Na impossibilidade de me esparramar à leitura na areia quase em Ipanema, me restou, para não perder a viagem, um banco ao sol na calçada do Arpoador. Fazendo o que? Isso mesmo, narrando a crônica da imperfeição administrativa e mencionando, pra finalizar, a necessária capacidade de adaptação imposta pelas circunstâncias. Chato, porém honesto, já que, afinal, quem nunca?

Ao acabar a missão já realinhei a rota. Destino ladeira abaixo, andar acima, quarto fechado, ar condicionado ligado, “Escravidão” na reta.

Mas só depois de apreciar esse belo fim de tarde carioca. Afinal, também sou filha de Deus...


*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com
Studio na Colab55

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Não está fácil pra ninguém

Não está fácil pra ninguém

Texto e foto de Valéria del Cueto

Duas coisas me fazem sacar o caderninho que uso para registrar as crônicas. A primeira é a paz na terra na beira de um mar que não pode ser um qualquer. Essa “saída o corpo”, mesmo no cenário paradisíaco que frequento, ultimamente na ponta do Arpoador, nem sempre acontece e se condiciona a certos fatores. Entre eles está a segurança do entorno.

Foi justamente ela que me impediu de sacar o caderninho na última passagem pela praia. Em plena tarde de um sábado com uma lotação até agradável, sob um sol ameno de outono.

Depois de fazer algumas fotos e vídeos dos ambulantes que circulavam anunciando seus produtos, num pedaço pouco frequentado entre a Pedra do Arpoador e o posto 8, em Ipanema, me preparei para puxar a caneta e abrir o caderno.

Antes de começar a escrevinhar chamaram minha atenção dois ambulantes que confabulavam nas proximidades. Entre uma negociação para a troca de um pouco de gelo para o isopor por produto e a avaliação das vendas do dia, o assunto passou pela ação de ladrões que estavam atuando na areia, prejudicando ainda mais a féria do dia. Que já não estava das melhores.

Ligada no bate papo e sempre prevenida, fechei a bolsa, pedi licença e entrei na conversa querendo entender o movimento local. Argumentei que era estranho e fora de época. As férias e a alta temporada já tinham terminado e, na praia vazia, não havia “clientela”, a não ser os locais, como... eu!

“É que ainda não avisaram ao “bloco” que o carnaval já acabou.” A resposta veio em meio a risadas pela metáfora criada por um dos rapazes. O outro explicou: “Isso aqui está largado, dona, a gente sai de perto para não ser confundido com eles.” “Você devia tomar cuidado”, alertou o mais velho, “por isso vim para esse lado."

Enquanto conversávamos comecei a me “situar” melhor no entorno. Sempre procuro ficar num local com visibilidade ampla e rotas de fuga. Apesar de estar na parte mais estreita da ligação de Ipanema com o Arpoador, onde o paredão é mais alto e, portanto, impossível de ser escalado, montei meu point próximo a duas barracas que, coladas nos grafites que enfeitam a “muralha”, produziam e distribuíam caipirinhas e outros drinks para diversos vendedores que volta e meia passavam para reabastecer as bandejas.

Aliás, essa foi uma das razões que me atraiu para aquela posição. A possibilidade de ampliar as fotos que estou fazendo sobre os ambulantes que passeiam oferecendo seus produtos. A outra foi a escada que dava acesso rápido ao calçadão. Foi o que expliquei para o vendedor que ficou papeando comigo enquanto o outro seguia para a “zona de confronto”, como chamou a caminhada em direção a Ipanema.

Foi ali que fiquei sabendo que os “blocos” podiam ser da área ou de fora e que, provavelmente, só os primeiros respeitam (um pouco) os locais.

Não fiquei chateada quando o vendedor se aproximou e, puxando seu celular, explicou que trabalhava na construção civil. Me mostrou, cheio de orgulho, várias fotos de trabalhos que havia realizado.

Disse que era da Pavuna e que tinha descido para a Zona Sul para deixar seus cartões de visita com um amigo que havia contado que estavam abrindo vagas por aqui na segunda-feira. Que era regularizado e, inclusive, tinha MEI. O problema era ter “capital” para pagar o contador. Aliás, era isso que ele estava fazendo ali. Tentando melhorar o caixa, que andava no negativo.

A conversa continuou até a volta do amigo que foi mais claro em relação a necessidade financeira do parceiro: “Vamos nessa, ainda dá para fazer mais umas duas voltas e, pelo menos, juntar o troco da pensão alimentícia. Se chegar com algum pode ser que a ex patroa não procure a justiça. Você já sabe onde vai parar...”. Imaginem a rapidez com que meu novo amigo se levantou, se despedindo.

A segunda possibilidade de puxar o caderninho, (lembra? Foi assim que a crônica começou) é quando estou numa espera. No caso foi bancária. Contar essa história me fez viajar para um lugar muito mais agradável do que onde me encontro, aguardando para falar com o gerente do banco. Não está fácil pra ninguém...
 
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.comStudio na Colab55

sábado, 11 de agosto de 2018

Adivinha?


Adivinha?

Clique AQUI para acesar as fotos que inspiraram a Fábula Fabulosa "Adivinha?" e a vagabinha "Enluação"

Estiquei o máximo que pude e dei linha para a pipa da cronista enclausurada sabedor dos efeitos prolongados da lua de sangue do eclipse do final de julho.

A desculpa é boa mas não totalmente verdadeira por deixar de retratar o impacto que a noite de sexta-feira e os efeitos do fenômeno provocaram em mim, um extraterrestre reconhecidamente acariocado.

Descrevo o evento para explicar a demora nesse contato com a amiga voluntariamente recolhida a uma cela do outro lado do túnel.

O veranico de julho ainda reinava, transformando a paisagem do Rio de Janeiro um daqueles cartões postais que conseguem apagar com sua exuberância e beleza as mazelas da cidade. Água caribenha, apesar da ressaca que chacoalhou o litoral nos dias anteriores, céu de brigadeiro e uma brisa fraca esperavam os visitantes que se preparavam para ver o eclipse. O primeiro lugar escolhido por 10 entre 10 apreciadores foi o Forte de Copacabana. No meio da tarde a fila gigantesca que serpenteava pela Francisco Otaviano recebeu a notícia que as senhas para a entrada nas instalações militares haviam se esgotado.

A opção B foi a Pedra do Arpoador, do lado da Praia do Diabo. Disfarçado de mim mesmo cheguei cedo e encontrei uma protuberância que serviu de mangrulho (posto militar de observação em lugar elevado, aprendi a palavra numa música gaúcha) natural. Dali não saí nem me mexi até o final do espetáculo. E assim tinha que ser já que, depois de estabelecida a base, a população cresceu absurdamente no entorno. A ponto de não dar mais nem para esticar as pernas.

Depois do por do sol a quantidade de gente cresceu mais ainda. Quem estava apreciando a performance solar, não tão bonita quanto no verão quando o sol se põe no mar, entre as ilhas, viu o astro-rei descer entre os prédios e a montanha. Depois, se moveu para ter o visual do lado leste, onde a lua surgiria.

Era engraçado ver a direção em que a maioria dos assistentes se posicionou. Claramente achavam que a lua, já eclipsada e, portanto, avermelhada surgiria em cima das montanhas quando, na realidade, ela apareceu por cima do mar.

Aí, veio a segunda confusão. A “linda bruma” que se via na barra do horizonte (na verdade, uma camada de poluição) era tão espessa que a lua teve que vencer essa nova barreira e já surgiu quase tossindo, pálida de tanta suspensão, bem acima do mar.

Não precisa dizer que entendo plenamente o significado dessa camada, a mesma que impede minha espaçonave de ultrapassar o ozônio que habita a atmosfera terráquea e me levaria para novas aventuras intergalácticas.

Não fosse esse jeito carioca de ser já assimilado, certamente, já teria entrado em desespero e feito alguma tentativa desesperada de levantar âncora em direção a novos mundos.

Acontece que nessa terra, basta a gente ficar imóvel e deixar a vida passar em seu ritmo (a)normal para saber que não haverá tédio nem paradeira. Entre músicas diversas, drones dispersos e muitas câmeras mais ou menos profissionais a lua, acompanhada de Marte, brilhando forte, deu um banho de luminosidade na humanidade.

Foi deixando essa energia fluir que me atrasei um pouco para vir trazer as novidades. Esperava que o efeito também se prolongasse pela fresta que a ilumina. Pelo menos até chegarmos as últimas novidades.

Cara amiga, acredite, “habemus candidatus”. Para todos os gosto e tipos. Encarcerados como você, apalermados, genéricos, patéticos, coligados, ajojados, amontoados, enfim, para tudo falta pouco. O grande dilema para candidatos a presidente e governadores foram os vices, todos escolhidos na última hora, alguns pegos a laço.

O próximo passo? O compasso. Um átimo até as eleições, onde nem a lua adivinha o que poderá acontecer...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM...delcueto.wordpress.com



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Studio na Colab55

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Sol e Chuva com você


Sol e chuva com você

Texto e foto de Valéria del Cueto
Pluct Plact totalmente ambientado, definitivamente à vontade, se sentindo quase em casa, está impregnado do espírito carioca. Só quando ele baixa é capaz de turbinar seus sentidos sem perder a consciência do paraíso presente quase perdido. Se não for assim... é desespero! Bem que tentou se aprofundar, encontrar os princípios, delinear teorias, estabelecer parâmetros, enquadrar os conceitos básicos que permitem a sobrevivência no cenário espetacular de uma cidade em processo de falência existencial. Desistiu.

Só a encantaria pregada e estudada pelo professor e historiador Luiz Antônio Simas, entrincheirado no Bode Cheiroso, pé sujo de subúrbio do Rio de janeiro, para explicar o fenômeno. E, como extraterrestre, Pluct Plact sabe reconhecer os efeitos desse processo!

Imbuído de sua missão de olheiro das penúltimas, últimas e imprevisíveis possíveis novidades do mundo exterior para sua amiga e confidente, a cronista mais que nunca voluntariamente enclausurada do outro lado do túnel, mudou um pouco seu local de pouso escrevinhante. Trocou a Pedra do Arpoador pelo famoso Posto 9, entre a Vinícius e a Joana Angélica, na praia de Ipanema.

Cariocamente caminhado pela orla foi atraído pelo som do sax de um grupo que se apresentava na Vieira Souto. Não, não é o barulho chato de bate estacas imposto pelo evento da cerveja Itaipava no Arpoador! Sem direito a DJ pop e desperdício de infra, o instrumento era acompanhado pelo baixo e a bateria da Dub Club Band. Arrancou aplausos e assobios entusiasmados nos intervalos de quem parou para apreciar os improvisos jazzísticos encerrados no embalo de Alceu Valença: “Não, não quero mais brincar de sol e chuva com você...não suporto mais brincar...”

O recado faz Pluct Plact voltar à sua missão (delicada, diga-se de passagem) de na fresta da lua levar as f(r)estas das ruas à cela da cronista.

Tá fácil começar pela Copa da Rússia. A que será lembrada pela atuação impecável do Santo dos Bolões Perdidos. E foram muitos. Especialmente se considerarmos que, apesar de no início não levar muito a sério a participação brazuca no certame, o bolão sempre foi de fé!

Com o passar dos jogos da primeira fase, vagarosamente, o espírito da festa só não pegou mais que o sarampo. Aquele que, depois de erradicado do território nacional, volta a fazer vítimas a torto e a direito. Nas oitavas já não existia amanhã. A pátria vestia as chuteiras da seleção, gemia e rolava junto a cada presepada do rapaz que torrava o coco a cada troca de cor dos cabelos e respectivo penteado, quer dizer, a cada partida disputada.

Enquanto isso, livres leves e soltos os de sempre tramavam e executavam seus planos pré-eleitorais fazendo e acontecendo em benefício dos parças nas barbas da pátria distraída com a competição esportiva.

Mas, pra variar, começam a botar o carro na frente dos bois e, quando o assunto passou a ser se os campeões do mundo visitariam ou não a capital federal, eis que a Bélgica enquadrou a nação e colocou no devido lugar o escrete canarinho.

Não sem antes permitir que alguém tivesse a luz de gravar o ágape matutino oferecido pelo prefeito do Rio de Janeiro, o bispo licenciado porém ativo e operante (como ouvimos) da igreja Universal, Marcelo Crivella. Eis que foi introduzido no imaginário carioca sua mais nova musa. A Márcia! Obreira e funcionária indicada nos registros de áudio como contato para agilizar operações de catarata, vasectomias e demandas na saúde municipal, quase uma São Pedro. Detentora das chaves do paraíso do furo das filas quilométricas do sistema de regulação da saúde. Ao Dr. Milton coube a função de trazer para perto dos templos dos 250 pastores presentes interessados quebra-molas e pontos de ônibus...

Para resumir, porque a fresta de luar não dura para sempre, uma última efeméride. O surpreendente domingo ioiô de Lula. “Libertado” por um juiz de plantão nas férias do judiciário, enquadrado por Moro, liberado de novo pelo plantonista, mantido na cadeia pelo relator do processo. Depois do juiz dar prazo de uma hora para que a Polícia Federal o soltasse, o ex-presidente acabou permanecendo na sede da Federal de Curitiba após mais uma contraordem. Dessa vez, do presidente da tchurma. Um fica-e-sai que movimentou o feriado emendado frustrado, já que terça não será mais folga com a eliminação do Brasil...

Fechando o informe, aquele lembrete que, certamente, arrancará da cronista seu melhor sorriso: o Mengão continua líder!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM...delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Momento efêmero, já a amizade...

Momento efêmero, já a amizade...



Texto e foto de Valéria del Cueto

Pode parecer brincadeira, mas quem sabe, talvez, não por acaso, essa pode ser uma chance única de pirulitar desse mundo doido! “Alô, alô, aqui quem fala é da terra...” brada em seu sistema de comunicação intergaláctico Pluct, Plact, o extraterrestre, ancorado involuntariamente no planeta em tela.

A voz, clara e límpida, como há tempos não se ouvia, reverbera pelas ondas da Via Láctea e daí para outras galáxias. Um fenômeno cada vez mais raro de acontecer.

Pode ser chamado de greve, lockout ou sacolejo, mas o fato é que a ausência do ir e vir reduziu de forma perceptível a quantidade de gases poluentes lançados à camada de ozônio. Foi isso que abriu a fenda que, caso o movimento persista, poderá permitir a passagem da nave do ser alienígena mais carioca que existe no universo.

É isso aí, brou. Ele absorveu (por algum tipo osmose interplanetária) características particulares do modo de ver e levar a vida dos habitantes do Rio de Janeiro.

Só eles para, no oitavo dia da greve dos caminhoneiros que paralisa o transporte e altera a rotina da vida dos brasileiros, exercitarem o direito inalienável ao forfait à convocação para manifestações de apoio formais, por assim dizer. Mostram sua aderência ao movimento fazendo o mesmo que, em qualquer domingo de sol e céu de brigadeiro, seria parte essencial de seu roteiro. A praia é o caminho, o mar, o destino.

No canto da praça, colado a Pedra do Arpoador, a família faz um animado piquenique comemorando o aniversário de uma das crianças. Sofia, inclusive, aprendendo a andar em sua bicicleta de rodinhas, pede socorro à tia. Embicou e estacionou, sem conseguir mover seu “veículo”, num banco da praça.

O encalacre infantil é para variar a narrativa costumeira de que os surfistas se acabam no mar do Arpoador, o que significa que as ondas da Praia do Diabo não estão boas para os especialistas, que lá não é point de amador. Nas areias da pequena praia o frescobol come solto.

Falta, é verdade, a presença maciça de forças de segurança. Polícia, militar e guarda municipal. Uma única viatura e poucos gatos pingados fazem a proteção da área. Tudo na mais santa paz na Ponta do Arpoador, sempre sob o olhar atento dos salva-vidas posicionados nos postos de salvamento.

Portanto, o desespero e o desequilíbrio geral propostos pelos meios de comunicação não correspondem aos fatos na domingueira de greve. Está tudo muito leve e esse status quo pode ser breve.

Daí a espera paciente de Pluct Plact. A persistir as condições ideais há uma chance remota, mas real, de partir em direção a outros mundos.

O problema todo mundo sabe qual é. Deixar no meio dessa bagunça institucionalizada a cronista enclausurada. O céu limpo de poluição, tão positivo para Pluct, Plact, é um sinal de que as coisas não estão exatamente do jeito que a reclusa voluntária deixou ao de se isolar na cela do outro lado do túnel.

Se bobear, tão fora desse mundo ela anda, não deve nem ter notado a drástica redução da variedade de alimentos fornecidos. No máximo poderá ter reparado na diminuição do barulho vindo da rua nos últimos dias devido a redução de veículos circulando graças a falta de combustível. Também ficou livre de ter que aturar a narrativa fajuta da imprensa em geral, da Rede Globo em especial e de testemunhar a bateção de cabeças federais, estaduais e municipais.

Certamente se tivesse consciência do momento estaria torcendo pelo sucesso da tentativa do confidente extraterrestre. Afinal, amigos são aqueles que desejam e torcem pelo melhor para o outro. Mesmo sabendo que para os que ficam não há solução visível no horizonte... 

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


Studio na Colab55

domingo, 30 de julho de 2017

Física Aplicada

Física aplicada

Texto e foto de Valéria del Cueto

Faz tempo que o caderninho anda no fundo da bolsa só fazendo número e peso nos ombros para cima e para baixo. A culpa não é dele. É da vida que, ultimamente, se não impede as boas intenções de serem intenções, provoca situações em que elas não podem se efetivar.

Foi assim na última vez em que, cheia de empolgação, largou as vicissitudes da vida, chutou o balde das aflições e rumou para a praia mais próxima pronta para rasgar o verbo sob o sol de inverno carioca. O ímpeto inspirador voltou ao nível 0 (zero) quando descobriu que havia caderninho na bolsa como sempre, mas faltava... a caneta!

De tão revoltada pulou aquela semana e, tal e qual Sherazade não pode fazer para o seu sultão em nenhuma das mil e uma noites, não mandou a crônica semanal.

Pior. Não apenas falhou, o que já havia acontecido antes, como não deu a menor satisfação nem mesmo para seu editor carrasco mais exigente.

Sabem o que aconteceu? NADA! Ninguém reclamou nem reparou na ausência das suas palavras.
E, como já provado pela terceira lei de Newton, a que diz que “a toda ação há sempre uma reação oposta de igual intensidade: as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em sentidos opostos”, dessa vez não teve conversa. A crônica está saindo como devia antes que, além de ignorada, ainda perca seu espaço nos jornais, sites e blogs. Afinal, são mais e 450 textos das séries de crônicas no rumo do Sem Fim fiados e bordados ao longo de anos.

Em plena quinta feira um sol de veranico de julho aquece a ponta do Arpoador numa tarde clássica. Como é férias tem muita gente na praia aproveitando o dia perfeito para uns, como os adeptos de stand up paddle, já que o mar está mais para liso.

As poucas e fracas ondas não atraem os Surfistas com S maiúsculo. Os poucos que arriscam um mergulho o fazem só por pura fé e com roupas de neoprene. Sim. Clara e numa tonalidade espetacular verde azulada esmeralda, a água está fria!

O que parece não fazer muita diferença para os insistentes atletas que, prestando bastante atenção, inclusive nas suas poucas habilidades, pode-se concluir serem alunos das escolinhas de surf. Elas atraem principalmente entusiasmados turistas, os que não resistem ao mar perfeito para iniciantes, mesmo que gelado. Tipo: “é hoje só amanhã não tem mais por que venho de um lugar frio pra caramba. Está bom demais!”

Felizinhos estão os vendedores ambulantes. Dias atrás gritavam seus bordões deles para eles mesmos. Agora têm para quem vender seus variados produtos: no abre-alas o Mate Leão e o Biscoito Globo. Cuscus, picolé, queijo coalho, amendoim, cangas e biquínis, camarão, óculos de sol, caipirinha, pau de selfie, bronzeador, esfirra, cerveja, água, empadas. Especificamente nessa (des)ordem.

Dois minutos depois tudo de novo. No sentido inverso e com a mesma intensidade, como a lei. Graças ao bate volta no fim da faixa de praia, poucos vendedores ultrapassam a Praça Millor Fernandes para alcançar a Praia do Diabo. A exígua clientela do local não vale o esforço...

Na semana que vem essa moleza acaba com a volta às aulas, o fim das férias. O veranico torcemos para permanecer por mais uns dias adiando ao máximo a entrada daquela frente fria que vira o tempo no litoral no início de agosto. A previsão meteorológica incerta diminui as chances de outras crônicas relax como essa.

Sem vento, com a maré subindo para morder as areias de Ipanema, anda na contramão dos apreciadores do pôr do sol no Arpoador. Iniciantes. Nessa época do ano, o astro rei desce no meio dos prédios. Bonito mesmo é no auge do verão, quando o sol cai no meio das ilhas...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador” do SEM FIM...  delcueto.wordpress.comStudio na Colab55

sábado, 29 de outubro de 2016

Contrastes na areia

contrastes-na-areiaContrastes na areia

Texto e foto de Valéria del Cueto
Combinação perfeita: sol praia e caderninho. Um pouco de vento para quebrar o calor. O mar não está propício para grandes aventuras a não ser que você esteja de prancha e conheça os segredos das valas, bocas e correntes do Arpoador/Ipanema.

Quem tem um caderninho e está com saudades da sensação da caneta deslizando pelas páginas pode, por um dia, dispensar algo maior e mais duradouro que um mergulho para dar um gás nos cachos. Depois de alguns dias de chove-não-molha-muito a previsão (de novo) é de chuvas  trovoadas, então... Vamos aproveitar o sol da tarde.

No trajeto, bem na frente, um grupo de garotos de bermudas, chinelos e mochilas foi interceptado no portão de saída para a praia do Parque Garota de Ipanema. Com educação o policial pediu para abrirem as mochilas, perguntou de onde vinham (Jacaré).

Barrou. Dali, deram meia volta. A explicação é o grande número de furtos na área, conta um representante da autoridade, autêntico enxugador de gelo. São menores e vem sem. Documentos e nem um responsável maior de idade. Meia-volta!

Chegam aos poucos e quando se juntam na areia formam grupos de mais de 30 garotos. E partem pra cima. Um ataca e corre para o grupo. Todos parecidos. Não dá pra reconhecer quem deu o bote. E encarar é difícil.

De 8h às 12h a praia é um paraíso. Daí em diante, até as 17h, hora que começam a chegar os turistas para o  famoso pôr-do-sol e o policiamento é reforçado, é que o coro come. Os locais, inclusive das comunidades vizinhas, tentam ajudar para impedir o caos, mas não dão conta.

A última novidade são os ataques noturnos. O local é um point de surfistas, com uma boa iluminação e a vista é espetacular. Esses dias corre a história de que quase jogaram uma mulher que reagiu ao bote, na parte das pedras, lá de cima. Eram tantos que a polícia precisou fechar um perímetro para conter o bonde. Eles estão reagindo a autoridade policial que sabe pouco poder fazer para conter a ousadia. Os problemas aconteceram por noites seguidas. Os integrantes dos bondes comemoram seus ganhos pelo facebook, acredite.

Tempos modernos que afastam o prazer das coisas simples como poder estender a canga na areia, puxar o caderninho e empunhar, distraída do entorno, a caneta. Essa sim, um grande veículo de transformação social.

Não dá. O mesmo menor barrado na entrada do Parque  circula pelo pedaço, nas proximidades do Posto 8.  Roda pra cá, roda pra lá, chega junto a uns turistas que escolhem peças de bijuterias artesanais, pergunta o preço olhando, não as peças que se diz interessado, mas mapeando o local. Vai em frente rodeando os grupos e checando as possibilidades.

O caderninho reclama atenção, pede concentração, exige coerência. O vento murmura e a tarde avança. Pássaros cruzam o céu quase sem nuvens.

A harmonia é quebrada por uma gritaria. A mulher  enfurecida. Pede respeito ao vendedor de caipirinha que, jura, trará uma mulher “para lhe dar uma coça”, por que não é covarde e não bate em... mulher!

A curta e patética história: O vendedor oferece o produto. A mulher não quer. O cara insiste. A mulher derruba a bandeja com os copos com todos os drinks do vendedor. Só que a praia está vazia. Só tem outros... vendedores. O pau quase quebra!

Isso não é uma fábula fabulosa. É a realidade nua e crua. Aquela que para mudar precisa de reformas estruturais e de conduta. Em Brasília, Renan vai de juizeco...

A educação é pilar básico para regular as relações e ser cabeça de ponte para tempos menos cruéis, de mais amor e gentileza. Pense nisso quando, no domingo, escolher o prefeito de sua cidade.

O futuro agradece àqueles que (ainda) acreditam.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim...
Studio na Colab55

sábado, 4 de julho de 2015

Em busca da Inspiração, de Valéria del Cueto

Acordou com uma saudade louca do #Lemequenaosaidemim Pegou o rumo oposto, a contragosto.  Deixou para trás o reino e Nápoles e as agruras de Alex Dumas. As que inspiraram Alexandre, seu filho, a escrever o “Conde de Monte Cristo”. Ele é o personagem principal de “O Conde Negro”, Pulitzer de biografias de Tom Reiss. Difícil parar um mundo desses para quem é fã de leitura. Conseguiu. Pedra, por pedra, foi para a do Arpoador.
Cruzou a Praia do Diabo ao ouvir o som. De lá. Pulando que nem cabrito foi para a ponta mais ponta da Pedra do Arpoador, nem lá nem cá. Onde borrifos de finas franjas de maresia das ondas inconstantes salgavam os poucos solitários. Os que trocaram a imagem paradisíaca do postal Ipanema, Leblon, Morro Dois Irmãos e Vidigal pela força do mar e duas ilhas praticamente inóspitas, num horizonte sem fim.
Continuou seguindo os navios ao longe, muito longe, com a maré alta. Eles se dirigiam à entrada da Baia de Guanabara. Lá, depois do Morro do Leme assinalado pela bandeira brasileira encravada no alto do Forte da Vigia...
Era desse lado que vinha o som. O lamento do vento falava uma língua conhecida,  ora murmurando numa inquietude vacilante, ora uivando sua revolta. Salgando com minúsculas lágrimas quem não se incomodasse com seu arrepio gelado e parasse para tentar entender suas lamentações.
Ele contrastava com o sol acolhedor e silencioso do outro lado da Pedra do Arpoador. Avisava. E quem avisa amigo é. Tentava evitar que a parede de nuvens engolisse de vez os Dois Irmãos, escurecendo o lado sul. Sabia. Seu esforço apenas retardaria um pouco a mudança eminente do tempo e da paisagem.
Nada disso provocou o ato de (d)escrever. Um estímulo especial veio do encontro de alguns músicos, desses que tocam de bar em bar, a procura de um parceiro que havia prometido bater ponto ao lado da escultura de Millôr Fernandes, na quina do Arpoador com a Praia do Diabo.
Pois não é que mesmo sem ir ao samba ele veio se juntar a música do vento, agora sussurrante?
E, entre todas as possibilidades e hits disponíveis no encontro de repertórios, um dos músicos começou. Só na voz:
- “Não... Ninguém faz samba só por que prefere...” - O vento respondeu com um gemido, antes mesmo do dedilhar do início do solo no violão conseguir responder a introdução.
- Tá baixo – reclama o pandeiro. A pausa é tão sutil que não muda o ritmo nem o andamento dolente.
- “Força nenhuma no mundo interfere, sobre o poder da criação...” – responde o cantor violeiro. Sem subir o tom, nem dar a mínima para o entorno. Quem quisesse que viesse. Ele ia em frente recitando os versos do   mantra do Paulo César Pinheiro e João Nogueira,  “O Poder da Criação”, em sintonia com o universo.
O tom baixo subindo lentamente com a força da música. Voz e violão.
- “Ela é uma luz que chega de repente, com a rapidez de uma estrela cadente e acende a mente e o coração” – À frente a luz vai mudando. Caindo lentamente, ao contrário do tom da música. Ciente de que nada o impediria de seguir adiante, embalado pelas lindas palavras do samba-canção, o tamborim começa a marcar o ritmo pungente, se preparando segurar a para virada.
- “E o poeta se deixa levar por essa magia e o verso vem vindo e vem vindo uma de uma melodia e o povo começa a cantar! Lalaia..."
Como cada um faz seu canto como pode, abre a bolsa saca o caderninho da vez e a caneta. Nem nota o momento em que os músicos tomam seu caminho deixando a música para trás, nas páginas de mais uma crônica do Sem Fim...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM   FIM...  delcueto.
E3- ILUSTRADO - SABADO 04-07-2015 (2)Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo 

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Hino Nacional Brasileiro pelo Bloco Carnavalesco Simpatia é Quase Amor na Copa 2010




A bateria do Bloco Carnavalesco Simpatia é Quase Amor interpreta o Hino Nacional Brasileiro no palco do Fifa Fan Festival montado na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, dia 16 de junho de 2010.

segunda-feira, 27 de março de 2006

O NOVE É DEZ

O NOVE É DEZ
 texto de Valéria del Cueto
fevereiro  de 2006

Eu demoro, mas acabo pegando. Nem que seja no tranco. Foi mais ou menos assim que, atendendo aos apelos de Enock Cavalcanti, editor do “deBrasília”, um dos sites onde publico meus escritos, vim parar no Posto Nove, na praia de Ipanema, Rio de Janeiro.

O argumento final partiu de minha mãe, uma praieira inveterada: “É que está quase acabando o  horário de verão. Termina pelo meio de fevereiro”, comunicou ela à jornalista mais desinformada da praça.

Nossa! O verão já dobrou o cabo da boa esperança para os turistas em geral. O carnaval já está aí.... Não me incluo nesta categoria específica, pois adoro e tenho acesso à praia em outras épocas do ano, então, não sofro tanto. Mas achei de bom tom aproveitar o apelo da torcida e dar uma fiscalizada no point Ipanemense.

DINASTIA
Bom, point é maneira de dizer, se considerarmos a reunião de três gerações da família no local. Afinal, que lugar é este, que abriga generosamente avó, mãe, tia (eu) e as filhotas?

Pelo que pude analisar, o mesmo freqüentado desde os trinta e poucos anos por minha mãe, da adolescência pela Gisela e por mim e, agora, aplicado ás meninas desde o nascimento. No Nove e adjacências tem espaço para todas as tribos e tendências que queiram chegar. É igual a coração de mãe.

AGITO
Um pouco violento, é verdade, se levarmos em consideração as incontáveis duplas de frescobol, agora disputando espaço com os adeptos do altinho. Evolução dos tempos, invasão dos subúrbios que praticam faz tempo a “novidade” do verão. Paciência.

Um pouco barulhento, com a disputa de ritmos e estilos entre dos equipamentos sonoros das barracas enfileiradas.

Totalmente lotado, se considerarmos o visual, por exemplo, do Leme. Onde a cor natural da areia prevalece na paisagem. O Nove parece uma colcha colorida de retalhos descombinados.

TRILHA CEGA
Caminhar em direção a água, outro exemplo, requer prática e bastante habilidade.
 Achar uma trilha transitável entre cangas, barracas e cadeiras, é o primeiro passo. E, muito cuidado, que o segundo passo, se não for bem dado, pode encher de areia a vizinhança espremida.

A partir das cinco e meia, não precisa mais se preocupar com o sol. É só pegar carona no guarda sol a sua direita. Difícil por aqui é conseguir um lugar ao sol.

A conversa rola solta. É impossível não encontrar um conhecido, mesmo que você não freqüente o trecho desde o século passado, o que não é meu caso.

TODOS POR UM
A princípio não há carentes no Nove. Se nada resolver sua crise apele e ataque um pão com lingüiça do Uruguaio. Isso, depois de uma ou duas batidas de maracujá trazidas pelo rapaz solícito da barraca do Joel. Tudo, do lado de cá do posto (gente há um posto de salvamento no lugar, daí o nome).

Do lado de lá, varia o nome do barraqueiro amigo e a exclusividade oferecida. Do pão de queijo com catupiry pra frente e o céu é o limite...

COMEÇO E FIM
O Nove, entre outras particularidades, se locomove. Este ano, está no Coqueiro. Já este no César Park, no Country, na Joana Angélica e no Sol de Ipanema. Não adianta, no verão carioca, tudo acaba no Nove.

Cada tribo com sua preferência:  Macrô, japô, mineirin, churras, imagine que aqui tem... Claro que a cerveja é quase uma unanimidade, com biscoito Globo, queijo de coalho, esfirra do árabe, sanduba natureba... Hi, alguém ofereceu uma caipirinha, aí?

Tudo detalhe, tudo firula, o que faz deste, um local especial, não é a qualidade do serviço. Contabilizem também o mar, o visual, as companhias.

Faça sol, ou faça chuva (acho que exagerei), ninguém nega, aplausos, que o Nove merece.

Este artigo é dedicado ao Mickey, um freqüentador involuntariamente ausente. Que ele se sinta presente. Sempre.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta