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domingo, 10 de agosto de 2014

Plantar,comer, contar e... colher!

Leme 140807 015 La Fiducia Batata Rostie Recheada
Texto e foto de Valéria del Cueto
Semana passada “Mistura Fina” foi o título de (mais) uma crônica, esta gastronômica, que provocou vários comentários. Logo no início expliquei modestamente que entre meus dotes e talentos a culinária não estava incluída. E não me perguntem o porquê.
Muita gente foi fisgada pelo formato do texto sem saber que durante anos induzida por minha avó tive o prazer de ser leitora assídua do grande Apícius, crítico de gastronomia do Jornal do Brasil. Ele usava esse pseudônimo para escrever sobre restaurantes cariocas. Sempre acompanhado por madames (a mais frequente era a “M”), suas incertas anônimas geravam colunas deliciosas, ora favoráveis, ora desancando os estabelecimentos do Rio. Seu apelido fazia referência a um comilão romano, dos tempos do Imperador Augusto e servia para proteger um dos melhores textos que “assombrou” a imprensa durante mais de 20 anos.
Pois foi sob sua inspiração que durante um tempo, bem no início da década de 90, tive uma coluna gastronômica num jornal de Cuiabá editado pela minha chefa predileta, a jornalista Lígia Lemos, mãe do Marcão, hoje secretário de Comunicação do Estado de Mato Grosso. Não me recordo se no Jornal Independente ou na Tribuna Cuiabana, de Shirley Ocampos.
Durante várias edições falei sobre restaurantes e acepipes que encontrava na capital mato-grossense. Rapidamente consegui entender por que João Roberto Marinho de Azevedo, filho de uma tradicional família carioca, se escondia atrás do codinome romano. Por uma questão de sobrevivência, acabei definindo que iria apenas destacar as qualidades da culinária de Cuiabá e simplesmente ignorar o que não me caía bem no paladar e no estômago.
Mas, como Apícius, adotei um estilo narrativo menos científico e mais poético, o que fazia que a “fantástica” coluna fosse de vento em popa. 
Até o dia em que... para falar da Batata Rostie, acompanhamento que sempre a-mei e só havia encontrado muito bem feita num pequeno restaurante de um casal alemão, talvez no Jardim Tropical, escrevi um texto em que fantasiava que, por causa da batata, o lendário bandido Márcio Martins, o Rambo do Garimpo, preso no batalhão da PM na XV de Novembro, ao encomendar a iguaria e ter seu pedido negando, não resistiu ao desejo e fugiu pelo portão principal, se misturado aos convidados de um casamento que acontecia na igreja em frente, e botou o pé no mundo. Não sem antes passar no restaurantezinho (que, esclarecendo, não era a Casa da Suíça)e degustar uma porção caprichada da iguaria.
Tirando a parte da batata, por incrível que pareça, a fuga realmente havia acontecido como narrava a coluna. Corria na cidade, inclusive, que o mesmo havia molhado a mão do comandante da unidade com uma grande quantidade de ouro!  Pois essa foi a última vez que escrevi regularmente sobre gastronomia. Imagino que vocês calculem o motivo.
Hoje, quando encontro um lugar que prepare o prato com o capricho necessário, sempre penso no bandidão que, involuntariamente, acabou cortando minhas asinhas de crítica gastronômica. Normalmente, quando muito, pincelo o assunto. Era o que ia fazer aqui, falando sobre a evolução da Batata Rostie. Ela,  atualmente,  frequenta meu cardápio recheada por gostosuras como carne seca desfiada com catupiry, no Bistrô La Fidúcia Café, em Copacabana, Rio de Janeiro.
Mas fui fisgada pela lembrança de um tempo em que, no mínimo, bandido ia para a cadeia mesmo que pra fugir depois virando lenda, e Mato Grosso era o lugar que havia escolhido para viver e testemunhar histórias saborosas como uma Batata Rostie que evoluiu e, agora, é recheada de temperos e aventuras (bem) vividas...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

domingo, 15 de dezembro de 2013

Naquela janela, é ela?

Verona 1301025 059 Castelvecchio Madona Giovanni Francesco Caroto menino com desenho lindo
Texto e foto de Valéria del Cueto
É ela, a janela e seu balcão, o maior destaque turístico de Verona, a cidade italiana que teria sido fundada pelos celtas sabe-se lá quando e, em 89, viraria colônia romana.
Fica incrustrada numa vila da Via Capelo, onde morava  a doce Julieta, a enamorada de Romeu. Dali a jovem escuta umas das mais célebres juras de amor da literatura. É por ali que sobe o amante apaixonado e, no quarto, após uma noite juntos, ouve da amada os famosos versos de William Shakespeare: “Já vai embora? Mas se não está nem perto do amanhecer! Foi o rouxinol, não a cotovia que penetrou o canal receoso do teu ouvido. Toda noite ele canta lá na Romãzeira. Acredite-me, amor, foi o rouxinol.”
Hoje o pátio da vila é quase um cenário de Disneylândia e o coitado do Romeu jamais poderia encantar sua amada com suas palavras no meio da multidão que acorre ao lugar. Ele certamente também não ia gostar dos homens que tiram foto pegando nos seios da estátua que homenageia sua amada. Corria o risco de ter outras ordens de prisão contra ele, como a que desencadeia a tragédia teatral!
Verona 1301025 015  Juileta na sacada
É muita gente de todos os lugares do mundo lotando o pequeno espaço e procurando novos ângulos para fotografar os mais incríveis tipos de turistas que passam pelo balcão, mediante uma módica quantia para entrar na casa.
É uma injustiça que essa seja a referência mais comum ao se falar de Verona, próspera capital do então ducado Lombardo, detentora de tesouros artísticos e declarada Patrimônio Histórico da Humanidade por sua arquitetura e urbanismo integrado.
Não é só centro da área histórica, onde se destaca imponente a Arena Romana e outras preciosidades, que guarda tesouros artísticos e points gastronômicos e de compras fora do circuito da via Manzzini.
Verona 1301025 063 Enocibus restaurante VeronaBasta sair poucas ruas para fora deste miolo para descobrir lugares como o Enocibus, surpreendente restaurante, na Vícolo Pomodoro, uma ruela silenciosa no entorno da zona nervosa e sempre lotada de animados grupos turísticos que passam como ondas.
A surpresa começa pelo fato de sermos recebidos depois da hora de fechar, normalmente às 3 da tarde. Foi apenas uma tentativa (de sucesso), entrar e perguntar se ainda atendiam naquele horário, a porta para um tratamento quase incomum de acordo com a conhecida fama italiana de mal tratar os clientes, quase como no Bar Lagoa, no Rio de Janeiro. A simpatia do casal é deliciosa e a formalidade fica de lado num ambiente acolhedor e bem decorado. Tudo isso deixa a comida e o vinho típico da região ainda melhor, se é que isso é possível...
No quesito obras de arte, Verona, deteve, por um período, a supremacia artística de toda a península italiana (Verona é incorporada a Itália em 1866). As obras estão espalhadas por excelentes museus, caso do castelo medieval que abriga o Museo di Castelvecchio, um passeio por diferentes períodos do romano ao medieval e romântico. (Depois de pencas de representações com temática religiosa como virgens, anjos e cenas sacras, é instigante se deparar com o quadro “Menino com desenho de fantoche”, do artista Giovanni Franchesco Caroto que viveu em Verona entre 1480 e 1555 que faz parte da coleção do museu).
Novamente, a receita que mistura obras antigas com mostras contemporâneas é aplicada para valorizar ainda mais o espaço e garantir a visita de todos os tipos de apreciadores das artes. Desta vez de maneira radical com a mescla, entre as peças distribuídas pelos salões da exposição permanente no Castelvecchio, das bolhas que caracterizam as obras expostas do artista contemporâneo Giorgio Vigna na mostra “Stati Primitivi” que pode ser vista até o dia 6 de janeiro.
Verona é muito mais que a cidade do balcão de Julieta...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
ILUSTRADO DOMINGO