Mostrando postagens com marcador Copa 2014. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Copa 2014. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de junho de 2014

Cara de paisagem

Copa 14060711 001 Copacabana CAM e lua
Texto e foto de Valéria del Cueto
O Rio de Janeiro é uma festa e seu epicentro até entrar em campo o cenário do novo Maracanã, na partida entre Argentina e a Bósnia Herzegovina, na tarde desse domingo, é sem dúvida, a praia de Copacabana.
Daqui do oásis de paz e tranquilidade que (ainda) é a Ponta do Leme fiscalizo a movimentação, dando umas pernadas pelo calçadão para ir visitar, lá no Forte de Copacabana, do outro lado da praia, o CAM – Centro Aberto de Mídia, uma das bases do jornalismo mundial que cobre o evento.
Dá pra sentir a animação que se espalha em ondas pela orla de Copacabana. A “arrebentação” é logo ali, depois do Leme, na altura da Avenida Princesa Isabel, onde está localizado o FIFA FAN FEST.
Talvez seja essa gigantesca estrutura que ocupa a areia e estreita o calçadão por vários quarteirões a barreira que delimita nosso reduto de paz. À frente, em direção ao Posto 6, o ritmo é outro.
As levas coloridas de turistas que ocupam as areias, calçadas e, principalmente, os quiosques, bares e restaurantes se movimentam felizes e barulhentas. Ao contrário de nós cariocas, que precisamos manter nossa rotina de moradores e trabalhadores no maior cartão postal do país, para eles tudo é festa!
E, nesse quase carnaval, no quesito fantasia a originalidade conta muitos pontos. O uniforme mais comum é a bandeira do coração amarrada no pescoço servindo, inclusive, de proteção contra o ar mais fresco dessa época do ano. São como fantasias de alas das escolas de samba: básicas e em profusão.
O prêmio maior é ser notado por uma das dezenas ou centenas de câmeras de TVs e de celulares de jornalistas (são mais de dois mil cadastrados no Centro Aberto de Mídia) registrando dia e noite as cenas que mais chamam a atenção nesta incrível miscelânea cultural e esportiva.
O cocar gigantesco do torcedor solitário sul americano; a boneca inflável em tamanho natural com a camisa da Argentina, igual a do seu dono; os tradicionais chapéus mexicanos, perfeitos para proteger do sol carioca (se não tiver vento, é claro), todos já tiveram seus momentos de fama em fotos e nas telas de TVs do mundo inteiro.
Com o passar dos dias, os grupos começam a adotar seus lugares preferidos nos points do calçadão, delimitando seus territórios.
Indo e vindo, dá para mapear as preferências. Nas imediações do Copacabana Palace, por exemplo, o movimento é sempre intenso: além do cartão postal, é também, saída do metro. Tem gente à ufa! Ali, num dos quiosques, os colombianos montaram seu QG.
Estou só dando um exemplo, pra não acabar com a divertida brincadeira de encontrar as diversas representações pelo caminho da Princesinha do Mar.
Tem de tudo!  Embalado muita cantoria e barulho. Nos quiosques a música só pode ser “voz e violão”. Percussão é proibida, sobre pena de multa para os proprietários. Em compensação, bateria na calçada, inserida no contexto de bandas de rock ou grupos de jazz ambulantes, isso pode.
Camelos vendem apitos e outros apetrechos que complementam as indumentárias turísticas, não apenas brasileiras. A linguagem é universal para realizar os negócios.
Durante o período da Copa do Mundo de Futebol, Copacabana é a Babel do século 21, com seus pecados e diferenças embalados e movidos por uma paixão, não apenas nacional, mas mundial.
Somos a mais linda paisagem da Cidade Maravilhosa!
Imagem síntese de um espírito maior: O esporte que a todos une. Em qualquer lugar do mundo...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
Copa 14060711 004 copa quiosque festa

domingo, 8 de junho de 2014

Outra coisa...

Portela 140308 171 carro gigante olhar fechado torre
Texto e foto de Valéria del Cueto
Uma coisa é uma coisa. Outra você já sabe, né? A espera é difícil e a floresta está assim: sentindo o bafejar da respiração do gigante já no seu sétimo sono, pronto para acordar. E em polvorosa.
O que se vê é uma correria louca em meio aos protestos de espécies inteiras que decidiram cruzar as patas e mostrar a cúpula do reino florestal que até o bicho pode pegar.  
Dias antes dos jogos florestais mundiais com as delegações chegando as canchas ainda estão sendo preparadas. Às pressas, nas coxas dos elefantes e a toque de bicho preguiça.
As trilhas da floresta tampouco estão nos conformes. Pela terra, há inúmeras passagens obstruídas e locais perigosos cheios de armadilhas, inclusive humanas. Não há sinalização adequada. Os cipós, por exemplo, não têm certificação de pesagem (já pensou se um gorila desavisado se pendura no galho que suporta apenas o mico preto?).
Que animal pode em sã consciência dizer que está tudo “calmo e operante”?
Se a organização está um caos, só resta bancar a formiga, tentar trabalhar e armazenar alguma reserva para os dias de competição que virão. O problema é que os alimentos estão pela hora da morte! Esse é o único refrão que a cigarra, coitada, tem cantilenado por aí.
A pobrezinha anda deprimida por ter sido trocada por uma cacatua qualquer como um dos cantores do evento (fazia parte do coro). Os cardeais também não ficaram nem um pouco felizes com a importação de uma espécie exótica para “puxar” a cantoria oficial. Claro que a “coisa” não pegou...
Foram esses pequenos detalhes que ao longo dos últimos dias mostraram à bicharada (já não andava muito satisfeita da vida), que poderia ficar muito pior. O aluamento da enta anta e conselheiros, parecendo viverem num mundo de faz de contas animal, onde uma aguaceira no teto vira pingo e a falta um tudo quase nada, só piorou a situação fora do prazo e  controle.
Se a vida está assim para fauna da floresta, imagina o que rola para a flora. No conjunto, então, nem se fala. Tá todo mundo revoltado com a falta de atenção para, por exemplo, as comemorações do dia Mundial do Meio Ambiente, totalmente escanteado e esquecido. Como se não fosse o momento em que o mundo inteiro volta seus olhos e  seus corações ( os que os têm, é claro), para reverenciar a mãe Natureza. Que tristeza!      
Depois não entendem por que tem tanto bicho tirando um cochilo em baixo das árvores, comendo quieto e esperando o dedão do pé do gigante se mexer!
Não vai pegar essa tentativa de “SOMOS UM SÓ”. A passarada carioca está piando  e conta que por lá, já caíram na esparrela do SOMOS O RIO. Mostraram no que está dando a péssima escolha para a Mata Atlântica local: mal governada, espoliada e, pior, horrorosamente mal cuidada, o local do encerramento da competição florestal está num estado deplorável!
Por mais que as maritacas  governamentais insistam em encher os ouvidos e olhos do mundo com jingles e imagens piegas e emocionais produzidas para induzirem a mata que está tudo verde e amarelo, os milhões gastos em propaganda copiada dos marqueteiros políticos não estão pegando na veia. Nem no tranco! Tem bicho azul de raiva, urrando pelas trilhas.
Mas não se enganem os que pensam que a floresta não está ligada no esporte, paixão e alegria da rapaziada. Nos jogos que serão acompanhados fora dos campos e estádios (já que os lugares nas arenas ficaram fora do alcance das patas dos animais locais), quando o gigante acordar não vai ter para ninguém. Dentro e fora dos campos da competição.
Por que, nesse caso, duas coisas são uma só. A maior paixão da fauna da floresta é o orgulho que os deixa azul de vontade de serem campeões. Mais uma vez...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas fabulosas”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

domingo, 23 de março de 2014

Tempestade na cidade

Leme 1402 087 calçadão palmeiras por do sol
Texto e foto de Valéria del Cueto
Quem avisa amigo é, diz o ditado desatualizado. Avisar não é mais o que era antes. Hoje, todo mundo avisa. Nem sempre por ser amigo…
Desde quando estão avisando que as chuvas vão chegar aqui no Rio? Faz tempo. O Climatempo e co-irmãos estão firmando nessa tese, sem muito sucesso, desde o final do ano passado e durante todo o verão que já terminou.
Eram as chuvas de fim de tarde que nunca caíram, as águas de março que estão a caminho e por aí adiante. Um mar de esperanças climáticas não realizadas. E lá se vão os reservatórios já sem chances de recuperarem as chuvas prometidas e jamais desaguadas, cada vez mais minguados, assim como a nossa paciência.
Há quem tenha desistido da tecnologia das informações massificadas por garotas do tempo e seus efeitos especiais nos telejornais, aplicativos nos smartphones e, até mesmo, os horários dos eventos nas páginas das redes sociais que já vem com a previsão do tempo incluída. Outro dia foi disparado um convite irrecusável, mas que ao lado da data e do horário trazia a temperatura prevista e o aviso: TEMPESTADE. E olha que não era nem uma possibilidade, era uma informação monossilábica e demolidora. Intrigada com o detalhe procurei um lugar para desativar a informação e descobri ser impossível. A anti propaganda estava obrigatoriamente indexada na página, desestimulando os convidados ou, no mínimo, recomendando o uso de capa, guarda-chuva e galocha. E olha que o evento pedia traje passeio completo! Vá que “tchova”, cuiabanicamente falando…
Por Cuiabá a situação é inversa. Tanto que a desculpa para o atraso das obras da Copa é a totalmente previsível e anualmente encharcante. “Diz que” a quantidade de chuvas atrapalhou o cronograma do estádio que não está pronto. Mas é o menos atrasado entre os atrasados, comemora o site da SECOPA!
Se a gente considerar que dos 12 estádios 9 já estão entregues chegamos a conclusão aristotélica e pitagoresca, (sem precisarmos aplicar a teoria de Fermat), que somos os antepenúltimos no ranking! (o que parece ser uma grande vitória, especialmente se levarmos em conta que, no caso de São Paulo, o atraso foi provocado pelo acidente com o guindaste, lembram?) Melhor sabermos que pagamos por uma informação tão precisa e animadora disparada para os nossos veículos de comunicação. Afinal, é muita matemática para explicar o inexplicável. A mesma aplicada nos cálculos do custo da obra de construção da Arena Pantanal. Só especialistas de alto gabarito mesmo…
Voltando às águas que não chegam ao Rio de Janeiro: outro dia enquanto, mais uma vez, se anunciava uma virada no tempo cigarras cantavam animadíssimas nas árvores que sombreiam as ruas. O comentário geral era a chuva que chegaria. Quando alguém salientou o fato de que cigarras avisam que o tempo vai firmar… tomou uma vaia. O argumento era de que está tudo muito confuso na natureza e, portanto, as cigarras estavam embolando o meio de campo. Pergunto a vocês: choveu?
Niente. Está quente e seco. O que é problema para uns(Dilma, nossa ex-ministra das Minas e Energia, que o diga se, dessa vez, leu o relatório completo) é alegria para outros: um céu deslumbrante, num azul especial, enfeita o horizonte das fotos que retratam a paisagem da Cidade Maravilhosa divulgadas para incentivar o turismo entre uma notícia e outra de ataques as UPPs, mortes de policiais e seres humanos sendo arrastados nos carros dos PMs. A Copa vem aí!
No céu, as gaivotas enlouquecem. Passeiam em bando de um lado para o outro. “Alinhadas”, disseram, é sinal de que as águas estão chegando. Olho para o Atlântico,  na Ponta do Leme. Lá estão elas, bailando bem na linha da água, em voos aparentemente desordenados. Abaixo, a superfície do mar num tom esmeralda, não está espelhada. Parece se mexer. Outro sinal da chuva chegando? Quiçá para eles. Para elas e para mim a situação é clara: há um gigantesco cardume na área e muito alimento para os pássaros. Talvez digam que a peixarada seja o sinal das chuvas que estão a caminho.
 Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com
@delcueto
@no_rumo
ILUSTRADO TER A A S BADO     NOVEMBRO  2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Pipas, pra que(m) te quero?

Pipas, pra que(m) te quero?

Texto e fotos de Valeria del Cueto

Leves, alegres, saltitantes, preguiçosas, tensas, persuasivas, suaves, nervosas, agitadas, mansas, fugitivas, alegóricas, coloridas... Pipa  é  um substantivo capaz de comportar uma penca de adjetivos para definir seu espírito vigente, de acordo com o vento que a sustenta. Venho de um lugar de muitas pipas que, assim como as ondas do mar  deste local, são originais, fugazes e perenemente inéditas a cada movimento.

Chame do nome que quiser: pipa, papagaio pandorga... Elas são para quem te quero.  Mensageiras do amor e da dor. Para isso nasceram. Da dor quando servem de sinalização para o movimento das bocas e bandos. Do amor quando sobre a céu as milhares,  como aconteceu na Faixa de Gaza há poucos dias. Um objeto tão simples, tão frágil representando tanto. Poderoso e expressivo, como a paloma de Picasso há tantos anos atrás.

Bambu, seda, farinha, água e a linha. O milagre está feito. E se repete, numa resistência silenciosa pelos  “aís” onde passo. Uruguaiana tem o Julinho das Pipas que, entre um conserto de bicicleta e outro (olha a bicicletaria aí, gente!), encanta a garotada e transmite seu saber às gerações.  O Tribuna de Uruguaiana publicou uma matéria sobre ele, o que me fez enredar essas narrativas.  

Cuiabá tem o professor Ditinho que da UFMT expande seus conhecimentos pipeiros. Morador da Chapada dos Guimarães, lá estava ele no Festival de Inverno com sua oficina.  Tentei inscrever-me, mas acabei perdida, sem saber direito os horários. Conversando com uma organizadora das atividades soube que a oficina aconteceu num bairro periférico. Adorei a razão do desencontro.

Vamos espalhar pipas pela cidade, pensava eu. Colorir o céu da charmosa localidade com pandorgas “made” in Chapada, como um plus a mais para a Copa de 2014.  Ela vai acontecer na época dos melhores ventos, me contaram. 

Gente  que entende do assunto, freqüentadores da loja de pipas e infláveis que ilustra esse texto. Fica na mesma rua da bicicletaria, na Chapada. Lá se vende pipas, acessórios e se faz consertos. Quer um lugar mais adequado para uma piparada no mega evento?

É um programa bom, bonito e barato. E, muito importante, a bula deste produto não contém contra-indicações.  É politicamente correta e ambientalmente irrepreensível. Não causa danos nem efeitos colaterais.

Estaríamos fazendo nossa interpretação de uma arte difundida pelo mundo inteiro. Pipas chinesas são famosíssimas , o caçador de pipas corria atrás da sua pelas ruas de Cabul, a Faixa de Gaza levanta 3.000 papagaios e a Chapada dos Guimarães dialoga com o mundo através dos ventos que sopram nos paredões do centro geodésico.

Confesso a vocês que tenho uma frustração quando o assunto é pipa. Almejei, um dia, uma pipa. Essa, não era para voar. Trata-se de um exemplar (qualquer um serviria) da série feita pelo artista plástico mato-grossense Gervani de Paula. Vi os objetos do meu desejo numa exposição, na década de 80, e na ocasião não tive numerário para adquirir uma das peças. Anos depois, tentei descobrir o destino das pipas do Gervani. Estavam em coleções e eram intocáveis. Como seria a minha, se a tivesse...

O desejo teve que passar e, meu lado Poliana, me convenceu que pipas são assim. Dificilmente vêm pra ficar. Temos as nossas, podemos admirar as alheias  mas, ambas, dificilmente voltarão a se encontrar no mesmo céu. Seja ele qual for...

* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte de uma série do SEM FIM delcueto.wordpress.com.

 **Mais pipas na vida da autora no artigo "A pipa", publicado em maio de 2005. 

*** Se der uma busca no Sem Fim... encontra outros textos sobre pipas.