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segunda-feira, 5 de junho de 2023

De onde sou cria


De onde sou cria

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Vim pelo caminho escrevendo o texto em pensamento enquanto observava os desenhos dos raios de sol de outono entre as árvores enormes do caminho pra Ponta do Arpoador. Queria ver o nascer da lua cheia de junho da Praia do Diabo, à direita do continente, para os lados do litoral norte. O plano estava feito. Como sempre, para variar, algo mudou o rumo da escrita.

Acontece que estou impregnada do meu amor primeiro, apesar de traído várias vezes, o Leme. É a ele que o olhar se volta assim que chego perto da guarita da pedra, na divisa do Forte de Copacabana. Uma mureta e um aramado impedem a passagem guardada por um soldado vigilante. Pergunto se sabe onde nascerá a lua. Diz que não com cara de quem não entende muito de coisas de lua. Natural, espacial nem exotérica. Aviso que é muito sortudo apesar do friozinho. Do ponto em que está de sentinela verá um lindo anoitecer.

A lua subirá cedo, às 17:42. Enquanto escrevo ergo o olhar e observo o céu azul sem nuvens. Só com a barra de poluição sendo colorizada em tons rosados no lusco-fusco. Observo a quantidade de pinguins, os turistas, que esperam o sol cair para aplaudi-lo em Ipanema. Que contraluz. Tudo lindo!

Acho que expandi a sensibilidade visual ontem no Leme.  Fazia tempo que não ia ao meu paraíso perdido. Achava que seria uma passagem rápida só pra acarinhar, como sempre, a Pedra do Leme do Caminho dos Pescadores. O tempo andou manhoso, birrento, cheio de crises de choro. O mar pesadão sempre em tons de chumbo refletindo o céu cinzento e nublado que trazia as chuvaradas. Não esperava nada do passeio, só que...

Quando cheguei na subida do Caminho dos Pescadores, já na estátua de Clarice Lispector e seu cachorro sentada na mureta, vi que o passeio ia dar liga. A primeira imagem pulou da câmera quando um outro cão se chegou na poetisa enquanto seu dono estava sentado ao lado. O fundo era aquele visual de Copacabana inteira. Cortei o dono (que me perdoe) e esperei um tempo até o Totó olhar para os mistérios de Clarice.

Continuei para o Caminho em busca do ponto em que entre pichações, grafites variados e, hoje, uma bike camuflada. Me agarro nela, a pedra, para saudá-la. Imagine a cena, caro eleitor. De costas à beleza estonteante, mãos e corpo grudados ao monólito como uma lagartixa, conversando com os meus e os visitantes passando de um lado pro outro. O ritual não é demorado. É o tempo uma saudação, um Pai Nosso, aquecer a alma e deixá-la ser embalada pelo som das ondas e marolas do vai-e-vem do mar no costão do Leme. Estou em casa.

Camufladas. Ela, que não é minha, e eu.


Depois de impregnada da força da pedra é só fazer um giro de 180 graus e abrir, aí sim, a visão para a força estonteante do cenário que se descortina de lá. Imagino caravelas em tempos antigos acompanhando o deslizar de um veleiro.

Pode ser que essa beleza não provoque nenhum efeito em outras pessoas. Em mim é um sopro de vida, numa ressuscitação boca-a-boca. Audição e visão expandidas à grandiosidade da paisagem. Minha reação é baixar os olhos para o local que produz o som inconstante que hipnotiza e, achava, estaria turvo, agitado. Aí, vem o que fez mudar o rumo do registro aqui no caderninho. O primeiro ponto é a cor da água. O segundo, sua limpidez azul esverdeada. Está bom? No sobe e desce da maré da lua cheia (olha ela) deu para sentir a sedução?

Enquanto me entregava ao ritmo calmo do mar, vi a dupla passeando. Duas tartarugas brincavam no play aquático natural do costão entre cardumes. O tempo parou para nadar com eles e eu engatei nas imagens. Ô sina. Sabe aquele compromisso? Perdi a hora.

E agora, para finalizar porque o espaço está acabando, vou ali correndo! Se escrever mais as “tugas” (estou íntima) também me fazem perder a lua cheia do mês de junho que está nascendo. Onde? Para o lado de onde sou cria. Do Leme... #saiodoLememasoLemenaosaidemim

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Texto  das séries “Arpoador e Ponta do Leme” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

sábado, 23 de abril de 2016

Onda que leva, traz

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Texto e foto de Valéria del Cueto
Ensaio fotográfico Ressaca no Arpoador
Tu, só tu e ninguém mais! Apesar da multidão a beira- mar sem praia que me cerca nessa quinta-feira deadline, 21 de abril de 2016, aqui no Arpoador, Rio de Janeiro.
Preciso desenhar cada letra, compor palavra por palavra, sentir a caneta deslizando e seu leve atrito no papel. Preciso do caderninho. Da sensação do espiral incomodando a mão direita que o segura, enquanto com a esquerda escrevo empoleirada na ponta de um banco.
O mais próximo que encontrei dos borrifos aspergidos pelas ondas da ressaca monumental que castiga a costa. Incluindo o paredão sem as usuais gorduras areníticas do Arpex. Da infra usual restam encarapitado o posto de salvamento e a estrutura da guarda da rampa concretada. O resto está tomado pelas nervosas ondulações que chegam do Oceano Atlântico.
A maresia forma uma bruma que, pousada no horizonte, esmaece as imagens dramáticas da força poderosa do mar. A pedra vinha sendo cantada. A maré cada vez mais alta dos últimos dias com a chegança da lua cheia dessa noite de quinta-feira, a de escrever a crônica semanal...
Gritos a minha direita indicam visitantes molhados pelas franjas rebeldes da onda que bate na murada do Arpoador há dias sem areia, o aviso que o caldo ia engrossar sendo dado diariamente.
Por mais que a vontade de emendar o feriado e engolir a redação do texto da semana fosse uma tentação quase irresistível, a curiosidade – a que matou o gato -  de ver com meus próprios olhos a revolução marítima e sua força descomunal   certamente me trariam para uma ponta. Não a minha do Leme, mas aquela que me cabe no momento...
“ Ô água mineral é 2, ô água, ô água e Guaravita...” recita o vendedor, anunciando os preços pós verão, de baixa temporada, re-pe-ti-da-men-te. Ancorou no banco ao lado. Uma poita de monotonia no ritmo desgovernado e inconstante dos pancadaços que seguem arrancando gritos de susto, exclamações de excitação e alguns poucos olhares de respeito. Com o mar não se brinca.
Depois de uma semana de acontecimentos quase nunca vistos na história desse país, a vontade de escrever era praticamente nenhuma e, por mais que tentasse, não conseguia encaixar os acontecimentos a serem narrados numa fabula brincante fabulosa. Era uma daquelas circunstâncias em que “quanto menos conversa nenhuma”. O melhor era guardar o fôlego para correr ladeira abaixo na frente da avalanche que não para de descer e ameaça nossas mais caras instituições.
E assim lá ia eu, observar a ressaca. Sentir o cheiro da névoa de maresia, ser abençoada pelos respingos purificadores do mar de Ipanema. Hoje, qual Maomé, chegando até a montanha da desumanidade em que habitamos...
Enquanto me arrumava vi a notícia do desmoronamento na Ciclovia Tim Maia, ligando o Leblon a São Conrado, inaugurada dia 17 de janeiro deste mesmo ano da graça. Um trecho foi “levantado” pela força das ondas que batem no Costão da Niemeyer. O Rio chora de tristeza, morre de vergonha! E a responsabilidade não é das ondas, da ressaca, do mar, das forças da natureza.
Foram elas, essas forças, que me grudaram hoje ao caderninho e ao desafio auto imposto de fazer o texto mais devagar, elaborar a escrita, desenhar o pensamento. E lamentar.
Como a ressaca, pedra cantada, força estranha presente quando menos se espera (mas sempre lá), só o caderninho é capaz de me salvar da ausência, preencher as lacunas da descrença, cimentar a escrita num esforço vão de descrever a imponderabilidade.
O resto já conhecemos. É o desprezo e o desleixo dos que deveriam zelar para preservar a segurança e o bem estar carioca. O nosso! Corpo e alma – ambos maculados - da sempre corajosa e destemida Cidade Maravilhosa.
* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim...
** Link para o ensaio fotográfico Ressaca no Arpoador, do dia 21/04/2016

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Quem tece teias, encera a vida


Quem tece teias, encera a vida

Texto e foto de Valéria del Cueto

Quando você ler esta narrativa, o que agora escrevo e descrevo, estarei a milhares de quilômetros da minha realidade atual: uma canga (sempre ela) estendida no gramado dos fundos do chalé onde descanso do trabalho, nos finais de semana.

O vento balançando a gigantesca mangueira em plena floração, enche o espaço de micro florezinhas. Este perímetro, aí incluindo meus cabelos  já salpicado de florinhas, é todo delas que também se abrigam na costura do caderno onde escrevo agora (e quase sempre) e até na a teia de aranha, construída na grade verde que protege a porta da cozinha.

Há alguns finais de semana que acompanho a construção dessa teia, torcendo para que dona Elza não passe por aqui com sua vassoura, o que agora, com a quantidade de florezinhas presas nas garras da aranha-mor, não vai demorar para acontecer. Na verdade, a teia só sobreviveu a faxina semanal por que vim mais cedo pra Chapada dos Guimarães essa semana e atrapalhei a concentração de Dona Elza jogando conversa fora, pra variar. Assunto entre nós é o que não falta.

Desembarcamos na casa da beira da piscina mais ou menos ao mesmo tempo. E, desde então, ela tem sido uma guerreira no combate as formigas que, se achando as donas do pedaço, se abrigavam em lugares tão incríveis quantos o piso de madeira da sala, o canto do sofá, o estrado da cama de casal e, pasmem, dentro da esquadria de metal da porta principal.

Uma loucura. A casa estava fechada e, pelo sim, pelo não, por que não ocupa-la, como a tudo em volta? As formigas da Chapada são cascudas. Poderosas. E é aí, no quesito “caçadora de formigas”, que dona Elza faz o maior sucesso. Sua especialidade é acabar com a mordomia das meninas, garantindo um espaço pra mim no mundo maravilhoso da casa da rua da Piscina, sem número.

Sei que ganhei uma amiga e cúmplice no longo trabalho de cuidar não só da casa, mas de todo o terreno que me cabe no meu reino de final de semana. E não vai ser pouco o trabalho já que eu adoro brincar de casinha e dona Elza já me confessou que se apaixona pelas casas que cuida, mais que pelos moradores. E não é que após dois meses a diferença já é gritante?

O todo esse esmero me remete para minha infância. Acontece que parte do piso da sala e do espaço onde vejo vídeo e escuto música é de madeira. Quando assumimos os trabalhos no local, essa parte estava bem castigada. Os olhos de Dona Elza brilharam quando viu o tal piso e ela logo me disse que ia deixá-lo impecável. Não demorou muito. Quando abro a porta, na sexta feira, no final da tarde, sempre reparo no capricho do lustre, fruto de muita cera e esfregação. Igualzinho a casa onde fui criada, no Leme. Só que em proporções reduzidas, é claro.

E aí, volto no tempo. Lembro de Dona Ena, minha avó, dando altas broncas, por que a criançada corria pelas salas e corredores, detonando com os sapatos o latifúndio, arranhando os tacos recém encerrados. Era uma enxugação de gelo danada, querendo que nós, as três pestinhas de plantão, resistíssemos a correr – e muito – pela vida da família que habitava o apartamento do Leme.

O bom é que minha avó dava as broncas e procurava sempre um meio de “solucionar” o problema. No caso, ela acabou criando uma nova modalidade de brincadeira para dias de sol e chuva. Tirou de um armário um antigo vestido de não me lembro quem, que tinha camadas um tule cor-de-rosa na saia e fez uns sapatos, ou botas, de acordo com a preferência de cada neto, pra gente.... patinar pelo apartamento. Resultado: a brincadeira pegou, e o piso ficava um brinco. Brilhando como nunca pelo nosso efeito enceradeira.

Pois agora, anos luzes depois, quando entro na casa da Chapada e vejo o brilho do piso, sou atirada no túnel do tempo. Aliás, o zelo com o tal piso faz com que cada vez que chego dos passeios de bicicleta pelas redondezas e penso em atravessar este espaço, tão bem cuidado, para recolher meu imóvel andante, eu acabe chegando ao cúmulo de carregar a bicicleta para que suas rodas, cheias de lama ou de terra, não deixem seu rastro no piso de tábua corrida. Vai que Dona Elza seja tão boa de bronca como minha avó!

Pois é por causa de tantas e tão boas lembranças que informei lá em cima que quando estiver lendo esse texto, estarei tão longe. Vou ao encontro das minhas melhores recordações e motivações, rever o que me faz ser mulher o bastante para partir pra qualquer desafio. Meu ponto de referência, meu porto seguro.

E, na Ponta do Leme, ouvindo o barulho do mar batendo no Caminho dos Pescadores estarei lendo, como você, a história que, ao narrar, perpetuo.    Afinal, cada um, assim como a aranha que habita a grade da porta, tece a teia que pode e merece. A questão é saber o que vamos recolher nela:  alimento e nutrição, ou simplesmente florezinhas intrometidas de uma mangueira abusada, sacudia pela ventania, numa tarde amena do centro oeste. Bom dia pra você!

* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte de uma série do SEM FIM 


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Raios, aros e quintais

Clique no LINK para acessar o ensaio fotográfico no FLICKR

Raios, aros e quintais

Um ensaio na bicibletaria do Renato, na Chapada dos Guimarães.
O texto está no SEM FIM..., se chama Paso Doble.
* texto e fotos de Valéria del Cueto

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Paso doble


Paso doble

Texto e foto(s) de Valéria del Cueto

Sempre que posso cumpro minhas promessas. Agora é uma dessas ocasiões. Pra falar a verdade, aproveito para fazê-lo em dose dupla.

Ora vejamos:  Ontem conheci o Renato, o Chiquinho e Agata (vou chamá-la assim por que me esqueci de perguntar seu nome). A gata segue Renato onde quer que ele vá. É, digamos assim, a administradora/ guardiã do estabelecimento, competentíssima.

Renato é o proprietário e, como vocês podem ver, adora o que faz. Consertar bicicletas. Esperando a  troca de um guidon, fuçando no depósito, descobri ser ali, no fundo da bicicletaria, uma das primeiras casas da localidade. A câmera digital entrou em  ação.

Enquanto fotografava ouvia a conversa do Léo, meu amigo consultor para assuntos bicicletários (me considerar uma ciclista é muita ousadia, ou falta de noção, como vocês preferirem). Ele tem por esporte subir e descer os morros vizinhos numa bike possuída e por profissão ser um músico instrumentista. Um tremendo paradoxo existencial.

Leo conversava com o terceiro personagem citado lá em cima, o Chiquinho, encarregado de arrumar minha bicicleta. Além de bicicleteiro, Chiquinho é baterista e, no momento, está tendo aulas com o instrumentista/montainbikero de viola caipira.

Ligando as imagens  a pessoa, lembrei-me dele na banda (antigamente era conjunto) que acompanhava os concorrentes no festival de música que havia assistido dias antes. Pois paralelamente aos ajustes que fazia nas marchas da bicicleta, me contou como trilhou o caminho da música.

Desperto para o assunto, foi na igreja que descobriu seu dom. Tocou pandeiro e outros instrumentos de percussão. Incutiu que queria tocar bateria. Ouvia CDS e reproduzia as batidas e viradas. Não perguntei que tipo de música havia sido seu guia. Ele não deu tempo. O assunto ia longe. Disse que o povo achava uma loucura a idéia de comprar uma bateria, que aquilo não dava futuro. O investimento seria perdido. O pai resolveu ajudá-lo. “Me botou para trabalhar com ele.Paguei minha bateria fazendo 12 currais. Moirão a moirão. Cada um enterrado um metro e meio. Ela custou 4 mil reais. Paguei à vista.” Relembra cheio de orgulho e com razão.

As primeiras noções de harmonia estão vindo agora. Juntas com os livros de acordes e uma mudança ambiciosa e radical: passar da percussão para as cordas, e por que não? A viola já tem. É  de família.

Renato ouve a conversa e ajusta uma bike. A oficina é super organizada. Dois garotos circulam. Olhos compridos, aprendendo os macetes da arte de bicicletar. A luz muda, a tarde cai...

Eu, cá, comemoro as promessas cumpridas. Publicar texto e fotos dos acontecimentos do  final de sexta feira  que  ora apresento e, na mesma tacada, (touché)  encontrar uma forma de contar histórias e agradar meus exigentes editores concomitantemente. Troquei o foco,  amigos. Cada lugar é um lugar, mas personagens como Renato e Chiquinho e Agata, a gata, existem em toda parte. Bicicletarias, também.

* Valéria del Cueto é jornalista, gestora de carnaval. Este artigo faz parte de uma série do SEM FIM   cabe a você, leitor , escolher qual delas.