A flora aflora
Texto e foto de Valéria del Cueto
Vou começar pelo fim: Vote. Vote assim, da melhor
maneira que puder. Não desista, insista e saiba: que não será o único a votar
por convicção e a certeza de escolher o melhor. É a sua hora!
O mundo estava virado de cabeça para baixo. Andando
ao contrário. Aliás, se estivesse só parado estaria tudo bem. Sabe tempo de
subtração? Em que por mais que se respire pausadamente, mansamente, a sensação
é a de que até o não movimento teria o poder de sacudir levemente a asa da
borboleta, aquela capaz de alterar radicalmente o desenrolar e o sentido dos
acontecimentos?
Minha nossa! Gripe é previsível com esse tempo
maluco. Distensão é possível, os músculos e nervos das costas, na linha da
coluna, já estavam uma rede mal
trançada. Bastou um espirro para acabar de embolar.
A descoberta de manchas e fungos nas lentes da
câmera fotográfica, uma hipótese cuidadosamente evitada no antigo apartamento,
tornou-se realidade na casa nova. E deu geral! Meio em confusão, a decisão
tomada teve reflexos insanos (nome do energético vendido pelas webjetetes nos
vôos áereos). Ela, a decisão, foi de mandar todas as lentes para serem limpas
em São Paulo. Mas precisava ser ao mesmo tempo? Pois foi desafiando a Lei de
Murphy, que deu adeus ao equipamento achando que era uma boa ocasião para
“descansar” o olhar. É claro que ninguém podia imaginar que a greve dos
Correios cruzaria o caminho e faria piquetes na entrega da encomenda.
Então, foi assim que, com o espaço externo
restrito, já que não estava nada agradável lá fora, com um vento danado de
gelado, descabelante e desgovernado, que se dedicou a olhar a vida da janela,
quase uma alma, de tantas imagens passavam pela sua esquina.
Falei em imagens? Ops... A primeira vista podia
parecer uma eterna rotina: o carro da UPP, com seus guardinhas e as luzes do
giroscópio piscando incessantes, noite adentro. O vai e vem das motocicletas,
pilotadas pelos boys e seus passageiros. O sobe-desce de gente: moradores,
turistas, visitantes e hóspedes em direção ao Chapéu Mangueira e a Babilônia,
no Leme. Tudo isso acontecendo lá no chão, no pé da ladeira, entre os carros
parados em fila dupla nos ex-canteiros do meio da rua, sombreada por árvores
enormes, que alcançam a altura de vários andares dos prédios que as cercam.
Olhando à frente a parte baixa das copas das
árvores forma desenhos, como rendas, na enorme quantidade de janelas dos
apartamentos vizinhos, onde a vida se desenrola, ou não. Voltando a rua, seu
movimento e as inúmeras variações
possíveis de acontecimentos nesse cenário, dá para ver que tudo - carros, calçadas e asfalto - está coberto por
uma camada grossa da poeira, resultado do encontro das águas que ocorreu nas
últimas chuvas e deixou no trecho resíduos de lama e esgoto que afloraram,
secam e se transformam, qual casulo/borboleta, num mal que aflige a todo o
entorno.
Aqui, não se enxuga gelo, como diz o ditado. Se
enxuga a lama e o esgoto, que viram poeira empesteando o ar e/ou entopem os
bueiros, já deixando o cenário pronto para a próxima chuvarada. É rua cheia e o
encontro das águas, nossa mais nova atração turística na certa.
E é no meio dela, quando tudo parece meio cinzento
que suas cores límpidas se destacam. Abusadas, as orquídeas penduradas nos
troncos das antigas árvores que sombreiam a pequena rua pelos porteiros e
garagistas e diligentemente cuidadas durante o ano todo, explodem em tons de
lilás e branco num determinado período do ano. É agora! Basta tirar os olhos do
chão, e da poeira de lama para elas sorrirem pra você balançando ao vento para
chamarem sua atenção para o ritual do renascimento, da regeneração.
Como seu voto, único e intransferível, capaz de
mudar o destino da sua cidade, as orquídeas são joias raras que têm o
poder transformador dos milagres, que só
a gente, que planta e vota, pode fazer!
*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora
de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme” do SEM FIM.
delcueto.cia@gmail.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário