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sábado, 15 de dezembro de 2012

EL CID, A FLECHA E O ALVO SEBASTIÃO


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Texto e foto de Valéria del Cueto

Pra variar, engatei a quinta procurando. Só que tem hora em que são eles, os assuntos, por assim dizer, que te atropelam. É isso mesmo. O assunto firmou quando ouvi o antigo hino de São Benedito, aquele, em horário quase nobre na TV. Arrepiei. A seta mirou o alvo e acertou meu coração guerreiro um pouco santo. Sebastião. No Rio, Oxossi, o caçador que me protege e cuida da mata.

A bandinha tocando e eu comemorando. Feliz pela notícia de que o olhar e a sensibilidade de Cid Carvalho alcançaram João Sebastião. Se já estava interessante, agora ficou bom demais! Cuiabá vai chegar como e com quem deve na Sapucaí. Por que anjos e santos se juntaram aos cajus e as onças. E João, aquele que ferveu e agitou nos calientes carnavais de Cuiabá, vai estar ali. Apresentado e representado de alguma forma no cortejo do desfile principal.

Conheci João logo que cheguei em Cuiabá e fui seduzida pela explosão das artes plásticas que refletiam em suas cores o calor da terra. Sempre presto atenção e (re)conheço  um lugar por aspectos que me atraem de sua cultura. 

Me orgulho de jogar nas 11: vou de literatura e poesia à música. Traço escultura, pintura; sou fissurada por grafite, fotografia, audiovisual..., tudo sem titubear. Foi assim com a Califórnia da Canção, de Uruguaiana, a polca e o artesanato paraguaio, é igual com a carioquice (minha cultura) em geral. Ouvi, vi, estudei e ainda pesquiso. De vez em quando, tento e faço.

Volto à Cuiabá e ao João. De quem tenho algumas obras. A menor, uma joaninha vermelha feita de pet que enfeitava minha instalação de natal (chamar aquela galharada de árvore é uma ofensa à natureza). Também tenho uma onça marota olhando à lua, com ar de “te pego”. Mas meu objeto preferido é um pano que deveria ser canga. Porém que, diante da importância da obra, foi ensanduichado e enquadrado. É a síntese de uma linda história. Mostra uma onça inteirinha, sedutora e esbelta, te olhando fixamente. Ela usa um colar com cajus vermelhos ornados com suas folhas verdes. Sob uma das patas dianteiras há uma folha presa, do enorme caju lilás que a olha em primeiro plano já no “laço” para ser juntado aos outros, no colar.

É uma obra original. Primeira e única. No desenho, os traços feitos pelo João, são facilmente reconhecidos. O olhar e as proporções do felino, sua posição. Mas a pintura não é a dele. Nela, há um trabalho primoroso de pontilhismo em parte da tela. Quem pintou minha onça quase canga foi Chico Amorim. Amigo de vida, teatrólogo famoso e meu orientador no doutorado de cidadã cuiabana. São dele pérolas como o dito: “Tudo evolui no mundo, menos a baixaria”; o excitante desafio de “ficar sem fazer nada”; as fugas loucas para as águas límpidas, deliciosamente refrescantes dos rios que cortam a estrada da Chapada durante a semana e outras cositas mais.

Pois a obra ficou tão especial que João  fez questão de assinar a tela. É única e tem uma linda história que inclui o autor da surpresa espetacular. É, por que é claro que babei com o presente!

Pois é esse João, o Sebastião, que - soube hoje - vai se juntar a grande festa verde e rosa na avenida. Que me perdoem seus promotores do centro oeste, agora sim, temos um “muxirum” cuiabaníssimo com a cara do que mais amo nessa terra: o povo CUIABANO! Do qual João é síntese e  expressão, por meio de suas maravilhosas e originais criações.

Trazidos pelo trem conduzido por Jamelão e coloridos, também, pelo que há de mais autêntico e representativo nas artes plásticas de Cuiabá, os frutos dessa mangueira estarão perpitolas de cuiabanidade!
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte das séries “é Carnaval” e “Parador Cuyabano”,  do SEM FIM... delcueto.cia@gmail.com 

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Pipas, pra que(m) te quero?

Pipas, pra que(m) te quero?

Texto e fotos de Valeria del Cueto

Leves, alegres, saltitantes, preguiçosas, tensas, persuasivas, suaves, nervosas, agitadas, mansas, fugitivas, alegóricas, coloridas... Pipa  é  um substantivo capaz de comportar uma penca de adjetivos para definir seu espírito vigente, de acordo com o vento que a sustenta. Venho de um lugar de muitas pipas que, assim como as ondas do mar  deste local, são originais, fugazes e perenemente inéditas a cada movimento.

Chame do nome que quiser: pipa, papagaio pandorga... Elas são para quem te quero.  Mensageiras do amor e da dor. Para isso nasceram. Da dor quando servem de sinalização para o movimento das bocas e bandos. Do amor quando sobre a céu as milhares,  como aconteceu na Faixa de Gaza há poucos dias. Um objeto tão simples, tão frágil representando tanto. Poderoso e expressivo, como a paloma de Picasso há tantos anos atrás.

Bambu, seda, farinha, água e a linha. O milagre está feito. E se repete, numa resistência silenciosa pelos  “aís” onde passo. Uruguaiana tem o Julinho das Pipas que, entre um conserto de bicicleta e outro (olha a bicicletaria aí, gente!), encanta a garotada e transmite seu saber às gerações.  O Tribuna de Uruguaiana publicou uma matéria sobre ele, o que me fez enredar essas narrativas.  

Cuiabá tem o professor Ditinho que da UFMT expande seus conhecimentos pipeiros. Morador da Chapada dos Guimarães, lá estava ele no Festival de Inverno com sua oficina.  Tentei inscrever-me, mas acabei perdida, sem saber direito os horários. Conversando com uma organizadora das atividades soube que a oficina aconteceu num bairro periférico. Adorei a razão do desencontro.

Vamos espalhar pipas pela cidade, pensava eu. Colorir o céu da charmosa localidade com pandorgas “made” in Chapada, como um plus a mais para a Copa de 2014.  Ela vai acontecer na época dos melhores ventos, me contaram. 

Gente  que entende do assunto, freqüentadores da loja de pipas e infláveis que ilustra esse texto. Fica na mesma rua da bicicletaria, na Chapada. Lá se vende pipas, acessórios e se faz consertos. Quer um lugar mais adequado para uma piparada no mega evento?

É um programa bom, bonito e barato. E, muito importante, a bula deste produto não contém contra-indicações.  É politicamente correta e ambientalmente irrepreensível. Não causa danos nem efeitos colaterais.

Estaríamos fazendo nossa interpretação de uma arte difundida pelo mundo inteiro. Pipas chinesas são famosíssimas , o caçador de pipas corria atrás da sua pelas ruas de Cabul, a Faixa de Gaza levanta 3.000 papagaios e a Chapada dos Guimarães dialoga com o mundo através dos ventos que sopram nos paredões do centro geodésico.

Confesso a vocês que tenho uma frustração quando o assunto é pipa. Almejei, um dia, uma pipa. Essa, não era para voar. Trata-se de um exemplar (qualquer um serviria) da série feita pelo artista plástico mato-grossense Gervani de Paula. Vi os objetos do meu desejo numa exposição, na década de 80, e na ocasião não tive numerário para adquirir uma das peças. Anos depois, tentei descobrir o destino das pipas do Gervani. Estavam em coleções e eram intocáveis. Como seria a minha, se a tivesse...

O desejo teve que passar e, meu lado Poliana, me convenceu que pipas são assim. Dificilmente vêm pra ficar. Temos as nossas, podemos admirar as alheias  mas, ambas, dificilmente voltarão a se encontrar no mesmo céu. Seja ele qual for...

* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte de uma série do SEM FIM delcueto.wordpress.com.

 **Mais pipas na vida da autora no artigo "A pipa", publicado em maio de 2005. 

*** Se der uma busca no Sem Fim... encontra outros textos sobre pipas.

domingo, 17 de agosto de 2008

O lado bom do lado mau


O lado bom do lado mau

Texto e foto de Valéria del Cueto

Karma. Voltei a Mato Grosso para terminar algo que deixei incompleto há 20 anos atrás. Uma tarefa chata, burocrática, entediante. No meio do caminho descobri outro desafio, este mais prazeroso e instigante. Mesmo assim algo que, em outros tempos ficou só na vontade, deixei pra trás.


Naquela época, a inquietação que ainda me move era potencializada. O que fazia que eu não começasse nada, por que sabia que não iria terminar. Cursos seminários, simpósios. Enfim, era só planejar, quando muito iniciar, para que um imprevisto quase sempre compensador mudasse o meu rumo, alterasse de forma radical o meu foco. Daí que, por uma questão de princípio de vida, eu evitava começar o que sabia que não terminaria.

Havia é claro, exceções, tentativas. Eram justamente essas que sempre eram interrompidas. E foram poucas, na minha santa ingenuidade, de tentar agir normalmente, entregar-me a uma tal rotina que hoje reconheço, nunca me aceitou em seu convívio...

Reminiscências a parte, o que vale é que finalmente consegui realizar um antigo desejo.
Adoro artes plásticas e amo História com h maiúsculo. Sou uma leitora voraz e frequentadora dos museus e galerias de artes plásticas dos lugares que consigo visitar mundo a fora ou a dentro.

Por isso, durante todos os anos que morei em Cuiabá sempre olhei com olhos de cachorro pidão o curso de História da Arte que a critica de artes plásticas corumbaense Aline Figueiredo ministra de tempos em tempos na cidade que escolheu para viver.

Eis senão quando, enquanto peleava contra a maldição burocrática inevitável e inadiável que jurei desenrolar, vi o anúncio de que haveria um “intensivão”. Um passeio por milênios artísticos na visão de Aline, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura e que, pra melhorar, a semana de aulas era gratuita.

Ai tentação... Lá fui eu para o Museu da Caixa d´Àgua, sem ter sequer conseguido fazer a inscrição, pleitear uma das 60 vagas pelo passeio audiovisual.

Amigos, a primeira aula, sobre a Antiguidade foi tão boa, que, mesmo quase morrendo de alergia pela umidade do lugar, não pensei em desistir do curso. E, mais disposta e animada fiquei quando, pelo bem da saúde de todos os alunos, no segundo dia, as aulas foram transferidas para o auditório da Sanecap. Este upgrade no quesito salubridade me deixou ainda mais entusiasmada com minha corajosa iniciativa de assiduidade noturna. O que, conforme você verá abaixo, não foi nenhum sacrifício.

Aline dá um banho. Não apenas pela qualidade da informação transmitida mas, também, pelo seu estilo de apresentar para leigos, curiosos e afins os principais movimentos artísticos através dos tempos. Tudo isso acompanhado por uma interessantíssima coleção de imagens das obras apresentadas num data show.

Não consegui notar a falta de nenhuma tendência no amplo leque de movimentos artísticos explorados e comentados por ela de forma interessante e espirituosa. Na terceira aula, a de arte contemporânea, já comecei a pressentir o vazio das noites que viriam quando as aulas terminassem.

Mal sabia eu que esta sensação estava apenas anunciando o que ainda estava por vir: se na história das artes mundiais Aline é craque, quando o assunto é a arte mato-grossense, ela é hors concours: nadou de braçada e, na sua análise, abordou, não apenas o movimento artístico contemporâneo de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, mas também um pouco da história recentíssima  (se compararmos com o período abordado no restante do curso)  do Brasil e do Centro Oeste.

Saí de lá tão encantada que estou firmemente decidida a transformar em vídeo a “viagem” pela riquíssima arte local que Aline nos apresentou.

O mais difícil, creio eu, já consegui: a autorização da crítica de arte para fazer o registro. Registro, diga-se de passagem, mais que merecido. Afinal, não é todo dia que podemos usufruir dos conhecimentos e das opiniões, no mínimo saborosas, (quem já assistiu as aulas sabe do que estou falando) emitidas entre um slide e outro do que há de melhor nas artes plásticas mato-grossenses por Aline Figueiredo.

Posso demorar, mas prometo me esforçar para realizar a tarefa e democratizar o que tive o privilégio de aprender nas inesquecíveis noites quentes cuiabanas, regadas ao que há, para mim, de melhor e mais valioso por aqui: a genuína cultura de nossa  gente.
E assim, de um carma que se cumpre nasce um desafio real, palpável e proveitoso para meu promissor futuro  em Cuiabá.  E vamos a ele...

*Valeria del Cueto e jornalista, cineasta e gestora de carnaval
Este artigo faz parte da serie Parador Cuyabano