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domingo, 8 de novembro de 2015

Fome de quê?

Belém 150916 160 Ver o Peso vegetal Banca Pimenta lataFome de que?

Texto e fotos sobre Belém, de Valéria del Cueto
A Itália me chama, mas não posso chegar lá (ainda). Dessa vez fui despertada por um alerta do Periscope,  aplicativo de transmissão de vídeo em tempo real (streaming) do Twitter. Fui parar, ainda dormindo, na abertura da edição 2015 da Artíssima, a feira de arte contemporânea que agita Torino, no Piemonte, no primeiro final de semana de novembro. Em 2013, o evento que ocupa o Oval, pavilhão do Lingotto Fiere, rendeu o texto “Torino, Corso dell’Arte Contemporânea” em que explorava  o evento italiano.
Um pouco mais tarde, outro alerta. Dessa vez é um email da Mendes Wood DM,(de Pedro Mendes, do time de curadores da Artíssima), uma das três galerias brasileiras, dentre as 207 participantes, de 35 países, com obras de Paulo Nimer Pjota. Do Rio, comparecem A Gentil Carioca com peças de João Mode, Rodrigo Torres, Maria Laet, Laura Lima, Thiago Rocha Pitta e a Luciana Caravello, com Nazareno. Artistas brasileiros como Matheus Rocha Pitta e Paulo Nazareth, estão representados nas galerias Sprovieri, de Londres, e Franco Noero, de Torino, respectivamente.
Por que não estou lá? Pergunta uma parte do meu cérebro adormecido. Já totalmente desperta tento responder ao questionamento e volto no tempo. Agora, até Milão onde vi, na mesma viagem, um detalhe que  me incomodou, narrado na crônica Tiro ao Alto: a poluição visual da cidade, com banners e penduricalhos referentes a Expo Milano 2015 que, com o tema “Nutrir  o planeta, energia para a vida”, movimentaria (e  inflacionaria) a cidade lombarda de maio a outubro.
“Alimentando o mundo com soluções”. Com esse slogan lá estivemos nós, nos últimos 6 meses, entre os 145 países que ocuparam gigantescos pavilhões, uma área de 1.1 milhão de metros quadrados, para receber um público estimado em mais 20 milhões de visitantes. O brazuca tinha 4.133 metros quadrados e várias bossas. Entre elas, uma rede suspensa por onde os visitantes passeavam. De 2013 pra cá procurei (sem muito sucesso) informações do que apresentaríamos por lá. O melhor canal, acreditem, era nas notícias veiculadas na Itália. Foi lá que descobri como seria nosso pavilhão, seu projeto arquitetônico e outros detalhes. Queria saber quais as premissas que norteariam nossa participação. Quando a EXPO começou, achei um site oficial que mencionava algumas receitas que seriam apresentadas por lá. Junto a tradicional Caipirinha aparecia um drink chamado Diabo Roxo. Lado a lado com a Feijoada, uma receita de Macarrão com Molho de Soja! Como estava numa fase “paz e amor” preferi não polemizar e acompanhar o que os outros países apresentariam de interessante.
Vi, mais uma vez, o Brasil na fita quando o ex-presidente Lula pontificou numa foto premonitória, literalmente andando na corda bamba, dando pinta na tal rede “multissensorial e imersiva”, atração do  pavilhão brasileiro. E assim se passaram os meses do evento que lotou e movimentou a Lombardia, o Piemonte e o território italiano, razões pelas quais não fiz nenhum esforço para visitar a Itália neste período. Ainda mais com a desvalorização de nossa moeda...
Nada chamou minha atenção positivamente nesse intervalo, especialmente porque expor produtos pecuários e agrícolas como frutas, entre elas morangos (aqueles entupidos de agrotóxicos), não era exatamente relevante para a sustentabilidade planetária. Não estávamos ali para discutir ou inovar, mas para vender o peixe institucional sem maiores questionamentos.
Até o evento dos dois últimos dias no pavilhão: o lançamento do Centro Global de Gastronomia e Biodiversidade da Amazônia. Ele será implantado no Complexo Feliz Lusitânia, em Belém do Pará, para  viabilizar a pesquisa, o ensino e  formação, o fomento econômico, turístico e cultural, com uma escola de gastronomia, laboratório de alimentos, barco-cozinha, museu e restaurante. Pois não é que veio da cidade que completará 400 anos em 2016 a proposta que mais se  coaduna com o tema da ExpoMilano? Como sempre, o Pará. Surpreendente e na vanguarda...
A mais de 3.000 quilômetros no rumo sul, em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, juro que em breve atravessarei o país e, novamente, mergulharei nos sabores e saberes paraenses. Enquanto aguardo o inverno passar para, quem sabe, matar o desejo de explorar, mais uma vez, a terra de meus antepassados, a “Bella Italia”.
* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do Sem Fim...

domingo, 22 de dezembro de 2013

Parece... E não é que é?

Torino 1311 03 026 Sayang Ku colar pregador de roupa
Texto e foto de Valéria del Cueto
Alguns movimentos são inquestionáveis na história da humanidade. Eles se alternam ao longo dos períodos: o egocentrismo e o teocentrismo, o universal e o individual e assim por diante...
No mundo de hoje esse movimento, que antes acontecia de uma forma mais lenta, alcança uma velocidade exponencial. Um exemplo? Outro dia a onda era a globalização e nos enquadramos nesse tsunami de forma tão completa que, em alguns setores, já podemos observar um movimento em sentido inverso.
Quem viaja tem uma grande chance de observar in loco essa “teoria”. Em alguns momentos é muito bom que haja um padrão de comportamentos. Cansa menos. Os aeroportos, trens e outros meios de transporte são  exemplos em que a uniformização gera enormes facilidades para seus usuários.
A regra deixa de ser confortável quando, por exemplo, ao passear por outras terras nos deparamos sempre com as mesmas lojas e possibilidades de compras, onde o padrão shopping/franchise nivela e iguala todos os lugares. Graças a Deus, nem sempre por baixo.
Mas, afinal, qual é a graça de ver as mesmas vitrines, os mesmos produtos em todas as ruas mais famosas, assim  como no shopping center ou o mall ao lado da sua casa?
Tem gente que não acha graça nenhuma nesse status quo  e transforma seu roteiro numa tentativa de fugir dessa mesmice. Mas é difícil! Na verdade, um grande desafio. Ainda mais quando não ha tempo de explorar de forma mais profunda os atrativos oferecidos nas viagens turísticas pinga-pinga.
Turin, Veneza, Verona, Milão: Prada, Hermès, Zara e assim por diante... Ou não?
Nem sempre, se há uma intenção objetiva de procurar não as semelhanças, mas valorizar as diferenças! É assim que verdadeiros tesouros ser apresentam, (normalmente em lugares menores, situados em ruas transversais), no entorno das áreas de maior circulação. 
Partindo desse princípio na Itália, em Verona, no Veneto, pra quem gosta de gastronomia já foi citado o restaurante Enocibus.
Torino 1311 03 013  setantumilesimi colares
Em Torino, Piemonte, foi numa bateção de pernas  exploratória que surgiu a loja 71/1000 (settantunmillesimi) de montagem de bijuterias com milhares de opções de peças, vitrilhos, tipos de fios e outros acessórios para quem quer ter a certeza que não entrará num lugar com um adorno de uma marca famosa, correndo o risco de virar elemento de composição, por exemplo... de um par de jarros.
Na mesma área, na mesma ruela de uma sensacional loja de bonecas de porcelana feitas a mão, outra surpresa. Essa bem original.
Torino 1311 03 022 bonecas
A Sayang Ku é uma loja de acessórios. E seria mais uma não fossem os originalíssimos objetos que compõe os adornos expostos, para lá de divertidos: pregadores de roupa, tampas coloridas de caneta Bic, lápis de cor, (aqueles bem miúdos). Isso tudo “reinterpretado” como brincos, colares, pulseiras...
Uma grande ginástica criativa que, como uma brincadeira, transforma uma coisa em outra.
Imaginem bolsas de teclados de computador! Pois são charmosíssimas. E colares feitos com zípers coloridos? É impossível não se surpreender com a criatividade da design que consegue transcender o objeto utilizado e, reutilizá-lo dentro de um contexto diferente, com uma nova concepção.
Torino 1311 03 027 Sayang Ku colar ziper
Para quem viaja procurando singularidades são trabalhos como esse que estimulam, inclusive, uma forma alternativa de encarar o simples ato, tão corriqueiro e apreciado, de viajar no que todo mundo “olha”, mas pouca gente “vê”...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

domingo, 8 de dezembro de 2013

Tiro ao alto

Milano131111 017 Duomo tiro ao altoTexto e foto de Valéria del Cueto
Sabe tudo aquilo que os moradores conscientes cariocas lutam para que não aconteça na Cidade Maravilhosa com a realização de grandes eventos, a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas de 2016, como distribuição indiscriminada e desembestada dos espaços públicos para a propaganda de seus patrocinadores, aquela que polui e adultera o visual do Rio de Janeiro? 
É o que acontece em Milão, na Lombardia, Itália, nesse momento. É um exercício físico e mental tentar fotografar a parte central da cidade sem que apareça uma profusão de fachadas, propagandas e marcas – famosas pelos produtos e bregas no posicionamento de suas logos e fachadas. Idênticas as que pululam em shoppings, malls ou ruas “famosas” de qualquer cidade do mundo.
Por cima disso, pelo menos mais duas camadas da cebola decorativa que vai transformar as imagens captadas no centro milanês em autênticas torres de babel ou lançar o autor das imagens num desafio feroz para tentar esconder a poluição visual invasora. A primeira camada é a dos totens e bandeiras da futura Exposição Mundial de Milano, em 2015, espalhadas pelas ruas. A segunda, os telões e reclames colocados em locais como o Duomo di Milano, a sensacional Catedral de Milão.
Sua construção começou em 1.386 e foi concluída por ordem de Napoleão Bonaparte (olha ele aí de novo!) em 1813, cinco séculos depois - claro que ela vive precisando de conservação, mecenas e contrapartidas para as obras de sua restauração, assim como os outros  monumentos históricos e religiosos da cidade.
O Duomo... o Duomo é lindo e arisco, por que fotografá-lo é uma arte. A arte de tentar esconder as “intervenções” que poluem, por exemplo, o lado esquerdo de sua imponente fachada em estilo gótico francês, com um imenso telão povoado de vídeos dos queridos patrocinadores da obra. Lá se foi a chance de um registro integral do monumento.
Para quem se habilita a um passeio pela parte superior da catedral outra gincana, além do esforço de subir – mesmo que em parte pelo elevador -, os degraus que conduzem ao topo do Duomo. São 12 euros para ver muitos andaimes, plásticos protetores e, também, banners com os nomes dos apoiadores da reforma, impedido a visão e “sujando” as imagens gerais das delicadas 136 torres de mármore que apontam para o céu e o horizonte milanês.
Por isso, a solução é tiro ao alto se a intenção for tentar capturar o espírito e as linhas arquitetônicas históricas da efervescente cidade italiana. Porque, se baixar a mira, o que aparecerá será o de sempre: lojas famosas, marcas conhecidas e gente com sacolas de compras nas mãos além, é claro, de turistas do mundo inteiro.
A salvação está num passeio dentro dos muros do Castelo Sforzesco, construído no século XV e com intervenções de Leonardo da Vinci que, entre 1496 e 1497, se dedicou a pintar os troncos de árvores da Sala dele Asse. Hoje, o castelo fortificado abriga os Museus Cívicos como o da Pré-História, o Egípcio, de Arte Antiga, do Móvel, dos Instrumentos Musicais, a Coleção de Arte Aplicada e mostras itinerantes.
Já em Torino, a Villa della Regina, o palácio barroco seiscentista encrustado na colina ás margens do Rio Pó que tem o mesmo nome da cidade piemotesa, que também está sendo restaurado, é aberto gratuitamente ao público para visitas a seus jardins e ao museu, composto pelos preservados aposentos em que Duques de Savóia costumavam passar o mês de setembro, nas comemorações da libertação de Torino.
Checando essas informações no site da Villa Regina, um alerta em destaque no topo da página: o espaço estará fechado até o dia 15 de dezembro. O motivo? As filmagens do longa-metragem “A Bela e a Fera”, produzido pela  LUX VIDE. Pelo tempo e permanência na locação, quase duas semanas, dá para apostar que será lá o palácio da fera do clássico infantil.     
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
ILUSTRADO DOMINGO    JULHO 2009

domingo, 17 de novembro de 2013

Não dá pra (en)cantar no chuveiro

Milano131111 036 Castello Sforzerco fonteTexto e foto de Valéria del Cueto
Aparentemente um bólido do futuro. Cromado e preto, um design arrojado. Uma haste, alguns encaixes, um chuveiro. No meio, um inteligente recipiente para abrigar o sabonete. Sofisticado! Pensou ela, pensou ele, e, certamente, seu engenhoso, inteligente e inspirado criador. Só esqueceu-se de explicar para o objeto como ele tinha que se comportar.
Por aqui, na Itália, são mais comuns banheiras com duchas do que chuveiros, aqueles de chuê-chuá, vidro e ou cortinas protetoras. Por isso, quando descobriu ser a coo-possuidora de um box completo, partiu para a luta corporal para garantir seu uso e não ficar restrita a opção banheira.
Com a vitória, a comemoração era óbvia depois de uma série de recomendações: quanto tempo antes ligar a água para ela esquentar, o truque para tentar a missão impossível de não molhar o chão do lado de fora e assim por diante. Por uma chuveirada, valia qualquer aula de pilotagem. O chão era só secar.
O instante glorioso assim permaneceu por alguns momentos. A ducha presa bem lá no alto depois de ser seguida a instrução inicial de voltá-la para a parede enquanto a água atingia a temperatura ideal.
Só que, segundos depois, a mágica começou! Ela, a ducha do chuveiro, tinha vontade própria. Ia escorregando, escorregando pela haste de metal cromado a seu bel prazer, até que o tubo flexível que levava a água quase estrangulasse a tal prateleira dos apetrechos, provocando uma resistência que contivesse a velocidade inconstante do movimento. E rodava.
Ficou só observando o percurso, tentando entender a dinâmica da coisa. Só que não havia lógica na sequencia por mais que fosse estudada. A cada experiência a parte ducha se movimentava de uma forma diferente - e isso não foi apenas na primeira de tantas tentativas de diálogo. É, por que foi uma convivência de mais de um mês.
Cada vez que parecia que os mistérios do danado do chuveiro estavam decifrados, uma nova surpresa. Se era para ficar no alto pra lavar a cabeça, lá vinha ele, como um macaco feliz e curioso escorregando coqueiro abaixo.
Quando a ideia era manter os cabelos secos ele se aboletava no alto e não efetuava o movimento previsto enquanto a água esquentava. O burro empacava. Como era fã de molhar a cabeça, passou a observar os desejos do danado do chuveiro e quando ele ficava firme e forte, mesmo que a intenção fosse apenas um banho rápido, preferia aceitar o topete da ducha e parar a vida pra que as águas rolassem de acordo com o a vontade primeira e única do objeto pseudo inanimado. E assim foi a peleia que durou mais de 40 dias. Sem que fosse possível racionalizar a disputa ou tentar qualquer acordo.
Pelos lugares que passou, viu fontes maravilhosas, capazes de encantar os olhos mais insensíveis com a beleza do movimento das águas em palácios e castelos, como as da Venaria Reale, das Piazzas de Torino, Verona e Milão. Foi nessa cidade no espetacular Castello Sforzesco que a ficha caiu. Vendo a linda fontana na piazza em frente da residência do século XV do Duque de Millano, construída na década de 1990, inspirada numa mais antiga que ficava no local, entendeu finalmente o espírito do chuveiro de Torino.
Ele, que queria ser uma fonte - era mais que uma ducha de banheira - mas nunca atingiria seu objetivo. Fazia as águas dançarem em seu pequeno mundo de design moderno, para mostrar que, mesmo sem a suntuosidade arquitetônica e apesar da falta de praticidade do design, ali estava um espírito livre, disposto a ser xingado dia a dia para deixar bem claro o que não era o que gostaria de ser.
Voltou pra casa, entrou no chuveiro rebelde e o deixou molhá-la inteira, do jeito que ele decidiu. Tinha que, ao menos, respeitar suas frustrações...
**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com