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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Pampa gaúcho


Pampa gaúcho

A região de Rivera, Uruguai, a BR 293, de Santana do Livramento a Uruguaiana, e a Ponte internacional que liga Uruguaiana a Paso de Los Libres, Argentina.

Uma mistura de olhares amplos e pequenos detalhes.
Pampas gaúchos
Clique AQUI  ou na foto para ver as imagens. Algumas foram selecionadas e estão a venda no GETTY IMAGE

Pampa gaúcho, Uruguai/Argentina/Brasil Rio Grande do Sul, Março e abril de 2017.

Ensaio de Valéria del Cueto
@no_rumo do Sem Fim… delcueto.wordpress.com
@delcueto convida você para explorar o Studio @delcueto
Studio na Colab55

domingo, 10 de agosto de 2014

Plantar,comer, contar e... colher!

Leme 140807 015 La Fiducia Batata Rostie Recheada
Texto e foto de Valéria del Cueto
Semana passada “Mistura Fina” foi o título de (mais) uma crônica, esta gastronômica, que provocou vários comentários. Logo no início expliquei modestamente que entre meus dotes e talentos a culinária não estava incluída. E não me perguntem o porquê.
Muita gente foi fisgada pelo formato do texto sem saber que durante anos induzida por minha avó tive o prazer de ser leitora assídua do grande Apícius, crítico de gastronomia do Jornal do Brasil. Ele usava esse pseudônimo para escrever sobre restaurantes cariocas. Sempre acompanhado por madames (a mais frequente era a “M”), suas incertas anônimas geravam colunas deliciosas, ora favoráveis, ora desancando os estabelecimentos do Rio. Seu apelido fazia referência a um comilão romano, dos tempos do Imperador Augusto e servia para proteger um dos melhores textos que “assombrou” a imprensa durante mais de 20 anos.
Pois foi sob sua inspiração que durante um tempo, bem no início da década de 90, tive uma coluna gastronômica num jornal de Cuiabá editado pela minha chefa predileta, a jornalista Lígia Lemos, mãe do Marcão, hoje secretário de Comunicação do Estado de Mato Grosso. Não me recordo se no Jornal Independente ou na Tribuna Cuiabana, de Shirley Ocampos.
Durante várias edições falei sobre restaurantes e acepipes que encontrava na capital mato-grossense. Rapidamente consegui entender por que João Roberto Marinho de Azevedo, filho de uma tradicional família carioca, se escondia atrás do codinome romano. Por uma questão de sobrevivência, acabei definindo que iria apenas destacar as qualidades da culinária de Cuiabá e simplesmente ignorar o que não me caía bem no paladar e no estômago.
Mas, como Apícius, adotei um estilo narrativo menos científico e mais poético, o que fazia que a “fantástica” coluna fosse de vento em popa. 
Até o dia em que... para falar da Batata Rostie, acompanhamento que sempre a-mei e só havia encontrado muito bem feita num pequeno restaurante de um casal alemão, talvez no Jardim Tropical, escrevi um texto em que fantasiava que, por causa da batata, o lendário bandido Márcio Martins, o Rambo do Garimpo, preso no batalhão da PM na XV de Novembro, ao encomendar a iguaria e ter seu pedido negando, não resistiu ao desejo e fugiu pelo portão principal, se misturado aos convidados de um casamento que acontecia na igreja em frente, e botou o pé no mundo. Não sem antes passar no restaurantezinho (que, esclarecendo, não era a Casa da Suíça)e degustar uma porção caprichada da iguaria.
Tirando a parte da batata, por incrível que pareça, a fuga realmente havia acontecido como narrava a coluna. Corria na cidade, inclusive, que o mesmo havia molhado a mão do comandante da unidade com uma grande quantidade de ouro!  Pois essa foi a última vez que escrevi regularmente sobre gastronomia. Imagino que vocês calculem o motivo.
Hoje, quando encontro um lugar que prepare o prato com o capricho necessário, sempre penso no bandidão que, involuntariamente, acabou cortando minhas asinhas de crítica gastronômica. Normalmente, quando muito, pincelo o assunto. Era o que ia fazer aqui, falando sobre a evolução da Batata Rostie. Ela,  atualmente,  frequenta meu cardápio recheada por gostosuras como carne seca desfiada com catupiry, no Bistrô La Fidúcia Café, em Copacabana, Rio de Janeiro.
Mas fui fisgada pela lembrança de um tempo em que, no mínimo, bandido ia para a cadeia mesmo que pra fugir depois virando lenda, e Mato Grosso era o lugar que havia escolhido para viver e testemunhar histórias saborosas como uma Batata Rostie que evoluiu e, agora, é recheada de temperos e aventuras (bem) vividas...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

domingo, 3 de agosto de 2014

Mistura fina, de Valéria del Cueto

LemeChap 140727 018 Bar do Davi feijoada de frutos do mar Chapéu Mangueira
Texto e foto de Valéria del Cueto
Nesse tempinho gelado acabamos o jornalista Cacá de Souza e eu, subindo o morro até a entrada do Chapéu Mangueira, aqui no Leme, para uma farra pantagruélica no Bar do David.
Entre shots de cachaça e camarões empanados com catupiry, alcançamos o nirvana caindo de boca num dos pratos mais famosos do bar do filho do Lúcio, morador querido e tradicional da comunidade: a Feijoada de Frutos do Mar.
Cacá, íntimo de David e de todas as atendentes, não deixa de bater ponto no pedaço todas as vezes que vem ao Rio e é mais bem chegado do que eu, que apresentei o point para ele.
Como “autoridade”, foi ele que me fez experimentar a iguaria feita com feijão branco, peixe, mexilhões, camarões, lulas e etc, acompanhada de arroz branco e uma farofinha de alho dos deuses.
Um mix equilibrado de sabores e texturas, daqueles que a gente tem vontade de degustar ajoelhado. Tudo na medida certa, sem que um único tempero se sobreponha aos diferentes tipos de ingredientes do prato, talvez o mais famoso do lugar.
É muito difícil alcançar esse equilíbrio, por exemplo, com tantos pontos diferentes de cozimento ideal. As lulas são mais sensíveis e se passam do ponto podem ficar emborrachadas, os mexilhões nem se fala. Já o peixe precisa de um tempinho maior, para adquirir a textura ideal.
Confesso que como não sou especialista em cozinha, a não ser como consumidora, nem tentei arrancar de Andréia, a garçonete maravilhosa que ainda indica o que está mais caprichado no cardápio do dia, e do sempre simpático e receptivo David, os segredos da Feijoada de Frutos do Mar. Mas, como provadora gastronômica, sou capaz de avaliar o grau de complexidade, apuro e equilíbrio do acepipe servido.
É por isso que posso imaginar a ciência para preparar um prato como a Feijoada de Frutos do Mar, assim como alcanço a complexidade de outras misturas, alimentares ou não, principalmente as com ingredientes díspares e contrastantes.
Cada um tem sua personalidade, sua consistência e características (cor, cheiro e sabor) próprias e precisam ser acomodados e mesclados de forma a valorizar suas qualidades para comporem um novo elemento único e particular.
Um pouco demais, um pouco de menos, o erro no tempo de preparo, no cozimento e na apresentação podem simplesmente “entornar o caldo” transformando uma preciosidade num angu de quinta. Isso vale para outras situações: equipes de trabalho, grupos de amigos e... política.
Compor o quebra-cabeças das chapas que concorrem as eleições 2014 e saber como dosar os ingredientes, qual a ordem correta de juntá-los no caldeirão eleitoral e o tempo ideal de exposição de cada um, é essencial no processo.
E é aí que a porca torce o rabo sem que ele possa ser agregado ao mexidão que teremos em 2014. Até o momento não está dando para definir os diversos sabores e depurar as escolhas, simplesmente por que há de um tudo em todos os agrupamentos que se apresentam.
O resultado são opções insossas e mal finalizadas, com acompanhamentos que tentam aparecer mais que o prato principal, resultando numa gororoba indigesta e mal apresentada para o eleitorado.
Tem gente precisando de umas aulas com o David para aprender que a simplicidade é o principal do cozido...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com
GRAVATA     
Compor o quebra-cabeças das eleições, dosar os ingredientes, a ordem de juntá-los no caldeirão eleitoral e o tempo exposição é essencial no processo.
ILUSTRADO TER A A S BADO     NOVEMBRO  2009

domingo, 8 de junho de 2014

Outra coisa...

Portela 140308 171 carro gigante olhar fechado torre
Texto e foto de Valéria del Cueto
Uma coisa é uma coisa. Outra você já sabe, né? A espera é difícil e a floresta está assim: sentindo o bafejar da respiração do gigante já no seu sétimo sono, pronto para acordar. E em polvorosa.
O que se vê é uma correria louca em meio aos protestos de espécies inteiras que decidiram cruzar as patas e mostrar a cúpula do reino florestal que até o bicho pode pegar.  
Dias antes dos jogos florestais mundiais com as delegações chegando as canchas ainda estão sendo preparadas. Às pressas, nas coxas dos elefantes e a toque de bicho preguiça.
As trilhas da floresta tampouco estão nos conformes. Pela terra, há inúmeras passagens obstruídas e locais perigosos cheios de armadilhas, inclusive humanas. Não há sinalização adequada. Os cipós, por exemplo, não têm certificação de pesagem (já pensou se um gorila desavisado se pendura no galho que suporta apenas o mico preto?).
Que animal pode em sã consciência dizer que está tudo “calmo e operante”?
Se a organização está um caos, só resta bancar a formiga, tentar trabalhar e armazenar alguma reserva para os dias de competição que virão. O problema é que os alimentos estão pela hora da morte! Esse é o único refrão que a cigarra, coitada, tem cantilenado por aí.
A pobrezinha anda deprimida por ter sido trocada por uma cacatua qualquer como um dos cantores do evento (fazia parte do coro). Os cardeais também não ficaram nem um pouco felizes com a importação de uma espécie exótica para “puxar” a cantoria oficial. Claro que a “coisa” não pegou...
Foram esses pequenos detalhes que ao longo dos últimos dias mostraram à bicharada (já não andava muito satisfeita da vida), que poderia ficar muito pior. O aluamento da enta anta e conselheiros, parecendo viverem num mundo de faz de contas animal, onde uma aguaceira no teto vira pingo e a falta um tudo quase nada, só piorou a situação fora do prazo e  controle.
Se a vida está assim para fauna da floresta, imagina o que rola para a flora. No conjunto, então, nem se fala. Tá todo mundo revoltado com a falta de atenção para, por exemplo, as comemorações do dia Mundial do Meio Ambiente, totalmente escanteado e esquecido. Como se não fosse o momento em que o mundo inteiro volta seus olhos e  seus corações ( os que os têm, é claro), para reverenciar a mãe Natureza. Que tristeza!      
Depois não entendem por que tem tanto bicho tirando um cochilo em baixo das árvores, comendo quieto e esperando o dedão do pé do gigante se mexer!
Não vai pegar essa tentativa de “SOMOS UM SÓ”. A passarada carioca está piando  e conta que por lá, já caíram na esparrela do SOMOS O RIO. Mostraram no que está dando a péssima escolha para a Mata Atlântica local: mal governada, espoliada e, pior, horrorosamente mal cuidada, o local do encerramento da competição florestal está num estado deplorável!
Por mais que as maritacas  governamentais insistam em encher os ouvidos e olhos do mundo com jingles e imagens piegas e emocionais produzidas para induzirem a mata que está tudo verde e amarelo, os milhões gastos em propaganda copiada dos marqueteiros políticos não estão pegando na veia. Nem no tranco! Tem bicho azul de raiva, urrando pelas trilhas.
Mas não se enganem os que pensam que a floresta não está ligada no esporte, paixão e alegria da rapaziada. Nos jogos que serão acompanhados fora dos campos e estádios (já que os lugares nas arenas ficaram fora do alcance das patas dos animais locais), quando o gigante acordar não vai ter para ninguém. Dentro e fora dos campos da competição.
Por que, nesse caso, duas coisas são uma só. A maior paixão da fauna da floresta é o orgulho que os deixa azul de vontade de serem campeões. Mais uma vez...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas fabulosas”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

domingo, 13 de abril de 2014

Quém! Ante os fatos, enta e/ou anta

Valentino 131019 013 Pato no Rio Pó
Fábula e foto de Valéria del Cueto

Era uma vez uma anta, cercada de ados e ores por todos os lados. Predadores que apoiavam e mamavam nas tetas da anta e diziam ser ela, a enta, rainha dos entes animais em geral. Eram istas de todos os tipos. Os piores. Dos que  sugam, mamam, esgotam e expelem.

A anta se achava feliz. Pensava que era algo além de uma anta, a enta assumida. Assinava, sorria e presepava para o resto da floresta. Diziam que era top e a anta acreditava. Fazia o seu papel de enta e se achava! Passeava entre os leões, tomava café com as hienas, banhava com jacarés, piranhas e lulas também, macaqueava com os símios... e assinava. Nem sempre sabia muito bem o que. Mas o simples fato de meter seu jamegão nos papéis oficiais fazia dela a mais vaidosa entre as... antas especialmente as de motocicleta.

Foi assim até o dia que o resto da floresta encheu o saco de tanta palhaçada  e resolveu demostrar de forma clara e inequívoca o descontentamento vigente no mundo animal. A anta e seus prepostos levaram um susto! Afinal, se estavam bons pra eles as assinaturas, os sorrisos e as presepadas, do que os demais reclamavam? Não recebiam seu quinhão de bolsa floresta?

As reclamações e os protestos cresceram de forma exponencial e tomaram a fauna em geral. Uma estratégia tinha que ser montada. Se não para impedir o sacode, pelo menos para se apropriar dele. Botaram no meio dos encontros populares batalhões de formigas, enxames de abelhas, seus paus mandados mais obedientes, deturpando as marchas e tocando horror no meio da mata. Como ter certeza que a violência não era oriunda dos manifestantes originais? Bastava ver quantos foram presos ou punidos pelos atos de destruição.

A intimidada floresta voltou ao normal e a corte dos predadores retornou suas atividades de sempre. Só que, obviamente, tanto a anta quanto a corte notaram finalmente que algo não estava bem. Algum sacrifício teria que ser feito para “ajustar” o meio ambiente!

A anta, jogando para a torcida, requentou a proposta de reordenar os poderes da corte. Claro que isso não agradou aos chupa-cabras de plantão. A proposta foi enfiada no fundo da mais profunda gruta da corte na floresta. Também detectaram que a anta poderia ser, sim, uma ameaça(zinha), já que havia demonstrado que pretendia botar as patinhas de fora. Apareceu a assinatura da anta num dos papéis que permitiam a mamação coletiva que estava sugando as maiores reservas do maior empreendimento, já quase falindo,  da floresta. 

Mostraram que a enta não passava de uma mera e simples anta mal informada, já que como a própria reconheceu, havia praticado o malfeito... sem saber. Pobre animal!

Também deram entrada numa lei que fazia dos manifestantes que abrissem seus bicos ou fizessem barulho nas trilhas da floresta criminosos da pior espécie. Para suprimir no grito qualquer ruído durante o maior evento esportivo das florestas do mundo.

Só que a pressão cresceu demais, a péssima fama da enta começou a prejudicar sua aspiração de continuar anta-rainha. Não restou a ainda enta-mór outra alternativa, a não ser chamar seus exércitos de formigas e as espécies servis de sempre para pedir-lhes que, depois do tal evento, ocupassem novamente as trilhas da floresta. Dessa vez, exigindo, “como nas Diretas Já”, mudanças no regime da corte da floresta. O pau vai quebrar a pedido da enta/anta!

O fim da fábula é pule 10: a anta, para manter a coroa de enta, pedirá penico à corte que continuará a predadora de sempre. A bicharada irá para o sacrifício e, quem sabe, para a jaula: pagará o pato! Que nem estava na floresta na hora do vamos ver...

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas fabulosas”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

ILUSTRADO TER A A S BADO     NOVEMBRO  2009

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Aqui quem fala é da terra

Araras 140115 039 lua guardiã de gaia  delírio
Texto e foto de Valéria del Cueto
Era preciso conjurar os deuses. Reunir, com a ajuda de todos, forças celestiais para enfrentar o que estava por vir. Uma luz, por favor, uma esperança! Os sintomas estavam ali, aqui, em todos os lugares. E ele sabia. Sabia não, sentia.
Eram as maiores e menores temperaturas do planeta em décadas. E não mais que isso porque anteriormente não havia uma medição confiável. As tempestades assolavam os lugares frios. As chuvas não chegavam aos quentes. Ainda. E para elas, certamente, quem de direito não estava se preparando...
Tudo anunciado a prestação, como se juntando as folhinhas de calendários anteriores, não fosse possível “desenhar” um aumento gradativo nos extremos climáticos. Isso era pouco, quase nada, diante de outros sinais.
Os acontecimentos físicos se resumiam a uma única palavra: desequilíbrio. Trazendo com ele suas consequências inevitáveis. Tudo demais. Ou de menos. Estava resumido o momento. E como a toda ação, corresponde uma reação... A panela de pressão estava chiando.
Em janeiro, quem podia compareceu ao Baile da Ilha Fiscal, aquela última grande festa que sacudiu a corte do Império do Brasil, pré proclamação da República. Fotos, fatos, praias, pratos, sorrisos, corpos, alegria. “É hoje só, amanhã... não tem mais?”. Tudo muito caro, $urreal. Mas e daí? A felicidade selfie invadiu nosso mundo em comum, agora virtual, enquanto a tempestade ia se armando sobre nossas cabeças.
Aqui o primeiro sintoma foi a falta de chuva. Era o céu cobrando seu preço e pedindo passagem para desmoralizar nossas lindas moças do tempo. O que a meteorologia previa definitivamente não ocorria.
Paralelamente ao plano físico a “coisa” ia se alastrando, ainda "sub-répticamente", para o moral. E uma hora a corda ia arrebentar.
Não, essa não é uma boa imagem, porque a explosão teve e terá um impacto muito mais amplo do que o romper de uma simples corda. E assim, depois do final de ano e do janeiro festeiro, foram todos colocados face a face com seus piores instintos, pré e conceitos. Éticos e morais.
Começou pela ação dos jovens que deixaram o ladrãozinho pelado e agarrado num poste no Flamengo, Rio de Janeiro. Aí, foi a vez da jornalista palpitar e ouvir o que queria e o que não queira, inclusive ameaças e uma campanha para que fosse demitida.
Mas o estopim do sacode moral foi dado pelo aumento das passagens de ônibus na Cidade Maravilhosa. A crônica da morte anunciada deixou de ser apenas literatura com a morte do cinegrafista Santiago Andrade.
Onde vamos parar? Não serão novas leis não cumpridas que resolverão nossos dilemas sociais, mas elas poderão reescrever a história da democracia(?) brasileira. Mais uma peça no quebra cabeça...
Tá bom? Não, ainda falta o lado astral, esotérico. Dois fatos: o primeiro, as pirâmides mandando seus raios direcionados para os céus. O segundo esse que sempre esteve ali, para quem quisesse fazer a ligação. A semelhança entre os registros maias, incas e astecas com os circuitos de computadores só foi percebida recentemente porque, antes, nós não tínhamos tal tecnologia...  Alo, alo? Responde...
Ele sabia que os tempos não seriam fáceis sem precisar de um calendário inca, mais ou asteca. Copa do Mundo, eleições e, dizia a sua bola de cristal, apagões de vários tipos. Físicos, morais e astrais.
Sorte que antes do período turbulento ainda havia uma esperança de felicidade momentânea. Parem as máquinas, cessem  todos os males que os deuses atenderam as singelas preces do seu povo: É (quase) carnaval!
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com

domingo, 9 de fevereiro de 2014

É duro


Texto e foto de Valéria del Cueto
É duro ter que recorrer aos mais poderosos artifícios para poder gerar a crônica nossa de todas as semanas.
É duro pensar, raciocinar, exercitar a mente e não conseguir imaginar uma mensagem otimista que faça valer a pena esse esforço semanal de disseminar ideias e conceitos pelos escritos espalhados onde opiniões são bem vindas.
É duro procurar avidamente entre os acontecimentos que viraram notícia, ou não, algo que contraponha a pilha de mazelas que nos bombardeiam incessantemente.
É duro – e necessário – reconhecer que se não fosse o refúgio da Ponta do Leme provavelmente você, leitor, não estaria correndo  seus olhos por essas não tão bem traçadas linhas.
É duro dizer quem para garantir nosso prazer (o meu de escrever e o seu de ler) foi necessário colocar em risco a saúde da escriba, exposta aos piores raios solares do planeta, para garantir a produção literária semanal.
Era isso ou não ter texto. O horário do dead line se aproximava e... nada!
São meio dia e quarenta e cinco de uma sexta-feira e eis-me aqui, como já disse, na Ponta do Leme. Sorte que corre uma brisa leve ameniza um pouco minha febre literária. É verão e, como tal, o dia se apresenta. Não chove há semanas e o calor bate os quarenta graus, o que potencializa os raios ultravioletas.
É duro começar tentando poetar ao som do mar da praia do Leme e, deixando a mente divagar, pensar só no calor dessa praia paradisíaca e seus malefícios solares.
Respiro fundo escutando o canto do vendedor oferecendo mate com limão. Quero parar e me deliciar, mas não posso. Tenho pressa.
É duro ter vontade de mandar essa crônica às favas e dar um mergulho nessa água transparente verde esmerada que convida a uma nadada margeando a praia, ou um passeio de prancha. O mar está um espelho, sem chance para os surfistas. A pressa é tanta que nem sei se a água está gelada como nos últimos dias.
A questão é respondida por um banhista que passa voltando do mar. Não posso descrevê-lo, por que nem levantei a cabeça. “Pô, a água está geladona”, avisa em direção a barraca para onde retorna.
É duro ter a impressão que tudo que poderia melhorar o estado de espírito geral desse registro tem um “porém”.
E olha que jurei não abordar temas como o aumento das passagens de ônibus no Rio de Janeiro e a qualidade do sistema de transporte público, a quebradeira no centro do Rio num protesto contra o ato do prefeito Eduardo Paes e suas tristes consequências, os preços exorbitantes na cidade e a reação dos cariocas com o Rio $urreal e a desdobramentos como a página “Cansei de der mal atendido”.
E os apagões? Resisti bravamente a polêmica do ladrão preso ao poste pelo pescoço com um cadeado de bicicleta, por “civis” no bairro do Flamengo.
Quase sucumbi ao destaque dado à bronca da presidente capturada pelos    vidros das janelas do Planalto (penso cá com meus botões que se ela gritasse mais, cobrasse mais e reclamasse mais, talvez as coisas estivessem melhores...). Capitulei com a notícia do russo que, em nome da poesia, assassinou a facadas quem defendia a prosa, numa discussão literária.
É duro querer ser positiva nesse clima em que até as pirâmides emitem raios para os céus. Por isso, me despeço com uma única certeza positiva: quando o sol baixar, lá pelas cinco, estarei aqui. De volta ao paraíso...
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Rio para não chorar

Urca 140111 094 Mureta Urca Cristo Redentor contra luz

Rio para não chorar

Texto e foto de Valéria del Cueto
Nada de um lado nem do outro, apesar de ser verão no Rio de Janeiro. Praias cheias, prateleiras vazias, preços nas alturas, atendimento abaixo da crítica.
Gente saindo pelo ladrão. E esse(s) fazendo a festa por que o público alvo está uma fartura só. Arrastão nas praias, nas ruas. Ouviu falar no relato de uma mulher foi assaltada em Copacabana? Roubaram... sua quentinha na saída do restaurante.
A temporada está aberta para todos. Democraticamente. Assim é o Rio da Copa e das Olimpíadas. Um caldeirão fumegante com praias sujas para quem te quero.
E essa não é uma visão de pessimista, de quem está torcendo contra. Quem convosco dialoga é simplesmente apaixonado pela Cidade Maravilhosa que sofre nas mãos de seus algozes.
Essa semana, um celular foi causador de uma tragédia que parou a cidade.
Ocupado com a conversa, o motorista não reparou que a caçamba do veículo trafegando em horário proibido pela linha Amarela, uma das vias expressas mais importantes da região metropolitana, estava levantada.
Ao bater numa passarela de pedestres, ela derrubou a estrutura projetando pedestres e esmagando carros. Cinco morreram. O tal celular vai ser condenado, sem dúvida.
Afinal, a administradora da via que não barrou o passeio do caminhão não tem culpa. A prefeitura que tem seu adesivo “salvo conduto” no caminhão (tipo “a serviço”), que não trabalhava para ela também não.
A caçamba que milagrosamente se elevou aos céus tentando um voo refrescante mais longe do asfalto, muito menos, assim como o responsável pelo bom funcionamento da instalação elevatória.
O motorista que estava no lugar errado, na hora errada, com o equipamento acionado de forma errada também não teria tanta culpa se... não estivesse falando no celular, o mordomo da era tecnológica.
Isso é o Rio de Janeiro. Não é a toa que seu codinome é Cidade Maravilhosa. Admirada pelo mundo e amada incondicionalmente pelos cariocas.
Os mesmos que a própria prefeitura responsabiliza e aponta o dedo quando junta a montanha de lixo nas praias e indaga numa imagem que correu mundo: ”Esse é o presente que o carioca deixa para a cidade?”. Diz aí, cara pálida, com o tsunami turístico desse janeiro, só nós?
Se não fossem os nossos segredos cariocas seria difícil suportar tanta pressão e alguma maledicência.
Um  desses segredos são nossas rotas de fuga. Elas nos permitem, ao menos por uma temporada, abrir mão de nossas paisagens mais conhecidas como Copacabana, Ipanema, o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, supermercados, bares da orla e restaurantes a quilo para a horda de turistas que nos invadem.
Tão longe dos olhos, tão perto de nossos corações. Ao lado do tumulto sempre existem refúgios. Eles nos permitem re-unir nossas forças a espera de que o paraíso recupere seu status natural e volte a ser um lugar amigável que faz parte da lenda do bem viver no Rio de Janeiro.
Até lá, podemos trocar o lado do morro e adotar a Urca como point mais frequente e deixar de lado nosso espetacular Jardim Botânico e passear nas ameias da Casa de Rui Barbosa, em Botafogo. A Lapa, lugar lendário da boemia carioca, que dez entre dez turistas sonham conhecer, faz tempo perdeu seu posto para a Pedra do Sal. E assim por diante.
Sob o sol do mesmo céu existem outras opções que fazem a alegria de quem quer algo a mais da cidade do que  o simples e batido cartão postal...
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
ILUSTRADO DOMINGO    JULHO 2009
*diagramação de  Nei Ferraz

domingo, 26 de janeiro de 2014

Aqui tem


Ponta 140108 025 ambulantes porta garrafa galão de mate
Texto e fotos de Valéria del Cueto
Estava lá. No lugar dos seus sonhos mais almejados. Colocou os pés na areia e tomou o rumo do mar. Aquilo pareceria uma propaganda, um comercial do bem viver.
Não fosse a lotação. Fechou os olhos para receber as bênçãos do som do mar e o murmúrio do vento da praia que tanto pedira a Deus durante o último ano de trabalho pesado. Ouviu o funk da barraca da direita, brigando com o pagodão da vizinha da esquerda.
Procurou um espacinho tentando evitar virar figuração da câmera do celular do grupo selfie que animadamente registrava sua passagem pela praia. Ele e as torcidas do Corinthians, Internacional, Cruzeiro etc e tal. As maiores de todos os estados da federação. Tudo ali, na mesma praia. Sonhar não custa nada e viajar para o Rio de Janeiro esteve ao alcance de 2 milhões de pessoas no início do ano. Tudo lá. Ao mesmo tempo.
O próximo capítulo do sonho poderia se realizar a qualquer momento. Bastaria ouvir a ladainha do vendedor ambulante: “Olha o mate, Mate Leão, é o mate de bujãooooo”. Afinal, praia no Rio tinha direito ao único líquido não enlatado ou plastificado que podia ser vendido pelos ambulantes. O título de patrimônio carioca dava à delícia típica das areias escaldantes do Rio de Janeiro, a liberdade de ser  misturada de acordo com o paladar de cada um: mate e limão, ao gosto do freguês. Se possível bem geladinho.
Distraiu-se da urgência dando um mergulho nas águas artificialmente coloridas do mar. Segundo as notícias não havia perigo em cair naquele caldo. Eram apenas algas... Abriu espaço num mundo colorido de banhistas que, via-se claramente, tinha o mesmo objetivo: fazer daquela uma temporada inesquecível e mostrar isso. Se possível auxiliado pela tecnologia que permitia enviar as imagens de seu prazer instantaneamente. Cheias de caras e bocas sorridentes serviriam para dirimir qualquer dúvida de que aqueles foram dias maravilhosos.
É claro que não estava em muitas selfies resenhas as enormes filas nos restaurantes, o desabastecimento do comércio, os preços abusivos.
Também não foram registradas pelas câmeras as buscas desesperadas pelo sorvete das crianças, o refrigerante preferido, o pão nosso de cada lanche. Para falar no básico.  Não houve referência aos pratos dos cardápios que estavam em falta, ao peixe que não chegava trazido pelos pescadores, ao gelo que triplicou de valor.
Ponta 140108 035 copacabana praia ambulante
Se esses “senões” fossem computados poderiam atrapalhar a intenção e o prazer das chamadas férias inesquecíveis.
Era melhor ignorar a falta d’agua, fazer de conta que não era tão ruim assim ficar sem luz dias a fio e, por falta de energia, perder tudo o que não pudesse ser consumido rapidamente da geladeira, agora armário.
Nem notou que estava na cidade do “não tem” até descobrir que não tomaria naquele dia o mate com limão. Depois de muito esperar o canto dos vendedores, entendeu que sua ausência equivalia a um “não tem”.
“Uma pizza, por favor?” “Não tem tomate seco”. “Uma batata rostie?” “Não tem batata preparada”. “Então um escondidinho...”. “Não tem, a fornecedora não entregou”. “Tem sorvete?” “Não tem”. “Gelo?” “Não tem”. “Então tem o que?” “Também não tem.”
E não registrou os “não tens”. As férias da vida, afinal, não quebraram sua rotina, acostumado que está aos seus “não tem” do ano inteiro: Não tem saúde, não tem educação, não tem transporte, não tem segurança, não tem direitos, não tem...
Pra não dizer que não teve tudo, lembrou uma carioquice pouco conhecida e menos cobiçada. Passou na vendinha e pediu, meio sem esperança: ”Tem aquele docinho de banana, Mariola?” O caixa levantou os olhos da registradora e sorridente respondeu: “Tem!”
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
ILUSTRADO DOMINGO    JULHO 2009

domingo, 12 de janeiro de 2014

“Rapa” do prato


Texto e foto de Valéria del Cueto
Bom mesmo esse bolo italiano que não para de render! Depois de comê-lo e saborear a cereja, eis que ainda há aquela calda deliciosa para “limpar” do prato. É  falta de educação, mas quem resiste? Cada colherada raspada deixa gosto de quero mais. Muito mais...
E assim é a Itália, um manancial de grandes descobertas em camadas. Umas mais escancaradas, outras, nem tanto.
Alguns preferem se aprofundar num único local e extrair tesouros ocultos e não tão visíveis a simplesmente dar uma “voada” superficial pelas atrações turísticas mais concorridas.
Acho que não precisa dizer qual é a opção dessa série de crônicas dedicadas a “narrar” o que as fotos registraram para o “No rumo do Sem Fim...” nos meses de outubro e novembro de 2014, no norte da Itália.
Depois de um período em que a globalização dominava o top ten de 10 em 10 paradas de melhores e mais, eis que um movimento no sentido inverso pode ser observado em diversos setores da sociedade. Ele parte do geral para o específico, dando destaque ao que é exclusivo e peculiar.
Tudo bem que as “marcas” continuem dominando o mercado e ditando moda, mas aqui e ali é possível perceber uma tentativa de criar um diferencial, oferecer um “plus” que não seja encontrado na monotonia reinante nas calçadas mais famosas do planeta.
A brincadeira acaba virando um jogo de onde está o quase único, o local? Qual é o diferencial entre tantos mais e melhores? Isso não significa uma simples questão de valor econômico, mas sim de singularidade. E nem sempre o singular é mais caro. Ou é?
O mais interessante é quando descobrimos que nossas lições brazucas de criação de um diferencial são  conhecidas e criam filhotes, inclusive entre  aqueles que trazem de herança milhares de anos de cultura.  
Um exemplo: há quanto tempo a indústria nacional de cosmética vem trabalhando o conceito de “fazer” com nossas riquezas vegetais produtos diferenciados, explorando as qualidades de da flora para personalizar a indústria cosmética “made in Brazil”? Natura e Boticário que o digam... A Bio Chama com suas águas cheirosas de Castanha do Pará e Guaraná, então...
Pois essa também é uma tendência de mercado que pode ser vista na Europa se você procurar bem entre as atraentes vitrines bem decoradas das franquias. Há o dream team disponível, acessível e prático para quando o produto “de marca” que usamos rotineiramente acaba. E isso é muito bom. Não há trabalho para a reposição.
Já quem procura e bate perna acha lojas artesanais, pequenos repositórios de tesouros que, tenha certeza, depois serão muito difíceis de serem encontrados novamente, a não ser que nos disponhamos a uma importação via internet (e viva a era digital!)
Algumas marcas de cosméticos estão nessa vibe. Caso da Dea Terra que industrializa cremes faciais e corporais com ingredientes típicos italianos como frutas cítricas sicilianas, açafrão de Abruzzo e sementes de uvas de Avola. Interessante,  não é?
Ainda há mais -  e foi esse ingrediente que garantiu à Dea Terra esse espaço, caro editor. Falo do “Tuber Magnatum Pico”. Nome científico do Tartufo Bianco di Alba. A essência do fungo raro segundo as pesquisas científicas tem um efeito especial e regenerador.
Reconhece o produto? A Trufa Branca é uma iguaria que atinge preços astronômicos, dependendo da quantidade e da qualidade dos tubérculos farejados por cães treinados para descobri-los nas raízes das árvores  dos campos da região de Alba, no Piemonte, numa determinada época do outono.
Justamente a mesma temporada desta série italiana do “no Rumo”! Já as impressões sobre a degustação do Tartufo Bianco di Alba ficam para mais tarde, já que é outra tentativa de “limpar” o prato de delícias deste tour italiano...   
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

domingo, 29 de dezembro de 2013

É coisa de cinema!

Torino 1311 03 147 Museo Nazionale del Cinema
É coisa de cinema!
Texto e foto de Valéria del Cueto
Dizem que a cereja do bolo deve ser o último bocado a ser comido. Difícil decisão já que ela está ali, no prato, olhando pra gente e se fazendo de sedutora desde que o bolo é bolo...
Em relação a Torino, Itália, uma dessas cerejas é, sem dúvida, o Museo Nazionalle del Cinema localizado na Mole Antonielliana, no centro Histórico da cidade.
O prédio, quem diria, foi construído para ser uma sinagoga. Em 1848, Carlos Alberto de Savoia assina o Estatuto Albertino que libera os cultos não católicos e em 1863 começam as obras do templo encomendado pela comunidade judaica, conforme o projeto de Alessandro Antonelli. Previsto inicialmente para ter 47 metros, com várias alterações sofridas, hoje tem 167 metros de altura. Por muito tempo foi edifício mais alto da Europa. É  um símbolo da “Cittá di Torino”.
Torino 1311 03 139 Museo Nazionale del Cinema vista outro lado do rio
A Mole Antonielliana com seu estilo neoclássico oitocentista proporciona dois grandes espetáculos. Um é a vista para quem sobe até o terraço nos elevadores panorâmicos. Tanto a externa que permite uma visão em 360 graus da cidade, como a interna durante a subida e descida. A impressão é estar num prédio de Gothan City onde, em alguns momentos, haverá um embate entre o Morcego Negro e o Coringa. Mas o interior da Mole tem mais, muito mais.
Torino 1311 03 141 Museo Nazionale del Cinema elevador para baixo
O projeto do Museo Nazionalle del Cinema começou em 1941 em pleno regime facista que impulsiona o cinema italiano, cria os estúdios da Cinecittà... A base da coleção é da estudiosa da história do cinema Maria Adriana Prollo. Sua história se mistura a do Museo, fundado em 27 de setembro de 1958. Em julho de 2000 é inaugurada sua nova sede, um projeto do arquiteto Gianfranco Gritella, com concepção interna do suíço François Confino, ocupando toda a Mole Antoniellina.
E é aí que mora o segredo que transformou o local num dos mais visitados de Torino e da Itália, com recordes sucessivos de público na última década. São 3.200 metros quadrados distribuídos em 5 pavimentos que apresentam não apenas a história do cinema...
Para começar, é preciso entender o processo que permite a “invenção” da imagem em movimento. Desde os rudimentos da ótica, até a criação das máquinas que permitiriam a nós, a criação da chamada sétima arte.
Após a fabricação dos aparelhos de movimentar as imagens outras etapas se apresentam entre a transformação de instrumentos artesanais no que viria a ser a indústria cinematográfica, uma marca do século XX.  
Dissecando o processo cinematográfico em todos os seus aspectos técnicos de modo didático (como roteiro, stoyboard, produção, filmagem, som, imagem e, finalmente, edição) nos corredores da Mole o visitante descobre e identifica o longo processo produtivo necessário para fazer um filme.
O Museo também homenageia de forma muito equilibrada os mais famosos cineastas do mundo: americanos, europeus e asiáticos, com um destaque merecido para, por exemplo, o grande diretor italiano Federico Fellini.
O passeio termina num grande espaço, onde estão apresentadas, de forma interativa, cenários e ambientes reconhecidos nas telas. Uma grande brincadeira, depois de uma aula muito séria sobre a fantástica indústria cinematográfica.
Dois detalhes: um italiano desaconselhou a visita ao Museo “por que tem muitas fotos de gente que nunca vi nem ouvi falar”. Certamente, ele não era um cinéfilo. Uma das brincadeiras mais legais no passeio é, justamente, reconhecer entre as imagens filmes e ícones do mundo do cinema.

O segundo detalhe foi a frase escrita numa das salas: “...uma pequena máquina/ que revela aos nossos olhos tamanhas maravilhas/ e graças ao cristal ótico/ faz com que as imagens marchem como cavalos/ Muitas vezes vemos esses dispositivos/ Multiplicados com seus inventores/ E especialmente no carnaval as pessoas chegam/ perto e ficam loucas ao vê-los. – Carlo Goldino – Il Mondo Novo.
Ou seja: carnaval e cinema sempre andaram juntos. E assim será em 2014. Feliz ano novo...
Torino 1311 03 146 Museo Nazionale del Cinema cinema e carnaval
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


domingo, 22 de dezembro de 2013

Parece... E não é que é?

Torino 1311 03 026 Sayang Ku colar pregador de roupa
Texto e foto de Valéria del Cueto
Alguns movimentos são inquestionáveis na história da humanidade. Eles se alternam ao longo dos períodos: o egocentrismo e o teocentrismo, o universal e o individual e assim por diante...
No mundo de hoje esse movimento, que antes acontecia de uma forma mais lenta, alcança uma velocidade exponencial. Um exemplo? Outro dia a onda era a globalização e nos enquadramos nesse tsunami de forma tão completa que, em alguns setores, já podemos observar um movimento em sentido inverso.
Quem viaja tem uma grande chance de observar in loco essa “teoria”. Em alguns momentos é muito bom que haja um padrão de comportamentos. Cansa menos. Os aeroportos, trens e outros meios de transporte são  exemplos em que a uniformização gera enormes facilidades para seus usuários.
A regra deixa de ser confortável quando, por exemplo, ao passear por outras terras nos deparamos sempre com as mesmas lojas e possibilidades de compras, onde o padrão shopping/franchise nivela e iguala todos os lugares. Graças a Deus, nem sempre por baixo.
Mas, afinal, qual é a graça de ver as mesmas vitrines, os mesmos produtos em todas as ruas mais famosas, assim  como no shopping center ou o mall ao lado da sua casa?
Tem gente que não acha graça nenhuma nesse status quo  e transforma seu roteiro numa tentativa de fugir dessa mesmice. Mas é difícil! Na verdade, um grande desafio. Ainda mais quando não ha tempo de explorar de forma mais profunda os atrativos oferecidos nas viagens turísticas pinga-pinga.
Turin, Veneza, Verona, Milão: Prada, Hermès, Zara e assim por diante... Ou não?
Nem sempre, se há uma intenção objetiva de procurar não as semelhanças, mas valorizar as diferenças! É assim que verdadeiros tesouros ser apresentam, (normalmente em lugares menores, situados em ruas transversais), no entorno das áreas de maior circulação. 
Partindo desse princípio na Itália, em Verona, no Veneto, pra quem gosta de gastronomia já foi citado o restaurante Enocibus.
Torino 1311 03 013  setantumilesimi colares
Em Torino, Piemonte, foi numa bateção de pernas  exploratória que surgiu a loja 71/1000 (settantunmillesimi) de montagem de bijuterias com milhares de opções de peças, vitrilhos, tipos de fios e outros acessórios para quem quer ter a certeza que não entrará num lugar com um adorno de uma marca famosa, correndo o risco de virar elemento de composição, por exemplo... de um par de jarros.
Na mesma área, na mesma ruela de uma sensacional loja de bonecas de porcelana feitas a mão, outra surpresa. Essa bem original.
Torino 1311 03 022 bonecas
A Sayang Ku é uma loja de acessórios. E seria mais uma não fossem os originalíssimos objetos que compõe os adornos expostos, para lá de divertidos: pregadores de roupa, tampas coloridas de caneta Bic, lápis de cor, (aqueles bem miúdos). Isso tudo “reinterpretado” como brincos, colares, pulseiras...
Uma grande ginástica criativa que, como uma brincadeira, transforma uma coisa em outra.
Imaginem bolsas de teclados de computador! Pois são charmosíssimas. E colares feitos com zípers coloridos? É impossível não se surpreender com a criatividade da design que consegue transcender o objeto utilizado e, reutilizá-lo dentro de um contexto diferente, com uma nova concepção.
Torino 1311 03 027 Sayang Ku colar ziper
Para quem viaja procurando singularidades são trabalhos como esse que estimulam, inclusive, uma forma alternativa de encarar o simples ato, tão corriqueiro e apreciado, de viajar no que todo mundo “olha”, mas pouca gente “vê”...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

domingo, 15 de dezembro de 2013

Naquela janela, é ela?

Verona 1301025 059 Castelvecchio Madona Giovanni Francesco Caroto menino com desenho lindo
Texto e foto de Valéria del Cueto
É ela, a janela e seu balcão, o maior destaque turístico de Verona, a cidade italiana que teria sido fundada pelos celtas sabe-se lá quando e, em 89, viraria colônia romana.
Fica incrustrada numa vila da Via Capelo, onde morava  a doce Julieta, a enamorada de Romeu. Dali a jovem escuta umas das mais célebres juras de amor da literatura. É por ali que sobe o amante apaixonado e, no quarto, após uma noite juntos, ouve da amada os famosos versos de William Shakespeare: “Já vai embora? Mas se não está nem perto do amanhecer! Foi o rouxinol, não a cotovia que penetrou o canal receoso do teu ouvido. Toda noite ele canta lá na Romãzeira. Acredite-me, amor, foi o rouxinol.”
Hoje o pátio da vila é quase um cenário de Disneylândia e o coitado do Romeu jamais poderia encantar sua amada com suas palavras no meio da multidão que acorre ao lugar. Ele certamente também não ia gostar dos homens que tiram foto pegando nos seios da estátua que homenageia sua amada. Corria o risco de ter outras ordens de prisão contra ele, como a que desencadeia a tragédia teatral!
Verona 1301025 015  Juileta na sacada
É muita gente de todos os lugares do mundo lotando o pequeno espaço e procurando novos ângulos para fotografar os mais incríveis tipos de turistas que passam pelo balcão, mediante uma módica quantia para entrar na casa.
É uma injustiça que essa seja a referência mais comum ao se falar de Verona, próspera capital do então ducado Lombardo, detentora de tesouros artísticos e declarada Patrimônio Histórico da Humanidade por sua arquitetura e urbanismo integrado.
Não é só centro da área histórica, onde se destaca imponente a Arena Romana e outras preciosidades, que guarda tesouros artísticos e points gastronômicos e de compras fora do circuito da via Manzzini.
Verona 1301025 063 Enocibus restaurante VeronaBasta sair poucas ruas para fora deste miolo para descobrir lugares como o Enocibus, surpreendente restaurante, na Vícolo Pomodoro, uma ruela silenciosa no entorno da zona nervosa e sempre lotada de animados grupos turísticos que passam como ondas.
A surpresa começa pelo fato de sermos recebidos depois da hora de fechar, normalmente às 3 da tarde. Foi apenas uma tentativa (de sucesso), entrar e perguntar se ainda atendiam naquele horário, a porta para um tratamento quase incomum de acordo com a conhecida fama italiana de mal tratar os clientes, quase como no Bar Lagoa, no Rio de Janeiro. A simpatia do casal é deliciosa e a formalidade fica de lado num ambiente acolhedor e bem decorado. Tudo isso deixa a comida e o vinho típico da região ainda melhor, se é que isso é possível...
No quesito obras de arte, Verona, deteve, por um período, a supremacia artística de toda a península italiana (Verona é incorporada a Itália em 1866). As obras estão espalhadas por excelentes museus, caso do castelo medieval que abriga o Museo di Castelvecchio, um passeio por diferentes períodos do romano ao medieval e romântico. (Depois de pencas de representações com temática religiosa como virgens, anjos e cenas sacras, é instigante se deparar com o quadro “Menino com desenho de fantoche”, do artista Giovanni Franchesco Caroto que viveu em Verona entre 1480 e 1555 que faz parte da coleção do museu).
Novamente, a receita que mistura obras antigas com mostras contemporâneas é aplicada para valorizar ainda mais o espaço e garantir a visita de todos os tipos de apreciadores das artes. Desta vez de maneira radical com a mescla, entre as peças distribuídas pelos salões da exposição permanente no Castelvecchio, das bolhas que caracterizam as obras expostas do artista contemporâneo Giorgio Vigna na mostra “Stati Primitivi” que pode ser vista até o dia 6 de janeiro.
Verona é muito mais que a cidade do balcão de Julieta...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
ILUSTRADO DOMINGO