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quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Sem arco-íris no céu, o sonho do asfalto

Sem arco-íris no céu, o sonho do asfalto

Texto e foto de Valéria del Cueto

Pausa no corre da COP27 à Copa do Mundo e, depois, Natal nesse mundo de seu Deus. Porque meu, ele não é. Se fosse, tinha deixado a casta extraterrestre fora dessa mixórdia que grassa por aqui.

Já devia ter mencionado, mas faltou espaço na mensagem anterior. Sabemos que ele é limitado para não causar cortes na transmissão pelo raio de luar que passa pela janela invade sua cela. É o preço de sua reclusão voluntária do outro lado do túnel, cronista.

O tempo de contato está cada vez mais curto para a quantidade de informações. Foi por isso que omiti na última missiva os objetos avistados durante vários dias nas rotas aéreas do Sudeste para Porto Alegre. Tem tanta coisa (ainda) acontecendo…

Coisas terrenas nada espaciais. Uma delas, inclusive, captada graças ao nosso contato osmótico. Quantas informações ele agregou ao banco intergaláctico de dados da nave mãe. Como definir “Perdeu, mané”? De New York, onde o Ministro Barroso, do Supremo Tribunal Federal, lascou a expressão respondendo a assediadores na entrada de um compromisso, às quebradas coloquiais! Confesso que passei por Florianópolis, onde “manezinhos” são os locais. Barroso se referia aos manés que se recusam a entender que depois de jogo feito e a pedra vencedora cantada o que resta é esperar a próxima rodada.

É nessa levada alucinada que a sintonia foi mudando. De Vandré e “Pra não dizer que não falei das flores”, numa utilização equivocada da canção da esquerda (eles dizem esquerdista, lado oposto de direitista) passaram a arranhar o disco das paradas militares nos acampamentos nos QGs. Hinos Nacional, à Bandeira, da Independência, Exército, Marinha, Aeronáutica e até o hino da FEB, que foi à Itália lutar contra o nazismo e o fascismo!

A movimentação persiste e fica violenta nos bloqueios e interdições nas estradas. Isso mesmo, nas federais. Amiga, que crueldade! Atrapalharam os alunos que estavam indo fazer o ENEM. Mascarados queimaram ambulância e depredaram a base da Rota do Oeste. Sinto muito informar que Mato Grosso desponta no ranking do terrorismo, junto com Santa Catarina.

O agro e cia, realmente, são pops. Vários “organizadores” estão com suas contas bloqueadas.  E tem reação.  Sabe o véio que se veste de periquito? Acaba de anunciar o término de todos os contratos esportivos. O maior dele com o Flamengo.

Sei que a notícia a deixa feliz. Já posso pensar em providenciar uma nova camisa do time do seu coração? Lembro que quando sugeri o presente, a resposta foi: “Com essa logo não se dê ao trabalho. Não troco a minha Lubrax/Petrobrás por uma marca qualquer”.

Bom, já que estamos no quesito esportivo, pluctplacteio direto para Qatar e a Copa do Mundo de Futebol. Sem cerveja, poucas mulheres e onde o arco-íris não existe (talvez porque não chova?). Ele não pôde tremular nem na bandeira de Pernambuco, arrancada das mãos de um jornalista de Recife.

Loucura, cronista, logo no início da competição. Uma delas. Outra, veio com o resultado da primeira rodada do torneio onde a Argentina, de Messi, estreou perdendo de virada para a Arábia Saudita. O sheik até declarou feriado no país. Parece miragem do deserto, truque da imaginação?

Ou fake News como a do delírio coletivo de Porto Alegre onde um grupo vestido de verde a amarelo formou uma roda e, colocando celulares na cabeça fazia as lanternas piscarem. Diz que era uma gravação com um drone. Teve quem dissesse que estavam tentando um contato imediato para pedir ajuda contra a “ameaça comunista” do presidente legitimamente eleito aos generais intergalácticos.

A cena rodou o mundo, mas não sensibilizou as esferas superiores. Sem “pescarem” a desinformação, veio a resposta do céu baseada no livro de Deus (o seu): “A verdade vos libertará, mas depois do hexa do país do futebol”.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com


@delcueto.studio na Colab55

terça-feira, 8 de novembro de 2022

A Porta da Esperança


A Porta da Esperança

Texto e foto de Valéria del Cueto

Querida cronista. Finalmente o céu clareou permitindo que o raio de luar encarregado de transportar nossas mensagens pela janela iluminasse o interior de sua cela do outro lado do túnel. Temporal, ó temporais, chuva fina, chuva grossa e até neve, fato sem registro anterior para o início de novembro.

Melhor assim, diante dos incríveis acontecimentos que venho contar. Antes de mais nada, deixo claro que aqui não há um único desvario ou delírio. Afinal, quem está voluntariamente nessa cela não sou eu, é você.

Fica o registro juramentado, por meus poderes intergalácticos de extraterrestre, que reportarei apenas a verdade e que não tomei água oferecida nos bloqueios e manifestações que percorri, o que parece ter provocado alterações significativas no comportamento dos revoltosos que, em nome da liberdade, pediam (juro que é verdade) intervenção militar no governo do presidente. Aquele que fizeram o (im)possível para ver reeleito.

Leia de novo o último parágrafo, por favor, estimada amiga. E vamos ao início do capítulo que, depois de tantas peripécias poderia até se tornar um tomo completo. Um livro inteiro em episódios burlescos, com um enredo rocambolesco coroado por um final cheio de falsas premissas decepcionantes para seus aloprados protagonistas.

Pode me elogiar, cara cronista, pela erudição e a falsa modéstia. Nasceram das sementes que você plantou quando me acolheu na minha chegada ao planeta Terra. Um extraterrestre de passagem, preso na atmosfera poluída e, consequentemente, sem propulsão para ultrapassar a camada de ozônio pluctplacteando ao léu mundo a fora. Lição número um: esse planeta não é para amadores! O Brasil então...

Já aticei sua curiosidade? Nada do que imaginar chegará próximo dos acontecimentos ocorridos e fartamente registrados. Começando pelo dia da votação do segundo turno.

Tudo normal até o registro da passagem de uma eleitora, cujo voto não indaguei por ser secreto, pela moldura da imagem que ilustra essa mensagem. Como uma porta da esperança, sabe? Uma previsão como tantas outras. Essa, do que está por vir.

Com uma fluidez que não se verificou no primeiro turno e sem atropelos a votação transcorreu na calmaria. O resultado apertado de 50,9 a 49,1 para Lula foi anunciado e rapidamente confirmado pelas autoridades constituídas. Menos... pelo presidente da República. Que emudeceu.

Seu silêncio serviu de fermento no bolo que se formou na garganta de seus seguidores derrotados. Foram às ruas e estradas e nelas amanheceram segunda-feira bloqueando rodovias em surto coletivo. Marcharam, oraram e brigaram enquanto a Policia Rodoviária Federal fazia a egípcia nas vias de abastecimento de todo o país. Foram mais de 1.050 bloqueios.

Quem conseguiu começar a liberar os gargalos, acredite, foram as torcidas organizadas. Abriram os caminhos ao se locomoverem para as partidas de futebol fora de casa no feriado de finados.

Mesmo com o fim da afonia presidencial os manifestantes verde e amarelos bandeira não arrefeceram o pedido de intervenção militar. Também, com tantas notícias falsas disseminadas pela rede de informações dos insurgentes, como acreditar num combalido capitão, vestido de Zelenskyy, pedindo os desbloqueios? Depois de anunciada e muito comemorada, entre outras coisas, a prisão de Xandão, o presidente do TSE, demorou um tempo para uma troca de estratégia.

Agora, fazem manifestações exigindo a quebra da constitucionalidade nos portões dos QGs militares. Repito: pedem intervenção militar! O que pressupõe o fim do governo que votaram para continuar. E perderam.

Tudo isso com os deuses da meteorologia despejando muita água e frio país a fora. Uma loucura coletiva onde, entre rezas, penitências e saudações nazistas, cantaram o Hino Nacional fazendo continência a um... pneu!

O raio de luar está por um fio, mas preciso de um espaço extra para registrar dois fatos que marcaram o período. Carla Zambelli, a parlamentar, correndo com uma arma pelas ruas de São Paulo atrás de um eleitor que declarou na véspera do pleito a ela “Te amo, espanhola”, é um deles. O outro “evento” é um caminhão com um abilolado de amarelo colado no gradil frontal em alta velocidade. O motorista querendo passar e o empresário Júnior Cesar Peixoto “grudou” no veículo. O caminhoneiro, louco para ver os filhos, tocou em frente. Verdade ou não, dizem os memes que o parvo foi visto até em Marte.

Posso garantir que não desembarcou na Lua. O dragão de São Jorge negou guarida soltando fogo pelas ventas simbolicamente enrolado no manto vermelho do santo. Lá, Lula ganhou com 2 votos. Deu 100% na urna lunar, a dos poetas, seresteiros e namorados!

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

@delcueto.studio na Colab55

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Em construção


Texto, vídeo e fotos de Valéria del Cueto

Querida cronista. Trago notícias de setembro! Mês da primavera adorada. A que, dizem, tudo renova. Eu, Plact Pluct, o extraterrestre, aproveito o raio de luar que invade sua cela do outro lado do túnel para informá-la que, setenta anos depois do último evento do tipo, o mundo in-tei-ro acaba de acompanhar o enterro da soberana britânica ao vivo e a cores. Sim, Elizabeth II partiu e, com ela, se encerra uma era. Não vou descrever o evento. Impossível nessa cartinha.

Use sua imaginação. Todinha ela! Acabou? Pois saiba que nem sua loucura voluntária é capaz de projetar o “mico Brazil” composto de pronunciamento na sacada da sede diplomática brasileira de Londres, “pitis” com a imprensa do mandatário brazuca e desatinos histéricos de seus asseclas. Enquanto o mundo mimava os corgis, os doguinhos da rainha morta, a matilha raivosa ladrava na porta da embaixada. Não tenho informações, sobre outras altercações (tirando um súdito que se projetou em direção ao caixão durante o velório), na capital do reino silencioso e enlutado durante os funerais reais. Mitamos na baixaria.

Se a intenção era “desenhar” um roteiro de estadista para o presidente brucutu, faltou talento e companhias que pudessem colaborar com a pantomima. Não houve religioso ou herdeiro candidato a embaixador que lhe ensinasse a não tocar no rei, por exemplo. Gargalhar pra fotografia diante do filho enlutado, então...

Por que estou contando isso, cronista? Para fazer um mea culpa e reconhecer a veracidade do que você me apresentou no período em que convivemos. Ainda não ligou os fatos a série de TV? Já, não é? Vejo o lampejo de um sorriso sucupiriano no brilho do seu olhar de quase Dirceu Borboleta! Pois foi quando assisti, sob sua curadoria, “O Bem Amado” que, pela primeira vez, duvidei de sua “bibliografia” para me explicar o Brasil.

Achei que os fatos ali narrados, surreais demais, não passassem de imaginação fértil e fantasia deslavada do autor genial da novela que virou série. Tiro o chapéu à capacidade de serem inconvenientes de alguns que se acham (para não citar nomes). Que papel!

Feita a introdução, lembrando que as eleições são logo ali, destaco fatos. O primeiro é que 70% dos eleitores ainda não escolheram seus representantes aos parlamentos. Irão para o lugar em que monstros esfomeados se lambuzam nos orçamentos secretos que aprisionam valores exorbitantes. Valores que deveriam ser usados em políticas públicas definidas de forma articulada com a sociedade.

O segundo é o esforço coletivo, por assim dizer, para que a eleição a presidente se encerre no primeiro turno. O candidato a reeleição é categórico em afirmar que se não ganhar de cara (o que não deve acontecer, já que está em segundo lugar nas pesquisas) é porque houve fraude! Enquanto isso, o preço da gasolina cai a cada ponto que leva o ex-presidente à vitória.

Acho que na próxima lua saberemos o fim, pelo menos desse capítulo, da saga bolsonariana. Após os próximos blocos do episódio em curso em que o cenário é New York, a Assembleia da ONU.


https://youtube.com/shorts/JbmPsbtQSGg

Para fechar essa missiva, já que falei lá em cima em curadoria, dei um rasante na ArtRio 2022. Ela levou à deslumbrante Marina da Glória, 60 galerias e 15 instituições artísticas depois da pausa da pandemia.  50 mil pessoas circularam pelo espaço.

Uma das rodas de conversa foi sobre um tema que, sei, lhe é caro. “Exú nos museus e na Avenida”, abrindo caminhos ao reconhecimento dos incríveis e numerosos artistas que fazem a festa popular e precisam ser nomeados e reconhecidos como tais no mundo das artes.

"Conversa Exu nos museus e na Avenida " - Alayde Alves, Gabriel Haddad, Leonardo Antan, Leonardo Bora, Marcelo Campos

Flanando pelos corredores também reconheci, graças a sua paixão pelas artes plásticas de Mato Grosso, um peitinho de Adir Sodré, já vendido em benefício da Casa Nem, e uma cabeça de bugre da Conceição. Gervane de Paula tinha à ufa!

Ao imaginar o brilho do sorriso bailando novamente no seu olhar, arrisco a pegar uma encruzilhada desse nosso contato pra fazer um convite.

Em nome de seus amores: as artes, a cultura, o carnaval e a vida, se desentoque no dia 2 de outubro. Venha exercer seu sagrado direito ao voto. Digite, na urna eletrônica, os números capazes de fazerem com que Sucupira volte a ser o que deveria. Apenas uma obra de ficção genial de Dias Gomes!

Laroiê...

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

@delcueto.studio na Colab55

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Faça não


Faça não

Texto e foto de Valéria del Cueto

Não, não é momento de pensar pra trás. Especialmente porque não dá pra voltar no tempo.

A ciência contemporânea especula que existem tempos paralelos. É a esse conceito que devemos no apegar. Que bem aqui do lado tem alguém, inclusive nós mesmos, fazendo diferente.

Compliquei sua já confusa cabeça, cronista enclausurada? Seu correspondente Pluct Plact, esse extraterreste expatriado, acha que não...

Sei que de confuso seu raciocínio não tem nada. Mesmo reclusa voluntariamente do outro lado do túnel, basta lembra-la que estamos as vésperas de mais uma eleição brasileira para que os parágrafos de abertura dessa cartinha passem a fazer todo sentido.

São as várias camadas paralelas de Brasis que se apresentam. Usadas como munição das metralhadoras giratórias pelos pretendentes ao poder.

Para uns, não falta pão. Outros desejam trazer de volta a fartura. O povo? Claro, sente falta dos tempos de churrasco e cervejada. Tem um Brasil em que a prosperidade está logo ali, outro que luta pela sobrevivência a cada bico. Tem aquele dos “empreendedores” e o da falta de empregos. Tem o dos 100 anos de sigilo e o que exige transparência. Muitos, de comum acordo, batem palmas e lutam por um lugar ao sol dos privilégios das emendas secretas. Uns por quatro, outros por oito anos. Quem é contra tudo isso é ouvido, pouco compreendido e quase nada levado a sério.

Como disse, cronista amiga, são vários tempos paralelos, com personagens que se repetem, mas não têm o mesmo comportamento dentro de cada dimensão.

Um exemplo? Ulstra. “Herói” para uns, torturador segundo os registros históricos. Paulo Freire pode ser um educador genial ou um desagregador de famílias. Ah, as famílias... com ou sem diversidade?  

Todas essas informações contraditórias bombardeiam a cabeça dos eleitores que, em seus processos mentais individuais ou coletivos, tentam depurar tantas ideias e conceitos divergentes.

Querida amiga, agora é guerra aberta e declarada. Direta e subliminar. E eu aqui, tentando explicar esses eventos nas esferas interplanetárias. Uma complicação. Em alguns momentos, inclusive, chegam a duvidar de meus informes.

Apesar do termo ser desconhecido por lá, acham que é impossível esse nível de volatilidade das informações que envio e armazeno em nossos bancos de dados intergalácticos. O que fiz? O mesmo que estão fazendo aqui. Sugeri um sistema de checagem. Pode ser que entendam a força e o alcance maléfico das fakenews.

Antes me despedir quero pedir desculpas, parceira enclausurada, por ocupar nossa comunicação pelo raio de luar que invade a sua cela com tão poucas e específicas notícias do lado de cá. Tenho um objetivo. Começar a prepara-la para o que já é.

Setembro está aqui. Em todas as dimensões de tempo e espaço. Com os 200 anos da Independência e o coração (partido) de Dom Pedro I já circulando. Sendo exibido pelo Brasil. Não, não estou delirando. E tenho uma confissão a fazer. Ouço o que ele murmura em seu percurso involuntário.

Dele, vem um solfejo. Demorei a reconhecer a canção que, um dia, você me apresentou. É de Chico Buarque e diz assim: “Deixa em paz meu coração/Que ele é um pote até aqui de mágoa/ E qualquer desatenção/ Faça não/ Pode ser a gota d’água.../   

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


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sexta-feira, 22 de julho de 2022

De cabeça pra baixo


De cabeça pra baixo

Texto e foto de Valéria del Cueto

É agora ou nunca. Ou desenrolo essa crônica ou teremos mais uma semana desse silêncio maior que o buraco negro que devora gulosamente parte do universo. Não é uma ausência de ruído por falta de barulho. Talvez seja por excesso.

Os fatos (atenção, eu disse fatos e não notícias), atropelam o já conturbado e pouco prazeroso cotidiano.

Subindo a rua um toco de cigarro acesso sendo arremessado por um armário barbudo em direção ao meio fio atravessa o caminho natural de quem transita na via pela calçada.

Na sequência uma motocicleta, das grandes, desce na banguela evitando a contramão. O piloto e o carona deslizam velozes impávidos pelo calçamento de pedras portuguesas, desviando e fazendo cara feia pros pedestres que circulam indo ou vindo do metrô.

Na esquina o vermelho da sinaleira não intimida o motorista do buzão. Nenhum sinal de uma simples intenção de reduzir a velocidade, nem mesmo ao passar pela faixa de segurança do cruzamento movimentado.

Esses eventos ocorreram num curtíssimo espaço de tempo. Menor que uma performance tiktokeana, quiçá no espaço de uns 5 stories instagrâmicos.

Diante dos alertas deu pra sentir que era melhor seguir pelas sombras das amendoeiras coloridas pelo outono por ruas menos movimentadas em direção a um lugar em que pudesse sacar o caderninho.

Não vou dizer onde para não dar margem ao argumento de que este é um texto “localizado”. Nem pensar! Como eu e meu celular essa escrevinhação desligou (não, desativou como é correto definir) o modo localização.

O que me interessa é o sol. Esse, que brilha em qualquer lugar e, ultimamente, cospe fogo e ondas magnéticas em direção a nosso já tão combalido planeta. E nem pense em jogar a responsabilidade dos calorões, incêndios, enchentes, chuvaradas, nevascas e afins no astro rei. Os protagonistas dessa tragicomédia somos nós, estúpidos, inconsequentes e prepotentes seres humanos.

Qual um dominó gigante chutamos, não apenas a pedra original das mudanças climáticas, como ainda jogamos as peças para servir de lenha na fogueira do desastre quase irreversível.

Tá vendo porque tenho evitado manifestações croniquescas?

Não é que não queira dar o recado. É que sei que, para a maioria, ele entra por um ouvido e sai pelo outro sem nenhum grau de assimilação. Não há argumentos que se sobreponham aos fatos e nem a esses estão dando a mínima bola.

Por isso, o que (ainda) me faz escrever é deixar para o futuro algumas observações desse momento único da história contemporânea. Aquele em que o ser humano parece ter ligado, com o perdão da palavra, o phoda-se!

Para o golpe anunciado que se aproxima. À entrega da Amazônia a bandidos e redes internacionais, (sob os quepes dos militares que deveriam defender o território, mas ocupam cargos burocráticos em gabinetes e estão mais preocupados com suas candidaturas a políticos profissionais, onde o butim é maior e não deixa rastros). Para mais um passo da agonia do Pantanal, carimbada com o arcabouço legal ardilosamente tramado pelos deputados da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.

A aprovação do PL 561/22   libera a pecuária extensiva em áreas de preservação e capricha nas alterações de pontos chaves para a manutenção do bioma. Sabe o que falta para virar lei? A assinatura de Mauro Mendes, o garimpeiro cria de Blairo Maggi, agraciado com título de “Motosserra de Ouro” que, em breve, voltará a pontificar nas paradas de sucesso.

As barbaridades explodem como os humores do sol magnético. E, sim, deixarão sequelas permanentes.

Cá entre nós, queria muito ficar em silêncio e me “localizar” em minhas visões, normalmente tão poéticas e otimistas...

Mas, quer saber? Não dá. Pelo menos enquanto houver uma única chance de não nos entregarmos aos dementadores que circulam livremente para tirar nossas esperanças de dias melhores.

É hora de pecar por excesso, não por omissão!    

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

@delcueto.studio na Colab55

domingo, 26 de junho de 2022

No Tempo


O tempo perguntou pro tempo...

Resposta: [s i l ê n c i o ] só barulho do mar.

Então, o tempo mostrou pro tempo.

A bruma que o tempo traz.

O tempo? Como maresia. Passou.


Vagabinha meteorológica de Valéria del Cueto


@delcueto.studio na Colab55

quarta-feira, 1 de junho de 2022

A marola e a borboleta


A marola e a borboleta

Texto e foto de Valéria del Cueto

Ah, cronista enclausurada. Aqui fala aquele extraterreste, Pluct Plact, cada vez mais possuído pelos (maus) hábitos humanos, nessa corrida louca para ver quem chega primeiro (e ultrapassa) a perfeição tão imperfeita da humanidade.

Um desses maus hábitos, mas não o pior, é deixar sem notícias a amiga que tanto me preveniu sobre o, digamos, desapego suicida dos ocupantes desse planeta.

Registro aqui que estou perdendo para a tal I.A., a Inteligência Artificial. Ela, agora, fala pelos mortos! Assimila as características e responde aos vivos como se fosse do além! E eu que duvidei de sua análise, a mesma que a levou ao isolamento voluntário nessa cela. Fiz questão de ganhar o mundo em busca de argumentos e informações sobre o desenvolvimento planetário. Hoje, trago notícias. Não as que gostaria de dar, mas as que dispomos.

Para começar de forma amena, finalmente deixamos de ser lendas e passamos a existir! Tudo registrado numa audiência no Congresso dos EUA sobre... OVNIS. Já se fala, inclusive, na existência de alienígenas em Júpiter. Acharam algo parecido com um umbral na paisagem de Marte. Isso é bom? Seria se o assunto não fosse tratado como um caso de defesa. O que os demais ocupantes do universo como... atacantes!

O que esperar de líderes que, do nosso último contato para cá, não satisfeitos em atravessarmos a epidemia da Covid-19, ainda começaram o que pode ser a terceira guerra mundial?

Só esse fato, o ataque da Rússia a Ucrânia, já dá uma ideia de quanto tempo faz que não chego a sua cela levado pelo raio de luar que entra pela fresta da janela. A guerra já dura três meses. Por causa dela o deslocamento de civis da Ucrânia já ultrapassou a casa os 6 de milhões de pessoas. A Rússia foi cancelada pelos países da OTAN e a maioria da União Europeia. O bagulho anda tão doido que a Finlândia e a Suécia deixaram de lado a neutralidade e pediram para entrar na OTAN. A Turquia está vetando o acesso. Putin retalia cortando o fornecimento de gás e energia para, entre outros países, a Alemanha. O Mac Donald vendeu suas 800 lojas na Rússia!

O castelo de cartas da economia mundial está desabando. A inflação galopa, o abastecimento rateia. De combustível, alimentos e outros produtos. Instabilidade é a sensação geral, cronista.

Estou querendo parar por aqui essa missiva porque as novidades só vão piorar. É em meio a pandemia, ilusoriamente quase controlada, que ressurge uma nova ameaça, a varíola dos macacos (que dos símios só leva o nome) e se espalha por vários continentes para disputar com as cepas da Covid-19. Essas que conseguiram romper as barreiras e atingir a população da Coreia do Norte, onde hão há cobertura vacinal contra o vírus. A China? Até lockdown em Xangai!

Se lá está assim, no Brasil as coisas não andam muito melhores. As eleições se aproximam e quem chega antes é o terror. Depois do Jacarezinho, a nova chacina do Rio de Janeiro para chamar de sua é a da Vila Cruzeiro, com 23 mortos. Dias antes de policiais rodoviários federais de Sergipe transformarem a caçamba de seu veículo em câmara de gás e matarem um motociclista “detido” por falta de capacete. Não há limite para a barbárie, amiguinha.

Estou citando casos pontuais registrados no banco de dados da minha nave. Todos enviados para as bases interplanetárias quem monitoram o planeta!

Eu, Pluct Plact, pergunto: como argumentar contra as possíveis medidas de “defesa” que os humanos pretendem tomar em relação aos demais habitantes do Universo? Dialogar com quem, em que termos?

Nem a natureza aguenta mais tantas agressões. Iakecan, o ciclone, as chuvas torrenciais no Nordeste, o frio fora de hora...

Por isso, é bom manter seu o isolamento, depois daquela fuga quase secreta carnavalesca. É melhor não fazer marola nesse momento. Sabe lá o efeito borboleta que ela pode causar?

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

@delcueto.studio na Colab55

quarta-feira, 23 de março de 2022

Dilúvio em terra de bamba? E a gente samba...

Dilúvio em terra de bamba? E a gente samba...

Texto e foto de Valéria del Cueto

Quase um mês sem chover no Rio de Janeiro e a previsão para a noite do domingo, 20 de março de 2022, era de temporais. E assim foi na data marcada para os ensaios técnicos no Sambódromo das escolas de samba do Grupo Especial Paraíso do Tuiuti, VilaIsabel e Mangueira, no carnaval extemporâneo da pandemia, na Marquês de Sapucaí. Melhor o atraso aquático do que a ausência...


Depois de não poder participar do primeiro final de semana de ensaios técnicos por força de um compromisso assumido, esperei ansiosa pelo seguinte. Era o reencontro com os amigos e o início da preparação, quem sabe, de um novo roteiro para fotografar os desfiles marcados para depois da Semana Santa, em abril. Lembra que em 2020 os ensaios técnicos não aconteceram? Só a lavagem da Sapucaí, o teste de luz e som com a campeã do ano anterior, no caso, a Mangueira, na véspera do carnaval. A cara do Crivella e do atraso nas obras da pista, pra variar...

Antes do início das apresentações a chuva já lambia a pista dançando nas rajadas da ventania.

Já entrei no espaço do Sambódromo vestindo a capa e, para checar as condições, rumei em direção a torre de transmissão. Não precisei chegar até lá para imaginar o que veria. O vento empurrava as chuvas para o lado e não havia um único espaço seco na estrutura. Fiquei por ali ilhada embaixo das arquibancadas do setor 11, rodeando e conversando com o pessoal dos serviços gerais, sabendo da vida deles. Todos ligados ao mundo do samba, cadastrados e chamados para fazer a limpeza. Por perto guardas civis reunidos num grupo conversavam sobre... passagens da Bíblia!

Assisti o ensaio do Paraíso Tuiuti da torre mesmo e mal instalada, tendo que secar a lente manchada pelos respingos de tempo em tempo. Desci devagar a pista no intervalo e fui em direção a concentração. Não vi quase nada da Vila Isabel, como você (não) verá nos álbuns.

Fui direto à área da montagem do grid da bateria da Mangueira na Presidente Vargas, do lado dos Correios. Como o corpo da escola montou do lado oposto, na direção do lendário Balança Mas Não Cai, não consegui ver os componentes passando, nem visitar a concentração para rever os queridos amigos da comunidade verde e rosa. Só mais tarde, na pista...

Cheguei a tirar a capa de chuva, mas logo que foi dada a ordem de montagem da bateria, depois da reunião do Mestre Wesley e sua diretoria com os ritmistas, achei melhor vesti-la de novo. Não que fosse adiantar muito diante da água que despencou do céu no ensaio.

Saí no meio dos cuiqueiros gravando o desenho da bateria na passagem pelas arquibancadas do Setor 1 bem vazio, já que chovia pesado. Me desencantei quando, depois de seguir até o Setor 3 e retornar para o primeiro recuo com os ritmistas, descobri que a câmera não havia gravado! Das duas uma. Ou desanimava e desconcentrava ou dava o troco nas fotos.

Claro que optei pela segunda hipótese. Foi aí que descobri vasculhando a mochila e fazendo malabarismo enredada nas alças e mangas encharcadas que não estava mais com a “capa de chuva” do equipamento. Dei pela ausência do acessório essencial no primeiro módulo de julgamento e vi como fazia falta porque, por cima de mim, a manga de uma mão com um celular que gravava as apresentações da comissão de frente, pingava insistentemente em cima da Nikon! “Ai meu santo dos circuitos integrados, protegei o equipamento”, rezava no meio da cantoria...


Olhei em volta e a única coisa que achei foi uma bandeirinha da Vila Isabel, que havia acabado de desfilar. Expliquei a situação à senhora que estava na frisa e ela pediu para a neta ceder o plástico. Imaginei na hora se não estava desestimulando a menina, para quem a bandeirinha poderia significar uma lembrança da noite inesquecível.

Agradeci e improvisei um nozinho na parte de baixo da lente. Era o que tinha para o momento. Corri para o segundo módulo de julgadores serpenteando pelo meio das baianas e algumas alas embaixo do temporal. Registrei novamente imagens da comissão de frente e esperei pelo casal de mestre-sala e porta-bandeira, Matheus Olivério e Squel Jorgea.

Nessa altura já não tinha mais panos secos para enxugar o equipamento. Uma toalha pequena e um lenço estavam ensopados. Torcíveis, como a roupa do corpo. O tênis fazia choc choc nas poças da beira da pista. Impossível escoar tanta água, mesmo com o novo sistema recém inaugurado. Nas costas, a mochila por baixo da capa ainda resistia, mas o suor também a deixava úmida por dentro. O mesmo nos braços. Sentia a água escorrendo pelas costas, o capuz jogado para trás, inoperante.


Para acessar o álbum de fotos no acervo carnevalerio.com no Flickr clique na imagem ou aqui

A única preocupação era com a câmera. Lembrei da camiseta que havia trocado pela camisa antiga da bateria da Mangueira, para facilitar o reconhecimento pela harmonia da escola. Foi a salvação. Usei para ir enxugando a lente dos pingos e a câmera, protegida pelo corpo e a capa das rajadas de chuva.

Fiz os registros de Débora de Almeida e Renan Oliveira, o segundo casal, já na terceira cabine de julgadores, embaixo da torre de transmissão e por ali esperei a chegada da bateria comandada por mestre Wesley e a rainha Evelyn Bastos.

Usei a última parte da pista para fazer mais registros do mestre, da rainha e, claro, dos ritmistas que sambavam na dispersão, em frente a Apoteose de Oscar Niemeyer.

O arco se projetava sobre o povo do samba em sua manifestação carnavalesca mais genuína, num ritual mítico de lavagem e purificação das dores que cercaram a vida de todos nós nos últimos dois anos...

PS: As fotos saíram e, tanto a câmera quanto eu nos recuperamos. Ela mergulhada no arroz para secar e eu num banho bem quente pra reequilibrar.

Evoé que tem carnaval pela frente...

Valéria del Cueto é fotógrafa, jornalista e técnica cinematográfica. Da série “É carnaval”  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Baianas, afetividade do Carnaval - Estação Paraíso, Metrô de São Paulo



Estação Paraíso do Metrô recebe Exposição “BAIANAS AFETIVIDADE DO CARNAVAL”


A partir desta terça-feira (22) quem passar pela estação Paraíso da Linha 1-Azul do Metrô poderá "entrar na roda" apreciando a exposição “BAIANAS AFETIVIDADE DO CARNAVAL”

 

A mostra fotográfica faz parte do projeto LINHA DA CULTURA e apresenta os elementos que compõem o imagético de uma das figuras mais tradicionais do mundo carnavalesco. 

As baianas sintetizam uma parte dos fundamentos das escolas de samba e do carnaval brasileiro.

 



Dos cuidados com a limpeza dos espaços, como a lavagem das quadras e da Sapucaí, passando pelo carinho no preparo dos alimentos, à composição de suas míticas indumentárias e adereços, para chegar ao giro mágico das componentes das magistrais alas das baianas, elas se fazem presente no cotidiano das agremiações do samba e são destaque no cortejo na passarela. 

 

Elementos obrigatórios nos desfiles carnavalescos, remetem à conexão com a ancestralidade. Quando surgem paramentadas, as tias nos fazem pensar que, enfim, é carnaval! 

Foto: Cesar Frezzato


 

A mostra, que ocupará até 31 de março o espaço cultural da estação Paraíso da Linha 1 Azul, tem curadoria de Cesar Frezzato. É composta por fotos de Valéria del Cueto, Vinicius, Sarvegnini Martins e do acervo Riotur. Texto de Renato Dutra, apoio de Priscila Wu. 

Realização @historiasdocarnaval e Linha da Cultura do Metrô de São Paulo.

 

SERVIÇO: 

Exposição “BAIANAS AFETIVIDADE DO CARNAVAL”
Data: De 22/02 a 31/03
Estação: Paraíso

No site do Metrô SP: https://biblioteca.metrosp.com.br/index.php/ptbr/359-linha-visuais/1117-baianas

Contato: Cesar Frezzato 11-983972061 / histdocarnaval@gmail.com

@delcueto.studio na Colab55

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Nunca mais

Nunca mais

Texto e foto de Valéria del Cueto

Daquela altura tinha uma visão geral do ambiente em que estava. Amplo e cheio de coisas. Em primeiro plano via as costas da cadeira ergonômica (sinal de que quem a ocupava o fazia com frequência) antes da escrivaninha repleta de papéis, pastas e objetos. Entre eles um laptop que visualizava pelo alto do espaldar giratório. Mais à frente cadeiras para visitantes e um sofá voltado à parede formando outro ambiente. Ao fundo estantes, mais livros e a enorme tela da TV que abriu sua visão para o mundo lá fora. Um janelão à direita. Para trás não via nada, espremido entre outros exemplares de literatura.

Não sabia seu nome, posto que era incapaz de se olhar. Não era gordo, achava, como via outros nas estantes que decoravam as paredes frontais. Mas, pela posição que ocupava, deduziu ter algum valor. Estava ao alcance das mãos do “patrão”. Era constantemente manuseado. À vista quase inevitável dos visitantes curiosos que por ali passavam. E eram muitos.

Devia conter, imaginava, alguma erudição. E essa era ampliada pelo que apreendia em seu subconsciente literário pela tela em frente. Era testemunha involuntária da história que se desdobrava a cada dia no recinto por meio daquela imensa, diversificada e louca janela pra o mundo.

De tudo que viu preferiu a alegria. O momento mais esperado era o carnaval. Seu interesse começou quando numa madrugada se (ou)viu no ritmo de uma batucada e, nas imagens projetadas, apareceu a imensa alegoria de... um livro aberto! Um irmão gigante incrustado num carro repleto de foliões. Para descobrir o que fazia ali, no meio da festa, prestou atenção às cenas que quase saiam dançando enquanto reverberavam pelo ambiente, quebrando a severidade da vizinhança na biblioteca.

Então um livro podia alcançar o mundo! Passou a observar todos as escolas de samba ávido por novas expressões literárias nos desfiles. Se sentia representado e valorizado. E lá estavam eles, em vários enredos apresentados. O período carnavalesco era ansiosamente aguardado nos anos em que pontificou com whisky e salgadinhos no salão aconchegante.

Um dia, a surpresa. Uma mudança imprevista! Não o entra e sai da estante para uma consulta ou a espanada semanal. Da prateleira para a escuridão de uma caixa fechada e, pelo som, lacrada! Que destino o aguardava? Perdeu a noção do tempo.

Sua visão foi ofuscada quando pode respirar ar puro novamente. A rearrumação foi numa estante de metal, com mais folga entre os irmãos. A visão do entorno completamente diferente. Livro empilhados, mesas, muito movimento. Ouviu dizer que fazia parte de um acervo doado a uma biblioteca de comunidade. Mais uma vez ganhou lugar de destaque. Sinal de sua relevância. Afinal, descobrira. Era um exemplar da Constituição Federal! Passou a viver manuseado e consultado.

As notícias do mundo exterior não mais chegavam. Pegava umas rebarbas por cima dos ombros dos celulares dos frequentadores. O que não era muito em se tratando de uma biblioteca. Passou a entender mais de games do que acompanhar as novidades. E sentia falta... dos carnavais. Ausentes pelo fechamento do espaço bibliográfico popular nos dias de folia.

Com o passar do tempo foi se desgastando naturalmente. Sentiu as juntas ressecadas, as folhas se soltando. Pressentiu que seu fim estava próximo pedindo a Deus só mais um carnaval, nem que fosse no compacto da quarta feira de cinzas, dia da apuração.

Não teve forças nem estrutura para chegar sequer ao meio do ano. Se despedaçou. Foi literalmente desfolhado e, com as capas e lombada, jogados numa caixa. Fechou os olhos. Imaginava que para sempre quando o conteúdo da caixa foi sendo encharcado folha por folha com um líquido pegajoso. Se entregou. Desfaleceu.

Recuperou a consciência ouvindo o som da bateria e o rugido da arquibancada aclamando a verde e rosa. “Como assim”, pensou, “onde estou, o que sou?” A lucidez foi voltando devagar. Envolvida na alegria reverberando ao vivo e a cores! Ainda havia vida em suas páginas. Usadas que foram para empastelar uma escultura carnavalesca. Fazia parte de uma alegoria num dos carros da Mangueira!

Cruzando por um dos telões que transmitiam o desfile da Sapucaí de rabo de olho (meio grudado) pode se situar. Seu desejo inimaginável fora realizado. Era um livro que virara o livro. Papel picado reelaborado para compor outra obra. Também literária. E, dessa vez, visual.

Na passada de olhar pelo telão conseguiu ler seus dizeres em letras gigantes: “Ditadura Assassin”. Franziu a sobrancelha (e livro tem?) Nunca mais. Fizera sua parte. Ajudara a impedi-la. Merecia a recompensa, decidiu, se deixando sacolejar até chegar a Apoteose ao ritmo da “Tem que respeitar meu tamborim”, a bateria da Mangueira.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “É carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

@delcueto.studio na Colab55