A mala que abala
- o diz a lenda -
Texto e foto de Valéria del Cueto
Na sexta feira retrasada, estava rabiscando a
crônica dominical, “Assalto ao Alto” e, pensava ingenuamente, estar dando por finalizada
a prova da gincana “a mala vai para o conserto” ali citada.
Enquanto escrevia as palavras “Antes da publicação
desse registro... a mala estará no abrigo do meu lar”, diante dos meus
irrequietos pensamentos - sempre mais velozes que a esferográfica - dançava o
velho termo cinematográfico familiar, o “diz
a lenda”. Ele é uma brincadeira utilizada quando temos uma informação e
muito pouca, quiçá nenhuma certeza, de que algo vá se concretizar ou se tornar
uma verdade. Quando o termo já estava fazendo piruetas e coreografias da Dança
do Passinho diante dos meus olhos, cansei de resistir e anexei as fatídicas três palavrinhas querendo
dar um ar engraçadinho ao meio da frase final sobre o episódio da mala
danificada. “Afinal, o que mais poderá acontecer?”, pensei otimista na ocasião.
Mal sabia eu, ser descrente da poderosa capacidade
intrínseca e mediúnica de prevenção daquelas célebres peripécias lei de
Murphianas, que perseguem os puros de espírito, porém destinados a toda sorte,
seja ela boa ou má... (Afinal, sem estas aventuras, o que seria dos anos dessas
crônicas praticamente interruptas? Um tédio ou o paraíso.) No momento, por
exemplo, estamos num processo kafkaniano. Enquanto lá, no original homem vira
barata, aqui, se transforma em mala. É, por que na Web Jet, malas andam, se
escondem, se disfarçam e se atrasam. Quase vivas, com vontade própria.
A minha tinha que chegar na sexta, mas esta passou
sem notícias da devolução da que não estava sem alça, mas com esta danificada. No
sábado, perto do meio dia, o telefone toca: será a mala!?
“Estou ligando para saber qual o endereço para
entrega da bagagem”, diz a mocinha simpática. “No mesmo lugar em que a
buscaram”, respondo sem captar que estava embarcando na nave mãe desgovernada e
querendo não ser jornalista, repórter e, modéstia à parte, muito boa de
dedução. O desastre se delineava. “Impossível”, retruca, “nós a buscamos no
aeroporto”. Ci-la-da, ci-la-da, ci-la-da piscava a luz da porta do endereço que
passei sem querer discutir e desliguei.
A tranquilidade durou apenas alguns minutos do, até
então, muito agradável dia da sábado. O telefone de novo. “Alô, dona Maria, um
momento que seu João, o dono da loja, vai
falar”, avisa a mesma moça. “Estamos com sua mala para arrumar. Qual é problema
com ela?”, quer saber João. “Como assim?” indago espantada. ”Mostrei o problema
do puxador quebrado para o funcionário que veio buscar a bagagem aqui em casa”,
explico, jogando a rede sem saber o que viria no arrastão. “Estes não fomos
nós, a mala foi entregue para a Rei das Malas no aeroporto”, explica ele,
começando mais uma etapa da “Incrível história da mala, etc, etc..”
O pensamento que galopava na cancha reta de que
havia dado meu endereço para um desconhecido no telefone acaba sendo alcançado
pelo argumento lógico de que só a Web Jet poderia ter fornecido meu contato.
Grande coisa, se levarmos em consideração
que da loja me dizem que isso acontece quando a bagagem é entregue a
qualquer lugar, qualificado ou não para fazer o serviço e acaba indo para lá.
Neste ponto já havia localizado o comprovante que
consolidava a confusão ao comprovar que esta loja, a Brasil do recibo que tinha
em mãos, não era a Rei com que falava. Todas das Malas. Enquanto falava chequei
que telefone da primeira não recebia chamadas e o email retornava avisando que
a caixa estava “over quote”. “Não faz mal”,
raciocinei, “a mala está em boas mãos”.
Durou pouco a minha alegria. Até João
voltar à vaca fria e insistir em saber qual era o problema da bagagem e eu
citar a quase moída do punho do puxador. A coisa embolou quando o João fez
aquela célebre e odiada pergunta: “Tem certeza? Sua mala é verde?” A cor era
essa, mas havia algo errado. A mala que estava lá, não tinha um puxador.
*Valéria del Cueto é jornalista,
cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano”
do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

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