Mostrando postagens com marcador Ciclovia Tim Maia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ciclovia Tim Maia. Mostrar todas as postagens

sábado, 23 de abril de 2016

Onda que leva, traz

Arpoador 160421 006 Arpoador ressaca paredão palmeiras gente  onda espuma e mar lindaOnda que leva, traz

Texto e foto de Valéria del Cueto
Ensaio fotográfico Ressaca no Arpoador
Tu, só tu e ninguém mais! Apesar da multidão a beira- mar sem praia que me cerca nessa quinta-feira deadline, 21 de abril de 2016, aqui no Arpoador, Rio de Janeiro.
Preciso desenhar cada letra, compor palavra por palavra, sentir a caneta deslizando e seu leve atrito no papel. Preciso do caderninho. Da sensação do espiral incomodando a mão direita que o segura, enquanto com a esquerda escrevo empoleirada na ponta de um banco.
O mais próximo que encontrei dos borrifos aspergidos pelas ondas da ressaca monumental que castiga a costa. Incluindo o paredão sem as usuais gorduras areníticas do Arpex. Da infra usual restam encarapitado o posto de salvamento e a estrutura da guarda da rampa concretada. O resto está tomado pelas nervosas ondulações que chegam do Oceano Atlântico.
A maresia forma uma bruma que, pousada no horizonte, esmaece as imagens dramáticas da força poderosa do mar. A pedra vinha sendo cantada. A maré cada vez mais alta dos últimos dias com a chegança da lua cheia dessa noite de quinta-feira, a de escrever a crônica semanal...
Gritos a minha direita indicam visitantes molhados pelas franjas rebeldes da onda que bate na murada do Arpoador há dias sem areia, o aviso que o caldo ia engrossar sendo dado diariamente.
Por mais que a vontade de emendar o feriado e engolir a redação do texto da semana fosse uma tentação quase irresistível, a curiosidade – a que matou o gato -  de ver com meus próprios olhos a revolução marítima e sua força descomunal   certamente me trariam para uma ponta. Não a minha do Leme, mas aquela que me cabe no momento...
“ Ô água mineral é 2, ô água, ô água e Guaravita...” recita o vendedor, anunciando os preços pós verão, de baixa temporada, re-pe-ti-da-men-te. Ancorou no banco ao lado. Uma poita de monotonia no ritmo desgovernado e inconstante dos pancadaços que seguem arrancando gritos de susto, exclamações de excitação e alguns poucos olhares de respeito. Com o mar não se brinca.
Depois de uma semana de acontecimentos quase nunca vistos na história desse país, a vontade de escrever era praticamente nenhuma e, por mais que tentasse, não conseguia encaixar os acontecimentos a serem narrados numa fabula brincante fabulosa. Era uma daquelas circunstâncias em que “quanto menos conversa nenhuma”. O melhor era guardar o fôlego para correr ladeira abaixo na frente da avalanche que não para de descer e ameaça nossas mais caras instituições.
E assim lá ia eu, observar a ressaca. Sentir o cheiro da névoa de maresia, ser abençoada pelos respingos purificadores do mar de Ipanema. Hoje, qual Maomé, chegando até a montanha da desumanidade em que habitamos...
Enquanto me arrumava vi a notícia do desmoronamento na Ciclovia Tim Maia, ligando o Leblon a São Conrado, inaugurada dia 17 de janeiro deste mesmo ano da graça. Um trecho foi “levantado” pela força das ondas que batem no Costão da Niemeyer. O Rio chora de tristeza, morre de vergonha! E a responsabilidade não é das ondas, da ressaca, do mar, das forças da natureza.
Foram elas, essas forças, que me grudaram hoje ao caderninho e ao desafio auto imposto de fazer o texto mais devagar, elaborar a escrita, desenhar o pensamento. E lamentar.
Como a ressaca, pedra cantada, força estranha presente quando menos se espera (mas sempre lá), só o caderninho é capaz de me salvar da ausência, preencher as lacunas da descrença, cimentar a escrita num esforço vão de descrever a imponderabilidade.
O resto já conhecemos. É o desprezo e o desleixo dos que deveriam zelar para preservar a segurança e o bem estar carioca. O nosso! Corpo e alma – ambos maculados - da sempre corajosa e destemida Cidade Maravilhosa.
Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim...
** Link para o ensaio fotográfico Ressaca no Arpoador, do dia 21/04/2016