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sexta-feira, 5 de julho de 2013

Frente a frente

Ponta 130611 006 debret camelo meia barraca
Texto e foto de Valéria del Cueto
Olho para ele, ele olha para mim...

Há, sim, uma empatia entre nós. Aquilo que nos une é o que nos mantém ali. Olho no olho, imóveis. 

Esperando para ver quem vai reagir primeiro e para onde essa reação levará a energia que será despendida no movimento.

Também pode não acontecer nada. O momento passar, a fila andar e o que poderia acontecer ficar ali, largado, perdido no meio do caminho por inércia.

O fio do tempo estica até soar. Tenso como uma corda de guitarra. Poderia ser de violino, baixo, violão, viola de cocho. Sinto saudades de um dedilhado nervoso nas cordas tensas de uma viola.

A afinação depende do tom escolhido pelo instrumentista. Antigamente o diapasão servia apenas para conduzir o ouvido. Hoje, umas luzinhas digitais indicam se o instrumento está perfeitamente afinado.

Tecnologia...

Foi ela que deu um susto, merecido por sinal, em quem achava que dominava a mente e a vida do país. Assim, como um todo.

Não prestaram atenção aos códigos que brotavam nas telas dos celulares que todo mundo tem, ignoraram os novos meios de fazer o de sempre: dialogar, reunir,  expandir.

O vareio foi generalizado. E todo mundo tenta se preparar para dar respostas e corrigir as falhas de interpretação.

Aí é que a atenção tem que ser redobrada. E, se necessário, o grito ainda mais forte. Por que os caras podem ser ruins de gingado, mas que vão tentar das uma reboladinha e reinterpretar de forma tendenciosa o que está sendo jogado na cara do governo a cada manifestação, isso vão.

Plebiscito, referendo, reforma política? Conversas vãs para tentar botar pra dormir a “boiada”  perambulante pelos gramados da Praça dos Três Poderes.

Renan dizendo que se o povo decidir prescinde das normas constitucionais é piada. De mau gosto, é claro. Como o presidente do Senado pode considerar a hipótese do seu poder abrir mão de seu próprio papel constitucional?

Fumaça branca, antes da chegada do Papa. Que, se ainda está longe da maioria da população, já faz parte da paisagem do Leme, alterada por imensos painéis de metal que cercam uma enorme faixa da areia, mais um menos na altura do Zona Sul, o supermercado. Isso que ainda falta quase um mês para o evento.
Com ou sem campeonato na Copa das Confederações...

Ele me olha e eu olho pra ele. Nada mudou. Nada parece mudar. Mas é só a aparência.

O entorno se modifica animadamente. Quase de forma orgânica, envolvendo, entremeando, costurando.

Pode ser que saia até uma colcha de retalhos, disforme, quiçá. Mas que servirá para envolver,  aquecer e embalar os desejos de muitos, a vontade de todos, traduzidos pelo mar de gente que invadiu as avenidas brasileiras.

Nos olhamos. Ouço o som das suas mãos batucando levemente. É um tantan? E, veja, nem é carnaval...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Estou na dele



Texto e foto de Valéria del Cueto
Saudades do meu caderninho, simplesinho, queridinho e tão útil. Pronto para receber de páginas abertas impressões e expressões de maneira serena, democrática, independente de linha ou assunto.
Estou me rendendo com alegria ao deslizar da tinta, o ritmo do desenho das palavras, o prazer de quem se entrega a escrevinhar no papel.
O caderninho é o momento em que o pensar só é mais rápido que a ideia que brota os décimos de segundos necessários para descarregar, linha afora tão soltamente a ponto de não haver dúvida(s) sobre a grafia correta, as palavras feiticeiras. Elas, que surgem saltitantes e se deitam preguiçosas, libertas e cheias de disposição, até aquela destinada a ser a flecha certeira que atinge o alvo do ponto final da frase.
Pode parecer delírio -  e talvez seja - provocado por fortíssimos sintomas de felicidade intrínseca, dos que só podem ser provocados por uma sensação efêmera e quase única. – como tudo que é bom.
Falo do meu mar é azul, verde esmeralda cristalino e da minha praia é a mais limpa do Rio. Não é pouco.
Tenho observado esses tempos estranhos. E agora, sinto começou o verão no Rio. Temperaturas altíssimas, enquanto que no Rio Grande do Sul, mais precisamente em Uruguaiana, onde o verão costuma ser escaldante, o clima da estação anda ameno.
Aqui, o calor começou nos últimos dias de carnaval deixando para trás um janeiro ranheta que não fez jus a nossa fama de paraíso na terra. Parecia praga! Tanta gente de fora querendo ver o que faz do Rio um lugar abençoado por Deus e, no céu só nuvens passando, em sentido único, sempre de lá para cá, o caminho do mau tempo. E mais... a água do mar estava horrorosa. Foi isso que os visitantes viram. Meio caldo de cana em alguns dias.
Mas isso foi antes. Bastou passar a temporada pra que o cara lá de cima, vendo o paraíso mais vazio, mais disponível, resolvesse aproveitar uns dias especiais na sua maravilhosa cidade. E caprichou no ambiente!
Subiu a temperatura da terra, pra que queiramos o mar. Para torna-lo irresistível, deixou tépida a sensação na pele até na hora do mergulho, aquele, na corrida, sem testar antes com a pontinha do pé o que te espera.
Também como resistir ao apelo daquela cor que era, sim, do mar, e apenas dele, celestialmente, por assim dizer? Ele filtrou a água a ponto de fazê-la brilhar como esmeralda translúcida e transparente, capaz levar qualquer um a viajar nas suas profundezas até alcançar, lá no fundo o relevo da areia.
Deu uma soprada no vento e amenizou, com uma ajuda substancial da maré, as ondas e movimentos. Ondas sim, mas no tamanho certo para não turvar demais o que os olhos podiam notar, sem sei lá não sei não.
Para não dizer que não obteve ajuda humana, soprou os ouvidos dos garis do bairro um pedido de ajuda para que dessem uma geral na areia e... pronto!
É o paraíso da Ponta do Leme. Em pleno meio da semana que é para garantir o testemunho. Há muito aprendi a não esperar para usufruir amanhã o que me é oferecido hoje. E vocês sabem mesmo ele, o senhor, um dia precisa descansar, relaxar e aproveitar o lado bom da vida que arduamente tenta nos dar.
Por que sei, ele está aqui agora em minha companhia usufruindo o sucesso do melhor de sua concepção. Aqui exaltado  por esta vivente feliz, na Ponta do Leme.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM... delcueto.cia@gmail.com 

domingo, 27 de janeiro de 2013

As águas rolaram, o povo cantou... o santo abençoou!



Texto e foto de Valéria del Cueto
Estava indo, mas acabei ficando por que o tempo está virando de novo. Será praga de madrinha esse janeiro carioca, totalmente encharcado? São Pedro parece decidido a fazer uma lavagem geral, pra entrar na era de Aquário livre de impurezas.
E nós aqui, valorizando os guarda-chuvas e as capas impermeáveis, evitando os sapatos delicados e pedindo a Deus proteção para as chapinhas e escovas.
Esse, na verdade, não é o meu caso particular, adepta que sou da liberdade e da selvageria da minha cabeleira. Quanto mais molhado, maltratado e salgado, mais bonito ficam meus, agora, longos e rebeldes cachos. A mulherada em geral está sofrendo horrores!
A chuva abunda e prejudica o dia-a-dia da cidade, provocando a revolta dos moradores que sentem na carne a ineficiência dos órgãos públicos e o agravamento gradual do que a propaganda oficial diz que está sendo melhorado. Será nosso dinheiro jogado fora que entope os bueiros e provoca alagamentos cada vez mais intensos e rigorosos na cidade maravilhosa?
Sei não... só sei que os camelôs acabam se dando bem e as sombrinhas com imagens de pontos turísticos do Rio, como o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e o bom, velho e, agora, inoperante Maracanã passeiam sobre as cabeças que tentam se protegerem da água que Deus nos manda com abundância e intermitência nas últimas semanas.
O aguaceiro afeta a vida, mas não a interrompe. Alguns hábitos se transformam, outros sobrevivem e superam as intempéries ignorando a molhação.
Rodei, arrodeei, mas sei onde quero chegar, igual a essa chuva persistente de pancadonas e pancadinhas.
Semana passada, matei o ensaio técnico das escolas de samba na Sapucaí no sábado – estava chovendo(!), mas não fugi da raia no domingo, dia de São Sebastião e  da lavagem do Sambódromo pelas maravilhosas baianas cariocas. A cada ano, o cortejo fica maior e mais emocionante!
Lá fui eu, com meu kit “pode cair o mundo”, rezando pra que os deuses do samba e do carnaval protegessem ao menos meu equipamento. Fotografia é assim, um vício delicioso em que a gente procura registrar de um jeito diferente o que está ali, pra todo mundo ver.
Os atabaques nem precisaram soar e o céu já estava caindo, desafiando os fotógrafos a protegerem seus equipamentos, ou arriscarem suas lentes, naquela que pode ser a foto derradeira. Quando os tambores firmaram descia água a vontade.
Corri pra onde todo mundo correu e, é claro, não havia proteção pra tanta gente. Voltei pra baixo d’água, conformada com minha sina de pinto molhado e temendo que a festa fosse prejudicada.
Foi quando ouvi. Um canto. O canto. De todos! Sem amplificação, só do coração. Das milhares de almas que estavam ali. Se sentindo abençoadas e fazendo questão absoluta de manifestarem por meio dos sambas entoados, a fé na manifestação religiosa que ali acontecia.
Larguei de mão todos os meus medos, o receio de perder minha única câmera fotográfica, a que usarei durante o carnaval que se aproxima. Se, ali, cada um representava seu papel, o meu era de registrar aquela sintonia celestial. E se havia - e há – a famosa proteção, as bênçãos dos meus santos me guiariam pela tempestade, afinariam meu olhar e dariam passagem para as imagens emocionantes que refletiam na pista alagada da Avenida do desfile principal, a Marquês de Sapucaí.
E assim aconteceu com quem, com fé e oração, se deixou levar pelas águas purificantes de São Sebastião...
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É Carnaval”,  do SEM FIM... delcueto.cia@gmail.com 

domingo, 13 de janeiro de 2013

SIMPLES, PRA MIM


Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou com síndrome de pipa. Não das gordas, das que voam. Tudo que quero traduzir em imagem se resume a uma delas. Se digo que quero voar, lá estão elas, bailando no meu céu. Serelepes e abusadas.

Quando falo em liberdade, penso na sabedoria maior que elas me ensinaram: a sempre dar linha. Nunca tencionar sem necessidade. É, por que se na linha, pipas dançam, na puxada, elas rebolam.

Desde que me conheço por gente sou fascinada por pipas, pandorgas, arraias (não possuem rabiola), papagaios, ou chame você como quiser as chinesinhas, usadas a dezenas de milhares de ano como sinalizadoras militares. Que ironia. Meu símbolo de liberdade...

Cresci ajudando e atrapalhando experts a alinhar as varetas, fazer a cola de goma, recortar os gomos e enfeites no papel de seda e as tiras da rabiola, preparar a linha e enrolar o carretel. Aqui, pulo o capítulo do cerol, por que não poderei atirar a primeira pedra contra quem já brincou de cortar as vizinhas no céu.

Como na vida, tem gente que solta pipa, outros, preferem empinar o papagaio. Prefiro quando a vida me dá menos trabalho. Pode parecer coisa de gente preguiçosa, mas não é. É coisa de gente que sabe que mais vale um luar do que lutar. Até por que, ultimamente, lutas tendem a ser inglórias, o que é bem pior do que uma simples derrota.

Estou na levada da pandorga. Seguindo o vento, se deixando guiar pelos puxões e safanões caprichosos da molecada. De preferência pedindo muita linha, que é pra ter a sensação de espaço aberto. De poder saracotear.

Isso não quer dizer que perdi o rumo, larguei de mão meus objetivos. De jeito nenhum. Apenas sinto que o momento não é o ideal para determinadas abordagens. Até por que, pedir o impossível é somente um requisito para a frustração eminente, pela qual não pretendo passar.

E lá vem a pipa novamente. O que me falta agora é quem conduza minha linha. Sempre tão livre, mas segura na Ponta do meu Leme. Daqui pro mundo era um pulo, o passo da confiança, o espaço da certeza plena de que, nesse fio, só passavam ordens e comandos gerados no mais profundo e incondicional amor eterno.

Agora, o fio está sem mando. A pipa não tem mais limites. Mas tem objetivos. Se não imediatos e palpáveis, de conduta e caminho. Que é pra não desperdiçar o que aprendeu, nem deixar de saber que se o rumo é o prumo, a meta tem que ter valor e valer o preço da, agora, infinita solidão. O tempo é senhor.

A vida segue como um mar que se limita somente pelo nome que leva, já que suas águas, sem divisas, se confundem pelas correntes que cortam e se misturam oceano adentro.

Agora, só com a rabiola como ponto de equilíbrio, sem o fio que guia seus movimentos, o céu é infindável. Muda o ritmo, os estímulos, muda o todo, tudo foi. Nada existe. Só vento, que carrega a pipa, quem sabe lá para onde? O qual será o por quê?

Só não dá pra admitir a hipótese de, ao perder a linha externa, esquecer que há algo mais, capaz de ser fio e ser luz que não quebra nem dilui.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM FIM... delcueto.cia@gmail.com

sábado, 3 de novembro de 2012

Deu xabu



Deu xabu
Texto e foto de Valéria del Cueto
Chegar a praia e descobrir que esqueceu a canga, base para montar seu acampamento solar é quase igual a esquecer em casa o passaporte e só descobrir no aeroporto, na hora de embarcar.
Como querer sacar dinheiro no banco sem o cartão eletrônico. Pular de paraquedas sem o meio de transporte adequado. Participar de prova de hipismo sem o animal que dá nome ao esporte. Praticar tiro ao alvo, mas faltar a arma, de fogo ou branca.

Um retorno à base era impensável. O tempo urgia, o sol chamava e a preguiça rugia. Transformou o vestidinho numa pequena ilha evasê e ali se aboletou, largando na areia a bolsa e dela sacando o caderninho e a caneta. Era isso ou adeus à crônica.

A ordem era desordenar a rotina e antecipar o material. A periodicidade seria alterada por conta do feriado. De dominical, esta seria uma edição sabadal, sabadense e sabática.

Explique esses pequenos detalhes para a sua inspiração, caro editor. Por que para ela, a musa que a guiava, hoje não era dia de pensar, sugerir ou intervir.

O dia seria amanhã. Hoje com amanhã não orna. Entre outras razões por motivos bancários, vejam só que prosaico. Inspiração e banco não se entendem, e, raramente combinam. Diante das circunstâncias até ela foi obrigada a concordar com a justa reclamação do setor bancário. Era o dia dele.

A inspiração não achou muita graça por levar a culpa involuntária destes acontecimentos. Afinal, que responsabilidade tinha se sexta feira seria feriado? Como poderia aceitar de bom grado ser requisitada, recrutada e intimada a comparecer fora do dia semanal contratado e, mais importante e decisivo, em pleno 31 de outubro, Dia das Bruxas no hemisfério norte e, portanto, para os não iniciados, no mundo inteiro? É muita audácia.

Audácia e falta de noção. Do perigo, inclusive. E não se engane. Não é por estar na Ponta do Leme, em pleno Rio de Janeiro, numa tarde ensolarada de primavera, ouvindo as ondas quebrarem tão preguiçosas quanto ela, sem seu metro e meio quadrado de canga, que é possível sentir-se imune aos perigos abaixo mencionados. Bruxaria, magia, energia.

Mesmo as melhores e mais bem intencionadas feitiçarias devem ser usadas de forma parcimoniosa seguindo os devidos rituais.

Isso se aprende em Florianópolis, Santa Cataria, que, não por acaso, tem o codinome de Ilha da Magia, e é um entre outros pontos de contato entre os mundos paralelos da realidade e da mágica.

Há que respeitar e reverenciar os desígnios caprichosos da inspiração argumentava a pobre cronista procurando “pescar” um bom assunto.

Quem já perdeu a musa sabe disso. E se ela exige o sacrifício do conforto espacial, que assim o seja.A canga, pendurada abandonada solitária na janela do apartamento, fica fora de cena e o vestido assume o papel de micro ilha nas areias quentes da praia.

A inspiração bondosa e companheira, finalmente concede o sopro de sua graça. Mas, por seus estimados e valorizados serviços, cobra um alto preço da cronista necessitada de seus préstimos.

Por reverência, ao imobiliza-se no exíguo espaço literário, ciente de que qualquer movimento pode romper o fio que a liga com a musa, deixa as costas imobilizadas pelo tempo em que redige, provocando uma entorse que durará todo o feriado.

Deu xabu, mas a crônica saiu. O relaxante muscular que virá mais tarde é um preço justo pela inestimável contribuição.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com 

domingo, 28 de outubro de 2012

Dúvida atroz


Dúvida atroz
Texto e foto de Valéria del Cueto
Não saber se vai ou fica.
Não tinha nada a dizer, por mais que procurasse. Assunto havia e dava em árvore. Pululavam!
Eram tempos conturbados, cheios de arestas a serem aparadas, opiniões a serem dadas - se as tivesse.
Tabus estavam sendo quebrados, dogmas desmistificados. As reações às ações cada vez mais rápidas e contundentes.
Na TV discute-se... a internet. O casal conta que, juntos há quatro anos, o fazia de forma presencial e virtual. Ao mesmo tempo. Tipo dose dobrada de amor e companhia. Lado a lado, conversavam pelo... MSN!
Não dá pra discutir a eficácia da busca do grande amor ou um pouco mesmos pelos fios imaginários da grande rede tecidas nas nuvens óticas e semióticas. Faltam parâmetros. A modernidade nos agarra pelo pescoço. É osso! E daí? São apenas curiosidades, nada a ser defendido seriamente, como coisa essencial, existencial.
Esvaziou de tanto excesso, cansado que estava de tudo. E vejam que o tudo ia além da imaginação por que, essa, nunca lhe faltou á ufa!
Era capaz. Até de sonhar. Por que cargas d’água nem isso o animava mais e tanto? Não sabia.
Disso nem de nada. Nem daquilo. Se era bom, mais, menos ou quiçá. Passou, passa, passará. Passará?
Por enquanto, entretanto, apenas portanto.
Sem raiva, alegria, letargia ou tristeza, que diferença não fazia. Só traria. Era assim, era disso. Mas não agora, não era a hora, menos ainda o lugar.
Não chegou. Se passou, não parou. Seguiu. Para onde? Sabe-se lá. Não foi pra lá, nem pra cá. Tocou o céu, furou a terra, parou o ar, secou o mar...
Depois só. Passou. Agora passa vagorosamente, como se não fosse com ele. Puro fingimento. Apenas um alimento para o vácuo de plantão.
Difícil, por que a cabeça corre, o suor escorre e ele se levanta.
Sabe-se uma anta. Como todo homem que, naquele momento, sabe-se lá por quem, uma lei obriga a estar ali. Frente a frente com o passado. Aquele que um diz para esquecer, para lembra-lo só daqui a quatro anos, para A ou para B, caso houvesse apenas essas duas opções.
Perdeu o saco, está com asco e, sabe, precisa decidir. O que já passou fará do que se passa um pretérito (im)perfeito daqui a pouquinho. O que é direito para quem se julga imune ao jogo como ele?
Perdeu o agora, partiu pro depois ainda paralisado diante de si mesmo.
A máquina espera, pacientemente, a sua atitude.
Agora não sabe, e - conforma-se - nunca soube. Nem em seus sonhos mais delirantes. Seu imaginário não alcançou tanta ruindade. A pior opção é a falta de opção.
E aí, decidiu? Nem ele. É muito de um lado, o mesmo tanto do outro. Tudo do mesmo.
Na próxima vai tentar de novo por que acredita. Mas agora, não quer ter na consciência a escolha equivocada inevitável. Prefere o nada, que afinal é seu direito de não concordar em ter que escolher apenas por obrigação.
Chutou o balde, apertou o confirma e deu adeus à responsabilidade de escolher entre o péssimo e o pior.
Partiu para a vida. Cheio de razão. Satisfeitíssimo com sua (in)decisão.
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com 

domingo, 21 de outubro de 2012

Charadinha



Texto e foto de Valéria del Cueto
Tiro do meu amplo (?) microcosmo da Ponta do Leme elementos para refletir sobre a vida como um todo e em geral.

É muita pretensão, eu sei. Mas, o que fazer se esses ditos elementos saltitam a minha volta quando (como boa fiscal da natureza) estou aqui, ao pé da Pedra do Leme, apenas a aproveitar o “dolce far niente” do meu carpe diem literário, desta quinta feira?

É de quinta essa sensação de não conseguir deixar de pegar o bonde da reflexão galopando entre os sinais da natureza que me cercam.

Só ele já faz a festa, sem necessidade alguma do dedo do bicho homem para intervir na situação circundante.

Há que ser artista para não se deixar enganar pelos referidos sinais...

Venta, reparei antes mesmo de adentrar ao campo de jogo, delimitado pelo mar, a Pedra do Leme, os prédios e aquela visão paradisíaca de Copacabana que nunca canso de fotografar.

Pelos carneirinhos de espuma que saltitam entre a praia e o horizonte, sempre da direita para a esquerda do meu campo visual oceânico, dá para dizer que a intensidade das rajadas não é baixa.

Caminhando entre os quiosques do calçadão e as barracas, na faixa de areia ocupada pelas redes de vôlei e as traves dos campos de futebol de areia, começo a imaginar a melhor posição para estender a canga sem entrar em conflito direto e contrariar a força da natureza dominante.

No céu não há uma única nuvem e o sol da tarde, nessa antevéspera de horário de verão, mostra toda sua força e energia. Dá para vê-lo, mas não para senti-lo imediatamente.

Depois de escolher o local onde montarei meu escritório de cronista essa semana, paro para decidir a posição ideal para a canga, de modo a ficar na posição certa em relação a luz solar. Penso com meus laços do biquíni e botões do vestidinho/saída de praia que seu trajeto muda rápido nessa época do ano.

Pode parecer desnecessário estudar tanto o posicionamento do meu retângulo praiano.  Mas, num dia como esse, é fundamental (sempre que uso essa palavra me lembro de Dante de Oliveira).

Troco as lembranças do homem das diretas pelo  cálculo exato da minha exigência geográfica e uma forma de alcança-la surfando nas ondas do vento, sem precisar nem tentar, que não sou louca, remar contra a maré da ventania, capaz de conduzir, inclusive, o bando de carneirinhos/marolas anteriormente citados.

Me esmero no alinhamento, capricho na arrumação e... voilá! A canga aterrissa obediente. Me atiro em cima garantindo o peso nas extremidades: chinelo, chinelo, bolsa e eu. Em posição. De frente para o sol, com o mar à esquerda. Só podia ser assim. Você entende por quê? O sol brilha, o vento faz cócegas e... parece que não está calor.

Então, o bronzeamento não incomoda, nem o alarme para a torração inclemente é ligado. Quando os incautos reparam, danou-se. Tostaram! E, pior, normalmente, só de um lado, a banda duramente atingida pelo sol para quem fica sentado de frente para o marzão apreciando os carneirinhos, tão bonitinhos...

Igualzinho nas eleições! Nelas, a tostada é inerente, distraídos que estamos com as divagações “climáticas” perpetradas pelo mar e pelo sol. Esquecidos do vento que muda o rumo da prosa e só mostra seus efeitos danosos posteriormente, quando não dá mais para tentar um bronzeado equilibrado, por que a tarde chega ao fim, obedecendo a inexorabilidade do tempo que voa...

Depois, haja Caladril para tentar aliviar as queimaduras, manchas na pele e o descascar inevitável.

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com 

domingo, 30 de setembro de 2012

A mala abalada - ação e reação


A mala abalada – ação e reação
Texto e foto de Valéria del Cueto
Onde estava eu? Num lindo início de tarde de sábado, com sol brilhando lá fora e João, do Rei das Malas, a me avisar que, apesar de ter meu contato e prestar serviço para a Web Jet, a mala verde que havia apanhado no aeroporto, ao contrário da minha, simplesmente não tinha puxador, o tal que havia quebrado na viagem Florianópolis/Rio...
Sabe quando você não quer fazer uma coisa, mas tem a sensação de que deve fazê-la para não deixar furo e/ou se arrepender muito depois por não tê-la feito?
Na segunda crônica da série “percalços aéreos 2012” (já houve outra, com outra companhia, antes), mencionei a possibilidade de fotografar a entrega da mala no próximo aeroporto, já que o funcionário havia informado que eu teria que levar a mala até a loja, no centro do Rio, ou entrega-la ali, na hora. Pois então, depois pedir um tempo para montar a câmera e ele concordar em busca-la em casa, senti minha espinha dorsal ser percorrida por aquela sensação do “faça agora ou arrependa-se para sempre”. Tirar fotos mesmo que com o celular da detonação do material reclamado foi um desses casos felizes em que fiz o que deveria ter feito, conforme ordenava minha intuição.
Comprovei o fato no meio da conversa só de um pé e meia cabeça com a loja monárquica de malas, quando lembrei que de checar as fotos feitas no aeroporto, o que confirmou, inclusive, a existência de uma identificação com nome e telefone na parte de baixo da bagagem, entre as duas hastes do puxador gambeta.
Definitivamente, a mala de lá não é a mala de cá, João decretou, após comparar sua hóspede com a foto que mandei por email no início da tarde daquele sábado radioso, segundo o texto que aqui reproduzo (para não acharem que essa narrativa é apenas fruto da minha  imaginação): “A MALA QUE ESTA AQUI NA MINHA LOJA NÃO É A DA SENHORA. DEVE TER VINDO ERRADA, VOU A AEROPORTO PEDIR MAIORES INFORMAÇÕES. ABRAÇOS JOÃO FARID. VOU COMUNICANDO A SENHORA DO ANDAMENTO”
E nada mais aconteceu no final de semana, além de umas tuitadas para a Web Jet passando o número do protocolo e pedindo providências. Eis a resposta: “@delcueto Envie um e-mail para o falecom@webjet.com.br, informando o localizador e número de RIB, para que possamos verificar o ocorrido”. Traduzindo: “continue trabalhando para nós, trouxa”. Preferi ignorar e aguardar os acontecimentos. Na terça pedi notícias por email à loja. Fui informada que João havia entrado de férias e que ainda não havia notícias do rastro da mala. Nesta mesma tarde – vejam que sintonia - recebi uma ligação em que perguntavam quando poderiam entregar minha mala. Pelo que pude entender era a moça da primeira loja, de onde a dita cuja nunca havia saído e se mantinha alheia ao drama que protagonizava e aqui descrevo...
Assim teria terminado a novela não fosse o ato final da Brasil Malas, a que havia vindo buscar a original, nem primeira, nem única. Quando ela chegou  veio coberta por um camada de poeira, tipo de rua.  Muito suja. O puxador que motivou o desenrolar de metade da quase novela desta praticamente indescritível aventura que é voar pela Web Jet, não é mais o mesmo, substituído por um genérico, com um shape bastante diferente do tragicamente danificado, com menos possibilidades de regulagem. A fixação não ficou exatamente encaixada, o que deixa um vão de alguns milímetros perfeito para enganchar objetos em momentos de confusão aeroviária. Em contrapartida colocaram uma ponteira de zíper no fecho que estava faltando. Cansada, aceitei a entrega. Tudo ficaria bem se o rapaz não me pedisse para assinar um termo que terminava assim: ”...razão pela qual dou pena quitação a MALA BRASIL Comércio e Serviços para nada mais pedir ou reclamar em juízo ou fora dele a esse respeito”. Fiquei com a mala abalada, mas não assinei o termo.
A vida é assim, o momento em que vivemos: as eleições. Aqui e aí localizo os mesmos elementos: vítimas, algozes, ações e alguma possibilidade de reação. Dessa, que nunca devemos desistir! Falta uma semana...
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com