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domingo, 11 de dezembro de 2016

Recado poético

Recado poético

Texto e foto de Valéria del Cueto

Todos os requisitos necessários para o bom andamento dessa fábula fabulosa estão aqui representados. O checklist de Pluct, Plact, o Mercúrio extraterrestre, mensageiro da cronista voluntariamente enclausurada, está completo. Divide-se em itens básicos, circunstanciais e os "extraplus", aqueles especiais.

Vamos ao básico: um sol de verão na primavera e vista paradisíaca com amplo horizonte marítimo. Não o ideal, porque só Ponta do Leme só existe uma. Mas o Arpoador disponível no momento, diante das circunstâncias, é mais do que aceitável. Um mar verde esmeralda hoje quase sem ondas e temperatura tépida. A praia praticamente vazia, onde predominam o barulho das ondas e os pregões dos vendedores ambulantes que circulam entre os frequentadores (tem bastante turistas) oferecendo queijo coalho, caipirinha, cangas, bronzeador, Mate Leão, limonada, óculos de sol, Biscoito Globo... 

Esses são aspectos do relatório que introduzem e ambientam a narrativa, aproximando a cronista rebelde de seu visitante interplanetário. Não que ele não tenha tentado inverter a ordem dos fatores, mas claramente, nesse caso, ele alteraria a o produto como você verá na sequência.

O segundo grupo é o de requisitos circunstanciais. Nele estão englobados os temas que mantém a amiga, isolada na cela do outro lado do túnel, enquadrada no contexto da loucura contemporânea. Inclui a tentativa na calada da noite do presidente do Senado de tornar urgente a tramitação da lei de abuso de autoridade. A liminar do ministro do STF Marco Aurélio afastando o réu da presidência do Senado. Sua conduta ao desafiar a justiça dando perdidos sucessivos no oficial da justiça! O espetáculo deplorável de assistir a suprema corte brasileira, mais uma vez, só botando a cabecinha. Técnica já apresentada na condução da sessão que tirou Dilma do poder, sem fazê-la perder seus direitos políticos. 

Pois dessa vez o puxadinho impede o réu de assumir a presidência da república, mas não o impede de “comandar” o poder cujo presidente, por determinação constitucional deveria ser, no momento, o segundo nome na linha de sucessão.

Nessa altura, a musa inspiradora de tantas fábulas fabulosas, estará olhando o infinito com olhos lassos. E há nos seus olhos ironia e cansaço, quase a dizer que não vai por ali. Pluct,Plact teme que ela se feche naquele mundo só visto pela fresta da janela, em que não há espaço para nada! Só cabe a lua. Que é dela...

Aí o ser, repleto de sabedoria universal, lança mão do “extraplus”, seu recurso derradeiro para trazê-la de volta. Conta que a presidente do STF, Ministra Carmem Lúcia, manteve sua louvável linha pop de citações literárias na histórica sessão. Mas, infelizmente, dessa vez errou a rima ao citar, (tirando de seu recém merecido repouso no mausoléu da Academia Brasileira de Letras), o poeta Ferreira Gullar! Isso ao proferir seu voto pela posição da maioria: a de deixar Renan na presidência do Senado...

É com esse estímulo que Pluct,Plact encerra a visita. Sai certo de que isolada, sim. Desconectada? Nunca estará quem recita poderosa a resposta do poeta à “afronta” literária.

Subversiva (de Ferreira Gullar)
A poesia
Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha
Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.
E promete incendiar o país.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Texto da série “Fábulas fabulosas” do Sem Fim...
Studio na Colab55

sábado, 29 de outubro de 2016

Contrastes na areia

contrastes-na-areiaContrastes na areia

Texto e foto de Valéria del Cueto
Combinação perfeita: sol praia e caderninho. Um pouco de vento para quebrar o calor. O mar não está propício para grandes aventuras a não ser que você esteja de prancha e conheça os segredos das valas, bocas e correntes do Arpoador/Ipanema.

Quem tem um caderninho e está com saudades da sensação da caneta deslizando pelas páginas pode, por um dia, dispensar algo maior e mais duradouro que um mergulho para dar um gás nos cachos. Depois de alguns dias de chove-não-molha-muito a previsão (de novo) é de chuvas  trovoadas, então... Vamos aproveitar o sol da tarde.

No trajeto, bem na frente, um grupo de garotos de bermudas, chinelos e mochilas foi interceptado no portão de saída para a praia do Parque Garota de Ipanema. Com educação o policial pediu para abrirem as mochilas, perguntou de onde vinham (Jacaré).

Barrou. Dali, deram meia volta. A explicação é o grande número de furtos na área, conta um representante da autoridade, autêntico enxugador de gelo. São menores e vem sem. Documentos e nem um responsável maior de idade. Meia-volta!

Chegam aos poucos e quando se juntam na areia formam grupos de mais de 30 garotos. E partem pra cima. Um ataca e corre para o grupo. Todos parecidos. Não dá pra reconhecer quem deu o bote. E encarar é difícil.

De 8h às 12h a praia é um paraíso. Daí em diante, até as 17h, hora que começam a chegar os turistas para o  famoso pôr-do-sol e o policiamento é reforçado, é que o coro come. Os locais, inclusive das comunidades vizinhas, tentam ajudar para impedir o caos, mas não dão conta.

A última novidade são os ataques noturnos. O local é um point de surfistas, com uma boa iluminação e a vista é espetacular. Esses dias corre a história de que quase jogaram uma mulher que reagiu ao bote, na parte das pedras, lá de cima. Eram tantos que a polícia precisou fechar um perímetro para conter o bonde. Eles estão reagindo a autoridade policial que sabe pouco poder fazer para conter a ousadia. Os problemas aconteceram por noites seguidas. Os integrantes dos bondes comemoram seus ganhos pelo facebook, acredite.

Tempos modernos que afastam o prazer das coisas simples como poder estender a canga na areia, puxar o caderninho e empunhar, distraída do entorno, a caneta. Essa sim, um grande veículo de transformação social.

Não dá. O mesmo menor barrado na entrada do Parque  circula pelo pedaço, nas proximidades do Posto 8.  Roda pra cá, roda pra lá, chega junto a uns turistas que escolhem peças de bijuterias artesanais, pergunta o preço olhando, não as peças que se diz interessado, mas mapeando o local. Vai em frente rodeando os grupos e checando as possibilidades.

O caderninho reclama atenção, pede concentração, exige coerência. O vento murmura e a tarde avança. Pássaros cruzam o céu quase sem nuvens.

A harmonia é quebrada por uma gritaria. A mulher  enfurecida. Pede respeito ao vendedor de caipirinha que, jura, trará uma mulher “para lhe dar uma coça”, por que não é covarde e não bate em... mulher!

A curta e patética história: O vendedor oferece o produto. A mulher não quer. O cara insiste. A mulher derruba a bandeja com os copos com todos os drinks do vendedor. Só que a praia está vazia. Só tem outros... vendedores. O pau quase quebra!

Isso não é uma fábula fabulosa. É a realidade nua e crua. Aquela que para mudar precisa de reformas estruturais e de conduta. Em Brasília, Renan vai de juizeco...

A educação é pilar básico para regular as relações e ser cabeça de ponte para tempos menos cruéis, de mais amor e gentileza. Pense nisso quando, no domingo, escolher o prefeito de sua cidade.

O futuro agradece àqueles que (ainda) acreditam.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim...
Studio na Colab55