Texto
e foto de Valéria del Cueto
Estava
indo, mas acabei ficando por que o tempo está virando de novo. Será praga de
madrinha esse janeiro carioca, totalmente encharcado? São Pedro parece decidido
a fazer uma lavagem geral, pra entrar na era de Aquário livre de impurezas.
E nós
aqui, valorizando os guarda-chuvas e as capas impermeáveis, evitando os sapatos
delicados e pedindo a Deus proteção para as chapinhas e escovas.
Esse, na
verdade, não é o meu caso particular, adepta que sou da liberdade e da
selvageria da minha cabeleira. Quanto mais molhado, maltratado e salgado, mais
bonito ficam meus, agora, longos e rebeldes cachos. A mulherada em geral está
sofrendo horrores!
A chuva
abunda e prejudica o dia-a-dia da cidade, provocando a revolta dos moradores
que sentem na carne a ineficiência dos órgãos públicos e o agravamento gradual
do que a propaganda oficial diz que está sendo melhorado. Será nosso dinheiro
jogado fora que entope os bueiros e provoca alagamentos cada vez mais intensos
e rigorosos na cidade maravilhosa?
Sei
não... só sei que os camelôs acabam se dando bem e as sombrinhas com imagens de
pontos turísticos do Rio, como o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e o bom,
velho e, agora, inoperante Maracanã passeiam sobre as cabeças que tentam se
protegerem da água que Deus nos manda com abundância e intermitência nas
últimas semanas.
O
aguaceiro afeta a vida, mas não a interrompe. Alguns hábitos se transformam,
outros sobrevivem e superam as intempéries ignorando a molhação.
Rodei,
arrodeei, mas sei onde quero chegar, igual a essa chuva persistente de
pancadonas e pancadinhas.
Semana
passada, matei o ensaio técnico das escolas de samba na Sapucaí no sábado –
estava chovendo(!), mas não fugi da raia no domingo, dia de São Sebastião
e da lavagem do Sambódromo pelas
maravilhosas baianas cariocas. A cada ano, o cortejo fica maior e mais
emocionante!
Lá fui
eu, com meu kit “pode cair o mundo”, rezando pra que os deuses do samba e do
carnaval protegessem ao menos meu equipamento. Fotografia é assim, um vício
delicioso em que a gente procura registrar de um jeito diferente o que está
ali, pra todo mundo ver.
Os
atabaques nem precisaram soar e o céu já estava caindo, desafiando os
fotógrafos a protegerem seus equipamentos, ou arriscarem suas lentes, naquela
que pode ser a foto derradeira. Quando os tambores firmaram descia água a
vontade.
Corri
pra onde todo mundo correu e, é claro, não havia proteção pra tanta gente.
Voltei pra baixo d’água, conformada com minha sina de pinto molhado e temendo
que a festa fosse prejudicada.
Foi
quando ouvi. Um canto. O canto. De todos! Sem amplificação, só do coração. Das
milhares de almas que estavam ali. Se sentindo abençoadas e fazendo questão
absoluta de manifestarem por meio dos sambas entoados, a fé na manifestação
religiosa que ali acontecia.
Larguei
de mão todos os meus medos, o receio de perder minha única câmera fotográfica,
a que usarei durante o carnaval que se aproxima. Se, ali, cada um representava
seu papel, o meu era de registrar aquela sintonia celestial. E se havia - e há
– a famosa proteção, as bênçãos dos meus santos me guiariam pela tempestade,
afinariam meu olhar e dariam passagem para as imagens emocionantes que
refletiam na pista alagada da Avenida do desfile principal, a Marquês de
Sapucaí.
E assim aconteceu
com quem, com fé e oração, se deixou levar pelas águas purificantes de São
Sebastião...
*Valéria
del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte
da série “É Carnaval”, do SEM FIM...
delcueto.cia@gmail.com

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