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sábado, 4 de julho de 2015

Em busca da Inspiração, de Valéria del Cueto

Acordou com uma saudade louca do #Lemequenaosaidemim Pegou o rumo oposto, a contragosto.  Deixou para trás o reino e Nápoles e as agruras de Alex Dumas. As que inspiraram Alexandre, seu filho, a escrever o “Conde de Monte Cristo”. Ele é o personagem principal de “O Conde Negro”, Pulitzer de biografias de Tom Reiss. Difícil parar um mundo desses para quem é fã de leitura. Conseguiu. Pedra, por pedra, foi para a do Arpoador.
Cruzou a Praia do Diabo ao ouvir o som. De lá. Pulando que nem cabrito foi para a ponta mais ponta da Pedra do Arpoador, nem lá nem cá. Onde borrifos de finas franjas de maresia das ondas inconstantes salgavam os poucos solitários. Os que trocaram a imagem paradisíaca do postal Ipanema, Leblon, Morro Dois Irmãos e Vidigal pela força do mar e duas ilhas praticamente inóspitas, num horizonte sem fim.
Continuou seguindo os navios ao longe, muito longe, com a maré alta. Eles se dirigiam à entrada da Baia de Guanabara. Lá, depois do Morro do Leme assinalado pela bandeira brasileira encravada no alto do Forte da Vigia...
Era desse lado que vinha o som. O lamento do vento falava uma língua conhecida,  ora murmurando numa inquietude vacilante, ora uivando sua revolta. Salgando com minúsculas lágrimas quem não se incomodasse com seu arrepio gelado e parasse para tentar entender suas lamentações.
Ele contrastava com o sol acolhedor e silencioso do outro lado da Pedra do Arpoador. Avisava. E quem avisa amigo é. Tentava evitar que a parede de nuvens engolisse de vez os Dois Irmãos, escurecendo o lado sul. Sabia. Seu esforço apenas retardaria um pouco a mudança eminente do tempo e da paisagem.
Nada disso provocou o ato de (d)escrever. Um estímulo especial veio do encontro de alguns músicos, desses que tocam de bar em bar, a procura de um parceiro que havia prometido bater ponto ao lado da escultura de Millôr Fernandes, na quina do Arpoador com a Praia do Diabo.
Pois não é que mesmo sem ir ao samba ele veio se juntar a música do vento, agora sussurrante?
E, entre todas as possibilidades e hits disponíveis no encontro de repertórios, um dos músicos começou. Só na voz:
- “Não... Ninguém faz samba só por que prefere...” - O vento respondeu com um gemido, antes mesmo do dedilhar do início do solo no violão conseguir responder a introdução.
- Tá baixo – reclama o pandeiro. A pausa é tão sutil que não muda o ritmo nem o andamento dolente.
- “Força nenhuma no mundo interfere, sobre o poder da criação...” – responde o cantor violeiro. Sem subir o tom, nem dar a mínima para o entorno. Quem quisesse que viesse. Ele ia em frente recitando os versos do   mantra do Paulo César Pinheiro e João Nogueira,  “O Poder da Criação”, em sintonia com o universo.
O tom baixo subindo lentamente com a força da música. Voz e violão.
- “Ela é uma luz que chega de repente, com a rapidez de uma estrela cadente e acende a mente e o coração” – À frente a luz vai mudando. Caindo lentamente, ao contrário do tom da música. Ciente de que nada o impediria de seguir adiante, embalado pelas lindas palavras do samba-canção, o tamborim começa a marcar o ritmo pungente, se preparando segurar a para virada.
- “E o poeta se deixa levar por essa magia e o verso vem vindo e vem vindo uma de uma melodia e o povo começa a cantar! Lalaia..."
Como cada um faz seu canto como pode, abre a bolsa saca o caderninho da vez e a caneta. Nem nota o momento em que os músicos tomam seu caminho deixando a música para trás, nas páginas de mais uma crônica do Sem Fim...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM   FIM...  delcueto.
E3- ILUSTRADO - SABADO 04-07-2015 (2)Edição Enock Cavalcanti
Diagramação Nei Ferraz Melo 

domingo, 9 de dezembro de 2012

Da janela da alma vem a luz que me acalma



Texto e foto de Valéria del Cueto

Tudo igual. Constato passeando pelo bairro, no caminho entre a padaria e a Pedra do Leme, onde vejo a bandeira tremulando a meio mastro. Mas diferente.

Vinha procurando um assunto quando passei embaixo da janela do meu antigo apartamento, a “casinha” (o novo ainda não tem nome), no primeiro andar. Aquela onde, quando fui para lá, há mais de dez anos, achei ideal para receber serenatas.

É, sou do tempo e de lugares de serenatas na janela. Para desespero do meu pai, milico ainda, que precisava acordar cedo para trabalhar. Como somos duas filhas, a Gisela e eu, as homenagens românticas eram múltiplas, muito mais pra Gi do que pra mim.

Em Bela Vista, naquele tempo Mato Grosso, serenata era assunto muito sério e recorrente, principalmente nas férias, quando a garotada baixava na princesinha do Apa. Tinha que agradecer, abrir a janela...

A ordem dos fatores alterava todo o produto. Era uma romaria crescente por que quem recebia a serenata costumava se juntar a turma para ir cantar noutra janela, depois noutra.

Nunca fui de ir atrás das violas enfeitiçadas. Primeiro, por que meu pai não deixava. Segundo, por que nossa casa sempre ficava por último, mesmo que fosse visitada noutra altura da ronda musical. Afinal, eu namorava Preto, o violeiro – mor, peça quase fundamental para o sucesso da empreitada (sem tirar os méritos dos dedilhados e doces palavras do Vanderley, do Gão do Bermudes e, por que não incluí-lo, pelo esforço frequente, o Tadeu Palmieri). Eu não me incomodava mas, meu pai, sim. Não foi nem uma nem duas vezes que recebeu as românticas caravanas ameaçando premiá-las com panelas cheias d’água. Isso, lá pela terceira ou quarta serenata. No meio da semana!
Quase infelizmente no prédio da Gustavo Sampaio nunca recebi uma serenata. Também nunca pedi, por achava que o mimo deveria vir de forma natural, sem forçar  a barra.
A vida é assim, não nos dá aquilo que pedimos. Porém... De vez em quando, nos chega um presente muito melhor. Acontece que a janela do meu quarto era só um pouco acima do nível da rua. Não precisava de gritos para que eu ouvisse se alguém me chamasse.

E, assim, nos últimos 10 anos, passou a ser feito. Todos os domingos e, algumas vezes, durante a semana. “Maria Valéeeeeria, Maria Valéeeeeria...” Aos domingos, depois da missa, um pequeno desfio de caminho, permitia que minha avó me desse o melhor despertar do mundo, o mesmo que tive durante os anos que morei com ela, (naquele tempo acrescido de um copão de Nescau morninho).

Não importava meu estado matinal ou o peso da janela de guilhotina que me fazia me xingar mentalmente, temendo dar um mau jeito nas costas levantando o janelão. Como a cama ficava colada, a segunda dificuldade era encontrar os óculos pra poder dar um tchauzinho pra minha amada e combinar o almoço de domingo. Simples assim.

Tive a minha serenata por uns de dez anos. Até precisar mudar de apartamento, no último mês de maio. Mudei pra perto, para a rua de trás e entrei no caminho natural de dona Ena para a igreja. Só que... Fui morar no segundo andar. Muito mais difícil de ouvir meu mantra de bom dia. Passei a colocar o despertador e, tal como Januária, esperar que a maré cheia do meu mar de amor me alcançasse. Ficou mais difícil e por contingências da vida, o costume não firmou.

Hoje, na minha janela, sou apenas Carolina, a que não viu o tempo passar. E, dizendo mentalmente nosso “segredo”, junto com ele prometo: nos meus olhos, agora, fundos, não vou guardar a dor. Uma rosa pode morrer, a festa acabar, um barco querer partir. Nossa  história não merece o sofrer, amada. Não faz assim  quem foi só carinho, amor, tanta alegria! É minha lei, a lei do Sem Fim...

*Valéria del Cueto, neta e afilhada de Dona Ena, para sempre no SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com 

domingo, 14 de outubro de 2012

Ótimo por um átimo



Texto e foto de Valéria del Cueto
A vida é assim. Conduz a gente. Claro que há espaço para uma substancial colaboração no conjunto da obra. Mas, na hora do vamos ver, pode ter certeza: ela dá o seu pitaco e vira o jogo.

Quer um exemplo?

Cheguei numa praia repleta de atrações fotografáveis. De longe, procurei com o olhar o rumo do meu prumo, a Ponta do Leme. E lá, na Pedra, vejo que começaram a dar o ar da graça as florezinhas amarelas que recobrem as copas das árvores do perfil do morro por um curto espaço de tempo, um quase agora. É a florada dos Ipês.

De longe saco a máquina fotográfica. Cheia de gás e inspiração constato que não só as alterações da paisagem - mas o entorno como um todo - pedem um registro cuidadoso. Sinto-me leve. É a hora!
Começo num plano médio. Vou para o detalhe, pegando a bandeira que tremula no Forte Duque de Caxias e as flores, abro para um geralzão e...

A vida intervém. Poderia dizer, inclusive, que de forma muito antidemocrática. Lá se vão as baterias da câmera. Mais arriadas que pneu em caixa prego.

O que fazer com as bandeiras coloridas dos quiosques, as pipas, o tabuleiro de cuscuz, a leitora distraída? Sem falar no sol, na praia e nas ondas arrojadas que enchem o mar de surfistas.

A vida impõe. Quem pode, responde. Capto o sentido da restrição. Puramente fotográfica, ela não se estende à literatura.

Por isso estou aqui, olhando de dentro dos meus olhos para esse marzão adentro e desafiando minha capacidade de narradora para descrever, mais uma vez, o meu lugar. Meu e de muita gente que venho descobrindo através desse Sem Fim... de histórias que me seduziu. E de quem hoje sou uma escrava feliz que surfa pelas palavras tentando capturar o sentido das ondas por onde deslizam e evoluem homens e pranchas a minha praia.

Pensa que é fácil? Olha e escrever ao mesmo tempo é PHoda. Uma briga incessante. Dois polos te atraem ao mesmo tempo. Aqui, as frases e parágrafos exigem a sua atenção e rapidez, antes que passem batidas, engolidas pela velocidade dos pensamentos que, em décimos de segundos se projetam impacientes num passeio mental vertiginoso.

Lá, aí, lá. Lá é cá, no mar. Também um ciclo de imagens e manobras únicas que, a mim, seduzem desde a formação distante das ondulações que se revelarão boas ou más para a prática do surf, bodyboard e/ou do jacaré, o de peito. Até o momento em que a última espuma da antes poderosa força da natureza se espraia, lambendo preguiçosamente as areias do Leme.

Para mim, onda é um resumo da vida e mar uma síntese dos ciclos existenciais. Como um I Ching natural, aparentemente simples, porém tão complexo quanto os meandros mais profundos do oráculo chinês.
Mobilidade, volatilidade e instantaneidade. Assim são as ondas, movidas de acordo com o humor das correntes, das luas, dos ventos...

É atento a todos esses elementos que se joga na água o atleta. Na busca da sintonia com o mar. O desafio é a integração, por que dela vai depender a capacidade de ousar e criar suas manobras.

O sol, que brilhou até agorinha está se escondendo encoberto por nuvens desanimadoras. Mas como? Ainda não falei das roupas de neoprene penduradas na barraca para secarem. Nem mencionei minha paixão de sempre, as peladas na beira da praia...

É a vida, mais uma bateria que se esgota. Assim como o espaço dessa crônica, a única ditadura imposta pelos meus amados editores para os meus voos literários. Até a próxima!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com 

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Poesia na Pedra


Tia Circe pediu, a sugestão foi aceita.
Atendendo a pedidos, alguns "momentos" de poesia promovidos, entre outros, por Eduardo Tornaghi, no canto da pedra, aos domingos, ao lado da Feirinha do Leme.

A Leitura
É Poetagem
Que se encontra com a música.
Quem não acredita em Papai Noel?

Cas, ou não Cas?
Não tem questão!

Infâmias e fotos de Valéria del Cueto para a série Ponta do Leme no SEM FIM...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Eu quero descer!








Em pleno janeiro, correndo da neblina úmida e da chuva miúda que é prenúncio da sua persistência, ando pelo calçadão meio sem rumo.

Falta menos de uma semana para o carnaval e o que vejo aqui, do meu posto de observação na Ponta do Leme, não é nada animador.

Guiam-me dois tipos de sinais: a direção para onde o vento leva a bandeira que flana hasteada no topo do Forte Duque de Caxias, no alto da Pedra do Leme, e a barra sul que observo ao longe, no horizonte, na direção do Posto 6 da praia de Copacabana, emendada com o Arpoador.

Os contornos dos morros Dois Irmãos, da Pedra da Gávea, dos Cabritos e o Cristo Redentor que fazem o plano de fundo da paisagem que vejo do Caminho dos Pescadores estão escondidos por camadas sobrepostas de nuvens uniformes.

Tudo parado. Não vejo a ira dos temporais de final de tarde que vêm ameaçadores e vão um pouco mais tarde, para amainar o calor do clássico verão carioca.

Meu olhar vagueia pelos tons de cinza que colorem a paisagem, enquanto penso na teoria do bater das asas da borboleta, que pode mudar os rumos do planeta. Transformar a história. Num átimo.

Qual será o efeito provocado por uma roda cujo adjetivo é gigante incrustada na ponta oposta a minha praia?

É. Não quero ser alarmista, mas desde que a tal roda começou a funcionar, justamente no dia de seu compadre São Sebastião, São Pedro ficou de mal com o Rio de Janeiro e está pesando a mão no quesito garoa paulistana.

Cada coisa n seu lugar. E tenho a impressão que a tal roda está deslocando nosso status quo climático.

Talvez permita que se bisbilhote por um buraco de fechadura que Deus não quis abrir, tanto que fez a Ponta do Arpoador bem abaixo da cota máxima. A cota a que me refiro é especificada na legislação celestial pertinente a geografia privilegiada da região onde se estabeleceram os cariocas em outras eras.

Por via das dúvidas, fico feliz em saber que temos a sorte do evento que marcaria o verão carioca ter data marcada para acabar. Azar? Que tal fato só ocorrerá depois do carnaval.

Pensando bem, fica aqui uma mera sugestão de uma carioca precavida: por favor, parem esta roda gigante que o Rio quer tempo bom e a Sapucaí nos espera para os desfiles de carnaval!


http://delcueto.multiply.com
Este artigo faz parte da série Ponta do Leme