A mala abalada – ação e reação
Texto e foto de Valéria del Cueto
Onde estava eu? Num lindo início de tarde de
sábado, com sol brilhando lá fora e João, do Rei das Malas, a me avisar que,
apesar de ter meu contato e prestar serviço para a Web Jet, a mala verde que
havia apanhado no aeroporto, ao contrário da minha, simplesmente não tinha
puxador, o tal que havia quebrado na viagem Florianópolis/Rio...
Sabe quando você não quer fazer uma coisa, mas tem
a sensação de que deve fazê-la para não deixar furo e/ou se arrepender muito
depois por não tê-la feito?
Na segunda crônica da série “percalços aéreos 2012”
(já houve outra, com outra companhia, antes), mencionei a possibilidade de
fotografar a entrega da mala no próximo aeroporto, já que o funcionário havia informado
que eu teria que levar a mala até a loja, no centro do Rio, ou entrega-la ali,
na hora. Pois então, depois pedir um tempo para montar a câmera e ele concordar
em busca-la em casa, senti minha espinha dorsal ser percorrida por aquela
sensação do “faça agora ou arrependa-se para sempre”. Tirar fotos mesmo que com
o celular da detonação do material reclamado foi um desses casos felizes em que
fiz o que deveria ter feito, conforme ordenava minha intuição.
Comprovei o fato no meio da conversa só de um pé e
meia cabeça com a loja monárquica de malas, quando lembrei que de checar as
fotos feitas no aeroporto, o que confirmou, inclusive, a existência de uma
identificação com nome e telefone na parte de baixo da bagagem, entre as duas
hastes do puxador gambeta.
Definitivamente, a mala de lá não é a mala de cá,
João decretou, após comparar sua hóspede com a foto que mandei por email no
início da tarde daquele sábado radioso, segundo o texto que aqui reproduzo
(para não acharem que essa narrativa é apenas fruto da minha imaginação):
“A MALA QUE ESTA AQUI NA MINHA LOJA NÃO É A DA SENHORA. DEVE TER VINDO ERRADA,
VOU A AEROPORTO PEDIR MAIORES INFORMAÇÕES. ABRAÇOS JOÃO FARID. VOU COMUNICANDO
A SENHORA DO ANDAMENTO”
E nada mais aconteceu no final de semana, além de umas
tuitadas para a Web Jet passando o número do protocolo e pedindo providências.
Eis a resposta: “@delcueto Envie um e-mail para o falecom@webjet.com.br,
informando o localizador e número de RIB, para que possamos verificar o
ocorrido”. Traduzindo: “continue trabalhando para nós, trouxa”. Preferi ignorar
e aguardar os acontecimentos. Na terça pedi notícias por email à loja. Fui
informada que João havia entrado de férias e que ainda não havia notícias do
rastro da mala. Nesta mesma tarde – vejam que sintonia - recebi uma ligação em
que perguntavam quando poderiam entregar minha mala. Pelo que pude entender era
a moça da primeira loja, de onde a dita cuja nunca havia saído e se mantinha
alheia ao drama que protagonizava e aqui descrevo...
Assim teria terminado a novela não fosse o ato
final da Brasil Malas, a que havia vindo buscar a original, nem primeira, nem
única. Quando ela chegou veio coberta por um camada de poeira, tipo de
rua. Muito suja. O puxador que motivou o desenrolar de metade da quase
novela desta praticamente indescritível aventura que é voar pela Web Jet, não é
mais o mesmo, substituído por um genérico, com um shape bastante diferente do
tragicamente danificado, com menos possibilidades de regulagem. A fixação não
ficou exatamente encaixada, o que deixa um vão de alguns milímetros perfeito
para enganchar objetos em momentos de confusão aeroviária. Em contrapartida
colocaram uma ponteira de zíper no fecho que estava faltando. Cansada, aceitei
a entrega. Tudo ficaria bem se o rapaz não me pedisse para assinar um termo que
terminava assim: ”...razão pela qual dou pena quitação a MALA BRASIL Comércio e
Serviços para nada mais pedir ou reclamar em juízo ou fora dele a esse
respeito”. Fiquei com a mala abalada, mas não assinei o termo.
A vida é assim, o momento em que vivemos: as
eleições. Aqui e aí localizo os mesmos elementos: vítimas, algozes, ações e
alguma possibilidade de reação. Dessa, que nunca devemos desistir! Falta uma
semana...
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora
de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM.
delcueto.cia@gmail.com

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